quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

ENTRE O BATUQUE E O SILENCIO

Meu desejo de contemplação é a ânsia de minha alma. Busco incessantemente Aquele por quem eu respiro, meu coração bate, meus pulmões se enchem de ar, minhas veias canalizam o sangue que junto a vida de meu espírito, leva minha alma para mais perto d'Aquele que me amou desde antes da criação do Cosmos - "Ornamento de Deus".

Estes últimos dias tive o privilégio de transitar por alguns locais inusitados e cheios de vida. Dois deles marcaram profundamente minha alma. Estive por alguns dias visitando algumas praias, lugares exóticos e belos. Ao contemplar a beleza da Natureza fiz-me pronto a afirmar mais uma vez a mim mesmo: "Impossível ser um ateu". A Criação, a natureza, o mar e tudo que eles contêm exalam a presença de um "Design Inteligente". Para nós cristãos, indubitavelmente, Cristo criou todas as coisas e a Sua Criação revela Sua soberania e providência.

Porém a criação geme, angustia-se porque Seu Despenseiro - o ser humano - continua a degradar-se não apenas no corpo, mas, sobretudo na alma. Uma alma sem a conexão com o Espírito de Deus degenera-se, destrói-se, esvazia-se e se desumaniza. Nós que fomos criados para viver em comunhão com o Criador e com a criação - animais, plantas e astros - progressivamente usamos e abusamos dos seres criados e caminhando para o colapso total.

A praia embora pudesse me levar à contemplação divina, me trouxe ruídos que minha alma rejeita. Músicas sem nexo, barulho e batuque sem conteúdo. O ser humano continuamente busca um "deus-segundo-o-coração-da-criatura”. Para encontrar-se com Deus, muitos precisam defini-lo, construí-lo, embalsamá-lo e sistematizá-lo a fim de reterem uma leve caricatura "Daquele que é". Para muitos é o "grito que define a divindade". Nada diferente do deus-pagão das culturas primitivas.

Também vivi a experiência de passar um tempo em um Mosteiro Beneditino. Poucas palavras, pouco barulho, muitas orações, cicios, o suficiente para tentar domesticar uma alma agitada e inquieta. Diante de um ambiente desconhecido para muitos que ousam criticar sem conhecer, me pus novamente na busca da contemplação divina.

Diferente de um mundo onde o silêncio é aterrador, encontrei-me mais uma vez comigo mesmo, para admitir que não sou diferente daqueles que batucam muito com um coração vazio. Cantamos muito, mas falamos pouco ao coração de Cristo. Naquele local inaudito pude ver que o silêncio da alma fala mais alto do que um turbilhão de palavras. Mas a ausência da fala também pode ajudar quando o coração vazio está desejoso por encontrar-se num mistério onde somente o Espírito pode se fazer presente. Na oração do coração e no silêncio do espírito, percebi o quanto sou um papagaio que repete palavras vazias, por que conheço muito pouco o silêncio de Deus. O silêncio de Deus possui mais vida do que a música dos homens.

O silêncio retira de nós o que a mente humana constrói acerca de Deus usando a lógica. Ao entrar num ambiente assim, me senti num vazio que somente Cristo pôde preencher em comunhão. O silêncio é o caminho para o encontro com o "Totalmente-Outro". No mistério do silêncio encontramos a presença grave, intensa e cheia de Deus. Habitamos um mundo onde o silêncio de Deus não tem mais vez. Estamos tão cheios de nós mesmos que nossos discursos são repletos de palavras que podem assombrar muito, mas nada afetam a relação com o Divino, connosco mesmos e com nosso semelhante. Contemplar a beleza da Criação não tem sentido sem a contemplação daquele que É no coração. Sem o silêncio da alma, homem algum poderá reter a revelação divina. Sem um coração silencioso, jamais poderemos viver a Palavra Viva – Jesus Cristo - revelação plena de Deus.                              

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

MEUS PRINCÍPIOS SOBRE EVANGELISMO



Missão como Evangelização (David Bosch)

Evangelização: definições

Nossa discussão sobre o significado e o escopo da salvação e sobre a missão da igreja em relação à justiça social leva-nos, de uma forma quase automática, a refletir sobre a natureza da evangelização. O conceito "evangelizar" e seus derivados já existem, de fato, há muito mais tempo que a palavra "missão" e, é óbvio, ocorrem com relativa freqüência no Novo Testamento (euangelizein [ou euangelizesthai] e euangelion). Mas esses termos caíram quase em completo desuso durante a Idade Média. Mesmo hoje eles dificilmente são empregados em traduções inglesas da Bíblia; euangelion geralmente se traduz como "gospel" [evangelho] e euangelizesthai/euangelizein como "preach the gospel" [pregar o evangelho]. Desde o início do século 19, o verbo "evangelizar" e seus derivados "evangelismo" e "evangelização" foram, porém, reabilitados em círculos da igreja e da missão. Eles se destacaram, especialmente, em torno da virada do século devido ao slogan "A evangelização do mundo nesta geração".

Após um declínio temporário de seu uso, da década de 20 até a de 60, os termos tiveram de novo uma grande proeminência e têm sido amplamente empregados desde 1970 em círculos protestantes (ecumênicos e evangelicais) assim como católicos. Um "divisor de águas decisivo" foi, nesse sentido, a publicação, em 1975, da Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, do papa Paulo VI; igualmente significativas foram a Assembléia do EMI em Nairóbi, realizada no mesmo mês em que se publicou a EN, e a publicação, em 1982, de Missão e evangelização: uma afirmação ecumênica (ME). De fato, esses encontros e documentos marcam um importante reavivamento do interesse católico e protestante na evangelização.

No que concerne ao substantivo, vale observar que o movimento evangelical protestante e os católicos romanos parecem preferir "evangelização", enquanto que protestantes ecumênicos favorecem "evangelismo". Empregarei "evangelismo" para me referir (a) às atividades implicadas na difusão do evangelho ou (b) à reflexão teológica sobre essas atividades. "Evangelização" será usada para designar (a) o processo de propagação do evangelho ou (b) a extensão em que ele se encontra propagado (por exemplo, na frase "a evangelização do mundo ainda não foi concluída").

Permanece difícil, todavia, determinar com exatidão o que os autores querem dizer com evangelismo ou evangelização. Barrett enumera 79 definições, às quais se poderiam somar muitas outras. Falando em termos genéricos, a controvérsia prevalece em duas áreas: as diferenças (se existem) entre "evangelismo" e "missão", e o escopo ou a abrangência do evangelismo. Além disso, essas questões apresentam uma estreita vinculação. 

Em primeiro lugar, alguns sugerem que "missão" tem a ver com o ministério dirigido a pessoas (especialmente àquelas do Terceiro Mundo) que ainda não são cristãs, e "evangelismo" com o ministério àquelas (em especial, no Ocidente) que não mais são cristãs. A existência desses "não mais" cristãos reflete uma situação nova. Antes do iluminismo e da Era das Descobertas, qualquer pessoa fora do Ocidente era pagã, enquanto que todos no Ocidente eram considerados cristãos. Agora existem "não-crentes" também no Ocidente. Sustenta-se, porém, que é necessária uma terminologia diferente quando designamos o trabalho eclesiástico entre esses dois grupos. A missão sugere-se, está preocupada com a primeira conversão, com a cristianização, com vocare, com um primeiro início, com o estrangeiro distante; o "evangelismo" lida com a reconversão, com a recristianização, revocare, um novo começo, o próximo afastado. Dentro da cristandade (ocidental), pois, requer-se o evangelismo, não a missão.

As "missões domésticas" (evangelismo) são consideradas teologicamente distintas da missão (no exterior). A diferenciação é, ao mesmo tempo, geográfica. Segundo Margull, "o traço distintivo da missão no exterior é proclamar o evangelho onde ainda não existe igreja, onde o senhorio de Deus jamais foi - historicamente - proclamado, onde pagãos constituem o alvo do trabalho". A missão, portanto, ocorre em um ambiente précristão.

Em contraposição a isso, Margull define o evangelismo, que ele também distingue nitidamente da pregação "regular" da igreja a seus membros, como a proclamação do evangelho entre as pessoas que abandonaram a igreja e estão vivendo em um ambiente pós-cristão, por exemplo, na Europa oriental. Margull reflete um amplo consenso existente em círculos católicos romanos e protestantes. Concomitantemente, ele sustenta que o "evangelismo" jamais deveria ter vida própria, porque é derivado da realidade da missão no exterior e sempre é preciso vê-lo em estreita conexão com esta. A "missão" permanece primordial, o "evangelismo", secundário.

Uma razão para essa "sincronização" entre missão e evangelismo reside no fato de a distinção entre o trabalho entre "não ainda cristãos" ("missão") e "não mais cristãos" ("evangelismo") estar se tomando cada vez mais tênue; existem agora também "ainda não cristãos" (pessoas que não só estão distantes da igreja, mas que jamais tiveram vínculo com ela) no Ocidente, assim como há "não mais cristãos" (pessoas que, uma vez, eram cristãs, mas se afastaram da igreja) nos tradicionais territórios de "missão".

Em segundo lugar, e somando-se à distinção que acabamos de identificar, há frequentemente uma tendência de definir "evangelismo" de maneira menos ampla do que "missão". E como católicos romanos e protestantes ecumênicos se inclinaram a usar a palavra "missão" para designar uma gama cada vez maior de atividades eclesiásticas, os evangelicais começaram a evitar o termo "missão" e a usar apenas "evangelismo", também para designar o empreendimento "no estrangeiro". Esse uso polêmico de "evangelismo" pelos evangelicais sugeria que, na opinião deles, o Concílio Mundial de Igrejas (CMI) havia equivocadamente ampliado o escopo do empreendimento original para o que é hoje. Johnston, por exemplo, afirma: "Historicamente, a missão da igreja se resume no evangelismo" (McGavran - "Teologicamente, a missão era evangelismo mediante qualquer meio possível"). A compreensão mais "inclusiva" do empreendimento, diz Johnston, começou efetivamente com a Conferência de Edimburgo, em 1910.

Em terceiro lugar, tem havido, nas últimas quatro décadas, mais ou menos, uma tendência de entender "missão" e "evangelismo" como sinônimos. A tarefa da igreja, seja no Ocidente ou no Terceiro Mundo, é uma só e é secundário que a denominemos de "missão" ou de "evangelismo". No que concerne aos evangelicais, isso já emerge nas definições de Johnston e McGavran, os quais acabamos de citar. Nos círculos católicos romanos e do CMI, existe uma tendência similar. Isso é atestado pela formação da Comissão para a Missão Mundial e Evangelização, depois da Assembleia do CMI realizada em Nova Délhi (1961); Philip Potter estava, portanto, correto ao dizer que, na literatura ecumênica, "missão", "evangelismo" e "testemunho" são, por via de regra, conceitos intercambiáveis. E um memorando católico romano afirma que "missão, evangelização e testemunho são, atualmente, muitas vezes empregados por católicos como sinônimos" (Memorandum 1982:460).

