quarta-feira, 17 de setembro de 2014

DEVOÇÃO E ESPIRITUALIDADE NA FORMAÇÃO MINISTERIAL

Há um diagnóstico extremamente sério na formação pastoral e missionária. Nos últimos anos, 71% dos missionários enviados para campos transculturais têm abandonado o campo por razões que poderiam ser evitáveis. No caso do Brasil o índice é de quase 25%.[1] Na área de formação teológica e pastoral, há que se notar um número excessivo de teólogos que congestionam os Concílios Eclesiásticos a fim de buscarem a ordenação e um campo de trabalho pastoral. 

Em conseqüência disso, não somente a tarefa missionária fica prejudicada, mas os missionários envolvidos que não perseveram e abandonam seus campos, caem em crises profundas, desde a frustração pessoal como o abandono da igreja. 

O início do século XXI revela novos moldes do cristianismo evangélico ocidental. A liturgia como de praxe, tem sido o cartão postal das mais variadas igrejas locais, ao mesmo tempo em que estas têm sido invadidas por um formato cultural cada vez mais veterotestamentário. “O Deus da Bíblia se manifesta através de lugares e pessoas ungidas”, dizem os profetas atuais. 

Os fundamentos bíblicos revelam que a adoração ou o que será denominado neste trabalho de devocionalidade é o agente motivador e alimentador da missão. Ela leva consigo mesma os princípios que fazem parte da credenda e também de sua agenda. Pode-se afirmar que a respeito de sua credenda, há uma íntima ligação com a formação de seus líderes, pastores, ministros e missionários. 

Corroborada à formação ministerial, a idéia triunfalista e de “sucesso de mercado” têm sido estimulada e desenvolvida. Essa realidade tem se refletido em muitas escolas teológico-missionárias, e os estudantes às missões e candidatos ao ministério não têm sido uma geração ensinada a perseverar, a despeito de problemas que são encontrados no campo. [2]

Esta situação tem gerado uma profissionalização do púlpito e ao mesmo tempo um retorno precoce de missionários dos seus campos. Nunca o espírito megalomaníaco atingiu tanto as igrejas como nos dias de hoje. Esse espírito tem sido mais importante do que as pequenas e singelas coisas a serem trabalhadas e nutridas no seio das igrejas locais. 

Projetos monumentais e a criação de “castelos feudais eclesiásticos” têm sido a motivação de muitos líderes religiosos. Os termos utilizados pelos que defendem os Movimentos de Crescimento de Igrejas incluem não somente a nomenclatura “Grandes Igrejas”, mas atualmente também “Mega-Igrejas”. A missão tornou-se um fim em si mesma e na grande maioria, projetos missionários a longo prazo são descartados, devido ao imediatismo e aos mega-projetos personalizados em seus “mega-líderes”. Grandes templos, grandes perspectivas, grandes “poderios” e “castelos eclesiásticos” nunca representarão um compromisso com o Reino de Deus. 

A preocupação exagerada com o local pode fazer esquecer a pregação a todas as nações. Ainda em 1947, o Conselho Missionário Internacional reunido em Whitby afirmava que “a missão precisa ser vista não com um sentimento imperialista, mas com o espírito de solidariedade ao mundo”. [3] Isto significa que o problema da missão é resultado de uma equivocada visão do que seja espiritualidade e ou devocionalidade. Onde a missão não seja opressora e sim libertadora, transformadora e redentora.

Aqui, deve ser relatado que a firme busca por uma devoção a Deus poderá, se o foco da devoção, for desviado, uma devoção à denominação. As buscas, os encontros, os cultos, os movimentos e eventos, se tornarão um reflexo de uma devoção à igreja local, ao evento em si, aos programas e aos departamentos nela existentes. 

