quarta-feira, 19 de julho de 2023

Uma advertência por zelo de amor

«E quisera Deus que a vossa alma estivesse no lugar da minha! Também eu vos consolaria com as minhas palavras e levantaria a cabeça sobre vós. A minha boca fortalecer-vos-ia e eu moveria os lábios para vos poupar» (Job 16.5-6). 

Por vezes, perante espíritos injustos que não se deixam reorientar pela pregação dos homens, é necessário desejar-lhes, com toda a bondade, as pragas de Deus. Porque, quando chegamos a isso pelo zêlo de um grande amor, não é certamente um castigo que pedimos para os transviados, mas uma advertência; o que assim exprimimos não é uma maldição, mas uma oração.

Note-se que Job não diz: «E quisera Deus que a minha alma estivesse no lugar da vossa!»; pois, se quisesse ser como eles, estaria a amaldiçoar-se a si próprio. O que ele queria era a elevação daqueles a quem tinha desejado um destino semelhante ao seu. Ora, nós consolamos os espíritos injustos no meio da sua flagelação quando lhes fazemos ver que os golpes exteriores reforçam a sua salvação interior; levantamos a cabeça quando orientamos o seu espírito, que é a parte mestra do nosso ser, para a compaixão; e fortalecemo-los quando sublinhamos a violência da sua dor com a suavidade das nossas palavras.

De facto, há homens que, por estarem fechados à vida interior, se veem abatidos até ao desespero pelos golpes do mundo exterior, o que leva o salmista a dizer: «Não resistirão à desgraça» (Sl 139.11); porque só aquele que vai buscar a alegria à sua esperança interior é capaz de resistir aos males exteriores.

Gregório Magno (540-604). Doutor da Igreja. Livro XIII

segunda-feira, 17 de julho de 2023

O sacrifício que agrada a Deus

Congregai os meus santos, aqueles que fizeram comigo um pacto com sacrifícios. (…) Oferece a Deus sacrifício de louvor e paga os teus votos ao Altíssimo. Invoca-me no dia da angústia, eu te livrarei e tu me glorificarás". Salmo 50.5,14,15

O Salmo 50 é um poema de Asafe, um levita do tempo do Rei Davi que cuidava dos louvores no Templo de Jerusalém. Ninguém melhor do que ele para saber e ensinar sobre o que é louvar e conduzir os sacerdotes a adoração. Certamente o Senhor se agrada quando oferecemos louvores a Ele. Porém o que Asafe nos revela aqui é que louvor, para ser verdadeiro, deve conter algumas atitudes pessoais e coletivas.

Primeiro, o que Asafe nos diz é que Deus somente aceita o louvor daquele que aceitou fazer um Pacto de sacrifício. Na verdade nenhum de nós é capaz de sacrificar-se, a não ser o próprio Filho de Deus. Ele foi o sacerdote e o sacrifício por todos aqueles que em fé no Seu sacrifício, O buscam de coração. Este sacrifício não é nosso, mas sim de Cristo que nos substituiu, condenado em nosso lugar, ofereceu-se ao Pai em nosso lugar. De nós, apenas podemos por meio da fé nEle entregarmo-nos como oferta incondicional de nossa vida. 

Nosso sacrifício de adoração é o sacrifício-oferta de nosso Senhor. Por causa disso podemos e devemos nos oferecer a ele não por obrigação legal mas por gratidão amorosa. As nossas ações agora, são ações de obediência prazerosa. Contudo, o Senhor não aceita o sacrifício de louvor de alguém que embora afirme sua fé Nele, viva como um descrente.

Segundo, para que o sacrifício de louvor seja aceito por Deus é necessário cumprir os votos que cada um fez ao Senhor. Votos são promessas que fazemos a Deus. Sim, promessa é uma palavra empenhada, é a expressão verbal do que vai no coração. O Senhor nos adverte: melhor é não fazer votos, contudo se o fizer, pague-os. E para lembrar, os primeiros votos que fazemos são o voto do Batismo e da Profissão de fé. Neles, afirmamos que estamos sinceramente arrependidos do mal que temos praticado e que desejamos viver entregando cada segundo de nossa vida ao Senhor, santificando-nos e buscando em primeiro a justiça do Reino de Deus. Poderíamos enumerar uma série de votos que fazemos ao Senhor desde o momento da participação da Ceia do Senhor como, e até, todas as vezes que em oração estamos nos consagrando ao Senhor ou cantando um hino a dizer que queremos servi-lo para sempre. 

Para que isso aconteça é necessário que desenvolvamos o que chamamos de discplinas espirituais, pois elas nos auxiliam a desenvolver a nossa salvação (Ef 2.12). O Espírito Santo nos supre com as mais variadas discplinas espirituais:  o tempo de devoção em oração todos os dias, a presença em cultos de adoração comunitária, a participação dos sacramentos entre outros. 

Lembremos que nossa natureza é inconstante, fraca, suscetível a erros. Fazer votos a Deus significa também evitar a maledicência, do perjuro, o julgamento temerário, a fofoca, a murmuração, o convívio com os impiedosos, os negócios escusos, as palavras de baixo calão. Nosso sacrifício de louvor é aceito quando renovamo-nos espiritualemnte, todos os dias e sob a graça de Deus podemos e devemos ser melhores e mais parecidos com o Senhor do que os dias que já se passaram. 

Terceiro, o sacrifício de louvor é recebido pelo Senhor, quando buscamos a vida de oração constante. O Senhor diz: invoca-me no dia da angustia, eu te livrarei e tu me glorificarás. Invocar significa buscá-lo em oração. É in-vocare, isto é chamar para dentro de nosso coração a presença do Espírito Santo. Mas não devemos esquecer de fazer um trabalho de limpeza constante. O que é isso? É o esvaziamento de nós mesmos, de toda sujeira que retemos no dia-a-dia. Precisamos nos esvaziar da vaidade pessoal, do vitimismo, da prepotência intelectual e social. Sem esse esvaziamento, o Senhor não pode viver dentro de nós, ou mesmo tomar todos os cômodos de nosso coração. Quando O invocamos, ele promete que no dia da angústia Ele nos livrará. Portanto, o Senhor afirma que isso redundará em glorificação a Ele: Tu me glorificarás.

Portanto, nosso sacrifício de louvor terá sentido. Do contrário, o que faremos em particular e nos cultos comunitários será apenas muita cantoria. Canta-se muito, ensaia-se muito para depois cantar mais, Porém louvamos pouco. Nosso cantar não pode ser um canto comum, como se canta qualquer música popular. Sem o verdadeiro sacrifício, não há glorificação. Glorifiquemos o Senhor e respondamos ao seu pacto, cumpramos nossos votos e invoquemos Seu nome. Assim nosso louvor será como o dos anjos que cantam no mais altos Céus.  









A quem o Reino de Deus pertence?

O reino de Deus pertence a pessoas que não tentam fazer gênero, nem impressionar alguém, muito menos a elas mesmas. Elas não estão a planear o que podem fazer para chamar atenção para si mesmas, não se preocupam com a forma a como os seus atos são interpretados ou perguntam-se se ganharão mais likes pelas suas postagens em aplicações. 

Vinte séculos depois, Jesus fala ao fundamentalista presunçoso preso ao narcisismo fatal do perfeccionismo espiritual, àqueles de nós pegos em flagrante, a vangloriarmo-nos de nossas vitórias no campo da espiritualidade, àqueles de nós que choramingam e pavoneiam suas fraquezas humanas e defeitos de caráter. 

Não temos de lutar para alcançar uma posição de onde poderemos nos relacionar favoravelmente com Deus, não temos de projetar modos engenhosos de explicar a nossa posição para Jesus, não temos que criar um rosto aceitável para nós mesmos, não temos de atingir qualquer estado de sentimento espiritual ou de compreensão intelectual. 

Tudo e tão somente, temos de aceitar com alegria a Dádiva do Reino, Sua graça e Seu amor inextinguível.

 (adaptado de: "O evangelho maltrapilho")

Fé e obras: marcas do verdadeiro discípulo de Jesus

Vários que dominicalmente vão às igrejas, vivem por adiar seu compromisso com Deus. Muitos que procuram por Deus, não desejam se render a Sua autoridade. Quando o Senhor Jesus Cristo convida a todos a seguí-lo, lembra que a obediência não é opcional e que a fé do verdadeiro discípulo não é uma fé fácil. 

Há um custo pelo discipulado e consequentemente pela vida eterna. Atualmente, qualquer que se declare cristão, poderá afirmar sua profissão de fé sem considerar o seu compromisso. Muitos crêem que estão salvos, que viverão eternamente nas moradas celestiais, todavia vivem completamente estéreis, por que continuam adiando seu compromisso com Cristo, ou seja, com o discipulado que envolve aprender a submeter-se a outros, praticar a resignação em comunidade e viver sob princípios de um liderança pastoral e espiritual. 

Jesus nos afirma que nenhuma experiência de fé pode ser tomada como evidência de salvação se estiver separada de uma vida de obediência a Ele. Somos encorajados a examinar a nós mesmos frequentemente. Cada árvore é conhecida pelo seu fruto. A evidência da atuação do Espírito Santo em alguém é o fruto inevitável de um comportamento em transformação em que se vive a buscar as virtudes que Nosso Senhor expressou enquanto aqui viveu: compreensão, aceitação, resignação, não-violência verbal, paciência, paz com as pessoas, domínio próprio, gentileza, cordialidade, linguagem sadia, doação aos outros, submissão. Onde há também ausência da prática da verdadeira justiça e a presença do jeitinho nas negociações pessoais, do famoso chico-esperto, onde o ego quer levar vantagem em tudo, tais pessoas ainda vivem sua impiedade distantes da vida eterna, mesmo que afirmem verbalmente que estão salvas.

A salvação não é somente um ato. É um processo em andamento que depende de uma decisão. Não é possível receber a Cristo como Salvador e rejeitá-lo como Senhor. Com toda certeza “o Senhor não irá salvar aqueles em quem Ele não pode mandar” (A.W. T.). Mas todo discipulado começa com uma decisão. É o ponto de partida e não o ponto de chegada. 

Há uma idéia equivocada sobre a fé o discipulado em Jesus. Ele nos afirma que a chamada do Calvário tem que ser vista pelo que realmente é, um convite. Ser um cristão de verdade é atendê-la de corpo e alma. Qualquer coisa menos que isso é incredulidade. Mas esta caminhada nos custa um esforço e um planeamento. S. Paulo nos diz que a verdadeira Graça nos ensina a renegar a impiedade e as paixões desse sistema mundano para que vivamos em piedade e em boas obras. A Graça não nos concede permissão para viver como queremos. Ela é inseparável do arrependimento, da rendição e da decisão de obedecer seus mandamentos. 

Hoje se fala muito em aceitar Cristo, um conceito que elimina a submissão, a rendição pessoal e o abandono do pecado deliberado, desvalorizando as obras como evidência de salvação eterna. Porém, o arrependimento está no âmago da Fé. As Escrituras igualam fé e obediência. Fé e obras jamais são incompatíveis. A verdadeira salvação, operada por Deus, nunca deixa de produzir frutos na vida de uma pessoa e através dela.

terça-feira, 6 de junho de 2023

QUAL A TUA COMENDA?

