segunda-feira, 20 de maio de 2013

A espiritualidade da vergonha




Na sociedade moderna, a tolerância transformou-se na maior de todas as virtudes. Aceita-se tudo, não se critica nada. O que mais me preocupa não é a capacidade de compaixão e paciência que a tolerância produz em nós, mas a ausência, cada vez maior, de valores e princípios absolutos que nos ajudam a separar o justo do injusto, o certo do errado. 

O sociólogo francês Gilles Lipovetsky, em seu livro “A Sociedade Pós-Moralista”, descreve assim a tolerância na cultura moderna: “A tolerância adquire uma maior fundamentação social não tanto pelo fortalecimento da compreensão dos deveres de cada um perante o próximo, mas em razão de uma nova dimensão cultural que rejeita os grandes projetos coletivos, exaurindo de sentido o moralismo autoritário, diluindo o conteúdo das discussões ideológicas, políticas e religiosas de toda a conotação de valor absoluto, orientando cada vez mais os indivíduos rumo à sua própria meta de realização pessoal”. Ou seja, a ausência de uma consciência coletiva, a rejeição a qualquer verdade que seja absoluta e a busca pela realização pessoal geram uma forma perigosa de tolerância. 

Entretanto, o perigo da rejeição a uma verdade absoluta está no fato de que ser tolerante hoje implica, necessariamente, não julgar, não ter mais critérios que separem o bem do mal, o justo do injusto; e, uma vez que não julgamos mais, poucas coisas nos chocam ou abalam e, quando o fazem, é por pouco tempo. Vivemos um estado de normalidade caótica, de paz frágil, de tranqüilidade tão relativa quanto os nossos valores. 

Na oração de confissão de Daniel há uma declaração que vem se tornando cada dia mais rara entre nós: “A ti, ó Senhor, pertence a justiça, mas a nós, o corar de vergonha” (Dn 9.7). Isto não acontece mais. Somos demasiadamente tolerantes para “corar de vergonha”. Mesmo diante de fatos trágicos e deploráveis que vemos todos os dias, o máximo que conseguimos é uma indignação passageira. Porém, é a possibilidade de corar de vergonha que não me permite rir da corrupção, achar normal a promiscuidade, conviver naturalmente com a maldade e a mentira, ou, ainda, achar graça da injustiça. 

Vivemos numa cultura que se orgulha do pecado, glamourizando-o através dos meios de comunicação, fazendo das tribunas públicas um palco de mentiras, organizando marchas para celebrá-lo, rindo da corrupção, exaltando a esperteza. E ninguém fica corado de vergonha. 

Daniel contrasta, de um lado, a natureza justa de Deus e, de outro, a corrupção e a injustiça do seu povo. Ele só é capaz de fazer isto porque sua ética e moral estão ancoradas em verdades absolutas sobre as quais não pode haver tolerância. A conclusão a que ele chega é que, diante da justiça divina e do quadro trágico de um povo que se orgulha de sua maldade, o que sobra é o “corar de vergonha”. 

Ele nos apresenta aqui a importância de uma vergonha saudável e essencial na preservação da dignidade humana e espiritualidade cristã. A vergonha aqui é a virtude que nos ajuda a reconhecer nossos erros, limitações, faltas e pecados porque ainda somos capazes de perceber que existe algo melhor, mais belo, mais sublime, mais nobre, mais justo, mais santo e mais humano pelo qual vale a pena lutar. A vergonha nos impõe um limite. É por isto que o caminho para o crescimento e amadurecimento passa pela capacidade de ficar corado de vergonha diante de tudo aquilo que compromete a justiça e a santidade. No caminho da santidade lidamos com o amor, verdade, bondade, justiça, beleza, entrega, doação e cuidado. A falta de vergonha nos leva a negar este caminho e optar pela mentira, manipulação, engano, falsidade, hipocrisia e violência. 

“Corar de vergonha” é uma virtude que falta na experiência espiritual moderna, a virtude de olhar para o pecado que habita em nós, a mentira e o engano que residem nos porões da alma, a injustiça que se alimenta do egoísmo, a malícia que desperta os desejos mais mesquinhos, e se entristecer. Precisamos reconhecer que foram os nossos pecados que levaram o Santo Filho de Deus a sofrer a vergonha da cruz. Quando olhamos para a cruz e contemplamos nela a beleza e a pureza do amor, só nos resta “corar de vergonha”. 

* Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de “Janelas para a Vida” e “O Caminho do Coração”. 

domingo, 19 de maio de 2013

ELEIÇÃO E SACERDÓCIO

Desde quando Deus chamou Abraão para que nele todas as nações da terra fossem benditas, temos o chamado para o sacerdócio. Esta palavra se consolida quando na aliança do Sinai, o Senhor por meio de Moisés, chamava a descendência de Abraão, o povo de Israel, para que vivessem como uma nação separada e santa para Ele, sendo intermediários da bênção de Deus para todos os povos pagãos. 

Este sacerdócio real, que melhor é traduzido por reino sacerdotal é a razão de nossa eleição e de nosso chamado como povo de Deus. O fato de sermos eleitos por Deus possui uma causa: viver como sacerdotes entre Deus e os povos, entre Cristo e o mundo. Nossa existência somente tem razão de ser se vivermos em prol dos outros. Foi este o projeto divino para a nação de Israel no Antigo Testamento. Assim como o sacerdote permanecia entre Deus e seu povo intermediando a graça, mediando-a e distribuindo-a, a igreja, por meio de Seu Espírito também deve manter-se entre Deus e o mundo servindo-o e sendo uma bênção para todos, luz do mundo e sal da terra. 