Ao tratar sobre este tema, David Bosch, faz uma crítica ao distanciamento entre a igreja e a missão, dizendo:

“A fundação da igreja e o início da missão coincidem no livro de Atos em seu capítulo dois. Missão era a missão da igreja e igreja era a igreja missionária. No decorrer dos tempos, contudo, uma congregação atrás da outra foram estabelecidas e desenvolveu-se uma tendência para concentrar-se em seus problemas paroquiais e negligenciaram o relacionamento da igreja com o mundo.[4]

Assim há questões que são importantes, mas outras que são essenciais. A devocionalidade é essencial. Sem ela, a igreja perde a sua “salinidade” como “sal da terra” e sua “luz” torna-se mera “luz de um tição tirado do fogo”. 

Portanto o espírito devocional deve ser a mola propulsora da missão da igreja no mundo por meio dos mais variados ministérios. Para tanto, as Escrituras Sagradas são o fundamento para que a devocionalidade seja redescoberta no meio da formação ministerial. 



1. A relação entre a devoção e a missão na formação ministerial. 

O Antigo Testamento trata do caráter fenomenológico da adoração que permeia toda a Escritura. Mas é nos Salmos que esta visão se torna mais concreta. O povo de Israel falava a Deus por meio dos Salmos. Não somente enaltecia a Deus e as suas obras, como também recebiam forte impressão acerca do domínio universal de Deus e sua Soberania. Além disso, Israel como povo escolhido e também como nação sacerdotal deveria responder a Deus sinceramente tanto quanto conhecesse a amplitude de sua Soberania. Timóteo Carriker comenta assertivamente:

“E nesta resposta de Israel a Deus e ao mundo encontraremos grande significado missiológico, já que missão implica não só no discurso do povo de Deus com o mundo, mas numa tríade entre Deus, o seu povo e o mundo. A missão do povo escolhido encontra sua relação eficaz com o mundo à medida que responda sincera e pessoalmente a Deus.” [5]

A devocionalidade que deve ser vista como o relacionamento pessoal com Deus e porque não dizer com toda a Trindade Santíssima. Mas algo que compromete a hermenêutica é a confusão de vários intérpretes bíblicos com respeito à devoção. Pois a tendência é negar a vida de devoção pela ênfase na obediência pelas obras. A nação de Israel conhecia o Deus transcendente porém aparentava algo mais impessoal. Brennan Manning afirma a este respeito: 

“Israel conheceu um Deus santo, que transcendia a tudo que era visível e tangível. Ele era de certo modo refletido em coisas, mas não deveria ser identificado com coisas. Êxodo retrata Deus como estável e interessado, uma rocha de confiabilidade em meio a tantos dependentes. Os judeus relacionavam-se, dessa forma, com um Deus-aliança que havia tomado a iniciativa do contrato, que havia falado em primeiro lugar, que havia gerado Israel como nação e dado a ela um senso de identidade. Nesse estágio primitivo de relacionamento, o Deus de Israel era calmo, até mesmo frio. Qualidades como interesse, fidelidade e estabilidade eram apreciáveis, mas a ternura e a radiância não haviam aparecido. Iavé era como a Rocha de Gibraltar diante dos ventos de mudança. Ele possuía um rosto, mas era uma fisionomia impassível, com um toque de benignidade... não havia extravagância em Iavé. Ele era firme, justo e digno de confiança. Confiabilidade implacável”.[6]

Porém no Novo Testamento, a forma da devocionalidade se transforma em carne, sangue e ossos. A encarnacionalidade do verbo é o primeiro momento onde vê-se o Filho Unigênito deixando sua glória e abdicando de seu status. Aqui o Deus-Iavé vem ao encontro do homem em cheiro e suor. O relacionamento agora deixa de permanecer na base da obediência para depender exclusivamente da graça, do amor, da livre-iniciativa de Deus. A relação entre Deus-homem com a humanidade no pecado toma nova forma. 

É Deus mesmo que ensina ao homem o que é espiritualidade e desenvolve a visão de uma devocionalidade que extrapola as idéias paradigmáticas de tempo, espaço e liturgia. Jesus envolve-se com todos e deixa-se ser adorado por todos. 

