sábado, 8 de novembro de 2014

CRESCIMENTO DA IGREJA LOCAL

Será que você já se perguntou alguma vez? O que Deus deseja da minha comunidade local? O que as Sagradas Escrituras nos ensinam sobre a atuação de Deus na comunidade? 

O Crescimento da Igreja é como um processo de vida. Precisa ser visto como uma ação coletiva. Alan R. Tippet dizia que “um corpo cresce quando o faz nas diversas áreas da vida e reciprocamente”. Orlando Costas também afirmava: “O crescimento do Corpo de Cristo ocorre em vários níveis, é multidimensional”. Quando há um verdadeiro crescimento em uma igreja local podemos percebê-lo pelo menos em três dimensões: Quantitativamente (em números de pessoas), qualitativamente (em maturidade espiritual pessoal e coletivo) e organicamente (como Corpo de Cristo nos diversos ministérios, dons e talentos). Este crescimento deve ser equilibrado. Se uma dimensão cresce mais que outra haverá deformação. 

Portanto você deve se perguntar: “O que Deus deseja de minha comunidade local?” Se olharmos as diversas parábolas contadas por Cristo como a do grão de mostarda (Mt 13.31-32), como a do fermento (Mt 13.33), como a da rede cheia de peixes (Mt 13.47-50) ou como a da colheita no campo (Mt 13.24-30), vemos que em todas elas há consequências que falam de crescimento (Mt 16.18; Sl 22.27; 1 Tm 2.4; Jo 3.17). 

Então sua igreja precisa crescer de forma balanceada e cada um de nós temos uma participação efetiva nisso. O crescimento precisa envolver quantidade (É pessoal e social porque envolve um aumento no número de participantes no grupo e na família da Fé). O crescimento precisa ser orgânico (É coletivo e envolve o relacionamento horizontal entre os membros e congregados da igreja e o serviço de uns para com outros é fundamental). O crescimento precisa revelar maturidade espiritual (É pessoal, íntimo e vertical, porque envolve o relacionamento entre cada um de nós e a pessoa bendita do Espírito Santo). 

Vemos que o Espírito Santo, o "dono" de nossas vidas sempre trabalha de maneira equilibrada. Assim ele também deseja e nos encoraja a crescer, equilibradamente. Veja as ênfase: "... antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo (Efésios 4.15) ou "... e o próprio Deus de paz vos santifique completamente; e o vosso espírito, e alma e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo" (1ª Tessalonicenses 5.23) ou "um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei a vós, que também vós vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros" (Ev. João 13.34,35). Eles afirmam que todos, indistintamente, todos os cristãos devem manter comunhão contínua, serviço frequente e espiritualidade pessoal. 

Quero lhe perguntar: “O que aconteceu em sua comunidade ou grupo de fé até o dia de hoje”? Pense com sinceridade. Analise sua participação na igreja. Dentre os três tipos de crescimento, o qualitativo é o mais difícil de medir; o quantitativo é o mais fácil e o orgânico, apesar de fácil, precisa-se de muita análise. 

Mesmo que você não esteja frequentando há muito tempo uma igreja, vale a pena procurar fazer uma análise pessoal e comunitária para que você veja onde está e como a coletividade quer ir. Pense e tome uma decisão hoje mesmo de participar efetivamente do crescimento de sua igreja. Mas sempre equilibradamente, não segundo os homens e sim segundo o Espírito Santo. Comece a buscar o crescimento de sua igreja, só depende de você, para começar.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

UM MENINO OS CONDUZIRÁ!

Nosso país vive uma crise de autoridade. Autoridade que depende não somente de legitimidade para governar como condições e qualificações para o cargo. O sistema ao qual estamos submetidos sempre fala que autoridade tem aquele que é forte física e intelectualmente. O reino de Cristo apregoa uma autoridade daquele que é simples e menor aos olhos humanos. No evangelho de Mateus (18.1-6) a disputa dos discípulos era a respeito de quem seria o maior no Reino. Isto se deu pelo fato do acontecido no Monte da Transfiguração onde Pedro, Tiago e João tiveram o privilégio de estarem com Jesus. Porém o Senhor enfatiza de que a principal preocupação dos discípulos deveria ser entrar e participar do Seu reino. Isso é o que importa. Conquista, prosperidade, grandeza, investimentos, bens, estabilidade são palavras avessas ao reino de Cristo. Portanto, é essencial que entendamos algumas premissas para nos tornarmos parte deste reino eterno:


1) Mudança interior. Nosso Senhor afirma: “se não vos converterdes” (18.3). O melhor exemplo é o da criança. O reino começa dentro de nós. Tornar-se como uma criança é estar preparado para uma reviravolta completa nos propósitos e no destino de nossa personalidade. Os participantes deste reino se convertem ao princípio que rejeita os padrões mundanos e ordinários como honra humana, posição elevada, fama, preconceito, etc.


2) Simplicidade. Cristo nos afirma: “e não vos fizerdes como crianças.” (18.3,4). A simplicidade é a característica do reino de Deus. É o elemento vital de grandeza deste reino. Jesus mostra que é impossível ao homem desenvolver um relacionamento com Deus baseado em arrogância, opulência e força. A humildade do reino de Cristo é exemplificada na vida de uma criança. Quando o caráter é moldado pela simplicidade de Cristo, o comportamento faz diferença numa sociedade que prega o luxo, a discriminação, o preconceito, a duplicidade e o engano como tipos de sucesso.


3) Solidariedade. Ele também afirma: “qualquer que receber esta criança em meu nome a mim me recebe” (18.5). A solidariedade demonstra o cumprimento da Lei de Cristo: “Amar ao próximo como a ti mesmo”. Fazer parte do reino de Cristo é saber acolher e receber os que muitas vezes são estigmatizados pela convivência social. Assim vemos no exemplo de Jesus com a mulher samaritana, o cego de Jericó, o endemoninhado gadareno e com as crianças (desprovidas de maturidade e entendimento). A Solidariedade valoriza o ser humano (Fl 2.3).


sábado, 4 de outubro de 2014

E AGORA, JOSÉ? A igreja e missão: Uma reflexão



Não há outra igreja a não ser a igreja enviada ao mundo, e não há outra missão, a não ser a da Igreja de Cristo”. (Johannes Blauw)

Nosso século é o século das anomalias e doenças. Vivemos isso também no que se refere à religião. Há muitos que separam a igreja de sua missão. Acham que somente podem estar engajados em missão se estiverem “libertos” da igreja. Ledo engano. Nosso Senhor Jesus Cristo é conhecido como o “enviado” do Pai. Nos escritos de João, Cristo sempre é descrito como “aquele que foi enviado”. O fato dele ser enviado revela que sua mensagem era a sua pessoa. Seu projeto missionário era ele mesmo. Não há como separar Jesus de sua missão. 

Assim a igreja que o Espírito Santo constituiu é o Corpo de Cristo no mundo e também não pode ela ser separada de sua missão. Se quisermos encontrar uma igreja, ela estará em missão e se quisermos encontrar uma missão ela se apresentará como uma igreja. Devido às anomalias que vemos hoje em nosso século, alguns acreditam que podemos fazer nossa missão independente da igreja. Em contrapartida a igreja por olhar somente para si, abandonou a sua natureza missionária acreditando que é possível existir sem sua missão. Então faço esta pergunta: “E agora, José”?

Se o que vemos e ouvimos não desembocar em vida prática, de nada vale ouvir e ver. Se não houver dedicação, mais engajamento, mais compromisso de cada um de nós e ao mesmo tempo como coletividade, de nada vale. Se os departamentos internos de uma igreja local não se assumem como braços da missão da igreja de nada vale. Podemos gastamos muita energia, muito esforço e dinheiro em nós mesmos sem alteração de nosso mundo e de nosso contexto. Isso de nada vale.

Cabe agora o compromisso, o engajamento além de uma profunda reflexão, pois quanto mais sabemos e conhecemos, muito mais seremos cobrados e exigidos, não somente por Cristo, mas também pelo mundo. Nossas reflexões e ajuntamentos litúrgicos devem acontecer para sairmos do “casulo”, pensarmos e vivermos com uma mente aberta, deixarmos as nossas “caixinhas” e “zonas de conforto”, promovermos mudanças sérias que deverão mexer com tudo que somos e possuímos. Isso tem a ver com nosso orçamento financeiro e com nosso tempo, com nossa agenda e nossa Fé. 

É a hora de perguntar-nos: Qual o meu engajamento na Missão? Qual o meu papel no Corpo de Cristo? 

Quando separamos a missão da igreja, separamos a alma do corpo e acabamos morrendo. Somente há vida quando estamos em missão. John Stott afirmava: “Teologia sem prática é puro teologismo”. Se cada um assumir seu papel, seremos verdadeiramente Igreja, uma vez que não é possível ser cristão e continuar apático, passivo, sem compromisso, pensando somente em si, acumulando dinheiro e se apegando as coisas deste mundo.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

DEVOÇÃO E ESPIRITUALIDADE NA FORMAÇÃO MINISTERIAL

Há um diagnóstico extremamente sério na formação pastoral e missionária. Nos últimos anos, 71% dos missionários enviados para campos transculturais têm abandonado o campo por razões que poderiam ser evitáveis. No caso do Brasil o índice é de quase 25%.[1] Na área de formação teológica e pastoral, há que se notar um número excessivo de teólogos que congestionam os Concílios Eclesiásticos a fim de buscarem a ordenação e um campo de trabalho pastoral. 

Em conseqüência disso, não somente a tarefa missionária fica prejudicada, mas os missionários envolvidos que não perseveram e abandonam seus campos, caem em crises profundas, desde a frustração pessoal como o abandono da igreja. 

O início do século XXI revela novos moldes do cristianismo evangélico ocidental. A liturgia como de praxe, tem sido o cartão postal das mais variadas igrejas locais, ao mesmo tempo em que estas têm sido invadidas por um formato cultural cada vez mais veterotestamentário. “O Deus da Bíblia se manifesta através de lugares e pessoas ungidas”, dizem os profetas atuais. 