"não dando nós nenhum motivo de escândalo em coisa alguma, para que o ministério não seja censurado. Pelo contrário, em tudo recomendando-nos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, no saber, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, quer ofensivas, quer defensivas; por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama, como enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos e, entretanto, bem-conhecidos; como se estivéssemos morrendo e, contudo, eis que vivemos; como castigados, porém não mortos; entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo. 2 Coríntios 6:3-10. 

O apóstolo São Paulo como um servidor do evangelho em sua carta aos Coríntios, estava a se recomendar visto que alguns questionavam a sua autoridade apostólica. Ele então apresenta a sua "Comenda". É a sua apresentação e a sua carta de recomendação a eles.

Pensando em si mesmo, já parou para pensar quais são as suas Comendas? Em que você pode se auto-recomendar às pessoas que estão a sua volta? Qual é o seu curriculum vitae? O que referenda a sua vida como um cristão, um filho de Deus, uma testemunha de Cristo? 

Sua paciência e aflições passadas por Cristo lhe recomendam? O quanto de necessidade e angústia você já passou por Cristo homologam o seu testemunho? Seu sofrimento físico e emocional por causa de Cristo, seu trabalho e privação de comida e sono lhe recomendam como filho de Deus? Sua santidade e pureza ou mesmo seu conhecimento e paciência lhe recomendam como uma testemunha de Jesus, o Senhor? 

Seu amor sacrificial homologam a sua fé? Já chegou a ser confundido como um enganador ou forasteiro? Já passou pelo esgotamento emocional, já se deprimiu por amor a Cristo? Já perdeu seu dinheiro por amor a Ele? 

Lembre-se que o nível da fé é expresso em sua vida proporcionalmente em suas ações e estilo de vida. Nosso êxito deve ir além do político e socialmente corretos! Seu VERDADEIRO ÊXITO deve ser um paradoxo. Aos olhos dAquele que lhe conhece melhor que você mesmo, o que importa são ações e não discursos. Esse paradoxo está baseado na coragem de se gloriar em sua fraqueza. Porque quando somos fracos aos nossos olhos e aos de outros, então é que somos fortes. (2Co 12.9,10). 

Enfim, qual é a tua Comenda? 

VAMOS EM FRENTE!


quarta-feira, 26 de abril de 2023

O cristão e o não-cristão

O cristão e o não-cristão são absolutamente diferentes naquilo que admiram. O cristão admira o homem que é “pobre de espírito”, enquanto os filósofos gregos desprezavam tal homem, e todos que seguem a filosofia grega, seja intelectual ou praticamente, ainda fazem exatamente a mesma coisa. O mundo acredita na autoconfiança, na autoexpressão e na maestria da vida; o cristão acredita em ser “pobre de espírito”. Pegue os jornais e veja o tipo de pessoa que o mundo admira. Você nunca encontrará nada que esteja mais distante das bem-aventuranças do que aquilo que apela ao homem natural e ao homem do mundo. O que desperta sua admiração é a própria antítese do que você encontra aqui... 

Então, obviamente, eles devem ser diferentes naquilo que buscam. ‘Bem-aventurados os que têm fome e sede...’ Depois de quê? Riqueza, dinheiro, status, posição, publicidade? De jeito nenhum. 'de Justiça'. . . Pegue qualquer homem que não afirme ser um cristão... Descubra o que ele está procurando e o que ele realmente quer, e você verá que é sempre diferente disso. 

Então, é claro, eles são absolutamente diferentes naquilo que fazem. Isso segue por necessidade... O não-cristão é absolutamente consistente. Ele diz que vive para este mundo. 'Este', diz ele, 'é o único mundo, e vou tirar tudo o que puder dele.' Agora, o cristão... considera este mundo apenas como o caminho de entrada em algo vasto, eterno e glorioso. Toda a sua visão e ambição é diferente. Ele sente, portanto, que deve estar vivendo de uma maneira diferente. Como o homem do mundo é consistente, o cristão também deve ser consistente. Se for, será muito diferente do outro homem; ele não pode evitar. Veja o que nos diz 1ª Pedro 2:11, 12: “Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das paixões carnais que combatem contra a alma; tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no Dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem”. Outra diferença essencial é em sua crença sobre o que eles podem fazer. O homem do mundo está muito confiante quanto à sua própria capacidade. O cristão é um homem… que está verdadeiramente consciente de suas próprias limitações. D.Martin Lloyd Jones, Estudos no Sermão do Monte, 1, pp. 37-8. (tradução livre)


sábado, 4 de fevereiro de 2023

FRAUDE: UM SINTOMA DA FALTA DE TEMOR A DEUS

"O homem sanguinário e fraudulento é detestado pelo Senhor" (Salmo 5.7)

O sanguinário é o que costumeiramente conhecemos por assassino. Se o salmista somente ficasse neste adjetivo muitos poderiam se sentir aliviados, mas o Senhor vai além e afirma que o "fraudulento" também e da mesma forma é uma abominação ao Senhor. Ora, o fraudulento é o enganador. É aquele que frauda situações e pessoas. O que engana é um vilipendiador. Mostra-se amigo e solidário, mas usa a confiança depositada nele para tirar proveito de pessoas "inocentes". 

O fraudulento se faz amigo de outrem, usando-os com o objetivo de se "dar bem" ou mesmo ganhar vantagem sobre situações ou terceiros. Essas pessoas não são encontradas apenas na sociedade de consumo, mas sobretudo no âmbito religioso e especialmente entre os líderes religiosos. São aqueles que Nosso Senhor chama de "lobos" em peles de ovelhas. São os roubadores. Mas esses roubam dinheiro? Não apenas. Esses roubam a confiança, o relacionamento sincero, são os que roubam a própria fé dos que são enganados. 

Há o fraudulento genérico, onde eu e você nos encontramos. É verdade, pois cá ou acolá, no passado ou no presente devido a nossa miséria e natureza humanas já enganamos e nos enganamos. Já fraudamos pessoas em certos momentos, usamos aqueles que amávamos quando, motivados pelo nosso egoísmo, tiramos proveito de quem vive ou viveu ao nosso lado, fosse um cônjuge ou mesmo filhos e parentes. Devido ao nosso egoísmo, usamos pessoas e abusamos delas com a desculpa de que as amamos de verdade. Um excelente exemplo deste caso é de Jacó, filho de Isaque, neto de Abraão.

Mas há o fraudulento deliberado. Aquele que vive para defraudar. Toda a sua vida é marcada pela fraude, pelo engano e pela mentira. O seu objetivo é enganar. Mas todo fraudulento começa de modo genérico. O fraudulento deliberado o Senhor abomina e detesta. Isto é, Ele odeia! O tipo anterior, o Senhor prova e disciplina, e havendo arrependimento sincero e desejo de mudança, o Senhor restaura e perdoa. Mas o que vive da prática da fraude, não há salvação. O que vive para tirar vantagem de pessoas sempre será alvo da justiça vingativa de Deus, como o próprio apóstolo São Paulo escreve aos Tessalonicenses em sua primeira carta (4.6): "O Senhor é o vingador". 

Portanto, antes que façamos ou mesmo projectemos alguma ação, deveríamos cuidar de nossas motivações para que não nos tornemos alvos da vingança de Deus como manifestação de Sua justiça. Sim, Ele não é apenas amor, mas também justiça. 

E como isso deve proceder? Nenhum ser humano conseguirá agir com bondade própria sem que antes seu coração e sua alma estejam a ser dominados pela presença graciosa de Deus na pessoa do Espírito Santo. Portanto, qualquer um deve desenvolver um profundo senso de temor a Deus por meio da prática continua da oração interior. É a oração do Publicano como na parábola que nos conta o Senhor em Lucas 18.9-14. Sem a prática contínua desta oração poucos estarão conscientes de sua miséria espiritual. Lembremo-nos: "O sanguinário e fraudulento são detestados pelo Senhor". Confessemos nossa miséria e recebamos o perdão e mudança de nossos atos por meio da graça ou então permaneçamos como estamos a esperar a condenação eterna por causa de nosso coração miserável. 

Sobretudo, devemos aprender a "restituir" os que defraudamos, como no caso de Zaqueu (Lucas 19.1-10). A restituição da confiança através de atos públicos é o começo de uma nova vida. Não há mudança sem a confissão do coração e a confissão testemunhal. Uma não se faz sem a outra. Restituir é a busca de reconquistar o coração daqueles que nós usurpamos e enganamos. Sem isso, há apenas remorso patológico. Lembremos-nos do que Nosso Senhor falou aos fariseus que criticavam a prostituta que ungiu seus pés: "A quem muito ama, muito perdoa"!

sábado, 8 de outubro de 2022

POR UMA NOVA REFORMA, URGENTE

No dia 31 de outubro de 1517, um Monge e Padre da Ordem Agostiniana, chamado Martinho Lutero, fixou na Porta da Catedral de Wittemberg, na Alemanha, 95 temas que revelavam o desvio  da Igreja Cristã Ocidental quanto a prática da fé, da graça divina e o uso das Escrituras Sagradas. Basicamente Lutero declarava que o evangelho de Cristo não podia ser trocado por dinheiro, como a compra das “indulgências” oferecidas pela Igreja a qual prometia o perdão eterno a anos de salvação pelo valor que alguém pudesse pagar. Este ato foi suficiente para dar início a uma revolução na Europa que culminou na Reforma Religiosa do século 17. 

A partir de então, a Igreja Católica Romana foi sacudida por movimentos liderados por vários Padres e Teólogos que também afirmavam, segundo a Bíblia, a necessidade de um retorno ao Cristianismo Original, por que a igreja havia se “desviado” de seu foco, a testemunhar livremente da Verdade que era Cristo, fundamentada nas Escrituras Sagradas e recebida unicamente pela Graça de Deus.

Hoje depois de 505 anos desta revolução, a igreja que antes era chamada de “Protestante” agora é conhecida como “Evangélica”, e possui pelo menos 80.000 denominações fragmentadas no mundo todo e a cada dia vai se distanciando mais do foco que viveu a Igreja Primitiva. Muitas destas fragmentações são mais comprometidas com elas mesmas do que com o próprio Evangelho que Lutero e tantos outros defenderam. A liturgia de culto que antes era um serviço prestado a Deus, hoje é um show-business onde se canta mais do que se serve e suas músicas fazem parte do mundo gospel de artistas famosos.

Assim como em todas as épocas, as comunidades cristãs necessitam fazer uma auto-crítica de seus princípios e envidar esforços para retornar a simplicidade e verdade do Evangelho. Quando isto não acontece as comunidades vão morrendo e a fé torna-se apenas uma oratória. Portanto, neste mês que comemoramos a Reforma, devemos nos lembrar de Lutero e tantos outros que viveram a fé para a sua geração. Não desejamos voltar a Época Medieval, mas sim aos princípios de vida do Evangelho simples e sinceros. Jamais deixemos que a Fé seja sinônimo de troca e discurso. Precisamos hoje de homens e mulheres que como Lutero tiveram a coragem para mudar e sinceridade para manifestar a fé em todas as áreas de suas vidas. 


