sexta-feira, 21 de junho de 2013

DISCÍPULOS OU MEROS ESPECTADORES?


"Indo, façam discípulos de todas as nações (Mateus 28.18-20)

O remédio contra a rotatividade de membros e a falência da instituição chamada igreja é o que chamo de “Integração”. De fato, ainda que não apareça na Bíblia o termo “Integração” temos firme base teológica e missiológica para usá-lo, por que este termo traduz a prática fundamental encontrada em todo o Novo Testamento. A Integração é o processo de tomar crianças espirituais, educá-las e levá-las a um estado de maturidade e adulta comunhão com Cristo e de serviço eficiente na comunidade. A Integração tem como objetivo abranger tudo o que se faz individual e coletivamente para integrar os novos convertidos e promover maturidade, edificá-los espiritualmente e ensiná-los a testemunharem de Cristo naturalmente. Temos que admitir que a tarefa da igreja não seja somente salvação de almas, é também a maturidade de vidas.

Quando começarmos a pensar assim iremos ver que a Integração tornará mais profunda a relação entre a nós e o Senhor Jesus. Também veremos que haverá um verdadeiro estímulo para que haja um crescimento espiritual que não dependa de uma boa rede social evangélica. Quando estivermos conscientes desta necessidade iremos chegar a conclusão que os que forem aceitando o evangelho serão impulsionados a testemunhar e a discipular outros, gastando tempo com gente e não consigo mesmas.

No meio disso tudo, também temos uma estatística preocupante vinda dos Estados Unidos, mas que é similar em nosso país. De todos os cristãos nas igrejas 30% nunca oram, 50% nunca lêem a Bíblia, 70% nunca se tornaram dizimistas e ofertantes, 80% nunca vão às reuniões de oração assiduamente, 95% nunca conduziram uma pessoa a Jesus e 99% nunca discipularam alguém. Portanto, o que vemos nas igrejas é basicamente uma organização de encontro social. 

Precisamos urgentemente da “INTEGRAÇÃO”. Porém integrar pessoas na comunidade cristã não é dar aos convertidos uma palavra de incentivo sobre a leitura da Bíblia. Também não é enfatizar-lhe o imperativo da mordomia. Muitos pensam que integrar alguém na igreja é enchê-las de folhetos. Outros acreditam que integrar alguém na igreja é recomendar-lhe que seja assíduo aos cultos, ou ir a Escola Dominical. Ledo engano! O que mais se ganha com tudo isso é adição e não Integração. Nossa evangelização sem a Integração sempre falhou e falhará no seu objetivo de conquistar vidas para Cristo. O máximo que se consegue é a adição de algumas pessoas à igreja.

O que você pensa a respeito da igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo? Você se sente integrado em sua igreja? Você já foi discipulado por alguém segundo a doutrina dos apóstolos? Você já discipulou alguém ou está discipulando? Quais os frutos na Integração você está dando para Cristo? 

Precisamos fazer estas perguntas urgentemente para que não nos tornemos meros expectadores de encontros dominicais ou mesmo que sejamos “evangélicos não-praticantes”. 

Quais são suas reais motivações para se envolver com Cristo e com a igreja? Não existe comunhão com Cristo, mas comunhão com a igreja. A fé é essencialmente comunitária e coletiva. Ou será que Paulo estava errado quando disse para seu discípulo Timóteo: “E o que de minha parte ouviste, transmita a pessoas fiéis e idôneas para que elas possam instruir a outras”? (I Tm 2.2)

sábado, 15 de junho de 2013

COMO SE DEVE ORAR?


Antes de começar a orar deve-se livrar de todas as ocupações e deveres habituais, reunir os pensamentos, como se fechasse a porta da sua alma para tudo o que é terrestre, e direcionar toda a sua atenção para Deus.

Estando perante a face de Deus e imaginando vivamente a Sua grandeza, quem ora, deve sentir uma profunda consciência da sua indignidade e fraqueza. "Orando deve-se imaginar toda a criação como nada perante Deus, e unicamente Deus - Tudo" (João de Kronstad). Um moralizante exemplo da disposição do orador, o Salvador apresentou-nos na parábola do publicano que fora perdoado por Deus pela sua humildade (Lucas 18:9-14).

A humildade de um cristão não dá origem ao desânimo nem ao desespero, pelo contrário, ela reúne-se com a forte fé na bondade e onipotência do nosso Pai celeste. Apenas uma oração com fé pode ser ouvida por Deus: "Tudo quanto em oração pedirdes, credes que recebestes e será assim convosco" (Marcos 11:24). Aquecida pela fé, a oração de um cristão torna-se dedicada. Ele tem em mente o testamento de Jesus Cristo, que se deve orar sempre e não desanimar (Lucas 18:1), tem em mente a Sua promessa: "Pedi, e dar-se vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se vos-á" (Mateus 7:7). As imagens evangélicas da mulher cananéia que pediu a Cristo a cura da sua filha (Mateus 15:21-28), da pobre viúva que conseguiu justiça de um juiz injusto (Lucas 18:2-8), e outros casos semelhantes a este dão testemunho da grande força da oração. Mesmo que a oração não seja “logo” ouvida, o orador não deve se desesperar e nem perder o ânimo: Isso é uma prova e não um recurso. Por isso Jesus Cristo disse: "batei," para mostrar que mesmo se Ele não abrir “logo” as portas da Sua misericórdia, deve-se aguardar com uma clara esperança" (João Crisóstomo). O verdadeiro cristão, continuar a orar com uma força e dedicação incorruptas, até convencer o Senhor e trazer para si a Sua misericórdia. Como o patriarca Jacó, que disse ao desconhecido com quem lutava: "não te deixarei ir se não me abençoes," e, de fato, ele recebeu a benção de Deus (Gênesis 32:26).

Nosso Pai celeste receberá a nossa oração, apenas quando tivermos uma disposição verdadeiramente fraternal e benevolente para com as pessoas, quando destruirmos as maldades, inimizades, cobrirmos com o perdão os aborrecimentos: "Quando estiverdes orando se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que o vosso Pai celeste perdoe as vossas ofensas" (Marcos 11:25).

Adaptado (Father Alexander) 

domingo, 9 de junho de 2013

Comunicação Contextualizada



Uma das grandes dificuldades  que o cristianismo ocidental  do século vinte enfrenta é uma crise de comunicação. Esta crise é devido ao fato da mesma não compreender que a mensagem que ele se utiliza, necessita ser compreendida em todos os contextos onde o mesmo se encontra.

O propósito deste trabalho é compreender e redescobrir princípios estratégicos que promovam uma comunicação contextualizada. O pressuposto se dará em termos de princípios e não de métodos, pois métodos são descartáveis e princípios são imutáveis. Além dos princípios que devem ser desenvolvidos, há necessidade de um embasamento em uma teologia bíblica para que haja compreensão e discernimento onde a mensagem divina se contextualizou em seus mais diversos contextos como propósito missionário por meio da expansão do Reino de Deus.

Contudo, deve-se buscar uma análise da comunicação da igreja cristã em seus vários aspectos. Em seu livro “Uma Igreja apaixonada por missões”[1], Antônio Carlos Nasser propõe uma análise do cristianismo por meio dos tipos de igrejas no processo missionário, o que demonstra o tipo de comunicação que as mesmas se utilizam para proclamar o reino. Estas demonstram suas formas de comunicação que as qualificam quanto à visão e atuação.

Primeiramente o autor as denomina de “comunidades Disneylândia”. Afirma o autor que estas “querem o culto que alegra, a música que balança, a pregação que faz rir, o lugar da fantasia! A fantasia faz rir, sonhar, viver num mundo em que sempre se vence”. Estas são compreendidas como as adeptas da Teologia da Prosperidade, um dos maiores males que tem disseminado uma visão incoerente e improcedente. Onde estão o prazer e a fantasia! E o que falar das tensões, lutas, dificuldades e temores? O que falar das tribulações por que passa a igreja neste final de século. Não se deve esquecer as palavras de Jesus: “Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos...”[2] ou “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma”[3]. Há hoje na maioria das comunidades uma pregação demasiadamente romântica quanto a vida cristã e seu compromisso com o mundo.