Os fundamentos bíblicos revelam que a adoração ou o que será denominado neste trabalho de devocionalidade é o agente motivador e alimentador da missão. Ela leva consigo mesma os princípios que fazem parte da credenda e também de sua agenda. Pode-se afirmar que a respeito de sua credenda, há uma íntima ligação com a formação de seus líderes, pastores, ministros e missionários. 

Corroborada à formação ministerial, a idéia triunfalista e de “sucesso de mercado” têm sido estimulada e desenvolvida. Essa realidade tem se refletido em muitas escolas teológico-missionárias, e os estudantes às missões e candidatos ao ministério não têm sido uma geração ensinada a perseverar, a despeito de problemas que são encontrados no campo. [2]

Esta situação tem gerado uma profissionalização do púlpito e ao mesmo tempo um retorno precoce de missionários dos seus campos. Nunca o espírito megalomaníaco atingiu tanto as igrejas como nos dias de hoje. Esse espírito tem sido mais importante do que as pequenas e singelas coisas a serem trabalhadas e nutridas no seio das igrejas locais. 

Projetos monumentais e a criação de “castelos feudais eclesiásticos” têm sido a motivação de muitos líderes religiosos. Os termos utilizados pelos que defendem os Movimentos de Crescimento de Igrejas incluem não somente a nomenclatura “Grandes Igrejas”, mas atualmente também “Mega-Igrejas”. A missão tornou-se um fim em si mesma e na grande maioria, projetos missionários a longo prazo são descartados, devido ao imediatismo e aos mega-projetos personalizados em seus “mega-líderes”. Grandes templos, grandes perspectivas, grandes “poderios” e “castelos eclesiásticos” nunca representarão um compromisso com o Reino de Deus. 

A preocupação exagerada com o local pode fazer esquecer a pregação a todas as nações. Ainda em 1947, o Conselho Missionário Internacional reunido em Whitby afirmava que “a missão precisa ser vista não com um sentimento imperialista, mas com o espírito de solidariedade ao mundo”. [3] Isto significa que o problema da missão é resultado de uma equivocada visão do que seja espiritualidade e ou devocionalidade. Onde a missão não seja opressora e sim libertadora, transformadora e redentora.

Aqui, deve ser relatado que a firme busca por uma devoção a Deus poderá, se o foco da devoção, for desviado, uma devoção à denominação. As buscas, os encontros, os cultos, os movimentos e eventos, se tornarão um reflexo de uma devoção à igreja local, ao evento em si, aos programas e aos departamentos nela existentes. 

Ao tratar sobre este tema, David Bosch, faz uma crítica ao distanciamento entre a igreja e a missão, dizendo:

“A fundação da igreja e o início da missão coincidem no livro de Atos em seu capítulo dois. Missão era a missão da igreja e igreja era a igreja missionária. No decorrer dos tempos, contudo, uma congregação atrás da outra foram estabelecidas e desenvolveu-se uma tendência para concentrar-se em seus problemas paroquiais e negligenciaram o relacionamento da igreja com o mundo.[4]

Assim há questões que são importantes, mas outras que são essenciais. A devocionalidade é essencial. Sem ela, a igreja perde a sua “salinidade” como “sal da terra” e sua “luz” torna-se mera “luz de um tição tirado do fogo”. 

Portanto o espírito devocional deve ser a mola propulsora da missão da igreja no mundo por meio dos mais variados ministérios. Para tanto, as Escrituras Sagradas são o fundamento para que a devocionalidade seja redescoberta no meio da formação ministerial. 



1. A relação entre a devoção e a missão na formação ministerial. 

O Antigo Testamento trata do caráter fenomenológico da adoração que permeia toda a Escritura. Mas é nos Salmos que esta visão se torna mais concreta. O povo de Israel falava a Deus por meio dos Salmos. Não somente enaltecia a Deus e as suas obras, como também recebiam forte impressão acerca do domínio universal de Deus e sua Soberania. Além disso, Israel como povo escolhido e também como nação sacerdotal deveria responder a Deus sinceramente tanto quanto conhecesse a amplitude de sua Soberania. Timóteo Carriker comenta assertivamente:

“E nesta resposta de Israel a Deus e ao mundo encontraremos grande significado missiológico, já que missão implica não só no discurso do povo de Deus com o mundo, mas numa tríade entre Deus, o seu povo e o mundo. A missão do povo escolhido encontra sua relação eficaz com o mundo à medida que responda sincera e pessoalmente a Deus.” [5]

A devocionalidade que deve ser vista como o relacionamento pessoal com Deus e porque não dizer com toda a Trindade Santíssima. Mas algo que compromete a hermenêutica é a confusão de vários intérpretes bíblicos com respeito à devoção. Pois a tendência é negar a vida de devoção pela ênfase na obediência pelas obras. A nação de Israel conhecia o Deus transcendente porém aparentava algo mais impessoal. Brennan Manning afirma a este respeito: 

“Israel conheceu um Deus santo, que transcendia a tudo que era visível e tangível. Ele era de certo modo refletido em coisas, mas não deveria ser identificado com coisas. Êxodo retrata Deus como estável e interessado, uma rocha de confiabilidade em meio a tantos dependentes. Os judeus relacionavam-se, dessa forma, com um Deus-aliança que havia tomado a iniciativa do contrato, que havia falado em primeiro lugar, que havia gerado Israel como nação e dado a ela um senso de identidade. Nesse estágio primitivo de relacionamento, o Deus de Israel era calmo, até mesmo frio. Qualidades como interesse, fidelidade e estabilidade eram apreciáveis, mas a ternura e a radiância não haviam aparecido. Iavé era como a Rocha de Gibraltar diante dos ventos de mudança. Ele possuía um rosto, mas era uma fisionomia impassível, com um toque de benignidade... não havia extravagância em Iavé. Ele era firme, justo e digno de confiança. Confiabilidade implacável”.[6]

Porém no Novo Testamento, a forma da devocionalidade se transforma em carne, sangue e ossos. A encarnacionalidade do verbo é o primeiro momento onde vê-se o Filho Unigênito deixando sua glória e abdicando de seu status. Aqui o Deus-Iavé vem ao encontro do homem em cheiro e suor. O relacionamento agora deixa de permanecer na base da obediência para depender exclusivamente da graça, do amor, da livre-iniciativa de Deus. A relação entre Deus-homem com a humanidade no pecado toma nova forma. 

É Deus mesmo que ensina ao homem o que é espiritualidade e desenvolve a visão de uma devocionalidade que extrapola as idéias paradigmáticas de tempo, espaço e liturgia. Jesus envolve-se com todos e deixa-se ser adorado por todos. 

Foi em um contexto de adoração que a Igreja Primitiva recebeu a plenitude do Espírito Santo para proclamar as boas novas (At 4.23-31). Foi em um ambiente de adoração que a Igreja de Antioquia da Síria separou a Paulo e a Barnabé para a obra missionária (At 13.1-3). Quando o apóstolo trata sobre a questão de culto entre os Coríntios, ele também envolve descrentes no contexto e demonstra que a mensagem pregada deve ser inteligível aos ouvidos dos incrédulos (I Coríntios 14). Enquanto Paulo e Barnabé estavam adorando e louvando, Deus permitiu a pregação ao coração do carcereiro de Filipos após o terremoto. (Atos 16). 

Os evangelistas também fazem questão de enfatizar a adoração, partindo do pressuposto que, embora Deus fosse trancendente, não deixava de receber a adoração de “todos” os homens e mulheres, que segundo o ponto de vista farisaico, eram gentios e indignos de se achegarem a Deus. Isso, o evangelista Lucas relata ao tratar sobre a mulher que ungiu os pés de Jesus em uma ceia na casa de uma fariseu.[7]

A devocionalidade envolve a pergunta: “Como ser aceito por Deus?” E também durante toda a história a resposta foi sendo formada a idéia de que existem pessoas classificadas como “privilegiadas por um acesso a Deus”. O tempo de Jesus é marcado por esta realidade: Os fariseus eram detentores das condições ideais para adorarem a Deus. Aqui é o grande perigo de uma devocionalidade altamente discriminadora e preconceituosa na formação missionária e teológica. O Pr. Edwinn Orr afirma: Centenas de cristãos, bem intencionados, que assistem convenções e conferências e tentam aprofundar a vida religiosa, regozijar-se com a graça que lhes foi dispensada, rapidamente caem na mesma vida de derrota espiritual porque não há uma completa e permanente compreensão e consagração da devoção pessoal a Deus. [8]

No caso do contexto bíblico supra-citado a “notável pecadora”, estava desprovida de riquezas e do ponto de vista religioso, desprovida de toda e qualquer condição para se fazer presente entre os “espirituais”. A palavra de Jesus esclarece e demonstra que somente ela, na verdade, possuía as condições ideais para a verdadeira devoção.

Esta mulher era digna de adorar porque reconheceu honestamente a Cristo como verdadeiro Deus. O texto afirma: “...estando por detrás, aos seus pés...”. Jesus era mais valioso que sua situação cultural, religiosa e social. (Hb 10.19-22). Embora, sua presença não fosse bem vinda na casa de um alto religioso, dotado do “conhecimento de Deus”, aquela mulher não estava preocupada com o cinismo do mesmo. Pelo contrário ela se coloca na posição de uma adoradora. Além disso, a sua devoção revelava um quebrantamento sincero. Seu quebrantamento foi marcado por rendição, reverência e humildade. Quebrantamento se constituiu da quebra de paradigmas além do estilo habitual de se adorar. Quebrantamento significa sinceridade que brota de um coração cheio de fé. Quebrantamento reflete o quanto se ama a Cristo. 

Sua devoção achou resposta da parte de Cristo. Ela recebe a restauração de sua vida. Jesus corresponde a sua manifestação de amor. Jesus perdoa os seus pecados, referenda a sua salvação, e a cura de todos os traumas e frustrações emocionais, sentimentais e familiares que possivelmente ela deveria ter absorvido por toda sua vida. 

