sexta-feira, 23 de março de 2012

PRECISAMOS DE PENSADORES

Retornei do Congresso de Teologia esta semana. Depois de refletir um pouco sobre tudo que vi e ouvi, algumas conclusões tirei como supra-sumo: “Estamos precisando urgentemente de pensadores!”. Isto é, gente que possa pensar em Deus, no homem, e na sociedade de forma sincera, verdadeira de maneira aplicável nos mais diversos contextos de vida.

O ser humano deixou de pensar há muito tempo. Somos reflexo de uma sociedade que não pensa, tratamos os outros como se não pensassem, perdemos a condição de sermos, literalmente, “homo sapiens”. Gente que reflete, que pára para pensar e pensar na vida, na morte, em si mesmo, nos outros, e buscarmos extrair por si mesmos conclusões sobre Deus, sobre o Universo, sobre o “cosmos”. Enfim gente que bota a cabeça para fazer o que ela tem de melhor.

Perdemos esta característica em primeiro lugar porque nos tornamos pragmáticos. Temos que fazer as coisas darem certo. E isso sempre na primeira vez. O erro está descartado. Como se nós fôssemos os criadores e mantenedores do mundo, ou talvez porque cremos num Ser que não nos dá a possibilidade de perder ou gastar tempo com a vida seja ela certa ou errada. Tormamo-nos homens e mulheres que não nos permitirmos passar mais de 10 minutos contemplando alguma coisa ou alguém. Se essa atividade não trouxer resultados a curto prazo, descartamos. Vivemos dizendo que a vida é muito curta.

Mas também paramos de pensar por que simplificamos a vida. Assim como acendemos uma lâmpada, assim somos com a vida. Não temos mais paciência nem com os outros, nem conosco mesmos e nem com Deus. Tudo tem que ser rápido, isso custa tempo e dinheiro.

Queremos que nosso casamento seja perfeito e tenhamos menor “custo-benefício” com o conjuge. Por isso hoje leva-se mais tempo para se casar. Vivemos querendo uma pessoa “ideal”. Mas ele ou ela tem que ser ideal para dar certo em curto espaço de tempo.

Somos hoje, seres que simplificam a vida e por isso nos tornamos mais superficiais. Não temos mais tempo a perder. Somos seres automatizados, instantâneos. Não temos muito tempo nem para orar.

E por fim paramos de pensar por que nos tornamos utilitaristas. Isso serve até em nossa relação com Deus. Nosso relacionamento com Deus e com a pessoas é primitivo, é de força, é de poder, é de eficácia. Se ele não traz para nós benefícios de qualquer espécie, descartamo-lo. Assim eram os povos que imaginavam a Deus e se refriam a Ele apenas como um deus forte. O deus de vitória. Não nos relacionamos com Deus por que ele é um ser como nós, que queremos manter comunicação pelo prazer de um relacionamento a longo prazo. Pensar em eternidade, hoje, é algo impossível, pois Deus tem que ser o Deus do aqui e agora. Usamos o seu poder, a sua graça, a sua misericórdia para que tenhamos benefício. Somos mais parecidos com a mulher de Jó, do que com o próprio Jó.

Precisamos voltar a pensar. Pois somente esta possibilidade nos verdadeiramente humanos. Como Deus uma vez nos criou: seres pensantes. Só uma pessoa que pensa, pode criar. Albert Camus disse certa vez: 'São os ociosos que transformam o mundo, porque os outros não têm tempo algum'. Concordo com ele. Os que hoje estão correndo, nunca vão poder parar para pensar. São robôs, condicionados e direcionados por outros. Deus nos dá hoje a possibilidade de reverter esse quadro. A graça de Deus existe para tornar o ser humano melhor, e isso não tem a ver com maior produção, mais ganho, mais lucro, e sim torná-lo cada vez mais parecidos com Jesu Cristo, Nosso Senhor.

quinta-feira, 15 de março de 2012

SOMOS INDISPENSÁVEIS?

Há uma frase que Russel Shedd comentou em sua devocional em Águas de Lindóia, no Congresso de Teologia Vida Nova: “Melhor é viver para Deus por que a dor será sempre menor”. Refletindo sobre isso, comecei a pensar por que somos tão doentes em nós mesmos? Ou por que lutamos contra as nossas dores? Ou por que nos tornamos tão doentes emocional ou psicologicamente?

A resposta não poderia ser outra: “Por que vivemos apenas para nós mesmos!” O ser humano a cada dia que passa vive um egocentrismo sem medida. Também somos reflexo de uma sociedade excluvista, que adoece a passos largos e leva-nos todos ao medo, ao embrutecimento e ao recolhimento. Somos por ela ensinados que devemos nos fechar aos outros por que quando não somos melhores, ela nos faz parecer melhores, os indispensáveis para nós mesmos.

Shedd ao falar sobre esse assunto, afirma: “Nós não podemos convencer a Deus que somos imprescindíveis”. Mas o que vemos o tempo todo é a busca por nós mesmos como se fôssemos o centro do universo. Até mesmo nossa vida cristã orbita em torno de nós mesmos. Essa consciência traz doença, é patológica, torna-nos “monstros com cara de crentes”, e leva-nos à lona por que adoecemos de uma doença chamada “egoísmo”. Somos o estereótipo de Caim, por que matamos nosso semelhante ao nos sentir os únicos indispensáveis deste planeta.

Jesus Cristo, o Deus encarnado não foi assim. Vivendo para os outros, não se via como o centro do Universo, apontava sempre para o seu Pai, via em sua caminhada que “tudo o Pai entregara em sua mãos”, mas nem por isso, em um só momento via-se como o centro de tudo.

Seu exemplo, me leva a pensar que quanto mais perto de Deus vivemos, mais temos essa doença “bestial” sendo curada dentro de nós. E quanto mais perto de Jesus vivemos mais perto dos outros estaremos. “Não somos indispensáveis, somos apenas canais”, completa Shedd. Indispensável é aquele que sempre pensa que é dispensável. Foi assim com Jesus de Nazaré.

Quanto mais pensamos e praticamos esta bem-aventurança, ela se encarnará em nós, por que como o apóstolo Paulo já dizia, as próprias palavras do Cristo: “Mais bem-aventurado é dar do que receber”. (At 20.35)

Rev. Luiz Augusto (Águas de Lindóia, SP, 13-16/03/2012)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Teologia racional X Teologia mística

Os teólogos dos primeiros séculos eram os que oravam e viviam da oração. Não havia progresso teólogico se não houvesse o orador que misticamente se encontrava com Deus. O apóstolo João era apelidado de "o teólogo" por que comtemplara o "verbo da vida", o Cristo Encarnado. Teologia era fruto da contemplatividade, do empirismo, da experiência, da transformação de dentro para fora.

Hoje a Teologia se explica, se disseca, como se separa o corpo da alma. O teólogo é aquele que discute religião, que disseca o que não pode ser dissecado. Teologia hoje, é fruto de conhecimento ideológico.

Racionalidade é a base para explicar o que é místico. Lembro ainda das palavras de Santo Agostinho: Óh Senhor, que eu possa te aceitar não te compreendendo do que te compreender e não te aceitar".

domingo, 11 de março de 2012

O mundo não quer o silêncio!

Estou escrevendo neste momento arrodeado de músicas e ruídos, barulho ensurdecedor. Busco um pouco de silêncio, de calma, mas o que ao meu redor ouço, não passa de ruído.

Na verdade, o ser humano envolto em tantas paixões precisa do barulho para justificar a sua ausência de Deus e deixar de ouvir o silêncio, pois nele Deus se faz presente.

A pessoa que busca o barulho, a cantoria, o som ao seu redor está afirmando para si mesmo que está longe de Deus e faz isso para que seu exterior cada vez mais esteja sincronizado com seu mundo, caótico, desordenado e cheio de desvios que vive dentro de si.

O encontro com o Espirito Santo se faz dentro de si. Ele não está fora mas dentro de nós mesmos. O meio e o instrumento para esse encontro é o silêncio da alma.

Deus fala no silêncio.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Pensando nos Neo-evangélicos na política

É impressionante mas tenho que admitir: O movimento evangélico no Brasil é uma força social. Mas é só. Só isso. Força social porque é uma massa manipulável pelos líderes religiosos. Essa força não tem nada a ver com a fé simples. É uma força política, tem cara de religião, tem jeito de religião mas é apenas força política. A fé é uma desculpa que seus líderes usam para domesticar o "ser humano" que para eles tem mais cara de um "pet". Em nome de Deus se faz tudo, e na ânsia do enriquecimento Cristo é a melhor ferramenta. Não há uma força de essência, de conteúdo. Os líderes é que determinam o que a massa faz. Isso é próprio dos movimentos pósmodernos. É bom que façamos nos entender que o pósmodernismo se caracteriza por esse estilo. Nem Marx e nem Cristo são o centro de seus movimentos nos dias de hoje. O que existe é uma fragmentação total. Se os Marxistas se enfraqueceram, os evangélicos também, pois sequer conseguem conviver com o que é essencial. Destroem-se muito facilmente porque acabam sendo sectaristas. Nunca vi tanto vazio, como vejo dentro das igrejas evangélicas. A igreja evangélica entrou em colapso.

sábado, 3 de março de 2012

A MENINA, O BISPO E O MANÍACO

Nestes últimos quinze dias, vimos por meio dos canais de comunicação três notícias que nos chocaram. A primeira, a história de uma menina, adolescente que estava passando suas férias com os pais em São Paulo e juntos foram ao Hopi Hari, em Vinhedo, para brincar. O Hopi Hari é um dos parques mais bem preparados para qualquer tipo de diversão e segundo eles o melhor em segurança. A brincadeira transformou-se em tragédia quando a garota despencou de uma altura de quase 30 metros.

A segunda notícia é mais perto de nós. Nosso querido irmão em Cristo, o Bispo Dom Robinson Cavalcanti e sua esposa Mirian foram assassinados pelo filho numa noite de Domingo após voltarem da igreja. Fato que nos deixou “sem chão”. Um homem bem sucedido, professor de Universidade, bispo anglicano, escritor e servo de Cristo, morto pela impetuosidade e ira de um homem que fora criado e acolhido numa família cristã. A ausência de Dom Robinson deixa uma lacuna como voz profética em defesa da missão Integral da Igreja e de uma posição coerente no meio da sociedade.

A terceira notícia é de um homem de 43 anos, condenado a 30 anos de prisão pelos crimes de furto e roubo sem arma, mas em liberdade condicional desde o dia 14, após cumprir metade da pena, entrou em um ônibus no Rio de Janeiro e estuprou uma menina de 12 anos.

Em todas as notícias, o que vemos é a “banalização da vida”, o desrespeito pelo “ser humano” e a insanidade de pessoas que embora cumprindo suas penas por seus delitos, são instrumentos de um sistema social falido sem a menor condições de ajudar a tratar estas mentes desequilibradas. A sociedade vive tempos de total desordem. E então nos perguntamos: “O que a igreja está fazendo? Como os discípulos de Cristo estão interagindo nesta sociedade para minimizar os efeitos da iniquidade? Onde eles estão?” E eu respondo: Cuidando de suas vidas, tratando de ganhar mais dinheiro e buscando os templos nos dias de culto para pedir mais bênçãos!

Jesus Nosso Senhor chamou-nos para sermos “sal da terra” e “luz do mundo”. Paulo nos desafia a sermos “luzeiros de Deus num mundo em trevas”. Pedro, apóstolo afirma que devemos buscar “fazer o bem e não apenas deixarmos de fazermos o mal”. Enfim, eu e você, se soubermos o valor de nossa espiritualidade, teremos certamente um atitude positiva no mundo e não seremos apáticos e passivos diante de tantas situações desequilibradas. A esperança de uma nova vida na eternidade, deve nos fazer começar a reconstruir a vida agora e não apenas sermos “fatalistas escatológicos”. Somos filhos de Deus e como tais jamais poderemos negar nossa “Irmandade Divina”. Onde estão os juízes, advogados, professores, engenheiros, comerciantes, médicos, jornalistas, enfermeiros, biólogos cristãos e tantos outros? Um avivamento deve atingir a igreja de Cristo. Mas ele precisa deixar de ser coreográfico, cênico, mesquinho, interesseiro, institucionalizado e desprovido da Graça. Só um avivamento “de dentro para fora” poderá melhorar este mundo. E isso não acontecerá fora, mas dentro de nós!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

«Foi a Mim mesmo que o fizestes»

"Jesus disse: «O que fizerdes ao mais pequeno dos vossos irmãos, é a Mim que o fazeis. Quando recebeis uma criança, é a Mim que recebeis. Se em Meu nome oferecerdes um copo de água, é a Mim que o fazeis» (Mc 9,37; Mt 10,42). E, para ter a certeza de que tínhamos entendido bem o que Ele disse, afirmou que é assim que seremos julgados na hora de nossa morte: «Tive fome e destes-me de comer, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir».

