"Quando a Igreja deixa de ser missionária, perde sua razão de ser..."
Seria demasiado óbvio destacar o fato de que o cristianismo teve início como uma missão por excelência. Precisamos somente remeter às últimas palavras do Senhor logo após sua ressurreição: "Ide, pois, de todas as nações fazei discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santos..."
A Boa-Nova transformou a antiga religião de uma nação, na nova religião de uma Pessoa: Jesus Cristo, por meio de quem e em quem as pessoas de todas as nações puderam encontrar a resposta, o significado da vida e puderam receber a revelação da chegada de Deus.
Esta ênfase na Boa-Nova é fundamental para a missão. E, ao mesmo tempo, extremamente importante é a inevitável luta do Reino de Deus com este mundo. A vida inteira de Cristo pode ser considerada como "reprovada", no sentido de que o mundo o recusou e finalmente foi condenado à morte. Cristo, porém, ressuscitou da morte pelo poder de Deus, não pelo poder do homem; e a verdade da ressurreição é um mistério revelado somente àqueles que crêem n'Ele e, por conseguinte, àqueles que "não são deste mundo". O anúncio da verdade do Evangelho deverá "fazer frente" aos que se opõem e acarretará divisões.
Para ser mais concreto, vou citar uma breve passagem do prólogo ao Evangelho de João, escrita, ao que parece, por Cirilo, o Constantino de Tessalônica, quando foi a Morávia em missões e lá pregar a Boa-nova. Uma de suas primeiras tarefas foi traduzir as Sagradas Escrituras para a língua eslava para dar aos convertidos a possibilidade de escutar e entender a palavra de Deus em sua própria língua. O prólogo ao qual me refiro é: "Como os profetas da Antiguidade, Cristo veio para reunir todas as nações e línguas, posto que é a vida deste mundo".
O prólogo prossegue com o tema do Pentecostes, que deve ser entendido biblicamente em contraposição a origem da "torre de babel", no livro do Gênesis, no qual o conceito de multiplicidade de línguas se converteu em uma maldição. Mas em Pentecostes, quando veio o Espírito Santo, todas as pessoas começaram a falar diferentes línguas, porém, a dizer "as mesmas coisas, no mesmo espírito". Em outras palavras, na torre de babel, o pluralismo de línguas se converteu em uma maldição. No Pentecostes, porém, a multiplicidade de línguas se converteu em uma bênção, porque permitiu que todas as pessoas entendessem: o Evangelho, a mesma verdade e o mesmo Espírito, com a finalidade de torná-lo conhecido de todo o mundo. Cristo veio para reunir todas as nações e línguas.
Este é o primeiro aspecto no conceito de missão de Cirilo e Metódio, no qual a igreja ao longo dos séculos tem permanecido fiel: a idéia de que cada nação tem o direito a escutar e entender a palavra de Deus em sua própria língua. Esta foi uma das chaves do êxito bizantino na idade média, como a palavra de Deus e a Liturgia foram traduzidas a língua de cada nação.
Precisamente porque a missão é inseparável da vida é também inseparável do progresso do pensamento teológico, do pensamento cristão e da vida. O missionário, o teólogo, o cristão, devem então entender o que os Antigos Pais da Igreja ensinaram, de que o mesmo Senhor pode proclamar a Boa Nova de um modo que seja claro para as gentes de todo mundo, em seu próprio tempo.
A missão cristã é fundamentalmente o anúncio da verdade de Cristo a todos. Podemos ter todas as organizações no mundo. Podemos ter todos os meios para pregar o Evangelho e, ainda podemos falar no que nos concerne pessoalmente ao conhecimento de Deus. Esta é a verdadeira condição para fazer nossas palavras significativas e plenas de sentido.
(adaptado de João Meyendorff)