A confusão aumentou quando, em quarto lugar, o termo "evangelismo" ou "evangelização" começou a substituir "missão" em anos recentes, não apenas em círculos evangelicais conservadores, mas também entre católicos romanos e protestantes ecumênicos. Para estes últimos, "evangelismo" ou "evangelização", entendidos como idênticos a "missão", eram mais aceitáveis do que "missão" por causa das implicações colonialistas ainda associadas com este termo (cf. Geffré 1982:479; Gómez 1986:36). O exemplo mais rematado de "evangelização" suplantando "missão" pode encontrar-se em EN. O documento evita a palavra "missão" e, em sua tradução inglesa, emprega "evangelização" e seus cognatos não menos que 214 vezes. Compreende-se "evangelização" como um conceito que abarca toda a atividade da igreja enviada ao mundo: "Um único termo - evangelização - define a integralidade do ofício e mandato de Cristo" (EN; Snijders; Geffré; Scherer). De maneira idêntica, Geijbels entende evangelização como incluindo proclamação, tradução, diálogo, serviço e presença. E Walsh afirma que "desenvolvimento humano, libertação, justiça e paz são partes integrantes do ministério da evangelização".

No caso dos evangelicais, "evangelismo" (ou, mais comumente, "evangelização") é, muitas vezes, preferido a "missão" devido ao que os evangelicais crêem que os ecumênicos entendem sob "missão" (ou por causa da maneira como "missão" fora "reconceitualizada" em Uppsala [1968] e "implementada" como "nova missão" em Bangcoc [1973] [Hoekstra 1979:63109]). Assim, quando Johnston escreve sobre "a batalha pelo evangelismo mundial", e Hoekstra, sobre "o desaparecimento do evangelismo" no CMI, eles manifestam uma preferência pelo termo "evangelismo" em contraposição ao termo "missão".

Rumo a uma compreensão construtiva de evangelismo

Sinuosidades no significado como as que identificamos acima são sintomáticas de um estado em que prevalece a fluidez constante no pensamento missionário e do período de transição em que vivemos. No que segue, tentarei esboçar uma compreensão de evangelismo que contribuirá, assim espero, para o tipo de missão que seja relevante em nossos dias.

Básica para minhas considerações é a convicção de que missão e evangelismo não constituem sinônimos, mas, a despeito disso, estão indissoluvelmente vinculados e inextricavelmente entretecidos na teologia e na práxis (prática).

1. Entendo a missão como sendo mais ampla que o evangelismo. "A evangelização é missão, mas esta não é meramente aquela". Missão denota a tarefa global que Deus incumbiu à igreja para a salvação do mundo, mas sempre relacionada a um contexto específico de mal, desespero e perda de norte (como Jesus definiu sua "missão", de acordo com Lucas 4.18s. - cf. cap. 3 deste estudo). Ela "abrange todas as atividades que servem para libertar o homem de sua escravidão na presença do Deus que vem, escravidão que se estende da necessidade econômica ao abandono de Deus". Missão é a igreja enviada ao mundo, para amar, servir, pregar, ensinar, curar, libertar. 

2. O evangelismo não deveria, portanto, ser equiparado à missão. Onde isso ocorre, surge a necessidade de complementar "evangelismo" com neologismos como "pré-evangelização" e "reevangelização", numa tentativa de introduzir elementos que, de outra forma, poder-se-iam perder. Por conseguinte, é melhor preservar o caráter distintivo do evangelismo dentro da missão mais abrangente da igreja. Contudo, é impossível dissociá-lo da missão mais ampla da igreja. O evangelismo é parte integrante da missão, "suficientemente distinto, mas não separado dela". Jamais se poderá isolá-lo e tratá-lo como uma atividade completamente separada da igreja. "Se ele não estiver relacionado a tudo que a igreja faz, então a igreja é suspeita". O evangelismo autêntico está inserido na missão global da igreja, "o ato de tomar acessível o mistério do amor de Deus por todas as pessoas dentro daquela missão". 

3. O evangelismo pode ser visto como uma "dimensão" essencial "da atividade global da igreja" , como o coração ou o cerne da missão da igreja. Se aceitarmos isso, temos que descartar a idéia, proposta por Stott (1975) e pelo Pacto de Lausanne, de que o evangelismo é um dos dois segmentos ou componentes da missão (sendo o outro a ação social). Ao evangelismo jamais se poderá conceder uma vida própria, isolada do restante da vida e do ministério da igreja. À luz disso e da aparente ausência de programas conspícuos de evangelização nas igrejas membros do CMI, talvez seja precipitado falar sobre o "desaparecimento" do evangelismo no CMI.

4. O evangelismo implica testemunhar o que Deus fez, está fazendo e fará. É assim que Jesus iniciou seu ministério evangelístico, de acordo com os evangelhos sinóticos: "O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo". Evangelismo é anunciar que Deus, Criador e Senhor do universo, interveio pessoalmente na história humana e o fez derradeiramente através da pessoa e do ministério de Jesus de Nazaré, que é o Senhor da história, o Salvador e o Libertador. Nesse Jesus, encarnado, crucificado e ressuscitado, o reinado de Deus foi inaugurado.

O evangelismo inclui, portanto, os "eventos do evangelho". Não se trata, essencialmente, de um chamamento a fim de pôr algo em execução, como se o reinado de Deus fosse inaugurado por nossa resposta ou obstaculizado pela ausência dela. É uma resposta a algo que Deus já realizou. Considerando isso, não se pode definir o evangelismo em termos de seus resultados ou sua eficácia, como se ele apenas tivesse ocorrido onde há "conversos". Dever-se-ia, antes, entender o evangelismo em termos de sua natureza, como mediador da boa nova do amor de Deus em Cristo que transforma a vida, proclamando, pela palavra e pela ação, que Cristo nos libertou (Gutiérrez).

5. Mesmo assim, o evangelismo objetiva uma resposta. Com base na realidade da plenitude do tempo e da irrupção do reinado de Deus, Jesus conclama seus ouvintes: "Arrependam-se e creiam no evangelho". "O chamamento visa a mudanças específicas, a renunciar a evidências do domínio do pecado em nossas vidas e a aceitar responsabilidades em termos do amor de Deus por nosso próximo"; afinal, metanóia engloba a "transformação total de nossas atitudes e estilos de vida". Dispensar a centralidade do arrependimento e da fé é despojar o evangelho de sua significação. Conversão "implica um afastar-se de e um voltar- se para" - "de uma vida caracterizada por pecado, separação de Deus, submissão ao mal e potencial não realizado da imagem de Deus, para uma vida nova caracterizada por perdão de pecados, obediência (...) comunhão renovada com Deus na Trindade". A conversão é, ademais, um processo contínuo, que se estende pela vida toda.

6. O evangelismo sempre representa um convite. Evangelizar é comunicar alegria (Gutiérrez). Transmite-se uma mensagem positiva; é esperança que estamos oferecendo ao mundo. O evangelismo jamais deveria deteriorar em engambelação, muito menos em ameaça. Evangelizar não é o mesmo que (1) oferecer uma panacéia psicológica para as frustrações e os desapontamentos das pessoas, (2) inculcar sentimentos de culpa para que as pessoas (em desespero, por assim dizer) se voltem a Cristo, ou (3) assustar as pessoas, a fim de que se arrependam e convertam, com estórias sobre os horrores do inferno. As pessoas deveriam voltar-se a Deus porque são atraídas por seu amor, não porque sejam empurradas a Deus pelo temor do inferno. Só mediante nossa experiência da graça de Deus em Cristo "conhecemos o terrível abismo de trevas em que nos precipitaremos se colocarmos nossa confiança em algo que não seja aquela graça" (Newbigin). Como se explicou no capítulo 4, é a "solução" em Cristo que nos revela a "situação difícil" de que fomos salvos.

7. A pessoa que evangeliza é uma testemunha, não um juiz. Isso acarreta conseqüências importantes para a avaliação de nosso próprio ministério evangelístico, pois, muitas vezes e com facilidade, dividimos as pessoas em "salvas" e “perdidas”. Newbigin o formula assim: Jamais posso ter tanta confiança na pureza e na autenticidade de meu testemunho que me permita saber se a pessoa que rejeita meu testemunho rejeitou a Jesus. Sou testemunha daquele que é infinitamente santo e infinitamente gracioso. Sua santidade e sua graça se encontram tão além de minha compreensão quanto estão da de meu ouvinte. 

8. Embora devamos ser modestos quanto ao caráter e à eficácia de nosso testemunho, o evangelismo permanece um ministério indispensável. Ele não representa um acessório opcional, mas um dever sagrado, uma incumbência da igreja. Essa mensagem é, efetivamente, necessária. É única. Ela não pode ser substituída. Não é possível supor que a dimensão evangelística da missão da igreja esteja incluída em tudo que a igreja diz e faz; necessita-se torná-la explícita. "Toda pessoa tem o direito de ouvir a boa nova".

9. O evangelismo só pode acontecer quando a comunidade que evangeliza - a igreja - é uma manifestação radiante da fé cristã e exibe um estilo de vida atraente. "O meio é a mensagem" (Marshall McLuhan). Segundo a Iniciativa Nacional em Evangelismo, "o que somos e fazemos não é menos importante, nesse sentido, do que aquilo que dizemos" (NIE 1980:3). Se a igreja deseja divulgar ao mundo uma mensagem de esperança e amor, de fé, justiça e paz, algo disso deve tomar-se visível, audível e tangível na própria igreja (At 2.42-47; 4.32-35). O testemunho de vida da comunidade dos crentes prepara o caminho para o evangelho. Onde isso falta, a credibilidade de nosso evangelismo está perigosamente comprometida. "Quantos dos milhões de pessoas no mundo que não confessam a Jesus Cristo rejeitaram-no pelo que viram na vida dos cristãos! Portanto, o chamado à conversão deveria começar com o arrependimento daqueles que realizam o chamamento, que fazem o convite". Essas palavras são especialmente pertinentes onde uma comunidade cristã deixa de demonstrar que, em Cristo, Deus desfez todas as barreiras que dividem a família humana. Nesse aspecto, em especial, o próprio ser da igreja possui um significado evangelístico, seja positivo ou negativo.