Foi em um contexto de adoração que a Igreja Primitiva recebeu a plenitude do Espírito Santo para proclamar as boas novas (At 4.23-31). Foi em um ambiente de adoração que a Igreja de Antioquia da Síria separou a Paulo e a Barnabé para a obra missionária (At 13.1-3). Quando o apóstolo trata sobre a questão de culto entre os Coríntios, ele também envolve descrentes no contexto e demonstra que a mensagem pregada deve ser inteligível aos ouvidos dos incrédulos (I Coríntios 14). Enquanto Paulo e Barnabé estavam adorando e louvando, Deus permitiu a pregação ao coração do carcereiro de Filipos após o terremoto. (Atos 16). 

Os evangelistas também fazem questão de enfatizar a adoração, partindo do pressuposto que, embora Deus fosse trancendente, não deixava de receber a adoração de “todos” os homens e mulheres, que segundo o ponto de vista farisaico, eram gentios e indignos de se achegarem a Deus. Isso, o evangelista Lucas relata ao tratar sobre a mulher que ungiu os pés de Jesus em uma ceia na casa de uma fariseu.[7]

A devocionalidade envolve a pergunta: “Como ser aceito por Deus?” E também durante toda a história a resposta foi sendo formada a idéia de que existem pessoas classificadas como “privilegiadas por um acesso a Deus”. O tempo de Jesus é marcado por esta realidade: Os fariseus eram detentores das condições ideais para adorarem a Deus. Aqui é o grande perigo de uma devocionalidade altamente discriminadora e preconceituosa na formação missionária e teológica. O Pr. Edwinn Orr afirma: Centenas de cristãos, bem intencionados, que assistem convenções e conferências e tentam aprofundar a vida religiosa, regozijar-se com a graça que lhes foi dispensada, rapidamente caem na mesma vida de derrota espiritual porque não há uma completa e permanente compreensão e consagração da devoção pessoal a Deus. [8]

No caso do contexto bíblico supra-citado a “notável pecadora”, estava desprovida de riquezas e do ponto de vista religioso, desprovida de toda e qualquer condição para se fazer presente entre os “espirituais”. A palavra de Jesus esclarece e demonstra que somente ela, na verdade, possuía as condições ideais para a verdadeira devoção.

Esta mulher era digna de adorar porque reconheceu honestamente a Cristo como verdadeiro Deus. O texto afirma: “...estando por detrás, aos seus pés...”. Jesus era mais valioso que sua situação cultural, religiosa e social. (Hb 10.19-22). Embora, sua presença não fosse bem vinda na casa de um alto religioso, dotado do “conhecimento de Deus”, aquela mulher não estava preocupada com o cinismo do mesmo. Pelo contrário ela se coloca na posição de uma adoradora. Além disso, a sua devoção revelava um quebrantamento sincero. Seu quebrantamento foi marcado por rendição, reverência e humildade. Quebrantamento se constituiu da quebra de paradigmas além do estilo habitual de se adorar. Quebrantamento significa sinceridade que brota de um coração cheio de fé. Quebrantamento reflete o quanto se ama a Cristo. 

Sua devoção achou resposta da parte de Cristo. Ela recebe a restauração de sua vida. Jesus corresponde a sua manifestação de amor. Jesus perdoa os seus pecados, referenda a sua salvação, e a cura de todos os traumas e frustrações emocionais, sentimentais e familiares que possivelmente ela deveria ter absorvido por toda sua vida. 

Portanto, não há missão sem verdadeira devoção. Em contraste com nossos merecimentos, está o reconhecimento de que somente Cristo é o verdadeiro Deus. Isto destrona nosso ego e coloca no centro de nossa vida a Cristo como Senhor. Não pode haver verdadeira adoração se não houver verdadeiro quebrantamento, plena submissão, entrega de sentimentos armados, espírito endurecido. (Sl 51.16,17). 4) O alívio do perdão, a certeza de salvação, e a cura de doenças emocionais somente podem acontecer quando Cristo responde a nossa fé manifestada por esses princípios.

