sábado, 22 de outubro de 2022

PARA ALÉM DO CAMINHO VIVIDO PELO MONGE

Nestes dias de outubro, apesar da juventude estar a viver o Halloween, poucos ainda estão a refletir sobre os acontecimentos de 505 anos atrás que promoveram um dos movimentos mais contundentes da história da civilização ocidental - a Reforma Religiosa do século XVI. Sem dúvida, a angústia nos arraiais católicos romanos era insuportável devido às heresias e práticas exercidas pelo clero romano e o Sacro Império Romano era o agente das insanidades políticas e econômicas.

Em nossos dias, os movimentos cristãos que se autodenominam “detentores da verdade” estão em decadência como estava a igreja medieval na época de Lutero. Assim como antes, a religião continua a ser um “negócio rentável em nome de Deus”. As carências humanas continuam a ser inescrupulosamente exploradas. A fé continua voltada para o pragmático e utilitário. O que foi a igreja romana daquela época, em sua maioria, os movimentos cristãos atuais expressam a mesma característica: lida-se com um cristianismo paganizado com práticas esotéricas que são fruto de uma sociedade consumista. Sem falar que, devido a todas as experiências negativas do passado, a sociedade cada dia mais promete eliminar o cristianismo da Europa. Pouquíssimas pessoas estão conscientes de que a fé genuína pode ser vivida sem o domínio da religião institucional. A Europa cada dia mais vive um sistema pós-cristão, em todas as áreas: família, educação e política.

Na verdade, necessitamos sempre recorrer às Escrituras, não da mesma maneira como os reformadores recorreram já temos aceso ao livro, mas diante de tantas denominações com tanta fragmentação a Escritura tem sido desvalorizada como Palavra de Deus. Há tantas interpretações da Bíblia que muitos quando não são bibliólatras, são bibliófobos. Se dizemos que a Bíblia é a única regra de fé e prática então precisamos conhecê-la e obedecê-la como a verdadeira fonte de autoridade divina. Por isso devemos ir além donde Lutero começou. Não basta repetir ou postar nas redes sociais frases de efeito, cantar músicas de igreja e possuir uma ética conveniente europeia. Tudo isso está no nível do ordinário.

Precisamos fazer o caminho de volta ao Oriente. O Oriente foi o berço da fé cristã simples e sincera dos seis primeiros séculos da Era Cristã. A fé foi construída pela razão dos apologistas e pela piedade dos pais de oração. Hoje, extirpa-se a piedade e ignora-se a razão. A piedade tornou-se supérflua e a razão tornou-se racionalista. A Europa depois do movimento Iluminista do século XVIII nunca mais percebeu a fé e procurou entendê-la a partir de um humanismo racionalista. Com os movimentos  do seculo 18 e 19, Deus foi posto numa mesa de laboratório, dissecado e julgado pelos mortais. Por isso, precisamos fazer o caminho de volta à época dos primeiros cristãos

Precisamos fazer o caminho da piedade cristã. Piedade não é um modelo ou uma forma, mas o reencontro do coração com Deus. É a alma da fé. A piedade nos revela o ambiente de glória da Santíssima Trindade. Ela é o caráter divino de Cristo. É na piedade que percebemos como Deus é, transcendente e profundo. O movimento cristão tornou-se rebuscado e opulento. Assim era a vida da cúpula da igreja institucional na época de Lutero. A espiritualidade dela exige um aniquilamento da vida piedosa e enaltece o positivismo e a prosperidade, que não tem poupado nenhum púlpito, seja ele de linha histórica tradicionalista, neopentecostal ou mesmo liberal.

Precisamos fazer o caminho do Sacramento e do Sacerdócio da vida. Voltar ao Sacramento, porque o movimento cristão atual não somente deturpou e assassinou a Graça nos sinais e símbolos da fé, como também usa o Sacramento como fonte de lucro. Voltar ao sacerdócio da vida por que vivemos uma era egocêntrica e ególatra onde todos somente se põem a assistir o seu semelhante se obtiverem um retorno. Esse tipo de sacerdócio é conduzido por Mamon e este ainda vive dentro das igrejas.