AH! QUE SAUDADE DE LUTERO!

Tenho ensinado em várias Escolas Teológicas, e igrejas ao longo de meus 29 anos de Magistério Teológico e dos 34 anos de Ministério Pastoral Ordenado. Cada ano que passa, percebo que os participantes das igrejas locais e alunos de seminários estão cada vez mais pobres de conhecimento bíblico e teológico. Para isso contribuem uma série de fatores: O primeiro deles é a fraca formação do Ensino Fundamental de nossas Escolas, sejam elas públicas ou particulares. Nunca se viu tanta gente concluindo o 9º ano em que sequer sabe fazer uma interpretação de texto. O consumismo aumentou e o poder de compra também, mas não podemos falar a mesma coisa da Alfabetização, da formação Cultural e Educacional. As pessoas não conhecem a história e acabam por repetir os mesmos erros do passado, tanto na política quanto na educação.

O segundo deles está entre a maioria dos cristãos nas igrejas. Eles tem dificuldade para ler, pensar e entender o que se lê. Na maioria das Escolas Teológicas os estudantes não sabem sequer construir um texto inteligível. Nas igrejas, vemos a dificuldade por que passam as Escolas Bíblicas Dominicais. Sempre pouco frequentadas. Os cultos celebrativos possuem mais gente por que não há necessidade de se pensar tanto, apenas “receber” o que se vê e o que se ouve num sermão.

Ainda mais, vivemos dias de grande confusão hilariante. Isso por que os que possuem um espírito mais expansivo nas comunidades e um tanto ousado, se arvoram na conquista de seus espaços acreditando que são "ungidos por Deus" para pregarem ou ensinarem, quando apenas têm boa vontade ou iniciativa. Mas como a confusão é geral, todo mundo diz tudo, sem entender nada, apenas completando com um: “glória a Deus” ou “Aleluia”. Não são poucos os vídeos postados nas redes sociais, revelando a oratória e pregação dessa gente. Sem contar a irreverência, a falta de silêncio e a “salada de espiritualidade” que observamos nos arraiais eclesiais. Práticas esquisitas, estranhas e incompreensíveis. O mundo ocidental é rico e criativo para viver o seu sincretismo religioso-animista. São muitos “sapatinhos de fogo”, “rosas ungidas”, “mantos sagrados”, e mais um milhão de idéias sobre prosperidade que exalam dos mensageiros para engodar os incautos.

Quem são os culpados? Somos nós mesmos. A começar da geração de outros líderes sem profunda formação teológica e bíblica. Comunidades que não fazem seus congregados a pensar biblicamente jamais terão condições de construírem pontes que possam ligar os diversos tempos e a história a fim de que a Luz verdadeira irradie nos corações. Os responsáveis somos nós que misturamos “fé com ideologia” e “doutrina com tradicionalismo ignorante”.

Ah, como tenho saudades de Lutero! Saudades de seu espírito voluntarioso e ousado. Sim, ele soube unir pontes e provocar uma revolução nos seus dias. Ele foi um homem corajoso. Teve coragem de dizer “não” aos que levavam as pessoas ao “fundo poço” da ignorância espiritual. Hoje, precisamos de outra Reforma, mas não a de Lutero. A dele foi para o seu tempo. Precisamos de outros que sejam como ele, afim de que vidas sejam de facto libertadas da escravidão ideológica e institucional, da superficialidade educacional, cultural e religiosa vigentes e encontrem a Verdade que traz a Vida.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Tu me guais com teu Conselho e depois me recebes na glória

Tu me guias com teu conselho, e depois me recebes na glória. (Salmo 73.24)

Há um ano estava a chorar copiosamente. O Senhor levara meu pai, o Seu Raul. Partiu em silêncio, sentado num banquinho. Fechou seus olhos e expirou. Pensaram que estava desmaiado. Foi morar com Deus. 

Muitos pensamentos povoaram minha mente e meu coração. A distância e a impossibillidade de viajar para seu funeral aumentou a dor e a saudade. Hoje ainda dói a sua ausência. Talvez porque ainda penso que ele está em casa a trabalhar em sua oficina. Mas Deus que é riquíssimo em compaixão vai amenizando a falta da conversa e da presença.

Acredito que o Salmo 73.24 pode ser um retrato daquilo que foi o Seu Raul. Na versão original grega diz: "Tu me conduzes pela mão a ensinar-me". Cristo ensinou várias coisas ao meu pai. Foram experiências, as mais dolorosas e as frustrações com pessoas que estimava, mas guardava todas elas no seu coração. Falava muito pouco de suas dores. Mas enfim, o Senhor o recebeu na glória. 

Não por mim, nem pelas minhas certezas tão duvidosas, mas a palavra de Deus afirma, que Deus nos recebe na glória. No original é "me acolhes na glória". Se Deus nos conduzir aqui, com toda segurança ele nos acolherá em Sua glória.

A nossa vida ao lado de Cristo não é cheia de vitórias. O Salmista escritor estava a passar por uma crise existencial de identidade extremamente violenta. Dúvidas brotavam em seu coração, principalmente acerca dos que viviam na impiedade e a prosperidade deles. Até que um Dia, ele entrou "no santuário de Deus". 

O templo fez toda a diferença. É na adoração e na contemplação que podemos conhecer mais o Senhor e quais são seus planos para nós. Deus se revelou ao Salmista. Ele entrou no templo e adorou, percebeu o fim dos ímpios e aceitou a compaixão de Deus em sua vida.

"Senhor, levas-me ao templo para adorar-te. Estás em meu coração e por tua graça sou um 'templinho do Senhor', onde teu Espírito habita. Concedes-me conhecer-te mais e mais até o Dia que Tu me recebas na glória".

Covilhã, 27/01/2022 

terça-feira, 21 de junho de 2022

Não podeis servir a Deus e ao dinheiro

Vede que vantagens Jesus Cristo nos promete e como os seus preceitos nos são úteis, livrando-nos de grandes males. O mal que as riquezas vos causam, diz Ele, não é só o de armarem os ladrões contra vós e encherem o vosso espírito de trevas. A grande ferida que eles fazem é arrancar-vos ao bem-aventurado serviço de Jesus Cristo, para vos tornarem escravos de um metal insensível e inanimado. «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro». 

Tremamos, irmãos, só de pensar que forçamos Jesus Cristo a falar-nos do dinheiro como divindade oposta a Deus!Mas então, direis vós, os antigos patriarcas não arranjaram maneira de servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro? De forma nenhuma. Como foi então que Abraão, como foi que Job, irradiaram a sua magnificência? Não estamos a falar daqueles que possuem riquezas, mas dos que são possuídos por elas. Job era rico; servia-se do dinheiro, mas não servia o dinheiro, era seu gestor mas não seu adorador. Considerava os seus bens como se pertencessem a outro, considerava-se dispensador e não proprietário. [...] Foi por isso que não se afligiu quando os perdeu. 

João Crisóstomo (c. 345-407) 
presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, Pai da Igreja 
Homilias sobre o Evangelho de S. Mateus, n°21, 1; PG 57, 294-296

terça-feira, 7 de junho de 2022

«Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Parácleto»

Não há nada tão manso ou suave em Deus como o seu Espírito Santo; Ele é a própria bondade de Deus; Ele é Deus. [...] Ao princípio – era necessário que assim fosse –, o Espírito invisível manifestou a sua vinda através de sinais visíveis. Mas hoje, quanto mais espirituais são os sinais, mais convenientes são e mais parecem dignos do Espírito Santo. Assim, Ele veio sobre os apóstolos sob a forma de línguas de fogo, a fim de que eles anunciassem a todos os povos palavras de fogo e que pregassem com língua de fogo uma lei de fogo. Que ninguém se queixe por o Espírito não Se nos manifestar da mesma forma. «A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum» (1Cor 12,7). Será necessário dizê-lo? — foi mais para nós do que para os apóstolos que esta manifestação teve lugar. Com efeito, de que lhes teria servido falar línguas estrangeiras se não fosse para converter os povos?

Mas houve outra revelação que os tocou intimamente e ainda hoje é assim que o Espírito Se manifesta em nós. Ficou claro para todos que eles tinham sido revestidos da «força do alto» (Lc 24,49) porque, de um espírito tão medroso, passaram ter a uma grande segurança. Deixaram de fugir, deixaram de se esconder por receio; passaram então a empregar mais energia na pregação do que a que tinham empregado para fugir. Esta transformação foi obra do Altíssimo, como é claramente visível em Pedro, o príncipe dos apóstolos: se ontem se assustara à voz de uma criada (cf Mt 26,69), agora está inabalável diante das ameaças dos sumos-sacerdotes. «Os apóstolos saíram da presença do Sinédrio cheios de alegria, por terem merecido serem ultrajados por causa do nome de Jesus» (At 5,41). No entanto, havia ainda pouco, ao levarem Jesus ao sinédrio, tinham-se posto em fuga e tinham-no abandonado.

Quem poderia duvidar da vinda do Espírito de fortaleza, cujo poder invisível lhes iluminara os corações? Da mesma forma, o que o Espírito opera em nós presta testemunho da sua presença em nós.

Bernardo de Claraval (1091-1153)
monge cisterciense
1.º Sermão para o Pentecostes, 1-2

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Estar com Cristo

"Então eles, vendo a intrepidez de Pedro e João, e tendo percebido que eram homens iletrados e indoutos, se admiravam; e reconheciam que haviam estado com Jesus". (Atos 4.13) 

Nossa missão e nosso serviço em testemunhar do amor de Deus, vai mais além dos discursos bem orientados e doutrinas expostas com lógica e clareza, vai muito mais além do que técnicas e métodos para atrair pessoas para uma determinada igreja. 

Nosso testemunho sobre Jesus Cristo vai além de instruções sobre como "plantar uma igreja", ou sobre "como evangelizar" entre outros. O Sinédrio que havia julgado e sentenciado o Senhor Jesus à morte, agora estava a receber os apóstolos Pedro e João que muito além de suas limitações e capacidades intelectuais, revelaram naturalmente, algo fundamental: "Eles haviam estado com Jesus e muito mais, com o Jesus ressuscitado". 

É essa a chave. Esse é o segredo para o testemunho: "estar com Jesus". Eles estiveram com Jesus! Por quê? porque o conheceram e foram íntimos dele. Não foram percebidos porque possuiam uma doutrina refinada. Não foram vistos como excelentes oradores sobre a história do povo judeu, ou porque possuiam um método homilético de pregação que agradava a todos. Nem sequer porque possuíam um local mais agradável e confortável de toda Jerusalém para recepcionar os que ali poderiam concorrer para ouvir um bom sermão pregado por um dos seus apóstolos. Não. 