Ora é imprescindível que adoração e missão andem juntos. Orlando Costas declara: “Missão é a comunicação e a antecipação da adoração... Liturgia sem missão é como um rio sem uma fonte. Missão sem adoração é como um rio sem o mar... Sem um, o outro perde sua vitalidade e seu significado”.[9] lindas metáforas

E John Piper complementa: “Adoração, portanto, é o combustível e o alvo em missões. Ela é o alvo de missões, porque em missões, nós tentamos trazer as nações para dentro do gozo supremo da glória de Deus. O alvo de missões é a alegria dos povos diante da grandeza de Deus. Mas adoração também é o combustível de missões. Paixão por Deus na adoração precede o que Deus oferece na pregação. Você não pode recomendar o que não é valorizado. Missão começa e termina em adoração”.[10]

É altamente importante que seja aqui tratada a crise por que passa o treinamento e formação teológicos. Não se deve negar que a igreja bem como as escolas teológicas absorvem fortemente a idéia da Teologia da Prosperidade. A relação com Deus é diluída em barganha em nível material e físico. A idéia de Deus é repassada como o deus que tem a obrigação de suprir ao seu filho todas as suas necessidades materiais e físicas. A oração então, passou em ser uma mera ferramenta para um relacionamento frio, tal qual a nação de Israel provava. Esta realidade tem sido a base de formação de novos pastores, ministros e ministras do evangelho na maioria das denominações evangélicas na América Latina. 

Portanto, fenomenologicamente, o caráter adorativo está intimamente relacionado com a obra missionária, suas causas e suas conseqüências fazendo parte inerente da formação ministerial. 


2. Discernimento para uma espiritualidade criativa

Ao avaliar a prática da igreja contemporânea, embora exista uma avalanche de louvor e música na Igreja está aquém do compromisso com uma missão integral e global. O quanto e o como se canta para Deus é inversamente proporcional ao quanto e o como de faz pelo mundo sem Deus. Ademais da comercialização da música, a igreja adora pouco e canta muito para Deus. 

A pobreza na vida devocional da igreja, produz a pobreza na devoção ao mundo. Quanto mais corretamente fala-se a Deus, tanto mais a Igreja se comprometerá com o mundo na perspectiva de proclamar às nações para que elas também ofereçam sua oferta, uma vez santificada pelo Espírito Santo (Rm 15.16-18).

A adoração tem deixado de ser cristocêntrica para tornar-se antropocêntrica. A devoção a Deus não deve ser esquecida na adoração. 

John Piper assevera: Quando a chama do culto queima com o calor da verdadeira dignidade Deus, a luz da obra missionária brilhará até os povos mais distantes da terra. [11]

E Carriker acentua: Quando a paixão por Deus está fraca, o zelo por missões certamente será fraco também. As igrejas que não exaltam a majestade e a beleza de Deus dificilmente poderão acender um desejo efervescente para "anunciar entre as nações a sua glória" (Salmo 96.3). Os nossos cultos fervem com a exaltação da glória de Deus? O zelo pela glória de Deus no culto motiva a obra missionária. [12]

Para que a missão da igreja não seja interrompida e nem mal interpretada há necessidade de mover os olhos e o coração a Deus. É interessante notar o que Carriker declara: 

Se fosse pelo amor do ser humano, nossa ênfase deveria estar na salvação de indivíduos que estão próximos, e isto, de fato, é a prática comum. O amor a Deus, entretanto, leva a outra conclusão, que acredito ser a bíblica: a ênfase na prioridade de etnias, e especificamente etnias não alcançadas porque: 

1) há mais beleza e poder de adoração na unidade de culto derivada da diversidade de povos que canta todas as partes dum hino a Deus do que no coro que canta uníssono (Salmo 96.3-4); 

