"O homem sanguinário e fraudulento é detestado pelo Senhor" (Salmo 5.7)
O sanguinário é o que costumeiramente conhecemos por assassino. Se o salmista somente ficasse neste adjetivo muitos poderiam se sentir aliviados, mas o Senhor vai além e afirma que o "fraudulento" também e da mesma forma é uma abominação ao Senhor. Ora, o fraudulento é o enganador. É aquele que frauda situações e pessoas. O que engana é um vilipendiador. Mostra-se amigo e solidário, mas usa a confiança depositada nele para tirar proveito de pessoas "inocentes".
O fraudulento se faz amigo de outrem, usando-os com o objetivo de se "dar bem" ou mesmo ganhar vantagem sobre situações ou terceiros. Essas pessoas não são encontradas apenas na sociedade de consumo, mas sobretudo no âmbito religioso e especialmente entre os líderes religiosos. São aqueles que Nosso Senhor chama de "lobos" em peles de ovelhas. São os roubadores. Mas esses roubam dinheiro? Não apenas. Esses roubam a confiança, o relacionamento sincero, são os que roubam a própria fé dos que são enganados.
Há o fraudulento genérico, onde eu e você nos encontramos. É verdade, pois cá ou acolá, no passado ou no presente devido a nossa miséria e natureza humanas já enganamos e nos enganamos. Já fraudamos pessoas em certos momentos, usamos aqueles que amávamos quando, motivados pelo nosso egoísmo, tiramos proveito de quem vive ou viveu ao nosso lado, fosse um cônjuge ou mesmo filhos e parentes. Devido ao nosso egoísmo, usamos pessoas e abusamos delas com a desculpa de que as amamos de verdade. Um excelente exemplo deste caso é de Jacó, filho de Isaque, neto de Abraão.
Mas há o fraudulento deliberado. Aquele que vive para defraudar. Toda a sua vida é marcada pela fraude, pelo engano e pela mentira. O seu objetivo é enganar. Mas todo fraudulento começa de modo genérico. O fraudulento deliberado o Senhor abomina e detesta. Isto é, Ele odeia! O tipo anterior, o Senhor prova e disciplina, e havendo arrependimento sincero e desejo de mudança, o Senhor restaura e perdoa. Mas o que vive da prática da fraude, não há salvação. O que vive para tirar vantagem de pessoas sempre será alvo da justiça vingativa de Deus, como o próprio apóstolo São Paulo escreve aos Tessalonicenses em sua primeira carta (4.6): "O Senhor é o vingador".
Portanto, antes que façamos ou mesmo projectemos alguma ação, deveríamos cuidar de nossas motivações para que não nos tornemos alvos da vingança de Deus como manifestação de Sua justiça. Sim, Ele não é apenas amor, mas também justiça.
E como isso deve proceder? Nenhum ser humano conseguirá agir com bondade própria sem que antes seu coração e sua alma estejam a ser dominados pela presença graciosa de Deus na pessoa do Espírito Santo. Portanto, qualquer um deve desenvolver um profundo senso de temor a Deus por meio da prática continua da oração interior. É a oração do Publicano como na parábola que nos conta o Senhor em Lucas 18.9-14. Sem a prática contínua desta oração poucos estarão conscientes de sua miséria espiritual. Lembremo-nos: "O sanguinário e fraudulento são detestados pelo Senhor". Confessemos nossa miséria e recebamos o perdão e mudança de nossos atos por meio da graça ou então permaneçamos como estamos a esperar a condenação eterna por causa de nosso coração miserável.
Sobretudo, devemos aprender a "restituir" os que defraudamos, como no caso de Zaqueu (Lucas 19.1-10). A restituição da confiança através de atos públicos é o começo de uma nova vida. Não há mudança sem a confissão do coração e a confissão testemunhal. Uma não se faz sem a outra. Restituir é a busca de reconquistar o coração daqueles que nós usurpamos e enganamos. Sem isso, há apenas remorso patológico. Lembremos-nos do que Nosso Senhor falou aos fariseus que criticavam a prostituta que ungiu seus pés: "A quem muito ama, muito perdoa"!