sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

TRIBUTO A DEUS PELA VIDA DE MEU PAI


Quero lembrar das palavras do evangelho de São João 11.25,26: “Disse-lhe Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente.” E também das palavras do Livro do Apocalipse 21.1-4: “Então vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia. Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para o seu marido. Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: "Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou". 

Sob extrema tristeza e dor pelo passamento de sua vida, quero dizer que somente Deus poderia me dar forças suficientes para poder escrever estas poucas linhas. Somente Deus pode consolar-nos diante da morte, pois não fomos criados para a morte e sim para a imortalidade.

Tenho o privilégio de dizer que sou filho deste homem, meu companheiro e meu professor. Desconheço alguém que evidenciou tanto sua fé em Deus como meu pai. Raul não era homem de exibir discursos sobre Deus e sobre sua fé, mas a exercia através de ações e de obras. Portanto, não tenho dúvidas que ele está com Cristo neste momento. A fé em Deus é muito mais valorosa quando se fala pouco, e se pratica aquelas coisas que Jesus nos ensinou. Raul foi uma destas pessoas. 

Raul era assim, homem de coração sincero, disponível, doador, dedicado, preocupado com pessoas e não com coisas. Procurava amar as pessoas e usar as coisas. Diferente da natureza humana em que se "ama as coisas" e "usa-se as pessoas". Raul sempre foi solícito a ajudar e a procurar aliviar a dor dos amigos com algum serviço que lhe era peculiar. 

Raul me ensinou, assim como minha mãe, a ser um aprendiz. Era alguém de coração aberto para sempre receber algum conhecimento. Fui aluno dele no SENAI. Como professor era austero e disciplinado, mas nunca deixava o lado brincalhão com seus alunos quando o momento favorecia. 

Foi um homem que me motivava a tratar minha vocação pastoral como uma vocação divina e não como uma profissão. Sou pastor da igreja presbiteriana e não poucas vezes meu pai me dizia quando nos encontrávamos: “Luiz, Deus lhe chamou para uma função especial, por isso seja firme e um exemplo”. Sendo um religioso, meu pai entendia o valor dessa missão especial. Diante da morte de tantos amigos e parentes que vivenciava, a começar de minha mãe em 1975, ele dizia: “Luiz, todos nós vamos passar pela morte um dia, assim é a vida”. Raul sempre teve uma visão realista da vida. 

Raul foi sempre muito apegado a familia. Sempre fez questão de falar da genealogia de nossos avós, tios e tias. Sempre apegado aos amigos, professores do SENAI, amigos da pescaria. Como Raul gostava de pescar. Ainda me lembro quando menino, nas tardes de sábado, me levava a pescar com ele no Rio “Passa-cinco”. Raul foi exemplo de vida. Um mestre da vida. Quantos ex-alunos o chamam até hoje de “professor”... Eu dizia a ele quando o visitava: Se o senhor se candidatar a vereador, será eleito. Raul sempre valorizou a boa amizade.

Enfim, hoje agradeço a Deus pela vida de meu pai. Com minhas irmãs Andréa e Adriana, meu cunhado David e os netos Beatriz, Pedro Augusto e Mariana agradecemos aos amigos Sr. Dirnei e da. Lucia, da. Dirce que estiveram com ele até o seu último suspiro. Agradecemos a Deus pela vida de nossos parentes e amigos que procuraram aliviar a dor de sua enfermidade através das visitas e o apoio na manutenção dos serviços em casa. 

Não tenho dúvidas que neste momento nosso pai está junto de Cristo e junto daqueles que levaram a sério a sua vida de fé. Minha oração é que o Senhor Deus console a todos nós. Não perdemos nosso pai, nosso professor, nosso amigo. Iremos nos reencontrar naquele Dia, quando Cristo, o Senhor da história, voltar e inaugurar um novo tempo, a vida eterna, a todos que como ele, viveram a fé, através de suas obras.

Meu desejo pessoal é que cada um dos que estão aqui a ler este escrito possam um dia se encontrar com Cristo na eternidade e juntos com o Seu Raul, viverem a vida eterna prometida a todos os que amam a Deus verdadeiramente.

Que Deus nos console com a sua graça.


sábado, 26 de dezembro de 2020

«Senhor, não lhes atribuas este pecado»

Imitemos Nosso Senhor e oremos pelos nossos inimigos. [...] Estando crucificado, Ele orou a seu Pai por aqueles que O haviam crucificado. Mas como posso eu imitar o Senhor, perguntamo-nos. Se quiseres, podes; pois, se não pudesses, Ele não teria dito: «Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração» (Mt 11,29). [...]

Se tens dificuldade em imitar o Senhor, imita pelo menos aquele que é também seu servo, seu diácono: Estêvão. Com efeito, ele imitou o Senhor; pois assim como Cristo, esquecendo a cruz, esquecendo a sua própria situação, intercedeu junto do Pai em favor dos seus carrascos (Lc 23,34), assim o seu servo, rodeado por aqueles que o lapidavam, assediado por todos, submetido a uma chuva de pedras, sem ter em conta os sofrimentos que lhe causavam, pediu: «Senhor, não lhes atribuas este pecado» (At 7,60). Estás a ver como falava o Filho e como orava o seu servo? O primeiro ora: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» e o segundo pede: «Senhor, não lhes atribuas este pecado». De resto, para compreendermos melhor o ardor com que Estêvão orava, notemos que não orava simplesmente de pé, sob os golpes das pedras: era de joelhos que falava, com convicção e compaixão. [...]

Cristo disse: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem», Estêvão gritou: «Senhor, não lhes atribuas este pecado» e Paulo declarou: «Ofereço este sacrifício «pelo bem dos meus irmãos, os da minha raça, segundo a carne» (cf Rm 9,3). Moisés pediu a Deus: «Perdoa-lhes este pecado, ou então apaga-me do livro que escreveste» (Ex 32,32), e David suplicou-Lhe: «Peço que descarregues a tua mão sobre mim e sobre a minha família!» (2Sam 24,17). [...] Que perdão podemos obter se fizermos o contrário daquilo que nos é pedido e orarmos contra os nossos inimigos, quando o próprio Senhor e os seus servos, tanto do Antigo como do Novo Testamento, nos exortam a pedir por eles?

João Crisóstomo (c. 345-407); presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja

sermão da Sexta-feira Santa «A cruz e o ladrão»

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O que é Crer J.C.Ryle


A fé e a crença, tratados por mim anteriormente, são uma graça de suma importância e serão, naturalmente, falsificadas, portanto, precisamos estar preparados para isso. Assim como existe uma fé morta, também existe a fé viva; a fé dos perversos, assim como a fé dos eleitos por Deus; a fé que é vã e inútil e a fé que justifica e salva. Como o homem saberá se ele tem a fé verdadeira ou não? Como ele saberá se acredita na salvação de sua alma? Há como descobrir. Um etíope é reconhecido pela sua pele, assim como um leopardo por suas manchas. A fé verdadeira pode ser reconhecida por algumas marcas. Elas estão expostas claramente nas escrituras. Leitor, vou me esforçar para deixar essas marcas de forma clara diante de você. Observe-as cuidadosamente e teste sua própria alma com o que vou dizer.

1.  Aquele que acredita em Cristo tem, dentro de si, paz e esperança.  Está escrito “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo”, “Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso” (Rm 5:1, Hb 4: 3). Os pecados do cristão são perdoados e suas iniquidades são levadas embora, sua consciência já não está mais carregada com o peso de suas transgressões não perdoadas. Ele está reconciliado com Deus e tornou-se um de seus amigos, podendo olhar para a morte, o julgamento e a eternidade sem temor. A tormenta da morte é afastada e quando o julgamento do dia final for realizado e os livros forem abertos, não haverá nada posto a seu cargo. Ele estará preparado para quando a eternidade chegar, porque sua esperança está no céu e na cidade sólida. Ele pode não ser completamente sensível a todos esses privilégios, seu senso e visão sobre estas coisas podem variar enormemente dependendo do momento e podem ser frequentemente obscurecidos por dúvidas e medos. Como uma criança que ainda é muito nova, mas herda uma grande fortuna, ele pode também não estar ciente do valor de suas posses, mas com todas as suas dúvidas e temores, ele tem uma esperança verdadeira, sólida e real que o fará suportar as provas e poderá dizer “Tenho uma esperança que faz com que não me sinta envergonhado”. (Rm 5: 5.)

2.  Aquele que acredita em Cristo tem um novo coração. Está escrito, “Assim, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo“, “mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos quais crêem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”, “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus” (2 Co 5:17, Jo 1:12,13, I Jo 5:1). Um cristão não tem mais a mesma natureza de antes. Ele está mudado, renovado e transformado à imagem de seu Senhor e Salvador. Aquele que se preocupa primeiro com os assuntos da carne, não tem fé. A verdadeira fé e regeneração espiritual são companheiras inseparáveis. Uma pessoa não convertida não é cristã!

3.  Aquele que acredita em Cristo é uma pessoa cujo coração e vida são santos. Está escrito que Deus purifica “os seus corações pela fé” e que cristãos são “santificados pela fé”, “E qualquer que nele tem esta esperança, purifica-se a si mesmo” (At 15: 9, 26: 18, I Jo 3: 3). Um cristão ama aquilo que Deus ama e odeia o que Deus odeia. O desejo do seu coração é caminhar segundo as ordenanças de Deus e se abster de qualquer costume maldoso. Seu desejo é andar segundo o que é justo, puro, honesto, amável e de bom testemunho e purificar-se de toda impureza da carne e do espírito. Por diversas vezes ele está muito aquém de seus propósitos e vê sua vida diária como um duelo constante contra a corrupção que habita nele. Ele luta e se recusa a servir o pecado. Onde não há santidade, podemos ter certeza de que não há fé salvífica. Um homem profano não é cristão!

4.  Aquele que acredita em Cristo trabalha na obra de Deus. Está escrito que a “fé opera pelo amor” (Gl 5:6). Uma crença verdadeira nunca fará um homem perder tempo, nem permitirá que ele fique imóvel, satisfeito com sua própria religião. Essa crença o motivará a realizar atos de amor, bondade e caridade quando perceber uma oportunidade. Ele será compelido a andar pelo mesmo caminho que seu Mestre, que “andou fazendo o bem”. De uma forma ou de outra, fará com que ele trabalhe. As obras que ele faz, talvez não atraiam os olhares do mundo. Elas podem parecer insignificante para muitas pessoas, mas não serão esquecidas por Ele, que nota até um copo de água gelada oferecida em Seu nome. Onde não há um trabalho por amor, não há fé. Um cristão preguiçoso e egoísta não pode caracterizar-se como cristão!