A razão fundamental que chamou a atenção do Sinédrio, foi porque haviam convivido tão de perto com a Palavra da Vida, o Homem-Deus, que não tinham como negar. Jesus se personificou neles. Estamos hoje uma aridez espiritual. Podemos ser bons em falar de Jesus, mas muito pobres em viver com Jesus. Buscamos a Deus porque queremos conquistar o céu e evitar o inferno. Oramos e cultuamos porque amamos mais a nós mesmos e queremos um "céu" aqui na terra. 

Queremos expandir nossas denominações, expandir as missões, mas sequer expandimos todos os dias  nossa relação com o Deus que veio até nós e nos amou desde antes da fundação do universo.  Milhares estão interessados em seus planos pessoais, na busca de uma melhor condição de saúde, na estabilidade dos negócios, no dinheiro que nos oferece uma liberdade sem fim, mesmo que essa liberdade seja fantasiosa. 

Portanto, o remédio é a renúncia do dispensável pelo essencial e do secundário pelo prioritário. A tarefa básica de qualquer cristão, não é falar de Cristo para outros, mas deixar Cristo viver dentro de nós. É desapegarmo-nos do amor próprio e do interesse egoísta por tudo, é colocar em último plano tudo o que impede uma relação profunda com Cristo. É encarecidamente viver Jesus, estar com Ele, amá-lo sem esperar receber nada nesta vida, senão o que pode oferecer: a vida com eternidade. 

É desapegar de títulos e de tudo que está na rota de colisão contra a vida de Jesus em nós. É estar escondido em Jesus. Não é possível viver "o céu aqui", se nem sequer mantemos um relacionamento íntimo com Cristo. João, apóstolo, diz: "O que era desde o princípio, o logos (a palavra viva), e que se manifestou e nós o temos visto, ouvido, contemplado e tocado" (I Jo1.1). Isso é relacionamento, o resto é verborragia. 

O Senhor disse: "voltarei para vós, não vos deixarei órfãos". A partir de então, o relaciomento é com o seu Espírito. Silenciemos. Temperemos nossa pregação. Aquietemos o coração. Interiorizemo-nos e voltemo-nos para dentro de nós mesmos. Ali estará ele a esperar por nós e isso basta!

segunda-feira, 25 de abril de 2022

A igreja verdadeira e sua apostolicidade (Patrologia)

A Igreja, disseminada até aos confins da Terra, recebeu dos apóstolos e dos seus discípulos a fé num só Deus, Pai todo-poderoso, que «fez o céu, a Terra, o mar e tudo o que ele contém» (Ex 20,11; cf At 4,24); num só Cristo Jesus, Filho de Deus, que encarnou pela nossa salvação; e no Espírito Santo, que, através dos profetas, anunciou os desígnios de Deus e a vinda do nosso bem-amado Jesus Cristo, nosso Senhor, o seu nascimento da Virgem, a sua Paixão, a sua ressurreição de entre os mortos, a sua ascensão em corpo e alma aos Céus, à glória do Pai, para «sujeitar todas as coisas» (Ef 1,22) e ressuscitar todo o género humano na carne – a fim de que, diante de Cristo Nosso Senhor, nosso Deus, nosso Salvador e nosso Rei, segundo os desígnios do Pai invisível, «todo o joelho se dobre nos Céus, na Terra e nos infernos, e toda a língua O confesse» (Fil 2,10-11), e Ele julgue com justiça todas as criaturas. […]

A Igreja preserva com grande cuidado esta pregação, esta fé que recebeu, como se habitasse uma só casa; embora disseminada por todo o mundo, acredita em tudo isto de forma idêntica em toda a parte, como se tivesse «um só coração e uma só alma» (At 4,32), prega, ensina e transmite esta mensagem com voz humana, como se tivesse uma só boca. As línguas que se falam no mundo são diversas, mas a força da tradição é uma e a mesma. As Igrejas estabelecidas na Germânia não creem nem ensinam coisas diferentes das dos iberos e dos celtas, ou das do Oriente, do Egito e da Líbia, nem das que foram fundadas no centro do mundo [a Terra Santa]. Assim como o Sol, criatura de Deus, é único e o mesmo em todo o mundo, assim a pregação da verdade brilha em toda a parte, iluminando todos os homens que querem «conhecer a verdade» (1Tim 2,4).

Ireneu de Lyon (c. 130-c. 208)
bispo, teólogo, mártir
Contra as heresias I, 10,1-3; PG 7, 550-554

sábado, 9 de abril de 2022

Permanecer no Reino de Cristo (Tomás à Kempis)



«O Reino de Deus está dentro de vós», diz o Senhor. [...] Vai, alma fiel, prepara o teu coração para este Esposo, para que Se digne vir a ti e em ti habitar. Na verdade, Ele diz assim: «Se alguém Me ama, ouvirá a minha palavra; e viremos a ele e nele faremos morada» (Jo 14,23).

Dá, pois, lugar a Cristo e nega a entrada a todos os outros. Quando possuíres Cristo, serás rico e Ele te bastará. Ele será o teu guia e o que cuidará de ti fielmente em todas as coisas, para que não necessites de esperar nos homens. Na verdade, os homens depressa mudam e faltam; mas Cristo permanece eternamente, e com firmeza acompanha até ao fim.

Não se deve colocar grande confiança no homem, frágil e mortal, ainda que seja útil e amado; nem nos devemos entristecer se às vezes nos trair ou contradisser. Aqueles que hoje estão contigo podem ser-te contrários amanhã, e vice-versa: mudam muitas vezes, como a brisa.

Põe toda a tua confiança em Deus, e que Ele seja teu temor e teu amor. Ele por ti responderá e fará como for melhor. Não tens aqui cidade de repouso, e onde quer que estejas és estranho e peregrino; e nunca terás repouso, a não quando estiveres intimamente unido a Cristo.




sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Só Deus permanece para sempre

Só Deus é imortal (cf 1Tim 6,16). Tudo o resto morre: os reis, os pais, os amigos; os que nos estimam ou a quem obrigámos separam-se de nós, seja pela morte, seja pela ausência; e nós separamo-nos deles. A memória dos nossos benefícios, a estima, a amizade e o reconhecimento morrem neles. As pessoas que amamos morrem, ou, pelo menos, a beleza, a inocência, a juventude, a prudência, a voz, a visão, etc., tudo isso morre neles. Os prazeres dos sentidos têm apenas, por assim dizer, um momento de vida. Só Deus é imortal de todas as formas.

Sendo muito simples, Deus não pode morrer pela separação das partes que O constituem; como é muito independente, não pode desfalecer pela subtração de um concurso estranho que O conserva. Não pode afastar-Se nem pode mudar; não só existirá sempre, mas será sempre bom, sempre fiel, sempre racional, sempre belo, liberal, amável, poderoso, sábio e perfeito em todos os sentidos. O gôzo que se experimenta na posse de Deus é um prazer que nunca desaparece, que é inalterável, que não depende do tempo nem dos lugares; que não causa fastio, mas, pelo contrário, é cada vez mais sedutor.

Cláudio de la Colombière (1641-1682)

sábado, 30 de outubro de 2021

REFLEXÕES APÓS 33 ANOS DE MINISTÉRIO PASTORAL



Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus. Actos 20.24

O que tenho aprendido em meus 33 anos de serviço pastoral? Há muito que escrever, mas pelo que percebo, as experiências sempre se diluem quando queremos falar ou  escrever. Contudo, sintetizo aqui algumas lições...


A vocação não pertence a igreja institucional e sim a Deus

Uma das questões mais absurdas é achar que a igreja institucional detém a vocação e os dons de Deus. Assim como o profeta que possuía uma relação misteriosa com Deus, assim é a relação do pastor com Deus. E por causa disso, assim como nascemos do alto, do alto também advém a vocação e a missão de cada um, acolhido pela graça de Deus. A vocação é obra do Espírito Santo. Ela não se origina na “igreja-sistema”, porém é nela que a vocação deve ser exercida e reconhecida. A vocação, portanto, é um privilégio pessoal mais do que uma obrigação. Quando se obriga a uma tarefa já que não é de natureza própria, jamais será vocação, e sim uma atividade profissional. Há muitos que querem vincular uma vocação a uma denominação religiosa, mas o Espírito Santo é como o vento e a vocação dEle não possui limites institucionais. Da mesma maneira que somos nascidos em Deus, em Deus também somos chamados. Portanto, o ministério é supra-denominacional. 


A vocação pastoral é espinhosa

Os espinhos existem. São dados por Deus. Ele é aquele que delimita nosso campo de acção. Os espinhos e a dor são importantes para que o pastor não seja arrogante e vaidoso. A humilhação é o único caminho para que de facto ouçamos a Deus e com ele relacionemo-nos. Não existe pastor verdadeiro, vaidoso ou arrogante. Este é o falso pastor. Independente da vocação sempre existirão espinhos na vida pastoral. Sejam as perdas, as enfermidades, as tragédias, os “críticos de plantão” de fora e de dentro da igreja, o pastor precisa aceitar os espinhos de sua vida pastoral. Num mundo de confusão cúltica e doutrinária, principalmente devido ao evangelho da prosperidade e ao ensino de demônios que procura dissuadir os fiéis, sofrer tornou-se uma palavra esquecida em nosso meio. A vida pastoral sem o sofrimento torna os pastores apenas bons ilustradores de um evangelho hipócrita. Quando não vivemos as experiências dos fracassos, das doenças e da depressão no ministério, seremos bons replicadores de uma fé vazia.


A vocação pastoral é gloriosa

Ademais dos espinhos, a vocação é gloriosa, primeiro porque ela vem de Deus e, se vem de Deus, ela é livre como Ele é. É glorioso perceber que no sofrimento está a glória, que a cruz é loucura, que viver a misteriosa relação com Deus é a maior satisfação da vida pastoral. Viver a vocação pastoral é tratar com as coisas mais gloriosas do universo visível e invisível. 

A vocação pastoral é para pecadores

Não existe a menor possibilidade de pensarmos que somos "especiais". Quanto mais consciente da santidade de Deus maior será a convicção de pecado. Quanto maior for nossa relação com Deus maior será nossa perceção da imundície que somos. O ministério pastoral não dá margem para se pensar que há "ungidos". O que pode haver é um pastor mais consciente e outro menos consciente da sua pecaminosidade.


A vocação pastoral terá um julgamento mais agravante

Ser pastor me dá a perceção que no Dia do Juízo, ele irá olhar para mim com um olhar mais firme, não do ponto de vista da fé, mas do ponto de vista de minhas obras. Exercer o ministério pastoral me dará sim maior possibilidade de ser envergonhado do Dia de Cristo se não for fiel Àquele que me designou.


A vocação pastoral exige uma experiência profunda com Cristo

Não há barganhas ou trocas com Cristo. Somente há uma vida de gratidão. Quando estiver a abusar da graça de Deus, é bem possível que eu mesmo já tenha deixado de viver como Cristo viveu. Quando passamos a tratar de maneira familiar das coisas de Cristo, então já perdemos a noção de que a vocação vem dele. Ao abusar da graça de Cristo, revelarei quanto estarei distante da vocação pastoral.