A segunda nomenclatura utilizada por Nasser são as comunidades “megalomaníacas”. Enquanto encontramos comunidades que vivem um cristianismo fantasioso, encontramos outras que buscam “as pompas”. Nunca o espírito megalomaníaco atingiu tanto as comunidades como nos dias de hoje. Este espírito corrente tem sido mais importante do que as pequenas e singelas coisas a serem trabalhadas. Projetos monumentais tem sido o sonho de muitos líderes religiosos. Não se fala mais em grandes igrejas, mas sim em “mega-igrejas”. A missão torna-se um fim em si mesmo e na grande maioria, projetos missionários a longo prazo são descartados, devido ao imediatismo e aos mega-projetos personalizados por seus mega-líderes. O atender as necessidades do mundo em termos espirituais e sociais são muito mais importantes do que mega-ministérios. No orçamento destas igrejas o termo “missões” nem entra. Grandes templos, grandes perspectivas, grandes poderios eclesiásticos nunca representarão um compromisso com o Reino de Deus. A preocupação exagerada com o local pode trazer uma amnésia missionária.

As comunidades sociais são o terceiro tipo detectado por Nasser. Ao mesmo momento que se detecta as mega-igrejas, Nasser enfatiza um outro lado extremo das igrejas onde se encontra também as que estão reduzindo a ação da igreja ao trabalho simplesmente socializado. Na sua grande maioria estas igrejas procedem dos movimentos de secularização e humanização que se originaram neste século. Embora estas comunidades transformem o povo num grupo de trabalho em prol da vida, o fazem apenas no aspecto que se refere à vida terrena, sem nenhum resultado para a vida espiritual pessoal. Outro problema gerado por estas igrejas é a sociabilidade desconectada de um profundo senso de comunhão. Sem este aspecto, estas igrejas transformam a vida cristã em uma sociedade filantrópica ou clubes que congregam pessoas sem uma integração no discipulado dinâmico do Senhor Jesus.

As comunidades tecnocratas são a quarta característica. O autor assevera que as referidas igrejas são geradas pelo pragmatismo destas duas últimas décadas. Supervalorizam os métodos em detrimento do conteúdo. Estas igrejas estão preocupadas com o que é funcional. Comunidades que deixaram de comunicar levando em consideração seus contextos perdem a sua natureza missionária para se tornarem igrejas-evento. Neste caso, o ‘programa’ é o ponto alto da vida. Além disso, suas técnicas vão desde as folclóricas “correntes” até as nomeadas como: Como ser feliz em 10 passos ou a Corrente dos sete dias.  A vida cristã se resumiu em ‘pacotes’ ou ‘kits’ que trazem a Salvação e que resolvem tudo.

Ainda existem as comunidades independentes. Estas, como afirma Nasser, não necessitam de alianças ou parcerias na comunicação da verdade. Elas encontraram-se em um caminho independente ou porque não dizer “livre”. Se isolaram e resolveram trabalhar sozinhas, sem denominação, sem laços eclesiásticos, sem qualquer ligação extra-comunidade. O que transparece é um espírito forte de messianismo eclesiástico. Há um pensamento de que se elas não fizerem ninguém o fará ou então que estas comunidades foram escolhidas por Deus para estarem na vanguarda da missão comunicativa. 

Este retrato, que Nasser expõe, é uma das características das mais variadas comunidades encontradas no movimento evangelicalista brasileiro no século XXI. Esta situação é tão deprimente que devido a condição de crise, deve-se fazer uma apologia de uma concepção clara, aberta e bíblica acerca da verdadeira mensagem da igreja cristã. O grande desafio para as comunidades cristãs neste século é a redescoberta de sua mensagem de maneira contextualizada.

O cristianismo deve voltar seus olhos para dentro de si e através das Escrituras Sagradas encontrar-se com a sua verdadeira natureza e ser um cristianismo voltado para o mundo comunicando verdades que sejam compreendidas em cada contexto cultural, lingüístico e geográfico.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

ACASO É TEMPO DE DAR "AS SOBRAS" PARA DEUS?




Acaso é tempo de habitardes nas vossas casas forradas, enquanto esta casa fica desolada? Ageu 1,4

O templo sempre foi muito importante para a nação de Israel durante toda a sua história. Era o lugar da presença de Deus, onde Deus se fazia presente e manifestava a sua glória. Era o lugar de adoração e das oferendas, dos cultos e dos sacrifícios. Era o símbolo nacional da verdadeira espiritualidade. O templo representava o próprio Reino de Deus na terra. Era o Senhor Javé que descia e protegia aquele povo. O livro do profeta Ageu data da primeira volta de judeus depois do Cativeiro Babilônico, com Zorobabel e o Sumo Sacerdote Josué. As outras duas foram com Esdras e Neemias. Mas a profecia proclamada por Ageu revelava a proposta de Deus: Reconstruir Jerusalém! Essa reconstrução envolvia a construção  física do Templo e a espiritual daquela nação que durante 70 anos viveu sob a influência do domínio pagão Assírio, Babilônico e Persa. 

Mas havia um porém. O povo que voltara do Cativeiro agora estava achando esta questão irrelevante. Reconstruir o templo era menos importante para os habitantes de Jerusalém do que as suas casas. Os moradores da cidade estavam diametralmente opostos a  Deus. Na verdade as pessoas não tinham mais tempo de pensar nas coisas da vida religiosa de Israel. estavam voltando para casa e buscavam dar conta de seus bens, de suas finanças, de seu trabalho, de suas casas, de sus família e de seus próprios interesses. Estavam envolvidos na reconstrução de suas casas. E Deus, segundo a visão de Ageu, estava com  sua "casa" destruída. 

A nova geração de israelitas ao retornarem para sua terra, esqueceram que o Templo era a vida espiritual do povo. Tudo dependia de Deus. Ele estava em Jerusalém, em Seu Templo. Sem o Templo, Deus não poderia abençoar a Israel. A verdade que o Templo não possuía apenas uma conotação simbólica mas também mística. E a consequência deste relacionamento produzia vida, alegria, abundância de víveres, alimento e água. Sem o Templo, os efeitos eram terríveis. Sem um relacionamento profundo com Deus, as consequências seriam drásticas.

Por isso Ageu afirmava: Vocês estão trabalhando muito e colhendo pouco, a comida de vocês não chega a satisfazer, o salário era insuficiente para viver, e as esperanças eram frustrantes. Até a agricultura sofria as conseqüências: “... por isso os céus sobre vós retém seu orvalho...” e ainda “...Fiz vir seca sobre a terra...”. Por que isso acontecia? Por que os israelitas davam a Deus o que restava e por isso Ele não jamais aceitava sobras e restos. Ageu afirma: “... cada um de vós corre por causa de sua própria casa.” A vida de adoração estava impregnada de impureza (2.14). Ele diz: “e o que ali oferecem, tudo é imundo”.

Quando olhamos para esta situação, pensamos em nós e ouvimos a profecia de Ageu. Ageu propõe um remédio para os cidadãos de Jerusalém: 

Primeiramente Ageu conclama: "Considerem seu passado" (1.5,7;2.15). O que Israel tinha passado era por que havia  abandonado a Javé. O povo de Israel havia esquecido que a fonte de vida era o Senhor e não seus próprios esforços. Seus caminhos do passado foram errados e por isso Deus que não negocia sua glória com ninguém permitira o Cativeiro e a destruição. Quando não consideramos os erros do passado, não podemos aprender a fazer diferente. Somente podemos olhar para o futuro, levando em consideração o que fizemos que desagradou tanto ao Senhor. O quanto abandonamos nossa relação com Ele. Isso é de vital importância. Nunca devemos esquecermos quem nós fomos. E nisso não há muita lembrança boa, pelo contrário, são lembranças amargas. E então voltar os olhos para o passado é positivo quando pesamos o que fomos e onde estamos hoje. Consideremos nosso passado, mas não fiquemos presos nele. Quando nos lembramos disso, toadas as vezes vamos também lembrar que Deus foi quem nos tirou na casa da escravidão, da opressão.

