terça-feira, 22 de maio de 2018

Reflexões "após" os 500 anos do Protestantismo Religioso

Quero confessar que relutei em escrever sobre os 500 anos da Reforma Protestante em outubro de 2017. Muitos estavam a escrever e diante de tantos escritos e tantas meditações, diante de tantas celebrações e pregações, nas igrejas ou nas redes sociais, esta reflexão seria diluída. Por isso compartilho apenas agora. Não quero saturar a mente do leitor que está cansada de tantos escritos a traduzir a Reforma Protestante apenas como um ato espiritualizado na história. 

Gostava de deixar aqui uma reflexão, de cunho muito pessoal, pois creio que devemos sempre aprender com a história. Como bem disse Edmund Burke: "Aqueles que não conhecem a história estão fadados a repeti-la". Portanto, creio que se fizermos uma leitura honesta, livre dos óculos denominacionalistas que usamos e retirássemos as escamas dogmáticas da nossa mente, tantas vezes tendenciosas e preconceituosas devido a linha religiosa e cultural de cada um, poderíamos fazer uma autocritica responsável e sincera. Isso iria nos ajudar, em muito.

O uso do termo "Protestante" não foi afirmado por Lutero e pelos seus seguidores e sim pelo ato de protesto dos príncipes alemães diante do Rei Carlos V. Esse termo então passou ao movimento, mas antes de ser teológico, foi muito mais político. Protestaram e romperam com o domínio político da Igreja Romana. Nesta época o movimento reformista trouxe um "frescor" ao pensamento tacanho e mesquinho. Num tempo onde o pensar era cerceado e policiado pelos príncipes da teologia e investigado pelos apologistas dominicanos, pela insegurança de Roma e o medo terrificante de perder o controle sobre os povos a que subjugava, os reformistas trouxeram uma nova forma de pensar. Claro que essa forma de pensar não era nada nova. Estes quiseram retornar as origens, motivados sim pela filosofia do Movimento Renascentista. Foi no retorno às línguas originais da  Escritura Sagrada, dos Pais Gregos e Latinos que o modo de pensar reformista teve um novo alento. O pensamento direcionado, modelado e orientado pela religiosidade medieval trazia angústia, escravização dos saberes e opressão. 


Na época "pensar" era um direito dos nobres teólogos e príncipes da igreja oficial. Havia um sentimento de medo naqueles que queriam pensar mas não podiam. Era o medo de perder a família, os bens e de serem queimados como hereges. O tempo estava translúcido para os pensadores. As 95 testes de Martinho Lutero confrontou um clero que banalizava a graça de Deus e a oferecia a troco de míseras moedas de um povo ignorante e analfabeto. Roma e seu cristianismo matava os homens pelo medo, pela espada e pelo fogo. 

Hoje, precisamos também de uma nova Reforma. Sim, uma Reforma do pensar humano, o pensar que traga um novo frescor ao estilo de vida cristão. Em muitos arraiais religiosos evangélicos nada é mais importante do que repetir fórmulas verbais, viver de um passado desconectado da sociedade com um estilo de vida irrelevante revelando uma fé inócua que nada pode produzir neste mundo. 

Os atuais evangélicos que se afirmam "herdeiros da Reforma Protestante" deveriam viver a nossa época com um alvo nobre, o mesmo dos que viveram no século XVI. Naquele tempo, o alvo era condicionado pela questão: "como o evangelho de Cristo pode ser relevante para esta geração?".  Esse evangelho moldou a cosmovisão do movimento como vanguarda do tempo. 

Precisamos de coragem para fazer nossa autocrítica e compreender que o evangelho exige que sejamos inteligentes e sábios como os reformadores foram. Os evangélicos deveriam se preocupar em manter os princípios inegociáveis da fé - isso envolve conhecer a Bíblia como Escritura Sagrada, a tradição apostólica e a história honesta - mas também comprometerem-se com a contextualização do evangelho em cada povo e cultura e não nos sepultarem-se na inoperosidade ética, moral e política. 

A Reforma Protestante rompeu com Roma, porque rompeu com o "óbvio", o mecanicismo cultual, a pusilanimidade e a inatividade dos doutores de uma igreja que haviam se tornado "sanguessugas" do sistema religioso da época. Não é mais possível ser passivo diante do mundo e de pessoas altamente capazes. Viver o óbvio é uma lástima. Isso parte de pessoas que nada podem oferecer senão um tradicionalismo ignorante e anacrônico. Estou a falar da necessidade que os evangélicos saibam responder a Deus tão profundamente que a vida de fé e a experiência eliminem naturalmente os "testemunhos" e exemplos ridicularizados pela sociedade agnóstica. A isso chamo de contextualização inteligente, bíblica e relevante por meio do evangelho que não muda mas que durante o processo histórico se conecta na vida cultural das pessoas como "a resposta" de suas almas. 


