sábado, 4 de abril de 2026

Ressurreição e Missão



“Então o lobo morará com o cordeiro” (Isaias 11.6) 

Há uma crença equivocada na Doutrina da Ressurreição. Entre os cristãos atuais transita uma idéia de ressurreição que não há base na Teologia Bíblica da Igreja Antiga. Na verdade a Ressurreição foi a motivação para a proclamação do evangelho durante os primeiros séculos. Paulo e os outros apóstolos pregavam “Cristo e a Ressurreição”. 

A mensagem evangélica era que o “Cristo morrera, mas ressuscitara”. Esta mensagem dava outro “tom” e outra “cor” ao anúncio da igreja. Com o passar dos séculos, Jesus não voltando (pois todos criam que sua volta era iminente), a pregação da igreja deixou de acentuar “Novos Céus e Nova Terra” para falar de uma salvação apenas celestial, paradisíaca somente para as almas crentes. 

A partir da diluição do conteúdo da mensagem, a missão foi sendo enfraquecida também, pois aquilo que antes era a grande notícia de nova vida e nova criação, que seria reconstituída, agora apenas se pregava uma mensagem que dava aos habitantes do mundo uma pobre salvação, isto é, apenas “alma se salvaria”. A idéia era de algo imaterial apenas, muitas vezes abstrata e etérea. 

Porém a salvação que Cristo vem nos trazer tem a ver com o resgate da vida em todo o seu sentido. É a transformação final de um sistema decadente para uma nova perspectiva física, material, gloriosa e eterna. Isso não envolve apenas o ser humano, mas sim tudo que o envolve: as vidas animal, mineral e vegetal. 

Aí então a missão faria sentido. Nosso problema com a evangelização é de que o que se prega, prega-se algo parcial e muitas vezes nebuloso e confuso. A mensagem da Fé Cristã é de que a Ressurreição de Nosso Senhor promove a esperança de que tudo será restaurado fisicamente, miraculosamente e eternamente. Por isso carecemos urgentemente de retornarmos a prática dos primeiros séculos. 

Precisamos de uma missão ecológica: Ora, se o Universo (cosmo) será refeito em Cristo, retornaremos a condição de um novo Universo. Isso tem a ver como nós tratamos o meio ambiente, como entendemos a ecologia, como domesticamos os nossos animais, como nos alimentamos, e como vivemos dentro deste sistema falido. Os cristãos deveriam ser os primeiros a possuírem políticas de vida a partir de uma forte teologia ecológica. 

Precisamos de uma missão política: Ora, se este sistema que aí está, é falido, a proposta dos cristãos é de um novo governo, sob a política teocrática: “Cristo é o Senhor”. Haveria de fato uma proposta de um novo Reino, sob as premissas de um novo Senhor. Isso com certeza produziria uma reação em cadeia do sistema satânico estabelecido. Foi também por isso que muitos cristãos eram martirizados. A igreja jamais será perseguida se não dizer “não” ao sistema político estabelecido. Precisamos de uma teologia política. 

Precisamos de uma missão social: Ora, se o ser humano em sua plenitude (corpo, alma, espírito) habitarão o novo estado de coisas, a missão deve ser a reconstrução de sua dignidade, personalidade e sociedade. Os cristãos deveriam ser os primeiros a estabelecerem escolas, hospitais, creches, orfanatos, casas-de-passagem e tudo que fosse necessário para a reconstrução do ser humano. O dinheiro e os bens deles deveriam primar por isso. 

Contudo ainda os cristãos precisam entender a ressurreição de Cristo e suas conseqüências. Enquanto isto não se der, estaremos a passos largos caminhando para a secularização da igreja e conseqüentemente para a “mundanização da mente” dos discípulos que se arvoram em afirmar que são de Cristo. Que Ele seja nossa luz a fim de aceitarmos as demandas de seu discipulado rumo a nova realidade eterna. 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

PREPARAÇÃO PARA A CELEBRAÇÃO DA PÁSCOA II

Sequência da última semana de Jesus

A Quinta-feira - Última Ceia e prisão

• Preparação da Páscoa:
o Mateus 26:17–19
o Marcos 14:12–16
o Lucas 22:7–13

• Última Ceia:
o Mateus 26:20–29
o Marcos 14:17–25
o Lucas 22:14–23
o João 13

• Discurso final (no cenáculo):
o João 14–17

• Getsêmani (oração):
o Mateus 26:36–46
o Marcos 14:32–42
o Lucas 22:39–46

• Prisão de Jesus:
o Mateus 26:47–56
o Marcos 14:43–52
o Lucas 22:47–53
o João 18:1–11

Lavar os pés com uma toalha e uma bacia nas mãos. A disposição mental de Jesus para amar, sempre esteve muito bem definida em sua existência. Desde a eternidade, o Filho sempre existiu na relação do amor-serviço a Deus-Pai. Porém, ao desembarcar nesta terra, revelou de modo prático para que os homens pudessem perceber quem é Deus.

Ao refletir sobre os eventos da última quinta feira, somente conseguimos espelhar lampejos do amor de Deus se vencemos, dentro de nós, o obstáculo da nossa "ego-latria", a nossa própria condição, de nos auto-cultuar.

Quando a ceia terminou, Jesus tomou uma toalha e uma bacia nas mãos e começou lavar os pés de seus de seus discípulos. É impressionante. Abdicar da condição de Senhor e passar à condição de um servo ou escravo é reflexo de uma consciência pacífica: "Mais bem-aventurado é dar do que receber".

Porém, "lavar os pés e enxugar-lhos é também permitir que a sujeira destes pés respingue em nosso rosto e nas nossas vestimentas". Quantas vezes o Senhor recebeu os respingos de nossa sujeira? Mas ele decretou: "Se eu não te lavar, não tens parte comigo".

Entretanto Pedro, retruca: "De modo nenhum!" O que Jesus responde: "Pedro, tu nada entendeste até agora. Não me bajule, aceite! Tu farás isso muitas vezes com outros. A bajulação é evidência do coração vaidoso que quer tirar vantagem ao que é bajulado. Pedro tem que se resignar à sua condição de "nada".

Não há hipótese, o caminho está traçado e o exemplo dado. Só podemos amar a Deus e servi-lo, se o fazemos aos outros, a lavar-lhes a sujeira, deixando respingá-las em nós. "Se eu sou Senhor e Mestre e vos fiz, vós deveis também lavar os pés uns dos outros". Assim podereis viver ao meu lado, eternamente. Já tomamos a toalha e a bacia em nossas mãos?

quarta-feira, 1 de abril de 2026

PREPARAÇÃO PARA A CELEBRAÇÃO DA PÁSCOA

Sequência da última semana de Jesus

A Quarta-feira: Conspiração e traição

Plano para matar Jesus:
o Mateus 26:1–5
o Marcos 14:1–2
o Lucas 22:1–2
Judas Iscariotes combina traição:
o Mateus 26:14–16
o Marcos 14:10–11
o Lucas 22:3–6
Unção em Betânia:
o Mateus 26:6–13
o Marcos 14:3–9
o João 12:1–8

A traição nunca virá de um inimigo, mas sempre daquele que se faz amigo e acolhedor. Judas Iscariotes embora tendo sido chamado a ser discípulo e ainda que tenha sido nomeado a ser tesoureiro do grupo mais íntimo de Jesus, não chegou a perceber o Reino de Deus e o tratou como um reino de homens. Iscariotes deixou-se influenciar pela ideologia nacionalista que esperava um Messias político e triunfante, segundo o modelo humano. Foi levado pela idolatria da avareza, quando questionava o porque de gastar com os desfavorecidos. 

Iscariotes deixou-se dominar pelos líderes institucionais que manipulavam o povo com oratória e eloquência dos sermões maravilhosos e se punia por não conseguir ser mais do que era: um simples homem. Ele queria mais! Por isso traiu, foi comprado pela ilusão de ser bem quisto pelos que estão no poder de julgar. Judas traiu não somente o "sangue inocente", mas desprezou o Senhor que lhe deu vida. A portanto, amargou e amargurou, pois mesmo depois de ter traído Jesus, ouviu da boca dEle: "A que viestes, amigo"? 

Embora, possamos dizer, de maneira banal: "tudo isto estava profetizado", a personagem de Iscariotes nos remete ao nosso coração, quando refletimos: "quantas vezes, todos os dias, traímos ao filho de Deus, ao nos submetermos aos valores e à ética desta sociedade e ao nos deixamos manipular mentalmente pelos desejos incontroláveis da carne"? Quantas vezes usamos nossos "amigos" e não os amamos? Somos todos "tipos" de Iscariotes. Entretanto, Judas não teve melhor sorte. 

Todavia, hoje, ao olharmos para traz, temos o perdão, se de facto nos arrependemos e buscamos o Senhor de todo nosso coração. Digamos: Senhor, tem misericórdia de mim, pecador!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Abrindo a porta do curral das ovelhas

“Aquele, porém, que entra pela porta é o pastor das ovelhas. A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz”. (João 10.2-4)

Na metáfora que Jesus faz do pastor e suas ovelhas, há um porteiro que administra o curral destas. Para que as ovelhas saiam dele é necessário que o porteiro, que vê o Pastor chegar, abra a porta e assim permita que elas saiam para junto dEle. O porteiro pode ser identificado como a igreja visível, guardiã deste curral. A ela, cabe abrir a porta. A igreja é o Corpo de Cristo, dotada de dons e ministérios e capacitada pelo Espírito Santo. Ela deve estar consciente em obedecer o Pastor.

Mas abrir a porta do curral não é uma tarefa simples. Parece, mas não é, porque na maioria das vezes, o porteiro, que é a Igreja, pode pensar que o curral pertence a ele, bem como as ovelhas. E ele deve discernir quem é aquele que vem chegando, se é o verdadeiro Pastor ou o mercenário. 

As ovelhas não pertencem ao porteiro, elas são do Pastor. Abrir a porta do curral a um mercenário que parece com o Pastor significa entregá-las ao engano e à morte. Os mercenários são caracterizados pelo falso ensino, à ideologia política e pelo consumismo da fé. O mercenário e o falso pastor usam os milagres e pregam como se fossem o Pastor, que já possui uma promessa a estes que procuram usá-las com o objetivo de satisfazer o egoísmo e alimentar avareza, para obterem lucro.

Abrir a porta do curral é permitir que elas possam descansar em pastos verdejantes junto de seu Pastor (Salmo 23). Um dos serviços mais importantes da igreja e especialmente de seus líderes é distinguir o Pastor do ladrão. A igreja, que é o porteiro, tem a tarefa de ser uma facilitadora para que outros se encontrem com Jesus de Nazaré.