Não se trata apenas de uma fome de pão; é uma fome de amor. A nudez não diz respeito apenas ao vestuário; a nudez é também a falta de dignidade humana e desta magnifica virtude que é a pureza, tal como a falta de respeito duns pelos outros. Estar sem abrigo não é só não ter casa; estar sem abrigo é também ser rejeitado, excluído, mal amado". Teresa de Calcutá

Senhor, Misericórdia!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Tempo de tentação e reflexão

Comentário sobre o Cântico dos Cânticos, III, 27-33

«Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo»
A vida dos mortais está cheia de armadilhas que nos fazem tropeçar, está cheia de redes de enganos [...]. E como o inimigo teceu essas redes por todo o lado, e nelas apanhou quase todos os homens, era necessário que aparecesse Alguém mais forte para as dominar, as romper, e para trilhar o rumo àqueles que O seguissem. Eis porque, antes de vir unir-se à Igreja como Sua esposa, também o Salvador foi tentado pelo diabo. [...] Ensinava desta maneira à Igreja que não seria por ociosidade e prazer, mas através de provações e tentações, que ela haveria de chegar a Cristo.


Mais ninguém poderia, de facto, triunfar daquelas teias. Porque «todos pecaram», como está escrito (Rm 3, 23) [...]; Nosso Senhor e Salvador Jesus foi o único que «não cometeu pecado» (1Pe 2,22). Mas o Pai «O fez pecado por nós» (2Co 5,21). [...] «De facto, Deus fez o que era impossível à Lei, por estar sujeita à fraqueza da carne: ao enviar o Seu próprio Filho, em carne idêntica à do pecado e como sacrifício de expiação pelo pecado, condenou o pecado na carne» (Rm 8,3). Jesus entrou portanto naquelas teias, mas foi o único a não ficar nelas enleado. Mais ainda, tendo-as rompido e rasgado, deu confiança à Igreja, de tal forma que ela ousou, a partir de então, calcar aos pés as armadilhas, libertar-se das teias, e dizer cheia de alegria: «A nossa vida escapou como um pássaro do laço de caçadores; rompeu-se o laço e nós libertámo-nos» (Sl 123,7).


Também Ele sucumbiu à morte, mas voluntariamente e não, como nós, pela sujeição do pecado. Porque Ele foi o único a ter sido libertado de «entre os mortos» (Sl 87,6, LXX). E porque estava livre entre os mortos, venceu «aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo» (Heb 2,14) e levou-lhe os «cativos em cativeiro» (Ef 4,8) que estavam prisioneiros na morte. Não só Ele próprio ressuscitou dos mortos, como, simultaneamente, «nos ressuscitou e nos sentou no alto do Céu, em Cristo» (Ef 2,5ss); «ao subir às alturas, levou cativos em cativeiro» (Ef 4,8).

Orígenes (c. 185-253), presbítero e teólogo

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"A alma encurvada"

Certo sábado Jesus estava ensinando numa das sinagogas, e ali estava uma mulher que tinha um espírito que a mantinha doente havia dezoito anos. Ela andava encurvada e de forma alguma podia endireitar-se. Ao vê-la, Jesus chamou-a à frente e lhe disse: "Mulher, você está livre da sua doença". Então lhe impôs as mãos; e imediatamente ela se endireitou, e louvava a Deus. Indignado porque Jesus havia curado no sábado, o dirigente da sinagoga disse ao povo: "Há seis dias em que se deve trabalhar. Venham para ser curados nesses dias, e não no sábado". O Senhor lhe respondeu: "Hipócritas! Cada um de vocês não desamarra no sábado o seu boi ou jumento do estábulo e o leva dali para dar-lhe água? Então, esta mulher, uma filha de Abraão a quem Satanás mantinha presa por dezoito longos anos, não deveria no dia de sábado ser libertada daquilo que a prendia? " Tendo dito isso, todos os seus oponentes ficaram envergonhados, mas o povo se alegrava com todas as maravilhas que ele estava fazendo.

Jesus curou uma mulher que estava doente da coluna, submetida ao domínio da enfermidade. Porém os fariseus e especialmente o chefe da sinagoga revelava que ele também estava doente e muito mais doente do que a mulher. Sua alma estava encurvada. Sua visão estava míope e seus sentimentos desviados. Jesus revela que necessitamos todos ser curados na alma. Como já ouvi de um padre quando dizia que nossa alma é "torta" e precisamos endireitá-la. Necessitamos pois de "exercícios espirituais", de "foco" a fim de direcionar nosso amor de acordo como Cristo ama.

Preciso urgentemente disso, para que não viva encurvado. "kyrie eleison"!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O QUE FAZER PARA VIVER MELHOR NESTE NOVO ANO?

Estamos findando mais um ano, iniciando outro. Fecha-se um tempo, um ciclo de vida, e iniciaremos outro período, mais um ciclo. Ao olharmos para trás vemos como em um filme, muitos momentos, episódios e experiências que vivenciamos. Muitas delas não foram tão boas quanto esperávamos, outras com alegria. Momentos de risos, mas também momentos de pranto e de desespero. Momentos vividos sozinhos mas também com outras pessoas. A vida humana é feita de experiências, de práticas. Não pode ser apenas planejada, mas vivida em relação a Deus, a si mesmo, e aos nossos semelhantes.

Acredito que o Salmo 90 expressa bem esta realidade. Ninguém melhor que Moisés, o legislador e profeta que conduziu o povo de Israel pelo deserto, poderia falar sobre a experiência de vida. A sua convivência na pobreza, como escravo, na riqueza quando na pompa entre a classe nobre, no assassinato cometido, no deserto conduzindo pessoas e na vivência com o Deus transcendente. Todas as motivações e intenções de seu coração acabam por trazer princípios que nos ajudam a viver melhor nossa vida, tão corrida, tão carregada de tantos porblemas e tão abalada por tantos acontecimentos.

Vejamos estes princípios:

1º) Para vivermos melhor neste novo ano, precisamos crer no Deus Providente. Ele diz: “Senhor, tu és o nosso refúgio, sempre, de geração em geração”. Enquanto cremos em Deus como Soberano e Senhor de tudo e de todos, por mais duras que sejam nossas experiências em 2012, manteremos nosso coração em paz. Quando se perde a noção que Deus está no controle, o desespero nos abate e nos destrói. De geração após geração, sempre Deus é Deus. Isso significa que Ele não está pronto a nos satisfazer com nossas necessidades, a trazer para nós coisas boas ou mesmo ser fiel a nós. Ele é fiel a Ele mesmo, mesmo quando nós passamos pelas perdas, tristezas e reveses da vida. Ele é Deus sempre.

2º) Para vivermos melhor neste novo ano, precisamos crer no Deus Imutável. Ele também diz: “Antes de nascerem os montes e de criares a terra e o mundo, de eternidade a eternidade tu és Deus”.. Isto é, Ele é Deus de eternidade a eternidade. Daniel afirma que Ele é quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis, ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos entendidos(Dn 2.20-21). Ao contemplarmos Deus assim, nossa vida se sente acolhida e abraçada. Não somos órfãos, temos o Deus que nada foge aos seu conhecimento e domínio. Ele está sobre todos e age por meio de todos. (Ef 4.5).

3º) Para vivermos melhor neste novo ano, devemos reconhecer a nossa condição. Moisés afirma: “Fazes os homens voltarem ao pó, dizendo: “Retornem ao pó, seres humanos!” De fato, mil anos para ti são como o dia de ontem que passou, como as horas da noite. Como uma correnteza, tu arrastas os homens; são breves como o sono; são como a relva que brota ao amanhecer; germina e brota pela manhã, mas, à tarde, murcha e seca. Somos consumidos pela tua ira e aterrorizados pelo teu furor. Conheces as nossas iniqüidades; não escapam os nossos pecados secretos à luz da tua presença. Todos os nossos dias passam debaixo do teu furor; vão-se como um murmúrio. Os anos de nossa vida chegam a setenta, ou a oitenta para os que têm mais vigor; entretanto, são anos difíceis pois a vida passa depressa, e nós voamos!” Moisés nos revela o quanto somos insignificantes diante de tamanha divindade. Ele nos mostra nossa miserabilidade (7,8) nos dizendo que somos pequenos diante desta santidade e soberania. Nos mostra que somos limitados (9-11) e que o ser humano por mais “poderoso” que se possa achar, sua vida física passa a ser comparada ao crescimento de uma graminha do campo. Sejam nossas conquistas grandes ou pequenas, sejamos bem sucedidos ou não, nossa condição e nossa luta por sobrevivência nos desmascara e nos leva a tomarmos decisões que devem nos levar a uma vida de qualidade e sobretudo conscientes de nossa fé e de nosso relacionamento com Deus.
Então, por que não tomarmos as seguintes decisões:

1) Neste novo ano peçamos todos os dias a Deus “Sabedoria” “Ensina-nos a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria”. O mundo corporativo está começando a ver que não basta ter conhecimento, é necessário possuir sabedoria. O que é sabedoria? É a prática do conhecimento. Sabedoria significa colocar em prática o que temos conhecido. Por isso Moisés pede isso a Deus.

2) Neste novo ano, peçamos a Deus todos os dias “Alegria”. “Satisfaze-nos pela manhã com o teu amor leal, e todos os nossos dias cantaremos felizes”. Dá-nos alegria pelo tempo que nos afligiste, pelos anos em que tanto sofremos. Porque ele me ama, eu o resgatarei”. A vida daquele que vive para sobreviver é uma vida nublada, cansada, sem luz, sem gosto. Ao olharmos a Deus do jeito que Moisés olhou, a alegria se estampa no coração, a tristeza vai embora e temos motivação, determinação, mesmo que passemos momentos de tristeza.

3) Neste novo ano peçamos todos os dias a Deus “obras”. “Esteja sobre nós a bondade do nosso Deus Soberano. Consolida, para nós, a obra de nossas mãos; consolida a obra de nossas mãos”! Somente quando trabalhamos, agimos em prol dos outros e não em prol de nós mesmos, temos a certeza de que estamos vivendo com dignidade. Viver uma vida egoísta, que vive apenas atrás de “bênçãos” para si, é uma tremenda vida frustada. Peçamos a Deus que façamos nossa vida girar em torno de outros pois somente assim teremos satisfação. “Jesus o Messias viu a obra de suas mãos e ficou alegre e satisfeito” (Is 53.14).

Viva assim e seu novo ano será como Deus quer e não você quer. Será um ano de alegria, pois mesmo diante de suas limitações, você contemplará e conhecerá o verdadeiro Deus que se fez humano para que façamos parte da natureza divina (I Pedro 1.4).

Feliz ano de 2012.
Rev. Luiz Augusto

sábado, 24 de dezembro de 2011

CELEBRANDO O NATAL COM A VERDADEIRA MOTIVAÇÃO

No Leste europeu os centros comerciais não ficam completamente entupidos nas vésperas de Natal. Isto porque o Natal naquelas regiões se comemora “sem” presentes, “sem” renas e “sem” Pai Noel. As crianças desde cedo se habituam a que o “prato principal” de 24 de Dezembro seja a “Divina Liturgia”, já que para os cristãos orientais o Natal é uma tradição religiosa e não “culinária”. Assim, a presença assídua da família na “Divina Liturgia” de dia 24 para 25 é o motivo da celebração. São mais de quatro horas passadas na igreja e só no final há um "banquete" ou ágape, que pode ser entre todos ou apenas com a família.

Fico me perguntando se não houvesse tantas luzes, fogos de artifício, troca de presentes, e outras fanfarrices no Natal, nós realmente estaríamos celebrando esta festa. Ao mesmo tempo, fico perturbado com alguns crentes que vivem procurando “erros” na tradição cristã.

Alguns ultimamente estão questionando se o dia 25 de dezembro foi mesmo a data que Jesus nasceu, se houve ou não influência do paganismo sobre esta data na época que foi criada. É impressionante como queremos testificar para nós mesmos que somos os detentores da verdade. Isso é ridículo e inócuo.

Precisamos verificar sim, se nossa motivação em celebrar o Natal não é meramente uma questão cultural ou consumista e comercial, ou também para os líderes religiosos terem seus templos cheios de pessoas. Trocar presentes, ter um momento com a família em uma Ceia, com certeza, não terão valor algum, se a motivação de celebrar a “Encarnação de Deus” não for a nossa maior prioridade.

Vale a pena lembrar que trocar presentes era uma prática usada pelos cristãos lembrando a atitude dos Magos que ofereceram a Jesus: Ouro, Incenso e Mirra. A culinária deveria lembrar o Natal se não nos déssemos apenas a bebedice e a comilança.

Porém é bom lembrar que a celebração do natal por si só também não faz nenhum sentido se não for a “celebração sincera”, a comemoração de que Deus um dia, desceu dos céus, se fez ser humano como nós, a fim de restaurar toda a sua Criação.

Na sua glória, Deus abdicou da mesma e se fez como um “escravo”, nascendo como um pobre para mostrar que a força e o poder não são reservados aos grandes, mas aos pequenos, que o que importa no Reino de Deus não são os primeiros e sim os últimos, que o maior não é quem é servido, mas, quem serve.

O Natal somente faz sentido em minha vida quando celebro a Encarnação e me encarno como Cristo se encarnou. Se com Ceia ou sem Ceia, se com muito barulho ou apenas no silencio, seja lá como for, o Natal sem esta motivação é apenas sim, uma festa pagã dentro do meu coração.

