quarta-feira, 19 de julho de 2023

Uma advertência por zelo de amor

«E quisera Deus que a vossa alma estivesse no lugar da minha! Também eu vos consolaria com as minhas palavras e levantaria a cabeça sobre vós. A minha boca fortalecer-vos-ia e eu moveria os lábios para vos poupar» (Job 16.5-6). 

Por vezes, perante espíritos injustos que não se deixam reorientar pela pregação dos homens, é necessário desejar-lhes, com toda a bondade, as pragas de Deus. Porque, quando chegamos a isso pelo zêlo de um grande amor, não é certamente um castigo que pedimos para os transviados, mas uma advertência; o que assim exprimimos não é uma maldição, mas uma oração.

Note-se que Job não diz: «E quisera Deus que a minha alma estivesse no lugar da vossa!»; pois, se quisesse ser como eles, estaria a amaldiçoar-se a si próprio. O que ele queria era a elevação daqueles a quem tinha desejado um destino semelhante ao seu. Ora, nós consolamos os espíritos injustos no meio da sua flagelação quando lhes fazemos ver que os golpes exteriores reforçam a sua salvação interior; levantamos a cabeça quando orientamos o seu espírito, que é a parte mestra do nosso ser, para a compaixão; e fortalecemo-los quando sublinhamos a violência da sua dor com a suavidade das nossas palavras.

De facto, há homens que, por estarem fechados à vida interior, se veem abatidos até ao desespero pelos golpes do mundo exterior, o que leva o salmista a dizer: «Não resistirão à desgraça» (Sl 139.11); porque só aquele que vai buscar a alegria à sua esperança interior é capaz de resistir aos males exteriores.

Gregório Magno (540-604). Doutor da Igreja. Livro XIII

segunda-feira, 17 de julho de 2023

O sacrifício que agrada a Deus

Congregai os meus santos, aqueles que fizeram comigo um pacto com sacrifícios. (…) Oferece a Deus sacrifício de louvor e paga os teus votos ao Altíssimo. Invoca-me no dia da angústia, eu te livrarei e tu me glorificarás". Salmo 50.5,14,15

O Salmo 50 é um poema de Asafe, um levita do tempo do Rei Davi que cuidava dos louvores no Templo de Jerusalém. Ninguém melhor do que ele para saber e ensinar sobre o que é louvar e conduzir os sacerdotes a adoração. Certamente o Senhor se agrada quando oferecemos louvores a Ele. Porém o que Asafe nos revela aqui é que louvor, para ser verdadeiro, deve conter algumas atitudes pessoais e coletivas.

Primeiro, o que Asafe nos diz é que Deus somente aceita o louvor daquele que aceitou fazer um Pacto de sacrifício. Na verdade nenhum de nós é capaz de sacrificar-se, a não ser o próprio Filho de Deus. Ele foi o sacerdote e o sacrifício por todos aqueles que em fé no Seu sacrifício, O buscam de coração. Este sacrifício não é nosso, mas sim de Cristo que nos substituiu, condenado em nosso lugar, ofereceu-se ao Pai em nosso lugar. De nós, apenas podemos por meio da fé nEle entregarmo-nos como oferta incondicional de nossa vida. 

Nosso sacrifício de adoração é o sacrifício-oferta de nosso Senhor. Por causa disso podemos e devemos nos oferecer a ele não por obrigação legal mas por gratidão amorosa. As nossas ações agora, são ações de obediência prazerosa. Contudo, o Senhor não aceita o sacrifício de louvor de alguém que embora afirme sua fé Nele, viva como um descrente.

Segundo, para que o sacrifício de louvor seja aceito por Deus é necessário cumprir os votos que cada um fez ao Senhor. Votos são promessas que fazemos a Deus. Sim, promessa é uma palavra empenhada, é a expressão verbal do que vai no coração. O Senhor nos adverte: melhor é não fazer votos, contudo se o fizer, pague-os. E para lembrar, os primeiros votos que fazemos são o voto do Batismo e da Profissão de fé. Neles, afirmamos que estamos sinceramente arrependidos do mal que temos praticado e que desejamos viver entregando cada segundo de nossa vida ao Senhor, santificando-nos e buscando em primeiro a justiça do Reino de Deus. Poderíamos enumerar uma série de votos que fazemos ao Senhor desde o momento da participação da Ceia do Senhor como, e até, todas as vezes que em oração estamos nos consagrando ao Senhor ou cantando um hino a dizer que queremos servi-lo para sempre. 

Para que isso aconteça é necessário que desenvolvamos o que chamamos de discplinas espirituais, pois elas nos auxiliam a desenvolver a nossa salvação (Ef 2.12). O Espírito Santo nos supre com as mais variadas discplinas espirituais:  o tempo de devoção em oração todos os dias, a presença em cultos de adoração comunitária, a participação dos sacramentos entre outros. 

Lembremos que nossa natureza é inconstante, fraca, suscetível a erros. Fazer votos a Deus significa também evitar a maledicência, do perjuro, o julgamento temerário, a fofoca, a murmuração, o convívio com os impiedosos, os negócios escusos, as palavras de baixo calão. Nosso sacrifício de louvor é aceito quando renovamo-nos espiritualemnte, todos os dias e sob a graça de Deus podemos e devemos ser melhores e mais parecidos com o Senhor do que os dias que já se passaram. 