Portanto, abrir a porta é vencer o desejo da aparência, da exposição e da vaidade que tende obscurecer a visão da igreja confundindo o mercenário com o Pastor, sentindo-se proprietária eclesiástica das ovelhas. Se nós soubermos fazer o serviço de modo fiel, cumprir-se-á a profecia que diz: “haverá um só rebanho e um só pastor”.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

LIBERALIDADE: OFERTA E PARTILHA


A história do Antigo Testamento nos conta que o dízimo e as ofertas somente foram regulamentados após a libertação do povo de Israel do Egito por meio de Moisés. Esta regulamentação foi necessária para gerir as questões sociais daquela nação. Entretanto, numa perspectiva mais primitiva, esta prática se desenvolveu a partir da Aliança entre Abrão e Jahweh. Como descendentes deste Patriarca, a Aliança seria respondida pelos israelitas em fidelidade, gratidão e reconhecimento.

Tomando essa realidade como exemplo em nossos dias, toda a espiritualidade passa também pela maneira como administramos a vida, os planos, bens e valores. Como vemos tanta gente inconstante e dividida, em rotatividade de igreja em igreja, sem objetivo em suas vidas vivem a transitar entre entre denominações e a religiosidade. A avareza inconsciente revela a doença dos corações.

Quantos não vivem em condições de cativeiro - escravos do dinheiro, do consumismo? São prisioneiros da infelicidade, não conseguem submeterem-se a líderes, causando divisões e conflitos nas igrejas, ou já são líderes, mas são condutores infiéis que só pensam em dinheiro. Vivemos num cenário de vaidade e a espiritualidade é apenas uma utopia, porque não está encarnada na vida. Vivemos a “ilha da fantasia religiosa do século XXI”!

Quando se crê nas Escrituras - Antigo e Novo Testamentos - admite-se princípios que devem ser levados em consideração como balizas do relacionamento com Deus. Foi assim com Israel e foi assim com a igreja primitiva. As ofertas, bem como a partilha foram métodos que os Apóstolos padronizaram a fim de que os primeiros cristãos ajustassem a espiritualidade à prática da vida pessoal e comunitária. Estes meios materiais não eram um fim em si mesmos, mas instrumentos para os disciplinar quanto à vida cristã. 

O dízimo que era ligado ao oferecimento, ao sacrifício e ao altar era parte do culto na Antiga Aliança, agora no Novo Testamento tomava a forma de gratidão, como oferta a Deus. As ofertas e a partilha eram respostas que os cristãos davam às necessidades daqueles que viviam em condição de precariedade. Por isso a partilha, sinal de contribuição, deveria existir entre eles, para que soubessem dividir o que tinham para a sobrevivência de todos. Por isso a fé é percebida na vida comunitária, sobretudo.

Portanto o dízimo, a oferta e a partilha só pode existir quando o fazemos pela fé. São expressões de uma vida coletiva e solidária. Deus não precisa do dinheiro e dos bens dos crentes. 

Notas sobre a vida contemplativa (#6,7)

«Senhor, que só Te deixas ver pelos corações puros (cf Mt 5,8), eu procuro, na leitura e na meditação, encontrar a verdadeira pureza do coração e a forma de a obter, a fim de, graças a ela, Te conhecer, por pouco que seja. Procurei o teu rosto, Senhor, procurei o teu rosto (cf Sl 26,8). Meditei muito dentro do meu coração, e um fogo se iluminou na minha meditação: o desejo de Te conhecer melhor. Quando partes para mim o pão da Sagrada Escritura, reconheço-Te nessa fração de pão (cf Lc 24,30-35); e quanto melhor Te conheço, mais desejo conhecer-Te, não só no sentido do texto, mas no sabor da experiência.

Não o peço, Senhor, pelos meus méritos, mas por causa da tua misericórdia. Devo confessar que sou realmente pecador e indigno, mas "também é verdade que os cachorrinhos comem debaixo da mesa as migalhas das crianças". Dá-me portanto, Senhor, em fiança pela herança futura, ao menos uma gota da chuva celeste para refrescar a minha sede, pois estou sequioso de amor». [...]

Guigues, o Cartuxo (1083-1136)
prior da Grande Cartuxa

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

A tentação de Jesus e a nossa

Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, um que, à nossa semelhança, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Hebreus 4:15.


Até nascermos de novo, o único tipo de tentação que compreendemos é a mencionada por S. Tiago: "Cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência". Mas, pela regeneração, somos elevados a outro reino, onde há outras tentações a enfrentar, a saber, o tipo de tentações que Nosso Senhor enfrentou. As tentações de Jesus não nos atraem, não têm lugar nenhum na nossa natureza humana. As tentações de Nosso Senhor e as nossas movem-se em esferas diferentes até nascermos de novo e nos tornarmos Seus irmãos. As tentações de Jesus não são as de um homem, mas as tentações de Deus como Homem. Pela regeneração, o Filho de Deus é formado em nós, e na nossa vida física Ele tem o mesmo ambiente que teve na Terra. Satanás não nos tenta a fazer coisas erradas; Ele tenta-nos para nos fazer perder o que Deus colocou em nós pela regeneração, a saber, a possibilidade de sermos valiosos para Deus. Ele não vem com a intenção de nos tentar a pecar, mas sim de mudar o ponto de vista, e só o Espírito de Deus pode detetar isso como uma tentação do diabo.


Tentação significa o teste, por um poder estranho, das posses de uma personalidade. Isto torna a tentação de Nosso Senhor explicável. Depois de Jesus, no Seu batismo, ter aceite a vocação de levar o pecado do mundo, foi imediatamente colocado pelo Espírito de Deus na máquina de testes do diabo; mas Ele não se cansou. Passou pela tentação "sem pecado" e manteve intactas as posses da Sua personalidade.


Chambers, Oswald. 1986. O meu máximo para o máximo dele: Selecções do ano. Grand Rapids, MI: Oswald Chambers Publications; Marshall Pickering.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Teologia Viva

Andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos apanhem. João 12:35.

Cuidado para não agir de acordo com o que você vê em seus momentos no monte com Deus. Se você não obedecer à luz, ela se transformará em trevas. "Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes são tais trevas!" No segundo em que você desiste da questão da santificação ou de qualquer outra coisa sobre a qual Deus lhe deu luz, você começa a ter podridão seca em sua vida espiritual. Traga continuamente a verdade à realidade; trabalhe-a em todos os domínios, ou a própria luz que você tem se mostrará uma maldição.

A pessoa mais difícil de lidar é aquela que tem a satisfação presunçosa de uma experiência à qual pode se referir, mas que não a está colocando em prática na vida prática. Se você diz que é santificado, demonstre isso. A experiência deve ser tão genuína que seja demonstrada na vida. Cuidado com qualquer crença que o torne autoindulgente; ela veio do abismo, não importa quão bonita pareça. A teologia deve se desenvolver nas relações mais práticas. "A menos que a vossa justiça exceda a dos escribas e fariseus...", disse Nosso Senhor, ou seja, você deve ser mais moral do que o ser mais moral que conhece. Você pode saber tudo sobre a doutrina da santificação, mas está aplicando isso às questões práticas da sua vida? Cada detalhe da nossa vida, física, moral e espiritual, deve ser julgado pelo padrão da Expiação.

Chambers, Oswald. 1986. Tudo para Ele

sábado, 24 de maio de 2025

O QUE TENS NA TUA MÃO?

Então o Senhor lhe perguntou: "Que é isso em sua mão?” "Uma vara", respondeu ele. (Êxodo 4.2)

Muitos falam de Deus e afirmam que O servem. Servir a Deus é servir ao próximo, ao nosso semelhante. Quando definimos assim, muitos se desculpam dizendo que não tem tempo para servir. Outros dizem que nunca foram capacitados para isso. Há uma grande diferença entre "não ter tempo" e não "ter interesse" e logo concluímos que ambas as expressões são sinónimas.

A Bíblia nos conta a respeito de Moisés, o grande libertador do povo israelita do cativeiro egípcio. O chamado divino foi rechaçado, no primeiro momento, pelo Profeta através de inúmeras desculpas, mas ao ser perguntado por Deus o que Moisés trazia nas mãos, ele afirmou: “apenas uma vara”. 

Entretanto, foi com apenas um pedaço de madeira que Moisés, simbolicamente, se utilizou para livrar o povo de Israel. Apenas um pedaço de pau que capacitou Moisés e o lembrava que das coisas pequenas é que se poderia fazer coisas grandes, todas a vezes que ele o usava,  durante sua jornada no deserto. Assim mesmo, hoje, Deus em sua graça nos deu de Seu Espírito e nos capacitou unindo talentos, dons, criatividade, inteligência, vitalidade, energias, vontade, percepção para servirmos nosso semelhante. 

O que você está fazendo com tudo o que Deus lhe deu? Jamais podemos usar nossos dons e talentos para nosso próprio proveito ou para nossa vanglória. Alguém que é tocado profundamente pelo Seu Espírito possui outro foco e alvo. O que você está fazendo com o que Ele está lhe concedendo? Está usando apenas para você? Está utilizando apenas como meio-de-vida? Pois a grande diferença está quando nos utilizamos de tudo que Ele nos concede e usamos em prol de nosso próximo, para sua edificação e nos motivamos a glorificar a Cristo Nosso Senhor.

O que Deus está colocando nas tuas mãos?

sexta-feira, 11 de abril de 2025

SEMANA SANTA: O CANTO DO SERVO SOFREDOR

A Igreja Antiga da época Patrística aprendeu a investigar o Antigo Testamento escrito em grego (conhecido por Septuginta) a buscar as profecias relacionadas com Cristo, o Messias dos judeus e encontrou além de uma variedade de textos, quatro momentos no livro do profeta Isaias que foi denominado de "os quatro cantos do Servo sofredor". 

Os concílios eclesiásticos, motivados pela tradição da igreja organizaram um calendário em que se vivenciava os episódios da história da salvação a fim de disciplinar a vida dos cristãos. Quarenta dias antes da Páscoa Cristã ) a igreja se revestia de uma espiritualidade punjante, lembrando, orando, refletindo sobre o que foi a encarnação de Deus, sua vida sofredora entre nós, sua descida humilhante, abdicando de Sua glória e vivendo como nós, esvaziando-se de si mesmo, tornando um "escravo", como bem o apóstolo Paulo declara em Filipenses 2.5-11, e toda sua angústia, no jardim do Getsêmani, e então posterior traição, julgamento, sentença, tortura e morte.