Portanto, não basta ter a Bíblia e falar dela, não basta viver com ela nas mãos ou nos telemóveis. Ela não faz nenhum sentido, se não for acompanhada da vida de piedade, fé, oração, do sacramento, e do serviço e amor pelo semelhante. Urgentemente precisamos de uma reforma, banindo o cristianismo sectarista, mesquinho e hediondo. Precisamos fazer o caminho de volta às origens, ao próprio Jesus de Nazaré. Então poderemos dizer que estamos a peregrinar no caminho para Deus, indo além do caminho do monge Martinho Lutero.

sábado, 8 de outubro de 2022

POR UMA NOVA REFORMA, URGENTE

No dia 31 de outubro de 1517, um Monge e Padre da Ordem Agostiniana, chamado Martinho Lutero, fixou na Porta da Catedral de Wittemberg, na Alemanha, 95 temas que revelavam o desvio  da Igreja Cristã Ocidental quanto a prática da fé, da graça divina e o uso das Escrituras Sagradas. Basicamente Lutero declarava que o evangelho de Cristo não podia ser trocado por dinheiro, como a compra das “indulgências” oferecidas pela Igreja a qual prometia o perdão eterno a anos de salvação pelo valor que alguém pudesse pagar. Este ato foi suficiente para dar início a uma revolução na Europa que culminou na Reforma Religiosa do século 17. 

A partir de então, a Igreja Católica Romana foi sacudida por movimentos liderados por vários Padres e Teólogos que também afirmavam, segundo a Bíblia, a necessidade de um retorno ao Cristianismo Original, por que a igreja havia se “desviado” de seu foco, a testemunhar livremente da Verdade que era Cristo, fundamentada nas Escrituras Sagradas e recebida unicamente pela Graça de Deus.

Hoje depois de 505 anos desta revolução, a igreja que antes era chamada de “Protestante” agora é conhecida como “Evangélica”, e possui pelo menos 80.000 denominações fragmentadas no mundo todo e a cada dia vai se distanciando mais do foco que viveu a Igreja Primitiva. Muitas destas fragmentações são mais comprometidas com elas mesmas do que com o próprio Evangelho que Lutero e tantos outros defenderam. A liturgia de culto que antes era um serviço prestado a Deus, hoje é um show-business onde se canta mais do que se serve e suas músicas fazem parte do mundo gospel de artistas famosos.

Assim como em todas as épocas, as comunidades cristãs necessitam fazer uma auto-crítica de seus princípios e envidar esforços para retornar a simplicidade e verdade do Evangelho. Quando isto não acontece as comunidades vão morrendo e a fé torna-se apenas uma oratória. Portanto, neste mês que comemoramos a Reforma, devemos nos lembrar de Lutero e tantos outros que viveram a fé para a sua geração. Não desejamos voltar a Época Medieval, mas sim aos princípios de vida do Evangelho simples e sinceros. Jamais deixemos que a Fé seja sinônimo de troca e discurso. Precisamos hoje de homens e mulheres que como Lutero tiveram a coragem para mudar e sinceridade para manifestar a fé em todas as áreas de suas vidas. 


AH! QUE SAUDADE DE LUTERO!

Tenho ensinado em várias Escolas Teológicas, e igrejas ao longo de meus 29 anos de Magistério Teológico e dos 34 anos de Ministério Pastoral Ordenado. Cada ano que passa, percebo que os participantes das igrejas locais e alunos de seminários estão cada vez mais pobres de conhecimento bíblico e teológico. Para isso contribuem uma série de fatores: O primeiro deles é a fraca formação do Ensino Fundamental de nossas Escolas, sejam elas públicas ou particulares. Nunca se viu tanta gente concluindo o 9º ano em que sequer sabe fazer uma interpretação de texto. O consumismo aumentou e o poder de compra também, mas não podemos falar a mesma coisa da Alfabetização, da formação Cultural e Educacional. As pessoas não conhecem a história e acabam por repetir os mesmos erros do passado, tanto na política quanto na educação.

O segundo deles está entre a maioria dos cristãos nas igrejas. Eles tem dificuldade para ler, pensar e entender o que se lê. Na maioria das Escolas Teológicas os estudantes não sabem sequer construir um texto inteligível. Nas igrejas, vemos a dificuldade por que passam as Escolas Bíblicas Dominicais. Sempre pouco frequentadas. Os cultos celebrativos possuem mais gente por que não há necessidade de se pensar tanto, apenas “receber” o que se vê e o que se ouve num sermão.