Um Feliz e verdadeiro Natal.
Deus se fez gente!

A todos nossos familiares, amigos e irmãos nossos sinceros votos de um feliz Natal e um ano de 2012 cheio da Graça de Cristo,

sábado, 10 de dezembro de 2011

BUSCANDO UM NATAL QUE FAÇA SENTIDO

O Natal que se vê hoje pode ser sinônimo de várias outras práticas e motivos. Por exemplo, há gente que relaciona o Natal com o sentimento de mais um ciclo que se fecha em sua vida, pelas comemorações do ano que está findando. Outros usam esta data para avaliar e redefinir planos pessoais que envolvem a carreira. Outros ainda não conseguem ver o Natal sem o cifrão sinônimo do Consumismo desenfreado: gastar e gastar, esta é a lei.

Na verdade, o Natal não tem nenhuma relação com os assuntos acima citados. É a data onde toda a Cristandade comemora a encarnação do Deus Criador e sustentador deste Universo. O Natal fala sobre advento do Cristo. O Natal fala sobre a paz que Deus trouxe aos homens de boa vontade, de todas as nações e povos.

Ao festejarmos o Natal falamos sobre a decisão de Cristo em abdicar de Sua glória e tornar-se humano e submetendo-se a lei dos homens (Fp 2.5-8), morrendo, ressuscitando e abrindo as portas de uma nova criação que viverá numa nova terra, física e eterna, cumprindo os princípios da criação original. Portanto, o Natal torna-se o modelo de nossa prática de vida enquanto estivermos neste mundo.

Ao observar a motivação de Deus, sou motivado também a me deixar enviar a toda pessoa, sem distinção de raça, cor, sexo ou religião. Se Cristo veio ao mundo e se tornou homem, o mesmo sentimento deve existir em minha vida a fim de me relacionar com todos e com todas para que de alguma maneira a graça invada outros corações.

Ao observar a intensidade e plenitude da encarnação de Deus, sou levado a avaliar meu nível de submissão a outros, se estou me relacionando de igual para igual com outras pessoas (João 1.14). Quais são as exigências da cruz?
Ao observar o nível de doação de Deus pela humanidade sou questionado pelo seu exemplo se realmente estou me doando e me renunciando em favor de outros, renunciando a glória pessoal, entregando-me em favor de pessoas, respeitando o outros, não usurpando o direito de terceiros (Fp 2.6-9).

Neste Natal, para que esta Festa faça sentido em minha vida, sou admoestado a despojar a minha auto piedade, o egocentrismo consumista e tomar iniciativas práticas em favor de outros, fazendo doação de algo mais permanente do que simplesmente presentes e souvenires.

Neste Natal, tire um pouco de você para dar a alguém algo que seja frutuoso e valoroso. Doe atenção, tempo, talentos, dons em favor de pessoas que você sabe que jamais vão poder retribuir o que você fará. Neste Natal faça uma oferta missionária, renove seu compromisso com o mundo carente, busque renovar relacionamentos que foram quebrados e resgate algo mais durável e cheio de vida. Somente assim seu Natal fará sentido, de outra sorte, será uma mera festa consumista.

Rev. Luiz Augusto

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

«Perdoa-lhe»

Jean Tauler (c. 1300-1361), dominicano em Estrasburgo
Sermão 71.

«Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5,7). Diz-se que a misericórdia de Deus ultrapassa todas as Suas obras; e é por isso que um homem misericordioso é um homem verdadeiramente divino, porque a misericórdia nasce da caridade e da bondade. Por esta razão é que os verdadeiros amigos de Deus são muito misericordiosos e acolhem os pecadores e os que sofrem, contrariamente aos que não têm esta caridade. E, como a misericórdia nasce da caridade, devemos tê-la uns para com os outros [...]; se não a exercemos, no dia do juízo, Nosso Senhor pedir-nos-á uma justificação especial [...]

Esta misericórdia não consiste somente em dar, mas exerce-se também em relação a todos os sofrimentos que podem abater-se sobre o próximo. Aquele que vê isso sem testemunhar aos seus irmãos uma verdadeira caridade e uma autêntica compaixão por todos os seus sofrimentos, e não fecha os olhos às suas faltas, com um sentimento de misericórdia, esse homem tem razão para temer que Deus lhe recuse a Sua misericórdia, porque «conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados» (Mt 7,2).

sábado, 5 de novembro de 2011

Que tamanho é a porta das nossas igrejas?

Ser aceito por Deus sempre foi a incessante busca da humanidade. A história nos mostra que essa questão sempre foi a grande premissa das religiões em todos os tempos.

Às vezes fico imaginando como era difícil para as prostitutas, cobradores de impostos, mulheres e crianças, viúvas e órfãos, eunucos e pagãos viverem na época de Jesus de Nazaré.

Algumas dessas pessoas eram excluídas da religiosidade judaica. Sequer podiam entrar em uma sinagoga para adorar. A prostituta, pecadora, o publicano, os leprosos entre tantos jamais eram considerados pelos religiosos por que eram diferentes e por isso eram estigmatizados e excluídos.

Hoje a religião continua fazendo a mesma coisa. Por exemplo: Se você não manifestou certa aparência de que recebeu o Espírito Santo, se você foi batizado por um batismo diferente, se dá ou não a “paz do Senhor”, se canta hinos ou se somente canta musicas-gospel, você não chegou ao nível de espiritualidade da maioria. Vivemos as mesmas rotulações da época de Jesus.

E o que Jesus fez com tudo isso? Mostrou claramente que os aceitáveis para Deus não eram os “certinhos”, os “corretamente religiosos”, mas os que admitiam sem medo a sua fragilidade e limitação, que o amor de Deus os leva a se comprometerem com pessoas, qualquer compromisso era por amor e não por outra condição. Jesus como Filho de Deus, aceita os que assumem uma espiritualidade própria, sem padrões, sem jargões verbais, sem estilos evangélicos, sem a opressão de moldes e escravização denominacionais.

Jesus aceita aqueles que não dependem do julgamento de terceiros mais “espirituais” para se acharem aceitos e acolhidos por Deus. Jesus aceita mulheres e homens de fé simples e de comportamento comum.

Deus abomina os que assumem uma espiritualidade bombástica que impede que outros “fora-dos-padrões” possam ser acolhidos por Deus. Deus abomina os que querem fazer “propaganda da fé” ou de sua “igreja-denominação”, Deus é indiferente com os que usam o amor para fazer “lavagem cerebral” na mente dos sinceros, Deus inferniza a vida daquele que compra o compromisso e o amor de outros com pressão psicológica. Deus amaldiçoa os que em sua fé egoísta não aceitam os que Deus ama, independentemente de sexo, de condição social, de religião, de estilo. Porém se algum momento fecharmos as portas da graça para quaisquer pessoas, já há muito nos fechamos para Deus. Se vincularmos a fé à condição monetária das pessoas Deus nunca estará nesse “negócio”.

domingo, 23 de outubro de 2011

SALVAÇÃO POR CAUSA DO AMOR!

O que nos motiva mais a buscar a salvação de Deus? O medo do inferno ou o amor atraente de Cristo? Nosso mundo está povoado de vozes, mensagens, pregações, músicas, cânticos e hinos que falam sobre a salvação que Deus promete a todo aquele que O busca com fé. É muito fácil que atribuamos aos pregadores de hoje uma autoridade divina quanto a isso. Mas minha preocupação vai um pouco mais além. Creio que devemos nos perguntar: “Com que motivação as pessoas estão pregando o amor de Deus?” Isso porque há muitos que estão buscando a Deus para se livrarem do inferno e das mazelas desta vida. Muitos estão propagando uma mensagem que as livra do tormento e não porque o amor de Cristo é inextinguível.
A busca pela salvação ou por Deus em última análise, deveria nos conduzir a compreender e aceitar o amor inefável de Deus por todos. Para que não invertamos os valores pregados por Jesus de Nazaré devemos tomar algumas precauções:
1) Não pense jamais que a salvação de Cristo é destinada para alguns poucos. Quando pensamos assim, tornamo-nos pessoas estreitas, pequenas, criamos “guetos” e nos isolamos do mundo. Passamos a viver como “fatalistas” e não olhamos as múltiplas revelações de Deus no dia-a-dia. Achamos que a igreja ou a comunidade que participamos é uma realidade “ultra mundana”, isto é fora do mundo normal do “grupo de mortais”. Começamos a nos tornar “extraterrestres” com um jeito diferente de falar, de se cumprimentar e de andar. A pregação que trata mais do inferno do que do amor de Deus é o ponto crucial de vivermos desconectados da sociedade.
2) Não viva distante das pessoas. Isso por que podemos viver vidas desagregadoras. Desagregar é o contrário de agregar, aglutinar, juntar, unir. Essa é a essência da palavra “diabo” no Novo Testamento. O Diabo ficou conhecido por que ele tem o objetivo de separar e desagregar as pessoas. Quando pregamos e vivemos um evangelho que não enfatiza o amor incansável de Deus por nós, somos grandes candidatos a desunião e a superficialidade. Há muitos “evangelhos desagregadores”. A vida cristã se caracteriza pela unidade, compreensão e coletividade. Jesus Nosso Senhor pedia ao Pai: “...que eles sejam um, como és tu ó Pai em mim, que eles sejam um em nós”.
3) Não se ache mais santo que os outros. Podemos tornar nossa comunidade um “museu de santos e não um hospital para pecadores”. A verdade é que o mundo carece muito mais de atos de misericórdia do que de “discursos”. As pessoas que desejam encontrar o amor verdadeiro de Deus serão impactadas nunca pelo discurso e sim pelos atos e gestos de acolhimento e de abraço. Jamais devemos “polir nossa santidade” como se fossem pérolas. A santidade de Deus deve ser vivida no meio da impureza. Quando Deus quis mostrar sua Santidade, se tornou gente e veio viver neste mundo de podridão, vergonha e injustiça.
O amor de Deus deve ser proclamado de todos os cantos conduzindo a todos indistintamente, de modo que nossa mensagem reflita que conhecemos a Deus. Que o Espirito Santo nos motive a romper com a pregação caprichosa, mesquinha e ostentadora. Que este evangelho nos leve cada dia sermos mais parecidos com os outros ao nosso redor. Que a graça do amor nos leve a pregar mais a misericórdia e menos sobre o inferno. Que não criemos “panelinhas” santas mas que estejamos no mundo entre as pessoas mostrando uma mensagem pelos atos e não apenas por palavras.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A Lectio Divina: O Pão Nosso Cotidiano

A Lectio Divina é um método devocional que nos ajuda a ter comunhão íntima com o Senhor, e a vê-lo com “os olhos do coração” (Ef. 1:18). A lectio divina pode ser traduzida por “leitura divina”, “leitura espiritual” ou “leitura orante das Escrituras”. Trata-se de um alimento necessário para nossa vida espiritual. Fundamentados nesta prática, produziremos naturalmente os frutos que Deus deseja ver em nós. É uma prática individual, mas pode ser feita em grupo também. O importante é orar com a Palavra de Deus, conhecendo a Palavra dEle e assim conhecendo a Jesus Cristo. Ela possui seis passos:

a. Silencio: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” (Salmo 46:10). Aproxime-se do Deus vivo. Aquiete-se em sua presença amorosa. Focalize toda a tua atenção nEle e abra o seu ser e coração.

b. Lectio: Leia a Palavra de Deus. “Lectio” é mais do que uma mera “leitura” da palavra. O termo quer dizer que devemos nos aproximar de uma porção da escritura, palavra por palavra, frase por frase com profunda atenção. Desejamos ouvir a voz de Deus naquilo que lemos e receber o que Ele quer nos dizer. Aproximamo-nos com expectativa e fé, crendo que o próprio Deus pode nos falar neste momento.

c. Meditatio: Meditar na palavra lida. “Meditatio”, como sugere a palavra, é uma meditação profunda no texto lido. Este tipo de reflexão é lento. Os olhos e o ser saboreiam cada palavra ou frase da mesma forma que nossa boca desfruta de uma laranja ou um doce: pouco a pouco. “Meditatio” inicia com a reflexão da minha mente, mas ao abrir meu interior à terna e calma voz de Deus, Ele mesmo começa a falar ao meu coração. Ele me ama, ensina, consola ou purifica, da forma como Ele deseja fazê-lo. Permite-me conhecê-Lo e me ajuda a conhecer a mim mesmo (a), tal como sou.

d. Oratio: A oração que responde à palavra, pessoa e voz de Deus. Quando escutamos realmente a voz de Deus, através da leitura e da meditação, podemos (e devemos!) responder-lhe em oração. Nossa resposta deve corresponder com o temos ouvido: palavras de amor ou adoração, ao descobrimos mais de seu Ser; ações de graças, ao ver aquilo que Ele faz por nós; confissão e arrependimento, se nos mostra algum pecado; perguntas, se não entendemos o que Ele nos disse. Aprender a ouvir a voz de Deus nos leva a um diálogo genuíno com Ele. Respondo a sua voz e compartilho os desejos do meu coração. Recebo seu amor e expresso o meu. Convido-o a me encher e me entrego plenamente a Ele.

e. Contemplatio: (2 Cor. 3:18). Às vezes nossa comunhão com Ele é tão profunda que sobram palavras. A única resposta à sua voz e presença é permanecer em silêncio diante dEle. Isto é “contemplatio”. Olhamos para Deus, com amor e adoração. Desfrutamos de sua presença e bebemos dela. Confiamos naquele que é o centro de tudo, o Soberano e Santo Deus. E descansamos. Ao contemplarmos ao Senhor, “... somos transformados de gloria em glória, em sua própria imagem” (2Cor. 3:18).

f. Incarnatio: A vida e a missão que fluem da intimidade com Deus. Vivo a sua palavra e amor, durante o dia, na dependência dEle. Baseado nisto, vivo, trabalho e me relaciono com os outros no meu contexto, e participo com Deus em sua missão no mundo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

MISSÃO X PROPAGANDA

Há muita propaganda e pouca identificação. Há muito turismo missionário e pouca inserção. A pergunta que deve ser feita é: “Como estamos missionando nos dias atuais?”. Devemos ser corajosos para avaliar as nossas estratégias, nossos métodos e táticas que usamos para comunicar o Evangelho. Parece que não é suficiente usar o marketing e a mídia para o anúncio das Boas Novas. Muito mais do que usarmos do turismo missionário para conhecer e manter trabalhos denominacionais em locais de difícil acesso nos interiores do país, precisamos estar dispostos a encarnarmo-nos neste mundo, para que sejamos relevante e cumpramos a Grande Comissão de verdade.