O primeiro texto de Isaias que a Igreja cantava está no capítulo 42.1-9:

"Eis o meu servo, a quem sustento, o meu escolhido, em quem tenho prazer. Porei nele o meu Espírito, e ele trará justiça às nações. Não gritará nem clamará, nem erguerá a voz nas ruas. Não quebrará o caniço rachado, e não apagará o pavio fumegante. Com fidelidade fará justiça; não mostrará fraqueza nem se deixará ferir, até que estabeleça a justiça sobre a terra. Em sua lei as ilhas porão sua esperança. "É o que diz Deus, o Senhor, aquele que criou o céu e o estendeu, que espalhou a terra e tudo o que dela procede, que dá fôlego aos seus moradores e vida aos que andam nela: "Eu, o Senhor, o chamei em retidão; segurarei firme a sua mão. Eu o guardarei e farei de você um mediador para o povo e uma luz para os gentios, para abrir os olhos aos cegos, para libertar da prisão os cativos e para livrar do calabouço os que habitam na escuridão. "Eu sou o Senhor; esse é o meu nome! Não darei a outro a minha glória nem a imagens o meu louvor. Vejam! As profecias antigas aconteceram, e novas eu anuncio; antes de surgirem, eu as declaro a vocês".

A igreja cristã olhava para o Servo (o Messias) com os olhos do Deus da Graça. Sua escolha como "aquele que possui o Espírito de Deus e que estabelecerá a Justiça no meio das nações". E como Jesus Cristo de fato assim fêz, não fazia de sua vida e de seus milagres o seu "marketing pessoal". Sabia que o ser humano era como um caniço rachado, mas nem por isso pisava nele a fim de quebrá-lo de vez. Via as gentes como um pavio que estava quase se apagando, mas nem por isso o apagava, por que ainda via que havia fogo suficiente para incendiar uma floresta.

Nosso Senhor, o servo sofredor não vacilou nem se desacorçoou. Ele mesmo dizia a respeito de sua intenção em estar entre nós. "Ninguém me tira a vida, eu a espontaneamente a dou". Diante de sua sentença já decretada em seu nascimento, Jesus foi silente e determinado. Não correu, nem conseguiu um substituto para não sofrer por gente fétida e imunda.

Ele abriu os olhos dos cegos, não meramente curando-os de cegueira física, mas livrando-os da cegueira da "não-fé". Abriu os olhos de todos aqueles que queriam enxergar além da visão física, além do legalismo, além da vida biológica.

Nosso Senhor libertou muitos cativos. Cativos, não por que eram escravos de um sistema social espúrio, mas porque eram escravos de si mesmos, enjaulados em suas dores, em seus traumas e suas próprias esquizofrenias por não se autoconhecerem como plenamente humanos. Por isso dizia a alguns: Ninguém podia ver o reino de Deus, se não nascesse do "Alto", onde na verdade isso nada mais era que encontrar-se com o "Alto" dentro de si mesmo, por meio de uma experiência muito maior que a simploriedade racional.

A igreja cristã dos primeiros séculos soube encontrar o alimento da alma, por que não apenas lia as Escrituras mas contemplava aquele que está além das Escrituras. A igreja pós-moderna perdeu a contemplatividade, desencaminhou-se pela racionalidade, deixou de alimentar a sua alma com o "pão do céu". Esqueceu a simplicidade e abandonou o exemplo de "serva" do "servo". Não fala mais em doação, não caminha mais ao lado do "servo sofredor".

sexta-feira, 7 de março de 2025

Retrato de Mulher

O maior pecado após a desobediência do homem a Deus, foi a subjugação do ser humano que dele foi tirado. Assim, quando foram expulsos do paraíso terrestre, o homem não mais via a mulher como "osso de seus ossos", mas uma concorrente em potencial. A subjugação da mulher e do feminino na história é prova de que o macho jamais conheceu a Deus em sua plenitude e pela força decretou a opressão sobre aquela a quem ele deveria aprender a amar e torná-la uma parceira-em-igual. Agora a mulher não seria mais a que caminharia ao seu lado, mas que iria ficar sob o ataque e a opulência deste ser inseguro e violento, características próprias daquele que está distante de Deus. 

Entretanto, qual o melhor retrato que podemos guardar de uma mulher num tempo de tantas confusões de ideologias filosóficas? Não é fácil pensar num retrato feminino, senão envolto pelos movimentos de liberalização, de conflito, ou dos direitos feministas. Para isso teríamos que nos esforçar para pensar em questões de carinho, delicadeza, bondade, graça, afago, abraço, romance, afabilidade, amabilidade, cortesia, sorriso, força, determinação e tantos outros adjetivos quando o Deus Soberano criou este ser. Sim, foi Deus que colocou tudo isso e muito mais neste dócil ser humano-feminino. De facto, ele não economizou estas características na mulher.

Entretanto, desde os tempos modernos até agora, os movimentos contemporâneos acabaram por transformar Deus num ser tão masculinizado e tirano que mancharam o seu retrato. E não só isso, a cada dia que passa, em contrapartida, a mulher, dominada pelas ideologias feministas, acaba por desviar-se de sua natureza original comportando-se e negando suas qualidades, esquecendo-se de que somente em Cristo é possível ser plena, completa e verdadeira.

A insanidade do feminismo matou o feminino dentro da feminilidade da mulher. Sem dúvida, qualquer que tenha um "insight" do Deus verdadeiro, jamais poderá deixar de compreender que Ele também possui um "coração de mulher", com todos os atributos que a ela foram transmitidos. Portanto, não podemos deixar de ensinar que só as mulheres criadas em Cristo Jesus, por graça e misericórdia Deus, podem ser imagem de Deus retratada por este ser humano tão forte e tão belo, que fez o coração de Maria louvar: “A minha alma engrandece ao Senhor, E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, pois atentou na humildade de sua serva". (Lc 1:46-48). 

Feliz Dia Internacional da Mulher.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

VOCÊ JÁ SE ALIMENTOU HOJE?


“O homem é criado para oração, assim como ele é criado para falar e pensar”. (Tito Colliander)

Nós não temos ideia sobre a necessidade de nossa alma. Somos altamente rudes quando o assunto é espiritualidade e comunhão com o Divino. A frase acima, quer mostrar que da mesma maneira que temos necessidade de falar, pensar, andar, comer, beber, descansar... também temos a necessidade de orar.

Como muitos pensam erroneamente sobre a oração, ela não se baseia apenas em uma conversa com Deus. É muito mais do que isso! Ela envolve muito mais do que fonemas ou palavras que ditamos a Deus racionalmente. É um encontro misterioso numa dimensão imaterial, com o Deus invisível. A oração faz parte das necessidades básicas de qualquer pessoa e nossa alma não se alimenta de palavras, e sim, da experiência com os mistérios de Deus.

A alimentação e o descanso são indispensáveis para sustentar a vida física. A sabedoria, a arte e a cultura, de um modo geral, enriquecem as qualidades da alma de uma pessoa. Mas só a oração revela numa pessoa o seu lado mais profundo de sua natureza espiritual.

Deus ama a Sua criação, ama a cada um de nós e Ele é o nosso Pai celeste. Tal como é natural dos filhos, o desejo de ver os seus pais e conversar com eles, assim, deve ser natural para nós, nos comunicar com Deus. A alma que se junta com Deus durante a oração, se junta também com o mundo espiritual.

Segundo as palavras de João de Kronstad, a oração é a ligação de ouro da pessoa cristã, peregrina e estrangeira aqui na terra com o mundo espiritual do qual faz parte e sobretudo com Deus - a fonte da vida.

A oração mais simples e sincera é aquela que se aprende na intimidade do coração. Assim como você come e bebe para manter seu corpo sadio, você deve se alimentar da oração todo dia e em todo momento. Sem isso, ficamos raquíticos espiritualmente e tornamo-nos vulneráveis a qualquer enfermidade espiritual e sujeitos ao nosso coração tão inconstante e acabamos por ser viver uma vida de derrota espiritual.

Hoje, faça uma reavaliação de sua alimentação espiritual. O que e como você está se alimentando? Não basta apenas beber o leite de nossa infância espiritual. Se alimente da seiva para sua maturidade espiritua. Peça ao Senhor incessantemente: "Senhor, dá-nos o pão da vida".

sábado, 30 de março de 2024

As consequências da ressurreição de Cristo

Várias mensagens e pregadores tratam da ressurreição de Cristo como a sua grande vitória sobre a morte. Outras espiritualizam este evento a dizer que assim como Cristo venceu a morte, devemos também receber a vitória sobre as adversidades e tempestades da vida. Outras ainda, trazem a lembrança de que embora Cristo tenha ressuscitado, Ele abriu caminho para um renascimento espiritual e algumas trazem a ideia de que a páscoa é apenas a festa judaica sem conotações com o Cristianismo. A páscoa cristã que envolve a ressurreição de Nosso Senhor vai muito mais além.

Embora a Páscoa seja historicamente uma festa judaica, foi nesta que Jesus de Nazaré cumpriu a justiça de Deus e revelou-nos o “Mistério Pascal”. Seguindo o ensino dos Apóstolos e dos Pais da igreja, a fé cristã se fundamenta na morte e na ressurreição do Senhor. Eles sempre proclamaram e ensinaram que Jesus Cristo, morreu e ressuscitou e ampliaram o evento histórico, trazendo até nós as suas consequências.

Afinal, quais são as consequências espirituais, doutrinárias e universais da ressurreição?

Em primeiro lugar, sendo a ressurreição um evento físico, significa que Cristo está ressuscitado corporalmente e glorificado nos mais altos céus e irá retornar para inaugurar o seu reino eterno, físico e real como prometeu aos seus discípulos a dizer: "E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai" (Mt26:29).

Em segundo lugar, a ressurreição de Cristo permitirá que todos ressuscitem em seus próprios corpos. Ele afirma: "Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz e os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação (Jo5:28,29). E ainda o apóstolo S. João afirma: "amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos. (1Jo3:2). Retornaremos a viver a vida em nossos corpos porque Cristo ressuscitou.

Em terceiro lugar, o céu é um estado intermediário. As almas dos que já morreram, aguardam em louvor e adoração. Quando o Senhor voltar, reunirá estas almas aos seus corpos, miraculosamente. Os que fizeram o bem estarão para sempre com Senhor físicamente. O apóstolo S. Paulo nos diz: "...os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. Porque o mesmo Senhor descerá do céu [...] e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. (1 Ts 4:15-17)

Em quarto lugar, haverá o retorno à sua criação original. Quando em Adão todos perderam a imortalidade e eternidade, agora em Cristo, não somente o corpo obterá a eternidade plena, mas também toda a criação será restaurada participando da natureza divina. S. Paulo nos afirma: "Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada. Porque a ardente expectativa da criação espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque ela ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a mesma criação será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora. E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo". (Rm8:18-23)

Portanto há esperança. Renovemos nossa fé. Esperemos Aquele dia quando tudo isso vier a acontecer. Essas são as verdades sobre a ressurreição. Qualquer outra mensagem menor ou diferente desta empobrecerá a mensagem da salvação e consequentemente o desvio da verdade. 

quarta-feira, 27 de março de 2024

Tu não sabes o quanto eu amo-te

Tu não sabes quanto eu amo-te. O momento em que tu pensas que percebes é o momento em que não percebes. Eu sou Deus e não homem. Tu falas aos outros a meu respeito: diz que eu sou um Deus amoroso. Tuas palavras são conversa-fiada. 