Em segundo lugar Ageu profetiza: "Considerem seus interesses", isto é, dêem prioridade para os interesses de Deus na sua vida (1.8). Olhem, pensem que somente um relacionamento profundo e sincero com Deus, colocando-o como "exclusivo", é que se pode envidar esforços para o futuro. Não há planos de Deus em nossas vidas se não colocamo-lo em nossos planos como o Dirigente de tudo. Nossa família, nossa profissão é meramente uma negação de nossa fé. Nosso Senhor Jesus Cristo reitera a visão de Ageu. Ele afirma: "Busquem, em primeiro lugar o Seu reino e a Sua justiça e o restante será acrescentado" (Mateus 6.33), isto é, se não aprendermos a desenvolvermos um relacionamento profundo com Deus tendo-o em exclusividade, faremos de nossa vida um mera "tela de descanso" de curta duração para nós e para os outros. Isso significa estarmos abertos a voz de Deus. Para isso, precisamos corrigir todos os dias o foco de nossos corações. A conversão deve ser todo dia. Nossa oração e leitura, e meditação devem ser todo dias. É necessário renúncia, mudança de planos, alteração de rotas, decisões firmes para desenvolver um relacionamento com Deus que não envolva apenas o indivíduo. Deve envolver o relacionamento com outras pessoas da mesma fé, pois fé não existe sem coletividade, sem comunidade. O templo é a perfeita significação disso. Todos somos como parte deste novo templo do Senhor, do Espírito (1a. Pedro 2). Dar atenção ao Templo e as coisas de Deus em primeiro lugar é a razão de uma vida cheia de paz, com Deus e consigo mesmo.

Em terceiro lugar, Ageu afirma: Dediquem-se ao trabalho (1.14). O povo todo se uniu para reconstruir a casa de Deus. O templo que aqui foi reformado, é o símbolo da reconstrução de nossos templos atuais onde Deus habita. Geralmente as pessoas esquecem-se de Deus quando estão bem, mas quando passam pelo aperto, voltam-se para ele. Quando melhoram o deixam, e quando pioram o buscam. Nossa relação com Cristo jamais pode-se desenvolver por meio destas motivações primitivas. Isso é Paganismo. Se assim fazemos tornamos Deus um mero amuleto, uma ferramenta e não o procuramos por meio de uma profundo relacionamento de fé. Tornamos nossa relação com Deus, uma relação de consumo, projetamos o que vai de nosso sistema de valores mundanos. Priorizar a Deus e tudo que o envolve deve ser nosso desafio. Disponha-se a fazer o que não foi feito para a causa do reino de Deus. Se você perdeu tempo com as suas coisas, gaste agora seu tempo com as de Deus.

Minha pergunta é: Por que temos que dar o resto de nosso tempo, de nosso dinheiro e de tudo que fazemos para Deus se Ele é o doador de tudo que possuímos? Ele promete que nunca vai nos abandonar. Ele promete sua presença constante (1.13). Ele nos encoraja dizendo: "Não temam" (2.5). Ele promete que as "últimas coisas serão maiores que as primeiras" (2.9). Ele se dispõe a fazer mudanças profundas e marcantes em nossa vida (2.19). 

Sem Deus, nada feito! Não há vida verdadeira, apenas uma aparência, uma caricatura, uma imagem translúcida. O que você está fazendo de sua vida? Considere seu passado, considere seus interesses, e dedique-se nesta busca de Deus na pessoa de Cristo Seu Filho. 

terça-feira, 4 de junho de 2013

A postura do novo cristão diante do mundo pós-moderno



No seu livro “Sociedade Pós-capitalista” Peter Drucker afirma: “Nos últimos cem anos ocorreu uma transformação aguda no mundo ocidental. Nós cruzamos o que eu chamo de linha divisória. Dentro de poucas décadas, a sociedade foi transformada juntamente com a sua cosmovisão, os seus valores básicos, as estruturas políticas, as artes e as instituições-chave. E as pessoas da nova geração não podem nem imaginar o mundo em que seus avós viveram e no qual seus pais nasceram. Estamos vivendo tão somente uma transformação”. (1993, 1).

Estamos vivendo um novo tempo. David Bosch, missiólogo sul-africano afirma com sabedoria: “Este tempo é um período de transição de paradigmas e se caracteriza por um profundo sentido de incerteza e de fato a incerteza parece ser uma das poucas constantes da era contemporânea e um dos fatores que engendra fortes reações a favor da continuidade do paradigma do iluminismo". 

Assim, é necessário entender esta mudança da modernidade e o novo período chamado de pós-modernidade. Por exemplo, A modernidade sempre enfatizou o individualismo, contudo a pós-modernidade enfatiza o coletivismo. O Racionalismo sempre foi a tônica da modernidade, contudo o pós-modernismo acentua a Experiência como fator preponderante para as certezas da vida. O Positivismo marcou a época moderna, contudo a pós-modernidade desenvolve o espírito científico e materialista. Embora o Modernismo tenha descoberto que a tecnologia seria a solução dos problemas do ser humano, a pós-modernidade enfrenta a mesma com certa desconfiança e alguma desilusão por não ter resolvido todos os problemas da sociedade.

Diante destas mudanças de paradigmas a pergunta que faço é como o verdadeiro cristão encontrará a chave para missionar nesta nova sociedade tão desconfiada de si mesmo?

Outro pensador que tem influenciado inúmeros leitores é Marià Corbí Quiñonero. Para Corbí a espiritualidade hoje precisa passar por novos modelos. Partindo sobre os pressupostos de que o mundo passa por transformações e mudanças culturais, Marià Corbí entende que vivemos um grande trânsito cultural. Não há mais condições para um etnocentrismo ou o fundamentalismo coexistir com esta dinâmica, ainda que haja em países e culturas esta mentalidade, segundo ele, será inevitável a superação dessas formas de ver o mundo pela globalização e a secularização. Entendendo que as religiões foram desenvolvidas em uma época pré-industrial, e, que, portanto, as crenças e a maneira de ver o mundo passa pelo mito, pelos símbolos, pelas narrações sagradas, Corbí acredita que esta maneira de ver o mundo foi superada ocorrendo a primeira secularização. Esta se deu quando o cristianismo travou sangrentas guerras em nome de Deus, de forma inevitável, a secularização abarcou o Estado e a vida pública das pessoas, deixando a opção religiosa sob a escolha de cada um. Este processo teve como impulsionador o Iluminismo. Com isso Corbí entende que a crise religiosa não soube dialogar com seus contextos e influenciados pelo secularismo cada um hoje, escolhe a sua espiritualidade. É possível cada um criar a sua própria religiosidade. Cada um tem seu rebanho, seja ele virtual ou factual.

Do ponto de vista da tecnologia as coisas mudaram rápida e mundialmente. A transição da combustão ao processador de microchip foi a grande revolução. Assim também de maneira tão rápida a nossa eclesiologia se alterou. As pequenas comunidades do ocidente seguem decaindo e novas forças de cooperação missionária surgem juntamente com as “mega-igrejas” ao redor de todo o mundo. Em contrapartida quando pensamos na missão, julgo que haja muita propaganda e uma fraca identificação e inserção nos contextos missionados pelas comunidades cristãs. Elas desaprenderam a evangelizar a partir das comunidades dos primeiros séculos.

A nossa realidade social influencia diretamente nossa prática religiosa. A estrutura social vivida está acentuadamente baseada no Consumismo. Os indivíduos vivem em função de possuir tudo que podem ver, degustar e comprar. Embora Mariá Corbi acentue as mudanças estruturais, nossa civilização ainda está baseada na visão de culturas e sub-culturas adequadas à Ciência e à Tecnologia hodiernas. Atualmente, ainda existem no mundo as mesmas lutas pela igualdade social e racial. Povos continuam a se enfrentar e a filosofia discriminatória é base da educação familiar de muitas raças, ademais toda a performance cibernética. O mundo tem contemplado atônito, etnocídios de povos que vivem em conflito a centenas de anos. Em contrapartida, no mundo ocidental a Globalização tem gerado um desnível social e econômico nunca visto. Os países economicamente ricos dominam, controlam e oprimem os países pobres dependentes. No plano religioso, a igreja enfrenta problemas semelhantes. Com as melhores motivações possíveis, a Igreja Protestante do século dezenove não conseguiu apagar a imagem de uma missão vinculada ao imperialismo ocidental sobre os povos da Asia, Africa e América Latina. A superficialidade da interpretação do Evangelho tem gerado uma contextualização superficial. A marca da nossa superficialidade cristã está nas músicas que fazemos, na ética de praticamos e na mensagem que pregamos.