10. O evangelismo oferece às pessoas a salvação como uma dádiva presente e, junto com ela, a garantia de bem-aventurança eterna. As pessoas estão, mesmo que não o percebam, procurando desesperadamente um sentido para a vida e a história; isso as impele a buscar um sinal de esperança em meio ao generalizado temor de uma catástrofe global e da falta de sentido. Podemos, através de nosso evangelismo, mediar-lhes "uma salvação transcendente e escatológica, que, de fato, tem seu princípio nesta vida, mas alcança a plenitude na eternidade". Mas se a oferta de tudo isso constituir o centro de nosso evangelismo, degrada-se o evangelho a um artigo de consumo. É preciso, pois, que se enfatize que o desfrute pessoal da salvação jamais representa o tema central nas estórias bíblicas de conversão (Barth). Ali onde cristãos se vêem como os que usufruem uma inefável e magnífica ventura privada, Cristo é facilmente reduzido a pouco mais do que um "Fornecedor e Distribuidor" de bênçãos especiais, e o evangelismo, a um empreendimento que alenta a busca de um egocentrismo piedoso. Não que o usufruto da salvação seja equivocado, desprovido de importância ou de base bíblica; mesmo assim, ele é quase incidental e secundário. Não é simplesmente para receber vida que as pessoas são chamadas a se tornarem cristãs, mas, antes, para doar vida. 

11. Evangelismo não é proselitismo. Quando foi fundada a Sacra Congregatio de Propaganda Fidei (1622), afirmou-se explicitamente que o interesse da nova organização estaria focado, não em "não-cristãos", mas em "não-católicos"; de fato, até aproximadamente 1830, seu holofote estava voltado para a Europa protestante. Com demasiada frequência, portanto, utilizou-se o evangelismo como um recurso para reconquistar influência eclesiástica perdida, tanto no catolicismo quanto no protestantismo. Especialmente em contextos onde se vê a igreja (ou "a denominação") como composta de indivíduos que optam livremente por pertencer a ela, existe uma sugestão implícita (e, às vezes, explícita) de que a competição é necessária. Por conseguinte, as pessoas da comunidade adjacente, quer pertençam ou não a outras igrejas, são encaradas como "candidatos" a serem ganhos. Grande parte disso reflete a tendência de construir um império - a igreja "não consegue resistir à tentação de abrir uma outra filial em uma área que parece promissora" (Spong). Quer intencionalmente, quer não, essa mentalidade sugere que as pessoas não são salvas pela graça, mas por se tornarem membros de nossa denominação.

12. Evangelismo não é o mesmo que extensão eclesiástica. Durante o período em que estava em voga a máxima "não há salvação fora da Igreja (Católica)", isso constituía a quintessência do evangelismo. Essa concepção se encontra na base da encíclica Rerum Ecclesiae, do papa Pio XI (1926). Evangelismo significava "acrescentar à Igreja Católica o maior número possível de recém-batizados"; isso se processava em estágios, mediante o catecumenato, o período probatório e a introdução à vida litúrgica da igreja. O evangelismo era sinônimo de expansão da igreja através do incremento numérico de membros. A conversão era uma questão de números. Media-se o sucesso do evangelismo contando os batismos, as confissões e as comunhões (Shorter).

Também no protestantismo, entendia-se o evangelismo, em geral, como extensão da igreja. Nos últimos anos, isso vale especialmente para o Movimento de Crescimento de Igrejas. McGavran pleiteia "um evangelismo que proclame o evangelho, converta pecadores e multiplique a igreja". Além disso, o propósito do crescimento eclesiástico é mais crescimento eclesiástico. Aqueles que se tornam membros da igreja devem granjear outros membros; esse é um aspecto importante, talvez o aspecto principal do Novo Testamento (McGavran. A "teologia da colheita" deve ser priorizada frente à "teologia da semeadura"). O crescimento numérico ou quantitativo deveria constituir a prioridade n° 1 num mundo em que vivem 3 bilhões de pessoas que não são cristãs. É óbvio que as populações "resistentes" representam um problema para essa abordagem. Ainda assim, McGavran não advoga uma retirada geral de áreas de baixa receptividade; ele acrescenta, porém, que esses campos deveriam ser ocupados brandamente e que os evangelistas se deveriam concentrar em populações "conversíveis". 

Mas esse tipo de pensamento distorce o evangelismo, inclusive porque as razões pelas quais as pessoas se tomam membros da igreja podem variar muito e é possível que, freqüentemente, pouco tenham a ver com um compromisso com aquilo que a igreja supostamente defende. Uma congregação em que as pessoas se parecem em tudo talvez reflita a cultura prevalecente e seja um clube de folclore religioso em vez de constituir uma comunidade alternativa em um ambiente hostil ou acomodado.

Isso aflora especialmente em situações onde o número de membros da igreja está diminuindo e esta decide, relutantemente, que, se quiser continuar no negócio, deve resignar-se a uma campanha evangelística. A atenção do evangelismo não deveria, contudo, estar voltada para a igreja, mas para o reinado de Deus que irrompe (Snyder).

13. Distinguir entre evangelismo e recrutamento de membros não significa, porém, sugerir que ambos estejam desconectados. Afinal, "faz parte do cerne da missão cristã fomentar a multiplicação de congregações locais em qualquer situação humana". Não podemos ser indiferentes a números, pois Deus "não quer que nenhum pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento" (2 Pe 3.9). Portanto, inclui-se com justeza a implantação e o crescimento eclesiásticos em sua definição do objetivo da missão. A rejeição monomaníaca da igreja empírica na teologia de Hoekendijk e em outras similares é totalmente inapropriada.

Sem a igreja, é impossível haver evangelismo ou missão. Mas, para medir o grau de eficácia e responsabilidade do evangelismo da igreja, as estatísticas sobre o número de membros são menos úteis. Em verdade, um evangelismo autêntico e precioso pode causar uma diminuição dos membros de uma igreja em vez de seu incremento. Em certo sentido, portanto, o crescimento numérico constitui nada mais que um subproduto que surge quando a igreja é fiel à sua vocação mais profunda. Mais importante é o crescimento orgânico e "encamacional".

14. No evangelismo, "só é possível dirigir-se a pessoas, e só elas podem responder". Sem dúvida o evangelismo autêntico tem, pois, uma dimensão pessoal. O evangelho é "o anúncio de um encontro pessoal, mediado pelo Espírito Santo, com o Cristo vivo, recebendo-se seu perdão e aceitando-se pessoalmente seu chamado ao discipulado". Não é exato sustentar-se que o individualismo seria simplesmente uma "invenção" do Ocidente. Pelo contrário, o evangelho cristão, necessariamente, enfatiza a responsabilidade e a decisão pessoais; por isso, o individualismo na cultura ocidental é, primordialmente, fruto da missão cristã. Rosenkranz afirma que isso constitui a única revolução real na estrutura da natureza humana, uma vez que introduziu a doutrina do valor individual de cada ser humano; por conseguinte, se as pessoas atualmente pensam e agem como indivíduos livres e responsáveis - uma forma de pensamento diametralmente oposta ao pensamento e à prática da Antiguidade - isso se deve à influência do evangelho. 

Visto que somente pessoas - indivíduos - podem responder ao evangelho, falar de "evangelismo profético" como conclamação de "sociedades e nações ao arrependimento e à conversão" ou dizer que o "chamamento à conversão, como um chamado ao arrependimento e à obediência, também deveria ser dirigido a nações, grupos e famílias" significa confundir a questão. Principados e potestades, governos e nações não podem chegar à fé - apenas indivíduos podem fazê-lo. Dessa maneira, embora esse ministério seja necessário e constitua uma parte integrante da missão, ele não é, estritamente falando, evangelismo.

Ainda assim, o evangelho não é individualista. O individualismo moderno representa, em grande parte, uma perversão de como a fé cristã compreende a centralidade e a responsabilidade do indivíduo. Como consequência do iluminismo e de seus ensinamentos, os indivíduos ficaram isolados da comunidade que os gerou. No evangelismo, essa tendência tem predominado, especialmente, desde o ministério de D. L. Moody (1837-1899). Para ele, o pecado era exclusivamente um assunto individual, e o pecador se encontrava sozinho diante de Deus - um pecador que, nos Estados Unidos democrático da época de Moody, possuía perfeitas condições de tomar uma decisão e vencer o pecado (Marsden). Uma vez que se compreendia o indivíduo como a unidade básica na obra da salvação, a ênfase incidia cada vez mais na salvação de almas individuais. E passagens bíblicas como a de Mateus 16.26: "Que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder sua alma?" foram interpretadas como apontando nessa direção.

As pessoas, contudo, jamais serão indivíduos isolados. Elas são seres sociais, que jamais podem ser separados da rede de relacionamentos em que vivem. E a conversão do indivíduo toca todas essas relações. Christian Keysser (1980) reconheceu isso, durante os anos que passou em Papua Nova Guiné, ao enfatizar sempre que o grupo social precisava estar envolvido na conversão de cada indivíduo. 

15. O evangelismo autêntico sempre é contextual. Um evangelismo que separa as pessoas de seu contexto vê o mundo não como um desafio, mas como um empecilho, desvaloriza a história e somente consegue enxergar os "aspectos espirituais ou imateriais da vida", é espúrio. O mesmo pode afirmar-se de um evangelismo que expressa a conversão unicamente em termos microéticos, como o comparecimento regular à igreja, a abstinência de álcool e fumo bem como a leitura bíblica e orações diárias, ou que limita a mensagem evangelística a uma oferta de libertação da solidão, de paz de espírito e de sucesso em tudo que empreendemos.

Deveras, grande parte do assim chamado evangelismo, aparentemente, visa satisfazer as pessoas em lugar de transformá-las. No Ocidente (pelo menos no passado), o cristianismo costumava ser identificado com respeitabilidade social. As igrejas contavam com prestígio público. Nesse aspecto, o evangelismo lhes prestava um auxílio: "A pressão comunitária dominante tornava pertencer à igreja não apenas uma necessidade, mas também indicativo de civilização, boas maneiras e vida decente". Boa parte dessa mentalidade fora exportada à África e a outras partes do Terceiro Mundo. A igreja existia para os que desejavam ascender na pirâmide social; tornar-se cristão significava identificar-se com o etos e o sistema de valores dos que aspiravam à classe média. Tudo isso se encontra muito distante do evangelismo genuíno e acarretou uma conversão à cultura predominante, não ao Cristo dos evangelhos.

Em boa parte da "igreja eletrônica", batiza-se o materialismo. O Jesus do reavivamentismo parece ter mais afinidade com a Câmara de Comércio e o mundo do entretenimento do que com uma simples gruta em Belém ou com uma tosca cruz sobre uma colina árida. Os pregadores se afastam de questões sociais controvertidas e concentram-se naqueles pecados pessoais de que a maioria de seus entusiasmados ouvintes não são culpados. Ora, que critério decide que o racismo e a injustiça estrutural são questões sociais, mas a pornografia e o aborto pertencem ao âmbito individual? Por que a política é evitada e declarada como extrapolando a competência do evangelista, exceto quando ela favorece a posição dos privilegiados na sociedade? Como é possível que pregadores que aparentam interessar-se unicamente pelo destino "metaterrenal" de seus ouvintes sejam tão completamente terrenos em seu etos e seus métodos?

É claro que, para as pessoas que estão experimentando uma tragédia pessoal, o vazio, a solidão, a alienação e a falta de sentido na vida, o evangelho significa, de fato, paz, consolo, plenitude e alegria. Mas o evangelho só oferece isso dentro do contexto que implica ser ele uma palavra sobre o senhorio de Cristo em todas as esferas da vida, uma palavra autorizada de esperança no sentido de que o mundo, como o conhecemos, não será sempre como é agora.