Necessitamos muito mais do que um “avivamento coreográfico” para redescobrirmos nossa verdadeira missão. Necessitamos urgentemente de uma restauração motivacional acerca da nossa missão partindo da interpretação correta da Palavra de Deus, rejeitando as idéias pragmáticas. Precisamos de uma nova Reforma Teológica para que passemos a tornar nossa missão mais parecida com a de Jesus e deixarmos o proselitismo de lado.

A estrutura social que se vive, está baseada no Consumismo, onde as pessoas vivem a necessidade de posse. A idéia de sucesso segundo o mundo passa pela motivação egoísta e individualista. A concepção de civilização está baseada na visão de culturas e sub-culturas que se adeqüem à Ciência e à Tecnologia. Atualmente, ainda existem no mundo as mesmas lutas pela igualdade social e racial. Povos continuam a se enfrentar e a filosofia discriminatória é base da educação familiar destas raças.

O mundo tem contemplado etnocídios entre povos que vivem em conflito a centenas de anos. Em contrapartida, no mundo ocidental a Globalização tem gerado um desnível social e econômico nunca visto. Os países economicamente ricos dominam, controlam e oprimem os países pobres dependentes.

A nossa missão não pode ser feita sem as bases teológicas da Palavra de Deus. Para que cumpramos nossa missão devemos redescobrir a Encarnação de Cristo. A superficialidade da interpretação do Evangelho tem gerado uma contextualização superficial. Prof. René Padilla afirma: “A missão da cruz é a exigência de um novo estilo de vida caracterizado pelo amor totalmente oposto a uma vida individualista, descentralizada das ambições pessoais, preocupado com as necessidades do próximo. O significado da cruz é ao mesmo tempo soteriológico e ético. E isto é assim porque, ao escolher a cruz, Jesus Cristo não somente deu forma ao indicativo do evangelho, mas simultaneamente também proveu o modelo para a vida humana aqui e agora”.

Precisamos compreender que não estamos realizando uma missão contextual, e isso se deve ao fato de que há uma falha na concepção do que seja o Evangelho da Cruz, que começa com a humilhação de Cristo ao se encarnar e encerra-se com a glória à destra do Pai.

Há um déficit teológico na igreja atual que resulta em uma débil contextualização do Evangelho. O problema de uma fraca contextualização é a falta de reflexão teológica profunda e relevante.

Se a Teologia da Cruz está diluída, as conseqüências serão de uma evangelização nominal sem os resultados éticos do Evangelho. Rev. Valdir Steuernagel afirma: “A nossa evangelização deve estar a serviço de um evangelho que afeta a pessoa toda em todas as áreas de sua vida. Isto quer dizer que o evangelho, embora seja pessoal, tem um forte colorido coletivo: é individual mas tem uma inerente dimensão social; é uma mensagem de conforto mas pede um compromisso ético; desencadeia uma espiritualidade terapêutica e leva a um inequívoco pacto com a justiça; produz igreja, mas uma igreja que deve estar concretamente enraizada na comunidade global dos seres e na busca desta por uma vida justa e digna. Quanto mais estivermos a serviço deste evangelho integral, que afeta todas as áreas da vida, tanto mais estaremos a serviço do Deus Trino. E esta será adoração verdadeira que, como o sacrifício de Abel, será acolhida nos céus”.

Eis o desafio... Kyrie Eleisón.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

UM TRIBUTO A MARLY APARECIDA MAROTTI CORREA BUENO

Depois de tanto tanto tempo, ainda me lembro de minha mãe. Ainda choro com saudades dela. Ainda me vejo o menino de 10 anos que acabara de receber a notícia que sua mãe havia partido para os braços de Cristo.

Hoje, especialmente hoje, minha mãe completaria 71 anos de vida. Uma mulher linda por dentro e por fora. Marly foi a primeira filha de Nicolau e Eliza, irmã de Silvio Vitor, que encontrou com Raul e em junho de 1964 se casaram. Posso ser muito suspeito mas Marly era realmente linda. Cabelos curtos, mais alta do que a estatura normal das mulheres. Seus cabelos eram castanho-escuros, possuía um olhar singelo e ao mesmo tempo determinado. Sua pele era branca, sua tez era inesquecível de tão linda como uma porcelana. Se pudesse comparar sua beleza, seria tal como a da famosa Liz Taylor. Mas Marly foi mais. Viveu somente 34 anos. Dos trinta e quatro anos vividos teve dois filhos, Luiz e Andréa.

Marly foi uma mulher e tanto. Muito embora transmitisse uma paz cativadora, jamais deixava de ser austera e principalmente disciplinadora. Era uma Mestra. Marly me ensinou as primeiras letras. Era professora do ensino fundamental. Era cuidadora. Ainda hoje me lembro de minha mãe no balcão da cozinha fazendo meu suco pela manhã sem o qual não poderia deixar de sair de casa para a escola sem ele.

Marly sofria dos "nervos" como se falava na época. Ainda acho que era depressão. O mês de novembro de 1975 foi um dos meses mais pesados pra todos nós. Marly adoeceu mortalmente de Leucemia Linfóide Aguda. Sua vida foi tirada em poucos dias depois do diagnóstico. Eu chorei, a família chorou, Corumbataí toda chorou. Sua vida foi tirada, mas suas marcas continuam em centenas de vidas que foram tocadas pela vida de Marly.

Tenho a plena convicção que, naquele dia quando Cristo renovar todas as coisas, nós nos encontraremos novamente, para jamais nos separarmos. Hoje ainda me lembro, choro as vezes pela saudade, mas espero com confiança no dia, eterno, onde o pranto será substituído pela alegria e a saudade será transformada em presença, abraço, cheiro e renovo.

Senhor, receba minha gratidão por Marly, minha mãe, mulher da Graça e do amor. Mulher frágil e forte. Mulher simplesmente, mulher.

domingo, 2 de outubro de 2011

Evangelizar X Evangelicalizar

A cada dia que passa sinto mais dificuldade de evangelizar. Isso pode soar até como escândalo para alguns que se contrariam em ouvir de um pastor esta declaração. Há muito “ruído no ar” que atrapalha e complica a comunicação do evangelho verdadeiro.
Há muita coisa, muita mania, muito trejeito, muito palavreado que quer se parecer com o evangelho de Jesus, mas não é. Nas igrejas e congregações locais a pregação é mais ou menos esta: “venha do jeito que for pra Jesus, porque ele é o Deus da Graça”. Mas depois quando as pessoas entram para tal igreja, este evangelho da Graça torna um peso, um “stress”. É irmão virando “detetive” para ver se o outro tá andando conforme as regras da tal igreja. É uma série de normas de um evangelho cheio de esquisitices e imprecações.

Hoje vejo um cristianismo cínico e punitivo. Há milhares de pessoas que se dizem evangélicas e refletem um evangelho “sem a Graça” e “sem graça”. Há outros que se sentem quase semideuses, apresentando para as pessoas um cristo caprichoso e vingador. Parecem que Cristo está somente a serviço deles e eles são o único alvo de Deus. Há muita gente orando em igrejas desejando que Deus se vingue ou que tome a espada contra os seus concorrentes e adversários.

Hoje não se fala mais do evangelho comunitário. Só se houve que Deus está comprometido a dar “vitória” para você. O Deus do evangelho é para você, gira em torno de você, e só se dirige a você. Você é o centro do Universo. Que evangelho megalomaníaco!

Mas o verdadeiro evangelho de Jesus Cristo não é assim. O evangelho de Jesus é aquele que prioriza o amor-caridade antes do amor-sentimento. O evangelho de Jesus é capaz de aceitar a idéia de que o amor está no cerne do universo. Deus está mais interessado em se relacionar conosco do que em que vivamos uma evangelho cheio de “não faças isso”, “não faças aquilo”. É a única ideologia onde se vive “para o outro” e “não sobre o outro”. O evangelho verdadeiro está comprometido na coletividade, no outro, no próximo.

Por isso é difícil de evangelizar hoje. Antes melhor seria calar e silenciar, pois quanto mais se discursa menos se faz. Jesus mostrava que o seu discurso estava em consonância com sua prática. Precisamos falar mais a Jesus. Acredito que quanto menos discursarmos sobre Deus e mais buscarmos nos parecer com Jesus, mais refletiremos juntos a graça e o amor e menos nos pareceremos com os evangelhos que se pregam por aí.

Pelo contrário, o evangelho de Jesus é simples, descomplicado, simplificado, desobstruído, desarticulado, desamarrado, mas ao mesmo tempo profundo, verdadeiro, grave, denso. Eis o desafio, eis o evangelho verdadeiro.

sábado, 24 de setembro de 2011

AS MARCAS DO VERDADEIRO DISCÍPULO

“Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram. Mateus 7.13-14

Muitas pessoas que vivem nas igrejas e fora delas adiando seu compromisso com Deus. Há muitos que procuram a Cristo, porém não desejam se render a Sua autoridade. Ao falar sobre seguí-lo, Jesus lembra que a obediência não é opcional e que a fé do verdadeiro discípulo não é uma fé fácil. Há um custo pelo discipulado, isto é, pela vida eterna. Atualmente, qualquer que se declare cristão, poderá encontrar evangélicos dispostos a aceitar sua profissão de fé sem considerar o seu compromisso.

Muitos crêem sinceramente que estão salvos, todavia vivem completamente estéreis, por que vivem adiando seu compromisso com a vida eterna, ou seja, com o discipulado.
Jesus nos afirma que nenhuma experiência de fé pode ser tomada como evidência de salvação, se estiver separada de uma vida de obediência a Ele. Somos encorajados a examinar e provar a nós mesmos frequentemente. Que cada árvore é conhecida pelo seu fruto (Lc 6.44). A evidência da obra de Deus em uma pessoa é o fruto inevitável de um comportamento em transformação. Vidas onde há ausência completa do fruto da verdadeira justiça há também a evidência que não há compromisso com Cristo e com a vida eterna.

A salvação não é somente um ato. É um processo em andamento que depende de uma decisão. Não é possível receber a Cristo como Salvador e rejeitá-lo como Senhor. (Rm 10.10; At 16.31; Rm 10.9; At 2.36). Com toda certeza “o Senhor não irá salvar aqueles em quem Ele não pode mandar” (A.W. Tozer). Mas todo discipulado começa com uma decisão. É o ponto de partida e não o ponto de chegada.

Há uma idéia errada vigente sobre a fé e discipulado. Jesus nos afirma que a chamada do Calvário tem que ser vista pelo que realmente é: uma chamada ao discipulado sob o Senhorio de Cristo Jesus. Atender a esta chamada é tornar-se um cristão. Qualquer coisa menos do que isso é simplesmente “falta de fé”. Mas esta caminhada nos custará uma demanda enquanto estivermos aqui. (Lc 14.26-33). Paulo nos diz que a verdadeira Graça nos ensina a renegar a impiedade e as paixões mundanas para que vivamos em piedade e em boas obras. A Graça não nos concede permissão para vivermos como queremos (Tt 2.12). A fé não é estática. É inseparável do arrependimento, da rendição e de um desejo de obediência. (Ef 2.8; Tg 2.19). Hoje se fala muito em “aceitar a Cristo” que estabelece um conceito de fé que elimina a submissão, a rendição pessoal e o abandono do pecado, classificando todos os elementos práticos da salvação como obras humanas. Porém o arrependimento está no âmago da fé salvadora. As Escrituras igualam fé e obediência (Jo 3.36; Rm 1.5; 16.26; 2 Ts 1.8). Fé e Obras jamais são incompatíveis (Jo 6.29). A verdadeira salvação, operada por Deus, nunca deixará de produzir frutos na vida de uma pessoa e através dela (Mt 7.17).