A vocação pastoral precisa praticar a oração como o pulmão da alma

Não há qualquer possibilidade de ser pastor e não viver uma vida de oração. Ao arriscarmo-nos nisso podemos até praticar a "não-oração". Essa prática revelará que de facto nunca tivemos nenhum conhecimento de Cristo em nós. Se “os pássaros voam, os peixes nadam, o homem ora”. Orar é essencial para alma. Mas a oração não é e nunca será uma verborragia racionalista, senão um encontro de contemplação. A oração nunca será uma homilia para Deus e sim uma experiência de intimidade que jamais terei o direito de abrir-de-mão e sair a contar os segredos de Cristo para comigo. Quando não se ora, a alma não respira e morre de asfixia.


A vocação pastoral e o estudo não são incompatíveis

Embora o teólogo fosse no início dos primeiros séculos considerado pela igreja como "aquele que fala com Deus e para Deus", pois a prática teológica era envolvida pela experiência de fé, isso não alienava a igreja de desenvolver teses e estudos, como nos mostra a Patrística e os Pais do Deserto, para combater as heresias que entravam em seu meio e também aquelas que brotavam de dentro dela. Portanto naquela época a oração e a defesa da fé se completavam. O serviço pastoral nos nossos dias também requer a mesma prática a fim de instruir os fiéis e fortalecer os que são provados. O pastor precisa ser bem preparado, fiel expositor dos ensinos de Cristo, como também cuidador de vidas, seja no aconselhamento como no treinamento através do discipulado para com os que se congregam, vivam neste sistema maligno e diverso, mas seguros nEle. Não há como separar a ação pastoral do estudo.


A perseguição dentro da igreja institucional é real e concreta

Se o sofrimento faz parte da vida pastoral, sofrer dentro da “igreja-sistema” é o primeiro sítio. Estando a frente de várias igrejas e comunidades, experimentando o abuso e exploração de falsos líderes desde a calúnia e difamação e até ações contra a nossa vida física, cheguei a conclusão que as Trevas também estão presentes na “igreja-sistema”. Se quisermos viver o evangelho, sofrer dentro da instituição é uma decorrência natural, porém recriminada e combatida pelo Senhor nos Evangelhos.


Ser pastor é ter filhos normais

Ser pastor é ter filhos normais. Digo isso porque meus filhos nunca foram adestrados a serem "pastorzinhos". É uma lástima quando sedimentamos em casa e na igreja a ideia de que os filhos de pastores devem ser um “modelo especial” na igreja e acabamos por desnaturalizar e descaracterizar nossos filhos como cristãos normais. Há famílias de pastores que encarnam tanto a vocação do pai que não conseguem fazer outra coisa senão dependendo do ministério do “paistor”. É trágico quando não desenvolvemos nos filhos a liberdade de serem o que foram chamados para ser. Muitos pastores imprimem tamanha personalização em seus filhos que criam “dinastias feudais eclesiásticas” para que seus filhos sejam os "sacerdotezinhos" a continuar ministérios centrados no genitor. Meus filhos sempre viveram buscando suas próprias vocações. Dou graças porque nunca os obriguei a replicar meu ministério pastoral.


A vocação não se perde quando o casamento acaba

Passar pela fatídica experiência de uma separação no casamento é algo que todos somos passíveis de experimentar. Contudo, apesar disso, meu Senhor, providenciou que eu pudesse continuar o ministério. Eu sempre serei "refém da graça” de Cristo. É por isso que continuo no ministério. Mas proibir a vocação quando se passa por uma situação destas é simplesmente uma negação da Graça que pregamos todos os domingos. Pela graça fui re-acolhido, pela graça continuo a caminhada pastoral. Continuo a acreditar que o casamento monogâmico é padrão de Deus para o ser humano. Continuo confirmando e realizando as cerimônias matrimoniais, casado e muito bem casado, pela misericórdia de Deus.


Não há outra coisa mais importante do que testemunhar da graça de Deus

Se a graça é este favor que me impele a continuar, é esta mesma graça que continuarei a testemunhar. Mas a graça só tem valor na nossa vida se não houver sentimento meritório de qualquer natureza. O mérito exclui a graça. Onde há sentimento de merecimento não há espaço para o Espírito Santo. Por isso há tantos ministérios áridos e pastores amargurados e rancorosos. Viver e testemunhar a graça é a razão de ser submisso a Cristo, não por dever e nem por produtividade, mas por simplicidade não esperando nada mais que apresentar-me diante de Cristo nAquele Dia quando Ele se encontrar comigo.


Mesmo que você queira deixar de ser pastor, nunca o conseguirá

Durante alguns momentos de minha vida tentei abandonar a carreira pastoral. Por uma série de razões e situações. E nestas horas sempre veio a minha mente a figura do profeta Jonas. Abandonar o chamado é buscar "um navio em Jope ancorado esperando o próximo passageiro". Jonas nunca conseguiu abandonar o chamado de Deus, porque Seu Espírito habitava o seu coração. De facto, você nunca conseguirá abandonar sua vida pastoral, se de verdade você tiver sido chamado por Deus para exercer o cuidado pastoral. Contudo preste atenção, como bem disse um de meus amigos: “sempre haverá um barquinho em Jope para lhe levar até o outro extremo da vontade de Deus”.


Algumas destas reflexões tem vindo ao meu coração e foram escritas para que eu me lembre que devo continuar. Mas também, se você estiver pensando em abandonar o ministério, medite nestas poucas linhas antes de tomar qualquer decisão.


Luiz Augusto Corrêa Bueno

30 de outubro de 2021 

(véspera do Dia da Reforma Protestante) 


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Meu filho...

Meu filho, foge de todo o mal ou daquilo que se assemelha ao mal. Não sejas irascível, porque a cólera leva ao crime. Não sejas ciumento, conflituoso ou violento, porque dessas paixões nascem os homicídios. Meu filho, não sejas sensual, porque a sensualidade é o caminho para o adultério. Não uses uma linguagem licenciosa, nem tenhas um olhar atrevido, porque também isso engendra adultério. [...] 

Resguarda-te dos encantamentos, da astrologia, das purificações mágicas; recusa-te a vê-las e a ouvi-las, pois seria [...] perderes-te na idolatria. Meu filho, não sejas mentiroso, porque a mentira conduz ao roubo. Não te deixes seduzir pelo dinheiro nem pela vaidade, que também incitam a roubar. Meu filho, não murmures contra os outros, pois tornar-te-ás blasfemo. Não sejas insolente nem malévolo, pois isso também conduz à blasfémia.

Usa de mansidão: «Felizes os mansos, porque possuirão a Terra» (Mt 5,5). Sê paciente, misericordioso, sem malícia, cheio de paz e bondade. Respeita sempre as palavras que ouviste do Senhor (Is 66,2). Não te engrandeças, não abandones o teu coração ao orgulho. Não te alies aos soberbos, mas frequenta os justos e os humildes. Recebe os acontecimentos da vida como dons, sabendo que é Deus quem dispõe todas as coisas.

Didaque (c. 60-120). O Ensino dos primeros apóstolos.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Não chore!

Eles glorificaram a Deus, dizendo: 'Um grande profeta surgiu entre nós!'  E 'Deus visitou seu povo!' (Lucas 7:16)

Todos nós experimentamos perdas. Todos nós sofremos. E, nestes momentos difíceis, Deus não nos abandona ... Na leitura do Evangelho, Cristo encontra num cortejo fúnebre. Uma viúva está enterrando seu único filho. Esta mulher já havia sofrido tantas perdas. E, sem um marido ou filho para cuidar dela, ela teria sido reduzida a mendigar ou à prostituição. Mais sofrimento a esperava ... 

Mesmo assim, Cristo falou palavras de conforto. "Não chore." E Ele ressuscitou seu filho dos mortos. O apóstolo S. Paulo nos ajuda a entender a magnitude deste encontro. Eis que agora é o tempo aceitável; eis que agora é o dia da salvação. (2 Coríntios 6: 2). 

S. Paulo sofreu muito durante seu ministério. Ele foi apedrejado, naufragado, espancado ... E, no entanto, apesar dessas dificuldades e calamidades, S. Paulo nunca perdeu as esperanças. Ele nunca resmungou ou reclamou. Porque ele percebeu que “agora é o dia da salvação”. 

Deus visitou Seu povo! S. Paulo foi honesto sobre as lutas da vida cristã. No entanto, ele sabia que o Senhor não nos abandona ao túmulo. É por isso que ele poderia estar "triste, mas sempre alegre". 

Portanto, não importa a luta, não se desespere. Deus visitou Seu povo! Segure-se na esperança no Senhor Ressuscitado. 

Não chore. 

(Steve Christoforou)


sábado, 2 de outubro de 2021

«Como cordeiros para o meio de lobos»

Enviando discípulos para a seara que tinha sido bem semeada pelo Verbo do Pai, mas que precisava de ser trabalhada, cultivada, cuidada com solicitude para que os pássaros não roubassem a semente, Jesus declara-lhes: «Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos». 

[...] O Bom Pastor não teme que os lobos Lhe ataquem o rebanho; não enviou os seus discípulos para se tornarem presas deles, mas para difundirem a graça. A solicitude do Bom Pastor impede os lobos de atentarem contra os cordeiros que Ele envia. E envia-os para que se realize a profecia de Isaías: «O lobo e o cordeiro pastarão juntos» (Is 65,25). [...] Além do mais, os discípulos têm ordem de nem sequer levar um cajado na mão. [...]

Portanto, aquilo que o humilde Senhor prescreveu, também os discípulos o realizam através da prática da humildade. Porque Ele não os enviou a semear a fé pela coação, mas pelo ensino; não através da ostentação da força do seu poder, mas pela exaltação da doutrina da humildade. E considerou que era bom juntar a paciência à humildade, conforme o testemunho de Pedro: «Ao ser insultado, não respondia com insultos; ao ser maltratado, não ameaçava» (1Pe 2,23). Que é o mesmo que dizer: «Sede meus imitadores: abandonai o desejo de vingança, não respondais aos ataques da arrogância com o mal, mas com a paciência que perdoa. 

Que ninguém imite aquilo que recebe dos outros; a mansidão é muito mais forte como resposta aos insolentes».

Ambrósio (c. 340-397)
bispo de Milão, doutor da Igreja
Pai da Igreja
Comentário sobre o Evangelho de Lucas 7, 45.59

domingo, 26 de setembro de 2021

Quem vos der a beber um copo de água por serdes de Cristo

Dá os bens deste mundo e receberás os bens eternos. Dá na Terra e receberás no Céu. Mas a quem os darás? [...] Escuta o que te diz a Escritura: «Quem dá ao pobre empresta ao Senhor» (Pr 19,17). Deus não precisa de ti, seguramente: mas outro precisará. O que deres a um, outro o receberá. Porque o pobre nada tem para te dar; bem quereria, mas nada encontra para dar; nele, há apenas essa vontade vigilante de orar por ti. Mas, quando um pobre ora por ti, é como se dissesse a Deus: «Senhor, recebi um empréstimo, sê Tu a minha caução». Se o pobre com quem lidas está insolvente, tem um bom fiador, pois Deus diz-te: «Não tenhas receio de dar, Eu respondo por ele [...], Eu darei, sou Eu que recebo, é a Mim que dás».