Assim devemos nos perguntar como missionar num mundo tão plural e diversificado? Como ser cristão neste tempo de tão grandes mudanças? A resposta é de que os cristãos de todo mundo, de todas as cores denominacionais devem se voltar para o caráter encarnacional do “Logos Divino”, como único meio para se viver o conteúdo do Evangelho do Reino.

O missiólogo René Padilla discute a questão tratando da importância de se absorver profundamente, não somente as conseqüências soteriológicas da Cruz como também a sua ética. Diz o referido missiólogo: “A cruz não é somente a negação da validade de todo o esforço do homem para ganhar o favor de Deus por meio das obras da lei; é também a exigência de um novo estilo de vida caracterizado pelo amor totalmente oposto a uma vida individualista, centralizada em ambições pessoais, indiferente frente às necessidades do próximo. O significado da cruz é ao mesmo tempo soteriológico e ético. E isto é assim porque, ao escolher a cruz, Jesus Cristo não somente deu forma ao indicativo do evangelho, mas simultaneamente também proveu o modelo para a vida humana aqui e agora.”[1] Assim, ademais todas as mudanças ocorridas nos séculos anteriores e as de nosso século somente podem ter uma convergência se a cruz e as resultantes dela forem vividas de novo pelos seguidores do Cristo verdadeiro. 

Há mais o que se fazer. Precisamos diminuir o déficit teológico ensinado e vivido nas comunidades cristãs. Este déficit teológico tem resultado em uma débil contextualização do Evangelho. A época moderna caracterizou-se pela influencia iluminista com uma estrutura filosófica escolástica. Todo movimento cristão ocidental desenvolveu-se nestes trilhos, tanto a teologia católica romana como a Teologia Evangélica. A teologia sistemática ensinada há séculos, promoveu um cristianismo de retaguarda apologético. Perdemos a possibilidade de diálogo frente às novas mudanças do mundo. Assim, o problema de uma fraca contextualização é a falta de reflexão teológica profunda e relevante a partir de uma Teologia Bíblica. Ainda o pensamento cristão missionário é escolástico devido ao uso superficial da Palavra para se entender a missão e sua contextualização. Logo, precisamos demasiadamente retornar a uma teologia de missão fiel a uma Teologia Bíblica. 

Se a Teologia da Cruz está diluída, as conseqüências serão de uma evangelização nominal sem os resultados integrais do Evangelho do Reino. Valdir Steuernagel descreve esta questão com propriedade. Assim afirma: “A nossa evangelização deve estar a serviço de um evangelho que afeta a pessoa toda em todas as áreas de sua vida. Isto quer dizer que o evangelho, embora seja pessoal, tem um forte colorido coletivo: é individual, mas tem uma inerente dimensão social; é uma mensagem de conforto mas pede um compromisso ético; desencadeia uma espiritualidade terapêutica e leva a um inequívoco pacto com a justiça; produz igreja, mas uma igreja que deve estar concretamente enraizada na comunidade global dos seres e na busca desta por uma vida justa e digna. Quanto mais estivermos a serviço deste evangelho integral, que afeta todas as áreas da vida, tanto mais estaremos a serviço do Deus Trino. E esta será adoração verdadeira que, como o sacrifício de Abel, será acolhida nos céus”.[2] Portanto, a encarnação de Cristo deve ser o modelo dos cristãos pós-modernos. Ele reafirmou a Grande Comissão: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). 

David Bosch caminha nesta mesma vereda. O missiólogo assevera: “Por causa da presença do Senhor no meio de seu povo, a Igreja pode ser considerada a despeito de sua pecaminosidade, como a continuação de Jesus Cristo, de sua encarnação no mundo”.[3] Não podemos abrir mão de encarnamos neste mundo. O discurso e a proclamação não fazem mais diferença na sociedade. O que melhor temos a fazer é o silencio de nossas bocas e o falar de nossos atos. A identificação com Cristo deve gerar um envolvimento com o mundo em todas as áreas da vida. Devemos banir movimentos evangelísticos impositivos, fruto do imperialismo e colonialismo europeu e estadunidense. Necessitamos alterar a mensagem de um evangelho "além túmulo", pois se a vida é eterna, ela começa agora e não no futuro. O ideal do Mestre é estar e viver no meio da sociedade para mudá-la naturalmente como luz do mundo e sal da terra. O envolvimento no mundo é o de uma integração, diálogo e vivência natural como o missiólogo René Padilla expõe: “O propósito da evangelização é, portanto, conduzir o homem não meramente a uma experiência subjetiva da salvação da alma, mas a uma reorientação radical de sua vida, que inclui sua libertação da escravidão ao mundo e seus poderes, por um lado, e sua integração ao propósito de Deus em colocar todas as coisas sob o governo de Cristo, por outro. O evangelho não se dirige ao homem em um vazio. Ele tem a ver com o movimento do homem da velha humanidade em Adão, que pertence a esta era, à humanidade em Cristo, que pertence a era vindoura”.[4]

Contudo, a encarnação missional dos novos cristãos não somente deve ser orientada pela identificação com Cristo e o envolvimento natural na sociedade, mas também precisa avaliar os contextos específicos onde o evangelho está sendo vivido. Padilla acentua esta questão dizendo: “Para que o Evangelho não seja somente aceito intelectualmente, mas também vivido, ele necessariamente deverá tomar forma dentro de nosso próprio contexto cultural”[5]. Há quatro décadas atrás Bavinck já se preocupava com esta orientação: “Um missionário precisa cuidadosamente tomar por conta a situação específica e circunstancial do povo com os quais ele está negociando”[6].

Os cristãos precisam compreender que não é suficiente mais discursar um evangelho que não produza mudança na sociedade. Padilla enfoca seriamente esta questão para que haja transformação histórica precisamos missionar submetendo-nos a contextos específicos culturais e históricos. Diz o referido escritor: “Na medida em que a Palavra de Deus se encarna na igreja, o Evangelho toma a forma na cultura. A intenção de Deus não é que o Evangelho se reduza a uma mensagem verbal, mas que se encarne na igreja e através dela na história. A igreja autóctone é aquela que em virtude da morte e ressurreição em Cristo, encarna o Evangelho dentro de sua própria cultura, adota um estilo de vida, pensamento e ação em que seus próprios padrões culturais sejam transformados e realizados plenamente pelo Evangelho”.[7] E Tito Paredes acrescenta: “Assim como é fundamental ter sumamente claro o que é o evangelho e sua missão, igualmente importante é entender e compreender o contexto em que se proclama e vive a mensagem de Jesus Cristo. Assim como é crucial entender e ler adequadamente a Palavra de Deus, também é importante compreender o contexto socio-cultural, já que o evangelho sempre é anunciado e vivido em contextos culturais específicos.[8]

Portanto, a encarnacionalidade é a chave para se viver como cristão em nosso mundo pós-moderno. É impossível ser um verdadeiro cristão e não estar no mundo se contextualizando. Precisamos de gente que pense e avalie os níveis de contextualização nos contextos mais variados e aqui não estamos falando de liturgia, mas de vida, de interação, de ética, de política, de economia e de comportamento. Pois do contrário, se não houver uma encarnação relevante dos novos cristãos, haverá sim uma contínua forma aparente de cristianismo, contudo será apenas mais uma a que os cristãos tentem viver dentro de uma sociedade e nunca conseguirão viver integralmente o verdadeiro evangelho daquele que se encarnou e viveu de maneira tão humana a sua divindade. 