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Um Místico Urbano

Tomás de Aquino (1225-1274) foi um homem interessante e intrigante. Apesar de ter nascido numa rica família, optou, em certo momento de sua vida, por ser um pobre frade. Por ter um corpo grande, desajeitado e lento, ganhou o apelido de "boi burro". Quando seus colegas assim o chamavam, não poderiam imaginar estar diante daquele que seria considerado um dos teólogos mais geniais da história do cristianismo, cuja voz iria atravessar os tempos. Imagine ter um "Mac" em um mundo dominado pelo "PC" (Windows)... Pois assim foi Aquino, um sistemático pensador aristotélico em um ambiente teológico imerso no platonismo. Ele foi um severo crítico do subjetivismo platônico, por entender que os teólogos influenciados por este pensamento caíam num transcendentalismo desconectado da realidade. Por isso, foi a mosca que pousou na sopa de tais teólogos místicos, influenciados por um pensar mais aberto ao sobrenatural. Fez sua teologia a partir do lado esquerdo do cérebro, de onde nascem os atributos da razão, e por ela buscou “explicar” Deus. Sua Suma Teológica tornou-se o primeiro tratado de teologia sistemática do Ocidente, uma tentativa de sintetizar em volumes os múltiplos e infindáveis tópicos teológicos. Mas aqui reside um mistério: propositadamente, ele deixou sua Suma Teológica inacabada. Seu amigo Reginaldo ficou preocupado quando observou que Aquino parou de trabalhar na sua obra-prima. Instado a continuar, Aquino respondeu que não poderia mais escrever. Diante da insistência do amigo, o teólogo abre o coração e diz: “Eu não posso mais escrever, porque tenho visto coisas que fazem todos os meus escritos serem como palhas”. E assim foi. Aquino não mais escreveu depois de ter tido uma experiência mística com Deus durante uma celebração, que o fez baixar a pena em uma atitude de humilde adoração. No leito de morte, este grande filósofo e teólogo, pai da teologia natural e um dia antagonista da teologia mística, pede para ouvir a leitura bíblica do Cântico dos Cânticos. Afinal, qual foi a experiência mística que levou Aquino a considerar tudo quanto tinha escrito e que constitui um dos principais pilares da teologia ocidental “como palha”? Tentar descobrir é profanar com uma curiosidade racional a santidade de uma experiência única; mas reporto-me a esta experiência de Aquino porque ela mexe o meu mundo interior, despertando sonhos antigos. Pois eu tenho um sonho de me tornar um místico! Sim, eu gostaria de organizar a minha vida em torno do mistério de Deus. A mística é considerada na tradição espiritual cristã uma “ciência” mais elevada, pois é uma forma de conhecer Deus como fruto da experiência com ele, e não do acúmulo de informações frias sobre a sua pessoa. Equivocadamente, pensa-se que uma experiência mística é o eclipse da razão, um suicídio intelectual em nome do indescritível. Nada mais errôneo para com a mística cristã. Um místico não é um louco, ou alguém intelectualmente preguiçoso e limitado, mas alguém que crê por ter experimentado encontros com Deus não explicados puramente pela razão e nem totalmente descritos com palavras. É uma forma de conhecer a Deus “no dizer de Teófilo” a sabedoria escondida e secreta de Deus, na qual, sem ruído de palavras e ajuda de algum sentido corporal nem espiritual, como no silêncio e quietude da noite, obscura a todos os sentidos naturais; ensina Deus a alma, no oculto e no secreto, sem que esta saiba como está sendo ensinada. Eu tenho um sonho de influenciar uma geração de estudantes de teologia e de jovens pastores a se tornarem místicos. Queria poder dizer-lhes que o ano de estudo teológico não podem sequestrar sua devocionalidade. Gostaria de alertá-los de que a Igreja contemporânea tem uma necessidade urgente de místicos intelectualmente sólidos, teologicamente saudáveis, e não de oradores que produzem discursos dominicais vazios por não nascerem do encontro com o Deus vivo. Sonho poder inspirá-los a refundarem a mística protestante, deturpada pela onda neopentecostal. Sonho poder falar-lhes de liderança, não a partir de modelos puramente técnicos advindos do mundo corporativo, mas sim de uma liderança com base na mística capaz de fazer de homens e mulheres de Deus verdadeiros sábios espirituais. Sobre isso, reproduzo o que recentemente alguém me contou. Um pastor famoso e cultuado, destes que exportam o seu estilo de vida e modelo ministerial, viajava ao lado de uma pessoa. Tão ocupado estava com o seu computador, fazendo freneticamente mil coisas, que sequer olhou para quem estava na outra poltrona. Foi então que a pessoa perguntou o que ele fazia; ante a resposta, o interlocutor fortuito questionou: “Por que será que quando sento ao lado de um pastor, tenho sempre a impressão de estar com um homem de negócios, mas quando sento com um monge budista, parece que estou junto a um homem de Deus” ? Eu tenho um sonho de libertar a palavra discipulado da prisão reducionista à qual nós a pusemos. O discípulo de Jesus é um místico que sobe o monte da transfiguração com ele e desce de novo para expulsar os demônios do vale. Fazer discípulos não é colocar pessoas na escola dominical, ensinando-as um corpo de doutrinas frias e dando-lhes um código de conduta moral pessoal sem qualquer conexão com o mundo dentro do qual se vive. Sonho em transformar minha igreja em um centro de formação espiritual, dentro da qual são gestados místicos preocupados com a transformação da sociedade. Então, tenho o sonho de ser um místico urbano. Não quero ir para o mosteiro, mas desejo trazer para minha realidade pós-moderna os maravilhosos princípios da espiritualidade monástica. Sonho viver aquilo que Bonhoeffer disse: “Somente um novo monasticismo pode salvar a Igreja atual”. Quero ser este novo monge, que usa celular, assiste televisão e comunica-se por e-mail, mas cultiva o silêncio e a contemplação no meio do barulhento inferno urbano. Eduardo Carlos Pereira

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

ENTRE O MONTE DA TRANFIGURAÇÃO E O VALE DOS ENDEMONINHADOS

O mundo muda em questão de segundos. O sistema social que vivemos imprime cada vez mais forte um estilo de vida monstruoso. O diagnóstico mais comentado de mortes por Infarto é o stress. Vivemos dentro de uma jaula social, comendo-nos e sendo comidos. Cada vez mais as cidades de porte médio estão se tornando metrópoles e as metrópoles estão cada vez mais se fazendo um aglomerado de gente. A zona rural está se transformando em cidades-fantasma.

No meio disso tudo vive a igreja. A maioria dos fiéis tende a buscar refúgio em seus guetos. Outros estão buscando viver sua fé longe deles, pois estes bolsões evangélicos já não correspondem e respondem às suas necessidades pessoais. A igreja da prosperidade cada vez mais está caindo no ridículo e virando uma panacéia. Não há respostas concretas para problema concretos. A igreja deste século não consegue responder as inquietações por que se secularizou, se dessacralizou e violou um dos maiores bens que o Espírito Santo deixou: a Sacramentalidade.

Quanto mais longe ela viver dos mistérios divinos e mais separada do paradoxo divino-humano, menos poderá responder aos descaminhos da sociedade. A igreja precisa transitar entre o monte da transfiguração e o vale dos endemoninhados. O problema é que ela se enclausurou no vale e esqueceu o monte. “É necessário uma IGREJA que olhe com cuidado para a rede de pobreza extrema nacional” (J.H.Barro). A igreja está preocupada com as migalhas de Copas de Futebol e Olimpíadas Esportivas, vive sempre à reboque do que vai a Sociedade e não consegue viver na vanguarda por que não subiu ao Monte da Contemplação. A igreja quer viver isolada no meio dos problemas sociais tentando remediá-los com princípios paleativos empresariais.

Cada vez mais começam a existir os crentes “sem-igreja”. Nas palavras de J.H. Barro “O sagrado que permeava a vida das pessoas, influenciando-as no seu dia-a-dia, vai sendo superado por outras formas racionalistas de encarar a realidade. Um dos efeitos da secularização pode ser a privatização da religião e suas instituições, que, pela variedade de valores que oferecem ao consumidor, faz surgir o que se chama de religião invisível”. A igreja precisa acordar para esse gigante chamado secularização”.

Os jovens quando não buscam uma “fé sem a igreja”, estão buscando uma “igreja sem fé”, somente motivados por encontros de sociabilização com “cara de culto”. Cresce a categoria de “crentes sem religião”, que valorizam a fé, mas não se vinculam a uma igreja. Enquanto a igreja continuar se alimentando da secularização, adaptando seus cultos a programas de Sociedades Filantrópicas, a fazer de seus pastores “executivos’ bem sucedidos e os seus Seminários com jeito de Universidade, não haverá solução do Espírito Santo.

A Igreja necessita voltar para a Sacramentalidade, a contemplação do Sagrado, aos símbolos de fé, sem querer dissecar Deus e Santíssima Trindade, precisa falar menos e a orar mais. Enquanto isso as pedras clamam, os samaritanos indesejáveis aparecem, os “pagãos” escrevem livros de auto-ajuda com cara de espiritualidade sem terem lido um só dos mandamentos da Bíblia. Até quando a igreja vai querer viver um cristianismo sem cruz e sem sacramento?

Como bem afirma J.H.Barro: “as Conferências Missionárias não têm mais um caráter reflexivo, mas lucrativo. Apela-se para os resorts, os hotéis, a comida, e a Conferência torna-se um pano de fundo”. Queremos ser como as empresas, não somente na forma mas no espírito também. Precisamos de uma nova Reforma Religiosa. Não de constituições ou de confissões, mas de culto, de devoção, de contemplação. Por que quanto mais de Deus contemplarmos, mais eficaz será a nossa missão no vale dos endemoninhados.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

UM TRIBUTO A MEU PAI

Esta pastoral tem um sentido muito especial para mim. Sempre é mais fácil lermos e escrevermos sobre a figura da mãe. Muitos são os poemas que lemos sobre a mãe, sinômino de docilidade, de carinho, de amor. Poucas são as vezes que encontramos um poeta descrevendo sobre a figura do pai. Até porque em nossa cultura a figura do pai nem sempre é a imagem daquele que sempre está presente na vida, na educação e no convívio dos filhos.

Nem todos temos uma imagem tão positiva da imagem do pai quanto temos da mãe. Mas porque não tirarmos este dia para agradecer a Deus pelo nosso pai. Lembro-me de José, o pai “emprestado” de Jesus, Nosso Senhor. Nos evangelhos não temos muitas citações de José. Maria aparece muito mais, não somente neles, mas na tradição histórica também. Mas ao pensar em José, em sua passagem rápida pelo evangelho de Mateus, não podemos abrir mão de lembrarmos que ele colocou “sua cabeça em jogo” diante da sociedade e recebeu Maria e seu filho Jesus, pondo em dúvida sua reputação, pois assumir uma jovem grávida sem que esta tivesse sido antes casada, era alvo de críticas e difamação. Mas lá foi José, assumindo os riscos, porque o que estava contando era muito mais que palavras e rotulações, era a vida de um Menino que cumpriria uma missão de dar a vida a humanidade e restaurar o Universo. José foi um pai e tanto.

Hoje lembro-me de meu pai. Depois que minha mãe faleceu ainda jovem com apenas 34 anos de idade, eu e minha irmã precisávamos ser cuidados. Imagino sua luta interior. Trabalhava de manhã até a noite, os três expedientes. Sempre chegava depois das vinte e duas horas. Ele precisava prover o alimento, a educação e a saúde para nós. A verdade é que quase nunca o víamos, ele sempre estava trabalhando. É como me lembro de meu pai. Ele sempre estava trabalhando e ainda hoje trabalha em sua oficina. É verdade que quando queríamos que estivesse conosco, estava quase sempre ocupado. Mas para que? Para nos dar o que hoje temos com muita gratidão: a saúde, o trabalho, a educação, o conhecimento. Sem contar que recebi dele também a vocação pois tanto ele como minha mãe foram professores. Assim como ambos, sou educador. Recebi seu DNA e hoje não poderia trocar por outra profissão, pois vocação se recebe de Deus pela via ordinária dos pais.

Dele também recebi o caráter. Não dá para negar, Seu Raul é um homem íntegro, sincero e verdadeiro. Se há valores maiores que isso eu desconheço. Pois não consigo deixar de ser o que sou, assim como ele também é. Mas não somente isso, Seu Raul é um homem de fé e de confiança em Deus. Ele e minha mãe me legaram esta grande bênção. Poder confiar em Deus não é coisa de vitrine, faz parte da vida simples, que se experimenta no dia-a-dia, na vivência no mistério de Cristo.

Hoje, rendo a Deus um tributo, pela vida de meu pai. Mesmo distante dele desde o dia que saí de casa na Rua Cinco em Rio Claro para residir em Recife, fazer a vida, formar família e trabalhar como ele sempre fêz. Hoje embora distante fisicamente, me sinto tão perto dele, porque não estamos ligados pelo toque e pelo abraço mas pelo amor, pelo sentimento e pela alma. Além disso, hoje recebi uma grande notícia, o tumor que nasceu em seu corpo que podia ser maligno, foi detectado benigno. Louvei a Deus com o âmago de minha alma. Deus ouviu nossas orações. Sei que ainda terei meu pai, “perto” de mim por mais algum tempo até que possamos juntos nos encontrar com minha mãe, naquele dia quando Cristo renovar todas as coisas.