Portanto, não há missão sem verdadeira devoção. Em contraste com nossos merecimentos, está o reconhecimento de que somente Cristo é o verdadeiro Deus. Isto destrona nosso ego e coloca no centro de nossa vida a Cristo como Senhor. Não pode haver verdadeira adoração se não houver verdadeiro quebrantamento, plena submissão, entrega de sentimentos armados, espírito endurecido. (Sl 51.16,17). 4) O alívio do perdão, a certeza de salvação, e a cura de doenças emocionais somente podem acontecer quando Cristo responde a nossa fé manifestada por esses princípios.

Ora é imprescindível que adoração e missão andem juntos. Orlando Costas declara: “Missão é a comunicação e a antecipação da adoração... Liturgia sem missão é como um rio sem uma fonte. Missão sem adoração é como um rio sem o mar... Sem um, o outro perde sua vitalidade e seu significado”.[9] lindas metáforas

E John Piper complementa: “Adoração, portanto, é o combustível e o alvo em missões. Ela é o alvo de missões, porque em missões, nós tentamos trazer as nações para dentro do gozo supremo da glória de Deus. O alvo de missões é a alegria dos povos diante da grandeza de Deus. Mas adoração também é o combustível de missões. Paixão por Deus na adoração precede o que Deus oferece na pregação. Você não pode recomendar o que não é valorizado. Missão começa e termina em adoração”.[10]

É altamente importante que seja aqui tratada a crise por que passa o treinamento e formação teológicos. Não se deve negar que a igreja bem como as escolas teológicas absorvem fortemente a idéia da Teologia da Prosperidade. A relação com Deus é diluída em barganha em nível material e físico. A idéia de Deus é repassada como o deus que tem a obrigação de suprir ao seu filho todas as suas necessidades materiais e físicas. A oração então, passou em ser uma mera ferramenta para um relacionamento frio, tal qual a nação de Israel provava. Esta realidade tem sido a base de formação de novos pastores, ministros e ministras do evangelho na maioria das denominações evangélicas na América Latina. 

Portanto, fenomenologicamente, o caráter adorativo está intimamente relacionado com a obra missionária, suas causas e suas conseqüências fazendo parte inerente da formação ministerial. 


2. Discernimento para uma espiritualidade criativa

Ao avaliar a prática da igreja contemporânea, embora exista uma avalanche de louvor e música na Igreja está aquém do compromisso com uma missão integral e global. O quanto e o como se canta para Deus é inversamente proporcional ao quanto e o como de faz pelo mundo sem Deus. Ademais da comercialização da música, a igreja adora pouco e canta muito para Deus. 

A pobreza na vida devocional da igreja, produz a pobreza na devoção ao mundo. Quanto mais corretamente fala-se a Deus, tanto mais a Igreja se comprometerá com o mundo na perspectiva de proclamar às nações para que elas também ofereçam sua oferta, uma vez santificada pelo Espírito Santo (Rm 15.16-18).

A adoração tem deixado de ser cristocêntrica para tornar-se antropocêntrica. A devoção a Deus não deve ser esquecida na adoração. 

John Piper assevera: Quando a chama do culto queima com o calor da verdadeira dignidade Deus, a luz da obra missionária brilhará até os povos mais distantes da terra. [11]

E Carriker acentua: Quando a paixão por Deus está fraca, o zelo por missões certamente será fraco também. As igrejas que não exaltam a majestade e a beleza de Deus dificilmente poderão acender um desejo efervescente para "anunciar entre as nações a sua glória" (Salmo 96.3). Os nossos cultos fervem com a exaltação da glória de Deus? O zelo pela glória de Deus no culto motiva a obra missionária. [12]

Para que a missão da igreja não seja interrompida e nem mal interpretada há necessidade de mover os olhos e o coração a Deus. É interessante notar o que Carriker declara: 

Se fosse pelo amor do ser humano, nossa ênfase deveria estar na salvação de indivíduos que estão próximos, e isto, de fato, é a prática comum. O amor a Deus, entretanto, leva a outra conclusão, que acredito ser a bíblica: a ênfase na prioridade de etnias, e especificamente etnias não alcançadas porque: 

1) há mais beleza e poder de adoração na unidade de culto derivada da diversidade de povos que canta todas as partes dum hino a Deus do que no coro que canta uníssono (Salmo 96.3-4); 

2) a fama, a grandeza, e o valor dum objeto de beleza aumenta na proporção da diversidade daqueles que reconhecem tal beleza; 

3) a força, a sabedoria e o amor dum líder se magnifica na proporção da diversidade de povos que ele inspira para segui-lo; 

e 4) ao focalizar todos os grupos humanos do mundo, Deus está subvertendo o orgulho etnocêntrico que se baseia em alguns atributos distintivos que cada povo gosta de destacar. Ao invés disto, o orgulho etnocêntrico natural de cada povo dá lugar à graça imerecida de Deus.[13]

Portanto, ainda que a adoração esteja em crise, não pelo aspecto litúrgico cultural, mas por causa dos princípios a ela atrelados, deve-se entender a missão e adoração desvinculado de uma vida liturgia. No Novo Testamento, a vida é liturgia e liturgia é a vida. 

Os mais necessitados do ponto de vista da adoração são os que ainda nunca ouviram falar sequer o Evangelho do Reino. Os não alcançados devem ter prioridade na missão. O lema de Paulo é "não onde Cristo já fora anunciado" (Rm 15.20-21). A Igreja deve repudiar o culto antropocêntrico e os princípios que não resultam em compromisso de vidas com a obra integral da Igreja. 

Neste caso a formação ministerial têm uma grande responsabilidade. Deve-se forjar nos alunos uma devoção que está vinculada a adoração, ao culto,e ao mesmo com a vida cotidiana, os afazeres, as atividades chamadas de “seculares”. Pois tudo envolve um culto a Deus. 

As escolas teológicas ensinam em sua maioria uma espiritualidade voltada para os fariseus do século XXI, desprovida da vida de alegria, de graça e de energia. Há uma espiritualidade mais esotérica do que propriamente bíblica nos seminários teológicos.

Portanto, ao buscar a preservação da adoração bíblica, os seus professores de “liturgia e hinologia” e de “homilética” deverão ter a responsabilidade de preservar os princípios da verdadeira adoração, ensinando uma liturgia integral para que a igreja respondendo sinceramente a Deus, assim também responderá às necessidades da sociedade por meio daqueles que receberão o evangelho da graça de Deus.

3. Missão e Devoção: um ciclo retroalimentador. 

Para compreender um pouco mais sobre a visão de uma espiritualidade que envolva devoção e missão, há de ser usado o modelo franciscano. As ordens mendicantes foram a busca pela vida que se confunde com a devoção. Aqui a adoração se mescla com a vida de ministério.

O monasticismo e as ordens mendicantes são termos estranhos à cultura evangélica atual, como também para o contexto teológico a que se está tratando. Contudo, é desafiador enquanto se caminha pela história das missões, estudar mesmo que não exaustivamente este momento histórico por que passava a Igreja Cristã. O momento que a Igreja Cristã estava vivendo gerava aqui e acolá, movimentos que tentavam reformar a Igreja, para que esta voltasse ao rumo ideal, sob as máximas do Evangelho do Reino e ao mesmo tempo aos pés do Senhor Jesus. 

O monasticismo conquanto um grande movimento missionário em séculos passados, estava neste momento histórico em crise. A igreja cristã, seguramente envolvida pelo caos espiritual, político e social, embriagada pelas “pompas e circunstâncias”, fechava os seus olhos para as reais necessidades do mundo como a miséria galopante que dizimava populações inteiras. Os movimentos intra e extra eclesiásticos eram “pedras que clamavam” a igreja o retorno a sua natureza missionária.

Valdir Steuernagel dá uma excelente definição sobre este momento e auxilia a compreensão sobre as Ordens Mendicantes. Afirma ele: 

O monasticismo tem a sua história composta pela experiência de milhares de cristãos que desde muito cedo na história da Igreja desenvolveram um modelo de vida solitário e separatista. Vivendo de forma ascética e alimentado pelas fileiras leigas da Igreja, este movimento, que cedo formou os seus próprios monges e constituiu as suas próprias e poderosas comunidades monásticas, desempenhou um papel fundamental na vida da Igreja. [1]

Conquanto fosse também um movimento, conhecido como um tipo de “para-eclesiástico”, o monasticismo pregava uma atitude excludente da sociedade. Se houvesse uma procura pelos monges, eles estariam, com certeza, entre as cavernas e os mosteiros, separados fisicamente do mundo, buscando uma espiritualidade contemplativa, uma devoção que não envolvia o semelhante, mas era algo muito individualista.

O movimento mendicante, enquanto mantinha os mesmos ideais das ordens monásticas, sua visão era muito mais ampla, como explica Steuernagel:

Mas o movimento mendicante vai além do monasticismo e introduz na decadente igreja uma nova maneira de conceber a vida cristã. O ideal cristão não deveria ser apenas a reclusividade monástica. Este tem um intrínseco caráter missionário e é intestinamente comunitário. Enquanto o monge dizia “viva como se estivesse sozinho com Deus neste mundo”, o frade, símbolo do movimento mendicante, dizia “viva como se você existisse apenas em função dos outros”. O frade já não foge ao deserto pelo deserto, ele invade a cidade, abraça o pobre e prega o evangelho.[2]

Portanto naquele momento, o movimento mendicante era uma tentativa de recuperar a missão da igreja pela devoção a Deus e o amor ao próximo, vivendo no meio de uma sociedade em crise, envolvida por grandes transformações sociais.

O surgimento das ordens mendicantes, dos Franciscanos, fundada por Francisco de Assis (1182-1226) e dos Dominicanos, fundada por Dominic de Gusmão (1170-1221), formaram um clamor para a recuperação da natureza missionária já diluída. Além disso, estes movimentos puderam lançar luz sobre a necessidade de uma reforma missionária na igreja. 