Minhas palavras estão escritas no sangue do meu Filho. Quando tu vieres a mim com estudado profissionalismo, exporei teu amadorismo grosseiro. Quando tentares convencer outros de que sabes do que está a falar, irei mandar-te calar a boca e cair de cara no chão. Tu dizes que sabes que te amo: Tu sabias que cada vez que me dizes que me ama eu digo: obrigado? 

Tu alegas saber o que compartilhamos quando Jesus retirou-se para um lugar deserto e passou a noite na encosta de uma colina comigo? Tu sabes de onde veio a inspiração de lavar-os-pés dos doze discípulos? Tu entendes que, motivado apenas pelo amor, teu Deus tornou-se teu escravo no Cenáculo? Tu te ressentes da ordem divina dada a Abraão de oferecer seu único filho Isaque no monte Moriá? Tu sentes alívio quando o anjo intervém, a mão de Abraão é detida e o sacrifício não é levado a cabo? 

Tu te esqueceste que naquela sexta-feira-santa nenhum anjo interveio? O sacrifício foi levado a cabo e o meu coração foi partido. Tu tens a consciência de que eu tive de ressuscitar meu Filho dos mortos na manhã de Páscoa porque meu amor é eterno? Tu estás também seguro suficientemente de que eu também o ressuscitarei, meu filho-adotivo? 

(O evangelho maltrapilho, Brennan Manning)

terça-feira, 26 de março de 2024

CAIFÁS e JESUS DE NAZARÉ

"Algo terrível aconteceu a Caifás. A religião abandonou o domínio do respeito pela pessoa. Para Caifás o sagrado tornou-se instituições, estruturas e abstrações. Ele dedica-se ao povo, de modo que indivíduos de carne e osso são dispensáveis. Caifás dedica-se à nação. Mas a nação não sangra como Jesus. Ele dedica-se ao Templo — impessoais cimento e pedras. Caifás tornou-se impessoal ele mesmo, não mais um ser humano caloroso, mas um robô, tão rígido e inflexível quanto seu mundo imutável. 

A escolha normalmente apresentada aos cristãos não é entre Jesus e Barrabás. Ninguém quer se identificar com quem é tão obviamente um assassino. A escolha com a qual temos de ser cuidadosos é entre Jesus e Caifás. E Caifás nos engana. Ele é um homem muito "religioso". O espírito de Caifás é mantido vivo em todos os séculos nos burocratas religiosos que condenam sem hesitação gente boa que quebrou leis religiosas ruins. Sempre por uma boa razão, é claro: pelo bem do templo, pelo bem da igreja. Quanta gente sincera já foi banida da comunidade cristã por religiosos ávidos de poder com um espírito tão entorpecido quanto o de Caifás? 

O espírito embotador da hipocrisia vive nos clérigos e políticos que desejam ter uma boa imagem sem serem de facto bons; vive nas pessoas que preferem entregar o controle das suas vidas a regras a correr o risco de viver em união com Jesus”. 

O evangelho maltrapilho. p. 66

terça-feira, 19 de março de 2024

A DEFINIÇÃO DE UM HOMEM SANTO

1. A Santidade é o hábito de ser de um mesmo parecer com Deus, segundo a descrição que encontramos na Bíblia, a Sua Palavra. Representa o costume de estar de acordo com Deus em Seu juízo, aborrecer o que O aborrece, amar o que Ele ama e medir tudo no mundo com a norma da Sua Palavra.

2. O homem santo se esforçará para evitar TODO o pecado conhecido e guardar cada um dos mandamentos revelados. Terá uma decidida disposição mental para Deus, um desejo sincero de fazer a sua vontade, um medo maior de desagradar a Ele do que desagradar ao mundo.

3. O homem santo lutará para ser igual ao nosso Senhor Jesus Cristo.

4. O homem santo seguirá a mansidão, a resignação, a bondade, a paciência, a disposição amável e o domínio de sua língua. Suportará muito, tolerará muito, passará muito por alto e será lento para falar de afirmar os seus direitos.

5. O homem santo seguirá a temperança e a abnegação. Esforçar-se-á em fazer morrer os desejos do seu corpo, crucificará a sua natureza desumana com os seus afetos e inclinações, porá freio às suas paixões, reprimirá as suas tendências carnais.

6. O homem santo esforçar-se-á por fazer cumprir a regra de ouro, que consiste em fazer aquilo que gostaria que o próximo lhe fizesse.

7. O homem santo seguirá uma atitude misericordiosa e benevolente para com os demais.

8. O homem santo seguirá o temor do Senhor. (Este temor é o temor do filho que ama tanto o Pai que não quer decepcioná-lo).

9. O homem santo seguirá a humildade. Desejará com atitude modesta considerar todos os demais como superiores a ele mesmo. Verá mais maldade em seu próprio coração que em nenhum outro no mundo.

10. O homem santo seguirá a fidelidade, concernente a todos os deveres e relações da vida. Homens santos deveriam colocar como meta: fazer o bem, sentir vergonha quando se permite realizar algo de maneira errada. Deveriam esforçar-se por serem bons maridos, bons pais e bons filhos, bons empregadores e bons empregados, bons vizinhos, bons súditos, bons em privado, bons em público, bons no lugar de trabalho, bons no lar.

11. O homem santo esforçar-se-á por ter seus olhos completamente postos em coisas do alto, aspirará por viver como alguém que tem um tesouro na eternidade e por passar por este mundo como um estrangeiro e peregrino que viaja para o seu lar. Aspirará por ter comunhão com Deus em oração, na Bíblia, na reunião do seu povo. Estas coisas serão o principal deleite do homem santo. Valorizará cada coisa, cada lugar, cada companhia, segundo a medida em que os mesmos o aproximem mais de Deus.

J.C. Ryle (Bispo Anglicano)

sábado, 16 de março de 2024

Que Jesus é Este?

Jesus não anunciou a vinda do Reino com armas nas mãos. Não feriu — curou. Não decretou a luta de classes, nem promoveu guerra santa em nome de qualquer libertação social. Não veio para dominar, mas para servir. Rejeitou todo tipo de poder opressor, renunciou à violência, denunciou a manipulação das pessoas e combateu a coação. Não se alinhou a grupos sociais, partidos políticos ou sistemas religiosos.

Jesus é revolucionário no sentido mais verdadeiro e radical da palavra. Ele revoluciona pelo modo de pensar, falar e agir. Sua maneira de ser nos transforma de dentro para fora, recolocando em seu devido lugar nossas estruturas políticas, econômicas, sociais, culturais e religiosas — tantas vezes marcadas pela injustiça, opressão e desumanização.

Ele confronta a falsa religião que oprime: aquela que produz discípulos em série, que se curva ao consumismo ou sufoca a liberdade de pensar. Indigna-se contra a religião que cria relações parasitárias, alimenta disputas denominacionais e promove um messianismo coercitivo.

Jesus veio romper com essas forças. Veio humanizar o que foi desumanizado. Quanto mais nos aproximamos dEle, mais somos alcançados pela graça de Deus. Enquanto estruturas religiosas de poder excluem faltosos e pecadores, Ele acolhe, transforma e converte, libertando o ser humano para aprender a servir — como Ele serviu.

Mas não nos enganemos: não há conversão a Ele sem entrega plena e incondicional. Somente a mensagem da cruz e da ressurreição dá sentido à vida daqueles que, sinceramente, desejam conhecê-lo.

Esse é Jesus. Fora dEle, restam caricaturas — e delas já estamos cansados. São sombras que amedrontam e escravizam a humanidade.

 

Rev. Luiz AC Bueno


sábado, 2 de março de 2024

VOCÊ NÃO DEVE SER CRISTÃO

Rejeite o cristianismo por cinismo, se você quiser. Dê as costas a ele por acreditar que a Realidade é maligna e punitiva. Escolha um deus que é caprichoso, vingador e descuidado ou determinado a colocar o homem no seu lugar, se um deus assim é mais do seu agrado. 

Se não é capaz de aceitar a idéia de que o amor está no cerne do universo, esse é um direito seu. Se não crê que o Absoluto deseja apaixonadamente ser nosso amigo, então fique, por favor, à vontade para rejeitar essa noção aparentemente absurda. 

Se não crê que possuímos entusiasmo, força, coragem e criatividade necessários para amar uns aos outros como amigos, então jogue depressa essa idéia na lixeira. E se você acha ridículo crer que a vida triunfará sobre a morte, então não perca tempo com o Cristianismo, por que você não pode ser um verdadeiro cristão se não acreditar nisso. (Brennan Manning)

Francisco de Assis e nós

Desconfia das pedras e ama os pássaros...ensina a tua alma amiga a gostar dos ventos, vive profunda indefesamente a ciência da esperança. Ela é fiel e a mais lúcida de tuas irmãs, ela vive a medida da desmedida e ousa contemplar o segredo do tempo. 

Ensina a teus passos a caminhar nos sonhos quando vier a hora definitiva, estarás mais próxima. Não temas a proximidade da morte, guarda a tua emoção como louvor à grandeza da vida. Quando vês um pobre, ele te julga, tu te julgas, Deus te julga. É a hora da misericórdia. A bondade, esta fecunda a imensa existência na qual a vida chega a se abraçar com a morte a fim de vencê-la. 

Só te inclines diante de Deus, ou diante de alguém que sofra, o resto é idolatria...

Estamos na travessia, sofre e alegra-te com a inquietação das águas. Admira a beleza do mar e não sejas bobo em pedir às vagas e espumas a quietude de um porto. Vives o tempo da coragem, a música do risco. 

Teu sangue nas veias ignora o que seja a imobilidade e por isso vives. E essa é a mais fiel imagem do Infinito e Ardente Cristal. O tempo assiste a luta entre o afeto e o medo. O tempo te desafia, clamando: abraça-me ou adormece. 

Amar, único verbo sereno a mover-se, sobre a certeza da eternidade. (Francisco de Assis)

A IGREJA DE CRISTO É MAIOR DO QUE VOCÊ PENSA

A igreja é muito, mas muito maior do que pensamos ou já vimos com seus próprios olhos. A igreja não depende do seu tamanho, vigor espiritual, se ela possui um culto mais ou menos formal, se nele oramos de joelhos ou em pé, se há uma liturgia aberta ou fechada, se a igreja tem muito dinheiro ou não, se é conhecida ou não. 