2) a fama, a grandeza, e o valor dum objeto de beleza aumenta na proporção da diversidade daqueles que reconhecem tal beleza; 

3) a força, a sabedoria e o amor dum líder se magnifica na proporção da diversidade de povos que ele inspira para segui-lo; 

e 4) ao focalizar todos os grupos humanos do mundo, Deus está subvertendo o orgulho etnocêntrico que se baseia em alguns atributos distintivos que cada povo gosta de destacar. Ao invés disto, o orgulho etnocêntrico natural de cada povo dá lugar à graça imerecida de Deus.[13]

Portanto, ainda que a adoração esteja em crise, não pelo aspecto litúrgico cultural, mas por causa dos princípios a ela atrelados, deve-se entender a missão e adoração desvinculado de uma vida liturgia. No Novo Testamento, a vida é liturgia e liturgia é a vida. 

Os mais necessitados do ponto de vista da adoração são os que ainda nunca ouviram falar sequer o Evangelho do Reino. Os não alcançados devem ter prioridade na missão. O lema de Paulo é "não onde Cristo já fora anunciado" (Rm 15.20-21). A Igreja deve repudiar o culto antropocêntrico e os princípios que não resultam em compromisso de vidas com a obra integral da Igreja. 

Neste caso a formação ministerial têm uma grande responsabilidade. Deve-se forjar nos alunos uma devoção que está vinculada a adoração, ao culto,e ao mesmo com a vida cotidiana, os afazeres, as atividades chamadas de “seculares”. Pois tudo envolve um culto a Deus. 

As escolas teológicas ensinam em sua maioria uma espiritualidade voltada para os fariseus do século XXI, desprovida da vida de alegria, de graça e de energia. Há uma espiritualidade mais esotérica do que propriamente bíblica nos seminários teológicos.

Portanto, ao buscar a preservação da adoração bíblica, os seus professores de “liturgia e hinologia” e de “homilética” deverão ter a responsabilidade de preservar os princípios da verdadeira adoração, ensinando uma liturgia integral para que a igreja respondendo sinceramente a Deus, assim também responderá às necessidades da sociedade por meio daqueles que receberão o evangelho da graça de Deus.

3. Missão e Devoção: um ciclo retroalimentador. 

Para compreender um pouco mais sobre a visão de uma espiritualidade que envolva devoção e missão, há de ser usado o modelo franciscano. As ordens mendicantes foram a busca pela vida que se confunde com a devoção. Aqui a adoração se mescla com a vida de ministério.

O monasticismo e as ordens mendicantes são termos estranhos à cultura evangélica atual, como também para o contexto teológico a que se está tratando. Contudo, é desafiador enquanto se caminha pela história das missões, estudar mesmo que não exaustivamente este momento histórico por que passava a Igreja Cristã. O momento que a Igreja Cristã estava vivendo gerava aqui e acolá, movimentos que tentavam reformar a Igreja, para que esta voltasse ao rumo ideal, sob as máximas do Evangelho do Reino e ao mesmo tempo aos pés do Senhor Jesus. 

O monasticismo conquanto um grande movimento missionário em séculos passados, estava neste momento histórico em crise. A igreja cristã, seguramente envolvida pelo caos espiritual, político e social, embriagada pelas “pompas e circunstâncias”, fechava os seus olhos para as reais necessidades do mundo como a miséria galopante que dizimava populações inteiras. Os movimentos intra e extra eclesiásticos eram “pedras que clamavam” a igreja o retorno a sua natureza missionária.