Para os mendicantes, espiritualidade era uma questão de estar engajado na missão ao mundo. No caso de Francisco de Assis, a idéia de espiritualidade se confundia com a devoção aos outros, a ternura para com os pobres e o respeito pela natureza como parte da criação que também deveria ser redimida. 

A igreja cristã necessitava ser restaurada em sua missão, por meio de uma reforma das suas motivações e de seus objetivos. As ordens mendicantes também radicalizam com seus objetivos. Os Dominicanos levavam a sério o ideal missionário que chegavam a estar prontos ao martírio foi para com seu maior expoente, Raimundo Lullo, missionário na Tunísia e Argélia, morrendo apedrejado nesse país. 


CONCLUSÃO

Assim, a igreja que é a fonte incrementadora de ministérios será a igreja missionária e aquela que gera e desenvolve ministérios de maneira que a espiritualidade é reconhecida como reflexo de um ministério sadio e verdadeiro. Todos os cristãos serão os “chamados”, serão considerados “ungidos” e valorizados igualmente. A igreja que vive sua missão ao mundo consagra os seus missionários, profetas, evangelistas, mestres, tanto quanto ordena seus pastores.

O déficit ministerial na Igreja será minimizado. Os missionários e pastores terão motivação para perseverar no campo. O caso é que muitos têm fracassado ministerialmente porque não têm aprendido a prevalecer. Isso porque tanto orgânica como espiritualmente a igreja não trata seus missionários e pastores no mesmo nível. 

A vida ministerial e a espiritualidade atingirão o púlpito, que atingirá a liderança e a visão ministerial deixará de ser privilégio apenas para alguns. A visão demoníaca de expandir ministérios personificados em mega-projetos acabará. 

Esta condição que vive a Igreja contemporânea é resultado da diluição de sua natureza missionária deixando-se ser seduzida pelo estilo de vida do mundo. Há uma concorrência denominacional e ministerial não somente entre igrejas, mas também entre pastores. O estilo de marketing tem sido absorvido, mesmo que inconscientemente pelos ministros, levando a uma superficialidade do que seja vida de discipulado em Cristo e cooperação na obra de Deus. Frank Dietz fala corretamente sobre o assunto: 

Os missiólogos nos ensinam que a primeira onda missionária foi iniciada com Guilherme Carey e liderada principalmente pelos europeus. A segunda onda surgiu com Hudson Taylor e foi liderada principalmente pelos norte-americanos. Uma das coisas que foi definitivamente exportada pelo ocidente para o terceiro mundo foi o espírito de competição. Se é verdade que esta terceira onda de missões será liderada pelos dois terços do mundo, então é muito importante que exorcizemos esse demônio de competição.[14]

Assim, é altamente importante que a igreja evangélica resgate esta devocionalidade e não somente o conhecimento teológico. Pastores e missionários que vejam a missão como adoração e a adoração como missão. Eis a realidade, eis o desafio.

Soli Deo Gloria

BIBLIOGRAFIA
Adiwardana, Margaretha. Missionários: Preparando-os para preservar. Curitiba: Editora Descoberta, 1999.
___________________. Treinar Missionários para perseverar: um preparo holístico para situações de adversidade. São Paulo, Editora APMB, 2001. 
Blauw, Johannes. A natureza missionária da Igreja. São Paulo: ASTE, 1966.
Bonhöeffer, Dietrich. Discipulado. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1999.
Bosch, David J. Witness to the World. Atlanta: John Knox Press, 1980.
___________. Transforming Mission: Paradigm Shifts In Theology of Mission. New York: Orbis Books, 1992.
Brennan Manning, O evangelho maltrapilho. São Paulo: Editora Textus, 2005.
Carriker, Timóteo. Missão Integral – Uma Teologia Bíblica. São Paulo: Editora Sepal, 1992.
____________. Missões na Bíblia – Princípios Gerais. São Paulo: Edições Vida Nova, 1992. 
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Dietz, Frank. Ministros de Cristo no Século XXI. São Paulo: Abba Press Editora, 1995.
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__________________, ed. A Missão da Igreja. Belo Horizonte: Missão Editora, 1994.

Notas:
[1] Margaretha N. Adiwardana, Treinar missionários para perseverar: um preparo holístico para situações de adversidade, em: Capacitando para missões transculturais, (São Paulo: APMB, 2000), 5. 
[2] Margaretha Adiwardana, Missionários: preparando-os para perseverar (São Paulo: Editora Descoberta, 1999), 26. 
[3] David J. Bosch, Witness to the World. (Atlanta: John Knox Press, 1980), 176. 
[4] Id, 95. 
[5] Timóteo Carriker, Missão Integral,(São Paulo: Editora Sepal, 1992), 102. 
[6] Brennan Manning, O evangelho maltrapilho, (São Paulo: Editora Textus - Mundo Cristão, 2000), 101. 
[7] Evangelho de São Lucas 7.36-50 
[8] Extraido das notas de sermões do Rev. Samuel Falcão, ex-professor e ex-diretor do Seminario Presbiteriano do Norte, em Recife, PE, Brasil. 
[9] Orlando Costas, The integrity of Mission (New York: Harper & Row, 1979), 91. Texto citado por Ricardo Agreste, em A natureza e propósito missionário do povo de Deus. 
[10] John Piper, Let the Nations be glad, (Grand Rapids: Baker Books, 1993), 11. 
[11] Id.,12. 
[12] Timóteo Carriker, A missão Integral da Igreja, (Campinas: 1999), 1. 
[13] Id., 04. 
[14] Frank Dietz, Ministros de Cristo no Século XXI, (São Paulo: ABBA Press, 1995), 96. 



"La espiritualidad que deseamos": uma análise


"La espiritualidad que deseamos" é um dos poucos livros que nos levam a desejar ler mais sobre o assunto. Há muitos que discorrem sobre este tema mas a maioria apenas superficializa o mesmo. O Dr. Roldán, consegue levar o leitor pelas avenidas da espiritualidade equilibrada e sadia. O autor delineia sua proposta e tema desde o momento do prefácio. Assim é possível saber o que ele pensa sobre o assunto quando define a espiritualidade como uma compreensão plena do mistério de Cristo, tendo o fundamento das Escrituras Sagradas e a dinâmica do Espírito Santo para a glória do Pai. O desenvolvimento de uma espiritualidade sadia se torna a expressão verdadeiramente cristã, quando desemboca humildemente em atos e gestos estimulados por uma experiência mística com o Espírito Santo. Roldán afirma categoricamente que o referido trabalho representa uma busca por esta espiritualidade, isto é, uma busca por uma vivência autêntica da fé e do compromisso com Jesus. Aqui se supõe que este compromisso seja também a própria missão de Cristo. 

Ao mesmo tempo em que define seu tema e o termo espiritualidade, Roldán tem uma tendência para abordar a espiritualidade contemplativa por meio da oração como pilar desta vivência aos pés de Cristo. É importante lembrar que o mesmo não aprofunda seu tema na perspectiva social, uma vez que espiritualidade acaba por ser a manifestação da própria vida e a celebração diária como prática sacramental do cristão no mundo. 

Ao abordar historicamente o tema, o faz de modo amplo, alguns de seus subtemas escolhidos poderiam versar sobre as conseqüências éticas e morais daqueles dias. Contudo, ao chegar no período dos pais do deserto, o autor é muito feliz em resgatar a espiritualidade como fator de grande significância, até porque para os cristãos históricos que herdaram as máximas da reforma protestante a espiritualidade é tão somente restrita ao primeiro século e então reaberta apenas nas fases preliminares do movimento reformista. 

É altamente louvável e recomendável que este livro seja lido e traduzido para outras línguas como, por exemplo, o português, para que outros latinoamericanos tenham o conhecimento e acesso do que seja uma espiritualidade integral e equilibrada. Sente-se a falta de uma visão mais aberta, mais missionária quando o autor dedica uma grande parte do tema a oração e práticas espirituais como a própria vida em si. Talvez por que a tendência cristã evangélica seja ainda dicotomizar a vida. 

Todavia, este livro deve ser reconhecido como de grande utilidade para resgatar a espiritualidade pessoal e disciplinada uma vez que o mundo está vivendo tempos onde a busca do silencio é algo muito raro devido ao sistema consumista e mercantilista que se vive hoje.

Cabe aqui também uma crítica ao próprio oferecimento de recursos literários nos dias de hoje. O autor poderia, como é capaz, de trabalhar mais profundamente os temas relacionados. Na sede de buscar águas mais profundas, o leitor se dará com bons poemas, boas aplicações pessoais, mas com certa ausência de aplicações nas áreas mais horizontalizadas da vida humana. Porém é de alta importância que esta obra seja veiculada em todos os seminários, para que este tema possua um maior acesso a todos que tenham por objetivo agradar a Deus e fazer dele o propósito último, isto é vivendo para sua glória eterna, assim como todos foram criados para esse fim.

ROLDÁN, Alberto Fernando. 2003. La espiritualidad que deseamos. Buenos Aires: Publicaciones Alianza.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

CHAMADOS PARA A MISSÃO





As Escrituras nos fazem ver que existem três palavras que direcionam a missão da igreja e que são os braços que devem estar estendidos no mundo por meio dos seus filhos. Jesus nos chama a ser “sal da terra” e “luz do mundo” por meio destas três ações como igreja, seja como Corpo de Cristo, seja como comunidade local.

1) COMUNHÃO - Koinonia (Jo 13.34-35): Jesus nos ensina que a comunhão é o primeiro passo para a missão. A comunhão é o que dá o tom do serviço. Para que possamos cumprir a missão neste mundo, necessitamos buscar não apenas “viver”, mas a “conviver” com os irmãos. A comunhão não é um “fim em si mesmo”, mas o meio pelo qual outros veem o amor que nós possuímos uns pelos outros e os motiva a tornarem-se parte de nós, junto conosco. A nossa “convivência” marca a vida de outros profundamente.