5.  Aquele que acredita em Cristo vence o mundo. Está escrito que “todo o que é nascido de Deus, vence o mundo, e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (I Jo 5:4). Um verdadeiro cristão não se regra pelos padrões mundanos de certo e errado, verdade ou mentira, não depende da opinião do mundo e não se importa com o reconhecimento do mundo. Ele não é movido pela censura do mundo, nem busca seus prazeres, tampouco ambiciona as recompensas dele. Ele olha para o que não se pode ver. Ele vê um Salvador invisível, um julgamento por vir e uma coroa de glória que não se desvanece. Tudo isso faz com que ele pense pouco do mundo. Onde o mundo reina no coração, não há fé. Um homem conformado com esse mundo, não pode se denominar cristão!

6.  Aquele que acredita em Cristo, tem um testemunho interno de sua crença.  Está escrito que “quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho” (I Jo 5:10). A marca diante de nós, requer um manejo delicado. A testemunha do Espírito é, inquestionavelmente, um assunto muito difícil, mas não posso temer em declarar minha própria convicção, de que verdadeiros cristãos sempre têm sentimentos dentro de si que são peculiares a eles, sentimentos que estão conectados com sua fé e que fluem dela, sentimentos que descrentes desconhecem. Ele tem o Espírito da adoção, pelo qual ele olha para Deus como o Pai reconciliador e o observa sem temor. Ele tem o testemunho de sua consciência, borrifada pelo sangue de Cristo, de que, tão fraco quanto possa ser, ele descansa em Cristo. Ele agora tem esperança, alegria, medo, dor, consolação e expectativa, coisas que não conhecia antes de crer. Ele recolheu evidências que o mundo não consegue entender, mas que são bem melhores para ele, mais do que qualquer livro de evidências existente. Os sentimentos são, sem dúvida alguma, muito enganosos. Mas onde não há sentimentos religiosos, não há fé. Um homem que não sabe nada sobre religião interna, espiritual e experimental, não é, ainda, um cristão!

7.  Por último, aquele que acredita em Cristo, tem um olhar especial em sua religião à pessoa de Cristo. Está escrito, “E assim para vós, os que credes, é preciosa” (I Pe 2: 7). Esse texto merece uma atenção especial. Ele não diz que o cristianismo é precioso, ou que o evangelho é precioso, ou que a salvação é preciosa, mas que Cristo é precioso. A religião de um cristão não consiste em mero consentimento intelectual a algumas afirmações e doutrinas, não é uma crença fria de um conjunto de verdades e fatos concernentes a Cristo. Ela consiste em união, comunhão e camaradagem com uma Pessoa que vive: Jesus, o Filho de Deus. É uma vida de fé, confiança e descanso em Jesus; uma vida de sugar o máximo dEle, falar com Ele, trabalhar para Ele, amá-lO e ansiar pela Sua segunda vinda. Essa vida parece entusiasmar a muitos, mas onde há fé verdadeira, Cristo será sempre conhecido e visto como um amigo vivo e pessoal. Aquele que não vê a Cristo como seu pastor, médico e redentor, não tem conhecimento algum sobre crer!

Leitor, agora coloquei diante de você, as sete marcas de quem crê e peço para que considerem-nas. Não estou dizendo que todos os cristãos as têm igualmente, e também não estou dizendo que aquele que não tiver todas essas marcas, não será salvo. Sei que muitos cristãos são tão fracos na fé, que passam todos os dias de sua vida duvidando até deles mesmo. Digo apenas que existem marcas para as quais o homem deveria direcionar-se primeiro, caso queira responder à questão: você crê?


terça-feira, 17 de novembro de 2020

RENUNCIE!



Queres viver eternamente?

Renuncie...

Sua familia...

Seu pai...

Sua mãe...

Seus irmãos...

Seus familiares...

Sua tradição....

Seu casamento...

Seu marido...

Sua esposa...

Sua noiva...

Seu noivo....

Sua namorada....

Seu namorado...

Seus filhos....

Seus títulos ...

Sua formação educacional...

Sua profissão....

Seus cargos...

Seus bens...

Seu carro...

Seus investimentos...

Seu dinheiro...

Sua saúde....

Seus entretenimentos...

Suas viagens....

Sua casa...

Suas rendas...

Sua popularidade...

Suas amizades....

Sua arrogância...

Seu egocentrismo...

Seu egoísmo...

Seu pecado...

Sua manias...

Seus vícios...

Seu passado...

Sua religiosidade...

Sua tradição religiosa...

Sua tradição cultural...

Porque Jesus Cristo diz que: "todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo". (Evangelho de São Lucas 14.33), por que se tu amares alguém ou alguma coisa mais do que a Deus, você nunca viverá eternamente.

domingo, 8 de novembro de 2020

VENHA À MISSÃO

Venham à missão do jeito que estiverem. Não esperem ser mudados integralmente. A missão se faz a longo prazo, em nossa miséria, com nossos pecados, com nosso lauto ou parco conhecimento. É claro que o alvo de nossa vida é ser como o Senhor, mas quantos ficam a esperar o momento ideal para se pôr à missão? Entretanto ficarão apenas a esperar, enquanto o Espírito Santo está a fazer aquilo que fora dado a todos nós: o serviço.

A missão não pode ser escravizada, limitada e elitizada pelo muito saber. Inúmeros religiosos, excelentes intelectuais, vivem e são supridos de suas teorias e pensamentos bem intencionados sobre Deus, mas nunca pisaram fora de seus arrraiais colocando-se ao serviço.

Na vida precisamos de dois extremos: inteligência e espiritualidade, e assim desenvolver o intelecto tão profundamente quanto nos entregar a uma profunda espiritualidade. Se não acontecer assim, o serviço será uma caricatura do Senhor Jesus Cristo, apenas. Sem essa vivência teremos bons oradores de bom conhecimento, mas sem a presença do Deus pessoal.

É verdade, nossa missão nunca será perfeita e conterá aqui e acolá vestígios de nossos equívocos e míseros actos e palavras. Se não confiarmos na ação do Deus Todo poderoso enquanto semeamos, seremos vítimas de nossa própria vaidade e arrogância. Teremos um séquito distinto, um número imenso de seguidores como influencers, mas estaremos fora da missão do Reino de Cristo.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Quem ousará levantar-me um processo?

Melitão de Sardes (?-c. 195)

bispo

Homilia Pascal (do Ofício de Leitura da 2.ª-feira da Oitava da Páscoa)


«Tenho a certeza de que não ficarei confundido. O meu defensor está junto de mim. Quem ousará levantar-me um processo?» (Is 50,7-8)


O Senhor, sendo Deus, fez-Se homem e, tendo sofrido em vez do enfermo, tendo sido encarcerado em vez do prisioneiro, tendo sido condenado em vez do criminoso e sepultado em vez do que jazia no sepulcro, ressuscitou dos mortos e exclamou com voz poderosa: «Quem ousará levantar-Me um processo? Aproxime-se de Mim! (cf Is 50,8) Eu libertei o condenado, dei a vida ao morto, ressuscitei o que estava sepultado. Quem ousará atacar-Me? (cf Is 50,9) Eu sou Cristo, Aquele que destruiu a morte, que venceu o inimigo, que calcou aos pés o inferno, que sujeitou o violento (cf Lc 11,22) e que arrebatou o homem para as alturas dos Céus. Eu sou Cristo.

»Vinde, portanto, todas as nações da terra oprimidas pelo crime, e recebei a remissão dos pecados. Eu sou o vosso perdão, a Páscoa da salvação, o Cordeiro por vós imolado, a água que vos purifica, a vossa vida, a vossa ressurreição, a vossa luz e salvação, o vosso Rei. Eu vos elevarei às alturas dos Céus; Eu vos ressuscitarei e vos mostrarei o Pai que está nos Céus; Eu vos exaltarei pela minha mão direita».

Assim é Aquele que fez o Céu e a Terra e no princípio criou o homem (cf Gn 2,7), Aquele que Se fez anunciar pela Lei e pelos profetas, Aquele que nasceu da Virgem, foi crucificado no madeiro, sepultado na terra, ressuscitado dentre os mortos, ascendeu às alturas do Céu, Se sentou à direita do Pai e detém o poder de tudo julgar e de tudo salvar. Por Ele criou o Pai tudo o que existe, desde o princípio até à eternidade. É Ele o Alfa e o Ómega (cf Ap 1,8), o princípio e o fim, Cristo, a quem sejam dados a glória e o poder pelos séculos dos séculos, Ámen.

sábado, 1 de agosto de 2020

TESTEMUNHO?


Como estamos a testemunhar de Cristo? Há muita propaganda e pouca identificação. Há muito turismo em nome da fé e pouca adaptação. Sempre devemos ter coragem para avaliar a maneira como comunicamos o evangelho. Não é suficiente usar apenas a “média” para anunciar as Boas Novas. Estamos expostos todos os dias a internet, e percebemos que na grande maioria das vezes, as programações e os eventos das igrejas, nada tem a ver com a valorização da pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas sim com a necessidade de uma exposição pessoal e coletiva no mundo virtual. Toda gente gosta de ser celebridade.

Outro perigo que estamos a correr é de dar nomes a determinados eventos para chamarmos a atenção de todos. Um dos mais populares é o termo: “avivamento espiritual”. A maioria desses eventos assim chamados de extraordinários não passam de “coreografia litúrgica” regado a muita gritaria e sensacionalismo. 

Afinal, o que é evangelizar à maneira de Jesus Cristo? Sem uma perceção correta da missão do Senhor no evangelho, não haveremos de cumprir a missão segundo a vontade do Senhor. Em primeiro lugar, precisamos rejeitar algumas ideias usadas pelo movimento evangélico popular que reproduz formas e métodos usados pelo mundo corporativo empresarial e de mercado. Para uma missão parecida com a de Jesus de Nazaré, devemos evitar com firmeza a evangelização praticada por muitos a “pescar no aquário” de outros a fazerem o famoso proselitismo .

Para que cumpramos nossa missão devemos redescobrir a “encarnação de Cristo” como maior modelo. Sempre devemos nos estimular e fundamentar na maneira como Cristo, falou, agiu e viveu entre nós. Devemos nos perguntar: O que é a missão de Cristo? Como o Senhor falava? Como Ele ensinava? Como curava? Enfim, como Jesus se envolvia com as pessoas de sua época? Então vamos achar as respostas e seremos desafiados pelas suas palavras: “assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). O Senhor Jesus Cristo, portanto, é o modelo para que nós realizemos a nossa missão. Devemos seguir o padrão que o Deus-Pai usou para enviar o Deus-Filho.