A igreja é maior do que imaginamos, não por causa de qualquer estratégia humana, mas tão somente por causa da graça de Deus que salva e abriga milhões e milhões de pessoas que sinceramente compreendem-se como alvo do amor incondiconal de Deus e de sua eterna misericórdia.

Por isso, a igreja é maior do que pensamos. Segundo Jesus, ela não é formada pelos fariseus do século XXI, dos coronéis eclesiásticos e dos líderes religiosos que perderam-se na frivolidade, no desejo de serem célebres, que criaram seus guetos denominacionais, que construiram seus castelos feudais. 

Esta igreja, a verdadeira, acolhe os inacolhíveis, ama os mal-amados, abraça os inabraçáveis. A igreja é tão grande porque o Espírito Santo que, como o vento, sopra onde quer e não sabemos de onde vem e nem para onde vai, é quem distribui a graça inefável. Esta igreja, o Corpo de Cristo, está escondido dentro da própria igreja visível, e abraça os que desejam ser filhos de Deus. 

A igreja que não conhecemos visivelmente busca os filhos indesejados e os irmãos que já foram "eliminados" do rol de tantas comunidades espalhadas neste mundo. Esta igreja é formada por "mulheres samaritanas" que desejam conhecer o Messias enviado como Salvador do mundo, por leprosos, curados de suas chagas emocionais que sequer poderiam transitar em alguns dos templos atuais. 

Essa igreja é formada pelos que usam as mesmas sandálias do Senhor, geralmente estão assentados nos últimos bancos. Esta igreja está espalhada pelo mundo inteiro. São os que se acham indignos de adorar a Deus porque pensam que não correpondem ao padrão do sistema religioso da época. Essa igreja que talvez não conhecemos, sabe muito bem que a graça não é somente para alguns, mas pode ser de todo aquele que se fizer indigno diante de Deus. Foi para isso que Jesus veio, para salvar os que se acham indignos e perdidos, acolhendo o que o sistema já eliminou, mas que para Cristo são uma pérola de grande valor.

AUTOCONFIANÇA

"Olhais para as coisas segundo a aparência. Se alguém confia de si mesmo que é de Cristo, pense outra vez isto consigo mesmo..." (2ª Corintios 10.7). 

Ser de Cristo não é uma tese que defendemos, nem uma frase de efeito que repetimos para nós e para outros. Mas é o culminar de uma luta interior, travada dentro de nós, resultado da perseverança pessoal, na mortificação da natureza falida e miserável, alimentando virtudes eternas, impercetível para o ser humano natural e para a lógica filosófica.

Devemos estar tão seguros de nossa fé, quanto segura for a nossa determinação de lutar contra os males que vivem dentro de nós. A luta interior jamais acaba enquanto estivermos cá e somente terá o seu coroamento no encontro eterno com Cristo, se com paciência lutarmos.

Enquanto estivermos cá, estaremos sempre vulneráveis por palavras e imagens, propagandas falsas, oratórias inebriantes que querem nos levar a acreditar que somos salvos sem nos preocuparmos com o que fazemos em nosso dia-a-dia e em nossa conduta diante do próximo. As palavras entorpecem, da mesma forma como uma bebida forte pode levar-nos a embriaguez.

Por isso, devemos pensar inúmeras vezes se nossa segurança está fundamentada em livros, comentários ou mesmo nos pregadores atuais e sempre nos avaliar pessoalmente porque podemos dar mais valor ao tempo decorrido de nosso batismo até hoje, sem que alguma mudança tenha sido operada para melhor dentro de nós. De nada irá resolver se tivermos esperado mais nestas coisas do que em nosso combate interior.

Vivemos saturados de informações, mas elas não irão nos conduzir aos braços de Cristo, nem mesmo se ouvirmos bons sermões. Estes não tem poder para isso. Esses elementos podem ser ferramentas a nosso favor uma vez que o Espírito Santo se utilize delas, mas se o nosso coração não for marcado pela luta interior, estaremos eternamente nos braços das trevas.

Portanto, necessitamos descer de nosso pedestal, curvarmos nosso pescoço, envergarmos a nossa coluna e clamarmos constantemente: "Tenha piedade de mim, Senhor, por que sou um pecador". Este é o segredo para que não vivamos enganados pelo nosso próprio coração. 

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Reflexão no dia da comemoração da Reforma Protestante do séc. XVI

Hoje lembramos da Reforma Protestante. Há especificamente 506 anos o Padre e Monge alemão Martinho Lutero, fixava as 95 teses contra as indulgências da Igreja Católica Romana. Nossa fé, reformada é herdeira desse movimento de volta à Bíblia, que varreu a Europa nos séculos posteriores, trazendo nova esperança e vigor espirituais, mas que parou e se estagnou principalmente nos nossos dias. 

Precisamos novamente da Reforma, agora, como avivamento, um despertamento da alma e do espírito, na busca do que chamamos de revolução quietista e silenciosa, que tem no coração a fonte de tudo. Essa Reforma deve extirpar a ânsia pelos shows-gospel, a confissão positiva, o tradicionalismo ignorante, a mera religiosidade, a verborragia e os jargões evangélicos, mas também a apatia, a carnalidade e a infantilidade espiritual, o desejo incontrolável pela aparência das redes sociais. 

Devemos novamente fazer renascer a fé simples, isenta de pompas e circunstâncias, dos rebuscamentos de cultos e eventos igrejeiros, onde se ensaia e se canta muito, mas onde se adora pouco. Necessitamos de homens e mulheres que voltem a ler a mesma Bíblia que Lutero e os reformadores leram. Devemos fazer da oração nosso pão cotidiano. Precisamos de pais e mães que voltem a ler a Bíblia com seus filhos e prepará-los para enfrentar esse mundo tenebroso, amoral, agnóstico, ateu, humanista e ególatra.

Os dias não são fáceis, mas nós podemos facilitá-los e descomplicá-los quando não nos deixamos dominar pela vaidade e pelo egocentrismo que exige atenção. Quando naõ quisermos ter mais do que podemos e estivermos convencidos que será na paciência que seremos salvos. 

Voltemos a clamar a Deus em família e não permitamos que a sociedade instrua nossos filhos por meio de uma pedagogia cultural marxista e consumista. Sim, precisamos de uma nova Reforma, urgente, porque a fé sincera está escoando pelas nossas mãos. Clamemos ao Senhor incessantemente: “Converte-nos ó Deus, faze resplandecer o teu rosto e seremos salvos” (Salmo 81.3). 

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Uma advertência por zelo de amor

«E quisera Deus que a vossa alma estivesse no lugar da minha! Também eu vos consolaria com as minhas palavras e levantaria a cabeça sobre vós. A minha boca fortalecer-vos-ia e eu moveria os lábios para vos poupar» (Job 16.5-6). 

Por vezes, perante espíritos injustos que não se deixam reorientar pela pregação dos homens, é necessário desejar-lhes, com toda a bondade, as pragas de Deus. Porque, quando chegamos a isso pelo zêlo de um grande amor, não é certamente um castigo que pedimos para os transviados, mas uma advertência; o que assim exprimimos não é uma maldição, mas uma oração.

Note-se que Job não diz: «E quisera Deus que a minha alma estivesse no lugar da vossa!»; pois, se quisesse ser como eles, estaria a amaldiçoar-se a si próprio. O que ele queria era a elevação daqueles a quem tinha desejado um destino semelhante ao seu. Ora, nós consolamos os espíritos injustos no meio da sua flagelação quando lhes fazemos ver que os golpes exteriores reforçam a sua salvação interior; levantamos a cabeça quando orientamos o seu espírito, que é a parte mestra do nosso ser, para a compaixão; e fortalecemo-los quando sublinhamos a violência da sua dor com a suavidade das nossas palavras.

De facto, há homens que, por estarem fechados à vida interior, se veem abatidos até ao desespero pelos golpes do mundo exterior, o que leva o salmista a dizer: «Não resistirão à desgraça» (Sl 139.11); porque só aquele que vai buscar a alegria à sua esperança interior é capaz de resistir aos males exteriores.

Gregório Magno (540-604). Doutor da Igreja. Livro XIII

segunda-feira, 17 de julho de 2023

O sacrifício que agrada a Deus

Congregai os meus santos, aqueles que fizeram comigo um pacto com sacrifícios. (…) Oferece a Deus sacrifício de louvor e paga os teus votos ao Altíssimo. Invoca-me no dia da angústia, eu te livrarei e tu me glorificarás". Salmo 50.5,14,15

O Salmo 50 é um poema de Asafe, um levita do tempo do Rei Davi que cuidava dos louvores no Templo de Jerusalém. Ninguém melhor do que ele para saber e ensinar sobre o que é louvar e conduzir os sacerdotes a adoração. Certamente o Senhor se agrada quando oferecemos louvores a Ele. Porém o que Asafe nos revela aqui é que louvor, para ser verdadeiro, deve conter algumas atitudes pessoais e coletivas.

Primeiro, o que Asafe nos diz é que Deus somente aceita o louvor daquele que aceitou fazer um Pacto de sacrifício. Na verdade nenhum de nós é capaz de sacrificar-se, a não ser o próprio Filho de Deus. Ele foi o sacerdote e o sacrifício por todos aqueles que em fé no Seu sacrifício, O buscam de coração. Este sacrifício não é nosso, mas sim de Cristo que nos substituiu, condenado em nosso lugar, ofereceu-se ao Pai em nosso lugar. De nós, apenas podemos por meio da fé nEle entregarmo-nos como oferta incondicional de nossa vida. 

Nosso sacrifício de adoração é o sacrifício-oferta de nosso Senhor. Por causa disso podemos e devemos nos oferecer a ele não por obrigação legal mas por gratidão amorosa. As nossas ações agora, são ações de obediência prazerosa. Contudo, o Senhor não aceita o sacrifício de louvor de alguém que embora afirme sua fé Nele, viva como um descrente.

Segundo, para que o sacrifício de louvor seja aceito por Deus é necessário cumprir os votos que cada um fez ao Senhor. Votos são promessas que fazemos a Deus. Sim, promessa é uma palavra empenhada, é a expressão verbal do que vai no coração. O Senhor nos adverte: melhor é não fazer votos, contudo se o fizer, pague-os. E para lembrar, os primeiros votos que fazemos são o voto do Batismo e da Profissão de fé. Neles, afirmamos que estamos sinceramente arrependidos do mal que temos praticado e que desejamos viver entregando cada segundo de nossa vida ao Senhor, santificando-nos e buscando em primeiro a justiça do Reino de Deus. Poderíamos enumerar uma série de votos que fazemos ao Senhor desde o momento da participação da Ceia do Senhor como, e até, todas as vezes que em oração estamos nos consagrando ao Senhor ou cantando um hino a dizer que queremos servi-lo para sempre. 