Acreditas que Deus te diz: «Sou Eu que recebo, é a Mim que dás»? Sim, seguramente, pois Cristo é Deus, e nisto não há dúvidas. De facto, Ele disse: «Tive fome e destes-Me de comer». E, quando Lhe perguntamos: «Senhor, quando foi que Te vimos com fome?», Ele mostra-nos que é de facto o fiador dos pobres, que responde por todos os seus membros [...], e diz-nos: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25,35s).

Santo Agostinho (354-430)
bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja
3.º Sermão sobre o Salmo 36

Como é difícil praticar o desapego, a renúncia em dar! E essa prática é aquela será a prova de nossa fé. Não serão quantas vezes ouvimos um sermão, ou quantas vezes lemos a Bíblia, ou mesmo quantas vezes decoramos um verso litúrgico. A grande questão para a recompensa não será quantas actas de sociedades internas eclesiásticas escrevemos, ou mesmo quantos livros de teologia passaram em nossas mãos. Não será quantos títulos de graduação em teologia alcançamos, mas sim, simplesmente se nós aprendemos o desapego e amamos o semelhante, da mesma forma que Cristo amou o mundo e se entregou por ele, entregando-se a nós, como Aquele que cumpriu por nós a lei do amor. 

Absolutamente, a recompensa virá não como um prêmio, mas como um presente da Graça - favor imerecido de Deus, por tantas vezes cumprirmos a lei da caridade e do amor abnegado. Não como troca ou barganha, mas como gratidão eterna. Entregarmo-nos inteiramente ao Amor eterno.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Tudo acabará bem

Juliana de Norwich (*1342, +1416)

Na minha ignorância, surpreendia-me que a profunda sabedoria de Deus não tivesse impedido o início do pecado; porque, se o tivesse feito, pensava eu, tudo estaria bem. [...] Jesus respondeu-me: «O pecado é inelutável, mas tudo acabará em bem, tudo acabará em bem, todas as coisas, quaisquer que sejam, acabarão em bem». 

Com esta pequena palavra «pecado», Nosso Senhor apresentou-me ao espírito tudo o que não é bom: o desprezo ignóbil e as provações extremas que sofreu por nós ao longo da sua vida e na sua morte; todos os sofrimentos e as dores, corporais e espirituais, de todas as suas criaturas. [...] 

Contemplando todos os sofrimentos que existiram ou existirão, compreendi que a Paixão de Cristo era o maior, o mais doloroso de todos, e que a todos ultrapassa. [...] Mas não vi o pecado. Sei, pela fé, que ele não tem substância nem qualquer espécie de ser; só o podemos reconhecer pelo sofrimento que causa. Percebi que este sofrimento é temporário: ele purifica-nos, leva-nos a conhecer-nos a nós mesmos e a gritar por misericórdia. 

A Paixão de Nosso Senhor fortifica-nos contra o pecado e o sofrimento: esta é a sua santa vontade. No seu terno amor por todos aqueles que serão salvos, Nosso Senhor reconforta-os pronta e suavemente, como se lhes dissesse: «É verdade que o pecado é a causa de todas estas dores, mas tudo acabará em bem: todas as coisas, quaisquer que sejam, acabarão em bem». Ele disse-me estas palavras com grande ternura, sem a mínima censura. [...]

Nestas palavras, vi um mistério profundo e maravilhoso, oculto em Deus. Ele desvendará e nos fará conhecer esse mistério plenamente no Céu. Quando o conhecermos, entenderemos por que razão permitiu a vinda do pecado a este mundo. E, ao ver isto, regozijar-nos-emos por toda a eternidade.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

OUVIR MAIS DO QUE FALAR




«Que cada um esteja sempre pronto para escutar, mas seja lento para falar» (Tim 1,19). Sim, irmãos, digo-vos francamente [...], eu que muitas vezes vos falo a vosso pedido: a minha alegria é sem mancha quando me sento entre os ouvintes; a minha alegria é sem mancha quando escuto e não quando falo. É então que saboreio a palavra com toda a segurança, pois a minha satisfação não é ameaçada pela vanglória. Quem pode recear o precipício do orgulho se estiver sentado sobre a pedra sólida da verdade? «Escutarei e encher-me-ás de alegria e de júbilo», diz o salmista (Sl 50,10). É quando escuto que me sinto mais alegre; é o papel de ouvintes que nos mantém numa atitude de humildade.


Pelo contrário, quando tomamos a palavra, [...] precisamos de uma certa contenção; pois, mesmo que não ceda ao orgulho, tenho receio de o fazer. Mas, se escuto, ninguém me pode roubar a alegria (Jo 16,22), porque ninguém é testemunha dela. É verdadeiramente a alegria do amigo do esposo de quem S. João diz que «fica de pé e escuta» (Jo 3,29). Fica de pé porque escuta. Também o primeiro homem escutava Deus de pé; quando escutou a serpente, caiu. O amigo de esposo fica, pois, «transbordante de alegria à voz do Esposo»; o que faz a sua alegria não é a sua voz de pregador ou de profeta, mas a voz do próprio Esposo.

Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África)
Discurso sobre o salmo 139,15; Sermões sobre S. João, n.º 57

UMA ESCOLA PREPARATÓRIA

 




Em Mateus 7, Jesus está enfatizando que estamos a caminhar sob os olhos do Pai. O assunto específico que o Senhor está a lidar é principalmente nosso relacionamento com outras pessoas, mas sobretudo a coisa mais importante é nosso relacionamento com Deus. Isto é fundamental. Nós somos lembrados em todo o seu sermão que nossa vida por cá é uma jornada e uma peregrinação e que é isso que nos levará ao julgamento final: uma última avaliação, determinação e proclamação de nosso destino final e eterno.

Metade de nossos problemas são devido ao facto que vivemos na suposição de que esta é a única vida e este é o unico mundo a viver. Se formos questionados se nós cremos que viveremos após a morte e que nós deveremos ver a face de Deus no julgamento final, nós sem dúvida diríamos "sim"! Mas como vivemos de hora em hora? Estamos atentos a isso? O que distingue o povo de Deus de todos os outros é que é um povo que caminha na consciência de seu eterno destino. O homem "natural" não cuida de seu eterno futuro. Para ele, este é o único mundo a ser vivido. Ele vive por essa ideia e esta ideia o controla.

Mas o cristão verdadeiro caminha através desta vida consciente que ela é transitória e passageira, um tipo de escola preparatória. Ele reconhece sempre que está a caminhar na presença de Deus e que ele está a ir encontrar-se com Deus e que este pensamento determina e controla a sua vida inteira, porque nós estamos a ser preparados para este julgamento final. Nós teremos que prestar contas.

Para sempre sobre os olhos de meu Mestre (D. M. Lloyd-Jones)

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Que canseira, quanto desgaste.... Na busca desenfreada por ter!

Então, lhes recomendou: Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui.[...] Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus. 

Quanto esforço, quanto investimento, quanto custo para acumular. Lembremo-nos das palavras do Senhor: "A vida de uma pessoa não consiste na abundância de bens que ela possui". E na verdade é o que mais as pessoas buscam fazer. Lutam a vida toda para que tenham propriedades, objetos, conquistem popularidade, dinheiro e rendas. Isso traz segurança e um sentimento fantasioso de autocontrole. Diante da efemeridade da vida tudo se desavanece: sonhos, projetos, planos e estratégias. Tudo passa e o ser humano é consumido pelo poder da avareza.

O Senhor chama a atenção e afirma que o acúmulo é contra a esperança. Não é possível alguém afirmar que tem esperança em Deus, se estiver preocupado com conquistas pessoais, dinheiro investido, aquisições de propriedade e investimentos em bolsas de valores. É impossível que pessoas de fé vivam controladas pelo desejo de possuir. 

Avareza é o desejo incontrável de reter e não dividir. A avareza é a deusa deste mundo. Jesus recebeu uma proposta quase irrecusável. Satanás lhe propôs transferir todos os reinos do mundo sob seu domínio, se o Ele se curvasse e o adorasse. Seria a maior glória, receber todos os reinos do mundo, dominá-los, controlá-los e submetê-los sem ter que executar o plano preparado até a cruz. Sem esforço, sem suor e sangue todos os povos escravizados pelo poder do mal seriam transferidos para Cristo sem ter que suportar o poder da morte física. Mas o Filho de Deus, não foi avarento, não buscou glória pessoal e venceu a tentação de se tornar Senhor do mundo adorando o deus-deste-século. Porém a resposta ao acusador veio de pronto: "Adorarás ao Teu Deus e só a Ele servirás".

Não foi esse o pecado de Adão? Não foi esse o desejo de Babel? Não é esse o desejo de todo ser humano? Ser conquistador de si mesmo, de pessoas, de coisas e porque não dizer de impérios e territórios? 

A avareza é traidora, porque ela negocia a possibilidade para a celebridade e a famosidade, uma vez que se aceite a proposta daquilo que não se tem direito: o poder. Ledo engano. Não há poder dispensável a nenhum ser humano. Pelo contrário, o homem é escravo de seus pecados e paixões. De facto, a vida de alguém, não consiste nos bens materiais que possui. 

A avareza envolve ricos e pobres, cultos e incultos, homens e mulheres, famosos e desconhecidos. A avareza encanta e escraviza, promove e rebaixa, fomenta e vicia. Para que tantos títulos, para que tanto conhecimento, para que tanto esforço e trabalho? 

A avareza é idolatria. Ela leva a adorar um deus que não existe. Deus não negocia com a ela e nem com avarentos. Está decretado a estes que vivam eternamente longe da graça de Deus. Deus não trata com idólatras e adoradores do vício monetário.

Hoje a noite Deus poderá te chamar e certamente não levarás nada para o além. Esta noite Deus poderá pedir a tua vida e então o que tu farás com tudo o que conquistou até agora? O que se fará com tanta popularidade? O que se fará com tanta riqueza? O que tu farás hoje a noite, quando fechares teus olhos a dormir? Ainda manterás teus desejos e teus planos pessoais sem submetê-los a Deus? Tu poderás não abrir teus olhos neste mundo? E para que tanta luta? 

Ele te dá uma única solução? Vive e morre por Jesus Cristo, aquele que suportou e levou tua avareza sobre seu corpo na cruz. Ama, abre mão de tua idolatria e cultua aquele que se fez pobre para que tu te tornaste rico. 

FICA CONNOSCO...