2) PROCLAMAÇÃO DO SENHORIO - Kerigma - (Rm 10.9): A grande mensagem da igreja primitiva era: “Jesus [é] o Senhor...”. No início da era cristã, os cristãos não pregavam apenas uma salvação celestial, mas o Senhorio de Cristo sobre tudo e sobre todos. Quando pregamos o Senhorio de Cristo, não dizemos apenas que Ele pode salvar a “alma” das pessoas, mas também tudo que envolve a vida. Ao dizermos que Jesus é o Senhor, revelamos que Ele não apenas nos salva para o céu, mas que Ele deseja ser o verdadeiro governador da vida “aqui e agora”. É impossível dizer que “Jesus é o Senhor” e não permitir que Ele tenha a palavra final na Educação, na Ética, na Economia e na Política. Dizer que Cristo é Senhor também é fazê-lo salvador do “corpo” e da “alma” não apenas no sentido pessoal, mas também no coletivo.

3) SERVIÇO DE AMOR - Diaconia - (Mt 25.30,45): A missão da igreja envolve o homem não apenas no espírito, mas também no físico. Ele é o Senhor e deseja ser o regente definitivo sobre a vida humana. Essa foi a proposta da “criação” no Éden. Se crermos na crucificação de Cristo, também cremos na ressurreição do corpo. Se amarmos pelo discurso, devemos amar também por meio de atos, de ações, de obras. Só existe evangelho de Cristo quando as pessoas são restauradas material, física, psicológica e socialmente. O evangelho que salva é também o evangelho que restaura a saúde em todos os níveis da vida humana.

Assim compreendemos que missão não é apenas evangelizar, mas é se fazer presente na sociedade a fim de que, através de palavras e atos o Reino de Deus se concretize nesta terra. Quando abraçamos a Cristo pela fé, começamos a viver a “Nova Criação” a partir de agora, pois o que fazemos aqui promoverá a Volta de Cristo. Ele virá enquanto a Sua igreja está trabalhando, pois só se é igreja enquanto se está em missão e somente há missão enquanto a igreja vive neste mundo de modo justo, piedoso e relevante. Portanto, mas uma vez neste momento, dedique seus dons, talentos e conhecimento como braços e mãos do Espírito Santo para que você também seja participante da Sua missão.



Rev. Luiz Augusto

domingo, 17 de agosto de 2014

ANTES QUE SE ROMPA O FIO DE PRATA

Sim, lembre-se dele, antes que se rompa o cordão de prata... (Eclesiastes 12.6)


A vida é muito curta e passageira. Muitos escritores da Bíblia falam que o ser humano é como a flor de uma erva. Nasce, cresce, torna-se bonita e morre. Temos visto nestes últimos dias isso acontecendo com muitas pessoas que buscam a felicidade a curto prazo. A vida passa ligeira. Muitos tentam evitar a morte com tratamentos contra o envelhecimento e lutam por uma qualidade de vida física sempre melhor. Mas o que fazer quando a morte nos chega repentinamente?

O escritor do livro de Eclesiastes lembra que antes que se rompa o fio de prata, lembrem-se do Criador. Porém é bom saber que a lembrança aqui pedida pelo autor de Eclesiastes não é meramente um ato de memória, mas, sobretudo de tornar o Criador a razão de suas vidas e confiar sua vida a Ele, pois após a morte não há muito mais o que fazer.

Lembrar-se do Criador é dar os melhores anos de sua vida a Cristo. Quando vivemos de modo que tudo o que fazemos ou pensamos está sob a orientação da Palavra de Deus, a vida e nossa limitação se tornam mais leves. Uma das coisas que sempre ouvimos é que a juventude foi feita para aproveitar a vida. Muitos dizem: “Aproveite enquanto é jovem”! Mas aproveitar a vida para aquele que se entrega a Cristo é viver com sabedoria, alegria e consciência.

Por isso enquanto a vida passa com rapidez e antes que a morte chegue, devemos lembrar-nos do Criador como aquele que tem o sopro da vida em suas mãos. Muitos de nós lutamos para que tenhamos o controle dela. Mas é um ledo engano. Sabemos que isso é impossível. Então a melhor coisa que podemos fazer é buscar toda a orientação que provém do Autor da vida para que possamos usá-la da melhor maneira possível conhecendo o Eterno Filho de Deus.

Lembre-se do seu Criador que é o próprio Cristo. Se entregue a Ele. Faça dEle a razão de sua existência porque não sabemos quanto tempo temos aqui de vida, mas também plante agora as sementes da graça e viva de modo que você possa colher os frutos na eternidade aí sim, de fato, valerá a pena. Esta vida comparada a eternidade - que já começa aqui - não pode ser comparada e nem mensurada. Jamais pense que esta vida é a única a ser vivida. Plante para a vida eterna. Esta vida somente fará sentido, se vivida na esperança da eternidade!

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

“DEUS, FAÇA DE MIM UM HOMEM”



Lendo um livro sobre plantação de igrejas de Darrin Patrick, achei interessante sua análise sobre a realidade social do homem a qual está passando por uma crise sem precedentes no século XXI. Vivemos uma crise onde os homens atuais prolongaram a sua adolescência. Não são homens maduros e sim “homeninos”. 

Há muitos homens que ainda vivem a transição da adolescência para a fase adulta. Não amadureceram e não cresceram. Encontramos este tipo de homem também na igreja. Quase metade dos homens adultos é aficionado em internet e especialmente em videogame. Muitos vivem com uma companheira e não estão casados. A maneira que este “homenino” lida com as mulheres é desastrosa. Muitas mulheres hoje desistiram de tentar encontrar o “cara certo” porque os homens que lhes aparecem não são homens, são meninos na mente e coração. Eles não possuem absolutos, vivem um relativismo pessoal e como consequência são instáveis emocionalmente, próprios de adolescentes. Não gostam de responsabilidades, vivem ciceroneados pelos pais e preferem morar na casa destes. Como consequência, este “homenino” adia sua vida adulta tanto quanto ele puder. Evita a todo custo casar-se e ter filhos. Numa roda de “homeninos” o assunto geralmente é UFC, pois se projetam nestes “super-heróis” de intelectos vazios. Desenvolvem relacionamentos virtuais e vivem num mundo só deles. Assim, a sociedade tem se arrumado em torno da mulher como aquela que deve resolver os problemas deste homem que não é homem, mas um adolescente que vive como um autista social.

Hoje, precisamos de homens que se assumam como adultos. O mundo ocidental a passos largos está preferindo os homens mais novos por que podem “produzir” mais e rejeitando os mais velhos que poderiam deter a sabedoria. Nisso perdemos feio para o mundo oriental. Mas enquanto os “homeninos” não se tornarem conscientes que precisam amadurecer ainda sofreremos com movimentos sociais instáveis, instabilidade econômica em todos os sentidos e teremos famílias desajustadas. Homens que assumem sua maturidade promoverão, com certeza, melhores relacionamentos, bem como um país mais sério no que tange as macro-decisões. 

Precisamos de homens que se assumam como instrumentos de transformação social. Homens que sejam comprometidos. Comprometidos como maridos, pais, líderes e liderados. O que me assusta é que não vemos mais homens comprometidos com ideais, e sim se tornam elementos que vivem para si, pensam somente em si e pensam que o mundo gira em torno deles. O Cristo-Homem deve ser o modelo pelo qual devem estar comprometidos com o Reino de Deus e não com seus próprios nomes e com suas vidas pequenas demais. 

Hoje, precisamos de “homens de Deus” seja no mundo ou na igreja. Quando este título já virou “jargão” e se desgastou, temos que descobrir novamente a seriedade deste termo e compreender que este homem é aquele que busca conhecer a Deus profundamente e tanto quanto conheça, viverá como Deus quer e não como ele prefere. 

Se há um presente que podemos dar aos nossos filhos, a igreja e ao mundo neste dia, é como homens assumirmos nossas lutas, nossos ideais e acima de tudo buscarmos o modelo a ser vivido: Jesus Cristo - homem.

Concluo fazendo a oração de Darrin Patrick: “Deus faça de mim um homem inabalável, mas de coração terno. Faça de mim um homem firme e amoroso. Faça-me firme para que eu possa encarar a vida. Faça-me amoroso para eu possa amar as pessoas. Deus faça de mim um homem”. 

Feliz Dia dos Pais, 2014

sábado, 26 de julho de 2014

Foi-se o tempo... de amar a Deus!

Sou fruto de um tempo onde ser cristão era um ideal e um desafio de viver. Lembro-me muito bem que as pessoas tratavam a Bíblia de maneira muito sagrada. As palavras ouvidas de um sermão eram “ruminadas” durante a semana. Os cultos de oração eram bem frequentados e os hinos e cânticos espirituais eram bem conhecidos por que os cantávamos muitas vezes, de coração.

Foi-se o tempo onde as aflições e pressões que passávamos eram entendidas como vontade de Deus para nos refinar e apurar a nossa fé. Hoje toda e qualquer aflição tem sido vista como vinda do maligno e muitos buscam a Deus para serem curados sem desejar amá-lo sinceramente.
Foi-se o tempo onde os pastores e líderes eram respeitados e aceitos por que buscavam viver o que pregavam. Não havia imposições. Os líderes eram amados e os respeitávamos por que sabíamos que não desejavam outra coisa senão parecerem com Cristo. Hoje as lideranças são impositivas e somente permanecem líderes porque são oportunistas e criam um espírito de “medo” nos membros de suas igrejas. Medo que envolve uma mensagem de “terror e maldição”. Se há possibilidade dos seus fiéis debandarem, imprecam contra tudo e contra todos! Os pastores estão se tornando lobos vorazes.