Portanto, esse é o grande desafio para nós, em nossos dias. Em todos os planos que fazemos, devemos nos espelhar na maneira e no modo como Nosso Senhor testemunhou de Si mesmo. Procuremos lutar contra as maneiras fantasiosas e alegóricas. Abandonemos a ideia que precisamos de muito dinheiro para cumprir a missão. A simplicidade ainda é a correcta maneira. Sem contextualização pessoal não haverá missão como a de Nosso Senhor. Ensinemo-nos uns aos outros a viver o evangelho em nossa natureza. Algumas vezes deveremos “arregaçar as mangas” e “colocar os pés na lama” para que nossa evangelização não seja nem estranha e nem estrangeira, mas simples de tal forma que o Espírito Santo possa usar e manifestar a Sua graça. 

Identifiquemo-nos com Cristo e nos envolvamos com toda a gente, as mais diferentes e as mais diversas. Quanto mais nos identificarmos com Cristo mais nos envolveremos com mundo a nossa volta. Mas o contrário também é verdade. Portanto, nossa missão não pode ficar apenas nos cultos virtuais e dominicais. Deve ir além de uma mensagem verbal. Deve ser um testemunho de serviço, encarnacional, modelado pelo jeito de Cristo, com sentimento e dinâmica, com criatividade e inteligência, baseados na Escritura.

Lembremo-nos da oração do Senhor: “para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17.21) Os actos de amor, de justiça e de misericórdia falam mais alto do que muitos discursos postados num mundo virtual!

Rev. Luiz Augusto

sábado, 18 de julho de 2020

“Vai ficar tudo bem!”: A verdadeira filosofia do Escapismo


Quantas frases de efeito temos recebido em nossas caixas de correio eletrônico, nas redes sociais e visto nas faixas a frente de instituições públicas? Nossa Sociedade caminha a passos largos para a nulidade, diante das incertezas a que somos sujeitos. 

Como o relativismo[1] foi sedimentado na filosofia de vida de toda gente, hoje não sabemos mais o que fazer quando enfrentamos tragédias e calamidades que afetam o mundo todo. A mente do ser humano do século XXI foi modelada pelos meios de comunicação e não consegue se pautar por algo consistente que gere esperança, pois não sabemos mais em que acreditar. 

Vivemos uma época onde a prática filosófica do Escapismo veio para ficar. Define-se “Escapismo” como o desejo de evasão. É o alívio ou a distração mental de obrigações ou realidades desagradáveis, recorrendo a devaneios e imaginações. É a desconsideração da realidade. Percebe-se que diante das maiores atrocidades que possam acontecer a humanidade, devido a ausência de princípios absolutos na Sociedade, os meios de comunicação e os líderes governamentais colhem frases de efeito para produzir na população uma esperança, mesmo que esta seja vã. Por exemplo a frase que está em alta é esta que todos já lemos ou ouvimos: Tudo vai ficar bem. 

Parece que entramos num tempo de devaneios onde devemos afirmar e reafirmar determinadas frases para que nos sintamos melhor e diante da sensação de desespero. O relativismo fez isso com todos e por causa disso devemos mentir para nós mesmos em rejeitar a realidade que nos cerca. Isso é muito mal porque quando praticamos isso: 

1. Subtraímos de nós a nossa realidade. Fugir da realidade é a prática mais usual, devido a não termos como responder concretamente e obtermos afirmações lógicas para que vivamos de modo confortável. Por isso tentamos escapar da realidade porque ela nos incomoda e nos constrange. 

2. Buscamos um escape, a fugir diante do desconhecido. A pandemia do Covid19 trouxe-nos a incerteza total. Se Deus havia “morrido” no final do século 19 para a filosofia europeia, hoje os deuses propostos pelos atuais filósofos e religiões não conseguiram gerar em toda a gente um estilo de vida melhor com esperança para os dias em que se vê a morte tão próxima de cada um. O desconhecido é originador de pânico e desespero. 

3. Vivemos um mundo de fantasia. Viver a realidade é tremendamente cruel para qualquer pessoa, então melhor que nos saturemos das frases de efeito escapistas do que buscar a viver com princípios absolutos e encarar a verdadeira miséria que estamos a viver. 

Como então viver e enfrentar a realidade sem os devaneios da fantasia escapista? 

1. Acreditar em princípios absolutos. A Bíblia nos revela não apenas um Deus, mas o verdadeiro Deus, Criador e sustentador deste universo. Nele, nos movemos e existimos. Ele é o princípio absoluto de tudo que há e o Seu Filho Jesus Cristo, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus é a sua plena e absoluta revelação. Ele revela nossa cruel miséria e a carência do ser humano diante de sua finitude. Acreditar neste Deus é se mover por princípios absolutos. 

2. Encarar a miséria em que estamos a viver. A morte e o sofrimento são realidades que devemos aceitar, sem antes também aceitar que em Deus através de Cristo há uma realidade eterna que suplanta toda esta situação e que Ele propõe a toda gente viver além desse mundo, recebendo-o como Seu Salvador eterno e Senhor de toda a vida. Nele há verdadeira fé, esperança e amor. 

3. Dedicar nossa vida ao Deus verdadeiro. Ao percebermos a cruel condição de cada um de nós, e a miséria espiritual e física a que estamos destinados, ao percebermos o amor eterno de Deus em Cristo, ao se dar numa cruz para cumprir um propósito para que todos, através da fé, recebamos a eternidade, sem nossa participação e sem nosso esforço, apenas por amor, percebemos que embora soframos neste presente tempo, receberemos uma vida eterna e nossa ressurreição física para vivermos num tempo onde jamais haverá pranto, dor e luto. 

Rompa com a fantasia e o escapismo de uma Sociedade que está sem rumo. Encaminhe-se diante do Deus, que nos amou desde a fundação do mundo. 

Rev. Luiz Bueno

[1] O relativismo é o conceito de que os pontos de vista não têm uma verdade absoluta ou validade intrínsecas, mas eles têm apenas um valor relativo, subjetivo, e de acordo com diferenças na perceção e consideração.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Tinha ainda alguém para enviar: o seu querido filho


«Cristo confiou-nos o mistério da reconciliação» (2Cor 5,18). São Paulo realça a grandeza dos Apóstolos ao mostrar-nos que mistério lhes foi confiado, ao mesmo tempo que manifesta com que amor Deus nos amou. Depois de os homens se terem recusado a ouvir Aquele que Ele lhes tinha enviado, Deus não fez soar a sua cólera, nem os rejeitou, mas persiste em chamá-los, por Si próprio e através dos Apóstolos. [...]
«Deus pôs na nossa boca a palavra da reconciliação» (v. 19). Viemos portanto, não para uma obra penosa, mas para fazer de todos os homens amigos de Deus. Se não vos escutarem, diz-nos o Senhor, continuai a exortá-los, até que encontrem a fé. Por isso, São Paulo acrescenta: «Nós somos embaixadores de Cristo; é o próprio Deus que vos chama através de nós. Suplicamos-vos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus». [...]
A que poderemos comparar tão grande amor? Depois de termos pagado estes benefícios com insultos, longe de nos punir, Ele deu-nos o seu Filho querido, para nos reconciliar consigo. No entanto, longe de quererem reconciliar-se, os homens deram-Lhe a morte. Deus enviou embaixadores para os exortar e depois tornou-se Ele próprio suplicante por eles. Continua a ser Ele que pede: «Reconciliai-vos com Deus». Ele não diz: «Reconciliai Deus convosco», pois não é Ele que nos rejeita; sois vós que recusais ser amigos dele. Poderá Deus ter sentimentos de ódio?

João Crisóstomo (c. 345-407)
presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja
11.ª homilia sobre a 2.ª carta aos Coríntios

quarta-feira, 6 de maio de 2020

«Quem Me vê, vê Aquele que Me enviou»

Alguém que tinha chamado «bom mestre» a Jesus, pedindo-Lhe conselho para alcançar a vida eterna, recebeu esta resposta: «Porque Me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus» (Mc 10,17-18). [...] Sim, se Me vires na minha condição divina, Eu sou bom, mas se Me vês somente na condição humana, que contemplas agora, porque Me interrogas acerca do que é bom, se és daqueles que apenas «hão de olhar para Aquele que trespassaram»? (Jo 19-37; Zac 12,10). Essa visão trar-lhes-á infelicidade, porque será a visão do castigo.

Existe, com efeito, uma visão em que contemplaremos a imutável substância de Deus, invisível aos olhos humanos, e essa visão, que só é prometida aos santos, é aquela a que o apóstolo Paulo chama um «face a face» (1Cor 13,12); dessa visão, diz o apóstolo João: «Seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é» (1Jo 3,2); e o salmista: «Uma só coisa peço ao Senhor e ardentemente a desejo: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida» (Sl 26,4). O próprio Senhor o diz: «Eu o amarei e hei de manifestar-Me a ele» (Jo 14,21). É por essa visão que purificamos os nossos corações na fé, para pertencermos ao número dos «puros de coração que verão a Deus» (Mt 5,8). Essa visão, e apenas ela, é o nosso supremo bem e é para a alcançarmos que temos o dever de fazer tudo o que fazemos de bom.

Santo Agostinho (354-430)
bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja
Sobre a Trindade, I, 13, 30-31











sábado, 11 de abril de 2020

O DIA EM QUE JESUS PERMANECEU NO SILENCIO DO SANTO SÁBADO



(adaptado de Gerrit Scott Dawson)

Durante séculos, os cristãos chamaram o dia entre a morte e a ressurreição de Jesus no Sábado Santo. Para muitos de nós, no entanto, o dia se tornou apenas mais um sábado normal. Podemos ter algumas reflexões sóbrias na Sexta-feira Santa, mas na manhã seguinte estamos comprando mantimentos, limpando a casa e nos preparando para uma celebração da Páscoa. Afinal, Jesus sabia que ele seria ressuscitado, e todos nós sabemos o que está por vir. Então, por que não continuar com a alegria?

O problema é que as Escrituras contam a história de maneira diferente. O Pai não ressuscitou Jesus diretamente da cruz. Houve um dia no meio. Uma pausa. Uma lacuna. No centro do resumo mais antigo do evangelho, está o silêncio do Sábado Santo. Paulo escreveu aos Coríntios: “Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Co 15:3,4). Primeira importância! Ele morreu. Foi sepultado. Mas então por que tão demorado? Qual é o significado desse ponto morto neste sábado? O que importa para nós marcar este sábado silencioso?

O que aconteceu no sábado santo?

Jesus predisse este dia quando disse: “Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra”. (Mt 12:40). Uma rápida olhada na oração de Jonas revela: “Do ventre do Sheol, eu chorei, e você ouviu minha voz[…] Desci à terra cujas grades me fecharam para sempre” (Jn 2:2,6). Depois que o corpo humano de Jesus expirou na cruz, sua alma humana entrou no estado dos espíritos que partiram.