Valdir Steuernagel dá uma excelente definição sobre este momento e auxilia a compreensão sobre as Ordens Mendicantes. Afirma ele: 

O monasticismo tem a sua história composta pela experiência de milhares de cristãos que desde muito cedo na história da Igreja desenvolveram um modelo de vida solitário e separatista. Vivendo de forma ascética e alimentado pelas fileiras leigas da Igreja, este movimento, que cedo formou os seus próprios monges e constituiu as suas próprias e poderosas comunidades monásticas, desempenhou um papel fundamental na vida da Igreja. [1]

Conquanto fosse também um movimento, conhecido como um tipo de “para-eclesiástico”, o monasticismo pregava uma atitude excludente da sociedade. Se houvesse uma procura pelos monges, eles estariam, com certeza, entre as cavernas e os mosteiros, separados fisicamente do mundo, buscando uma espiritualidade contemplativa, uma devoção que não envolvia o semelhante, mas era algo muito individualista.

O movimento mendicante, enquanto mantinha os mesmos ideais das ordens monásticas, sua visão era muito mais ampla, como explica Steuernagel:

Mas o movimento mendicante vai além do monasticismo e introduz na decadente igreja uma nova maneira de conceber a vida cristã. O ideal cristão não deveria ser apenas a reclusividade monástica. Este tem um intrínseco caráter missionário e é intestinamente comunitário. Enquanto o monge dizia “viva como se estivesse sozinho com Deus neste mundo”, o frade, símbolo do movimento mendicante, dizia “viva como se você existisse apenas em função dos outros”. O frade já não foge ao deserto pelo deserto, ele invade a cidade, abraça o pobre e prega o evangelho.[2]

Portanto naquele momento, o movimento mendicante era uma tentativa de recuperar a missão da igreja pela devoção a Deus e o amor ao próximo, vivendo no meio de uma sociedade em crise, envolvida por grandes transformações sociais.

O surgimento das ordens mendicantes, dos Franciscanos, fundada por Francisco de Assis (1182-1226) e dos Dominicanos, fundada por Dominic de Gusmão (1170-1221), formaram um clamor para a recuperação da natureza missionária já diluída. Além disso, estes movimentos puderam lançar luz sobre a necessidade de uma reforma missionária na igreja. 

Para os mendicantes, espiritualidade era uma questão de estar engajado na missão ao mundo. No caso de Francisco de Assis, a idéia de espiritualidade se confundia com a devoção aos outros, a ternura para com os pobres e o respeito pela natureza como parte da criação que também deveria ser redimida. 

A igreja cristã necessitava ser restaurada em sua missão, por meio de uma reforma das suas motivações e de seus objetivos. As ordens mendicantes também radicalizam com seus objetivos. Os Dominicanos levavam a sério o ideal missionário que chegavam a estar prontos ao martírio foi para com seu maior expoente, Raimundo Lullo, missionário na Tunísia e Argélia, morrendo apedrejado nesse país. 


CONCLUSÃO

Assim, a igreja que é a fonte incrementadora de ministérios será a igreja missionária e aquela que gera e desenvolve ministérios de maneira que a espiritualidade é reconhecida como reflexo de um ministério sadio e verdadeiro. Todos os cristãos serão os “chamados”, serão considerados “ungidos” e valorizados igualmente. A igreja que vive sua missão ao mundo consagra os seus missionários, profetas, evangelistas, mestres, tanto quanto ordena seus pastores.

O déficit ministerial na Igreja será minimizado. Os missionários e pastores terão motivação para perseverar no campo. O caso é que muitos têm fracassado ministerialmente porque não têm aprendido a prevalecer. Isso porque tanto orgânica como espiritualmente a igreja não trata seus missionários e pastores no mesmo nível. 

A vida ministerial e a espiritualidade atingirão o púlpito, que atingirá a liderança e a visão ministerial deixará de ser privilégio apenas para alguns. A visão demoníaca de expandir ministérios personificados em mega-projetos acabará. 

