Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus. Actos 20.24
O que tenho aprendido em meus 33 anos de serviço pastoral? Há muito que escrever, mas pelo que percebo, as experiências sempre se diluem quando queremos falar ou escrever. Contudo, sintetizo aqui algumas lições...
A vocação não pertence a igreja institucional e sim a Deus
Uma das questões mais absurdas é achar que a igreja institucional detém a vocação e os dons de Deus. Assim como o profeta que possuía uma relação misteriosa com Deus, assim é a relação do pastor com Deus. E por causa disso, assim como nascemos do alto, do alto também advém a vocação e a missão de cada um, acolhido pela graça de Deus. A vocação é obra do Espírito Santo. Ela não se origina na “igreja-sistema”, porém é nela que a vocação deve ser exercida e reconhecida. A vocação, portanto, é um privilégio pessoal mais do que uma obrigação. Quando se obriga a uma tarefa já que não é de natureza própria, jamais será vocação, e sim uma atividade profissional. Há muitos que querem vincular uma vocação a uma denominação religiosa, mas o Espírito Santo é como o vento e a vocação dEle não possui limites institucionais. Da mesma maneira que somos nascidos em Deus, em Deus também somos chamados. Portanto, o ministério é supra-denominacional.
A vocação pastoral é espinhosa
Os espinhos existem. São dados por Deus. Ele é aquele que delimita nosso campo de acção. Os espinhos e a dor são importantes para que o pastor não seja arrogante e vaidoso. A humilhação é o único caminho para que de facto ouçamos a Deus e com ele relacionemo-nos. Não existe pastor verdadeiro, vaidoso ou arrogante. Este é o falso pastor. Independente da vocação sempre existirão espinhos na vida pastoral. Sejam as perdas, as enfermidades, as tragédias, os “críticos de plantão” de fora e de dentro da igreja, o pastor precisa aceitar os espinhos de sua vida pastoral. Num mundo de confusão cúltica e doutrinária, principalmente devido ao evangelho da prosperidade e ao ensino de demônios que procura dissuadir os fiéis, sofrer tornou-se uma palavra esquecida em nosso meio. A vida pastoral sem o sofrimento torna os pastores apenas bons ilustradores de um evangelho hipócrita. Quando não vivemos as experiências dos fracassos, das doenças e da depressão no ministério, seremos bons replicadores de uma fé vazia.
A vocação pastoral é gloriosa
Ademais dos espinhos, a vocação é gloriosa, primeiro porque ela vem de Deus e, se vem de Deus, ela é livre como Ele é. É glorioso perceber que no sofrimento está a glória, que a cruz é loucura, que viver a misteriosa relação com Deus é a maior satisfação da vida pastoral. Viver a vocação pastoral é tratar com as coisas mais gloriosas do universo visível e invisível.
A vocação pastoral é para pecadores
Não existe a menor possibilidade de pensarmos que somos "especiais". Quanto mais consciente da santidade de Deus maior será a convicção de pecado. Quanto maior for nossa relação com Deus maior será nossa perceção da imundície que somos. O ministério pastoral não dá margem para se pensar que há "ungidos". O que pode haver é um pastor mais consciente e outro menos consciente da sua pecaminosidade.
A vocação pastoral terá um julgamento mais agravante
Ser pastor me dá a perceção que no Dia do Juízo, ele irá olhar para mim com um olhar mais firme, não do ponto de vista da fé, mas do ponto de vista de minhas obras. Exercer o ministério pastoral me dará sim maior possibilidade de ser envergonhado do Dia de Cristo se não for fiel Àquele que me designou.
A vocação pastoral exige uma experiência profunda com Cristo
Não há barganhas ou trocas com Cristo. Somente há uma vida de gratidão. Quando estiver a abusar da graça de Deus, é bem possível que eu mesmo já tenha deixado de viver como Cristo viveu. Quando passamos a tratar de maneira familiar das coisas de Cristo, então já perdemos a noção de que a vocação vem dele. Ao abusar da graça de Cristo, revelarei quanto estarei distante da vocação pastoral.
A vocação pastoral precisa praticar a oração como o pulmão da alma
Não há qualquer possibilidade de ser pastor e não viver uma vida de oração. Ao arriscarmo-nos nisso podemos até praticar a "não-oração". Essa prática revelará que de facto nunca tivemos nenhum conhecimento de Cristo em nós. Se “os pássaros voam, os peixes nadam, o homem ora”. Orar é essencial para alma. Mas a oração não é e nunca será uma verborragia racionalista, senão um encontro de contemplação. A oração nunca será uma homilia para Deus e sim uma experiência de intimidade que jamais terei o direito de abrir-de-mão e sair a contar os segredos de Cristo para comigo. Quando não se ora, a alma não respira e morre de asfixia.