Conhecido em hebraico como Sheol e em grego como Hades, esse era um estado desencarnado de existência sombria. (Este Hades não é o mesmo que o inferno, que é o “lago de fogo” em Apocalipse 20:10, 14–15). As escrituras a descrevem como no fundo do mar (Jonas 2: 3), ou no coração da terra (Deuteronómio 32:22), e também é descrito como o abismo (Romanos 10: 7) ou mesmo a cova (Salmo 30: 3). Essas descrições das Escrituras são escritas como alusões poéticas, porque os vivos só podem especular sobre esse reino invisível. No Sheol, a pessoa é consciente, mas isolada, esquecida pelos vivos, sem esperança de retornar. Isso foi morte, e Jesus entrou nela. Trinta e cinco vezes, no Novo Testamento, lemos que Jesus ressuscitou ek nekron, literalmente “fora dos mortos” - fora do estado de morte e da companhia solitária dos mortos.

Entre a cruz e a tumba vazia, a alma de Jesus entrou no estado de morte. O Catecismo Maior de Westminster, na resposta à pergunta 50, descreve esta realidade sucintamente: "A humilhação de Cristo após sua morte consistiu em ser enterrado e continuar no estado dos mortos, e sob o poder da morte até o terceiro dia". Jesus permaneceu sob o poder da morte. Ele não foi resgatado ou ressuscitou imediatamente. Seu corpo humano estava no túmulo. Sua alma humana estava no reino dos mortos.

Através dos séculos, muitas questões surgiram sobre o que Jesus experimentou no Sheol / Hades. Ele dormiu, como se estivesse em um grande descanso no sábado? Ele estava no "paraíso" (Lucas 23:43), um estado feliz considerado por alguns nos dias de Jesus como parte do Sheol, também conhecido como o seio de Abraão (Lucas 19:22)? Ele estava ativamente atormentado como se estivesse no inferno? Ele estava proclamando seu triunfo para os espíritos dos mortos e até para os seres angélicos mantidos "embaixo"? Essas são ótimas perguntas. Buscar respostas pode nos levar a considerações saudáveis ​​da pessoa e obra de Jesus, mas também à controvérsia. No entanto, não precisamos descobrir nossas especulações para experimentar o valor bíblico do Sábado Santo.

O que o Sábado Santo significa para nós?

Considerar a experiência dos primeiros discípulos do Sábado Santo nos dá um significado para o dia que atravessa as divisões teológicas. Primeiro, eles esperaram. Sábado era sábado. Eles não podiam terminar de cuidar do corpo de Jesus para sepultamento (Lucas 23: 54–56). Eles sentiram uma incompletude.

Certamente eles experimentaram no sábado sentimentos semelhantes aos descritos no domingo antes que a verdade da ressurreição de Jesus lhes ocorresse completamente. Eles repetiram os acontecimentos, tentando entender o choque (Lucas 24:15). Seus rostos desanimados expressavam seus corações (Lucas 24:17). Jesus estava morto. Poderia realmente ser o fim dele? Sim, ele havia previsto que iria subir no terceiro dia. Mas os discípulos em sua tristeza esqueceram a promessa ou não acreditaram mais nela (ou talvez nunca tivessem realmente entendido). Os sons revoltantes da Sexta-Feira Santa continuavam se espalhando no silêncio misterioso de sua ausência. Eles esperaram, mas com pouca ou nenhuma esperança. Nesse sétimo dia estéril, aqueles que amavam Jesus se esconderam atrás de portas trancadas com medo e desespero (João 20:19).

Temos sentimentos semelhantes quando enfrentamos a morte. Não importa quão forte seja a nossa fé, cada um de nós experimenta essa dor. Não é assim que deveria ser! Nós fomos interrompidos. Nos encontramos esperando a volta do ente querido, mesmo sabendo que não pode ser. Sentimos a solidão dessa ausência, e podemos ter medo de que o morto também seja solitário. Esperamos inconscientes a espera do possível reencontro, mas perguntamos a nós mesmos: "Existe realmente algo mais que esse vazio?"
O Sábado Santo nos diz que Jesus entrou na morte e ficou morto. A lacuna foi longa o suficiente para que ele realmente provasse a morte (Hebreus 2:9) e experimentou as dores de estar nas garras da morte (Atos 2:24). Ele entrou totalmente na terra da qual ninguém volta. Ele empreendeu a grande solidão da morte como parte de sua redenção. E seus discípulos experimentaram sua morte como se fosse permanente. Surpreendentemente, esta é uma boa notícia para nós.

Mesmo a escuridão não é escura

Por causa do intervalo que é o sábado santo, a esperança do Salmo 139 agora está fundamentada na própria experiência de Jesus: "Se eu fizer minha cama no Sheol, você estará lá!" (Salmo 139: 8). Jesus desceu à morte. Ele fez toda aquela escuridão sua. A morte capturou Jesus quando ele entrou, completamente. Mas então, na grande inversão, Jesus capturou a morte. Em seu ressurgimento, Cristo encheu aquela escuridão com a luz de sua presença. Ele dissipou essa tristeza para sempre para aqueles que confiam nele. Portanto, quando consideramos a passagem para a morte, agora podemos nos apegar à verdade: "Até as trevas não te serão escuras" (Salmo 139: 12). Assim como Jesus levou nossos pecados, ele também levou todos os nossos mortos solitários.

Então, marcamos o Sábado Santo na igreja agora. Levamos um tempo para deixar que a lacuna seja a lacuna. Passamos uma hora sentindo a realidade desse terrível intervalo antes que a esperança retornasse. Lemos os Salmos juntos, sabendo que Jesus os orou, acreditando que eles forneciam um script para expressar o que Jesus passaria.

Nós o ouvimos orar: "Eu sou um homem que não tem forças, como um que foi libertado entre os mortos, como os mortos que jazem na sepultura, como aqueles de quem Tu não te lembras mais, porque são cortados da sua mão" (Salmo 88:4-5). Oramos na voz de Jesus, Salmos 30, Jonas 2 e Salmos 143 durante a terrível espera do primeiro Sábado Santo. Aumentamos a tensão em sua morte criada por esse intervalo. Ao fazer isso, nossa alegria na Páscoa parece ser maior! Pois no domingo continuamos no Salmo 139, imaginando Jesus sentado na tumba, preparando-se para voltar ao mundo e louvando o Pai e o Espírito que o sustentaram até a morte: “Eu acordo e ainda estou contigo!” (Salmo 139: 18).

Gerrit Scott Dawson é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana em Baton Rouge, Louisiana, EUA.

terça-feira, 24 de março de 2020

Como será o dia de amanhã?

Estamos no limiar de um novo tempo. Estou a pensar o que Thomas Kuhn defende sobre os paradigmas da história, que ocorrem sem que o indivíduo esteja diretamente a frente disso ou melhor percebo que neste tema somos o resultado de nossa própria sociedade. Volto-me a história da humanidade e também do cristianismo. 

À priori, começo por analisar a grande mudança social que ocorreu na Europa quando o Islamismo se expandiu pelo mundo antigo. Vale salientar que essa religião surge por volta do ano 632 e o seu crescimento é avassalador. Até então o Cristianismo como fé nascente no primeiro século, torna-se maioritariamente imperial, não se dá conta que Islã como forma de vida que aglutina a fé e a cultura, toma todo o Médio Oriente e chega a Península Ibérica por volta de 730. Diante deste avanço, a sociedade que era dominada pelo Cristianismo, pois era católico também como Sociedade, começa a ruir. Na Europa diante dos conflitos entre cristãos e islâmicos, aqueles começam a fugir das cidades e das vilas para que não sejam eliminados. À época estamos a ver duas palavras: morte ou apostasia cristã. Eram os dois caminhos que os europeus podiam optar. Os mais pobres precisam do apoio e da ajuda dos mais ricos e conhecidos por nobres, não porque possuíam “sangue azul”, mas que podiam dar proteção aos mais fracos e vulneráveis diante do destruidor. Além do avanço de outros povos bárbaros, começa a surgir a sociedade feudal, em que basicamente os mais simples, conhecidos posteriormente como vassalos, por uma questão de sobrevivência, servem os grandes latifundiários, trabalham para estes em troca de que os suseranos os defendessem com poderio bélico contra o inimigo. O nobre se torna rei, conde, possui poder político e domina os vassalos também com a sua religião. Práticas cristãs são miscigenadas com crenças animistas e o cristianismo desenvolve uma fé extremamente mágica e supersticiosa. Isso irá durar na Europa até que os tempos modernos, movidos pelas Descobertas iria novamente mudar a vida e a sociedade. Principalmente liderados pelos Ibéricos, os Europeus começam a se lançar ao mar na busca de novas terras e um novo começo. A Europa ao expulsar os muçulmanos de Granada em 1492 marcam um novo paradigma, um novo modelo de vida. 

Em conflito com o domínio religioso, neste mesmo tempo, motivados pela necessidade de poder e abertos aos princípios Renascentistas, a busca do que era essencialmente as origens, buscam uma nova terra, novos pensamentos e novas formas de vida uma vez que a Europa morria diante das pestes. É também o tempo da luta contra a opressão do Estado Romano. Se tudo está sob a égide do Catolicismo Romano, que detinha o poder da morte e da vida, os Reformadores levantam a bandeira da independência cultural e religiosa. Há um novo começo, uma nova forma de pensar, uma separação entre Estado e Igreja. A vida muda e com isso a sociedade também. Posteriormente, os ventos de mudanças vão se solidificar ainda mais com a revolução industrial que alimentados pelos ideais da Revolução Francesa e pela nova mentalidade proposta por Descartes e seus pares, vai promover novos modelos de Sociedade, de pensamento. O Iluminismo chega para eliminar o que é místico e definir a vida em termos racionais e exatos. Agora o homem possui luz própria, ele define Deus e a vida. É o humanismo que chega em sua forma mais acentuada. O artesão dá lugar a máquina. Tudo pode ser melhorado em curto espaço de tempo e muito mais. As cidades que antes eram habitadas por pessoas símplices, agora começam a receber os migrantes de todos os lados da terra e das várias etnias. O êxodo rural é inevitável, a Sociedade muda e com ela as culturas tradicionais começam a perder seu valor devido a tanta miscigenação étnica. Em tudo a igreja vai sofrendo e vai sendo transformada. Sua liturgia não é a mesma, sua espiritualidade vai tomando contornos dependendo do estilo cultural a que a vida se propõe, porque não consegue mais discernir com tanta segurança o que é cultura e religião. 