Cristo chama sua  sua igreja para comunicar de modo que inúmeras pessoas sejam chamadas a fé verdadeira. A igreja deve saber adaptar o evangelho supra-cultural dentro de sistemas culturais específicos. É o que vemos o Senhor fazer, depois seus apóstolos, os pais apostólicos, os pais da igreja e tantos outros. Isso nos chama a pensar nossa missão, se ainda estamos a fazer desta um instrumento de relevância. O mundo cansou-se do cristianismo colonialista, imperialista e impositivo das Cruzadas de evangelização modernas. Cansou-se da fé cristianizante e do evangelho massificante e populista. 

O mesmismo evangélico é aquele enraizado em seminários teológicos que têm transformado os estudantes em "profissionais da fé" para a manutenção do "status quo" denominacional. Hoje os conhecidos evangélicos já somam mais 50.000 grupos distintos em todo o mundo não conseguindo conviver uns com os outros. Quebramos os ossos simbólicos do Corpo de Jesus, quando nem na cruz quebraram seus membros.

Conquanto a reforma tenha trazido uma reordenação e abertura da mente eclesial, hoje na formação de estudantes é ocultado deles o que deveriam ler. Não podem ter acesso a uma formação realmente teológica. Vivemos um mesmismo teológico, porque as escolas de teologia deixaram de "formar" para "informar". Perdeu-se a piedade cristã, a prática da oração, o trabalho do testemunho comum. Estamos a tornar os estudantes de teologia piores do que a igreja de Roma fazia com seu clérigos na Idade Medieval. Eles serão os líderes do século XXI?  

Nosso maior desafio é na verdade voltarmos ao evangelho simples e profundo de Cristo. Simples devido a essencia da "fé una" e profundo devido a experiência da "fé orante". Vivemos um movimento e não uma vida de fé simples com profundas experiências. Seja bem esclarecido aqui que a palavra "experiências" não significa nem por um momento a idéia ridícula e ignorante dos atuais evangélicos renovados. A Reforma Protestante do século XVI nos ensinou muitas coisas, mas uma delas, talvez a principal foi responder a um mundo miserável e sofrido. Hoje fala-se de uma fé, mas uma fé que nada produz senão eventos e movimentos pragmáticos. Uma fé que não produz mudança política e mudança social é fé morta que tanto São Tiago combateu. Lembremos por exemplo que a Reforma implementada por João Calvino em Genebra foi tão importante que não se tolerava uma igreja sem uma Escola e sem apoio social no acolhimento dos refugiados.

Nossa urgente necessidade é de um retorno a oração incessante e adoração pessoal e coletiva. Conhecer a Deus em Cristo envolve fé empírica desprenteciosa. Aspectos da teologia reformada nos faz ver que havia uma forte conciencia na soberania de Deus. A afirmação "Soli Deo Gloria" não era apenas uma argumentação seca, mas a concepção de que se Deus é soberano, minha oração era um instrumento para conhecer mais a Ele e não para transformá-lo numa marionete folclórica. O uso desprentesioso da oração precisa tornar o centro de vida de adoração, ao contrário dos atuais herdeiros da reforma que vivem insatisfeitos e estão sempre a pedir a Deus muito além do comer, beber e vestir. A oração tornou-se uma prática muito mais tecnologica do que um estilo de vida contemplativo e motivado pelo facto de conhecer mais a Cristo.


Vivemos dias de uma confusão cúltica. Tornamos nossos encontros, eventos para conseguirmos sim adeptos do que adorar a Deus sem qualquer outro motivação. Assim percebemos que os shows evangélicos e encontros nada mais são do que acontecimentos motivados pelo dinheiro e fama, nada diferentes do cristianismo medieval e imoral da época. 

Memória sem autocrítica é ser saudosista passivo. Autocrítica sem memória é ser ignorante pró-ativo. Sem coragem de fazermos uma autocritica, estaremos fadados a viver a um protestantismo alemão duzentos anos após a Reforma de Lutero que estava árida e seca na vida e na prática espiritual. Mas ainda nesta época assim como Deus é soberano e usa a história para sua glória  havia um "toco" que floresceu. O pietismo levantou a igreja alemã reafirmou a tradição apostólica, a Escritura e a vida piedosa. Ali mais uma vez o remanescente promoveu a obra missionária feita sem tecnologia, sem dinheiro e sem mídia, porque pessoas tocadas profundamente pelo evangelho foram suficientes para considerar o que Deus poderia fazer na simplicidade e na sineceridade de seus corações.

Mudança e retorno. Sejam estas duas palavras que norteiem a vida dos cristãos verdadeiros do século XXI. 

Que o Senhor nos ajude.

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