Foi-se o tempo em que os Jovens eram apaixonados por estarem juntos em todo tempo. Ser jovem naquela época era sinal de luta, perseverança e esforço. Hoje, os jovens se alienaram com tanta fartura da Tecnologia e da Média. Não conseguem ser fiéis aos seus votos que fizeram a Deus. Naquela época os votos a Deus e a igreja era coisa de “gente com palavra”. Cristo nunca mudou, mas os jovens como mudaram! Não vemos mais os jovens serem firmes espiritualmente. Não os vemos mais nas reuniões de oração, nos cultos de doutrina, nas reuniões comuns. Não há mais iniciativa, esforço e dedicação. Quando isso acontece é devido a muito barulho e muita agitação. São movidos a eventos que não enchem, mas incham.

Onde estão os Homens e as Mulheres? Viajando, passeando, curtindo a vida, cuidando da saúde, fazendo suas caminhadas, trabalhando, mas estão longe dos grupos de oração, a não ser que sejam estimulados por um lanchinho, um almoço, um prêmio, um mimo, alguma coisa que traga certa vantagem.

O que aconteceu? Cristo mudou? Talvez a mensagem que ouvimos das pessoas sobre Ele mudou. Tornamos Cristo um elemento dispensável. Tornamos Cristo um deus conveniente. Fizemos de Cristo um participante de nossos cultos onde o sujeito somos nós. Cantamos, oramos, louvamos para nós mesmos. O deus que adoramos somos nós mesmos. Somos um retrato de uma fé consumista e vivemos para um Deus de barganhas. Precisamos urgentemente voltar a amar a Deus, amá-lo de tal maneira que nossas palavras sejam silenciadas pelas nossas atitudes e pelo compromisso com os irmãos, com as pessoas, com uma igreja que se identifique com o verdadeiro Jesus Cristo, Nosso Senhor. Essa igreja existe. Depende de cada um de nós! Que saudade do tempo onde aprendemos a amar a Deus!

sexta-feira, 11 de julho de 2014

CONVERSÃO: DESCONFIANÇA PARA CONFIANÇA

"O pecador salvo pela graça é assombrado pelo Calvário, pela cruz e especialmente pela pergunta: Por que ele morreu? Uma indicação vem do Evangelho de João 3:16: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna". Outra indicação da declaração de Paulo em Gálatas: "[ele] me amou e a si mesmo se entregou por mim". A resposta está no amor.

Mas a resposta parece muito fácil, muito pronta. Sim, Deus salvou-nos porque nos amou. Mas ele é Deus. Ele tem uma imaginação infinita. Ele não poderia ter sonhado uma redenção diferente? Não poderia Deus ter nos salvado com um sorriso, com um espasmo de fome, uma palavra de perdão, uma única gota de sangue? E se ele tinha de morrer, então pelo amor de Deus — pelo amor de Cristo — não poderia ter morrido no leito, morrido com dignidade?

O pecador salvo está prostrado em adoração, perdido em assombro e louvor. Ele sabe que o arrependimento não é o que fazemos para obter o perdão; é o que fazemos porque fomos perdoados. Ele serve como expressão de gratidão em vez de esforço para obtenção do perdão. Portanto, a seqüência: perdão primeiro e arrependimento depois (e não arrependimento primeiro, perdão depois) é crucial para a compreensão do evangelho da graça.

Muitos de nós, no entanto, não conhecem nosso Deus e não compreendem seu evangelho da graça. Para muitos, Deus está ali sentado como um Buda, impassivo, imóvel, inflexível como rocha.

O Calvário, no entanto, fala mais alto do que qualquer livro de teologia: não conhecemos nosso Deus. Não apreendemos a verdade da primeira carta de João: "Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados". A cruz revela a profundidade do amor do Pai por nós: "Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos".

O discípulo que vive pela graça em vez da lei já experimentou uma conversão decisiva: uma mudança de desconfiança para confiança. A característica mais destacada de se viver pela graça é confiança na obra redentora de Jesus Cristo.

Crer profundamente é compreender que sou o filho amado deste Pai e, portanto, livre para confiar. Isso faz uma diferença profunda no modo como me relaciono comigo mesmo e com os outros; faz uma enorme diferença no modo como vivo. Para confiar em Abba, na oração e na vida, é postar-se de pé em abertura infantil diante do mistério do amor e da aceitação da graça.

Numa religião legalista, a tendência é desconfiar de Deus, desconfiar dos outros e, conseqüentemente, desconfiar de nós mesmos. Você realmente acredita que o Pai de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é gracioso e que ele se importa com você? Você realmente crê que ele está presente sempre, infalivelmente, como companheiro e como auxiliador? Você realmente crê que Deus é amor?"

(Brennan Manning – O evangelho maltrapilho)



sexta-feira, 4 de julho de 2014

MISERÁVEL HOMEM QUE SOU!


Examinemos e submetamos à prova os nossos caminhos, e depois voltemos ao Senhor ( Lamentações do Profeta Jeremias 3:40).

Uma das manifestações que provam a natureza limitada do ser humano é a sua insensibilidade quanto a sua condição espiritual. Já percebeu como reagimos se alguém tenta nos provar que estamos errados em alguma palavra ou atitude tomada? Na verdade, é muito difícil a qualquer pessoa convencer-se de seus erros. Mas essa é sem dúvida alguma a primeira característica do pecador. O pecado trouxe a cada um de nós e ao mesmo tempo a toda a humanidade a insensibilidade quanto a nossa maneira de pensar a nosso próprio respeito. Sempre temos, na maioria dos casos uma concepção equivocada a respeito de nós mesmos e somos sempre prontos a rejeitar qualquer crítica ou afirmação contrária ao que pensamos. 

Por isso quando começamos a aprender sobre as Escrituras Sagradas, um dos ensinamentos básicos é que o ser humano é pecador. Dentro desta questão, devido a nossa insensibilidade espiritual, tentamos minimizar os efeitos que o pecado traz a nossa vida e ao contexto em que vivemos. A Bíblia nos coloca em nosso devido lugar quando fala acerca de nossa relação com Deus, conosco mesmos e com nosso semelhante. Não somos pecadores apenas porque pecamos por atos, palavras e pensamentos, mas porque vivemos numa condição de não-comunhão profunda e intensa com o Deus santo, bom e misericordioso! 

Se soubéssemos os males que o pecado nos trouxe procuraríamos de maneira mais intensa e específica nos libertar deste mal que a todos afeta. Por exemplo, em nosso Catecismo, vemos que o pecado trouxe ao ser humano uma séria de consequências não somente neste mundo que vivemos, mas também naquele que haveremos de viver. A estes efeitos, nosso Catecismo chama de miserabilidade. Assim sendo, a vida humana em sua essência é uma vida de miséria em todos os sentidos. O pecado que nos distanciou da Divindade, nos levou a viver miseravelmente. Nossas concepções, nossos pensamentos, nossas relações interpessoais, são claramente resultados de nossa vida miserável, pois o que era fato como a comunhão plena com Deus em todos os sentidos, o ser humano por se “achar” competente, e querendo se fazer como Deus, afrontou-O e condenou-se a si mesmo.

Por isso, urgentemente necessitamos possuir uma correta visão de nós mesmos para que vivamos de modo saudável e em profunda comunhão com Deus, nosso Criador e Redentor e também com nossos semelhantes. A vida cristã somente faz sentido se possuirmos sincera noção de nossa corrupção humana que tem início em nosso próprio coração. 

Somente começamos a reconhecer nossa real condição quando sinceramente procuramos nos convencer de nossa miséria espiritual e Deus fará sentido e O teremos como a única fonte vida em nossa existência. A miséria que o pecado nos traz somente pode ser aliviada quando Cristo se faz um conosco. 

Portanto, carecemos em todos os momentos rogar a Deus que Ele e somente Ele venha nos dar a convicção de nossa miséria seja ela espiritual, física, psicológica e social. Qualquer pessoa que se disponha a enxergar quem é de modo sincero e verdadeiro sempre será recipiente da presença perene e eterna do Espírito Santo de Deus.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

ALIMENTANDO O REBANHO OU ENTRETENDO OS CABRITOS?






Um mal terrível esta no acampamento do Senhor, tão grande em infecciosidade que até os mais míopes não conseguem fazer vistas grossas a ele. Durante os anos passados ele tem se desenvolvido numa dimensão anormal. Tem agido como um fermento insistente para que toda a massa seja levedada. O maligno jamais causou tanto mal a Igreja do que fazendo-a pensar que sua missão é prover entretenimento para as pessoas, com a boa intenção de conquista-las. De fato, a Igreja tem diminuído gradualmente a cor do seu testemunho, se moldado e adaptado as frivolidades que constituem o modismo de cada época, Depois passa a tolerá-las em seu território. No próximo passo ira adotá-las sob o argumento de alcançar as massas.

Meu primeiro argumento é que providenciar diversão para as pessoas jamais é mencionado nas Escrituras como sendo função da Igreja. Se esta é uma tarefa cristã, por que Cristo nunca falou sobre ela? "Ide portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo;" (Mt 28:19). Isto é suficientemente claro. Se não, Ele teria acrescentado "e providenciem entretenimento para todos aqueles que não se renderem ao evangelho". Palavras como estas jamais serão encontradas na Bíblia! Parece que o Senhor da Igreja não pensou nisso! De novo, "Ele concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para pastores e mestres... para a edificação do corpo de Cristo" (Ef. 4:11). Onde aparecem os entretenedores? O Espirito Santo se cala a respeito deles! Os profetas foram perseguidos por divertirem o publico ou porque se recusaram a faze-lo? Os concertos de entretenimento não têm rol de mártires!

De novo, oferecer entretenimento está em completo antagonismo com a vida e ensino de Cristo e de todos os seus apóstolos. Qual era a atitude da Igreja para com o mundo? "Vos sois o sal da terra", não a bala de açúcar! Algo que o mundo vai cuspir fora e não engolir facilmente. Curta e afiada foi a exortação: "deixe que os mortos enterrem os seus mortos". Ele falava movido por uma honestidade terrível!