A vocação pastoral e o estudo não são incompatíveis
Embora o teólogo fosse no início dos primeiros séculos considerado pela igreja como "aquele que fala com Deus e para Deus", pois a prática teológica era envolvida pela experiência de fé, isso não alienava a igreja de desenvolver teses e estudos, como nos mostra a Patrística e os Pais do Deserto, para combater as heresias que entravam em seu meio e também aquelas que brotavam de dentro dela. Portanto naquela época a oração e a defesa da fé se completavam. O serviço pastoral nos nossos dias também requer a mesma prática a fim de instruir os fiéis e fortalecer os que são provados. O pastor precisa ser bem preparado, fiel expositor dos ensinos de Cristo, como também cuidador de vidas, seja no aconselhamento como no treinamento através do discipulado para com os que se congregam, vivam neste sistema maligno e diverso, mas seguros nEle. Não há como separar a ação pastoral do estudo.
A perseguição dentro da igreja institucional é real e concreta
Se o sofrimento faz parte da vida pastoral, sofrer dentro da “igreja-sistema” é o primeiro sítio. Estando a frente de várias igrejas e comunidades, experimentando o abuso e exploração de falsos líderes desde a calúnia e difamação e até ações contra a nossa vida física, cheguei a conclusão que as Trevas também estão presentes na “igreja-sistema”. Se quisermos viver o evangelho, sofrer dentro da instituição é uma decorrência natural, porém recriminada e combatida pelo Senhor nos Evangelhos.
Ser pastor é ter filhos normais
Ser pastor é ter filhos normais. Digo isso porque meus filhos nunca foram adestrados a serem "pastorzinhos". É uma lástima quando sedimentamos em casa e na igreja a ideia de que os filhos de pastores devem ser um “modelo especial” na igreja e acabamos por desnaturalizar e descaracterizar nossos filhos como cristãos normais. Há famílias de pastores que encarnam tanto a vocação do pai que não conseguem fazer outra coisa senão dependendo do ministério do “paistor”. É trágico quando não desenvolvemos nos filhos a liberdade de serem o que foram chamados para ser. Muitos pastores imprimem tamanha personalização em seus filhos que criam “dinastias feudais eclesiásticas” para que seus filhos sejam os "sacerdotezinhos" a continuar ministérios centrados no genitor. Meus filhos sempre viveram buscando suas próprias vocações. Dou graças porque nunca os obriguei a replicar meu ministério pastoral.
A vocação não se perde quando o casamento acaba
Passar pela fatídica experiência de uma separação no casamento é algo que todos somos passíveis de experimentar. Contudo, apesar disso, meu Senhor, providenciou que eu pudesse continuar o ministério. Eu sempre serei "refém da graça” de Cristo. É por isso que continuo no ministério. Mas proibir a vocação quando se passa por uma situação destas é simplesmente uma negação da Graça que pregamos todos os domingos. Pela graça fui re-acolhido, pela graça continuo a caminhada pastoral. Continuo a acreditar que o casamento monogâmico é padrão de Deus para o ser humano. Continuo confirmando e realizando as cerimônias matrimoniais, casado e muito bem casado, pela misericórdia de Deus.
Não há outra coisa mais importante do que testemunhar da graça de Deus
Se a graça é este favor que me impele a continuar, é esta mesma graça que continuarei a testemunhar. Mas a graça só tem valor na nossa vida se não houver sentimento meritório de qualquer natureza. O mérito exclui a graça. Onde há sentimento de merecimento não há espaço para o Espírito Santo. Por isso há tantos ministérios áridos e pastores amargurados e rancorosos. Viver e testemunhar a graça é a razão de ser submisso a Cristo, não por dever e nem por produtividade, mas por simplicidade não esperando nada mais que apresentar-me diante de Cristo nAquele Dia quando Ele se encontrar comigo.
Mesmo que você queira deixar de ser pastor, nunca o conseguirá
Durante alguns momentos de minha vida tentei abandonar a carreira pastoral. Por uma série de razões e situações. E nestas horas sempre veio a minha mente a figura do profeta Jonas. Abandonar o chamado é buscar "um navio em Jope ancorado esperando o próximo passageiro". Jonas nunca conseguiu abandonar o chamado de Deus, porque Seu Espírito habitava o seu coração. De facto, você nunca conseguirá abandonar sua vida pastoral, se de verdade você tiver sido chamado por Deus para exercer o cuidado pastoral. Contudo preste atenção, como bem disse um de meus amigos: “sempre haverá um barquinho em Jope para lhe levar até o outro extremo da vontade de Deus”.
Algumas destas reflexões tem vindo ao meu coração e foram escritas para que eu me lembre que devo continuar. Mas também, se você estiver pensando em abandonar o ministério, medite nestas poucas linhas antes de tomar qualquer decisão.
Luiz Augusto Corrêa Bueno
30 de outubro de 2021
(véspera do Dia da Reforma Protestante)