Irmãos, quando foi que o Senhor Se deu a conhecer? Ao partir o pão. Estejamos, portanto, tranquilos: ao partir o pão, reconheceremos o Senhor. Se Ele só quis ser reconhecido nesse instante, foi por nossa causa, foi para que não O víssemos na carne comendo da sua carne. Portanto, tu que crês nele, quem quer que sejas, tu que não tomas em vão o nome de cristão, tu que não entras numa igreja por acaso, tu que escutas a palavra de Deus em temor e esperança, para ti o pão partido será uma consolação. A ausência do Senhor não é uma ausência verdadeira. Tem confiança, mantém a fé e Ele estará contigo, ainda que não O vejas.


Quando o Senhor os abordou, os discípulos não tinham fé. Não acreditavam na sua ressurreição; nem sequer esperavam que Ele pudesse ressuscitar. Tinham perdido a fé; tinham perdido a esperança. Eram mortos que caminhavam ao lado de um vivo; caminhavam mortos juntamente com a vida. A vida caminhava com eles mas, no coração destes homens, a vida ainda não se tinha renovado.
E tu? Desejas a vida? Imita os discípulos e reconhecerás o Senhor. Eles ofereceram-lhe a sua hospitalidade; o Senhor parecia estar decidido a seguir o seu caminho, mas eles detiveram-no. […] Detém, também tu, o estrangeiro, se queres reconhecer o teu Salvador. […] Aprende onde podes procurar o Senhor, onde podes possuí-lo, onde podes reconhecê-lo: partilhando o pão com ele.

Santo Agostinho (354-430)
bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja
Sermão 235; PL 38, 1117

ANJOS... ELES EXISTEM

 A existência dos seres espirituais, não corporais, a que Sagrada Escritura chama anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura a este respeito é tão claro quanto a unanimidade dos Pais da Igreja.

Santo Agostinho diz acerca deles: 

«Anjo (mensageiro) é a designação do encargo, não da natureza. Se perguntares pela designação da natureza, é um espírito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espírito por aquilo que é, é anjo por aquilo que faz». 

Por todo o seu ser, os anjos são servidores e mensageiros de Deus. Porque contemplam «constantemente a face de meu Pai que está nos céus» (Mt 18,10), são «poderosos executores da sua Palavra, obedientes ao som de sua ordem» (Sl 103,20).

Como criaturas puramente espirituais, são dotados de inteligência e de vontade: são criaturas pessoais e imortais. Superam em perfeição todas as criaturas visíveis. Disto dá testemunho o fulgor da sua glória.

Cristo é o centro do mundo angélico. São os anjos dEle: «Quando o Filho do homem vier na sua glória com todos os seus anjos» (Mt 25,31). São seus porque foram criados por Ele e para Ele: «Pois nele foram criadas todas as coisas, nos Céus e na Terra, as visíveis e as invisíveis: tronos, dominações, principados, potestades; tudo foi criado por Ele e para Ele» (Col 1,16). São seus, mais ainda, porque Ele os fez mensageiros do seu projeto de salvação. «Porventura não são todos eles espíritos servidores, enviados ao serviço dos que devem herdar a salvação?» (Heb 1,14)

Acredite, eles existem.

Quer conhecer um verdadeiro cristão?

 Ele está voltado para todo o ensino do Sermão do Monte. Ele não vasculha e escolhe, mas permite que toda parte da Bíblia fale com ele. Ele não é impaciente, mas toma tempo para ler, e não se apressa aos poucos salmos favoritos ou usa-os para o levar ao sono à noite, como algo hipnótico. Ele permite que toda a Palavra o examine e o busque.

Longe dele evitar esta busca, pelo contrário, ele dá boas-vindas a ela. Ele sabe que isso é bom para ele e não se opõe à possível dor que ela venha a causar... O verdadeiro cristão se humilha sob a Palavra. Ele aceita como verdade o que ela diz dele. Na verdade, ele diz: 'Ela não disse o suficiente acerca de mim mesmo'. Ele não se ressente de suas críticas, nem das de outras pessoas, mas diz a si mesmo: 'Eles não dizem metade de mim, eles não me conhecem'... O Cristão imediatamente se confoma as bem-aventuranças por causa do efeito da Palavra de Deus sobre si, e devido a isso, deseja se conformar ao tipo e modelo que está diante dele. 

Este é um teste muito bom. Você gostaria de viver o Sermão do Monte? Este é o seu verdadeiro desejo? Esta é a sua ambição? Se é assim, isto é um bom e saudável sinal. Alguém que deseja viver este tipo de vida é um Cristão. 

Ele tem fome e sede de justiça. Esta bem-aventurança é a virtude principal em sua vida. Ele não está satisfeito com o que ele é. Ele diz: 'óh que eu possa ser como os santos. Se somente eu fosse como os homens que viveram nas cavernas e antros da terra e se sacrificaram e sofreram todas as coisas por amor ao Seu nome. Se somente eu fosse como Paulo. Óh que eu fosse mais parecido como meu bendito Senhor'. 

O Cristão é aquele que pode dizer honestamente que está construindo sobre a rocha. Que está se conformando com as bem-aventuranças. Observe a natureza do teste. Ele não está perguntando se você é mais ou menos perfeito ou tem mais ou menos pecado. O teste está perguntando a você o que você deseja ser.  

Martin Lloyd-Jones

Nunca perca Jesus Cristo de vista

 Você se lembra da famosa história de William Wilberforce e a mulher que veio até ele no auge de sua campanha escravagista e perguntou-lhe: "Sr. Wilberforce, o que dizer da sua alma?" e Wilberforce voltou-se para ela e disse: 'Senhora, eu tenho quase me esquecido que eu tenho uma alma'! Com o devido respeito a ele, a mulher estava certa. É claro, ela poderia parecer intrometida, mas não há evidencia que ela foi de facto. Provavelmente a mulher viu que ele era um bom e fiel cristão, a fazer esse excelente trabalho. Sim, mas ela também viu e diagnosticou sobre o perigo que estava a frente dele. Pelo trabalho que o absorvia na questão da libertação dos escravos, ele poderia esquecer de se preocupar com sua alma. 

Alguém pode ser tão ocupado com suas pregações nos púlpitos que pode chegar a esquecer e negligenciar sua própria alma. Depois de você ter atendido todas os seus encontros, denunciado movimentos anti-cristãos, ser um apologista capacitado e ter exibido conhecimento teológico e sua perceção dos tempos e épocas e planeado seus próximos cinquenta anos, depois de você ter lido todas as traduções disponiveis da Bíblia e ter revelado proficiência no conhecimento bíblico, eu venho a perguntar-lhe: 'como está o seu relacionamento com Jesus Cristo?' Depois de lidar com Cristo desde o ano passado, você O conhece melhor hoje? Voce pode estar a denunciar as coisas erradas do mundo, mas você ama a Cristo mais do que tudo isso? Você está a obedecer seus mandamentos e está crescendo nEle? O fruto do Espírito Santo está mais evidente em sua vida depois deste ano que passou? Estas são as quetsões: conhecê-lO e ser como Ele! 

Se todas aquelas coisas tomam o lugar de Cristo, então nós estamos no caminho errado. Todas estas coisas são significativas para nos levar ao conhecimento dEle mas se nós estamos a ficar apenas com elas, estaremos nos roubando dEle.

M. Lloyd-Jones 

Se ficar esperando até sentir-se bem, você nunca virá


Há uma simples forma de testar-se, para saber se você crê que "nós precisamos olhar para Cristo e Cristo somente". Nós nos traímos pelo que nós dizemos... Eu tenho frequentemente que lidar com este ponto com as pessoas, e tenho explicado sobre o que é a "justificação pela fé" e conversado com elas como isto tudo está em Cristo e que Deus coloca sua justiça sobre nós. 

Eu tenho explicado a muitos e então eu digo: "Bem, agora que você está feliz com essa verdade, você crê nela?" E eles dizem: "Sim". Então eu digo: "Bem, agora você está pronto para dizer que é um cristão verdadeiro!" E então eles hesitam. E eu percebo que eles não entenderam nada. Então eu digo: "Qual o problema por que você está hesitante"? E eles dizem: "Eu não sinto que sou bom o suficiente".

De uma vez só Eu sei que num sentido eu acabo desperdiçando meu "gás". Os que assim pensam, estão pensando em si mesmos, sua idéia ainda é que eles têm que se tornar bons o suficiente para ser aceitos por Cristo. Ele acham que tem que fazer isso! "Eu não sou bom suficiente". Isto parece muito modesto, mas ... isto é uma negação da fé! Você pensa que você está sendo humilde. Mas você nunca será bom o suficiente. Ninguém tem sido bom o suficiente. A essencia da salvação cristã é dizer que Cristo é bom o suficiente e que eu estou NELE.

Contanto que você continue pensando em si mesmo e dizendo "Ah sim, Eu gostaria mas não sou bom o bastante. Eu sou um pecador, um grande pecador!", você estará sempre negando a Deus e você nunca será feliz... Eu tento dizer isto todos os domingos, por que eu penso que isto é a questão central que está roubando de milhares de pessoas a alegria de Deus em suas vidas.

 David Martin Lloyd-Jones

O que o ser humano tornou-se, realmente

 "E Deus viu que a maldade do homem era grande na terra, e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração (Gn. 6:5)

O testemunho divino relativo ao homem é, que ele é um pecador. Deus testemunha contra ele, não a seu favor; e testifica que "não há nenhum justo, nem um sequer"; que "não há quem faça o bem"; nenhum que "entenda"; nenhum "que busque a Deus" e, mais ainda, nenhum que O ame (Sl. 14:1-3; Rm. 3:10-12). Deus fala de forma amável, mas severamente ao homem; como alguém que procura ansiosamente por uma criança perdida, contudo sem fazer qualquer concessão para com o pecado, e que "de modo nenhum inocenta o culpado".(Na.1:3)

Ele declara o homem perdido, alguém que se desviou, um rebelde, alguém " aborrecido de Deus " (Rm. 1:30); não um pecador ocasional, mas um pecador em tempo integral; não um pecador com partes boas, mas um pecador por completo; não satisfazendo-se com a bondade; mau tanto no coração quanto na vida, "morto em delitos e pecados" (Ef. 2:1); um praticante do mau, e consequentemente debaixo de condenação; um inimigo de Deus, e por isso "debaixo da ira"; alguém que continuamente quebra a reta lei de Deus, estando portanto "debaixo da maldição da lei" (Gl. 3:10). O pecador não somente traz o pecado diante de si, mas ele o carrega consigo, como seu segundo eu; ele é um "corpo de pecado" (Rm. 6:6), e " corpo de morte " (Rm. 7:24), não sujeito à lei de Deus, mas a " lei do pecado " (Rm. 7:23).

Há ainda outra sentença pior contra ele. Ele não acredita no nome do Filho de Deus, nem ama o Cristo de Deus. Este é o principal pecado dele. Que o coração dele não é reto para com Deus, é a primeira sentença contra ele. Que o coração dele não é reto para com o Filho de Deus, é a segunda. E esta segunda sentença, que é a principal de todas, traz sobre si mais terrível condenação do que todos os outros pecados juntos.