Se Cristo tivesse introduzido alguns elementos mais chamativos e agradáveis em sua missão, Ele teria sido mais popular e procurado de novo por aqueles que O abandonaram irritados. No entanto, Ele nunca disse: "corram atras dessas pessoas, Pedro, e diga-lhes que teremos um outro tipo de culto amanha, algo breve e atrativo com uma pregação bem curta. Nós teremos uma noite agradável e descontraída voltada para a vontade do povo. Diga-lhes que sem duvida o programa será muito bom. Seja rápido, Pedro, precisamos segurar essas pessoas de alguma maneira!"

Jesus tinha piedade dos pecadores, cuidava e chorava por eles, mas nunca procurou diverti-los. Para Jesus não havia outra arma camuflada para conquistar os rebeldes espirituais. Ele tinha confiança na eficácia do evangelho puro e simples! Quando Pedro e João foram separados para pregação do evangelho, a Igreja teve uma reunião de oração, mas eles não pediram "Senhor, conceda aos teus servos uma boa dose de criatividade santa, para que possam trazer um entrenenimento piedoso a fim de que as pessoas vejam quão alegres nos somos!" O fato é que, como eles não cessaram de pregar a Cristo, não tiveram tempo de promover entretenimentos! Espalhados pela perseguição, foram por todas as partes pregando o evangelho, Eles "viraram o mundo de cabeça para baixo". Esta é a única diferença! Senhor, tenha misericórdia e nos conduza aos métodos apostólicos!

Finalmente, a missão do entretenedor falha por não alcançar o fim esperado. Seu ministério operará inversamente na vida do recém convertido que participa de todos os atos do grande show sem ter tempo de ser levado a maturidade. Permite aos zombadores e descuidados na fé, gratos a Deus porque a Igreja os alimenta pela metade, um envolvimento ministerial incompetente e comprometedor. Assim não haverá ninguém a quem dirigir uma resposta porque a missão do entretenedor não produz convertidos! A necessidade da nossa hora para o ministério é a junção de capacidade preparada e espiritualidade honesta, uma surgindo da outra como o fruto brota a partir da raiz. A necessidade é doutrina bíblica, tão compreendida e sentida, que venha a por o ser humano em chamas.




C. H. Spurgeon (1834-1892) - Londres.

sábado, 31 de maio de 2014

PRECISAMOS DE UM VERDADEIRO AVIVAMENTO DO CORAÇÃO (II)



Precisamos de um avivamento do coração QUANDO NÃO PRATICAMOS A ORAÇÃO INCESSANTE. A crise que vivemos constata que os cristãos não oram mais. Neste caso precisamos voltar a definir o que seja oração para que possamos entender tal afirmação. Na época da Antiga Igreja Cristã a oração foi desenvolvida fortemente pelos conhecidos “Pais apostólicos” e pelos “Pais do deserto”. Foram homens e mulheres que chegavam à conclusão que a vida deles não fazia sentido se não vivesse um relacionamento profundo e intenso com Deus. Tanto é que a palavra “teólogo” significava para aqueles dias “aquele que ora”, significando que aquele que orava possuía um profundo senso e conhecimento da Divindade. Sendo assim na época da Igreja Antiga, orar significava conhecer a Deus profundamente e viver intensamente a vida de Deus. Portanto, orar a Deus possui aspectos que extrapolam o racionalismo do que se define hoje por orar. Muitos pensam que orar é uma conversa com Deus como se fosse um “bate-papo”. Falamos de um lado, ele escuta do outro, reclamamos por alguma coisa e ele quando se quiser reponde ou não. Quando nada acontece, quando Ele não nos “responde”, pensam outros é porque não usamos as palavras corretas. Temos que dizer as “palavras-chaves” senão Ele não nos ouvirá e nem responderá a nossa súplica. Alguns outros aceitam a oração como uma barganha. Se formos fiéis a Deus ou estivermos “quites” com Ele, ele nos ouvirá e nos responderá de acordo com a nossa vontade. Enfim há uma série de condições impostas pela igreja institucional e pela popularidade religiosa sobre a oração. 

Quando afirmo que os crentes não oram mais, quero dizer que a oração tornou-se uma prática com muito palavrório, muita verborragia, muita falação. As reuniões de oração ou cultos de oração tem se caracterizado pelos discursos sobre Deus. Há muita gente que fala “sobre” Deus e não fala “a” Deus. Vivemos um deserto no que se refere a isso. Muitos estão concorrendo a reuniões de oração onde se pede muito e se suplica muito, onde há muita gritaria e histeria, mas pouca oração. Pessoas entram em transe, supondo que estão elas cheias de Deus, mas na verdade estão cheias delas mesmas. Deus nem se faz presente embora seja seu nome seja muito usado, mas aí Deus nem está. Perdemos o senso de um Deus que deseja se relacionar conosco e começamos a achar que Deus é bom por que é um “deus-feito-segundo-nossa-idéia-consumista”. 

Também percebo que os crentes não oram por que os seus pastores nunca oram e nem ensinam suas ovelhas a orar por que não sabem o que é isso. Vivem de eventos e de um ativismo inócuo, sem resultantes para a vida. São meros executivos de uma “empresa eclesiástica” que se autodenomina “igreja”. Este caso isso tem se tornado um círculo vicioso. Os pastores não sabem orar porque também em seus cursos de teologia nunca os ensinaram a prática da oração. Os Seminários se tornaram escolas de informação e não de formação espiritual. Da mesma forma os líderes da igreja e a própria comunidade os leva a executar tarefas que não envolvem a espiritualidade pastoral de fato e devido a manutenção econômica tais pastores acabam se submetendo ao esvaziamento de uma prática e de uma ação pastoral sem Deus.

Como consequência deste sistema consumista e tirano da vida, afirmo que os crentes não oram mais por que nem dão tempo para a oração, como também não sabem o que é oração incessante a qual o apóstolo Paulo e os Pais da Igreja falavam. As igrejas que se enchem de pessoas para os cultos de oração são na maioria apenas locais para praticas ritualisticas de pedir e clamar como último recurso no desespero da vida. Lotam templos de igrejas majoritariamente conhecidas como “neopentecostais” por que estão desesperadas e quase não há mais nada que fazer.

A oração é um elemento esquecido em nosso mundo ocidental. Embora a Reforma Protestante tenha trazido de volta a Escritura para o centro da Igreja, ela somente permanece no centro se houver profunda busca por Deus. No Oriente, as igrejas ensinadas pelos Pais do deserto, desenvolveram uma visão muito diferente sobre oração. No mundo ocidental, os protestantes somente foram ter uma noção um pouco mais profunda sobre isso quando os movimentos de despertamento espiritual que ocorriam às margens da cúpula da igreja começaram a surgir, pois embora possuíssem a Escritura como centro, o racionalismo cristão que atingiu a igreja no século XVIII transformou a oração em pura ação lógico-verbal. Mas o Pietismo como movimento de reavivamento para a igreja protestante alemã naquela época, foi fundamental a fim buscar a vida piedosa e oração como centro da vida. A Escritura somente possui seu incremento quando alimentada pela oração do coração, de uma piedade segundo Deus, de humilhação e quebrantamento interior.

Carecemos de um avivamento do coração a partir da oração porque o ser humano é um ser “místico”. Entenda-se o que quero dizer com a palavra “místico”. Não fomos criados a partir da matéria apenas, há um sopro divino em cada um, há uma alma que dá sentido a nossa humanidade como pessoa. Deus nos criou como parte de seu Espírito. 

Os antigos Pais afirmavam: “pássaros voam, os peixes nadam e o homem ora”. Isso diziam porque cada ser possui sua natureza. Não é possível ser um pássaro e não voar, se isso não acontece tal ser não é um pássaro. Assim a natureza do homem é a oração. Se não oramos não somos humanos, somos algo diferente, mas humanos com certeza não o somos. Por isso o encontro com o Deus-Homem, Jesus Cristo é inevitável para que o ser humano seja de fato humano e não um monstro. Ele por sua graça e pelo seu amor sacrificial na cruz e sua ressurreição restabeleceu a natureza do homem que lhe é própria. 

Portanto precisamos urgentemente de um avivamento do coração que revele ao ser humano o desejo de viver para Deus utilizando como canal a oração. 

Em primeiro lugar, por isso defendo a oração como um encontro com o Transcendente. Quando digo encontro, entendo que oração não pode e nem deve ser banalizada, nem superficializada como se fosse uma conversa que praticamos com nossa vizinha ou com qualquer pessoa. A oração é encontro com a Divindade. A oração é experiência e não discurso para um “deus-segundo-nosso-pensamento”. Se o assim fazemos, praticamos uma tipo de idolatria onde deus é o elemento que podemos domesticar ou mesmo fazermos dele uma imagem segundo nosso pensamento. A oração é uma prática que transcende o pensamento, a racionalidade ou as ideias mais bem montadas. A oração embora se utilize da razão não se fundamenta no racionalismo. Por isso há necessidade de se entender o encontro como algo empírico, algo que envolva o sentimento, a emoção, o caráter, a personalidade, enfim tudo que somos está envolvido neste encontro. Além disso, nos encontramos com Deus quando desenvolvemos nossos sentidos nesta prática: a fala, a audição, o olfato, o tato e o paladar são sempre envolvidos nisso pois o ser humano é tomado de forma completa e complexa para Deus. O que podemos entender que a oração não é mera verbalização de palavras, mas um próprio culto em si, de maneira individual. Da mesma maneira nossos cultos deveriam ser a coletividade de nossas orações individuais.

Em segundo lugar afirmo que a oração é uma prática de contemplação. Se Deus no Antigo Testamento e Cristo no Novo se deixaram ser contemplados, o Espírito Santo não é diferente para com isso. Ele está presente na contemplação que ocorre dentro de nossos corações. A contemplatividade da oração que muitos acham que seja de “fora para dentro”, desde que o Espírito Santo esteja presente em nós, essa mesma contemplação ocorre de “dentro para fora”. Por isso sabemos que oramos, quando praticamos a contemplação não com apenas olhos e ouvidos carnais mas sobretudo com olhos e ouvidos espirituais. O recôndito que os Salmos nos apresentam é o lugar desta contemplação (Sl 51.6). No interior de cada um de nós podemos vivenciar a prática e a contemplação de Deus que habita “em nosso peito”.

