domingo, 9 de junho de 2013

Comunicação Contextualizada



Uma das grandes dificuldades  que o cristianismo ocidental  do século vinte enfrenta é uma crise de comunicação. Esta crise é devido ao fato da mesma não compreender que a mensagem que ele se utiliza, necessita ser compreendida em todos os contextos onde o mesmo se encontra.

O propósito deste trabalho é compreender e redescobrir princípios estratégicos que promovam uma comunicação contextualizada. O pressuposto se dará em termos de princípios e não de métodos, pois métodos são descartáveis e princípios são imutáveis. Além dos princípios que devem ser desenvolvidos, há necessidade de um embasamento em uma teologia bíblica para que haja compreensão e discernimento onde a mensagem divina se contextualizou em seus mais diversos contextos como propósito missionário por meio da expansão do Reino de Deus.

Contudo, deve-se buscar uma análise da comunicação da igreja cristã em seus vários aspectos. Em seu livro “Uma Igreja apaixonada por missões”[1], Antônio Carlos Nasser propõe uma análise do cristianismo por meio dos tipos de igrejas no processo missionário, o que demonstra o tipo de comunicação que as mesmas se utilizam para proclamar o reino. Estas demonstram suas formas de comunicação que as qualificam quanto à visão e atuação.

Primeiramente o autor as denomina de “comunidades Disneylândia”. Afirma o autor que estas “querem o culto que alegra, a música que balança, a pregação que faz rir, o lugar da fantasia! A fantasia faz rir, sonhar, viver num mundo em que sempre se vence”. Estas são compreendidas como as adeptas da Teologia da Prosperidade, um dos maiores males que tem disseminado uma visão incoerente e improcedente. Onde estão o prazer e a fantasia! E o que falar das tensões, lutas, dificuldades e temores? O que falar das tribulações por que passa a igreja neste final de século. Não se deve esquecer as palavras de Jesus: “Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos...”[2] ou “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma”[3]. Há hoje na maioria das comunidades uma pregação demasiadamente romântica quanto a vida cristã e seu compromisso com o mundo.

A segunda nomenclatura utilizada por Nasser são as comunidades “megalomaníacas”. Enquanto encontramos comunidades que vivem um cristianismo fantasioso, encontramos outras que buscam “as pompas”. Nunca o espírito megalomaníaco atingiu tanto as comunidades como nos dias de hoje. Este espírito corrente tem sido mais importante do que as pequenas e singelas coisas a serem trabalhadas. Projetos monumentais tem sido o sonho de muitos líderes religiosos. Não se fala mais em grandes igrejas, mas sim em “mega-igrejas”. A missão torna-se um fim em si mesmo e na grande maioria, projetos missionários a longo prazo são descartados, devido ao imediatismo e aos mega-projetos personalizados por seus mega-líderes. O atender as necessidades do mundo em termos espirituais e sociais são muito mais importantes do que mega-ministérios. No orçamento destas igrejas o termo “missões” nem entra. Grandes templos, grandes perspectivas, grandes poderios eclesiásticos nunca representarão um compromisso com o Reino de Deus. A preocupação exagerada com o local pode trazer uma amnésia missionária.

As comunidades sociais são o terceiro tipo detectado por Nasser. Ao mesmo momento que se detecta as mega-igrejas, Nasser enfatiza um outro lado extremo das igrejas onde se encontra também as que estão reduzindo a ação da igreja ao trabalho simplesmente socializado. Na sua grande maioria estas igrejas procedem dos movimentos de secularização e humanização que se originaram neste século. Embora estas comunidades transformem o povo num grupo de trabalho em prol da vida, o fazem apenas no aspecto que se refere à vida terrena, sem nenhum resultado para a vida espiritual pessoal. Outro problema gerado por estas igrejas é a sociabilidade desconectada de um profundo senso de comunhão. Sem este aspecto, estas igrejas transformam a vida cristã em uma sociedade filantrópica ou clubes que congregam pessoas sem uma integração no discipulado dinâmico do Senhor Jesus.

As comunidades tecnocratas são a quarta característica. O autor assevera que as referidas igrejas são geradas pelo pragmatismo destas duas últimas décadas. Supervalorizam os métodos em detrimento do conteúdo. Estas igrejas estão preocupadas com o que é funcional. Comunidades que deixaram de comunicar levando em consideração seus contextos perdem a sua natureza missionária para se tornarem igrejas-evento. Neste caso, o ‘programa’ é o ponto alto da vida. Além disso, suas técnicas vão desde as folclóricas “correntes” até as nomeadas como: Como ser feliz em 10 passos ou a Corrente dos sete dias.  A vida cristã se resumiu em ‘pacotes’ ou ‘kits’ que trazem a Salvação e que resolvem tudo.

Ainda existem as comunidades independentes. Estas, como afirma Nasser, não necessitam de alianças ou parcerias na comunicação da verdade. Elas encontraram-se em um caminho independente ou porque não dizer “livre”. Se isolaram e resolveram trabalhar sozinhas, sem denominação, sem laços eclesiásticos, sem qualquer ligação extra-comunidade. O que transparece é um espírito forte de messianismo eclesiástico. Há um pensamento de que se elas não fizerem ninguém o fará ou então que estas comunidades foram escolhidas por Deus para estarem na vanguarda da missão comunicativa. 

Este retrato, que Nasser expõe, é uma das características das mais variadas comunidades encontradas no movimento evangelicalista brasileiro no século XXI. Esta situação é tão deprimente que devido a condição de crise, deve-se fazer uma apologia de uma concepção clara, aberta e bíblica acerca da verdadeira mensagem da igreja cristã. O grande desafio para as comunidades cristãs neste século é a redescoberta de sua mensagem de maneira contextualizada.

O cristianismo deve voltar seus olhos para dentro de si e através das Escrituras Sagradas encontrar-se com a sua verdadeira natureza e ser um cristianismo voltado para o mundo comunicando verdades que sejam compreendidas em cada contexto cultural, lingüístico e geográfico.


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