16. Por causa disso, o evangelismo não pode ser divorciado da pregação e prática da justiça. Essa é a deficiência da concepção segundo a qual se confere prioridade absoluta ao evangelismo frente ao engajamento social, ou onde o evangelismo é apartado da justiça, mesmo que se sustente que, junto com a justiça social, ele constitua a "missão". Se entendermos o evangelismo não como um mero recrutamento de membros para a igreja, não como uma simples oferta de salvação eterna a almas individuais e não como uma tentativa de apressar o retorno de Cristo, ele não pode ser divorciado da missão mais abrangente da igreja. E mesmo se incluímos o recrutamento de novos membros e a oferta da salvação eterna no objetivo da missão, permanece a pergunta: para que as pessoas estão se tomando membros da igreja? Para que os indivíduos estão sendo salvos? 

Em nossas reflexões sobre o uso que Mateus faz do termo "discípulo" (capítulo 2), foi sugerido que tomar-se discípulo de Jesus implica toda uma gama de compromissos. Significa, primordialmente, aceitar um compromisso com Jesus e o reinado de Deus. Em seu âmago, o convite de Jesus para que as pessoas o sigam e se tomem seus discípulos é a pergunta a quem elas desejam servir. O evangelismo é, pois, um chamado ao serviço. 

Isso não deve ser contraposto às bênçãos - inclusive bênçãos eternas – que o novo converso receberá; em verdade, não faz sentido jogar uma perspectiva contra a outra. Mas como a perspectiva da bem-aventurança eterna é a que geralmente tem sido enfatizada, é urgente que se sublinhe, com a mesma veemência, a perspectiva do serviço ao reino. “Um convite evangelístico orientado para o discipulado incluirá um chamamento para se aliar ao Senhor vivo na obra de seu reino”. Ele chamará a atenção para as aspirações de homens e mulheres comuns da sociedade, para seus sonhos de justiça, segurança, estômagos saciados, dignidade humana e oportunidades para seus filhos. Ele dará, sem rodeios, nome aos "principados e potestades" que se opõem ao Reino. 

Evangelismo significa, portanto, angariar pessoas para o reinado de Deus, libertando-as de si mesmas, de seus pecados e de seus enredamentos, a fim de que sejam livres para Deus e o próximo. Ele conclama indivíduos para uma vida de abertura, vulnerabilidade, integralidade e amor. Ganhar pessoas para Jesus significa ganhar sua dedicação às prioridades de Deus. Deus deseja não apenas que sejamos resgatados do inferno e redimidos para o céu, mas também que em nós - e, através de nosso ministério, igualmente na sociedade em torno de nós - a "plenitude de Cristo" seja recriada, a imagem de Deus seja restaurada em nossas vidas e relacionamentos. “Ao fazermos o convite do evangelho, não temos a liberdade de ocultar o custo do discipulado. Jesus ainda conclama todos os que querem segui-o a negar-se a si mesmos, a tomar sobre si sua cruz e a identificar-se com a nova comunidade dele”. Evangelismo, portanto, é chamar as pessoas à missão.

17. O evangelismo não é um mecanismo para apressar a volta de Cristo, como sugerem alguns. A introdução do eschaton tem sido um tema missionário importante desde as últimas décadas do século 19. Agências como a "Missão para o Interior da China" (Hudson Taylor) e a "Regions Beyond Missionary Union" (Grattan Guinness) foram formadas porque seus fundadores acreditavam - baseados numa interpretação biblicista de Mateus 24.14 - que o retomo de Cristo dependia da conclusão da proclamação do evangelho a todos os povos do mundo (Beaver). Johnson (1988) descreve o crescente entusiasmo, especialmente entre 1887 e 1893, pela idéia da evangelização do mundo todo antes do ano de 1900, mas também o declínio depois de 1893, quando se tornou claro que a meta era inatingível. A maioria dos líderes do movimento, como A. T. Pierson, A. B. Simpson e H. Grattan Guinness, definiam o evangelismo estritamente em categorias individualistas e verbalistas e rejeitavam qualquer idéia de os missionários se envolverem em outros projetos ou em estruturas da sociedade. Acreditava-se que a mera pregação da palavra traria os milhões do mundo ao aprisco dos redimidos e aceleraria a segunda vinda de Cristo.

Barrett e Reapsome (1988) calculam que houve, de fato, desde o início da era cristã, 788 "planos globais" para evangelizar o mundo e que a maioria deles estava intimamente relacionada com expectativas escatológicas. 

O slogan "a evangelização do mundo nesta geração", popularizado por John R. Mott por volta do início do século 20, não interpretou especificamente o evangelismo como introdução da parúsia, mas apresentava, com certeza, nuanças apocalípticas. Dos quase 800 planos identificados por Barrett e Reapsome, apenas aproximadamente 250 ainda existiam em 1988. Mas, à medida que se aproxima o terceiro milênio, mais e mais planos novos são lançados, e, virtualmente, todos eles vinculam o evangelismo à parúsia. Muitas vezes, expressam-se expectativas em termos pré-milenaristas. A literatura evangelical contemporânea está repleta de contribuições sobre "a evangelização do mundo antes do ano 2000". 

Modernas tecnologias, mormente computadores, são utilizadas não apenas para avaliar as dimensões gigantescas da tarefa, mas também para traçar estratégias eficazes. Um desses planos, chamado DAWN ("Discipling A Whole Nation"), parte da premissa de que necessitamos de uma igreja para cada mil pessoas a fim de evangelizar o mundo de forma efetiva; como haverá aproximadamente 7 bilhões de pessoas até o ano 2000, a estratégia do DAWN é facilitar a implantação de igrejas com o objetivo de chegar a um total de 7 milhões até o final do século. Várias conferências concentraram sua atenção em um objetivo similar. 

Em 1980, realizou-se, em Edimburgo, uma "Consulta Mundial sobre Missões de Fronteira"; ela formulou sua meta como "Uma Igreja para Cada Povo até o Ano 2000". Uma conferência semelhante aconteceu em São Paulo, em 1987, focada, em grande parte, mas não exclusivamente, na América Latina. Em janeiro de 1989, reuniu-se, em Singapura, uma "Consulta Global sobre Evangelização Mundial até 2000 e além". E o programa de Lausanne Il, a conferência do Comitê de Lausanne para a Evangelização Mundial realizada em Manila, em julho de 1989, incluiu uma "Trilha 2000 d.C. Mas, como sustentou Glasser (1989), todo esse projeto e sua fascinação com o ano 2000 são altamente questionáveis. Ele parte da duvidosa premissa de que a economia mundial crescerá ainda mais, de que a renda para-eclesiástica subirá enormemente e de que os principais portadores da missão nas décadas vindouras ainda serão agências missionárias do tipo ocidental. Mais relevantes, todavia, são as deficiências teológicas nessa filosofia, especialmente porque esse tipo de evangelismo parece ignorar deliberadamente a crescente pobreza e injustiça no mundo.

18. O evangelismo não é apenas proclamação verbal. Mesmo assim, o evangelismo possui uma dimensão verbal da qual não é possível escapar. Em umasociedade marcada pelo relativismo e pelo agnosticismo, faz-se necessário dizer o Nome dAquele em quem cremos. Os cristãos são desafiados a prestar contas da esperança que existe neles (cf. 1 Pe 3.15); a vida deles não é transparente de chegar para que outros reconheçam a fonte dessa esperança.

Não existe, contudo, uma única maneira de testemunhar Cristo. A palavra, portanto, jamais pode estar divorciada da ação, do exemplo, da "presença cristã", do testemunho de vida. É a "palavra encarnada" que constitui o evangelho. A ação sem a palavra é muda; a palavra sem a ação é vazia. Palavras interpretam ações, e ações validam palavras, o que não significa que cada ação tenha que se fazer acompanhar de uma palavra ou vice-versa (Newbigin). 

Se tentarmos agora, finalmente, uma definição de evangelismo, é importante que não delineemos o conteúdo de nosso evangelismo de uma forma demasiadamente exata, precisa e autoconfiante. Não é possível prensarmos o evangelho e empacotá-lo em quatro ou cinco "princípios". Não há um plano-mestre universalmente aplicável para o evangelismo, uma lista definitiva de verdades que as pessoas apenas necessitam adotar para serem salvas. Jamais podemos limitar o evangelho à nossa compreensão de Deus e da salvação. Só nos é possível testemunhar, de maneira concomitantemente ousada e humilde, nossa compreensão desse evangelho. Mas, "quando refletimos, humilde porém alegremente, o amor reconciliador de Deus para com toda a humanidade, em amizade e respeito mútuo, o Espírito Santo se utiliza de nosso testemunho e serviço para que se conheça a Deus".

Conscientes da natureza essencialmente preliminar de nosso ministério evangelístico, mas, ao mesmo tempo, sabedores da inevitável necessidade de estarmos envolvidos nesse ministério, podemos, então, resumir o evangelismo como aquela dimensão e atividade da missão da igreja que, através da palavra e da ação e à luz de condições específicas e de um contexto singular, oferece a toda pessoa e comunidade, em qualquer lugar, uma oportunidade válida de ser diretamente desafiada a uma radical reorientação de sua vida, uma reorientação que implica coisas como ser libertado da escravidão do mundo e de seus poderes; aceitar a Cristo como Salvador e Senhor; tomar-se um membro vivo de sua comunidade, a igreja; ser arrolado em um serviço de reconciliação, paz e justiça na terra, e comprometer-se com o propósito de Deus de colocar tudo sob o senhorio de Cristo.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

MUITOS JAVALIS ESTÃO DESTRUINDO A VIDEIRA DO SENHOR!



"Trouxeste uma vinha do Egito; lançaste fora os gentios, e a plantaste. Preparaste-lhe lugar, e fizeste com que ela deitasse raízes, e encheu a terra. Os montes foram cobertos da sua sombra, e os seus ramos se fizeram como os formosos cedros. Ela estendeu a sua ramagem até ao mar, e os seus ramos até ao rio. Por que quebraste então os seus valados, de modo que todos os que passam por ela a vindimam? O javali da selva a devasta, e as feras do campo a devoram. Oh! Deus dos Exércitos, volta-te, nós te rogamos, atende dos céus, e vê, e visita esta vide; E a videira que a tua destra plantou, e o sarmento que fortificaste para ti. Está queimada pelo fogo, está cortada; pereceu pela repreensão da tua face. Seja a tua mão sobre o homem da tua destra, sobre o filho do homem, que fortificaste para ti. Assim nós não te viraremos as costas; guarda-nos em vida, e invocaremos o teu nome. Faze-nos voltar, Senhor Deus dos Exércitos; faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos". (Salmo 80) 

Cristo, nunca absolutamente, prometeu vitórias a você enquanto estiver neste chão. 