As culturas que eram o lastro onde a espiritualidade acontecia, agora devido a quebra de tantos paradigmas acaba por não mais conseguir discernir. Surgem os conservadores e os liberais, os fundamentalistas e os progressistas. As sociedades continuam a mudar a partir dos seus radicalismos e dos extremos. Com a chegada do século XX, a Europa cai num estado moribundo. Deus não está mais presente. As duas Grandes Guerras marcam a frustração do homem da cidade e tudo de facto é relativo. Os absolutos se perdem na consciência das nações. A vida antes descrita pelos romancistas passados agora é marcada por um nefasto sabor de fel. Os meios de comunicação mudam. Os caminhos que eram feitos de trilhas sobre um simples animal de carga, agora dá lugar a uma pista de alcatrão e asfalto com duas vias. O mundo se altera mais uma vez. A igreja embasada nos ideais da Reforma Protestante de 500 anos atrás ainda pressente o descalabro que muitos em nome do modernismo esquecem os princípios fundamentais da fé. As culturas já não se alimentam do relacionamento simples e a sociedade dá à luz a um novo tipo de relacionamento. O cibernético entra em cena e passa a dar o tom dos últimos tempos. A rede internet de computadores quebra mais uma vez a maneira como se relaciona e como se governa as nações. Os acontecimentos de ontem já passaram como num abrir e fechar de olhos. Nas épocas anteriores os efeitos de determinadas mudanças duravam séculos, mas agora os eventos de ontem já são jurássicos. O passado para nós foi a um segundo atrás. A igreja que antes viaja nos séculos de mãos dadas com o afeto e o abraço, agora deve se satisfazer com a virtualidade. A exposição de todas as camadas às doenças e pragas vão dar origem a uma sociedade mais nova, sem idosos, que retorna sua atenção aos vínculos e núcleos familiares. No momento devido a luta por sobrevivência, mas daqui a algum tempo quem sabe pode voltar a preservar os elementos dos relacionamentos privados. A igreja está a passar por uma nova forma de viver. A igreja está a sofrer como uma mulher em dores de parto. Será a mulher descrita pelo Apocalipse em seu capítulo 12? Será que a mulher será enviada ao deserto? O que deverá acontecer neste novo período do mundo? Quem demandará a vida? O virtualismo vai dominar nossa sociedade a partir de agora? Como será o dia de amanhã?

quinta-feira, 12 de março de 2020

Coronavírus: um instrumento da Soberania Divina?

Eu sou o Senhor!

Impressionante como um vírus, põe a correr exércitos inteiros!

Um vírus, ou toxina, são pequenos agentes infecciosos, a maioria com 20-300 nm de diâmetro. O novo coronavírus tem deixado milhões de pessoas em pânico e o mundo todo tem se sujeitado ao poder deste ser vivo.

O Deus criador e soberano além de agir ativamente neste mundo também tem Sua vontade permissiva e sem dúvida alguma a ação desse vírus é parte desta ação divina, para mais uma vez levar-nos  a submissão e a sujeição da vaidade e da arrogância das nações a Deus. Sim, acredito que embora a situação que tem se imposto as nações, tal coisa, revela-nos questões fundamentais que devem nos alertar: 1- O ser humano é frágil; 2- Deus é Todo-Poderoso; 3- O homem precisa se submeter a Soberania de Deus; 4- As nações e sistemas são nada diante da avassaladora potência de Deus. Todas as áreas da vida estão a sucumbir diante desta toxina: a economia, a política, o poder bélico e muitos nesses dias já fazem as contas de quanto estão a perder.

O Livro de Apocalipse nos fala da abertura do quarto selo por Cristo, o Cordeiro, e que se ouviu a voz do quarto ser vivente dizer:
"Venha!" E João olhou e diante dele estava um cavalo amarelo. Seu cavaleiro chamava-se Morte, e o Hades o seguia de perto. Foi-lhes dado poder sobre um quarto da terra para matar pela espada, pela fome, por pragas e por meio dos animais selvagens da terra. (Ap 6.7,8).

Que estamos já a viver, desde que a igreja se fêz presente neste mundo, as agruras do Apocalipse, não podemos duvidar, ainda mais quando se trata de uma das visões do apóstolo João, que envolve a mortandade do mundo mediante pragas, e por que não dizermos, dos vírus e bactérias.

Perceba que quem desata o quarto sêlo é o Cordeiro. Sim Cristo é que autoriza as ações angelicais e as maldições contra um mundo que não quer jamais se submeter a sua soberania e a se colocar debaixo de Seu cetro.

Não há dúvidas, o novo coronavírus veio para mais uma vez subjugar reinos, nações e povos. Chegou para rebaixar a vaidade do homem, das nações e do pobre mundo que não quer seguir a Lei de Cristo. Conquanto devemos nos prevenir deste vírus, também devemos nos submeter ao verdadeiro Cristo, nos prevenir do pecado que assola a humanidade e que mata a alma e o espírito de qualquer um. Esse vírus nos lembra que Aquele que virá, não guardará o juízo.

Se já percebemos as ações prévias do Cordeiro, imaginemos como será o Dia do grande e temível tribunal de Cristo.

LACB

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Plena segurança aqui!

Assim como olhamos para o futuro desconhecido, nós não sabemos o que nos aguarda. Tudo pode acontecer. E se há uma coisa que nós e o mundo inteiro clama, é certeza e segurança. Nós ficamos para baixo muito frequentemente e nós nos deixamos mesmo ficar para baixo. O homem reflexivo pensa: "Onde eu posso repousar minha confiança? Em que eu posso me proteger com absoluto senso de segurança? E há somente uma resposta: É Deus. Bom para mim, é correr perto de Deus. Eu coloco a minha confiança neste Senhor Deus, este Senhor Deus da Aliança.

Os Salmos, é claro, constantemente enfatizam isso. Você pode achar isso também no Livvro de Provérbios. "O nome do Senhor é uma torre forte: o Justo corre para ele e está seguro". (Provérbios 18.10). Um homem está fora no mundo e o inimigo o ataca. Ele não pode lidar com ele. Ele não sabe o que fazer; ele está alarmado e apavorado. Então ele corre para a torre forte, o nome do Senhor, o Senhor da Aliança. O inimigo não pode ir até lá. Nos braços de Deus estes braços poderosos, ele está seguro. Porque nós estamos em Cristo, nós estamos em Deus. Nós estamos perfeitamente seguros ali. Deixe-me citar uma das maiores coisas que o Apóstolo Paulo diz: "Estou certo, que nem a morte, nem a vida, nem anjos,, nem principados, nem poderes, nem coisas do presente nem do porvir, nem coisas do porvir, nem profundidade, nem qualquer outra criatura será capaz de separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus Nosso Senhor" (Romanos 8.38,39). Seguros nos braços de Jesus. Nada pode prejudicar aqueles que estão guardados seguros no Deus que guarda sua aliança.
D.M. Lloyd-Jones ( Faith and trial, p.123)

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O Longo Caminho da Maturidade

Por: Ricardo Barbosa de Souza 
Tenho me perguntado com relativa freqüência: por que as pessoas são tão resistentes ao amadurecimento? Por que tem se tornado tão raro ver homens e mulheres crescendo emocionalmente e espiritualmente? Convivo com pessoas que, apesar de todas as experiências já vividas, depois de terem lido bons livros, conversado com pessoas maduras e inteligentes, de terem passado por escolas e universidades, ouvirem boas palestras e saberem quase tudo o que a Bíblia ensina, permanecem imaturas. Pessoas assim resistem com todas as forças a qualquer mudança; repetem os mesmos erros, as mesmas dúvidas, os mesmos sentimentos de rejeição; implicam com as mesmas coisas, oram pelos mesmos assuntos, brigam as velhas brigas. Dão à impressão de que não avançaram um milímetro no caminho do amadurecimento, não subiram nenhum degrau na escada do crescimento, não deram nenhum passo em direção a uma vida mais verdadeira. Alguns dão à impressão de que, na verdade, andaram para trás, retrocederam, tornaram-se piores do que já foram.

Basta olhar à volta e ver como as pessoas estão envelhecendo. É raro encontrar hoje um idoso maduro, sábio, bem humorado, destes que já viveram o bastante e souberam aproveitar cada experiência, que não vivem por aí resmungando e reclamando da vida, lamentando a idade e as oportunidades perdidas. Tem sempre uma boa palavra, um bom conselho; sabem envelhecer e não ficam procurando, pateticamente, viver como um adolescente, achando que o bonito está em retroceder e que a velhice é um estágio da vida que precisa ser deletado.

Penso que a resistência ao amadurecimento tem alguma relação com a resistência ao envelhecimento. Certamente, há muitas razões para a letargia emocional e espiritual em que nos encontramos hoje. Na verdade, ao olharmos para as virtudes cristãs, vamos perceber que, uma a uma, vêm sendo desprezadas e desconsideradas em nossa gloriosa civilização moderna e tecnológica. Humildade, simplicidade, castidade, generosidade, amor, bondade, paciência, coragem, lealdade, fidelidade, perseverança e gratidão vêm sendo substituídos por orgulho, vaidade, ambição, egoísmo, pressa, luxúria, inveja, traição, inconstância e ciúme. Somos, hoje, uma geração que não sabe mais amar, mas fazer sexo; que transformou o velho pecado da ambição na virtude da competência e da competitividade; que fez da vaidade a porta de acesso às banalidades sociais e do egoísmo uma arma de sobrevivência.

A paciência há muito deixou de ser uma virtude e, em seu lugar, cresceu o espírito da urgência e da pressa que, com seu pragmatismo funcional, atropelou o longo caminho da construção da dignidade e da honra. O sentimento de gratidão vem sendo substituído pela luta pelo direito e não há mais em nós aquele sentimento de dívida, que, no passado, moldou o caráter das pessoas que contribuíram com seu sacrifício para com a humanidade, porque reconheciam, com profunda gratidão, que tudo o que tinham, lhes havia sido doado. O amor e a castidade perderam sua nobreza, transformando o corpo num artigo barato, usando a sensualidade como moeda para adquirir alguns momentos de euforia sexual.

Há um tempo atrás escrevi um artigo alertando contra o perigo dos atalhos. Minha preocupação era a mesma de hoje. A nobreza humana é fruto do longo caminho percorrido por aqueles que, com paciência e perseverança, gratidão e respeito, amor e bondade, fidelidade e lealdade, vão escrevendo sua história rumo à maturidade. São pessoas que sabem aproveitar cada experiência vivida, que não fogem do sofrimento e da dor, que reconhecem que tudo o que tem valor encontra-se nas profundezas da alma e precisam ser garimpados com paciência e perseverança.

Há uma metáfora do apóstolo Paulo que nos ajuda a entender isso. Ele compara a vida a uma corrida, na qual, para ganhar o prêmio, o corredor precisa de duas coisas: manter diante de si o alvo e ter disciplina. Para ele, a vida deveria ser olhada assim. Ele afirma que corria como quem sabe aonde quer chegar e, como todo atleta, impunha sobre si a disciplina necessária para ter a certeza de que não correu em vão. A imaturidade é o resultado de uma história vivida sem consciência de destino e sem disciplina.