Em terceiro lugar, afirmo também que a oração deve ser incessante. A oração embora tenha um começo, um meio e um fim do ponto de vista dos exercícios devocionais pessoais, ela não cessa quando encerramos os mesmos, sejam eles individuais ou coletivos. Ela se processa na continuidade da vida. Estar em espírito de oração é estar também ligado ao Espírito da oração. Quando os Antigos Pais nos falam sobre isso, vemos que a oração incessante tem que necessariamente nos trazer a comunhão da mente e do coração ligados ao Espírito de Deus. Orar sem cessar é praticar a oração antiga: “Senhor Jesus Filho de Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. Tanto mais repetimos esta afirmação, tanto mais ela se fará um canal não meramente de palavras, mas de uma conexão ou uma comunhão de nosso espírito com o Espírito de Deus. Aqui vale a pena revelar que a repetição é tão saudável quanto qualquer palavra repetida de modo consciente. Nosso Senhor ao afirmar que nossas orações não deveriam se assemelhar a vãs repetições, ele certamente está focando que nossas oração não sejam orações mecânicas, inócuas. O problema então não é a repetição mas a vã, a palavra vazia, sem consciência e sem coração. 

Em último lugar, a oração não se fundamenta na lei da “causa e efeito”. Aqui expomos a crise do ponto de vista coletivo e comunitário. Muitos templos vivem cheios de pessoas que suplicam a Deus porque estão orientadas a praticarem orações a um deus que por natureza, pensam elas, nos direciona a lei da “Causa e Efeito”. Esta lei é a grande motivação dos cultos. É a grande chave para que tenhamos templos numericamente cheios. Uma das espiritualidades que mais usa essa lei é a conhecida “teologia positivista ou da prosperidade”. Tanto quanto praticamos esta Lei, tanto mais matamos o nosso espírito e a nossa espiritualidade, como fundamental para nosso relacionamento com Deus. A vida do homem é uma vida de relação de vida com Ele. Não é meramente um pedir e receber, não há vida sem vivermos em relação a Deus. O que temos visto então? Igrejas e crentes que lotam templos para pedir e receber. Isso não é oração. Embora o pedir e receber estejam fazendo parte da prática da oração essas ações não são fundamentais. Se oração é um encontro empírico com o Espírito, se é uma contemplação e tudo ocorre no coração seja por meio dos exercícios devocionais, seja por meio da oração incessante então esta Lei acima referida não existe no propósito do que seja oração como um relacionamento intenso e profundo com Deus.

Portanto, precisamos de um verdadeiro avivamento do coração que possamos descobrir a fome pela oração e oração que sacia nosso verdadeiro relacionamento com a Divindade. Precisamos urgentemente de vida espiritual e esta vida somente pode acontecer se buscar a oração como essência de nossa natureza e não apenas como ritual religioso. Podemos substituir a oração por eventos, pragmatismo, encontros animados e cheios de louvor, porém se não vivermos estes fundamentos como essenciais a nossa natureza, de modo algum estaremos comungando com o Deus verdadeiro e vivendo uma idolatria sem saber que somos tão pagãos quanto qualquer ser humano que nunca possuiu sequer um lampejo da graça gloriosa de Deus.

Kyrie Eleison.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

SOMOS TÃO BONZINHOS!


Miserável homem que eu sou! (Romanos 7.24)

Quem começou com esta ideia foi um tal de Pelágio. Um teólogo da igreja nos idos de 410 de nosso tempo que começou a ensinar que não havia pecado original e que o homem podia se salvar apenas redirecionando sua moral. Nestes últimos dias vemos assustados, as consequências do que tem sido a ausência da Força Civil em nosso Estado. As Instituições Escolares fechando as portas, o Comércio sendo saqueado, pessoas assassinadas, tão somente porque a Polícia Militar entrou em greve. Todos nós recriminamos os “vândalos” por saquearem lojas e invadirem os condomínios. 

Mas, na verdade, o que vemos é a manifestação do que entendemos sobre “Pecado Deliberado”. Quem desenvolveu no Ocidente a doutrina do pecado como inerente a natureza humana foi “Santo Agostinho”, o teólogo cristão, norte-africano que combateu os ensinos de Pelágio e afirmava que o pecado de toda pessoa é voluntário, que toda raça humana pecou junto com Adão, e após a queda, a humanidade ficou totalmente depravada e incapaz de desejar o verdadeiro bem, aquilo que é bom aos olhos de Deus.

Nossa realidade decadente nos revela também que não temos ouvido mais a “voz profética” da igreja (entenda-se “profética” como voz que denuncia o pecado). O que temos visto nas igrejas atuais é uma verdadeira panaceia com discursos e frases de efeito que não redundam em mudança de vida. O ensino que afaga o coração dos ouvintes com falsas promessas, mensagens de auto-ajuda, acabam por disseminar o ensino demoníaco da “teologia da prosperidade”. 

Como igreja também somos responsáveis por ensinar o que deve ser ensinado: O ser humano é mau por natureza e somente por meio da graça e da livre operação do Espírito Santo pode este ser redirecionado para Deus. Enquanto a igreja não se pronuncia assim, vemos o Estado e os Meios de Comunicação ensinando o “neo-paganismo”, fazendo as pessoas acreditarem que são boas e que merecem ser abençoadas por Deus, promovendo uma fé abstrata por um “mundo mais feliz” onde todos podem viver do jeito que bem entenderem, camuflando a corrupção social e inconscientemente tornando-se “agentes do Anticristo”. Quando deixamos de tratar a nossa natureza humana como maligna, acabamos nos esquecendo o quanto somos propensos ao mal e nos assemelhamos a ele. 

A igreja cristã precisa elevar sua voz e viver segundo as máximas do evangelho “nas praças” quando o “magistrado civil” não cumpre com sua missão de esforçar-se pelo “bem-comum”. Na teologia estudamos que a Graça Comum atua como “repressora” do pecado por meio das estruturas sociais. Mas quando elas estão sob o poder do Anticristo, o que esperar? Enquanto a igreja não se pronunciar contra os pecados em todas as suas formas será ela também julgada como o Anticristo. Graça Comum não deve ser vista como qualquer graça senão a que também vem de Deus para que os homens vivam em paz e em acordo. Oração somente não basta. Pode ser o começo, mas só isso não é suficiente. Os avivamentos históricos promoveram mudanças sociais e políticas. 

Nesse sentido lembramos que não somos tão bonzinhos assim, pois o que muitos fazem dinamicamente com seu pecado, nós o guardamos em nosso coração bem escondido. Ninguém é bom (Rm 3.1ss). Por isso cuidemos de tratar deles olhando incessantemente para a graça de Cristo, dia após dia, mas também unindo esforços pela fé verdadeiramente evangélica (Jd 4) que promova um mundo melhor e deixemos de ser fatalistas. Cumpramos a missão política e social da igreja a fim de que o Reino de Deus continue no embate contra as trevas e não nos deixemos “corromper pelo mundo” (Tg 1.27), para que venhamos a nos tornar "verdadeiros e irrepreensíveis, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada, na qual brilhamos como estrelas no universo” (Fp 2.15), salvando e promovendo dignidade àqueles que estão perecendo.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

“A BENÇÃO DE UMA FAMÍLIA”



Sinto certa “inveja” daqueles que possuem uma família grande. Grande em número e grande em amor-doação. Quando perdi minha mãe com apenas dez anos, meu tio me disse no dia do funeral dela: “A partir desse dia, você terá muitas mães”. De fato, isso tem sido uma verdade para mim e como tem me confortado e me encorajado a encorajar outros que passam pela mesma situação e que ficam órfãos de pai ou mãe. A família da fé é muito maior do que pensamos.

Minha família “nuclear” sempre foi pequena. Porém, quando vejo pais já idosos ainda vivos com seus filhos e netos, sejam eles adultos ou não, penso no privilégio que eles possuem pois podem transmitir uns aos outros a essência da fé e da doação uns para com outros.

Na verdade, temos um grande “vazio” dentro de nós mesmos. Fomos criados para amar e ser amados num ambiente de doação de uns para com os outros e o “vazio” ocorre porque não sabemos amar e retribuir amor. Nossa doação de vida de uns para com outros está diretamente ligada a nossa aceitação dentro deste ambiente que se retro-alimenta em amor. 

Porém sabemos que nem sempre isto é uma realidade devido ao nosso egoísmo. Manifestamos nosso egoísmo e nos tornamos um fator desagregador por causa de nossa natureza humana. 

Quando olhamos para nós, gente de carne e osso, devemos nos mirar da Família Eterna. A Santíssima Trindade é o maior modelo pelo qual todas as famílias deveriam se moldar. Se há um ambiente mais cheio de amor esse é o ambiente da Trindade. Por muitas vezes, Jesus enquanto aqui, expressava “lampejos” de amor ao Pai. Dizemos “lampejos” porque não temos ideia do que seja Deus coexistindo por meio de seus relacionamentos em três pessoas distintas em nível eterno e transcendente. Tudo o Pai faz para o bem do Filho e o Espírito Santo faz para o bem destes dois.

Entendemos porque Jesus orava por mim e por você para que fôssemos “um”. Para nos preparar para vivermos a unidade que é o ambiente da Trindade, eternamente. Deus deseja que seus filhos comunguem do mesmo ambiente do Deus-Triúno. Esse foi o projeto inicial da criação. Esse é o projeto final da salvação eterna. 

Portanto, que possamos orar: Senhor ajuda-me a fazer de minha família um reflexo da família eterna em doação e em renúncia. Ajuda-me a amar meus pais e a me doar por meus filhos e irmãos. Retira de mim o fator desagregador que é o egoísmo.

Ressurreição e Missão

“Então o lobo morará com o cordeiro” (Isaias 11.6)  Há uma crença equivocada na Doutrina da Ressurreição. Entre os cristãos atuais tra...