Mas é impressionante como os "crentes" de hoje dão atenção a tantos pregadores e pastoras evangélicas que somente se servem de dizer o que Cristo nunca disse. Acreditam e reproduzem uma fé "oca", cheia de "fantasia". Me impressiono com a instabilidade da fé destes que se dizem "crentes", mas vez por outra estão disseminando nas redes sociais mensagens que distorcem as palavras de Cristo. 

Sim, a igreja evangélica brasileira atual, com poucas exceções, está carecendo, não de um avivamento, mas sim de uma conversão, que não seja coreográfica e marketeira, mas do coração (Sl 51.6).

Precisam voltar ao primeiro amor, às primeiras obras, abandonar os ensinos desta teologia de "fundo-de-quintal" copiada dos Estados Unidos da América, conhecida como "teologia da prosperidade", reproduzida por muitos como Benny Hinn, Morris Cerullo entre outros. 

Os cantores gospel e pastoras do movimento como Ludmilla Ferber, os famosos evangélicos como Silas Malafaia, juntamente com os assim chamados apóstolos e patriarcas como René Terra Nova, que vivem do dinheiro dos "crentes-meninos", enganados, usam o evangelho e o nome de Cristo para se projetarem na Sociedade. São os atuais Simeões (Atos 8).

A estes, minha oração para que o Espírito Santo converta-os verdadeiramente. 

Mas também como Paulo já pedia a seu discípulo e pastor Tito também digo: "é preciso fazê-los calar que estão destruindo a lavoura do Senhor". 

Muitos pastores que temem o esvaziamento de suas congregações, e por isso acabam por se calarem e não questionam estes "meliantes-da-fé" porque possuem grandes audiências e estão na Mídia. A estes também, a palavra de Cristo é "convertam-se a mim de todo o coração e com suas obras". 

Enfim, o que Cristo nos fala é de que devemos lutar contra os falsos profetas das últimas horas, pois se puderem, enganarão até os eleitos. Estamos vivendo o Apocalipse há muito tempo. 

A fraqueza e a covardia de muitos pastores se dá porque vivem um déficit teológico, litúrgico e de vida de oração pessoalmente e nas igrejas. São meros executivos da fé, tentando encher suas igrejas, na busca de se manterem nas lideranças de suas congregações e em nome do "amor", aceitam um evangelho "ególatra", antropocêntrico, sem as máximas do verdadeiro discipulado. 

Seguir a Cristo é seguir a graça, mas jamais abandonar a justiça e a prática do arrependimento. Um evangelho que não produz metanóia (mudança de mente), mas somente vive do discurso é um evangelho satânico travestido de religiosidade, coisa que o Apóstolo São Paulo já advertia aos Gálatas (Gl 1.8). 

Necessitamos juntar os verdadeiros, os que lutam pela fé pois há muitos dissimuladores. Aparentemente são iguais, mas sua essência e natureza são diferentes.

A igreja precisa de conversão!


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ENTENDENDO O CRESCIMENTO NATURAL DAS IGREJAS LOCAIS


O propósito de o Espírito Santo conceder dons espirituais é capacitar os discípulos de Jesus ao serviço de uns para com os outros, mas isso não significa que esses dons não possam ser usados juntamente com os talentos e habilidades pessoais em prol da missão de Deus na sociedade (I Co 14.12). É bom lembrar também que os dons espirituais embora descobertos e exercidos podem cair em estado de inatividade, por determinados períodos de tempo, ou deixar de serem usados em prol da causa de Cristo, mas nunca podem desaparecer na vida de alguém (II Tm 1.6).

Todos os cristãos, possuem pelo menos um dom espiritual (I Co 12.7,11,18), mas para exercê-los de modo eficaz o amor "ágape" é o elemento essencial para fazer valer a atuação do Espírito Santo e da graça (I Co 13 e Gl 5.22). 

Numa comunidade há pessoas diferentes umas das outras. Assim como no corpo humano há órgãos desempenhando funções diferentes, também no Corpo de Cristo, os membros, possuem capacidades diferentes, dadas por Deus, para edificarem uns aos outros. Alguns FAZEM, outros OUVEM, outros OBSERVAM e alguns FALAM. Há aqueles que ENCORAJAM, outros PENSAM, analisam objetivamente uma situação e dão respostas. Há alguns que INTERCEDEM frequentemente pois são eles capazes de se lembrar das necessidades dos seus irmãos. Outros DIRIGEM pois lideram as diversas áreas dos serviços. Alguns AMPARAM, estão sempre por perto quando alguém está deprimido. 

Para o cristão há três palavras de ordem neste caso: DESCOBRIR, EXERCER E DESENVOLVER os dons. Mas há quem pense erroneamente. Por exemplo há alguns depreciam o próprio dom com um sentimento de inferioridade ou diminuem o dom de outros com o sentimento de superioridade. Outros simplesmente agem passivamente sem o ânimo de descobri-los. Alguns exercem ofícios na igreja, em desarmonia com o seu dom espiritual. O dom recebido deve indicar o ofício ou o cargo a ser preenchido. Alguns outros acabam por valorizar em demasia um dom. E há também aqueles que se concentram nos dons e não no Doador.

Uma igreja verdadeiramente cristã, só é vista pelo Senhor como Corpo de Cristo, quando a mesma age como um organismo vivo, que glorifica a Deus quando descobre e exerce de maneira integral através de seus membros, os ministérios com os dons outorgados pelo Espírito Santo. A igreja para crescer como Corpo depende de cada um, quando temos certeza de nossos dons, naturalmente nos esforçamos por praticar e desenvolve-los como simples servos de Cristo. 

Ajuntamento de de pessoas não é o indicador para medir se uma igreja está crescendo. É na prática dos dons e talentos em favor dos outros é que vemos quando uma comunidade está amadurecendo e sendo relevante onde ela está plantada, de maneira natural.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

CRESCIMENTO NATURAL DA IGREJA I

É essencial que entendamos que cada cristão, em cada igreja local, recebeu de Deus algumas capacidades espirituais especiais para cumprir seu ministério. Chamamos esta capacidade de dom espiritual (I Cor 12.7,11,18). Além disso, a Palavra de Deus afirma que o propósito de cada pastor e presbítero é cuidar do seu povo, como um pai faz com seus filhos (I Pe 5.2-4). Quando falamos dos líderes da igreja local uma das suas características é sobre sua capacidade de liderar não apenas a igreja como sua família. Mesmo sendo constituídos por homens, e sujeitos a queda, a autoridade final em autoridade não é o Conselho, mas Cristo como cabeça. (Ef 5.23). O Espírito Santo deve ser reverenciado por meio da liderança espiritual daqueles que estão exercendo as funções como um bispo ou presbítero. Mas há necessidade de que estes sejam pessoas maduras segundo a Palavra de Deus (I Tm 3.4-5).

Outra verdade que devemos ressaltar, é de que pequenos grupos que se reúnam para compartilhar, são tão importantes como o culto de domingo no templo. Encontramos na Confissão de Fé a seguinte afirmação: “Agora, sob o Evangelho, nem a oração, nem qualquer outro ato do culto religioso é restrito a certo lugar, nem se torna mais aceito por causa do lugar em que se ofereça ou para o qual se dirija, mas, Deus deve ser adorado em todo o lugar, em espírito e verdade, tanto em famílias diariamente e em secreto, estando cada um sozinho, como também mais solenemente em assembleias públicas, que não devem ser descuidosas, nem voluntariamente desprezadas nem abandonadas, sempre que Deus, pela sua providência, proporciona ocasião” (CFW XXI, 6). 

Em matéria de fé, devemos olhar como Deus olha, pois o seu agir por meio do Espírito Santo não está reservado a dias e horas, mas segundo a sua livre iniciativa na vida das pessoas, seja em um espaço como o templo, bem como nas casas, e lugares até mesmo pouco ambientais para o serviço religioso (At 2.46; 5.42; Jo 3.8).

Com relação a pregação na igreja a Bíblia nunca ensinou que o tipo correto de pregação na Igreja, deve ser evangelística, até porque não existe um tipo específico de pregação. (I Tm 4.13-16). O ensino fiel das Sagradas Escrituras é a fiel exposição das Escrituras. Por isso, devemos ter uma visão correta para o que deve ser o serviço de culto. Através da livre iniciativa do Espírito Santo, Ele regenera por meio das Escrituras, mesmo quando não intencionamos “converter” as pessoas. 

A maior prova de que alguém é um verdadeiro discípulo de Cristo é a de que esse vive em comunhão com outros e se importa com pessoas. No que se refere a devolver o dízimo na igreja e a fazer ofertas, isso torna-se uma questão de fé, e deve ser observável, tanto quanto essa pessoa se torna fiel em manter a comunhão uns com os outros. (João 13.34-35 e I João 1.7)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Despeço-me do culto espetáculo

O mundo sofre... Crianças gemem e morrem. Diante dos horrores da história, abandonei a pretensão de ser abençoado. 

Qualquer prece, com um mínimo de senso ético, deve considerar os mais sofredores. Quem se atreveria a furar a fila da bênção onde esperam africanos exilados e haitianos sem-teto? Um Deus que dispensa bênçãos, prioritariamente, sobre quem tem olhos azuis não merece a atenção de ninguém. Repetir que ele é uma divindade irada, sempre pronta a castigar, não mete medo, apenas aversão. Se existe um Deus que na hora de distribuir maldições começa pelos mais miseráveis, ele deve ser tratado como um demônio. Não desejo continuar com uma fé que espera milagre de um Deus tribal. A divindade que fazia chover apenas no quintal dos seus queridos, não faz sentido para mim. A noção primitiva de um Deus que afugenta gafanhotos quando vê obediência e que destrói plantação e causa fome diante do erro, não me seduz. Benção e maldição retributivas não condizem com o amor gratuito de Deus em Jesus. Deus jamais se valeria do papel do bedel indignado que abandona bilhões à míngua.

Sem instrumentalizar a espiritualidade, desejo transubstanciar fé em ações; desde o silêncio contemplativo, cumprir a missão de incluir o marginalizado, valorizar o desprezado e cuidar do esquecido. O seguimento - do verbo seguir – de Jesus nasce de corações calmos. Um cristianismo existencial se tornou a melhor expressão para a minha piedade. Noto que liturgias centradas em emocionalismo desmerecem a tradição profética dos dois Testamentos. 

Desde Isaías, cultuar só tem sentido se a justiça é protegida. Deus não tolera ajuntamentos e cerimônias autocentradas. Fazer culto para buscar o seu favor agride os céus. A verdadeira adoração disponibiliza pessoas para cuidar de órfãos e de viúvas. A verdadeira religião, segundo Tiago, consiste em cuidar dos mais esquecidos. Qualquer verticalização de louvor só tem sentido quando promove a horizontalização do serviço. Espiritualidade cristã autêntica reconhece Deus no rosto do pobre, do nu, do faminto, do desterrado. Tudo o mais não passa de individualismo travestido de religião piegas.