[1] René Padilla, Missão Integral,(São Paulo: Temática Publicações, 1992), 35. 
[2] Valdir Steuernagel, A Grande Comissão: vamos lê-la de novo, em: A missãoda Igreja,(Belo Horizonte: Missão Editora, 1994), 81,82. 
[3] David Bosch, Witness to the World (Atlanta: John Knox Press, 1980), 89. 
[4] Id., 38 
[5] René Padilla, Missão Integral, (São Paulo: Temática Publicações, 1992), 113. 
[6] Para compreender a preocupação missionária na área de contextualização, da transmissão e aborgadens missionárias, veja Johannes Bavinck, AnIntroductiontothe Science ofMissions, (Phillipsburg: PresbyterianandReformedPublishingCo., 1960), 80-89. 
[7] René Padilla, Missão Integral, (São Paulo: Temática Publicações, 1992), 115. 
[8] Tito Paredes, Evangelho, cultura e missão: rumo a uma missiologia de transformação integral em Cristo, em: A missão da Igreja, Valdir Steuernagel, ed. Belo Horizonte: Missão Editora, 1994, 243.

A POLIGAMIA NA BÍBLIA



A poligamia apresenta um problema para os estudantes da Bíblia. Por um lado a Bíblia ensina a monogamia: um homem casado com uma única esposa. Como diz Paulo: "Cada homem tenha sua própria esposa e cada mulher tenha o seu próprio marido" (I Co 7.2). Paulo também escreveu que aos líderes da Igreja devem ser "maridos de uma só esposa" (I Tm 3.2,12). Jesus ensinou que Deus tencionava que o casamento fosse entre alguém do sexo masculino e outro do sexo feminino (Mt 19.8). Por outro lado, Deus aparentemente abençoou a poligamia praticada por alguns dos grandes santos do Antigo Testamento, como Abrão, Davi e Salomão. O problema é este: Se Deus designou e ordenou a monogamia, então por que ele abençoou a poligamia e permitiu que alguns dos seus servos preferidos ficassem sem condenação por serem polígamos?

Em resposta a esse problema, vários fatos devem estar em mente:

Em primeiro lugar, a poligamia não é ensinada como o ideal de Deus em qualquer parte da Bíblia; a poligamia foi meramente permitida ou tole­rada “por causa da dureza dos seus corações", mas "no princípio não foi assim" (Mt 19.8).

Em segundo lugar, a monogamia foi ensinada no Antigo Testamento e também no Novo Testamento como sendo o modelo de Deus para o casamento; as passagens já têm sido citadas. O Antigo Testamento ensinou a monogamia de vários modos:

(1) A monogamia foi ensinada pelo "precedente", no caso de Adão e Eva. Isto é, Deus fez somente um homem e uma mulher como o primeiro e perfeito exemplo de casamento.

(2) A monogamia foi ensinada na "prática" do Antigo Testamento. Aqueles que perverteram o ideal de Deus de "um homem e uma mulher" pagaram amargamente por sua poligamia. A poligamia apareceu no meio de uma sociedade pecaminosa e rebelde contra Deus (Gn 4.23). Abraão, Davi e especialmente Salomão sofreram as conseqüências da poligamia. O coração de Salomão voltou-se para a idolatria e o seu glorioso reino chegou a um final vergonhoso por causa da poligamia (I Re 11.3,4).

(3) Finalmente, a monogamia foi ensinada por "preceitos" no Antigo Testamento. A Lei de Moisés claramente ordena: "tampouco para si multiplicará mulheres" (Dt 17.17). Nesse mesmo espírito os filhos de Israel foram proibidos de acrescentar mulheres estrangeiras, como Salomão foi lembrado quando o julgamento de Deus veio sobre ele (I Re 11.2).

Em resumo, Deus não tencionou nem abençoou a poligamia. De fato, ele tanto ordenou contra como também condenou essa prática. Como outros pecados, Deus permitiu a poligamia por causa da dureza do coração humano. Deus odeia a poligamia tal qual o divórcio (Ml 2.16), pois ambos frustram o relacionamento ideal de marido e esposa, que tão per­feitamente ilustra a relação entre Cristo e sua noiva, a Igreja (Ef 5.32) e a vida eterna da Santíssima Trindade.


Obs: Nas culturas humanas a poligamia pode também ser encontrada na forma de “poliandria" (uma mulher casada com dois ou mais homens). 

Adaptado do escrito do amigo Valmir Brizola

POR QUE EU BATIZO CRIANÇAS?



"Deus sempre tem tido um povo seu, através dos séculos, desde os tempos de Adão, quando prometeu que uma futura Semente da mulher havia de ferir a cabeça da Serpente. Adão, Seth, Noé e Abraão foram os primeiros destacados representantes do povo de Deus. O povo escolhido, em todos os tempos, constitui a igreja visível, aqui no mundo. E sempre que Deus fazia um pacto com um dos
representantes do seu povo, incluía nele os filhos dos fiéis.

Deus fez um pacto de obras com Adão, que foi por este violado, trazendo, destarte, a desgraça para todos os seus filhos e descendentes. O mal, todavia, foi compensado pela promessa de um Salvador. Deus fez outra aliança com Noé, válida igualmente para a sua posteridade, prometendo-lhe não mais destruir os viventes de sobre a face da terra por meio de um novo dilúvio. O arco-íris foi escolhido para ser o sinal visível dessa aliança (Gn. 9:8-17).

No Monte Sinai, Deus fez uma aliança com o seu povo, na qual estavam incluídas as criancinhas. Mais tarde, esse mesmo pacto foi renovado, nas planícies de Moab, quando o povo de Israel estava para entrar na Terra Prometida. Nessa ocasião, Moisés concita o povo a renovar a sua aliança com Jeová, nos seguintes termos: “Guardai as palavras desta aliança, e cumpri-as, para que prospereis em tudo quanto fizerdes. Vós estais hoje todos diante de Jeová, vosso Deus; as vossas cabeças, as vossas tribos, os vossos anciãos e os vossos oficiais, a saber, todos os homens de Israel, os vossos pequeninos, vossas mulheres, e o peregrino que está no meio dos vossos arraiais, desde o rachador de tua lenha até o tirador da tua água” (Dt. 29:9-11). Já se vê, por esta declaração de Moisés, que, na lista dos agraciados pela aliança de Deus com o povo, foram incluídos os pequeninos.

O mais importante dos pactos que Deus fez na antiguidade foi, sem dúvida, aquele firmado com Abraão, o grande pai de todos os que crêem. E as criancinhas têm um lugar proeminente nesse pacto. Ademais, teremos ocasião de ver que esse concerto ainda está em vigor para nós, que somos os filhos espirituais de Abraão. Eis os termos da aliança de Deus com Abraão: “Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua semente depois de ti” (Gn. 17:7). Abraão tinha noventa e nove anos quando foi circuncidado (Gn. 17:24) e isto em sinal da sua justificação pela fé, já comprovada antes da sua circuncisão (Rm. 4:11). “Recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé que teve, quando não era circuncidado; para que fosse ele pai de todos os que crêem, ainda que não sejam circuncidados, a fim de que a justiça lhes fosse imputada; e fosse também pai da circuncisão para aqueles que não somente são da circuncisão, mas que também andam nas pisadas da fé que teve nosso pai Abraão antes de ser circuncidado”.

Ismael tinha treze anos, quando foi submetido ao rito da circuncisão (Gn.17:25). Isaac tinha apenas oito dias de idade, quando foi circuncidado (Gn. 21:4). Para que uma pessoa se tornasse membro da congregação do povo de Deus naquele tempo, era preciso que fosse circuncidada. As mulheres, as filhas, as esposas e todas as crianças do sexo feminino, acompanhavam os pais, os irmãos e os esposos e eram por eles representadas. Todos faziam parte do povo de Deus.

O rito de iniciação ou de ingresso na Igreja visível daquele tempo e de toda a Velha Dispensação era a circuncisão, que era geralmente administrada aos meninos de oito dias de idade (Gn. 17:12; Lv. 12:3; Lc. 2:21; Lc. 1:59; Fp. 3:5). Os adultos que vinham de fora uniam-se ao povo de Deus, em virtude da sua própria fé, sendo circuncidados, mas os meninos eram admitidos, pelo mesmo rito, em virtude da fé professada pelos pais.

As passagens acima citadas tornam bem claro que, desde os tempos antigos, Deus determinou que as crianças, filhas de pais crentes, fizessem parte da sua Igreja visível, aqui no mundo. Está, portanto, claramente estabelecida a origem divina da inclusão dos pequeninos na Igreja de Deus. Veremos que esse direito das criancinhas nunca lhes foi cassado. Sendo, pois, as crianças membros infantis da Igreja, têm elas o direito ao sinal exterior e visível dessa preciosa realidade, que, na Antiga Dispensação, foi a circuncisão e na Nova, é o batismo. Prossigamos com as provas bíblicas da nossa tese.