Para que isso aconteça é necessário que desenvolvamos o que chamamos de discplinas espirituais, pois elas nos auxiliam a desenvolver a nossa salvação (Ef 2.12). O Espírito Santo nos supre com as mais variadas discplinas espirituais:  o tempo de devoção em oração todos os dias, a presença em cultos de adoração comunitária, a participação dos sacramentos entre outros. 

Lembremos que nossa natureza é inconstante, fraca, suscetível a erros. Fazer votos a Deus significa também evitar a maledicência, do perjuro, o julgamento temerário, a fofoca, a murmuração, o convívio com os impiedosos, os negócios escusos, as palavras de baixo calão. Nosso sacrifício de louvor é aceito quando renovamo-nos espiritualemnte, todos os dias e sob a graça de Deus podemos e devemos ser melhores e mais parecidos com o Senhor do que os dias que já se passaram. 

Terceiro, o sacrifício de louvor é recebido pelo Senhor, quando buscamos a vida de oração constante. O Senhor diz: invoca-me no dia da angustia, eu te livrarei e tu me glorificarás. Invocar significa buscá-lo em oração. É in-vocare, isto é chamar para dentro de nosso coração a presença do Espírito Santo. Mas não devemos esquecer de fazer um trabalho de limpeza constante. O que é isso? É o esvaziamento de nós mesmos, de toda sujeira que retemos no dia-a-dia. Precisamos nos esvaziar da vaidade pessoal, do vitimismo, da prepotência intelectual e social. Sem esse esvaziamento, o Senhor não pode viver dentro de nós, ou mesmo tomar todos os cômodos de nosso coração. Quando O invocamos, ele promete que no dia da angústia Ele nos livrará. Portanto, o Senhor afirma que isso redundará em glorificação a Ele: Tu me glorificarás.

Portanto, nosso sacrifício de louvor terá sentido. Do contrário, o que faremos em particular e nos cultos comunitários será apenas muita cantoria. Canta-se muito, ensaia-se muito para depois cantar mais, Porém louvamos pouco. Nosso cantar não pode ser um canto comum, como se canta qualquer música popular. Sem o verdadeiro sacrifício, não há glorificação. Glorifiquemos o Senhor e respondamos ao seu pacto, cumpramos nossos votos e invoquemos Seu nome. Assim nosso louvor será como o dos anjos que cantam no mais altos Céus.  









A quem o Reino de Deus pertence?

O reino de Deus pertence a pessoas que não tentam fazer gênero, nem impressionar alguém, muito menos a elas mesmas. Elas não estão a planear o que podem fazer para chamar atenção para si mesmas, não se preocupam com a forma a como os seus atos são interpretados ou perguntam-se se ganharão mais likes pelas suas postagens em aplicações. 

Vinte séculos depois, Jesus fala ao fundamentalista presunçoso preso ao narcisismo fatal do perfeccionismo espiritual, àqueles de nós pegos em flagrante, a vangloriarmo-nos de nossas vitórias no campo da espiritualidade, àqueles de nós que choramingam e pavoneiam suas fraquezas humanas e defeitos de caráter. 

Não temos de lutar para alcançar uma posição de onde poderemos nos relacionar favoravelmente com Deus, não temos de projetar modos engenhosos de explicar a nossa posição para Jesus, não temos que criar um rosto aceitável para nós mesmos, não temos de atingir qualquer estado de sentimento espiritual ou de compreensão intelectual. 

Tudo e tão somente, temos de aceitar com alegria a Dádiva do Reino, Sua graça e Seu amor inextinguível.

 (adaptado de: "O evangelho maltrapilho")

Fé e obras: marcas do verdadeiro discípulo de Jesus

Vários que dominicalmente vão às igrejas, vivem por adiar seu compromisso com Deus. Muitos que procuram por Deus, não desejam se render a Sua autoridade. Quando o Senhor Jesus Cristo convida a todos a seguí-lo, lembra que a obediência não é opcional e que a fé do verdadeiro discípulo não é uma fé fácil. 

Há um custo pelo discipulado e consequentemente pela vida eterna. Atualmente, qualquer que se declare cristão, poderá afirmar sua profissão de fé sem considerar o seu compromisso. Muitos crêem que estão salvos, que viverão eternamente nas moradas celestiais, todavia vivem completamente estéreis, por que continuam adiando seu compromisso com Cristo, ou seja, com o discipulado que envolve aprender a submeter-se a outros, praticar a resignação em comunidade e viver sob princípios de um liderança pastoral e espiritual. 

Jesus nos afirma que nenhuma experiência de fé pode ser tomada como evidência de salvação se estiver separada de uma vida de obediência a Ele. Somos encorajados a examinar a nós mesmos frequentemente. Cada árvore é conhecida pelo seu fruto. A evidência da atuação do Espírito Santo em alguém é o fruto inevitável de um comportamento em transformação em que se vive a buscar as virtudes que Nosso Senhor expressou enquanto aqui viveu: compreensão, aceitação, resignação, não-violência verbal, paciência, paz com as pessoas, domínio próprio, gentileza, cordialidade, linguagem sadia, doação aos outros, submissão. Onde há também ausência da prática da verdadeira justiça e a presença do jeitinho nas negociações pessoais, do famoso chico-esperto, onde o ego quer levar vantagem em tudo, tais pessoas ainda vivem sua impiedade distantes da vida eterna, mesmo que afirmem verbalmente que estão salvas.

A salvação não é somente um ato. É um processo em andamento que depende de uma decisão. Não é possível receber a Cristo como Salvador e rejeitá-lo como Senhor. Com toda certeza “o Senhor não irá salvar aqueles em quem Ele não pode mandar” (A.W. T.). Mas todo discipulado começa com uma decisão. É o ponto de partida e não o ponto de chegada. 

Há uma idéia equivocada sobre a fé o discipulado em Jesus. Ele nos afirma que a chamada do Calvário tem que ser vista pelo que realmente é, um convite. Ser um cristão de verdade é atendê-la de corpo e alma. Qualquer coisa menos que isso é incredulidade. Mas esta caminhada nos custa um esforço e um planeamento. S. Paulo nos diz que a verdadeira Graça nos ensina a renegar a impiedade e as paixões desse sistema mundano para que vivamos em piedade e em boas obras. A Graça não nos concede permissão para viver como queremos. Ela é inseparável do arrependimento, da rendição e da decisão de obedecer seus mandamentos. 

Hoje se fala muito em aceitar Cristo, um conceito que elimina a submissão, a rendição pessoal e o abandono do pecado deliberado, desvalorizando as obras como evidência de salvação eterna. Porém, o arrependimento está no âmago da Fé. As Escrituras igualam fé e obediência. Fé e obras jamais são incompatíveis. A verdadeira salvação, operada por Deus, nunca deixa de produzir frutos na vida de uma pessoa e através dela.

terça-feira, 6 de junho de 2023

QUAL A TUA COMENDA?

"não dando nós nenhum motivo de escândalo em coisa alguma, para que o ministério não seja censurado. Pelo contrário, em tudo recomendando-nos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, no saber, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, quer ofensivas, quer defensivas; por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama, como enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos e, entretanto, bem-conhecidos; como se estivéssemos morrendo e, contudo, eis que vivemos; como castigados, porém não mortos; entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo. 2 Coríntios 6:3-10. 

O apóstolo São Paulo como um servidor do evangelho em sua carta aos Coríntios, estava a se recomendar visto que alguns questionavam a sua autoridade apostólica. Ele então apresenta a sua "Comenda". É a sua apresentação e a sua carta de recomendação a eles.

Pensando em si mesmo, já parou para pensar quais são as suas Comendas? Em que você pode se auto-recomendar às pessoas que estão a sua volta? Qual é o seu curriculum vitae? O que referenda a sua vida como um cristão, um filho de Deus, uma testemunha de Cristo? 

Sua paciência e aflições passadas por Cristo lhe recomendam? O quanto de necessidade e angústia você já passou por Cristo homologam o seu testemunho? Seu sofrimento físico e emocional por causa de Cristo, seu trabalho e privação de comida e sono lhe recomendam como filho de Deus? Sua santidade e pureza ou mesmo seu conhecimento e paciência lhe recomendam como uma testemunha de Jesus, o Senhor? 

Seu amor sacrificial homologam a sua fé? Já chegou a ser confundido como um enganador ou forasteiro? Já passou pelo esgotamento emocional, já se deprimiu por amor a Cristo? Já perdeu seu dinheiro por amor a Ele? 

Lembre-se que o nível da fé é expresso em sua vida proporcionalmente em suas ações e estilo de vida. Nosso êxito deve ir além do político e socialmente corretos! Seu VERDADEIRO ÊXITO deve ser um paradoxo. Aos olhos dAquele que lhe conhece melhor que você mesmo, o que importa são ações e não discursos. Esse paradoxo está baseado na coragem de se gloriar em sua fraqueza. Porque quando somos fracos aos nossos olhos e aos de outros, então é que somos fortes. (2Co 12.9,10). 

Enfim, qual é a tua Comenda? 

VAMOS EM FRENTE!


quarta-feira, 26 de abril de 2023

O cristão e o não-cristão

O cristão e o não-cristão são absolutamente diferentes naquilo que admiram. O cristão admira o homem que é “pobre de espírito”, enquanto os filósofos gregos desprezavam tal homem, e todos que seguem a filosofia grega, seja intelectual ou praticamente, ainda fazem exatamente a mesma coisa. O mundo acredita na autoconfiança, na autoexpressão e na maestria da vida; o cristão acredita em ser “pobre de espírito”. Pegue os jornais e veja o tipo de pessoa que o mundo admira. Você nunca encontrará nada que esteja mais distante das bem-aventuranças do que aquilo que apela ao homem natural e ao homem do mundo. O que desperta sua admiração é a própria antítese do que você encontra aqui... 

Então, obviamente, eles devem ser diferentes naquilo que buscam. ‘Bem-aventurados os que têm fome e sede...’ Depois de quê? Riqueza, dinheiro, status, posição, publicidade? De jeito nenhum. 'de Justiça'. . . Pegue qualquer homem que não afirme ser um cristão... Descubra o que ele está procurando e o que ele realmente quer, e você verá que é sempre diferente disso. 

