Dá os bens deste mundo e receberás os bens eternos. Dá na Terra e receberás no Céu. Mas a quem os darás? [...] Escuta o que te diz a Escritura: «Quem dá ao pobre empresta ao Senhor» (Pr 19,17). Deus não precisa de ti, seguramente: mas outro precisará. O que deres a um, outro o receberá. Porque o pobre nada tem para te dar; bem quereria, mas nada encontra para dar; nele, há apenas essa vontade vigilante de orar por ti. Mas, quando um pobre ora por ti, é como se dissesse a Deus: «Senhor, recebi um empréstimo, sê Tu a minha caução». Se o pobre com quem lidas está insolvente, tem um bom fiador, pois Deus diz-te: «Não tenhas receio de dar, Eu respondo por ele [...], Eu darei, sou Eu que recebo, é a Mim que dás».
Acreditas que Deus te diz: «Sou Eu que recebo, é a Mim que dás»? Sim, seguramente, pois Cristo é Deus, e nisto não há dúvidas. De facto, Ele disse: «Tive fome e destes-Me de comer». E, quando Lhe perguntamos: «Senhor, quando foi que Te vimos com fome?», Ele mostra-nos que é de facto o fiador dos pobres, que responde por todos os seus membros [...], e diz-nos: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25,35s).
Santo Agostinho (354-430)
bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja
3.º Sermão sobre o Salmo 36
Como é difícil praticar o desapego, a renúncia em dar! E essa prática é aquela será a prova de nossa fé. Não serão quantas vezes ouvimos um sermão, ou quantas vezes lemos a Bíblia, ou mesmo quantas vezes decoramos um verso litúrgico. A grande questão para a recompensa não será quantas actas de sociedades internas eclesiásticas escrevemos, ou mesmo quantos livros de teologia passaram em nossas mãos. Não será quantos títulos de graduação em teologia alcançamos, mas sim, simplesmente se nós aprendemos o desapego e amamos o semelhante, da mesma forma que Cristo amou o mundo e se entregou por ele, entregando-se a nós, como Aquele que cumpriu por nós a lei do amor.
Absolutamente, a recompensa virá não como um prêmio, mas como um presente da Graça - favor imerecido de Deus, por tantas vezes cumprirmos a lei da caridade e do amor abnegado. Não como troca ou barganha, mas como gratidão eterna. Entregarmo-nos inteiramente ao Amor eterno.