A sensação de vazio, o tédio e falta de significado é o que move as novas gerações. Não se vê mais um sentido de missão ou consciência vocacional; não se sabe para onde caminham e nem os valores que abraçam. Os apelos da propaganda, as inúmeras ofertas e possibilidades, a agitação das festas e bares, os convites para as mais variadas atividades, levam a uma falsa sensação de preenchimento e significado. Contudo, quando as luzes se apagam, o barulho cessa, a multidão desaparece e a ressaca acaba, não sobra nada a não ser um vazio que insiste em dizer, silenciosamente, que o caminho não é este, que o alvo se perdeu, que as forças estão se esvaindo – e o tédio começa a bater mais fortemente na porta.

A maturidade tornou-se um artigo raro na sociedade pós-moderna. Alguns dias atrás, uma senhora me procurou para falar dos planos de casamento de sua filha. No meio da conversa, sua preocupação com a maturidade do casal, particularmente de sua filha, ficou evidente. Ela tinha certeza de que não estavam preparados para celebrar uma aliança tão importante e vital para suas vidas. No fim da conversa, ela disse num tom irônico: “Mulheres como eu, capazes de enfrentar as lutas que enfrentei, trabalhar, criar os filhos, amar o marido mesmo nos momentos mais difíceis, honrar a aliança que fizemos, superar as diferenças e chegar a esta altura da vida mais plena e mais verdadeira, apesar de todas as cicatrizes que ficaram, é coisa rara, pastor, muito rara”. Ela estava certa.


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

OS PSEUDO-PIEDOSOS E SEUS CASTELOS FEUDAIS

Serão religiosos apenas na aparência, mas rejeitarão o poder capaz de lhes dar a verdadeira devoção. Fique longe de gente assim! (II Timóteo 3.5)

A igreja está carente de exortação. Quando as pessoas são exortadas, logo, por não terem um espírito treinado a obedecer, acham que os que exortam nada mais são do que pessoas sem coração. Mas ao lermos a Sagrada Escritura, a Bíblia, percebemos que antes de qulaquer coisa, ela nos dá um padrão, um princípio no qual devemos retornar, nos converter, porque somos desobedientes por natureza.

Estamos a viver dias confusos. Aqueles que são rotulados como gente carrancuda, iracunda e amargurada, nem sempre são o que parecem. Pelo contrário os que são vistos como pessoas simpáticas e agradáveis e sabem usar suas palavras são pessoas aparentemente boas e de bom coração. 

O evangelho de Jesus Cristo passa a ser confundido com essa gente que embora religiosas, o são apenas na aparência. E hoje, a aparência é mais importante do que a essência. Embora tenhamos tanta tecnologia, a maioria da população não possui conteúdo de conhecimento. Embora haja tanta informação, há uma carência de conhecimento verdadeiro e discernimento. Aqueles que conseguem absorver um bocadinho de conhecimento se arvoram em parecer que são grandes conhecedores e dependem de seus títulos academicos. E mesmo aqueles que não os possuem, tentam parecer que são conhecedores, sendo de facto ignorantes no mais baixo nível. Portanto entre o parecer e o ser de facto há uma enorme distância. 

São Paulo já advertia ao seu discípulo e pastor da igreja de Éfeso, Timóteo, que o melhor que este deveria fazer era fugir deste tipo de gente. "Fique longe de gente assim"! Os pseudo-piedosos sabem usar bem a ortodoxia para parecerem o que não são. Nada mais são do que ímpios sob uma capa muito bem vestida e engomada. Não que a ortodoxia não tenha valor. Sim, ela segundo a própria Escritura é o lastro da verdade, para o bem de toda a alma que se chega a Cristo. Mas Paulo diz: Fique longe de gente que aparenta a boa religião. 

Como identificamos essa gente? Os pseudopiedosos estão mais preocupados consigo mesmos do que com a verdadeira causa do evangelho. São homens e mulheres que não mostram seus verdadeiros motivos quando estão com os outros. Estão a procura de fartarem-se do bom e do conforto que a ortodoxia lhes oferece, mas que apenas usam os elementos, as palavras e chargões para terem sua vida de estabilidade até o fim. No fundo, são bons empresários eclesiásticos construindo seus feudos familiares e é só. 

Um segundo diagnóstico é que os pseudopiedosos não estão conseguem evidenciar os frutos resultantes da presença do Espírito Santo em uma alma convertida a Cristo. Cumprem suas disciplinas religiosas cabalmente, mas nunca conseguem revelar o fruto do Espírito Santo: amor, regozijo, paz, longanimidade, cordialidade, benignidade, delicadeza, confiança, mansidão, dominío próprio e as bemaventuranças que Nosso Senhor ensinou. Na verdade são impessoais em seus relacionamentos, ingratos, amam-se a si mesmos, embora não pareçam mas são avarentos, soberbos, não possuem afecto natural, caluniadores indiretos, traidores, controladores de pessoas, não se submetem a lideres melhores que eles, estão preocupados sempre com seus problemas e nunca com os problemas dos outros. 

Hoje temos muitos pastores, padres e líderes religiosos que são até bons pregadores, oradores e mestres, mas são uma "massa falida" diante do Espírito Santo. Não estou por cá nem a tocar nas questões financeiras, pois neste assunto, são bons poupadores, e administradores do dinheiro que estão a arrecadar dos incautos religiosos. 

O apóstolo diz: Fique longe desta gente. Portanto, lembrando disso, preciso ficar longe desta gente. Até mesmo porque devemos aprender a "não lançar perolas aos porcos" como bem Nosso Senhor já dizia. Quem são os porcos? São os cães, os lobos! Mas a melhor figura são os porcos, porque pisam as perólas da mesma forma que pisam seus excrementos. Fiquemos longe desta gente e avaliemos a nós mesmos, segundo após segundo, para que não pisemos as pérolas da graça como se fossem bolotas de extrume! Vivamos para Deus e nos deixemos ser tratados só por ele.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

"Ensinai a todas as nações"

"Quando a Igreja deixa de ser missionária, perde sua razão de ser..."

Seria demasiado óbvio destacar o fato de que o cristianismo teve início como uma missão por excelência. Precisamos somente remeter às últimas palavras do Senhor logo após sua ressurreição: "Ide, pois, de todas as nações fazei discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santos..."

A Boa-Nova transformou a antiga religião de uma nação, na nova religião de uma Pessoa: Jesus Cristo, por meio de quem e em quem as pessoas de todas as nações puderam encontrar a resposta, o significado da vida e puderam receber a revelação da chegada de Deus.

Esta ênfase na Boa-Nova é fundamental para a missão. E, ao mesmo tempo, extremamente importante é a inevitável luta do Reino de Deus com este mundo. A vida inteira de Cristo pode ser considerada como "reprovada", no sentido de que o mundo o recusou e finalmente foi condenado à morte. Cristo, porém, ressuscitou da morte pelo poder de Deus, não pelo poder do homem; e a verdade da ressurreição é um mistério revelado somente àqueles que crêem n'Ele e, por conseguinte, àqueles que "não são deste mundo". O anúncio da verdade do Evangelho deverá "fazer frente" aos que se opõem e acarretará divisões.

Para ser mais concreto, vou citar uma breve passagem do prólogo ao Evangelho de João, escrita, ao que parece, por Cirilo, o Constantino de Tessalônica, quando foi a Morávia em missões e lá pregar a Boa-nova. Uma de suas primeiras tarefas foi traduzir as Sagradas Escrituras para a língua eslava para dar aos convertidos a possibilidade de escutar e entender a palavra de Deus em sua própria língua. O prólogo ao qual me refiro é: "Como os profetas da Antiguidade, Cristo veio para reunir todas as nações e línguas, posto que é a vida deste mundo".

O prólogo prossegue com o tema do Pentecostes, que deve ser entendido biblicamente em contraposição a origem da "torre de babel", no livro do Gênesis, no qual o conceito de multiplicidade de línguas se converteu em uma maldição. Mas em Pentecostes, quando veio o Espírito Santo, todas as pessoas começaram a falar diferentes línguas, porém, a dizer "as mesmas coisas, no mesmo espírito". Em outras palavras, na torre de babel, o pluralismo de línguas se converteu em uma maldição. No Pentecostes, porém, a multiplicidade de línguas se converteu em uma bênção, porque permitiu que todas as pessoas entendessem: o Evangelho, a mesma verdade e o mesmo Espírito, com a finalidade de torná-lo conhecido de todo o mundo. Cristo veio para reunir todas as nações e línguas.

Este é o primeiro aspecto no conceito de missão de Cirilo e Metódio, no qual a igreja ao longo dos séculos tem permanecido fiel: a idéia de que cada nação tem o direito a escutar e entender a palavra de Deus em sua própria língua. Esta foi uma das chaves do êxito bizantino na idade média, como a palavra de Deus e a Liturgia foram traduzidas a língua de cada nação.

Precisamente porque a missão é inseparável da vida é também inseparável do progresso do pensamento teológico, do pensamento cristão e da vida. O missionário, o teólogo, o cristão, devem então entender o que os Antigos Pais da Igreja ensinaram, de que o mesmo Senhor pode proclamar a Boa Nova de um modo que seja claro para as gentes de todo mundo, em seu próprio tempo.

A missão cristã é fundamentalmente o anúncio da verdade de Cristo a todos. Podemos ter todas as organizações no mundo. Podemos ter todos os meios para pregar o Evangelho e, ainda podemos falar no que nos concerne pessoalmente ao conhecimento de Deus. Esta é a verdadeira condição para fazer nossas palavras significativas e plenas de sentido.
(adaptado de João Meyendorff)

terça-feira, 4 de junho de 2019

O SENHOR REINA

"O SENHOR reina.Regozije-se a terra, alegrem-se as muitas ilhas. Nuvens e obscuridade estão ao redor dele;justiça e juízo são a base do seu trono. Adiante dele vai um fogo que abrasa os seus inimigos em redor. Os seus relâmpagos alumiam o mundo; a terra ve e treme." (Salmo 97.1-4). 

Se tivéssemos uma pequena noção, como de um "flash", da vida de Deus, não viveríamos da maneira como estamos vivendo hoje. Embora creiamos que o Senhor é eternamente gracioso, também precisamos pedir olhos espirituais para que percebamos que "Deus é terrível"! perceber a sua glória é perceber que Ele tem em sua natureza nenhuma possibilidade de alteração sentimental ou emocional. Deus é impassível. 

Sua vida está além de nossa mera concepção visual e temporal, seu lugar é aquele que perpassa a todas as criaturas mas também jamais pode ser tocado por elas. Sua realidade é tão densa que o salmista usa termos como "nuvens" e "trevas" que estão a separar-nos de sua plena condição de existência. 