Então, é claro, eles são absolutamente diferentes naquilo que fazem. Isso segue por necessidade... O não-cristão é absolutamente consistente. Ele diz que vive para este mundo. 'Este', diz ele, 'é o único mundo, e vou tirar tudo o que puder dele.' Agora, o cristão... considera este mundo apenas como o caminho de entrada em algo vasto, eterno e glorioso. Toda a sua visão e ambição é diferente. Ele sente, portanto, que deve estar vivendo de uma maneira diferente. Como o homem do mundo é consistente, o cristão também deve ser consistente. Se for, será muito diferente do outro homem; ele não pode evitar. Veja o que nos diz 1ª Pedro 2:11, 12: “Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das paixões carnais que combatem contra a alma; tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no Dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem”. Outra diferença essencial é em sua crença sobre o que eles podem fazer. O homem do mundo está muito confiante quanto à sua própria capacidade. O cristão é um homem… que está verdadeiramente consciente de suas próprias limitações. D.Martin Lloyd Jones, Estudos no Sermão do Monte, 1, pp. 37-8. (tradução livre)


sábado, 4 de fevereiro de 2023

FRAUDE: UM SINTOMA DA FALTA DE TEMOR A DEUS

"O homem sanguinário e fraudulento é detestado pelo Senhor" (Salmo 5.7)

O sanguinário é o que costumeiramente conhecemos por assassino. Se o salmista somente ficasse neste adjetivo muitos poderiam se sentir aliviados, mas o Senhor vai além e afirma que o "fraudulento" também e da mesma forma é uma abominação ao Senhor. Ora, o fraudulento é o enganador. É aquele que frauda situações e pessoas. O que engana é um vilipendiador. Mostra-se amigo e solidário, mas usa a confiança depositada nele para tirar proveito de pessoas "inocentes". 

O fraudulento se faz amigo de outrem, usando-os com o objetivo de se "dar bem" ou mesmo ganhar vantagem sobre situações ou terceiros. Essas pessoas não são encontradas apenas na sociedade de consumo, mas sobretudo no âmbito religioso e especialmente entre os líderes religiosos. São aqueles que Nosso Senhor chama de "lobos" em peles de ovelhas. São os roubadores. Mas esses roubam dinheiro? Não apenas. Esses roubam a confiança, o relacionamento sincero, são os que roubam a própria fé dos que são enganados. 

Há o fraudulento genérico, onde eu e você nos encontramos. É verdade, pois cá ou acolá, no passado ou no presente devido a nossa miséria e natureza humanas já enganamos e nos enganamos. Já fraudamos pessoas em certos momentos, usamos aqueles que amávamos quando, motivados pelo nosso egoísmo, tiramos proveito de quem vive ou viveu ao nosso lado, fosse um cônjuge ou mesmo filhos e parentes. Devido ao nosso egoísmo, usamos pessoas e abusamos delas com a desculpa de que as amamos de verdade. Um excelente exemplo deste caso é de Jacó, filho de Isaque, neto de Abraão.

Mas há o fraudulento deliberado. Aquele que vive para defraudar. Toda a sua vida é marcada pela fraude, pelo engano e pela mentira. O seu objetivo é enganar. Mas todo fraudulento começa de modo genérico. O fraudulento deliberado o Senhor abomina e detesta. Isto é, Ele odeia! O tipo anterior, o Senhor prova e disciplina, e havendo arrependimento sincero e desejo de mudança, o Senhor restaura e perdoa. Mas o que vive da prática da fraude, não há salvação. O que vive para tirar vantagem de pessoas sempre será alvo da justiça vingativa de Deus, como o próprio apóstolo São Paulo escreve aos Tessalonicenses em sua primeira carta (4.6): "O Senhor é o vingador". 

Portanto, antes que façamos ou mesmo projectemos alguma ação, deveríamos cuidar de nossas motivações para que não nos tornemos alvos da vingança de Deus como manifestação de Sua justiça. Sim, Ele não é apenas amor, mas também justiça. 

E como isso deve proceder? Nenhum ser humano conseguirá agir com bondade própria sem que antes seu coração e sua alma estejam a ser dominados pela presença graciosa de Deus na pessoa do Espírito Santo. Portanto, qualquer um deve desenvolver um profundo senso de temor a Deus por meio da prática continua da oração interior. É a oração do Publicano como na parábola que nos conta o Senhor em Lucas 18.9-14. Sem a prática contínua desta oração poucos estarão conscientes de sua miséria espiritual. Lembremo-nos: "O sanguinário e fraudulento são detestados pelo Senhor". Confessemos nossa miséria e recebamos o perdão e mudança de nossos atos por meio da graça ou então permaneçamos como estamos a esperar a condenação eterna por causa de nosso coração miserável. 

Sobretudo, devemos aprender a "restituir" os que defraudamos, como no caso de Zaqueu (Lucas 19.1-10). A restituição da confiança através de atos públicos é o começo de uma nova vida. Não há mudança sem a confissão do coração e a confissão testemunhal. Uma não se faz sem a outra. Restituir é a busca de reconquistar o coração daqueles que nós usurpamos e enganamos. Sem isso, há apenas remorso patológico. Lembremos-nos do que Nosso Senhor falou aos fariseus que criticavam a prostituta que ungiu seus pés: "A quem muito ama, muito perdoa"!

sábado, 22 de outubro de 2022

PARA ALÉM DO CAMINHO VIVIDO PELO MONGE

Nestes dias de outubro, apesar da juventude estar a viver o Halloween, poucos ainda estão a refletir sobre os acontecimentos de 505 anos atrás que promoveram um dos movimentos mais contundentes da história da civilização ocidental - a Reforma Religiosa do século XVI. Sem dúvida, a angústia nos arraiais católicos romanos era insuportável devido às heresias e práticas exercidas pelo clero romano e o Sacro Império Romano era o agente das insanidades políticas e econômicas.

Em nossos dias, os movimentos cristãos que se autodenominam “detentores da verdade” estão em decadência como estava a igreja medieval na época de Lutero. Assim como antes, a religião continua a ser um “negócio rentável em nome de Deus”. As carências humanas continuam a ser inescrupulosamente exploradas. A fé continua voltada para o pragmático e utilitário. O que foi a igreja romana daquela época, em sua maioria, os movimentos cristãos atuais expressam a mesma característica: lida-se com um cristianismo paganizado com práticas esotéricas que são fruto de uma sociedade consumista. Sem falar que, devido a todas as experiências negativas do passado, a sociedade cada dia mais promete eliminar o cristianismo da Europa. Pouquíssimas pessoas estão conscientes de que a fé genuína pode ser vivida sem o domínio da religião institucional. A Europa cada dia mais vive um sistema pós-cristão, em todas as áreas: família, educação e política.

Na verdade, necessitamos sempre recorrer às Escrituras, não da mesma maneira como os reformadores recorreram já temos aceso ao livro, mas diante de tantas denominações com tanta fragmentação a Escritura tem sido desvalorizada como Palavra de Deus. Há tantas interpretações da Bíblia que muitos quando não são bibliólatras, são bibliófobos. Se dizemos que a Bíblia é a única regra de fé e prática então precisamos conhecê-la e obedecê-la como a verdadeira fonte de autoridade divina. Por isso devemos ir além donde Lutero começou. Não basta repetir ou postar nas redes sociais frases de efeito, cantar músicas de igreja e possuir uma ética conveniente europeia. Tudo isso está no nível do ordinário.

Precisamos fazer o caminho de volta ao Oriente. O Oriente foi o berço da fé cristã simples e sincera dos seis primeiros séculos da Era Cristã. A fé foi construída pela razão dos apologistas e pela piedade dos pais de oração. Hoje, extirpa-se a piedade e ignora-se a razão. A piedade tornou-se supérflua e a razão tornou-se racionalista. A Europa depois do movimento Iluminista do século XVIII nunca mais percebeu a fé e procurou entendê-la a partir de um humanismo racionalista. Com os movimentos  do seculo 18 e 19, Deus foi posto numa mesa de laboratório, dissecado e julgado pelos mortais. Por isso, precisamos fazer o caminho de volta à época dos primeiros cristãos

Precisamos fazer o caminho da piedade cristã. Piedade não é um modelo ou uma forma, mas o reencontro do coração com Deus. É a alma da fé. A piedade nos revela o ambiente de glória da Santíssima Trindade. Ela é o caráter divino de Cristo. É na piedade que percebemos como Deus é, transcendente e profundo. O movimento cristão tornou-se rebuscado e opulento. Assim era a vida da cúpula da igreja institucional na época de Lutero. A espiritualidade dela exige um aniquilamento da vida piedosa e enaltece o positivismo e a prosperidade, que não tem poupado nenhum púlpito, seja ele de linha histórica tradicionalista, neopentecostal ou mesmo liberal.

Precisamos fazer o caminho do Sacramento e do Sacerdócio da vida. Voltar ao Sacramento, porque o movimento cristão atual não somente deturpou e assassinou a Graça nos sinais e símbolos da fé, como também usa o Sacramento como fonte de lucro. Voltar ao sacerdócio da vida por que vivemos uma era egocêntrica e ególatra onde todos somente se põem a assistir o seu semelhante se obtiverem um retorno. Esse tipo de sacerdócio é conduzido por Mamon e este ainda vive dentro das igrejas.

Portanto, não basta ter a Bíblia e falar dela, não basta viver com ela nas mãos ou nos telemóveis. Ela não faz nenhum sentido, se não for acompanhada da vida de piedade, fé, oração, do sacramento, e do serviço e amor pelo semelhante. Urgentemente precisamos de uma reforma, banindo o cristianismo sectarista, mesquinho e hediondo. Precisamos fazer o caminho de volta às origens, ao próprio Jesus de Nazaré. Então poderemos dizer que estamos a peregrinar no caminho para Deus, indo além do caminho do monge Martinho Lutero.

sábado, 8 de outubro de 2022

POR UMA NOVA REFORMA, URGENTE

No dia 31 de outubro de 1517, um Monge e Padre da Ordem Agostiniana, chamado Martinho Lutero, fixou na Porta da Catedral de Wittemberg, na Alemanha, 95 temas que revelavam o desvio  da Igreja Cristã Ocidental quanto a prática da fé, da graça divina e o uso das Escrituras Sagradas. Basicamente Lutero declarava que o evangelho de Cristo não podia ser trocado por dinheiro, como a compra das “indulgências” oferecidas pela Igreja a qual prometia o perdão eterno a anos de salvação pelo valor que alguém pudesse pagar. Este ato foi suficiente para dar início a uma revolução na Europa que culminou na Reforma Religiosa do século 17. 

A partir de então, a Igreja Católica Romana foi sacudida por movimentos liderados por vários Padres e Teólogos que também afirmavam, segundo a Bíblia, a necessidade de um retorno ao Cristianismo Original, por que a igreja havia se “desviado” de seu foco, a testemunhar livremente da Verdade que era Cristo, fundamentada nas Escrituras Sagradas e recebida unicamente pela Graça de Deus.