Despeço-me do culto espetáculo. 

Não quero estar em ambientes frenéticos. Anseio por reuniões que celebrem a graça sem paranóia, sem alguém tentando infundir culpa. Quero participar de comunidades leves, sem a afetação do glamour do mundo; uma igreja onde os sorrisos sejam gratos e os abraços, sinceros. O caminhar de Jesus não combina com espaços espetaculosos. Os valores do Reino prescindem dos holofotes.

Juliano Fabricio

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

COMO PODEMOS VIVER UM 2014 MELHOR?




Alegrai-vos sempre no Senhor (Filipenses 4.4)


Se formos seguir o curso deste mundo no qual vivemos, não temos muito que nos alegrar com respeito às expectativas no novo ano. Por isso gostaria de sugerir que você e eu pudéssemos inaugurar 2014 com alguns princípios básicos para nossa vida ser melhor do que 2013:

1º ) Em 2014, esteja certo que o novo ano não será melhor, se você não for melhor.Temos uma noção equivocada que se orarmos muito pelo ano que entra, teremos muita saúde, prosperidade e conforto. Isto é uma fantasia. A grande diferença entre um ano e outro é que os tempos serão melhores se pessoalmente tomarmos a decisão e tivermos perseverança de tratar nosso interior, isto é, nosso coração. Melhoramos sempre quando deixamo-nos ser tratados e quando somos ensináveis. Se continuarmos a pensar que dependemos de tempos e períodos de anos para nos sentir melhores, jamais o seremos. Esta ideia acaba por nos levar a demonizarmos as pessoas que estão ao nosso redor e esquecer que nós, pessoalmente, precisamos mudar interiormente, para que vejamos até mesmo nas calamidades, a presença de Deus.

2º) Em 2014, esteja certo que seguir os passos do discipulado de Jesus será bem melhor do que seguir a filosofia da sociedade atual. Outro ledo engano quando chegamos às portas de um novo ano é acreditarmos, mesmo passivamente, que a filosofia de nossa sociedade, manifestada pelos meios de comunicação, são interessantes e positivos. Há muitas igrejas que pregam a necessidade de sermos prósperos financeiramente e fisicamente como sinal da presença divina e o contrário como sinal de maldição. Por isso vemos tão poucas pessoas se doando por outras, pois a doação sugere renúncia e dedicação. O discipulado de Jesus elimina esta máxima demoníaca da prosperidade e nos leva a entender que somente há verdadeira felicidade quando aprendemos a ser verdadeiramente discípulos de Jesus vivendo em prol dos outros. 

3º) Em 2014, esteja certo que você poderá ter tantas oportunidades de alegria, se seus motivos de viver forem se alegrar em Cristo todos os momentos. Imagine se o apóstolo Paulo que estava encarcerado ao escrever aos Filipenses, segundo o texto bíblico acima, dependesse de circunstâncias e momentos para viver a alegria em sua vida? Pelo contrário, sua relação com o Senhor é que mudava o seu coração mesmo quando as oportunidades fossem as piores possíveis. Temos uma visão equivocada que podemos ter um ano novo melhor, se possuirmos coisas, objetos, se tivermos ascendência social e educacional, se conquistarmos títulos e ganharmos mais dinheiro. Essa é a filosofia do diabo. A verdadeira alegria não está nas coisas e sim unicamente no desenvolvimento de uma relação profunda com a Trindade Santa. 

Essa é minha ideia e meu conselho, antes de pensar no ano que virá, pense na pessoa melhor que você poderá ser em comunhão com o Deus da vida. Um Feliz 2014, em Cristo! 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

MOISÉS, JESUS E YASMIN

“Em Ramá se ouviu uma voz, lamentação e grande pranto: Raquel chorando os seus filhos, e não querendo ser consolada, porque eles já não existem”. (Mat 2:18)

Em nossa Sociedade o Natal não é apenas tempo de muita comida e bebida sem sentido, mas também de expressões sem sentido, palavras sem sentido e manifestações inócuas. Vivemos a Era dos eventos insanos e também histéricos. Há muita gente que celebra o Natal sem razão de ser, sem sentido algum. Alguns usam o período natalino até para cometer os atos mais desumanos e monstruosos que revelam o quanto, sem o Natal verdadeiro o “ser humano” é um “humanóide hedonista”.

Os primórdios destes atos monstruosos toma lugar no Egito Antigo quando do nascimento do grande libertador do povo de Israel. Devido ao crescimento numérico dos filhos de Israel no Egito, o Faraó decide exterminar todo menino que nascesse dos hebreus, por receio de que o povo que vivia escravo se tornasse mais forte que os egípcios. Por medo, Faraó mata milhares de crianças, mas por intervenção divina Moisés, um menino recém-nascido jogado às águas do Rio Nilo é resgatado pela filha do Imperador. É salvo, e torna-se conhecedor de toda a ciência egípcia e o grande libertador de Israel.

Belém tornou-se também um lugar controverso. A noite de Natal trouxe fé, paz e esperança, Jesus, filho de José e Maria, o filho de Deus acaba de nascer. A festa envolve a terra e o céu. Todavia, a alegria é trocada pelo pranto e desespero. Assim como Moisés, o grande libertador de Israel foi salvo de um infanticídio, Jesus Cristo foi poupado da insanidade de Herodes, o Tetrarca. Cheio de ira e tomado de medo, o incapaz rei extermina todas as crianças daquela pequena vila. Jesus é salvo, quando em sonhos José é avisado previamente e tomando Maria fogem para o Egito a fim do Menino-Deus ser guardado do Maligno. O evangelista Mateus, faz questão de registrar este fato em analogia a Moisés. 

Mas Yasmin, não teve a mesma sorte. Yasmin foi encontrada morta na segunda-feira dia 09/12, em uma obra, um dia após ter saído da casa da avó para ir até a feira onde a mãe estava trabalhando. No entanto, a menina não chegou ao destino. Após o sumiço, familiares e policiais chegaram a procurá-la, mas não a encontraram. Isso se deu em Catalão, uma cidade de porte médio no estado de Goiás. Não houve um "anjo", não houve uma "princesa" que a resgatasse das mãos do terrível estuprador. Juntamente com ela o Natal também se reveste de tristeza e dor, de indignação e crueldade. Yasmin é mais um caso perdido em uma Sociedade que banaliza vida e os que dizem acreditar no Menino-Deus se calam diante das atrocidades.

Para nossos dias, portanto, o Natal somente tem sentido se continuarmos crendo que por causa do amor a humanidade, Cristo se deu por todos, e num misto de esperança e senso de justiça, foi o menino Jesus poupado quando criança, porém cruelmente morto pela insanidade dos líderes políticos e religiosos que preferiram dar cabo de sua vida do que se submeterem a lei do amor que Ele plantara. 

O Natal somente faz sentido se como cristãos, continuarmos a lutar por justiça social e política, elementos que estarão presentes no Novo Reino do Messias, o Cristo. Enquanto a igreja cristã continuar subserviente ao Estado, aos líderes manipuladores das grandes massas religiosas, ainda muitas Yasmins continuarão morrendo tragicamente porque não tem havido fome e sede de justiça por parte de muitos que se dizem crentes em Cristo.

Natal não é somente festa, é tempo de rededicação e de compromisso com o Reino factível e verdadeiro, que rompe com as amarras da injustiça e da escravidão moral e da insensibilidade massificante. Natal só será Natal se fizermos mais do que apenas visitarmos os templos religiosos para nos desincumbir de nossos sentimentos de culpa, por não termos “tempo” para estendermos as mãos às Yasmins de hoje que morrem pela banalização da vida, seja no Brasil, seja em qualquer parte deste mundo.

Que o Senhor tenha misericórdia de nós!

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

COMO ELE AMOU O UNIVERSO



Deixou de soprar o fôlego de vida para receber oxigênio pelo cordão umbilical. Deixou de colocar o universo na palma de sua mão para ter sua mão formada no ventre da jovem mãe. Deixou agradáveis perfumes dos céus para nascer em meio ao fétido estábulo. Deixou de assentar-se no sublime trono para dormir na manjedoura improvisada de palha.



Deixou de emitir voz de retumbante trovão para exprimir-se através do choro rouco recém-nascido. Deixou o aplauso de toda criação em troca de ser levantado pelas mãos de um velho no templo. Deixou de comandar os exércitos celestiais para fugir da matança, ainda bebê, carregado no colo. Deixou sua posição de quem tudo sabe (e como sabe!) para sentar-se no banco escolar da sinagoga.



Deixou as riquezas imarcescíveis para viver do rendimento de um simples marceneiro. Deixou de caminhar em ruas de ouro para andar em estradas poeirentas. Deixou festas no paraíso para estar em jantares com coletores de impostos. Deixou a adoração de serafins e querubins para ouvir desaforos e provocações.



Deixou de tocar as estrelas para tocar nossas feridas. Deixou de chamar as estrelas pelo nome para chamar, pelo nome, muita gente humilde. Deixou coros celestiais para ouvir sussurros e gemidos de miseráveis. Deixou de ser servido pelos anjos para servir os marginalizados.



Deixou a posição de Senhor para tornar-se o mais humilde servo. Deixou todo conforto do palácio para enfrentar as dores mais intensas. Deixou de viver acima e distante para viver bem pertinho no nosso meio. Deixou de agir como Deus, sem deixar de ser Deus, para agir como gente comum.



Deixou seu trono alto e sublime para fazer amigos. Deixou seu sangue ser derramado para fazer irmãos. Deixou sua vontade própria para tomar do cálice. Deixou-se morrer para nos ressuscitar.



Deixou o que não precisava deixar. Deixou pra trás o lugar onde todos desejariam estar. Deixou tudo para não nos deixar. Deixou tudo para nos salvar!



Rodolfo Montosa

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

“NESTE NATAL, ARRUME SUA CASA”

“Não havia lugar para eles na hospedaria” (Lucas 2,6)

Aquele que fez o Universo, que criou as dimensões visíveis e invisíveis, que criou os sistemas destes mundos, que confeccionou tudo o que existe, desde a menor célula até o maior astro, aquele que culminou toda a sua criação com o ser humano – sua própria imagem e semelhança, aquele que embora já humano, tomou a decisão de encarnar a fim de resgatar o próprio mundo separado dele. Aquele que buscou em todos os momentos prover a restauração do relacionamento Criador-criatura – pois só há razão do cosmos existir quando há profunda comunhão do Céu com a Terra, ao tomar a forma humana, não encontrou sequer um lugar para poder nascer como qualquer ser humano nascera.

Assim como os belemitas não abriram as portas de suas casas para acolher José, Maria e o Menino-Deus - o Desenhista do Universo - ainda hoje, os seres humanos continuam a não acolhê-lo. A famosa frase “veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.11), “latu senso” envolve a todos os que de fato foram criados e amados por Deus, na pessoa de Cristo e que não o receberam em seus corações.