Hoje, é tempo de nos humilharmos e clamarmos sua misericórdia, hoje é tempo de percebermos que mesmo tão diferente de nós, por amor a seu cosmo visível e invisível, ele se humanizou, tornou-se gente, através de Seu Filho, Jesus Cristo, para que possamos perceber sua santidade e amor, e vivermos em temor todos os dias de nossa vida, porque já não vivemos pelo temor da condenação mas pelo amor eterno que ele nos amou em Jesus.

sábado, 4 de maio de 2019

Vaidade: o grande pecado

"O mais alto anseio do indivíduo vaidoso é ser cumprimentado. Exteriormente, ele procura ter uma aparência atraente. Interiormente, se esforça por apresentar a fachada de uma personalidade agradável. Seu motivo básico é fazer uma boa figuração em público, de modo a chamar a atenção. A pessoa vaidosa sente forte atração pelo espelho. Contempla sua figura e gosta do que vê. Num sentido figurado, ele mira também todas as suas reações, atividades e conversas num espelho e tem prazer nelas.

O vaidoso esquece, entretanto, que há um outro espelho - o olho de Deus - que nos mostra a verdade acerca de nós mesmos, aquilo que está por trás da fachada. Através dele podemos ver como tudo é realmente "vazio", transitório e perecível. Mas, se evitamos o espelho de Deus, estamos enganando a nós mesmos com o espelho dos olhos humanos que miramos o tempo e fazemos as seguintes perguntas: Como reagem os outros em relação a nós? Somos populares? Então nossa vaidade cresce cada vez mais, embora, no fim, nos torne infelizes. Porque, quanto maior ela é, mais nos domina. Não seremos capazes de fazer algo, sem pensar em como reagirão os outros. Acabamos por fazer com que os que nos rodeiam se sintam constrangidos, porque eles sentem as exigências de nosso ego vaidoso.

A vaidade coloca o ego no trono. Ela idolátra o ego e é por isso que ela é um grande pecado. Todo ídolo toma o lugar que, em nossa vida, devia ser de Deus. É por isso que o mesmo veredicto que Deus pronunciou contra os adoradores de ídolos nos atinge também. Porque não podemos servir a Deus e ao nosso ídolo-ego. Nossa vaidade quer que os outros admirem nossa beleza, inteligência, talentos e habilidades. Em alguns casos tudo isso é combinado com acréscimos de riquezas mundanas. Gastamos, então, grandes somas de dinheiro na aquisição de custoso guarda-roupa e de outras coisas que nos ajudem a ganhar a admiração dos demais.

O primeiro passo para nos desembaraçarmos desse pecado é admitirmos honestamente que somos vaidosos. Poderemos dizer: "Como poderia eu ser vaidoso? Mesmo que eu fosse excecionalmente atraente ou talentoso, que importância teria aos olhos de Deus, que sabe o que existe realmente em meu coração? Eu devia sentir-me envergonhado por estar tão afastado de Deus, visto que estou contente com minha pobre pessoa".

Agora é a hora de pedirmos o "colírio" (Apocalipse 3.18). Que significa isso? Significa que pedimos a Deus e aos outros que nos digam o que somos na realidade. Isso nos vai ferir, mas, em compensação, nos ajudará a perceber a verdade a respeito de nós mesmos. Precisamos também pedir ao Senhor: "expõe à luz o máximo do meu pecado, de modo que eu possa vê-lo mais claramente. Então me sentirei envergonhado e perderei a vaidade.

Outro passo para ficar livre da vaidade é revelar nossos pensamentos vaidosos e confessá-los a outra pessoa. Se quisermos receber a graça de Deus, temos de estar livres da vaidade, porque a graça só será dada aos humildes e aos pecadores contritos, que não ficam satisfeitos consigo mesmos. Mas, se continuarmos a admirar no espelho nossas supostas qualidades e deixarmos que a mão esquerda veja o que faz a direita, já recebemos nossa recompensa (Mateus 6.1). Existe Alguém que não achou aprovação em Si mesmo, sendo Ele o único que podia fazê-lo: Jesus (Romanos 15.3). E nEle somos retos, isto é, fomos purificados de todo pecado da vaidade, inclusive. Ele mudará nosso coração de modo que nós não procuremos agradar aos homens, mas somente a Deus".

M. Basilea Schlink





sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

ADULTO, MAS BEBÉ!

“Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido”. Hb 5.12

Mesmo sob os comandos da mais alta tecnologia, vivemos ainda a crise da maturidade. Quando isso se refere aos cristãos em geral a situação piora. Tenha certeza, Cristo nos redime para sermos conduzidos à maturidade como discípulos dele. Neste caso viver junto à comunidade de fé é um princípio fundamental. Ao pensarmos sobre a necessidade de “integração”, percebemos que ela é o processo de tomar pessoas imaturas espiritualmente, educá-las e levá-las a um estado de maturidade e adulta comunhão com Cristo e de serviço eficiente na igreja e na sociedade.

A integração tem como objetivo abranger tudo o que se faz individual e coletivamente para que haja identificação e envolvimento dos que assim se dizem discípulos e mantê-los, para que cumpram cabalmente a sua missão e o seu ministério. Portanto, a tarefa da igreja é somente “salvar almas”, mas edificar pessoas e levá-las a uma condição de adultos em Cristo (Efésios 4.13).

Por isso, você deve aplicar-se nesse processo senão poderá ser um dos muitos “bebés espirituais”, mesmo que seja um idoso cronologicamente. O caminho é uma vida integrada na Comunidade. Quando nos dispomos a nos integrar começamos a perceber que nossa relação com Deus e com o Espírito Santo se aprofundam, há uma sensibilidade espiritual maior acerca da vida. Integrar não é apenas adicionar gente à igreja, mas significa envolvimento e participação efetiva. Com isso, há um crescimento sadio e natural quantitativa, qualitativa e organicamente, pois os que vão se desenvolvendo na fé e no serviço são impulsionados a testemunhar de Cristo Jesus (Filipenses 2.12).

Para que isso seja concreto, necessitamos desenvolver dentro de cada um de nós algumas características como submissão, aceitação, convivência com os diferentes, respeito, paciência, gentileza de uns para com os outros. Essas virtudes só o Espírito Santo pode conceder a nós, se deixarmo-nos ser trabalhados.

Portanto, tiremos da nossa mente algumas “fake news” (notícias falsas) que nos impuseram ao longo dos anos. Integrar-se numa comunidade de fé não é pensar naquela declaração “uma vez salvo, salvo para sempre”, mas confirmar a sua salvação através de sua prática devocional e relacional diária. Há muitos que continuam a expressar vaidade, orgulho, insubmissão e ainda se afirmam salvos em Cristo. Ou mesmo conhecem a Bíblia e a teologia, é fiel no dízimo, mas ainda não consegue dominar sua língua e seu julgamento temerário.

Portanto, podemos deixar de ser bebés espirituais e começarmos hoje mesmo a iniciar um processo de uma verdadeira integração no Corpo de Cristo.

Somos desafiados a nos identificar a nos envolver com Cristo e sua igreja. Será que você já viveu muito tempo como ouvinte da verdade e ainda não cresceu? Não esqueça, a fé é apenas o primeiro passo.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

A VERDADEIRA LUTA QUE SE APODERA DO REINO DE CRISTO

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista. Mas o mais pequeno no reino dos Céus é maior do que ele. Desde os dias de João Baptista até agora, o reino dos Céus sofre violência e são os violentos que se apoderam dele. Porque todos os profetas e a Lei profetizaram até João. É ele, se quiserdes compreender, o Elias que estava para vir. Quem tem ouvidos oiça. Mt 11,11-15.

"Josué atravessou o Jordão para atacar a cidade de Jericó. Mas Paulo esclarece-nos: «Nós não temos de lutar contra a carne e o sangue, mas contra os principados, potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares» (Ef 6,12). 

As coisas que foram escritas são imagens e símbolos. Porque Paulo diz noutra passagem: «Todas estas coisas lhes sucederam para nosso exemplo e foram escritas para nos servirem de advertência, a nós que chegámos aos fins dos tempos» (1Cor 10,11). 

Pois bem, se estas coisas foram escritas para nossa instrução, porque te demoras? Tal como Josué, partamos para a guerra, tomemos de assalto a mais vasta cidade do mundo, que é a maldade, e destruamos as muralhas orgulhosas do pecado.

Olhas em teu redor, para veres que caminho tomar, que campo de batalha escolher? 

Vais certamente espantar-te com as minhas palavras, que no entanto são verdadeiras: limita a procura a ti mesmo. É em ti que se encontra o combate que deves travar, é no teu interior que está o edifício do mal e do pecado que é necessário destruir; o teu inimigo está no fundo do teu coração. Não sou eu que o digo, é Cristo; escuta-O: «Do coração procedem os maus pensamentos, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfêmias» (Mt 15,19). 

Tens noção do poder deste exército inimigo, que avança contra ti do fundo do teu coração? 

Pois esses são os teus verdadeiros inimigos".
Orígenes (c. 185-253)
presbítero, teólogo
Mensagens sobre Josué, n.º 5


sexta-feira, 30 de novembro de 2018

A FESTA DO DEUS ENCARNADO

Jesus foi colocado no útero de Maria pelo Espírito Santo, na manjedoura de Belém por Maria, na cruz pelos soldados romanos e no sepulcro por José de Arimatéa e Nicodemos. Entre o primeiro evento e o último transcorreram-se cerca de 34 anos. Sucessivamente, o útero ficou vazio, a manjedoura ficou vazia, a cruz ficou vazia e o sepulcro ficou vazio.

No primeiro Natal, diz C. S. Lewis, Deus desembarcou de forma mascarada neste mundo ocupado pelo inimigo, dando início a uma espécie de sociedade secreta para minar o Diabo. Nós fazemos parte dessa sociedade secreta, mas não fechada, que é a Igreja Invisível. Quando o tempo da graça se esgotar, acrescenta Lewis, Deus acabará invadindo a história e, quando isso acontecer, será o fim do mundo. 

Essas palavras de C.S. Lewis são revolucionárias. Se pelo menos percebéssemos que na história os Pais da Igreja idealizaram uma data para que todos celebrassem a encarnação de Deus, a história seria diferente. A religião cristã é a única neste mundo que faz frente a todas as outras porque o Deus dos cristãos se fez carne, se tornou gente, se assemelhou a sua própria imagem como a que criou no Princípio. Só por isso a mensagem do Natal seria um fenômeno. Como bem diz Isaias, o profeta, Deus desceu (Is 64.1), ele habitou entre nós, significando que Deus que transcende a tudo e a todos não é o ser impessoal das mais variadas religiões.

Se Deus não tivesse feito carne, como ele em Cristo é, jamais todo plano de salvação poderia ser concluído. Uma das grandes verdades é que Deus assumiu nossa natureza, mas sem pecado, sendo para sempre Deus pleno e Homem pleno para toda a eternidade. Ele, Cristo, o Deus encarnado foi o único a ser nosso substituto na cruz, morrer como um crminoso, levando sobre si toda a condenação que seria direcionada para nós. 