Nossa missão atual é vivermos como sacerdotes. Somos salvos e nos encontramos com Cristo para servirmos como sacerdócio de maneira santa, isto é, nossa relação com Deus deve ser tão profunda que não temos condições de viver senão como ele vive. Portanto, a palavra do Apóstolo Pedro faz sentido: “Vós porém sois sacerdócio real, nação santa, povo eleito de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para sua maravilhosa luz”. (I Pedro 2.9). Não existe uma eleição divina num vazio. Somos eleitos para servir, como sacerdotes, estando no meio, recebendo de Deus e repassando para todos, a sua graça indistintamente. Quando o cristão não vive desta maneira, ele nega sua fé e cai em apostasia. Quando ele se gaba de sua eleição divina e se arvora como alguém melhor do que os outros, sem servi-los por meio da ajuda, do amor, dos atos de misericórdia, da evangelização, da solidariedade, ele está pronto a viver sua vida como um fariseu da época de Jesus. 

Quais são as razões de você estar participando de uma igreja? Você já usa seus dons e talentos para o exercício de seu sacerdócio? Quanto tempo você está reservando para ajudar e servir os outros? Não há eleição senão por causa do serviço. Não há maior alegria senão a alegria de ser como Cristo, um servidor. Confirme tua eleição: sirva! Esta é a única maneira de você ter certeza de sua salvação!

segunda-feira, 6 de maio de 2013

OFERECENDO COM O CORAÇÃO


“a quem dá liberalmente ainda se lhe acrescenta mais e mais; ao que retém mais do que é justo ser-lhe-á em pura perda.” (Provérbios 11.24)

Tudo que fazemos na vida deve ser acompanhado pela fé. Há muita confusão quando ligamos a fé aos bens e ao dinheiro. Muitos dizem que não há qualquer ligação entre ambos, mas de fato, nossa espiritualidade não se projeta num vazio, e sim num ambiente concreto, material e físico. Nossa fé só é fé “viva” se envolve “obras”. A fé dinâmica sempre produz alguma coisa. Assim também nossa vida financeira é conseqüência de nossa relação com Deus. Por isso nosso Dízimo e nossas ofertas estão estreitamente ligadas a nossa fé.

É importante que definamos alguns termos para não confundir: “O amor” é o maior dom, porém ele não é apenas sentimento, é oferta de algo, é sacrifício. As “esmolas” são pequenas ofertas que usamos para ajudar a pessoas necessitadas que nos pedem e batem à nossa porta. Os “donativos” são doações esporádicas que realizamos em caso de campanhas beneficentes. A “contribuição” são ofertas que assumimos em caráter provisório ou permanente, destinadas a instituições ou pessoas como ajuda, por acreditarmos naquele trabalho. O “Dízimo” tem por base nossa produção. De tudo que produzimos uma parte destinamos à comunidade, à igreja, locais onde acreditamos que Deus faz ali residir seu nome. É o principal meio de contribuição para a manutenção do Corpo de Cristo, a igreja, na qual somos membros e nos identificamos. As ofertas e os dízimos são deixados no altar do Senhor dentro de uma liturgia, como sinal de nossa fé e de nossa gratidão a Deus. Muitos não vivem esse momento como de fato são chamados a viver diante de Deus, porque entendem o dízimo separado da vida cristã.

Muitos vivem o momento do ofertório oferecendo com indiferença esmolas, deixando passar este momento importante de fé. Ofertar a Deus é entrar em profunda comunhão com Ele, pois ele mesmo é uma oferenda constante na vida de todos nós. Ofereceu-nos em primeiro lugar o dom da vida, depois nos ofereceu a sua própria criação (ervas, plantas, frutos, animais como nosso alimento) para prover todas as nossas necessidades. Ele nos deu rios, mares, as terras e os minérios, nos ofereceu as leis que conduzem a nossa felicidade e, além disso, tornou-se filho de “Adão”, oferecendo-se como sacrifício para remissão de todos os pecados da humanidade. Ofereceu-nos ainda o Seu Espírito Santo que inspira e instrui para a manutenção da vida.

Muito diferente do que se está acostumado a viver nos cultos, o ofertório não é um momento para “esmolas”, mas é um momento de consagração especial, que revela onde está nosso coração. Este momento é a nossa resposta que damos a Deus. Se o fazemos de coração, então as ofertas e os dízimos revelam proporcionalmente como desejamos desenvolver nosso relacionamento com Ele.

Como vivemos o momento do ofertório em nossos cultos? Muito longe dos cultos apelativos de dinheiro que estamos acostumados a ver, o ofertório num culto centrado em Deus é nossa resposta em gratidão que damos a Cristo. Aquilo que é entregue com fé, deve ser administrado com fé. Muito maior é a responsabilidade daqueles que gerem as economias que são acolhidas com fé. Então as causas locais serão supridas, as missões acontecerão e nossa ação social se desenvolverá. Tudo que é feito com fé e compromisso, sempre terá de Deus a sua aprovação e sua bênção.

Farto!

Estou farto de caprichos e melindres,  de queixumes dos que vivem a lustrar as moedas de seu passado. Estou farto dos caciques eclesiais. Qu...