"O que não crê (nEle), já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus" (Jo 3:18). "Aquele que não dá crédito a Deus, O faz mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus dá acerca do seu Filho"(1 Jo. 5:10). "Quem, porém, não crer será condenado" (Mc. 16:16). E, portanto, o primeiro pecado que o Espírito Santo leva em conta, é a incredulidade; "quando Ele [o Espírito Santo] vier, convencerá o mundo do pecado...: do pecado porque não crêem em mim " (Jo. 16:8-9).

O homem não pode dizer uma só palavra boa sobre si mesmo, ou ainda declarar-se inocente, a menos que ele possa mostrar que ama, e sempre amou a Deus de todo coração e alma. Se ele pode dizer isto verdadeiramente, ele é reto, ele não é um pecador, e não precisa de perdão. Ele achará seu próprio caminho para o reino de Deus, sem a cruz e sem um Salvador.

Mas, se ele não pode dizer isto, sua boca está emudecida e ele é culpado diante de Deus . Conquanto uma vida de boa conduta externa possa dispô-lo e a outros a olharem, no presente, favoravelmente para si mesmos, o veredicto contra ele, virá no futuro. Este é o dia do homem, quando os julgamentos dos homens prevalecem; mas o dia de Deus está vindo, quando o caso será julgado em seus reais méritos. Então o Juiz de toda a terra fará justiça, e o pecador será envergonhado. Este é um veredicto divino, não humano. É Deus, não o homem, que condena; e "Deus não é homem para mentir". Este é o testemunho de Deus relativo ao homem, e nós sabemos que este testemunho é verdadeiro. Compete-nos recebê-lo como tal, e agirmos baseados nisto.

"Olhai para mim, e sede salvos, vós, todos os termos da terra; porque Eu sou Deus, e não há nenhum outro " (Is. 45:22), um "Deus justo e Salvador" (v. 21). "Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar" (Is. 55:7).

Volte seus olhos, olhos da fé, para a cruz e veja estas duas coisas: os crucificadores e o crucificado. Veja os crucificadores, os inimigos de Deus e do Seu Filho, Jesus. Eles são você.

Perceba neles o seu próprio caráter. Então agora, veja O crucificado. É o próprio Deus; amor encarnado. Seu Criador, Deus manifesto em carne, sofrendo, morrendo pelo pecador. Você pode duvidar da Sua graça? Você pode acalentar pensamentos maus sobre Ele? Você pode imaginar qualquer outra coisa, que desperte em você a mais completa e franca confiança? Você interpretará mal aquela agonia e morte, dizendo que elas não querem dizer graça, ou que a graça que elas representam não são para você? Relembre o que está escrito:"Nisto conhecemos o amor, em que Cristo deu a sua vida por nós" (1 Jo. 3:16) e, "Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou, e enviou o Seu Filho como propiciação pelos nossos pecados " (1 Jo. 4:10).

O cristão e o não-cristão

 


O cristão e o não cristão são pessoas absolutamente diferentes no que admiram. O cristão admira o homem que é "pobre de espírito", enquanto os filósofos gregos da época clássica desprezavam tal homem. E todos os que seguem a filosofia grega se intelectual ou praticamente, ainda fazem exatamente, hoje, a mesma coisa... 

O mundo crê na autoconfiança, na auto expressão, e no domínio da vida. O cristão crê em ser 'pobre de espírito". Tome os jornais e veja o tipo de pessoa que o mundo admira. Você nunca encontrará alguma coisa mais fora das bem-aventuranças do que aquilo que se apela ao homem do mundo. O que evoca sua admiração é a própria antítese do que você encontra aqui.

Então obviamente, eles são diferentes no que eles buscam. 'Bem-aventurados os que tem fome e sede' e depois o que mais? Saúde, dinheiro posição, fama? De jeito nenhum. 'Justiça'.... Tome algum homem que não reclama ser um cristão... Descubra o que ele está buscando e o que ele realmente quer e você verá isso diferente das bem-aventuranças.

Portanto é claro, estes homens são absolutamente diferentes no que eles fazem. Isto segue necessariamente... o não-cristão é absolutamente consistente. Ele diz que vive para este mundo. 'Este', ele diz, 'é o único mundo e estou lutando para obter tudo o que ele pode me oferecer'. Agora o cristão... considera este mundo apenas como o caminho de entrada para algo amplo, eterno e glorioso. Seu panorama e ambição são diferentes. Ele sente que precisa viver de modo diferente. 

Assim como o homem do mundo é consistente, assim o cristão deveria ser consistente. Se ele for assim, ele será muito diferente do outro homem. Ele não pode evitar. Como encontramos em I Pedro 2.11,12: 'Amados, peço a vocês, como peregrinos e forasteiros que são, que se abstenham das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma, tendo conduta exemplar no meio dos gentios, para que, quando eles os acusarem de malfeitores, observando as boas obras que vocês praticam, glorifiquem a Deus no dia da visitação'...

 Outra diferença essencial...está em sua convicção sobre o que eles podem fazer... o homem do mundo confia na sua própria capacidade... e o cristão é um homem... que é verdadeiramente consciente de suas limitações.

(David Martin Lloyd-Jones)

Um pobre ritmo de morte

 "Eles foram para Betsaida, e algumas pessoas trouxeram um cego a Jesus, suplicando-lhe que tocasse nele. Ele tomou o cego pela mão e o levou para fora do povoado. Depois de cuspir nos olhos do homem e impor-lhe as mãos, Jesus perguntou: "Você está vendo alguma coisa?" Ele levantou os olhos e disse: "Vejo pessoas; elas parecem árvores andando". Mais uma vez, Jesus colocou as mãos sobre os olhos do homem. Então seus olhos foram abertos, e sua vista lhe foi restaurada, e ele via tudo claramente". Marcos 8:22-25


É dificil descrever esta pessoa que curada neste epsódio. Um cego que foi curado por Jesus, mas em seu processo de cura, no primeiro momento via os outros como vultos e não perfeitamente. Dizia ele: "Vejo pessoas; elas parecem árvores andando".

Você não pode afirmar que ele não é mais cego. O que então? Ele é ou não é cego? Pode-se dizer ao mesmo tempo que ele é e que ele não é cego. Ele não é uma coisa nem outra.

Esta é precisamente a condição que desejo lidar neste momento Estou preocupado com aqueles cristãos inquietos, infelizes e miseráveis por falta de clareza e visão. É quase impossível definí-los. Você às vezes conversa com este tipo de cristão e pensa: "Esta pessoa é cristã"! E você encontra com tal pessoa outra vez e é lançado em dúvida outra vez e diz: Certamente essa pessoa não pode ser cristã, se ele pode dizer uma coisa destas, ou coisa como esta! ... Além disso, a dificuldade é os outros pensam assim dela como também eles pensam assim acerca deles mesmos. Eles são infelizes porque não tem clareza sobre si mesmos. Algumas vezes eles servem a Deus e dizem: "Sim, eu sou um cristão, eu creio nisto". Então alguma coisa diferente acontece e eles dizem: "Eu não posso ser um cristão, se eu fosse um cristão não poderia ter tais pensamentos e não quereria fazer as coisas que eu faço..."

Eles parecem saber o suficiente sobre o Cristianismo para não se satisfazerem com as paixões do mundo e, ainda assim, não sabem o suficiente para se sentirem felizes consigo mesmos. Eles são "nem quente e nem frio". Eles vêem e ainda não vêem. É uma condição angustiante e a mensagem antecipadamente é dizer a fé no evangelho não faz isso com ninguém e não deixa niguém nestas condições. Diz-nos ainda mais: Ninguém necessita ficar nesta condição. É uma verdadeira infelicidade e a fé no evangelho não transforma pessoas para serem pessoas míopes espiritualmente.

Martin Lloyd-Jones

De mãos dadas com Jesus

 "Quando formos abandonados por todos os homens, tentados pelo demónio e Deus Se esconder de nós, quando sofrermos todas as dores do corpo e da alma, agradeçamos a Deus, rejubilemos e exultemos de alegria (cf. Lc 6.23), porque andaremos de mãos dadas com Jesus. 


Quando, orando dia e noite, permanecermos na escuridão, na dor e na amargura do sofrimento, quando orarmos pelo que devemos orar e não formos atendidos, quando o mal - o mal moral, o pecado - continuar a inundar-nos e a inundar o que nos rodeia, agradeçamos a Deus, rejubilando e exultando de alegria, porque andaremos de mãos dadas com Jesus.


Quando formos desprezados por todos, o último dos homens, quando nos apedrejarem, em sentido próprio ou em sentido figurado, quando os desconhecidos troçarem de nós e os conhecidos nos desdenharem e ridicularizarem, quando formos caluniados e desprezados, agradeçamos a Deus de todo o coração, rejubilando e exultando de alegria, porque andaremos de mãos dadas com Jesus. 


Quando escarnecerem de nós e nos lançarem injúrias pela rua, e ao passarem junto a nós nos cobrirem de ridículo e nos disserem palavras grosseiras, agradeçamos a Deus com alegria e reconhecimento profundos, rejubilando e exultando de alegria, porque andaremos de mãos dadas com Jesus."


SE ME PERSEGUIRAM A MIM, TAMBÉM VOS PERSEGUIRÃO A VÓS"

Charles de Foucauld (1858-1916)

terça-feira, 15 de junho de 2021

OS DOIS CAMINHOS DE VIDA


"Eis que o ímpio está cada vez mais arrogante; suas vontades não visam o bem; mas o justo viverá pela sua fé". (Habacuque 2.4)

Esta importante declaração é citada várias vezes no Novo Testamento. Estudiosos discordam quanto a exata tradução da primeira parte do verso, se pode ser: Sua alma que se ergue não é reta nele, ou como citado em Hebreus 10.38 onde está declarado que Deus não tem prazer na alma que recua. 

A verdade declarada é que há somente duas atitudes possíveis para a vida neste mundo. A atitude de fé e a atitude da descrença. A atitude da confiança e a da desconfiança. Qualquer um de nós ve a vida em termos de fé e de não-fé em Deus e as conclusões e perspetivas estão baseadas na rejeição de Deus ou não e as consequências disso.

Nós podemos nos retirar do caminho da fé em Deus ou podemos viver pela fé em Deus. Os próprios termos sugerem estilos de vida correpondentes. Como o homem crê, assim ele é! O justo viverá pela fé. Ou em outras palavras, o homem que vive pela fé é justo. Por outro lado, o homem que recua é injusto porque ele não vive pela fé. 

Aqui está a grande divisão das águas para a vida. Todos estamos de um lado ou de outro. Qualquer que seja minha visão política ou filosófica, elas precisam ter este denominador comum, se minha vida está baseada na fé ou não, ou se eu sou controlado por ideologias políticas, sociais, econômicas ou mesmo pelo consumismo. O que importa é se estou a aceitar o governo de Deus ou não.

(D.M.Lloyd-Jones, From fear to faith (p.50), Tradução livre)

Ressurreição e Missão

“Então o lobo morará com o cordeiro” (Isaias 11.6)  Há uma crença equivocada na Doutrina da Ressurreição. Entre os cristãos atuais tra...