O batismo é o rito da iniciação na Igreja Cristã, na dispensação da graça (At.2:41). Ao que nos consta, são somente os Irmãos de Plymouth (darbistas), entre os cristãos evangélicos, os que contrariam esse conceito e não podiam deixar de o fazer, desde que não admitem a existência de uma Igreja terrena e visível, como essa que nós julgamos ter sido fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo e que continua até hoje, porque as portas do inferno não podem prevalecer contra ela. São Lucas liga intimamente o batismo com a admissão das três mil pessoas que se converteram pela palavra de S. Pedro.

Em Atos 2:41, relata-nos o escritor que foram batizadas e admitidas três mil pessoas e, logo em seguida, no versículo 42, refere-se à doutrina, à comunhão e ao partir do pão, que uniam os neo-conversos aos seus irmãos. Somos irresistivelmente levados a concluir que tinham sido admitidos à comunhão dos santos, isto é, à comunhão do povo de Deus, que constitui a sua Igreja visível, no mundo. Somente uma interpretação arbitrária poderia chegar a outra conclusão. Tomamos, pois, como provado que os neoconvertidos dos tempos apostólicos eram admitidos à comunhão da Igreja pelo rito do batismo.

O batismo no Novo Testamento é denominado a circuncisão de Cristo (Cl. 2:11, 12). Nessa passagem, tanto o batismo com a circuncisão devem ter um sentido espiritual. Referem-se à nova vida em Cristo. Dessa nova vida são símbolos o batismo com água e a circuncisão carnal. Esses dois ritos representam a mesma coisa, como teremos ocasião de provar mais detalhadamente. O batismo na Nova Dispensação significa tudo quanto significava a circuncisão na Velha. É justo, pois, concluir que a circuncisão foi substituída pelo batismo cristão.

Em nenhuma parte do Novo Testamento encontramos qualquer passagem que exclua as crianças da Igreja de Deus. Ora, sendo o batismo, na Nova Dispensação, o sinal de inclusão na Igreja, segue-se que os filhos dos crentes, hoje, não têm menos direito ao batismo do que tinham os filhos dos israelitas à circuncisão.

São Pedro, no dia de Pentecoste, confirma o direito das crianças por nós defendido. Pregando o Evangelho a adultos capazes de compreender a sua mensagem e capazes de crer, disse-lhes ser necessário que se arrependessem e fossem batizados em nome de Jesus Cristo (At. 2:38). Não exigiu o arrependimento ou a fé por parte das crianças, incapazes do exercício desses atos; não obstante, as incluiu na lista dos beneficiados pelas bênçãos conferidas por meio das promessas de Deus ao seu povo. Dirigindo a palavra aos pais crentes, disse-lhes: “Para vós é a promessa e para vossos filhos, e para todos os que estão longe, a quantos chamar o Senhor nosso Deus” (At. 2:39).

A promessa a que S. Pedro se refere é, sem dúvida, aquela que foi feita ao povo de Deus por intermédio de Abraão e se estende a todos os que crêem (Rm. 4:11, 13 e 17). Nós, os crentes, somos a descendência espiritual de Abraão e os herdeiros das promessas que lhe foram feitas. É São Paulo que no-lo diz: “Justamente como Abraão creu a Deus, e foi-lhe imputado para justiça; sabei, pois, que os que são da fé, esses são filhos de Abraão. A Escritura, prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, de antemão anunciou as boas novas a Abraão: ‘Em ti serão bem-aventuradas todas as nações’. Assim os que são da fé, são bemaventurados com o fiel Abraão” (Gl. 3:6-9). S. Pedro afirmava a mesma verdade, quando dizia aos três mil batizados no dia de Pentecostes: “A promessa é para vós e para vossos filhos”.

Em Efésios 2:11-16, encontramos ainda outra declaração categórica de que nós, os gentios, fomos também incluídos na aliança da promessa feita aos da circuncisão: “Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade d’Israel, e estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. “Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. “Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derribando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades”. Ainda mais: outro escritor inspirado nos qualifica de “herdeiros da promessa” (Hb. 6:17). Se a promessa, e a aliança que Deus fez com o seu povo, é para nós e nossos filhos, estes estão incluídos entre os que constituem a Igreja de Deus e têm direito ao sinal visível desse privilégio. Há quem afirme que S. Pedro se refere somente a filhos adultos de crentes em At. 2:39, mas assim não compreenderiam os ouvintes de Pedro, que eram judeus convertidos, pois eles sabiam que a promessa a que ele aludira era a mesma que Deus fizera a Abraão e aos seus descendentes e que, portanto, incluiria os filhos menores de todos os crentes nas promessas. Isaac, e muitos outros meninos de oito dias apenas, foram publicamente incorporados ao povo de Deus, pela circuncisão. É significativo que S. Pedro mencione três classes de pessoas às quais se fez a promessa: (1) Vós; eram os adultos que ouviam a sua pregação, na maioria judeus e prosélitos do judaísmo, crentes na religião do povo de Deus. (2) Vossos filhos; isto é, os filhos dos adeptos da religião de Deus. (2) Todos os que estão longe, a quantos chamar o Senhor nosso Deus; isto é, os demais eleitos de Deus, judeus e gentios, que haviam de aceitar o Evangelho no futuro.

Os judeus, na Antiga Dispensação, já estavam acostumados a incluir os filhos na Igreja visível de Deus, pelo rito da circuncisão. Não podiam, portanto, interpretar as palavras de S. Pedro, senão de modo a incluir os filhinhos na Igreja visível da Nova Dispensação. Na Igreja, seriam incluídos os que ouviam e criam no Evangelho, os seus filhos e todos os demais eleitos que viessem a ser chamados por Deus para fazer parte do seu povo. Os filhos de cristãos no Novo Testamento são chamados santos, mesmo quando somente um dos pais é crente. O apóstolo S. Paulo declara: “O marido incrédulo é santificado na mulher, e a mulher incrédula é santificada no irmão; de outra maneira os vossos filhos seriam imundos, mas agora são santos” (1Co. 7:14). São santificados os filhos em virtude da fé professada pelos pais. Para S. Paulo, santos são os próprios membros da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele escreveu várias cartas dirigidas aos santos, que eram membros de diversas igrejas (1Co. 1:2; Rm. 1:7; Ef. 1:1; Fp. 1:1).

Concluímos que as crianças, santos, filhos de crentes, são membros da igreja e, por isso mesmo, devem ser batizados. Até aqui, temos demonstrado, à luz das Escrituras, que o próprio Deus determinou fossem as crianças incluídas na sua Igreja visível, desde o tempo de Abraão, e que essa determinação divina não foi revogada, na Nova Dispensação, mas antes, confirmada pelos claros ensinos dos apóstolos Pedro e Paulo. E, sendo as crianças, por determinação divina, membros da Igreja de Deus, devem também receber o sinal visível desse fato auspicioso, o santo batismo instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo (Mt. 28:19)".

Fonte: Estudos Bíblicos sobre o Batismo de Crianças, Philippe Landes, Editora CEP, pg. 18-22.

domingo, 2 de junho de 2013

ALIMENTANDO O REBANHO OU ENTRETENDO OS CABRITOS?


Um mal terrível está no acampamento do Senhor, tão grande em infecciosidade que até os mais míopes não conseguem fazer vistas grossas a ele.

Durante os anos passados ele tem se desenvolvido numa dimensão anormal. Tem agido como um fermento insistente para que toda a massa seja levedada. O maligno jamais causou tanto mal a Igreja do que fazendo-a pensar que sua missão é prover entretenimento para as pessoas, com a boa intenção de conquista-las. De fato, a Igreja tem diminuído gradualmente a cor do seu testemunho, se moldado e adaptado as frivolidades que constituem o modismo de cada época, Depois passa a tolera-las em seu território. No próximo passo ira adotá-las sob o argumento de alcançar as massas.

