O propósito deste trabalho é compreender e
redescobrir princípios estratégicos que promovam uma comunicação
contextualizada. O pressuposto se dará em termos de princípios e não de
métodos, pois métodos são descartáveis e princípios são imutáveis. Além dos
princípios que devem ser desenvolvidos, há necessidade de um embasamento em uma
teologia bíblica para que haja compreensão e discernimento onde a mensagem
divina se contextualizou em seus mais diversos contextos como propósito
missionário por meio da expansão do Reino de Deus.
Contudo,
deve-se buscar uma análise da comunicação da igreja cristã em seus vários
aspectos. Em seu livro “Uma Igreja apaixonada por missões”[1], Antônio Carlos Nasser propõe uma análise do
cristianismo por meio dos tipos de igrejas no processo missionário, o que
demonstra o tipo de comunicação que as mesmas se utilizam para proclamar o
reino. Estas demonstram suas formas de comunicação que as qualificam quanto à
visão e atuação.
Primeiramente
o autor as denomina de “comunidades
Disneylândia”. Afirma o autor que estas “querem o culto que alegra, a
música que balança, a pregação que faz rir, o lugar da fantasia! A fantasia faz
rir, sonhar, viver num mundo em que sempre se vence”. Estas são compreendidas
como as adeptas da Teologia da Prosperidade, um dos maiores males que tem
disseminado uma visão incoerente e improcedente. Onde estão o prazer e a
fantasia! E o que falar das tensões, lutas, dificuldades e temores? O que falar
das tribulações por que passa a igreja neste final de século. Não se deve
esquecer as palavras de Jesus: “Eis que
eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos...”[2] ou “Não temais
os que matam o corpo e não podem matar a alma”[3]. Há hoje na maioria das comunidades uma pregação
demasiadamente romântica quanto a vida cristã e seu compromisso com o mundo.
A segunda nomenclatura utilizada por Nasser são
as comunidades “megalomaníacas”.
Enquanto encontramos comunidades que vivem um cristianismo fantasioso,
encontramos outras que buscam “as pompas”. Nunca o espírito megalomaníaco atingiu
tanto as comunidades como nos dias de hoje. Este espírito corrente tem sido
mais importante do que as pequenas e singelas coisas a serem trabalhadas.
Projetos monumentais tem sido o sonho de muitos líderes religiosos. Não se fala
mais em grandes igrejas, mas sim em “mega-igrejas”. A missão torna-se um fim em
si mesmo e na grande maioria, projetos missionários a longo prazo são
descartados, devido ao imediatismo e aos mega-projetos personalizados por seus
mega-líderes. O atender as necessidades do mundo em termos espirituais e
sociais são muito mais importantes do que mega-ministérios. No orçamento destas
igrejas o termo “missões” nem entra. Grandes templos, grandes perspectivas,
grandes poderios eclesiásticos nunca representarão um compromisso com o Reino
de Deus. A preocupação exagerada com o local pode trazer uma amnésia missionária.
As
comunidades sociais são o
terceiro tipo detectado por Nasser. Ao mesmo momento que se detecta as
mega-igrejas, Nasser enfatiza um outro lado extremo das igrejas onde se
encontra também as que estão reduzindo a ação da igreja ao trabalho
simplesmente socializado. Na sua grande maioria estas igrejas procedem dos
movimentos de secularização e humanização que se originaram neste século.
Embora estas comunidades transformem o povo num grupo de trabalho em prol da
vida, o fazem apenas no aspecto que se refere à vida terrena, sem nenhum
resultado para a vida espiritual pessoal. Outro problema gerado por estas
igrejas é a sociabilidade desconectada de um profundo senso de comunhão. Sem
este aspecto, estas igrejas transformam a vida cristã em uma sociedade
filantrópica ou clubes que congregam pessoas sem uma integração no discipulado
dinâmico do Senhor Jesus.
As
comunidades tecnocratas são
a quarta característica. O autor assevera que as referidas igrejas são geradas
pelo pragmatismo destas duas últimas décadas. Supervalorizam os métodos em
detrimento do conteúdo. Estas igrejas estão preocupadas com o que é funcional.
Comunidades que deixaram de comunicar levando em consideração seus contextos
perdem a sua natureza missionária para se tornarem igrejas-evento. Neste caso,
o ‘programa’ é o ponto alto da vida. Além disso, suas técnicas vão desde as
folclóricas “correntes” até as nomeadas como: Como ser feliz em 10 passos ou a
Corrente dos sete dias. A vida
cristã se resumiu em ‘pacotes’ ou ‘kits’ que trazem a Salvação e que resolvem
tudo.
Ainda existem as comunidades independentes. Estas, como afirma
Nasser, não necessitam de alianças ou parcerias na comunicação da verdade. Elas
encontraram-se em um caminho independente ou porque não dizer “livre”. Se
isolaram e resolveram trabalhar sozinhas, sem denominação, sem laços
eclesiásticos, sem qualquer ligação extra-comunidade. O que transparece é um
espírito forte de messianismo eclesiástico.
Há um pensamento de que se elas não fizerem ninguém o fará ou então que estas
comunidades foram escolhidas por Deus para estarem na vanguarda da missão
comunicativa.
Este retrato, que Nasser expõe, é uma das
características das mais variadas comunidades encontradas no movimento
evangelicalista brasileiro no século XXI. Esta situação é tão deprimente que
devido a condição de crise, deve-se fazer uma apologia de uma concepção clara,
aberta e bíblica acerca da verdadeira mensagem da igreja cristã. O grande
desafio para as comunidades cristãs neste século é a redescoberta de sua
mensagem de maneira contextualizada.
O cristianismo deve voltar seus olhos para
dentro de si e através das Escrituras Sagradas encontrar-se com a sua
verdadeira natureza e ser um cristianismo voltado para o mundo comunicando
verdades que sejam compreendidas em cada contexto cultural, lingüístico e
geográfico.