Seu Raul, sou grato a Deus pela sua vida, sou hoje, o que você foi para mim ontem. Deus te abençoe!

Rev. Luiz Augusto

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

UMA CRISE DE OBEDIÊNCIA

A finalidade da fé salvadora é levar toda pessoa a obediência, isto é, praticar obras de justiça. O apóstolo Paulo já afirmava aos Romanos que a fé produz a obediência (1:5). Nosso Senhor Jesus sempre vinculava a fé e as obras. Ao enfatizar a necessidade de crer, também mostrava que as obras eram o meio pelo qual a fé se tornava viva. Não havia fé sem obediência e não havia obediência sem a fé. Este era o princípio fundamental para todo e qualquer discípulo. 

Quando olhamos os mandamentos de Paulo para as comunidades do Novo Testamento, o princípio de obediência está claro. Não pode haver um cristão que não esteja pronto a obedecer, a servir, a amar e aprender a se sujeitar ao outro. Na comunidade dos discípulos não havia democracia, os apóstolos que possuíam a função de orientar, pastorear, conduzir as comunidades deveriam então, devido a este princípio, ser respeitados e levados em grande consideração. (Hb 13.7). 

Mas hoje em dia, parece que este princípio tem sido descartado devido a algumas razões históricas e contextuais. A primeira razão é histórica. Somos reflexo de um movimento filosófico na Europa a partir do século XVII que deu ao ser humano poder para julgar tudo segundo a sua própria consciência. Este movimento foi o conhecido Iluminismo. Promovia a luz interior. Cada pessoa poderia encontrar a verdade que procurava dentro de si e cada um era suficiente capaz para exercer controle sobre as coisas e julgar a todos. A consciência era “intocável”. Assim as hierarquias começaram a ser questionadas e dinamitadas. Embora sociologicamente este movimento foi positivo, espiritualmente foi uma derrota. 

Depois de tantos anos, no pós-modernismo, não apenas não queremos que ninguém cuide de nossa vida como também nem Deus pode mandar em nós. Aqueles que são colocados na função de Guias e Orientadores não possuem a autoridade de disciplinar a nossa vida. Podemos amar aquele que não vemos (Deus) e odiar aquele que vemos (o semelhante). Podemos até ser obedientes a Deus, mas jamais aos homens. Somos conduzidos mais pela noção de sociedade do que pela noção de Corpo de Cristo. Não conseguimos sequer nos submeter àqueles que foram ordenados para tal e logo saímos com a premissa: “Quero os meus direitos”! 

Se oramos por avivamento, devemos aprender o princípio da obediência. Discípulos e crentes cheios de fé, são homens e mulheres que buscam viver na terra os princípios eternos. Quando Deus não responde nossas orações com um “não”, quais os concílios superiores que vamos buscar? Quando alguém investido de autoridade não corresponde a nossa noção pessoal de justiça, a quem vamos recorrer? Mudaremos de emprego? De igreja? De Colégio? De Faculdade? É melhor então, cairmos fora do discipulado antes que seja tarde.

“Tenham cuidado com a maneira como vocês vivem; que não seja como insensatos, mas como sábios, aproveitando ao máximo cada oportunidade, porque os dias são maus. Portanto, não sejam insensatos, mas procurem compreender qual é a vontade do Senhor. Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, mas deixem-se encher pelo Espírito, falando entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor, dando graças constantemente a Deus Pai por todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-se uns aos outros, por temor a Cristo. (Ef 5.13-21

domingo, 31 de julho de 2011

Jerusalém, Jerusalém, que apredejas os profetas.

Como é difícil aprender a arte da obediência. Por milênios, Israel recebeu de Deus os seus mensageiros. Eram profetas e profetizas, mulheres e homens que por causa do chamado de Javé encarnavam uma única mensagem: "Aprendam o que significa, misericóridoa quero e não culto". Ou entre outras: "O obedecer é mais importante para Deus do que cultuar". Mas como esta categoria de profetas era castigada. Todos ou quase todos eram perseguidos pelos reis e pelo povo, apedrejados e mortos. Tudo porque o coração do povo era lento em obedecer a mensagem de Deus.

Hoje, muitos pastores e mestres também passam pela mesma situação. Quando as comunidades desejam um pastor, o chamam, fazem uma festa de inauguração, mas com o tempo se voltam contra ele ou mesmo o tratam com indiferença, pois são lentos em obedecer. Desejam na verdade um "executivo" e quando suas palavras parecem duras, buscam tirá-lo de sua função e buscar outro que seja mais adaptável aos seus costumes e princípios.

O problema do homem, seja o crente evangélico ou o homem sem qualquer noção de religiosidade evangélica revelam o mesmo coração. O que estes corações reproduzem, é o mesmo que a nação de Israel revelava quando tentavam criar um motim para tirar Moisés de sua função. Não desejam obedecer, não querem obedecer, não querem ser disciplinados e não desejam a disciplina. Rejeitam tanto a Palavra quanto o mensageiro da Palavra.

O resultado é trágico. Jesus, ao olhar para a Cidade de Jerusalém, profere uma palavra: "Eis que haverá dias difíceis, pois não reconheceste o tempo de tua visitação". Todas as vezes que o homem rejeita seus mensageiros, rejeitam ao Senhor e a sua Palavra. Por isso há comunidades inteiras vivendo como "bebês" espirituais, se dividem e se amotinam, porque seus corações apenas desejam mensageiros que falem palavras que produzam sons acalorados e ternos, pois obedecer é muito complicado. Submeter-se a homens jamais, somente a Deus, dizem. Mas não compreendem que a verdade é carregada por estes servos, que embora frágeis são o recipiente da Palavra da Vida.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Vox Dei e Missio Dei

Buscando fontes do Cristianismo Oriental, a missão e oração estão tão conectadas e interligadas que os Monges Russos compreendem que ao se preparar para sua tarefa, "ele se retira do meio dos homens, afasta-se do seu ruído, das suas palavras, das suas críticas e do meio dos seus louvores e aceita a disciplina, crucificando sua carne e aniquilando sua 'vontade própria egoísta' pela obediência. A oração e o pensamento de Deus preparam sua alma para receber a graça. Ele se cala durante longo tempo. Mas chega o dia em que sente a necessidade interior de falar, de agir abertamente, como afirma Seraphim de Sarov, para a glória de Deus".

A missão jamais deve prescindir a oração. A oração significa o silêncio da alma em Deus. A busca pela sua vontade e a compreensão de seu querer. Na verdade, a missão é a consequência da oração. Oração que não se faz num momento, mas que se torna contínua e perseverante, pois seu propósito não é fazer Deus responder as nossas inquietações e problemas mas sim de, nas inquietações encontramo-nos com Deus, a fim de que possamos ajudar-nos uns aos outros por meio de nossa missão.

Assim não somente abrimos a boca cheia da graça de Cristo, como ensinamos com nossa boca fechada. Não porque deixamos de falar, mas sim porque nos permitimos comunicar por meio do silêncio do coração.

A missão então, torna-se de fato a "missio Dei" (missão de Deus).

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O verdadeiro modelo de maternidade!

Nestes últimos tempos temos visto manchetes como: “MÃE JOGA FILHO RECÉM-NASCIDO EM QUINTAL DE CASA” ou “MÃE JOGA FILHA NA CAÇAMBA NO LIXO” e “MULHER ATIRA O FILHO DE TRÊS MESES CONTRA O PORTÃO DA CASA” e também “MÃE JOGA FILHA DE OITO MESES DE SEXTO ANDAR DE PRÉDIO EM CURITIBA”.

Depois de ficar perplexo com essas manchetes, concluí que a vida que já não valia mais nada pois se mata por qualquer motivo, agora vemos as mães modernas assassinando seus próprios filhos. Isso significa que o ser humano chegou à sua condição mais monstruosa e bestial.

A Bíblia revela na história dois momentos quando a vida de filhos é posta em jogo diante da maternidade. O primeiro exemplo é positivo, o de Salomão que sabiamente ao ver duas mulheres brigando por uma mesma criança, assume uma postura de mandar cortá-la ao meio a fim de que se revelasse a verdadeira mãe o que no mesmo momento a verdadeira mãe suplica ao rei que deixasse a criança viver mesmo que fosse entregue a sua adversária. O outro exemplo, negativo, mais terrível, foi o de duas mães que diante da fome extrema, tomam a decisão de cozinhar os seus filhos a fim de que elas matassem a sua própria fome. A primeira cozinha seu filhinho, come e dá de comer a outra e logo depois, no momento para sacrificar o outro filho da outra mãe, esta o esconde.

Estas situações, ao olhar humano moderno, são exemplos de monstruosidade primitiva que na verdade, jamais se igualam a banalização da vida que encontramos em nosso mundo e por incrível que pareça em nosso Brasil.

Mas diante da desumanidade de tantas mães que matam, abandonam seus rebentos em latas de lixo, há também o sacrifício de milhares de crianças que jamais chegam a ver a luz da vida e mesmo no útero materno já são cortadas e sugadas para que as ex-futuras mães sejam satisfeitas em suas necessidades egoístas. A estas, o próprio governo federal tem lançado um Programa de Direitos Humanos que antagonicamente vai de encontro ao princípio de proteger a vida desde o útero em detrimento de dar as mulheres o poder sobre seus próprios corpos.

Diante desta desumanidade, somente podemos buscar nas Escrituras o resgate da verdadeira maternidade neste dia que é considerado “Dia das Mães”. Maria, a Mãe do Senhor foi e continuará sendo o maior exemplo de maternidade. Ela enquanto adolescente ao tomar ciência de que seria a Mãe de Jesus, poderia muito bem dizer “não” ou mesmo sufocar o plano divino logo de início. Mas Maria é a mãe que em troca da alegria que lhe estava proposta, assumiu engravidar e ser mãe sendo uma adolescente que na época seria passível da excomunhão e até mesmo da morte, mesmo sem estar casada oficialmente com José.

É Maria aquela que pagará caro por ser a mãe de um Filho que já possuía uma sentença de morte. Mas é a mesma mãe que está junto ao Filho num coxo de feno no seu nascimento. É a mãe que acompanha, que vivencia, que se alegra e que está ao lado do Filho mesmo quando debaixo de chicotadas e açoites o acompanha e sofre com Ele a maior dor, de pagar por um crime que não cometera e permanecer ao pé da Cruz até seu último suspiro.

Neste dia das mães nos lembremos de Maria, que sendo Mãe do Filho de Deus soube perseverar no sofrimento porque sabia quem era este Filho que havia sido gerado dentro de seu ventre, que O havia amamentado e o feito ser o que foi. Que haveria de redimir não somente pessoas mas a todo Universo.

Hoje necessitamos olhar para Maria e dela aprendermos a ver a vida como a maior dádiva de Deus, recobrando a esperança pois se o próprio Deus quis se fazer gente, a vida humana é tão singular quanto a própria vida de Deus.

Que as mães de todo mundo lutem e continuem lutando para que a vida humana se perpetue, mesmo diante da miséria, do engano, da dor e da incompreensão deste sistema que oprime e escraviza.

Hoje mais do que no passado, necessitamos de verdadeiras mães que não apenas gerem seus filhos mas que caminhem com eles na alegria ou na dor, nas vitórias e nas provações diante de um mundo desordenado, caótico e confuso que valoriza mais o prazer, a luxúria e o consumismo.

Parabéns mães, pelo seu dia!

domingo, 24 de abril de 2011

O QUE É A PÁSCOA DE CRISTO? Lucas 24.1-12; 36-49; I Co 15.20.

“Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo as primícias* dentre aqueles que dormiram”.

Muitos possuem uma compreensão acerca da Páscoa totalmente fora dos parâmetros bíblicos. Para o verdadeiro cristão, comemorar a Páscoa de Cristo é algo que vai além da ênfase do comércio dos últimos dias. A verdadeira Páscoa traz uma nova mensagem ao coração de todas as pessoas, porque a morte não é fim de tudo. A ressurreição de Jesus traz nova vida restaurada e eterna diante de Cristo. Após o sofrimento vem a fé na certeza de que o mundo haverá de passar por uma total transformação abrindo para nós ‘novos céus e nova terra’.

Hoje celebramos com alegria mais uma Páscoa, a ressurreição de Cristo e para tanto é essencial que façamos uma reflexão sobre o verdadeiro significado da Páscoa Cristã.

1. Em primeiro lugar a Páscoa é o complemento da salvação eterna. (Lc 24.7, 44). Notem que o texto bíblico em Lucas nos revela que, quando as mulheres foram ao sepulcro ainda cedinho, como nos diz o texto, em alta madrugada, para embalsamar o corpo de Jesus, (é bom lembrar que elas somente foram no Domingo, porque guardavam o Sábado) encontraram não somente a pedra do sepulcro removida como também dois homens de vestidos resplandecentes. Em outros evangelhos, encontramos o relato que eram dois anjos. A pergunta feita pelos dois varões foi uma pergunta já revestida da resposta: Vejamos os versículos 5 e 6: "Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que vive? 6 Ele não está aqui! Ressuscitou!” e mais, vejamos o versículo 7 que diz: ''É necessário que o Filho do homem seja entregue às mãos de homens pecadores, seja crucificado e ressuscite no terceiro dia'. O Dr. David Bosch diz: “Para os discípulos a experiência da Páscoa foi fundamental. Eles interpretaram a cruz como o fim do mundo velho e a ressurreição de Jesus como a inauguração de um novo tempo” .