Terceiro, o sacrifício de louvor é recebido pelo Senhor, quando buscamos a vida de oração constante. O Senhor diz: invoca-me no dia da angustia, eu te livrarei e tu me glorificarás. Invocar significa buscá-lo em oração. É in-vocare, isto é chamar para dentro de nosso coração a presença do Espírito Santo. Mas não devemos esquecer de fazer um trabalho de limpeza constante. O que é isso? É o esvaziamento de nós mesmos, de toda sujeira que retemos no dia-a-dia. Precisamos nos esvaziar da vaidade pessoal, do vitimismo, da prepotência intelectual e social. Sem esse esvaziamento, o Senhor não pode viver dentro de nós, ou mesmo tomar todos os cômodos de nosso coração. Quando O invocamos, ele promete que no dia da angústia Ele nos livrará. Portanto, o Senhor afirma que isso redundará em glorificação a Ele: Tu me glorificarás.

Portanto, nosso sacrifício de louvor terá sentido. Do contrário, o que faremos em particular e nos cultos comunitários será apenas muita cantoria. Canta-se muito, ensaia-se muito para depois cantar mais, Porém louvamos pouco. Nosso cantar não pode ser um canto comum, como se canta qualquer música popular. Sem o verdadeiro sacrifício, não há glorificação. Glorifiquemos o Senhor e respondamos ao seu pacto, cumpramos nossos votos e invoquemos Seu nome. Assim nosso louvor será como o dos anjos que cantam no mais altos Céus.  









A quem o Reino de Deus pertence?

O reino de Deus pertence a pessoas que não tentam fazer gênero, nem impressionar alguém, muito menos a elas mesmas. Elas não estão a planear o que podem fazer para chamar atenção para si mesmas, não se preocupam com a forma a como os seus atos são interpretados ou perguntam-se se ganharão mais likes pelas suas postagens em aplicações. 

Vinte séculos depois, Jesus fala ao fundamentalista presunçoso preso ao narcisismo fatal do perfeccionismo espiritual, àqueles de nós pegos em flagrante, a vangloriarmo-nos de nossas vitórias no campo da espiritualidade, àqueles de nós que choramingam e pavoneiam suas fraquezas humanas e defeitos de caráter. 

Não temos de lutar para alcançar uma posição de onde poderemos nos relacionar favoravelmente com Deus, não temos de projetar modos engenhosos de explicar a nossa posição para Jesus, não temos que criar um rosto aceitável para nós mesmos, não temos de atingir qualquer estado de sentimento espiritual ou de compreensão intelectual. 

Tudo e tão somente, temos de aceitar com alegria a Dádiva do Reino, Sua graça e Seu amor inextinguível.

 (adaptado de: "O evangelho maltrapilho")

Fé e obras: marcas do verdadeiro discípulo de Jesus

Vários que dominicalmente vão às igrejas, vivem por adiar seu compromisso com Deus. Muitos que procuram por Deus, não desejam se render a Sua autoridade. Quando o Senhor Jesus Cristo convida a todos a seguí-lo, lembra que a obediência não é opcional e que a fé do verdadeiro discípulo não é uma fé fácil. 

Há um custo pelo discipulado e consequentemente pela vida eterna. Atualmente, qualquer que se declare cristão, poderá afirmar sua profissão de fé sem considerar o seu compromisso. Muitos crêem que estão salvos, que viverão eternamente nas moradas celestiais, todavia vivem completamente estéreis, por que continuam adiando seu compromisso com Cristo, ou seja, com o discipulado que envolve aprender a submeter-se a outros, praticar a resignação em comunidade e viver sob princípios de um liderança pastoral e espiritual. 

Jesus nos afirma que nenhuma experiência de fé pode ser tomada como evidência de salvação se estiver separada de uma vida de obediência a Ele. Somos encorajados a examinar a nós mesmos frequentemente. Cada árvore é conhecida pelo seu fruto. A evidência da atuação do Espírito Santo em alguém é o fruto inevitável de um comportamento em transformação em que se vive a buscar as virtudes que Nosso Senhor expressou enquanto aqui viveu: compreensão, aceitação, resignação, não-violência verbal, paciência, paz com as pessoas, domínio próprio, gentileza, cordialidade, linguagem sadia, doação aos outros, submissão. Onde há também ausência da prática da verdadeira justiça e a presença do jeitinho nas negociações pessoais, do famoso chico-esperto, onde o ego quer levar vantagem em tudo, tais pessoas ainda vivem sua impiedade distantes da vida eterna, mesmo que afirmem verbalmente que estão salvas.

A salvação não é somente um ato. É um processo em andamento que depende de uma decisão. Não é possível receber a Cristo como Salvador e rejeitá-lo como Senhor. Com toda certeza “o Senhor não irá salvar aqueles em quem Ele não pode mandar” (A.W. T.). Mas todo discipulado começa com uma decisão. É o ponto de partida e não o ponto de chegada. 

Há uma idéia equivocada sobre a fé o discipulado em Jesus. Ele nos afirma que a chamada do Calvário tem que ser vista pelo que realmente é, um convite. Ser um cristão de verdade é atendê-la de corpo e alma. Qualquer coisa menos que isso é incredulidade. Mas esta caminhada nos custa um esforço e um planeamento. S. Paulo nos diz que a verdadeira Graça nos ensina a renegar a impiedade e as paixões desse sistema mundano para que vivamos em piedade e em boas obras. A Graça não nos concede permissão para viver como queremos. Ela é inseparável do arrependimento, da rendição e da decisão de obedecer seus mandamentos. 

Hoje se fala muito em aceitar Cristo, um conceito que elimina a submissão, a rendição pessoal e o abandono do pecado deliberado, desvalorizando as obras como evidência de salvação eterna. Porém, o arrependimento está no âmago da Fé. As Escrituras igualam fé e obediência. Fé e obras jamais são incompatíveis. A verdadeira salvação, operada por Deus, nunca deixa de produzir frutos na vida de uma pessoa e através dela.

Farto!

Estou farto de caprichos e melindres,  de queixumes dos que vivem a lustrar as moedas de seu passado. Estou farto dos caciques eclesiais. Qu...