O homem continua a rejeitar Cristo. Esta rejeição por vezes até parece não existir, pois muitos falam de Deus, nações falam de Deus, igrejas falam de Deus, porém embora discursando sobre Deus, muitos ainda nem sequer o conhecem. Não somente os ateus, mas os que se dizem cristãos, precisam abrir as portas de suas vidas ao verdadeiro Cristo, pois muitos se abrem para uma ideologia cristã, um programa cristão, para uma denominação eclesiástica, para um sistema de vida diferenciado, para uma liturgia ou um tipo de culto, para um pensamento que envolva as doutrinas cristãs, mas continuam fazendo o que os moradores da cidade de Belém fizeram ao ponto de deixá-lo nascer em um dos locais mais insalubres, num curral - recinto onde se recolhe o gado. É num local imundo onde ainda mantemos o Criador-do-Universo.

Cristo precisa nascer no coração do ser humano. Porém ele é também imundo. O Santo Menino-Deus não faz caso de nascer neste local, pois assim como nascera isento de pureza física e o purificou com sua santidade, maior problema seria nascer em um local de impureza espiritual. Eis aí o coração humano – o local mais inóspito e sujo do mundo todo.

Neste Natal, ao celebrar mais uma vez a Encarnação do Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, não deixe a sua casa desarrumada e desarranjada, cheia de imundície. Abra-se a possibilidade, com fé, de começar a conhecer a Cristo e permita que ele entre em sua casa-interior. Jogue fora a sujeira que se acumulou durante o ano todo. Somente assim você estará nascendo para quem já nasceu e morreu para que por meio da sua ressurreição você possa viver eternamente.

domingo, 8 de dezembro de 2013

PRINCÍPIOS PARA A VIDA QUE JAMAIS DEVEMOS NOS ESQUECER

Parênese por ocasião da sessão solene de Formatura no Seminário de Educação Cristã - SEC
2Tm 4:1-5: Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério. 

Excentíssima Sra. Daisy Santos Correia de Oliveira –  Presidente do Conselho Administrativo do SEC; Mui Digna Profa. Ábia Saldanha Figueiredo - Diretora Executiva do Seminário de Educação Cristã; Excentíssimo Prof. Ivanildo Alves Lopes, Coordenador Acadêmico do SEC, Excelentíssima Profa. Mônica Cristina Santos Torres - Patronesse da Turma de formandos 2013; Excelentíssimo Prof. Pr. Ney Ladeia – Pastor Titular da Igreja Batista da Capunga, a qual nos hospeda neste momento; Queridas formandas, querido formando, Digníssimos Professores e Professoras, funcionários e funcionárias da Casa, demais irmãos e amigos em Cristo Nosso Senhor.

Falar nestes últimos momentos quando nos despedimos de pessoas queridas com quem convivemos de perto, não é tão simples assim. Nossa vida sempre é marcada pelas saudações dos começos e pelas despedidas das conquistas. Lembro-me aqui da despedida do apóstolo Paulo dos irmãos da igreja de Éfeso quando no livro de Atos dos Apóstolos (20.17ss) narram uma das passagens mais lindas onde revela o quanto Paulo e os seus presbíteros eram amigos, mais chegados que irmãos. Paulo ali dá aos mesmos um relato sobre sua vida, conselhos e revela um coração cheio de emoção. 

Deus tem seus tempos de abraçar e tempos de deixar de abraçar. Estar no serviço do Senhor requer coragem e ousadia para que seu nome seja levado até os confins da terra e conviver com as despedidas também. 

Durante estes anos que passamos juntos, posso observar que tivemos alguns pontos em comum: Convivemos juntos nas aulas de segunda feira à noite, passamos pelas provas, provações, necessidades e alegrias. Não apenas tratamos sobre conteúdos das disciplinas, mas também compartilhamos as coisas da vida. Tivemos o privilégio de chorar com alguns e nos alegrar com todos. O Currículo do programa foi conquistado passo a passo, semestre após semestre. Sabemos que nem tudo, vocês puderam absorver completamente, mas vocês mesmos irão posteriormente usufruir das matérias estudadas como ferramentas no Campo Missionário e Ministerial. 

De agora em diante vocês começarão a andar com seus próprios pés, aprenderão na prática as questões que puderam apenas ver na teoria. A maior lição que podemos aprender é de que sempre seremos aprendizes. Enquanto formos discípulos do Mestre Nosso Senhor Jesus Cristo, sempre estaremos no nível de alunos. Aprendizes, sobretudo no conhecimento da intimidade com Deus, dos seus segredos, dos seus desejos, do seu plano. Seremos discípulos para aprender da Autoridade Divina, do Poder Divino, mas também da Misericórdia Divina.

Eu não posso esquecer de dizer sobre o cafezinho! Ah o cafezinho no intervalo! Não posso deixar de agradecer o cafezinho, às vezes com torrada, às vezes com bolachinha. Vocês sabem cuidar de seus professores. Muito obrigado!

Durante três anos, vocês viram, e ouviram muitas palavras, frases, sermões, aulas, orações, mas mesmo que vocês se esqueçam de tudo que vocês ouviram e viram, mesmo que tenham momentos de colocar em jogo tudo que vocês pensam acerca de seus ministérios, eu gostaria de deixar quatro conselhos que para mim são inegociáveis para alguém que está engajado e comprometido com o ministério missionário de Cristo, coisas que, se vocês perderem tudo, se tudo o que vocês planejarem não der certo, se aquilo que vocês esperavam não acontecer, se vocês passarem pela pressão do ministério, por provas, por aflições, seja a situação que vocês passarem aqui, ou onde estiverem nunca se esqueçam destes quatro conselhos que deixarei para vocês:

Em primeiro lugar, “Nunca abram mão de seus princípios”: 
O monge agostiniano e reformador da igreja do séc. XVI, Martinho Lutero na Dieta de Worms, quando convocado para se retratar diante do Papa e do Rei Carlos V fez a seguinte afirmação: “A menos que vocês provem para mim pela Escritura e pela razão que eu estou enganado, eu não posso e não me retratarei. Minha consciência é cativa a Palavra de Deus. Ir contra a minha consciência não é nem correto nem seguro. Aqui permaneço eu. Não há nada mais que eu possa fazer. Que Deus me ajude". 

Os métodos, formas, didática, adequações para melhorar a vida não são mais importantes que os princípios que devem reger uma vida. Os princípios a gente vai levar para o túmulo e para a vida eterna, por eles vivemos, por eles morremos. Pelos princípios que temos dentro de nós é que nos doamos a pessoas, aos projetos e planos e por outros que talvez nunca iremos conhecer. Uma pessoa sem princípios é alguém sem passado, sem presente e sem futuro. Alguém que não sabe o que é, e nem para que veio fazer aqui neste planeta. As pessoas que realizam alguma obra, um feito, deixam gravados na história os seus princípios. Quando negociamos estes princípios nos tornamos “massa de manobra” de outros que detêm o poder das massas e manipulam o povo a partir de suas paixões. Nos tornamos marionetes e fantoches da história de outros. 

Na missão de Deus, somos servos de Cristo, servos que possuem os princípios de Cristo, que embora aprendendo a submissão a Deus, não podemos deixar de reger a nossa vida por princípios que a Palavra de Deus comunica aos nossos corações. A frase histórica de Martinho Lutero nos ensina a manter a palavra até mesmo quando nossa reputação está sendo questionada e colocada em jogo. Se vocês alimentarem sua relação com Cristo e desenvolverem a comunhão com Ele, buscando ser seguros na Palavra, na confiança, no caráter, então seus princípios serão preservados e acima de tudo vocês glorificarão a Deus e serão agradáveis a Ele. Portanto não se esqueçam de viverem pelos seus princípios.

Em segundo lugar, “Nunca abandonem a fidelidade a Deus”: 
Uma das passagens bíblicas que mais marcaram a minha vida quando estudava no seminário era a de I aos Coríntios 4.2 que diz: “Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros é que cada um seja encontrado fiel”. É verdade sim que para Deus ninguém é fiel, porque todos são pecadores e somente são o que são pela graça de Deus. Nossa busca pela fidelidade é o nosso ideal. Ser fiel a Deus como ideal é viver na busca de ser parecido com Cristo. Hoje este ideal de vida, isto é “ser fiel a Deus” ou se tornou coisa de somenos importância ou tem sido um mero chavão verbal usado pelos crentes e lançado ao ar sem o menor compromisso com Deus. Hoje é possível você estar na liderança eclesiástica e continuar mantendo um procedimento questionável, é possível ser um religioso, um pastor, um presbítero, um líder missionário, mas sem compromisso com Deus e Seu Reino. O texto de 1ª. aos Coríntios deve ser não apenas o lema de nossa vida, mas a motivação para nosso ministério. Pode ser que vocês não sejam ótimos e ótimas nas línguas originais, em Grego, Velho Testamento, Missiologia, mas uma coisa vocês não podem deixar de ser: fiéis a Deus. Quando digo fidelidade a Deus digo acerca de questões práticas: Como vocês estarão sendo mordomos de Deus. Como administrarão o tempo, o dinheiro que receberão, a sua profissão, o trabalho de evangelização entre tantas coisas. Como serão fiéis a Cristo na submissão às autoridades constituídas sobre vocês. Isto significa que buscar ser fiel a Deus, resulta também em uma contracultura cristã. Fidelidade até para poder se posicionar diante daquilo que é certo e daquilo que é errado. Elden Peterson diz: "Se o seu inicio foi desastroso, não se preocupe. O que realmente importa é a maneira como você irá terminar." Fidelidade não olha para quanto você faz, mas como você faz. Fidelidade não fala sobre início maravilhoso, mas em término vitorioso. Portanto nunca abandonem a busca por serem fiéis a Cristo.

Em terceiro lugar: “Nunca abandonem a Integridade”. 
Morris Mandel, um judeu polonês radicado nos Estados Unidos certa feita afirmou: "Integridade: Um nome que traz consigo um selo de tudo aquilo que chamamos de caráter. Você pergunta: ‘O que é um nome?’ Eu respondo: ‘Tudo aquilo que você faz’.

Hoje vivemos uma crise de integridade. Há muita gente com Carisma, mas sem caráter. As pessoas não estão tão preocupadas mais com esta virtude interior. Apenas vêem as coisas e as pessoas como produto de marketing. O ditado que diz que os fins justificam os meios, tem campeado até dentro das igrejas. 