Meu argumento é que providenciar diversão para as pessoas jamais é mencionado nas Escrituras como sendo função da Igreja, se esta é uma tarefa cristã, por que Cristo nunca falou sobre ela? "Ide portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo;" (Mt 28:19). Isto é suficientemente claro, se não, Ele teria acrescentado "e providenciem entretenimento para todos aqueles que não se renderem ao evangelho". Palavras como estas jamais serão encontradas na Bíblia! Parece que o Senhor da Igreja não pensou nisso! De novo, "Ele concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para pastores e mestres... para a edificação do corpo de Cristo" (Ef. 4:11). Onde aparecem os entretenedores? O Espirito Santo se cala a respeito deles! Os profetas foram perseguidos por divertirem o publico ou porque se recusaram a faze-lo? Os concertos de entretenimento não têm rol de mártires!

De novo, oferecer entretenimento está em completo antagonismo com a vida e ensino de Cristo e de todos os seus apóstolos. Qual era a atitude da Igreja para com o mundo? "Vos sois o sal da terra", não a bala de açúcar! Algo que o mundo vai cuspir fora e não engolir facilmente. Curta e afiada foi a exortação: "deixe que os mortos enterrem os seus mortos". Ele falava movido por uma honestidade terrível!

Se Cristo tivesse introduzido alguns elementos mais chamativos e agradáveis em sua missão, Ele teria sido mais popular e procurado de novo por aqueles que O abandonaram irritados. No entanto, Ele nunca disse: "corram atras dessas pessoas, Pedro, e diga-lhes que teremos um outro tipo de culto amanha, algo breve e atrativo com uma pregação bem curta. Nós teremos uma noite agradável e descontraída voltada para a vontade do povo. Diga-lhes que sem duvida o programa será muito bom. Seja rápido, Pedro, precisamos segurar essas pessoas de alguma maneira!"

Jesus tinha piedade dos pecadores, cuidava e chorava por eles, mas nunca procurou diverti-los. As Escrituras serão estudadas em vão se quisermos encontrar qualquer sinal do evangelho do entretenimento ou base para o ministério da diversão. Para Jesus não havia outra arma camuflada para conquistar os rebeldes espirituais. Ele tinha confiança na eficácia do evangelho puro e simples!

Quando Pedro e João foram separados para pregação do evangelho, a Igreja teve uma reunião de oração, mas eles não pediram "Senhor, conceda aos teus servos uma boa dose de criatividade santa, para que possam trazer um entretenimento piedoso a fim de que as pessoas vejam quão alegres nos somos!" O fato é que, como eles não cessaram de pregar a Cristo, não tiveram tempo de promover entretenimentos! Espalhados pela perseguição, foram por todas as partes pregando o evangelho, Eles "viraram o mundo de cabeça para baixo". Esta é a única diferença! Senhor, tenha misericórdia e nos conduza aos métodos apostólicos!

Finalmente, a missão do entretenedor falha por não alcançar o fim esperado. Seu ministério operará inversamente na vida do recém convertido que participa de todos os atos do grande show sem ter tempo de ser levado a maturidade. Permite aos zombadores e descuidados na fé, gratos a Deus porque a Igreja os alimenta pela metade, um envolvimento ministerial incompetente e comprometedor. Assim não haverá ninguém a quem dirigir uma resposta porque a missão do entretenedor não produz convertidos! A necessidade da nossa hora para o ministério é a junção de capacidade preparada e espiritualidade honesta, uma surgindo da outra como o fruto brota a partir da raiz. A necessidade é doutrina bíblica, tão compreendida e sentida, que venha a por o ser humano em chamas.

C. H. Spurgeon (1834-1892) - Londres.

O Caráter Encarnacional da Missão





Há muita propaganda e pouca identificação. Há muito turismo missionário e pouca inserção. A pergunta que deve ser feita é: “Como a Igreja está missionando nos dias atuais?”. Conquanto haja uma avalanche de vozes enfocando a obra missionária, a sua urgência e sua importância é igualmente essencial que sejam avaliados e colocados sob a luz das Escrituras. A Igreja cristã deve ser corajosa para avaliar as suas estratégias, seus métodos e táticas que usa para comunicar o Evangelho do Reino ao mundo. Parece que não é suficiente usar o marketing e a mídia para o anúncio das Boas Novas. Muito mais do que simplesmente a Igreja usar do turismo missionário para conhecer e manter trabalhos denominacionais em locais de difícil acesso nos interiores do país, ela precisa estar disposta a encarnar-se neste mundo, para que seja relevante e cumpra a Grande Comissão de modo integral. 

A Igreja necessita muito mais do que um avivamento para recobrar a sua natureza missionária. Há uma necessidade urgente de uma restauração motivacional acerca da missão da Igreja, partindo da confiança e interpretação correta da Palavra de Deus, rejeitando qualquer postulado fundamentado no pragmatismo e no experiencialismo humano. Para que a Igreja compreenda sua missão segundo o caráter encarnacional é impostergável que ela passe por uma reforma ampla e profunda de suas práticas missionárias.

A Igreja de hoje torna-se o reflexo da vida da sociedade. A estrutura social que se vive, está solidificada em bases do consumismo e do capitalismo selvagem, onde indivíduos vivem em função de possuir as coisas. A idéia de sucesso segundo o mundo passa pela motivação do egoísmo e do individualismo. A concepção de civilização está baseada ainda na visão de culturas e sub-culturas que se adéqüem à Ciência e à Tecnologia. Atualmente, ainda existem no mundo as mesmas lutas pela igualdade social e racial. Povos continuam a se enfrentar e a filosofia discriminatória é base da educação familiar destas raças.

O mundo tem contemplado atônito, etnocídios de povos que vivem em conflito a centenas de anos. Em contrapartida, no mundo ocidental a Globalização tem gerado um desnível social e econômico nunca visto. Os países economicamente ricos dominam, controlam e oprimem os países pobres dependentes.

No plano religioso, a Igreja enfrenta problemas semelhantes. Com as melhores motivações possíveis, a Igreja Protestante do século dezenove não conseguiu apagar a imagem de uma missão vinculada ao imperialismo ocidental sobre os povos do Terceiro Mundo. 

Se há uma Missão da Igreja ao mundo, ela não pode ser feita, sem as bases teológicas e missiológicas que emergem da Palavra de Deus. Para que a Igreja cumpra a sua Missão segundo um caráter encarnacional, há necessidade de se buscar uma teologia com o verdadeiro conteúdo do Evangelho do Reino. A superficialidade da interpretação do Evangelho tem gerado uma contextualização superficial. René Padilla discute a questão tratando da importância de se absorver profundamente, não somente as conseqüências soteriológicas da Cruz como também a sua ética. Diz o referido missiólogo: 

A cruz não é somente a negação da validade de todo o esforço do homem para ganhar o favor de Deus por meio das obras da lei; é também a exigência de um novo estilo de vida caracterizado pelo amor totalmente oposto a uma vida individualista, centralizada em ambições pessoais, indiferente frente às necessidades do próximo. O significado da cruz é ao mesmo tempo soteriológico e ético. E isto é assim porque, ao escolher a cruz, Jesus Cristo não somente deu forma ao indicativo do evangelho, mas simultaneamente também proveu o modelo para a vida humana aqui e agora.[1]

Se há alguma causa da Igreja não missionar de maneira completamente contextual é porque há uma falha na concepção do que seja o Evangelho da Cruz, que começa com a humilhação de Cristo ao se encarnar e encerra-se com a glória à destra do Pai. A Igreja precisa conhecer profundamente as conseqüências de sua eleição baseada no amor incondicional de Deus e transmitida na ação encarnacional do Filho. 

Há um déficit teológico na Igreja atual que resulta em uma débil contextualização do Evangelho. O problema de uma fraca contextualização é a falta de reflexão teológica profunda e relevante. Embora a Reforma tenha restaurado a Escritura como Palavra de Deus, a Igreja tem freqüentemente usado superficialmente esta Palavra para entender a obra missionária. Logo, a Igreja precisa demasiadamente retornar a uma teologia de missão fiel à Palavra.