Assim, não há morte sem a ressurreição, não há cruz sem renovação, não há sofrimento sem a esperança de uma nova terra. Os discípulos se esqueceram completamente das palavras de Cristo. Vejamos o que nos diz I João 3.8: “para isto se manifestou o Filho de Deus para desfazer as obras do diabo”. O propósito da morte e ressurreição não é apenas promover os salvos a um lugar celestial. Isto é apenas parte da salvação. A salvação se completa quando Cristo ressuscita, abrindo a oportunidade de trazer não somente a eternidade, mas uma nova vida, em uma nova terra, resgatando a condição de Adão e Eva antes de pecarem. Vejamos o que diz: Romanos 4.25 : “Ele foi entregue à morte por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação”. Os crentes são justificados na completa obra de Cristo e assim podem viver eternamente com seus corpos ressuscitados.

2. Em segundo lugar, a Páscoa é o conteúdo da verdadeira pregação da igreja (Lc 24.47, 49). A pregação das boas novas se compõe de duas partes. Vejamos o texto de Lucas 24.47 e 49: e que em seu nome seria pregado o arrependimento para perdão de pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Eu lhes envio a promessa de meu Pai; mas fiquem na cidade até serem revestidos do poder do alto".

A pregação a todas as nações deveria consistir de duas partes. A ressurreição e a comissão. A nota de triunfo e a nota de desafio. Cristo morreu, mas ressuscitou. Agora vamos pregar essa verdade. O mundo foi redimido. A partir daí, muita coisa mudou. O Dr. David Bosch mais uma vez afirma: “É por causa da Páscoa que nossos evangelhos foram escritos, sem a páscoa eles não fazem sentido algum. Ainda mais particularmente eles foram escritos a partir de uma perspectiva da ressurreição. O calor dessa experiência permeia todos os evangelhos. É precisamente a fé pascal que capacita a comunidade cristã primitiva a ver a prática de Jesus em um foco específico, isto é, o critério para entender sua própria situação e seu chamado a pregar. Somente nos fundamentos da Páscoa que a história de Jesus tem um futuro” .

Porque então proclamarmos? Por que há um céu nos esperando. Essa resposta é parcial. Não somente, mas há com certeza uma nova terra para que vivamos eternamente para Sua glória.

3. Em terceiro lugar é o prenúncio da consumação de todas as coisas. (I Co 15.20) Vejamos novamente o que nos diz I Co 15.20: “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo as primícias dentre aqueles que dormiram” . A ressurreição de Cristo é o pontapé inicial para que a morte seja plenamente vencida. A viver nesse mundo cheio de violência, insegurança, guerra, homicídios, traições, e todo tipo de mal, seria realmente uma tragédia total. Mas a Palavra de Deus afirma categoricamente. Há esperança. Há uma nova vida quando esse mundo passar, haverá outro sem as consequências do pecado.

Apocalipse afirma que haverá novos céus e nova terra. Pedro nos diz I Pe 1.3-9: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, conforme a sua grande misericórdia, nos regenerou para uma esperança viva, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, 4 para uma herança que jamais poderá perecer, macular-se ou perder seu valor, guardada nos céus para vocês 5 que, mediante a fé, são protegidos pelo poder de Deus até a vinda da salvação prestes a ser revelada no último tempo. 6 Nisto vocês exultam, ainda que agora, por um pouco de tempo, tenham de ser entristecidos por todo tipo de provação, 7 para que a fé que vocês têm, muito mais valiosa do que o ouro que perece, mesmo que refinado pelo fogo, seja comprovada como genuína e resulte em louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo for revelado. 8 Mesmo não o tendo visto, vocês o amam; e apesar de não o verem agora, crêem nele e exultam com uma alegria indizível e gloriosa, 9 pois vocês estão alcançando o alvo da sua fé, a salvação das suas almas.

Agora devemos concluir fazendo algumas aplicações:

1. A sua convicção acerca da Páscoa lhe traz um renovo espiritual? Devemos fazer uma auto reflexão sobre a morte e ressurreição de Cristo.

2. Qual é o conteúdo de minha fé. Esse conteúdo me faz envolver-me por inteiro num minitério para que a Grande Comissão se cumpra através de nós?

3. O que mais lhe tem afetado, os pensamentos do alto ou ou pensamentos aqui da terra como nos diz Colossenses 3.1?

É hora de rever conceitos, decisões tomadas e abrir-se para a nova esperança, uma nova vida, um novo tempo, mas desta vez ressurretos também, redivivos também, vivendo eternamente em uma nova terra, preparada por Jesus Nosso Senhor e Salvador.

Que a Páscoa de Cristo seja a nossa maior motivação para tudo o que fazemos e falamos. Que seja assim. Amém.

sábado, 23 de abril de 2011

Pastores e Lobos

"Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos". Mt 7:15-16
Pastores e lobos têm algo em comum. Ambos se interessam e gostam de ovelhas, e vivem perto delas. Assim, muitas vezes, pastores e lobos nos deixam confusos para saber quem é quem. Isso porque lobos desenvolveram uma astuta técnica de se disfarçar em ovelhas interessadas no cuidado de outras ovelhas. Parecem ovelhas, mas são lobos. Urge a cada um de nós exercitar o discernimento para descobrir quem é quem.
Pastores cultivam o aprisco; lobos criam armadilhas. Pastores buscam o bem das ovelhas; lobos buscam os bens das ovelhas. Pastores vivem à sombra da cruz; lobos vivem à sombra de holofotes. Pastores choram pelas suas ovelhas; lobos fazem suas ovelhas chorar.
Pastores têm autoridade espiritual; lobos são autoritários e dominadores. Pastores têm esposas participantes; lobos têm mulheres coadjuvantes. Pastores têm fraquezas; lobos são poderosos. Pastores olham nos olhos; lobos contam cabeças. Pastores são ensináveis; lobos são donos da verdade.
Pastores têm amigos; lobos têm admiradores. Pastores vivem o que pregam; lobos pregam o que não vivem. Pastores sabem orar no secreto; lobos só oram em público. Pastores vivem para suas ovelhas; lobos se abastecem das ovelhas. Pastores vão para o púlpito; lobos vão para o palco.
Pastores se interessam pelo crescimento das ovelhas; lobos se interessam pelo crescimento das ofertas. Pastores alimentam as ovelhas; lobos se alimentam de ovelhas. Pastores buscam a discrição; lobos se autopromovem.
Pastores usam as Escrituras como texto; lobos usam as Escrituras como pretexto. Pastores se comprometem com o projeto do Reino; lobos têm projetos pessoais. Pastores vivem uma fé encarnada; lobos vivem uma fé espiritualizada. Pastores ajudam as ovelhas a se tornarem independentes de homens; lobos criam ovelhas dependentes deles.
Pastores são simples e comuns; lobos são vaidosos e especiais. Pastores tem dons e talentos; lobos tem cargos e títulos. Pastores dirigem igrejas-comunidades; lobos dirigem igrejas-empresas. Pastores pastoreiam as ovelhas; lobos seduzem as ovelhas.

(adaptado de Osmar Ludovico)

APRENDENDO A ORAR CORRETO

O apóstolo Paulo nos ensina: "Orai sem cessar" (1 Tes. 5:17). É preciso orar naqueles claros e altos momentos, quando a alma recebe assistência das alturas e direcionando-se ao céu sente necessidade da oração.
É preciso orar em todas as horas de manhã e à noite, mesmo que nos pareça não estarmos dispostos a orar nesse momento. Se não o fizermos, a capacidade de orar se perde, assim como se enferruja uma chave que não é utilizada. Para que a nossa alma se conserve espiritualmente viva, é preciso impor como objetivo, orar regularmente, independentemente de termos ou não vontade de orar. Deve-se começar e acabar qualquer boa atividade com oração. Em relação a isso, um livro de oração é um indispensável companheiro de todas as horas. Os cristãos são chamados a orar todos os dias, de manhã quando se levantam e à noite, antes de dormir.
Além da freqüente oração em casa, existe também a oração na igreja. Sobre ela o Senhor fala o seguinte: "Onde estiverem dois ou três reunidos em Meu Nome, aí estou Eu no meio deles" (Mateus 18:20). Desde o tempo dos apóstolos, a oração em conjunto mais importante tem sido a Liturgia ou Culto que era realizado na igreja aos domingos onde os crentes com um só coração, louvavam a Deus. Os ofícios em conjunto têm grande força espiritual.
Embora muitos cristãos desejem sinceramente manter uma comunhão pessoal e profunda com Deus, é verdade que ao mesmo tempo em que desejam este estado, também sentem muitas dificuldades em desenvolver um hábito consistente de oração em suas vidas.
Uma vida de oração pessoal consistente começa com uma Regra de Oração ou de “orações pré-estabelecidas” ou “orações litúrgicas” as quais são proferidas diariamente. A oração pessoal vigorosa tem como base um engajamento na oração comunitária (litúrgica). Uma não exclui a outra. Alguém pode perguntar:” É necessário ter uma regra de oração? Não é melhor fazer orações espontâneas do que as pré-estabelecidas? As orações espontâneas tem seu lugar na vida de oração, mas não como ponto de partida.
Sim, é bom ter uma regra de oração devido a nossa fraqueza para que por um lado não nos rendamos à nossa preguiça, e por outro, limitemos o nosso entusiasmo a sua medida adequada. Os maiores praticantes de oração, seguiam uma regra de oração. Eles sempre começavam com orações já existentes, orando os Salmos e se, durante o curso das mesmas, uma oração se sobressaísse, eles deixavam de lado as outras e faziam a tal oração. Se isto é o que os antigos praticantes de oração faziam, porque não começarmos a disciplinar nossa vida de oração também?
(adaptado de A. Mateus)

Oração: O respiro da alma (III)

O grande mestre da oração é o nosso Salvador. A oração acompanha todos os fatos importantíssimos da Sua vida terrestre. O Senhor ora ao receber o batismo de João (Lucas 3:21); passa uma noite inteira em oração antes da escolha dos apóstolos (Lucas 6:12); ora durante a transfiguração (Lucas 22:41), e ora na cruz. A última palavra do Senhor antes de morrer, foi uma oração (Lucas 23:46).
Um dos discípulos fez-lhe um pedido: “Senhor ensina-nos a orar” (Lucas 11:1). E como resposta a isso, o Senhor deu-lhe uma oração curta no tamanho mas rica no conteúdo, a oração que até hoje reúne todo o mundo cristão é a oração do “Pai Nosso”. Ela nos ensina sobre o quê e em que ordem devemos orar. Direcionando-nos a Deus dizemos “Pai nosso”: consideramo-nos seus filhos e irmãos em relação ao outro, por isso não oramos apenas por nós, mas por todas as pessoas. “Santificado seja o Teu Nome”: pedimos para que o Nome dEle seja sagrado para todos e que todas as pessoas louvem o Nome dEle com suas palavras e atos. “Venha a nós o Teu Reino”: O Reino de Deus começa no interior de cada pessoa, quando a benção de Deus entrando nela a purifica e transfigura o seu mundo interior. Juntamente, a sensação da presença de Deus, reúne todas as pessoas e os anjos numa grande família espiritual, chamada Reino de Deus. Para que o bem se difunda entre as pessoas é preciso pedir: “Seja feita a Tua vontade assim na terra como no Céu”: que tudo no mundo se faça segundo a boa e a mais sábia vontade de Deus e que nós as pessoas, igualmente de bom grado, realizemos a vontade de Deus aqui na terra, como a realizam os anjos no Céu. “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”: Dá-nos hoje, tudo o que é suficiente para a alimentação do nosso corpo, o que acontecerá conosco amanhã nós não sabemos. Necessitamos apenas do pão diário, que é indispensável para manter a nossa existência. “E perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores”: estas palavras são explicadas da seguinte forma: “E perdoa-nos os nossos pecados” (Lucas 11:4). Nossos pecados são dívidas, porque ao pecarmos não realizamos o que devemos e nos tornamos devedores perante Deus e as pessoas. Este pedido insinua-nos com uma força especial, a necessidade de perdoar ao próximo todas as ofensas: não perdoando aos outros, não ousamos pedir perdão a Deus pelos nossos pecados, não ousamos orar com as palavras da oração do Senhor. “E não nos deixes cair em tentação”: verificação das nossas forças morais por meio da inclinação para qualquer ato impuro. Aqui, nós pedimos a Deus para nos prevenir da queda, se uma tal prova das nossas forças é inevitável e indispensável. “Mas livra-nos do mal”: de toda a maldade e do seu agente, o diabo. A oração acaba com a certeza na realização daquilo que fora pedido, pois a Deus pertence o Reino eterno, o poder e a glória.
Desse modo, o Pai Nosso reúne em si tudo sobre o que se deve orar, ensina-nos a colocar todas as nossas necessidades na ordem correta. O exemplo de tal oração, deixou-nos o próprio Salvador. Ele orava no jardim de Getsêmani, o seguinte: “Meu Pai, se possível passe de Mim este cálice! Todavia não seja como Eu quero, e, sim, como Tu queres” (Mateus 26:39).
(adaptado de A.Mileant)

