“Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos, por amor de mim e do evangelho, que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos...” Marcos 10:29,30
Quando experimentei minha primeira grande perda na vida, a de minha mãe, tinha apenas 10 anos, e meu tio, me afirmava no dia do funeral dela: “você terá muitas mães!”. De facto, naquela época eu não possuía noção do que isso significaria para mim no futuro.
Hoje, ao olhar para trás, fundamentado no Santo Evangelho, sabemos que a experiência do amor de Cristo através da fé, nos faz entender que o Seu Reino neste mundo extrapola a idéia natural de família baseada na consangüinidade. Por isso a família cristã é maior do que podemos imaginar.
Viver ao lado de Cristo, também é um convite para vivermos ao lado dos que amam a Cristo. E a família de Cristo é enorme, porque ela não se reproduz pela “carne e o sangue”, mas se reproduz por nascimento espiritual e pelo amor, pois os que pertencem a esta família “... não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.13). Ela não se baseia em transmissão de regras e normas para se viver melhor aqui nesta terra, mas se reproduz de acordo com a lei do amor para se viver uma eternidade. Somente podemos perceber o amor de Deus quando percebemos que somos amados e acolhidos pelos outros. Quando amamos a Deus e buscamos vivenciar este amor com nosso semelhante aí de facto se revela a família cristã.
Assim, a família cristã é maior do que imaginamos. Nela somos irmãos, embora sendo filhos, filhas, irmãos, irmãs, pais e mães, avôs e avós, ligados não por vínculos sociais, culturais, lingüísticos, políticos, geográficos, temporais, denominacionais, religiosos, mas pelo vínculo do amor ágape, isto é por meio da "renúncia-doação" em todo tempo.
O que de facto faz esta família ser cristã e ser grande, não é um modelo de vida religioso, palavras previamente decoradas, chavões de tratamento pessoal da religiosidade popular, mas a prática das boas obras, das ações cativantes, das atitudes de respeito e dos gestos cordiais. Por isso Jesus nos ensina já: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15.13).
Portanto a família cristã é maior do que pensamos. Minha família “de carne e sangue” é muito pequena, mas hoje vejo quantos pais e quantas mães, irmãos e irmãs, avôs e avós recebi por causa da graça de Cristo. Não porque merecia, mas pelo livre ato do amor de Cristo por mim: um “favor imerecido”. Nesta família não precisamos “pagar para entrar”, nem dar “oferta” para sermos recebidos ou pagarmos uma “taxa de manutenção” dos elos que nos ligam. Amamos de graça e somos amados por graça.
Temos um vazio dentro de nós, porque fomos criados para amar e sermos amados. O que carregamos em nossa história de vida são exemplos de desamor e abuso. Geralmente, a nossa doação está proporcionalmente ligada a um ambiente que se alimenta da lei da “causa-efeito”. Mas ao olharmos para a Família Espiritual esta lei não é levada em conta.
É a Santíssima Trindade o modelo para o aprendizado do amor. Aí há um ambiente cheio de amor, porque Deus é amor! Deus alimenta seu relacionamento por meio de três Pessoas. Tudo o Pai faz para o bem do Filho e do Espírito Santo e Estes o fazem para o bem do Pai. Entendo agora, porque Jesus orava por mim e por você, para que fôssemos “um” (Jo 17.21). Por que esse é o ambiente do Deus Triúno. Jesus deseja que nós alimentemos o mesmo ambiente de onde Ele aprendeu o amor. É um ambiente de doação recíproca. Esse foi o projeto inicial da criação. Esse é o projeto final na consumação eterna. A família espiritual nasce na Trindade e invade o coração e a alma de tantos homens e mulheres que se deixam acolher em cada acto, em cada gesto de amor que está em cada ser humano que se doa pelo outro. Por isso a família cristã é tão grande!