Ainda mais, vivemos dias de grande confusão hilariante. Isso por que os que possuem um espírito mais expansivo nas comunidades e um tanto ousado, se arvoram na conquista de seus espaços acreditando que são "ungidos por Deus" para pregarem ou ensinarem, quando apenas têm boa vontade ou iniciativa. Mas como a confusão é geral, todo mundo diz tudo, sem entender nada, apenas completando com um: “glória a Deus” ou “Aleluia”. Não são poucos os vídeos postados nas redes sociais, revelando a oratória e pregação dessa gente. Sem contar a irreverência, a falta de silêncio e a “salada de espiritualidade” que observamos nos arraiais eclesiais. Práticas esquisitas, estranhas e incompreensíveis. O mundo ocidental é rico e criativo para viver o seu sincretismo religioso-animista. São muitos “sapatinhos de fogo”, “rosas ungidas”, “mantos sagrados”, e mais um milhão de idéias sobre prosperidade que exalam dos mensageiros para engodar os incautos.

Quem são os culpados? Somos nós mesmos. A começar da geração de outros líderes sem profunda formação teológica e bíblica. Comunidades que não fazem seus congregados a pensar biblicamente jamais terão condições de construírem pontes que possam ligar os diversos tempos e a história a fim de que a Luz verdadeira irradie nos corações. Os responsáveis somos nós que misturamos “fé com ideologia” e “doutrina com tradicionalismo ignorante”.

Ah, como tenho saudades de Lutero! Saudades de seu espírito voluntarioso e ousado. Sim, ele soube unir pontes e provocar uma revolução nos seus dias. Ele foi um homem corajoso. Teve coragem de dizer “não” aos que levavam as pessoas ao “fundo poço” da ignorância espiritual. Hoje, precisamos de outra Reforma, mas não a de Lutero. A dele foi para o seu tempo. Precisamos de outros que sejam como ele, afim de que vidas sejam de facto libertadas da escravidão ideológica e institucional, da superficialidade educacional, cultural e religiosa vigentes e encontrem a Verdade que traz a Vida.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Tu me guais com teu Conselho e depois me recebes na glória

Tu me guias com teu conselho, e depois me recebes na glória. (Salmo 73.24)

Há um ano estava a chorar copiosamente. O Senhor levara meu pai, o Seu Raul. Partiu em silêncio, sentado num banquinho. Fechou seus olhos e expirou. Pensaram que estava desmaiado. Foi morar com Deus. 

Muitos pensamentos povoaram minha mente e meu coração. A distância e a impossibillidade de viajar para seu funeral aumentou a dor e a saudade. Hoje ainda dói a sua ausência. Talvez porque ainda penso que ele está em casa a trabalhar em sua oficina. Mas Deus que é riquíssimo em compaixão vai amenizando a falta da conversa e da presença.

Acredito que o Salmo 73.24 pode ser um retrato daquilo que foi o Seu Raul. Na versão original grega diz: "Tu me conduzes pela mão a ensinar-me". Cristo ensinou várias coisas ao meu pai. Foram experiências, as mais dolorosas e as frustrações com pessoas que estimava, mas guardava todas elas no seu coração. Falava muito pouco de suas dores. Mas enfim, o Senhor o recebeu na glória. 

Não por mim, nem pelas minhas certezas tão duvidosas, mas a palavra de Deus afirma, que Deus nos recebe na glória. No original é "me acolhes na glória". Se Deus nos conduzir aqui, com toda segurança ele nos acolherá em Sua glória.

A nossa vida ao lado de Cristo não é cheia de vitórias. O Salmista escritor estava a passar por uma crise existencial de identidade extremamente violenta. Dúvidas brotavam em seu coração, principalmente acerca dos que viviam na impiedade e a prosperidade deles. Até que um Dia, ele entrou "no santuário de Deus". 

O templo fez toda a diferença. É na adoração e na contemplação que podemos conhecer mais o Senhor e quais são seus planos para nós. Deus se revelou ao Salmista. Ele entrou no templo e adorou, percebeu o fim dos ímpios e aceitou a compaixão de Deus em sua vida.

"Senhor, levas-me ao templo para adorar-te. Estás em meu coração e por tua graça sou um 'templinho do Senhor', onde teu Espírito habita. Concedes-me conhecer-te mais e mais até o Dia que Tu me recebas na glória".

Covilhã, 27/01/2022 

Ressurreição e Missão

“Então o lobo morará com o cordeiro” (Isaias 11.6)  Há uma crença equivocada na Doutrina da Ressurreição. Entre os cristãos atuais tra...