Se a Teologia da Cruz está diluída, as conseqüências serão de uma evangelização nominal sem os resultados integrais do Evangelho do Reino. Valdir Steuernagel descreve esta questão com propriedade. Assim afirma: 

A nossa evangelização deve estar a serviço de um evangelho que afeta a pessoa toda em todas as áreas de sua vida. Isto quer dizer que o evangelho, embora seja pessoal, tem um forte colorido coletivo: é individual, mas tem uma inerente dimensão social; é uma mensagem de conforto, mas pede um compromisso ético; desencadeia uma espiritualidade terapêutica e leva a um inequívoco pacto com a justiça; produz igreja, mas uma igreja que deve estar concretamente enraizada na comunidade global dos seres e na busca desta por uma vida justa e digna. Quanto mais estivermos a serviço deste evangelho integral, que afeta todas as áreas da vida, tanto mais estaremos a serviço do Deus Trino. E esta será adoração verdadeira que, como o sacrifício de Abel, será acolhida nos céus.[2]
Outra questão que deve ser levada em consideração é que a contextualização está estreitamente ligada, não somente a compreensão de uma teologia bíblica que expõe os valores da cruz e do evangelho, mas também é motivada pelo modelo apostólico de Cristo. 

A missão da Igreja deve ser motivada pela missão encarnacional de Cristo. É imprescindível que seja observado aqui, princípios que nortearam a missão de Cristo ao mundo. A base textual é: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). Carlos del Pino comenta:

Um fator de grande importância quando vemos a missão da Igreja na perspectiva do apostolado de Cristo é que o próprio Senhor Jesus Cristo, como o enviado do Pai, torna-se o modelo vivo para que a Igreja realize sua missão. Há um modelo estabelecido aqui. Somos enviados como Igreja, seguindo o padrão que o Pai usou para enviar a Jesus.[3]

Este modelo deve estar vinculado à motivação da missão do Filho. Outra base textual é: 

Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando em semelhança de homens e reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz. (Fp 2.5-11). 

Estes dois textos auxiliam a Igreja a compreender a sua missão, a abrir mão dos seus direitos, abdicando da situação estável, do conforto, da tranqüilidade, para escolher o modelo da encarnação messiânica. A verdade que a Igreja somente cumpre a sua função missionária que reflete a sua natureza, quando está missionando contextualizando-se, em meio à instabilidade, às dificuldades, aos riscos de se viver encarnada no mundo e na sociedade. A eleição assim deixa de ser um privilégio para tornar-se uma responsabilidade de interagir no sofrimento e na deficiência do mundo. A teologia da cruz e a missão integral buscando a redenção do homem em sua integralidade humana deve Ter como motivação maior o exemplo do envio de Cristo. Enquanto a Igreja não “arregaçar as mangas” e “colocar os pés na lama”, a evangelização não será profunda na vida do ser humano. 

David Bosch caminha nesta mesma vereda. O missiólogo assevera: 

“Por causa da presença do Senhor no meio de seu povo, a Igreja pode ser considerada a despeito de sua pecaminosidade, como a continuação de Jesus Cristo, de sua encarnação no mundo”.[4]

Há outro fator que deve também ser considerado. A identificação com Cristo tende a gerar um envolvimento com o mundo. Muito diferente do que as ênfases monásticas pregam a Igreja eleita, santa, e propriedade exclusiva de Cristo é aquela que, partilhando dos mesmos ideais do Mestre está no meio da sociedade para mudá-la sendo luz do mundo e sal da terra. O envolvimento com o mundo tem propósitos que o missiólogo René Padilla expõe: 

O propósito da evangelização é, portanto, conduzir o homem não meramente a uma experiência subjetiva da salvação futura da alma, mas a uma reorientação radical de sua vida, a uma orientação que inclui sua libertação da escravização ao mundo e seus poderes, por um lado, e sua integração ao propósito de Deus de colocar todas as coisas sob o governo de Cristo, por outro. O evangelho não se dirige ao homem em um vazio. Ele tem a ver com o movimento do homem da velha humanidade em Adão, que pertence a esta era, à humanidade em Cristo, que pertence à era vindoura.[5]

É claramente comprovado que Cristo, não somente se encarnou e viveu no mundo, em meio às vicissitudes do mesmo, como também se envolveu com o sofrimento humano, buscando o homem pecador, destituído da glória de Deus, libertando-os das conseqüências da queda e conduzindo-os a uma reintegração não somente subjetiva, mas também objetiva no que diz respeito à verdadeira relação com Deus e com a vida humana.

Contudo, a encarnação missionária da Igreja não somente deve ser orientada pela identificação com Cristo e o envolvimento prático com o mundo, esta também precisa avaliar os contextos específicos onde o evangelho está sendo comunicado. Padilla acentua esta questão dizendo: “Para que o Evangelho não seja somente aceito intelectualmente, mas também vivido, ele necessariamente deverá tomar forma dentro de nosso próprio contexto cultural”. [6] e há quatro décadas atrás, Bavinck já se preocupava com esta orientação: “Um missionário precisa cuidadosamente tomar por conta a situação específica e circunstancial do povo com os quais ele está negociando”.[7].

É extremamente sério e importante que a Igreja compreenda que não é suficiente para ela, pregar um evangelho que não produza mudança de vida no indivíduo. Padilla enfoca seriamente esta questão, i.e. Para que haja transformação histórica a Igreja precisa missionar submetendo-se a contextos específicos culturais e históricos, em sua evangelização. Diz o referido escritor: 

Na medida em que a Palavra de Deus se encarna na Igreja, o Evangelho toma a forma na cultura. A intenção de Deus não é que o Evangelho se reduza a uma mensagem verbal, mas que se encarne na Igreja e através dela na história. A Igreja autóctone é aquela que em virtude da morte e ressurreição em Cristo, encarna o Evangelho dentro de sua própria cultura. Adota um estilo de vida, pensamento e ação em que seus próprios padrões culturais sejam transformados e realizados plenamente pelo Evangelho.[8]

E Tito Paredes acrescenta:

Assim como é fundamental ter sumamente claro o que é o evangelho e a missão da Igreja, igualmente importante é entender e compreender o contexto em que se proclama e vive a mensagem de Jesus Cristo. Assim como é crucial entender e ler adequadamente a Palavra de Deus, também é importante compreender o contexto sociocultural, já que o evangelho sempre é anunciado e vivido em contextos culturais específicos.[9]

Portanto, a Igreja quando se compromete com sua missão encarnacional no mundo, manifesta em plenitude a sua natureza missionária. É impossível ser Igreja e não estar no mundo, não se contextualizar. A chamada a uma auto avaliação de seus níveis de contextualização deve ser um de seus alvos, para que a Igreja mantenha sua natureza, pois do contrário, se ela não se encarnar poderá tomar uma forma aparente de Igreja, contudo será apenas uma organização religiosa, sem as máximas de Cristo Jesus, sem causar impacto na sociedade, e sem a manifestação da glória de Deus e da sua presença no contexto em que vive. 

Luiz Augusto C. Bueno, Recife, 2001.


[1] René Padilla, Missão Integral,(São Paulo: Temática Publicações, 1992), 35. 
[2] Valdir Steuernagel, A Grande Comissão: vamos lê-la de novo, em: A missão da Igreja,(Belo Horizonte: Missão Editora, 1994), 81,82. 
[3] Carlos del Pino, O apostolado de Cristo e a missão da Igreja, em Fides Reformata, Vol 5 n. 1, (São Paulo: CPPGAJ, 2000), 64. 
[4] David Bosch, Witness to the World (Atlanta: John Knox Press, 1980), 89. 
[5] Id., 38 
[6] René Padilla, Missão Integral, (São Paulo: Temática Publicações, 1992), 113. 
[7] Para compreender a preocupação missionária na área de contextualização, da transmissão e aborgadens missionárias, veja Johannes Bavinck, An Introduction to the Science of Missions, (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1960), 80-89. 
[8] René Padilla, Missão Integral, (São Paulo: Temática Publicações, 1992), 115. 
[9] Tito Paredes, Evangelho, cultura e missão: rumo a uma missiologia de transformação integral em Cristo, em: A missão da Igreja, Valdir Steuernagel, ed. (Belho Horizonte: Missão Editora, 1994, 243.

Ressurreição e Missão

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