Quando começamos a celebrar o Natal, não há sentido algum se não houver em nossa celebração esta afirmação de fé e de crença. Quando não há esta certeza de que o Deus todo poderoso se fez gente, o Natal é um vazio e uma mecanização cultural sem o menor sentido.

De facto,  Nosso Senhor, sendo filho e ao mesmo tempo Deus, salvou a sua imagem e semelhança que havia se perdido e se autodesconstruído. Nós que anadávamos desgarrados como ovelhas viemos para perto de DEus por meio de nosso Senhor. A encarnaçao, portanto inaugura a Era da Graça. Graça que revela para a humanidade  o verdadeiro Deus e verdadeiro Homem não só nascido, vivido, morto mas sobretudo ressuscitado. 

A mensagem do Natal é: Ele veio a primeira vez, mas vai voltar uma segunda vez. Que enquanto estejamos a celebrar, a palavra Maranatah ecoe também de nossos corações. Eis a festa do Deus encarnado, que pode sendo o protagonista da história nos permite festejar sem qualquer acessório ou elemento coadjuvante neste 25 de dezembro. 

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

IGREJA: EDIFÍCIO OU PESSOAS?

A comunidade não é definida pelo edifício que recolhe as pessoas para dentro, ou os espaços que ela possui. Quando as pessoas visitam uma igreja-edifício, cada interação que eles têm com seus membros molda como eles se sentem sobre a sua igreja como um todo.

E ficar mais conectado à sua igreja significa construir relacionamentos reais com pessoas reais.

O serviço de igreja e o plano de acompanhamento de visitantes devem trabalhar juntos para impulsionar as pessoas em relacionamentos. Conexões significativas com o corpo de Cristo ajudam as pessoas a se aproximarem dele e permanecerem conectadas a ele. E se a sua igreja está proporcionando as melhores oportunidades possíveis para as pessoas se conectarem com Cristo, voltar cada semana e se envolver mais em sua igreja é vital para seu crescimento espiritual.

O que significa que você precisa se concentrar nas coisas que irá mantê-los voltar e ficar mais conectado. Ajudar os visitantes da igreja construir relacionamentos tem que ser uma alta prioridade se você quer que eles fiquem por perto.

Isso não significa que quando novas pessoas entram em sua igreja, você as bombardeia com convites para participar de todos os grupos, ministérios, projetos de serviço ou equipe que você tenha. É difícil o suficiente para levá-los a assumir o compromisso de voltar na próxima semana. E como eu disse antes, provavelmente há pessoas que estão indo para sua igreja há muito tempo e que não estão envolvidas em nenhuma dessas coisas - então por que você impor isso a um visitante?

A menos que você aprenda novas informações que indiquem que alguém estaria interessado em uma dessas outras oportunidades, você deve ter um passo simples, claro e simples para seus visitantes pela primeira vez.

Seu objetivo imediato pode ser que eles voltem na próxima semana, mas seu objetivo final deve ser que cada nova pessoa desenvolva relacionamentos reais com membros de sua igreja e que seu relacionamento com Jesus cresça como resultado de seu envolvimento com sua igreja.

LINHAGEM ESTRANHA, MAS DE SANGUE NOBRE!

“Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão”. (Mt 1:1-14)

Mateus iniciou seu evangelho com a descrição de uma genealogia ou uma tabela de gerações como tantas que já existiam. Mas esta era diferente pois era uma genealogia “real”, que falava do grande Rei. Esta tabela começa com Abraão, o patriarca passa pelo Rei Davi e culmina com Jesus, filho de Maria. 

Mas o que chama a atenção é que nesta genealogia encontraremos nomes que de acordo com as normas da época não deveriam constar numa tabela “real”. Alguns nomes de mulheres que não pertenciam a nação israelita estão inseridos ali, como Raabe e Rute. Impressiona-nos os nomes de outras mulheres ali também, até porque uma linhagem real jamais poderia conter seus nomes pelo simples facto de serem mulheres. 

Portanto, o que percebemos é de que nesta genealógica, o Senhor em sua misericórdia usou a vida de pessoas que aos olhos humanos seriam indignas em “doar” seu sangue para que o Messias viesse de uma linhagem de fé e não apenas de uma única raça.

Quem foi Tamar? Foi uma das mulheres da família de Jacó que não teve o direito de suscitar filhos e isso era para a mulher uma humilhação (Genesis 38:1-30), mas pela soberania divina, Deus concedeu a ela sua dignidade. Quem foi Raabe? (Josué 6.1-27) Foi uma prostituta que teve a coragem de proteger os espiões do povo de Israel quando foram ver a terra de Jericó. Embora considerada uma cananéia (ex-idólatra) e prostituta, Deus honrou a fé desta mulher colocando na genealogia de Cristo. Quem foi Rute? (Rute 1.1-22) Foi uma moabita (ex-idólatra) a qual tomou a iniciativa de ser fiel à sua sogra, a israelita Noemi e assim fiel a Deus tornou-se avó do Rei Davi, participante da genealogia do Messias. Quem foi Maria? (Lucas 1:26-56) Aquela que respondeu “sim” a Deus e tornou-se a mãe do Filho de Deus. Quando ao receber o anjo Gabriel, diferente da atitude de Eva na Criação, Maria entregou-se a Deus, colocando-se à disposição dEle, mesmo que isso lhe custasse colocar em jogo a sua moral e sua “dignidade de mulher”. 

Estes nomes têm um significado importantíssimo na Missão de Deus. Ao escolher toda esta gente Deus está dando a todas a dignidade de participar efetivamente do maior plano para resgatar todo o Universo. De facto, o Senhor deseja que todos sejam alcançados pelo seu amor e participem pela fé para que tantos que ainda não o conheceram possam fazê-lo. (I Tm 2.4)

Não importa qual seja a origem. Seja mulher (como nos dias do Antigo Testamento), seja pagão. Onde houver fé em Cristo, ali há um recomeço da nova caminhada, de uma transformação e de um relacionamento verdadeiro com Deus neste plano universal de salvação e de reconciliação a todos os homens (Gálatas 3.28). 

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Estranha Missão

Já viram que coisa estranha? 

É o que eu chamo de um elemento não-bíblico na missão de plantação de novas igrejas. 

Igrejas que são plantadas sem o desmembramento natural de outra igreja é uma anomalia e consequentemente já crescem como "monstros alienígenas". 

Já viram pastor gerar ovelhas? Só ovelhas geram ovelhas!

O que percebemos é uma ação corporativista e empresarial dentro das comunidades. Realmente promovemos os profissionais da fé, gente que se capacita a montar organizações eclesiásticas. E mais: Todos os estudos sobre plantação de igrejas são um fiasco quando não estão fundamentados no processo natural de geração de novas igrejas. 

Criamos sem perceber um movimento sem a presença do Espírito Santo. O sacramento (sinal visível de graça invisível) passa longe disso. Se o Espírito Santo está no Corpo, como plantamos igrejas, sem o desmembramento natural dele? Então ou somos episcopais e clericalistas na prática, ou somos corporativistas e empreendedores empresarias. De facto o medievalismo católico tridentino é alma do neoprotestantismo ocidental contemporâneo.

Kyrie Eleissón

domingo, 5 de agosto de 2018

Unidade e unicidade - marcas da igreja verdadeira de Cristo

“Não te peço apenas por estes discípulos, mas também por todos que crerão em mim por meio da mensagem deles.  Minha oração é que todos eles sejam um, como nós somos um, como tu estás em mim, Pai, e eu estou em ti. Que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. “Eu dei a eles a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um.  Eu neles e tu em mim. Que eles experimentem unidade perfeita, para que todo o mundo saiba que tu me enviaste e que os amas tanto quanto me amas". João 17 

A conversar sobre este texto com alguns amigos no Brasil, veio-me a necessidade de escrever sobre o tema supra-citado. Quanta profundidade nesses versículos, que promessa maravilhosa!

Vale a pena notar que o que está em jogo na oração de Jesus aqui é "unicidade" e não apenas "unidade". O Senhor não está apenas a pedir que tivéssemos um mesmo ponto de vista. Em Cristo somos UM sim, há uma "espécie" de consubstancia na essência do que é nascido em Cristo! Somos um na essencia, participamos de uma mesma natureza divina. O discípulo verdadeiro comunga não apenas com o Pai e a Trindade mas também com toda a igreja, seja ela visivel e invisível. 

Porque oramos a Cristo? Porque o Espírito que vive dentro de nos impele a falar com o Pai. Deus não é apenas Deus connosco. Ele é Deus dentro de nós. Isso é unicidade! Fazemos parte da assembleia dos santos, por que o mesmo Espírito está em nós e neles também. A mente evangélica popular não consegue aceitar isso porque é uma mente racionalista e logicista. Quando pensamos em unidade, pensamos em "estar ao lado" do outro, mas quando ouvimos o Senhor pedir: "eu neles, e tu em mim", então ele está a pedir mais do que isso, é de que possamos viver a mesma natureza de Deus (II Pe 1.4). O Apóstolo Pedro já dizia isso e muitos custam a acreditar. Não há dúvidas, isso é resultado da Graça de Cristo, de seu pacto com o Pai. A maior prova é de que a salvação em Cristo nos conduz a sermos nascidos de Deus (Jo 1.13) e não do ser humano, do modo natural. Portanto quando adoramos, entramos espiritualmente na adoração celestial que acontece ininterruptamente (Ap 4) e comungamos em um só Senhor na Assembleia dos justos aperfeiçoados (Hb 12.22-24).

Na história bíblica, no Antigo Testamento, Deus estava a frente do povo de Israel, ele estava junto dele, teofânica e espiritualmente junto. No Novo Testamento a promessa do Messias se cumpre e Cristo é chamado de Emanuel - "Deus connosco". O Senhor veio até nós, encarnou-se, morreu e ressuscitou. Mas na vinda do Espírito Santo no Pentecoste, o Senhor veio habitar em nós, isto é, Deus veio morar dentro de nós! Vejamos a progressão! Agora onde está o Espírito? Dentro do nosso peito, Ele vive dentro de nós. Por isso nós nos comunicamos com a Trindade Santíssima através do Espírito Santo e vivemos a unidade da fé entre todos os que o confessam (Rm 8.27).

Portanto, viver a verdadeira igreja é viver a vida de Deus. Em Cristo estamos em Deus e ele está em nós. Deus não somente mantém  a  sua criação (Sl 104), mas também vive dentro dos homens que experimentam a  mesma fé em Cristo. 

Por isso a promessa da vinda do Espírito: "Não vos deixarei órfãos, virei para vós... Ele... o Espírito  vos guiará em toda a Verdade: Cristo. Quer conhecer a verdade? Abra-se para esta descoberta: Deus quer viver dentro de nós!

Farto!

Estou farto de caprichos e melindres,  de queixumes dos que vivem a lustrar as moedas de seu passado. Estou farto dos caciques eclesiais. Qu...