Estamos numa época realmente importante da vida política brasileira,
pois chegou o tempo das eleições municipais. Sim, embora política não seja algo
que se faça apenas em época de pleito eleitoral, apesar dos escândalos
envolvendo autoridades escolhidas para gerirem o estado terem causado nojo e
fomentado o desejo de grande parte de nossa gente a querer distância desse
tema, apesar de tudo isso, cremos que a conquista do voto num país que por
algumas vezes viveu longos períodos de ditadura, deve ser visto como um avanço
para nosso país.
Agora, por que estamos realmente preocupados com isso? Será que não é
perda de tempo fazer esse debate e simplesmente deixar “o circo pegar fogo”?
Como cristãos e eleitores, enumeramos algumas questões que são necessárias para
reflexão:
1) Fé não se vende e não se negocia: A realidade é que estamos numa época(assim como em outros momentos) em
que existem pactos espúrios com partidos ou candidatos para conseguir
benefícios para igrejas ou denominações, como, por exemplo, a doação de
terrenos para templos, obter concessões de rádios e TVs ou mesmo ter tratamento
diferenciado perante a lei.
Esses são apenas alguns tipos de barganha, “acertos”, acordos e
composições de interesse que infelizmente costumam acontecer “por trás dos
púlpitos” em tempos de campanhas eleitorais, envolvendo também políticos e
candidatos evangélicos. A fé é sagrada! Não pode ser tratada como moeda para
conseguir vantagens. É lamentável que a sede de poder e dominação, que tem
contornos diabólicos, sejam ainda hoje uma tentação para muitos. O papel da
Igreja na sociedade não é servir-se do estado, mas zelar para ser a consciência
da sociedade e como bem disse o Pastor Martin Luther King, “A igreja… não é a
senhora ou a serva do Estado, mas, antes, a sua consciência… E nunca sua
ferramenta!”.
Deus não precisa de precisa de apadrinhamento político para cumprir
seus propósitos na História e é Ele quem defende sua Igreja. A Igreja, antes de
desejar os tronos desse mundo, só reina pelo Serviço, na busca da Justiça e
pela propagação do Amor que encontramos nos braços afetuosos do nosso Pai
Eterno.
2) Deus não tem partido e nem ideologia: Uma das verdades mais radicais sobre Deus é que Ele não é refém de uma Ideologia
ou Partido, e a causa do Reino de Deus não pode ser instrumentalizada em favor
de quem quer que seja. Tentar identificar a fé cristã com esse ou aquele
partido ou ideologia é o “X” da questão. Os líderes religiosos jamais podem
esquecer que com Deus não se brinca e que não o nome dEle não pode ser usado em
vão! Deus, que não é manipulado por mãos humanas, não pode ser tratado como uma
marionete de projetos de poder, ou para favorecer preferências políticas
pessoais, por melhor que pareçam.
O pastor pode participar da formação política de suas ovelhas? Sim!
Somos a favor que haja nas igrejas um processo comunitário de reflexão, oração,
e investigação de temas e os pastores e líderes devem se empenhar para que os
crentes votem com ética e discernimento. Porém, a bem de sua credibilidade, o
pastor deve evitar transformar o processo de elucidação política num projeto de
manipulação e indução político-partidário. Ademais, no debate
político-partidário, a opinião do pastor deve ser ouvida apenas como a palavra
de um cidadão, e não como uma profecia, e a ética pastoral indica que ele não
deve favorecer sua inclinação pessoal em detrimento aos outros irmãos.
A pluralidade que hoje é marca da igreja evangélica nos convoca a que
não sejamos tutelados por posicionamentos de apoio a candidatos ou partidos
dentro da igreja, sob o prejuízo de não apenas constranger os eleitores, mas
causar divisão na comunidade de fé.
3) Que tipo de testemunho oferecemos para nosso povo? O proceder fala muito mais do que nossa pregação. Se desejarmos mesmo
que nosso país seja transformado pelos valores do Reino de Deus, precisamos nos
arrepender de certas posturas também no campo do debate político e perceber os
estragos causados pela relação promíscua com o poder. O que dizer quando estes
espalham boatos em relação a um político com a intenção de induzir os votos dos
eleitores assombrados, na direção de outro candidato com o qual estejam
compromissados? O que falar de certos políticos que são ajudados pela prática
do voto de cajado quando eles fazem a “oração da propina” ou das “sanguessugas
evangélicas” que desviaram verbas públicas destinadas para a saúde do nosso
povo?
Enfim, poderíamos citar ainda uma série de casos escabrosos que
deixaram nódoas na imagem pública da igreja, mas a questão essencial é que esse
tipo de prática frequentemente tem causado mal testemunho para os não cristãos
e não é incomum os evangélicos serem tratados como massa de manobra por esses.
Nesse momento especial de nossa nação, cumpramos com integridade e
espírito público nossa vocação de cidadãos brasileiros. Para os nossos irmãos
de fé, nosso estímulo é: “Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande
humildemente com o teu Deus”. Miquéias 6:8b