Oração: O respiro da alma (II)

Muitos sabem muito sobre oração, porém não possuem a prática contínua da oração e nem mesmo como orar, isto é, como devemos nos preparar para orar. Antes de começar a orar devemos nos livrar de todas as ocupações e deveres habituais, reunir os pensamentos, como se fechássemos a porta da nossa alma para tudo o que é terrestre e direcionar toda a nossa atenção para Deus.
Estando perante a face de Deus e imaginando vivamente a Sua grandeza, devemos buscar sentir uma profunda consciência da nossa indignidade e fraqueza. "Orando deve-se imaginar toda a criação como nada perante Deus e unicamente Deus-Tudo" (João de Kronstad). Um exemplo de disposição e sentimento da pessoa que ora, o Nosso Senhor apresentou-nos na parábola do publicano que fora perdoado por Deus pela sua humildade, quando dizia: “Senhor, tem misericórdia de mim, pecador”. (Lucas 18:9-14).
Este sentimento e atitude não dá origem ao desânimo nem ao desespero, pelo contrário, se junta com a fé na bondade e onipotência do nosso Pai celeste. Apenas uma oração com fé pode ser ouvida por Deus: "Tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes e será assim convosco" (Marcos 11:24). Aquecida pela fé, a nossa oração torna-se dedicada. Além disso, necessitamos ter em mente a promessa de Jesus Cristo, que devemos orar sempre e não desanimar (Lucas 18:1) quando o Mesmo afirma: "Pedi, e dar-se vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se vos-á" (Mateus 7:7).
As histórias nos Evangelhos da mulher Cananéia que pediu a Cristo cura da sua filha (Mateus 15:21-28), da pobre viúva que conseguiu justiça de um juiz injusto (Lucas 18:2-8), e outros casos semelhantes a estes dão testemunho da grande força da oração. Mesmo que a oração não seja logo atendida, segundo nosso ponto de vista, não devemos desesperar-nos e nem perder o ânimo: Isso é uma prova e não uma recusa. “Por isso Jesus Cristo disse "batei," para mostrar que, mesmo se Ele não abrir logo as portas da Sua misericórdia devemos aguardar com uma clara esperança" (João Crisóstomo).
Como o Senhor é o nosso Pai celeste, somos todos iguais. Ele receberá a nossa oração, tanto quanto tivermos uma disposição verdadeiramente fraternal e benevolente para com as pessoas, quando destruirmos as maldades, inimizades, cobrirmos com o perdão os aborrecimentos e fizermos as pazes com todos: "Quando estiverdes orando se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que o vosso Pai celeste perdoe as vossas ofensas" (Marcos 11:25).
(adaptado de A. Mileant)

Oração: O respiro da alma (I)

A alimentação e o descanso são indispensáveis para sustentar sua vida física. A oração é o meio pelo qual somos alimentados espiritualmente por Deus.
Deus ama a Sua criação, ama a cada um de nós e Ele é o nosso Pai celeste. Tal como é natural dos filhos o desejo de ver os seus pais e conversar com eles, assim deve ser natural a vontade de nos comunicar e conversar com Ele, espiritualmente. Esta honrosa conversa da pessoa com Deus chama-se oração. A alma juntando-se com Deus durante a oração, junta-se também com o mundo celestial. Segundo as palavras de João de Kronstad , "a oração é a ligação de ouro da pessoa cristã, peregrina e estrangeira aqui na terra, com o mundo espiritual do qual faz parte, e sobretudo com Deus - a fonte da vida."
A oração é geralmente acompanhada muitas vezes de palavras respeitáveis e de gestos externos: os olhos fechados ou abertos, estar de joelhos ou em pé. Porém, a oração, sobretudo pode se elevar sem palavras e sem outras formas exteriores. Essa é a oração profunda interior que é conhecida pela experiência de muitos cristãos consagrados.
Durante a oração, o cristão expõe perante Deus toda a sua alma: louva a Deus pela Sua altíssima perfeição, agradece pela misericórdia e pede conforme as necessidades. Daí temos os principais três tipos de oração: o louvor, o agradecimento e o pedido.
O Louvor é o mais absoluto e desinteressado tipo de oração. Quanto mais sincera é a pessoa, mais se reflete nele a graça de Deus, e refletindo-se, evoca involuntariamente palavras extasiadas de louvor e glória. Assim, os anjos nos Céus louvam Deus sem cessar com um canto de louvor. "O louvor”, diz Teófano Hermesista, “não é uma fria visão dos atributos ou qualidades de Deus, mas sim um vivo sentimento delas com alegria e admiração”.
O Agradecimento manifesta-se na pessoa pela recepção das bênçãos de Deus. Nasce naturalmente numa alma grata e sensível. Dos dez leprosos que foram curados pelo Salvador, apenas um samaritano voltou para Lhe agradecer (Lucas 17:12-19).
O tipo de oração mais habitual é o Pedido que é revelado na pessoa pela consciência da sua fraqueza e falta de experiência. Devido às paixões, a nossa alma está doente e fraca. Por isso, na oração é indispensável pedir a Deus perdão pelos pecados e ajuda para superar as faltas. Às vezes, o pedido é evocado pela ameaça de algum perigo, alguma necessidade, etc. O pedido é inevitável devido a nossa fraqueza e agrada ao Senhor (Mateus 7:7, João 16:23). Contudo, se a oração têm predominantemente um só caráter de pedido e se a voz de louvor e de agradecimento praticamente não é ouvida, isso indica que o nosso nível de progresso, espiritual e moral está bem baixo.
Os diferentes tipos de oração, frequentemente se juntam entre si. Eis o grande desafio de cada um de nós, pois quanto mais orarmos, mais de Deus conheceremos e mais ainda nossa alma poderá respirar naturalmente.
(Adaptado de A. Mileant)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Uma história de justiça

Havia um homem chamado Joaquim, que habitava na Babilónia.
Tinha desposado uma mulher de nome Susana, filha de Hilquias, muito bela e piedosa para com o Senhor,
pois tinha sido educada pelos pais, que eram justos, de harmonia com a lei de Moisés.
Joaquim era muito rico. Contíguo à sua casa, tinha um pomar; e com frequência se reuniam em casa dele os judeus, pois que entre todos os seus compatriotas gozava de particular consideração.
Tinham sido nomeados juízes, naquele ano, dois anciãos do povo. A eles justamente se aplicava a palavra do Senhor: «A iniquidade veio da Babilónia, de anciãos e juízes, que passavam por dirigir o povo.»
Estas duas personagens frequentavam a casa de Joaquim, onde vinham procurá-los todos os que tinham qualquer contenda.
À hora do meio-dia, quando toda esta gente se tinha retirado, Susana ia passear para o jardim do marido.
Os dois anciãos viam-na todos os dias, por ocasião do passeio, de maneira que a sua paixão se acendeu por ela.
Perderam a justa noção das coisas, afastaram os olhos para não olharem para o céu e não se lembrarem da verdadeira regra de conduta.
Um dia, como de costume, chegou Susana, acompanhada apenas por duas criadas, e preparava-se para tomar banho no jardim, pois fazia calor.
Não havia aí ninguém senão os dois anciãos que, escondidos, a espiavam.
Disse às jovens: «Trazei-me óleo e unguentos e fechai as portas do jardim, para eu tomar banho.»
Logo que elas saíram, os dois homens precipitaram-se para junto de Susana
e disseram-lhe: «As portas do jardim estão fechadas, ninguém nos vê. Nós ardemos de desejo por ti. Aceita e entrega-te a nós.
Se não quiseres, vamos denunciar-te. Diremos que um rapaz estava contigo e que foi por isso mesmo que tu mandaste embora as criadas.»
Susana bradou angustiada: «Estou sujeita a aflições de todos os lados! Se faço isso, é para mim a morte. Se não o faço, nem mesmo assim vos escaparei.
Mas é preferível para mim cair em vossas mãos sem ter feito nada, do que pecar aos olhos do Senhor.»
Susana, então, soltou altos gritos e os dois anciãos gritaram também com ela.
E um deles, correndo para as portas do jardim, abriu-as.
As pessoas da casa, ao ouvirem esta gritaria, precipitaram-se pela porta traseira para ver o que tinha acontecido.
Logo que os anciãos falaram, os criados coraram de vergonha, pois jamais se tinha dito coisa semelhante de Susana.
No dia seguinte, os dois anciãos, dominados pelo desejo criminoso contra a vida de Susana, vieram à reunião que tinha lugar em casa de Joaquim, seu marido.
Disseram diante de toda a gente: «Que se vá procurar Susana, filha de Hilquias, a mulher de Joaquim!» Foram procurá-la.
E veio com os seus pais, os filhos e os membros da sua família.
Choravam todos os seus, assim como todos os que a conheciam.
Os dois anciãos levantaram-se diante de todo o povo e puseram a mão sobre a cabeça de Susana,
enquanto ela, debulhada em lágrimas, mas de coração cheio de confiança no Senhor, olhava para o céu.
Disseram então os anciãos: «Quando passeávamos a sós pelo jardim, entrou ela com duas criadas; e depois de ter fechado as portas, mandou embora as criadas.
Então, um jovem, que estava lá escondido, aproximou-se e pecou com ela.
Encontrávamo-nos a um canto do jardim. Perante semelhante atrevimento, corremos para eles e surpreendemo-los em flagrante delito.
Não pudemos ter mão no rapaz, porque era mais forte do que nós, abriu a porta e escapou-se.
A ela apanhámo-la; mas, quando a interrogámos para saber quem era esse rapaz,
recusou responder-nos. Somos testemunhas disto.» Dando crédito a estes homens, que eram anciãos e juízes do povo, a assembleia condenou Susana à morte.
Esta, então, em altos brados disse: «Deus eterno, que sondas os segredos, que conheces os acontecimentos antes que se dêem,
Tu sabes que proferiram um falso testemunho contra mim. Vou morrer sem ter feito nada daquilo que maldosamente inventaram contra mim.»
Deus ouviu a sua oração.
Quando a conduziam para a morte, o Senhor despertou a alma límpida de um rapazinho, chamado Daniel,
que gritou com voz forte: «Estou inocente da morte dessa mulher!»
Toda a gente se voltou para ele e disse: «Que é que isso quer dizer?»
E, dirigindo--se para o meio deles, afirmou: «Israelitas! Estais loucos, para condenardes uma filha de Israel, sem examinardes nem reconhecerdes a verdade?
Recomeçai o julgamento, porque é um falso testemunho o que estes dois homens declararam contra ela.»
O povo apressou-se a voltar. Os anciãos disseram a Daniel: «Vem, senta-te no meio de nós e esclarece-nos, porque Deus te deu maturidade!»
Bradou Daniel: «Separai-os para longe um do outro e eu os julgarei.»
Separaram-nos. Daniel, então, chamou o primeiro e disse-lhe: «Velho perverso! Eis que se manifestam agora os pecados que cometeste outrora em julgamentos injustos,
ao condenares os inocentes, absolvendo os culpados, quando o Senhor disse: ‘Não farás com que morra o inocente ou o justo.’
Vamos! Se realmente os viste, diz-nos debaixo de que árvore os viste entreterem-se um com o outro.» «Sob um lentisco.» – respondeu.
Retorquiu Daniel: «Pois bem! Aí está a mentira, que pagarás com a tua cabeça. Eis que o anjo do Senhor, conforme a sentença divina, te vai rachar a meio!»
Afastaram o homem, e Daniel mandou vir o outro e disse-lhe: «Tu és um filho de Canaã e não um judeu. Foi a beleza que te seduziu e a paixão que te perverteu.
É assim que sempre tendes procedido com as filhas de Israel, que, por medo, entravam em relação convosco. Uma filha de Judá, porém, não consentiu na vossa perversidade.
Vamos, diz-me: sob que árvore os surpreendeste em atitude de se unirem?» «Sob um carvalho.»
Respondeu Daniel: «Pois bem! Também tu forjaste uma mentira que te vai custar a vida. Eis que o anjo do Senhor, de espada em punho, se dispõe a cortar-te ao meio, para vos aniquilar.»
Logo a multidão deu grandes brados, e bendizia a Deus que salva os que põem nele a sua esperança.
Toda a gente, então, se insurgiu contra os dois anciãos que Daniel tinha convencido de falso testemunho, pelas suas próprias declarações e deu-se-lhes o mesmo tratamento que eles tinham infligido ao seu próximo.
De harmonia com a lei de Moisés, mataram-nos. Deste modo, foi poupada naquele dia uma vida inocente.

Ressurreição e Missão

“Então o lobo morará com o cordeiro” (Isaias 11.6)  Há uma crença equivocada na Doutrina da Ressurreição. Entre os cristãos atuais tra...