Integridade é o selo de nossa vida. É o quanto você vale. Isso não significa se você é a pessoa mais completa, pois integridade não quer dizer isso. Integridade tem a ver com dignidade. A coisa mais terrível é quando o seu nome e a sua dignidade são colocadas em cheque. A integridade não se adquire da noite para o dia. É preciso tempo. É preciso experiência. É preciso levar em consideração o que já se fez, é preciso ter história. E esta história se for digna, parecida com a de Nosso Senhor, revelará o caráter de Cristo que há em você. Esta integridade deve nos conduzir a persistirmos mesmo em tempos chamados “difíceis”. Quando nos lembramos dos fariseus e saduceus da época de Jesus, vemos claramente que eles eram muito devotados a Lei ao sistema social e religioso, mas não possuíam integridade não passavam de pessoas vazias. O Rei David era íntegro não porque era completo, mas por que era sincero e verdadeiro para com Deus. Seus Salmos revelam o quanto ele o amava apesar de tantas vezes ter sido reprovado. Tantas quantas foram suas reprovações tanto quanto revelou o coração sincero para com Deus, isso é dignidade, isso é integridade. Portanto, não abandonem a busca pela integridade. 

Em quarto lugar, “Nunca percam a visão missionária”. 
A visão tem a ver com amplitude dos olhos de Deus. Nem todos estão indo aos campos missionários, mas todos devemos ver a mundo como Deus vê. Hoje o que melhor temos em nossas igrejas é a missão e visão missionárias restritas a um departamento ou um grupo que fale ou faça a missão. Para que a missão de Deus seja eficaz em nós precisamos de igrejas visionárias. A visão de Deus é que fará de vocês grandes pessoas. Não podemos olhar apenas para nossas denominações, temos que olhar para o Reino de Deus. Quando olhamos como Deus olha e vemos como Deus vê, aprendemos a nos submeter ao Espírito Santo que é como um vento que “sopra onde quer, e não sabemos de onde ele vem e nem para onde vai”. Uma das frases mais impressionantes do Pai das Missões Modernas, o missionário William Carey é: “Esperai grandes coisas de Deus, Empreendei grandes coisas para Deus”. É a visão que nos motivará a dinâmica da vida e de nossos ministérios. São as obras que são a consequência de nossa visão. É a visão que nos fará pessoas determinadas e persistentes, é a visão que nos fará correrem riscos por amor a Jesus. Portanto, jamais percam a visão missionária.

Termino com outra frase, desta vez de Lester Sumral. Ele diz: "GENTE VITORIOSA SÃO PESSOAS MUITO ESPECIAIS. SÃO AQUELAS PESSOAS QUE TEM A HABILIDADE DE VER ALEM DOS PERIGOS, DOS RISCOS, DOS OBSTÁCULOS E DAS DIFICULDADES." 

Que Deus os abençoe. Seja o que acontecer se lembrem dos seus princípios, da sua fidelidade a Cristo, da busca de uma vida com integridade e jamais deixem de ver o mundo com os olhos de Cristo, essa será a visão missionária de vocês. E esperem aquela grande declaração de Nosso Senhor quando vocês estiverem diante dele: “Servo bom e fiel, foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei”! 

Sim, mais uma vez, muito obrigado pelos cafezinhos no meio das aulas.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

“NATAL DESNATADO”


“Guarda o depósito que te foi confiado, por meio do Espírito Santo que habita em nós” (Paulo a Timóteo, II – 1,14)
Nosso tempo se caracteriza pelo esvaziamento dos conteúdos. Nossa sociedade enaltece e honra os que têm aparência, mas não tem essência. Somos a cultura da música que balança muito, mas não encanta nada. Somos um mundo de modismos que vai do sapato que usamos até o penteado que fazemos. Enfim, nossa cultura é a cultura do vazio. 

No que se diz respeito a manutenção dos costumes e da história o mundo ocidental tem perdido as tradições, os ritos de passagem e as cerimônias que fazem parte da natureza do ser humano. Logo, estamos nos desumanizando com tanta rapidez que não damos mais o devido valor a nada, por que não há mais nada de valor em que fazemos. Não há mais conteúdo.

Assim são as festas, assim é a religião. A religião que se vive não é religião. É uma confusão de ideias e a cada instante os que dominam a religiosidade do povo tem que inventar algo diferente porque a sociedade é impaciente e logo perde o “afã” pelas coisas e pelos acontecimentos. Os pregadores agora devem ser animadores de auditório a fim de atrair outros pela novidade. 

As festas religiosas como o Natal também passa pela mesma necrose. Há muito que ele já morreu, dando lugar meramente às motivações comerciais. As igrejas evangélicas já não falam dele e nem mais o querem celebrar. Não possuem lastro histórico e o consideram como uma festa mundana qualquer.

A igreja cristã primitiva e dos pais apostólicos ensinava a preservar a celebração da Encarnação de Deus. O apóstolo Paulo ensinava ao seu discípulo Timóteo a preservar o depósito da fé, as tradições que alimentavam a alma e que geravam a esperança no coração da igreja. 

Hoje somos desafiados a guardar a celebração da Encarnação de Deus como o grande acontecimento da vida para toda a humanidade. Deus se fez gente. Encarnou-se, veio para viver o que ele nunca havia experimentado antes: ser humano, plenamente humano a fim de humanizar o que homem desumanizou. 

Nestes dias, preparemos nossos corações para exaltarmos e glorificarmos ao Filho de David que é ao mesmo tempo o Filho de Deus. Aquele que abriu mão de sua glória e se esvaziou, tornando-se semelhança de homem e tendo assumido a forma de escravo foi obediente até a morte e morte de cruz. Exaltemos aquele que embora possuindo a imortalidade se fez mortal a fim de que recebêssemos a imortalidade pela fé. Alegremo-nos pelo Natal condensado, rico e verdadeiro e abandonemos o Natal que embora tão pomposo e cheio de glamour não passa de um "natal desnatado".

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

“EU CREIO NA IGREJA, DE CRISTO”


“A igreja só é igreja quando vive para os outros” (Dietrich Bonhoeffer, pastor enforcado por Hitler)

Estou na busca de um Deus que se preocupa com gente. Que é gente como a gente. Também estou na busca de uma igreja que viva como este Deus vive, pensando em gente e se relacionando com gente. Que não faz barganhas com a gente. Por isso esta busca às vezes me parece muito difícil, pois achar uma igreja que se parece com gente está difícil nos nossos dias. 

Igreja que troca a fé pelo dinheiro, que vende o sacramento, que patrulha a vida uns dos outros, que populariza os seus líderes, sim, este tipo de igreja existe por demais e das maneiras as mais diversificadas no nosso tempo. Igrejas locais que se parecem mais com empresas por que são dominadas e lideradas por pastores e líderes-executivos, há muito. Igrejas que dependem única e exclusivamente de eventos, shows de final de semana, de “alvoroços espirituais”, há muito. 

Estou na busca incansável de uma igreja onde a gente é atraído a Cristo e não ao programa da igreja. Não, com certeza, Cristo não está nos negócios de marketing delas, Cristo não está nas politicagens de seus líderes, Cristo não está nas “fofocas” da semana que seus membros tratam uns com os outros pelos celulares e whatsapps. Estou buscando uma igreja em que todos se sentem valorizados pelo que são e não pelo que possuem. Estou na busca de uma igreja onde seus fiéis não vivem de melindres, pois estão certos que se são discípulos de Cristo, precisam sempre aprender a viver sob a necessidade de disciplina e orientação.

Estou buscando uma comunidade onde todos anelam encontrar sua posição dentro do Corpo que é de Cristo e não de um corpo que depende de conchavos e sanguessugas que parasitam e paralisam as ações do verdadeiro Espírito Santo, que o espremem dentro de um corporativismo engessado e padronizado. Busco uma igreja onde compartilhamos a mesma fé, mas de experiências as mais variadas. Busco uma igreja onde viver a vida de modo simples e comum é o maior prazer de todos. Busco uma igreja onde todos estão na caminhada de aprenderem a responder a todo aquele que pedir razão da esperança que há neles. 

Estou na busca de uma igreja que está conhecendo a Cristo pela oração como meio de graça. Que faz da oração o instrumento de conhecimento do Espírito Santo e não um amuleto para que muitos se deem bem na vida. Estou na busca de uma igreja que pela sua maturidade espiritual, não está vivendo para si, para seus projetos, para sua denominação, mas para o Reino de Cristo, pois é isso que realmente importa. Por causa dele que Cristo se fez gente e se entregou por gente. É por causa dele que estou na igreja, buscando fazer da igreja um pouco do que seja o Reino de Cristo.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

LONGE DO OLHOS, LONGE DO CORAÇÃO



Conta-nos uma das parábolas de Nosso Senhor que havia um “homem rico” e todos os dias vivia na luxúria e das coisas boas da vida. Mas fora de seu portão vivia deitado um mendigo, chamado “Lázaro”, todo coberto de úlceras, o qual desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico, e os cães vinham lamber-lhe as feridas. O mendigo morreu e foi para o Paraíso e o “homem rico” foi para o Hades. Alguns acham que nesta história o fim do “homem rico” foi cruel porque ele possuía muito dinheiro e o mendigo foi para o céu porque era pobre. Ledo Engano. O “homem rico” não tinha olhos para ninguém a não ser para ele mesmo, sua fé era egocêntrica e seus pensamentos orbitavam em torno dele mesmo. 

Nesta semana os meios de comunicação anunciaram que um dos maiores tufões da história varreu as Filipinas. Milhares morreram e milhares ficaram sem casas. A mídia televisiva que geralmente é norteada pelos países ricos, pouco fala sobre isso, pois não estão interessados nos problemas dos países pobres. Quando estes mesmos problemas abatem os países ricos que estão além da “linha do Equador” a comunidade mundial lamenta-se incansavelmente e assim as orações e a assistência dos crentes parece incansável. No fim, somos mais dirigidos pela Mídia Elitizada do que pelo amor desinteressado. Nosso interesse pelos problemas dos outros só é importante quando temos algo a ganhar com a solução destes mesmos problemas. O que pensar sobre os problemas que abatem a Síria, o Sudão e a Etiópia, a seca que aflige o Sertão Nordestino e os drogados ao lado de minha casa? Eles parecem não serem tão interessantes quanto os problemas estéticos da residência de nosso vizinho mais rico. 

O que quero apontar é de que nós sofremos e oramos apenas por aqueles que nos interessamos. Portanto necessitamos aprender a ver em todos e em tudo motivos para nossa oração despretensiosa. Orar e agir despretensiosamente são parte da vida do verdadeiro cristão, daquele que como Jesus Nosso Senhor via a todos como “ovelhas que não tem pastor”. Que também estejamos atentos para que não sejamos levados pelas vozes da mídia elitizada que nos engoda.

Nossa fé deve ser a fé que considera a todos: pobres e ricos, que ora por todos, mas que também presta assistência a todos. Que o espírito do “homem rico” seja extirpado de nosso coração e que nossos olhos sejam iluminados não pela fantasia do demônio, mas pelo amor de Cristo que nos leve a sairmos de dentro de nós e nos torne instrumentos da graça que não escolhe a quem ajudar, por quem orar e a quem amar.

Ressurreição e Missão

“Então o lobo morará com o cordeiro” (Isaias 11.6)  Há uma crença equivocada na Doutrina da Ressurreição. Entre os cristãos atuais tra...