Hoje depois de 505 anos desta revolução, a igreja que antes era chamada de “Protestante” agora é conhecida como “Evangélica”, e possui pelo menos 80.000 denominações fragmentadas no mundo todo e a cada dia vai se distanciando mais do foco que viveu a Igreja Primitiva. Muitas destas fragmentações são mais comprometidas com elas mesmas do que com o próprio Evangelho que Lutero e tantos outros defenderam. A liturgia de culto que antes era um serviço prestado a Deus, hoje é um show-business onde se canta mais do que se serve e suas músicas fazem parte do mundo gospel de artistas famosos.

Assim como em todas as épocas, as comunidades cristãs necessitam fazer uma auto-crítica de seus princípios e envidar esforços para retornar a simplicidade e verdade do Evangelho. Quando isto não acontece as comunidades vão morrendo e a fé torna-se apenas uma oratória. Portanto, neste mês que comemoramos a Reforma, devemos nos lembrar de Lutero e tantos outros que viveram a fé para a sua geração. Não desejamos voltar a Época Medieval, mas sim aos princípios de vida do Evangelho simples e sinceros. Jamais deixemos que a Fé seja sinônimo de troca e discurso. Precisamos hoje de homens e mulheres que como Lutero tiveram a coragem para mudar e sinceridade para manifestar a fé em todas as áreas de suas vidas. 


AH! QUE SAUDADE DE LUTERO!

Tenho ensinado em várias Escolas Teológicas, e igrejas ao longo de meus 29 anos de Magistério Teológico e dos 34 anos de Ministério Pastoral Ordenado. Cada ano que passa, percebo que os participantes das igrejas locais e alunos de seminários estão cada vez mais pobres de conhecimento bíblico e teológico. Para isso contribuem uma série de fatores: O primeiro deles é a fraca formação do Ensino Fundamental de nossas Escolas, sejam elas públicas ou particulares. Nunca se viu tanta gente concluindo o 9º ano em que sequer sabe fazer uma interpretação de texto. O consumismo aumentou e o poder de compra também, mas não podemos falar a mesma coisa da Alfabetização, da formação Cultural e Educacional. As pessoas não conhecem a história e acabam por repetir os mesmos erros do passado, tanto na política quanto na educação.

O segundo deles está entre a maioria dos cristãos nas igrejas. Eles tem dificuldade para ler, pensar e entender o que se lê. Na maioria das Escolas Teológicas os estudantes não sabem sequer construir um texto inteligível. Nas igrejas, vemos a dificuldade por que passam as Escolas Bíblicas Dominicais. Sempre pouco frequentadas. Os cultos celebrativos possuem mais gente por que não há necessidade de se pensar tanto, apenas “receber” o que se vê e o que se ouve num sermão.

Ainda mais, vivemos dias de grande confusão hilariante. Isso por que os que possuem um espírito mais expansivo nas comunidades e um tanto ousado, se arvoram na conquista de seus espaços acreditando que são "ungidos por Deus" para pregarem ou ensinarem, quando apenas têm boa vontade ou iniciativa. Mas como a confusão é geral, todo mundo diz tudo, sem entender nada, apenas completando com um: “glória a Deus” ou “Aleluia”. Não são poucos os vídeos postados nas redes sociais, revelando a oratória e pregação dessa gente. Sem contar a irreverência, a falta de silêncio e a “salada de espiritualidade” que observamos nos arraiais eclesiais. Práticas esquisitas, estranhas e incompreensíveis. O mundo ocidental é rico e criativo para viver o seu sincretismo religioso-animista. São muitos “sapatinhos de fogo”, “rosas ungidas”, “mantos sagrados”, e mais um milhão de idéias sobre prosperidade que exalam dos mensageiros para engodar os incautos.

Quem são os culpados? Somos nós mesmos. A começar da geração de outros líderes sem profunda formação teológica e bíblica. Comunidades que não fazem seus congregados a pensar biblicamente jamais terão condições de construírem pontes que possam ligar os diversos tempos e a história a fim de que a Luz verdadeira irradie nos corações. Os responsáveis somos nós que misturamos “fé com ideologia” e “doutrina com tradicionalismo ignorante”.

Ah, como tenho saudades de Lutero! Saudades de seu espírito voluntarioso e ousado. Sim, ele soube unir pontes e provocar uma revolução nos seus dias. Ele foi um homem corajoso. Teve coragem de dizer “não” aos que levavam as pessoas ao “fundo poço” da ignorância espiritual. Hoje, precisamos de outra Reforma, mas não a de Lutero. A dele foi para o seu tempo. Precisamos de outros que sejam como ele, afim de que vidas sejam de facto libertadas da escravidão ideológica e institucional, da superficialidade educacional, cultural e religiosa vigentes e encontrem a Verdade que traz a Vida.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Tu me guais com teu Conselho e depois me recebes na glória

Tu me guias com teu conselho, e depois me recebes na glória. (Salmo 73.24)

Há um ano estava a chorar copiosamente. O Senhor levara meu pai, o Seu Raul. Partiu em silêncio, sentado num banquinho. Fechou seus olhos e expirou. Pensaram que estava desmaiado. Foi morar com Deus. 

Muitos pensamentos povoaram minha mente e meu coração. A distância e a impossibillidade de viajar para seu funeral aumentou a dor e a saudade. Hoje ainda dói a sua ausência. Talvez porque ainda penso que ele está em casa a trabalhar em sua oficina. Mas Deus que é riquíssimo em compaixão vai amenizando a falta da conversa e da presença.

Acredito que o Salmo 73.24 pode ser um retrato daquilo que foi o Seu Raul. Na versão original grega diz: "Tu me conduzes pela mão a ensinar-me". Cristo ensinou várias coisas ao meu pai. Foram experiências, as mais dolorosas e as frustrações com pessoas que estimava, mas guardava todas elas no seu coração. Falava muito pouco de suas dores. Mas enfim, o Senhor o recebeu na glória. 

Não por mim, nem pelas minhas certezas tão duvidosas, mas a palavra de Deus afirma, que Deus nos recebe na glória. No original é "me acolhes na glória". Se Deus nos conduzir aqui, com toda segurança ele nos acolherá em Sua glória.

A nossa vida ao lado de Cristo não é cheia de vitórias. O Salmista escritor estava a passar por uma crise existencial de identidade extremamente violenta. Dúvidas brotavam em seu coração, principalmente acerca dos que viviam na impiedade e a prosperidade deles. Até que um Dia, ele entrou "no santuário de Deus". 

O templo fez toda a diferença. É na adoração e na contemplação que podemos conhecer mais o Senhor e quais são seus planos para nós. Deus se revelou ao Salmista. Ele entrou no templo e adorou, percebeu o fim dos ímpios e aceitou a compaixão de Deus em sua vida.

"Senhor, levas-me ao templo para adorar-te. Estás em meu coração e por tua graça sou um 'templinho do Senhor', onde teu Espírito habita. Concedes-me conhecer-te mais e mais até o Dia que Tu me recebas na glória".

Covilhã, 27/01/2022 

terça-feira, 21 de junho de 2022

Não podeis servir a Deus e ao dinheiro

Vede que vantagens Jesus Cristo nos promete e como os seus preceitos nos são úteis, livrando-nos de grandes males. O mal que as riquezas vos causam, diz Ele, não é só o de armarem os ladrões contra vós e encherem o vosso espírito de trevas. A grande ferida que eles fazem é arrancar-vos ao bem-aventurado serviço de Jesus Cristo, para vos tornarem escravos de um metal insensível e inanimado. «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro». 

Tremamos, irmãos, só de pensar que forçamos Jesus Cristo a falar-nos do dinheiro como divindade oposta a Deus!Mas então, direis vós, os antigos patriarcas não arranjaram maneira de servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro? De forma nenhuma. Como foi então que Abraão, como foi que Job, irradiaram a sua magnificência? Não estamos a falar daqueles que possuem riquezas, mas dos que são possuídos por elas. Job era rico; servia-se do dinheiro, mas não servia o dinheiro, era seu gestor mas não seu adorador. Considerava os seus bens como se pertencessem a outro, considerava-se dispensador e não proprietário. [...] Foi por isso que não se afligiu quando os perdeu. 

João Crisóstomo (c. 345-407) 
presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, Pai da Igreja 
Homilias sobre o Evangelho de S. Mateus, n°21, 1; PG 57, 294-296

terça-feira, 7 de junho de 2022

«Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Parácleto»

Não há nada tão manso ou suave em Deus como o seu Espírito Santo; Ele é a própria bondade de Deus; Ele é Deus. [...] Ao princípio – era necessário que assim fosse –, o Espírito invisível manifestou a sua vinda através de sinais visíveis. Mas hoje, quanto mais espirituais são os sinais, mais convenientes são e mais parecem dignos do Espírito Santo. Assim, Ele veio sobre os apóstolos sob a forma de línguas de fogo, a fim de que eles anunciassem a todos os povos palavras de fogo e que pregassem com língua de fogo uma lei de fogo. Que ninguém se queixe por o Espírito não Se nos manifestar da mesma forma. «A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum» (1Cor 12,7). Será necessário dizê-lo? — foi mais para nós do que para os apóstolos que esta manifestação teve lugar. Com efeito, de que lhes teria servido falar línguas estrangeiras se não fosse para converter os povos?

Mas houve outra revelação que os tocou intimamente e ainda hoje é assim que o Espírito Se manifesta em nós. Ficou claro para todos que eles tinham sido revestidos da «força do alto» (Lc 24,49) porque, de um espírito tão medroso, passaram ter a uma grande segurança. Deixaram de fugir, deixaram de se esconder por receio; passaram então a empregar mais energia na pregação do que a que tinham empregado para fugir. Esta transformação foi obra do Altíssimo, como é claramente visível em Pedro, o príncipe dos apóstolos: se ontem se assustara à voz de uma criada (cf Mt 26,69), agora está inabalável diante das ameaças dos sumos-sacerdotes. «Os apóstolos saíram da presença do Sinédrio cheios de alegria, por terem merecido serem ultrajados por causa do nome de Jesus» (At 5,41). No entanto, havia ainda pouco, ao levarem Jesus ao sinédrio, tinham-se posto em fuga e tinham-no abandonado.

Quem poderia duvidar da vinda do Espírito de fortaleza, cujo poder invisível lhes iluminara os corações? Da mesma forma, o que o Espírito opera em nós presta testemunho da sua presença em nós.

Bernardo de Claraval (1091-1153)
monge cisterciense
1.º Sermão para o Pentecostes, 1-2

Ressurreição e Missão

“Então o lobo morará com o cordeiro” (Isaias 11.6)  Há uma crença equivocada na Doutrina da Ressurreição. Entre os cristãos atuais tra...