Esta condição que vive a Igreja contemporânea é resultado da diluição de sua natureza missionária deixando-se ser seduzida pelo estilo de vida do mundo. Há uma concorrência denominacional e ministerial não somente entre igrejas, mas também entre pastores. O estilo de marketing tem sido absorvido, mesmo que inconscientemente pelos ministros, levando a uma superficialidade do que seja vida de discipulado em Cristo e cooperação na obra de Deus. Frank Dietz fala corretamente sobre o assunto: 

Os missiólogos nos ensinam que a primeira onda missionária foi iniciada com Guilherme Carey e liderada principalmente pelos europeus. A segunda onda surgiu com Hudson Taylor e foi liderada principalmente pelos norte-americanos. Uma das coisas que foi definitivamente exportada pelo ocidente para o terceiro mundo foi o espírito de competição. Se é verdade que esta terceira onda de missões será liderada pelos dois terços do mundo, então é muito importante que exorcizemos esse demônio de competição.[14]

Assim, é altamente importante que a igreja evangélica resgate esta devocionalidade e não somente o conhecimento teológico. Pastores e missionários que vejam a missão como adoração e a adoração como missão. Eis a realidade, eis o desafio.

Soli Deo Gloria

BIBLIOGRAFIA
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Steuernagel, Valdir R., Obediência missionária e prática histórica, São Paulo: ABU Editora, 1993.
__________________, ed. A Missão da Igreja. Belo Horizonte: Missão Editora, 1994.

Notas:
[1] Margaretha N. Adiwardana, Treinar missionários para perseverar: um preparo holístico para situações de adversidade, em: Capacitando para missões transculturais, (São Paulo: APMB, 2000), 5. 
[2] Margaretha Adiwardana, Missionários: preparando-os para perseverar (São Paulo: Editora Descoberta, 1999), 26. 
[3] David J. Bosch, Witness to the World. (Atlanta: John Knox Press, 1980), 176. 
[4] Id, 95. 
[5] Timóteo Carriker, Missão Integral,(São Paulo: Editora Sepal, 1992), 102. 
[6] Brennan Manning, O evangelho maltrapilho, (São Paulo: Editora Textus - Mundo Cristão, 2000), 101. 
[7] Evangelho de São Lucas 7.36-50 
[8] Extraido das notas de sermões do Rev. Samuel Falcão, ex-professor e ex-diretor do Seminario Presbiteriano do Norte, em Recife, PE, Brasil. 
[9] Orlando Costas, The integrity of Mission (New York: Harper & Row, 1979), 91. Texto citado por Ricardo Agreste, em A natureza e propósito missionário do povo de Deus. 
[10] John Piper, Let the Nations be glad, (Grand Rapids: Baker Books, 1993), 11. 
[11] Id.,12. 
[12] Timóteo Carriker, A missão Integral da Igreja, (Campinas: 1999), 1. 
[13] Id., 04. 
[14] Frank Dietz, Ministros de Cristo no Século XXI, (São Paulo: ABBA Press, 1995), 96. 



"La espiritualidad que deseamos": uma análise


"La espiritualidad que deseamos" é um dos poucos livros que nos levam a desejar ler mais sobre o assunto. Há muitos que discorrem sobre este tema mas a maioria apenas superficializa o mesmo. O Dr. Roldán, consegue levar o leitor pelas avenidas da espiritualidade equilibrada e sadia. O autor delineia sua proposta e tema desde o momento do prefácio. Assim é possível saber o que ele pensa sobre o assunto quando define a espiritualidade como uma compreensão plena do mistério de Cristo, tendo o fundamento das Escrituras Sagradas e a dinâmica do Espírito Santo para a glória do Pai. O desenvolvimento de uma espiritualidade sadia se torna a expressão verdadeiramente cristã, quando desemboca humildemente em atos e gestos estimulados por uma experiência mística com o Espírito Santo. Roldán afirma categoricamente que o referido trabalho representa uma busca por esta espiritualidade, isto é, uma busca por uma vivência autêntica da fé e do compromisso com Jesus. Aqui se supõe que este compromisso seja também a própria missão de Cristo. 

Ao mesmo tempo em que define seu tema e o termo espiritualidade, Roldán tem uma tendência para abordar a espiritualidade contemplativa por meio da oração como pilar desta vivência aos pés de Cristo. É importante lembrar que o mesmo não aprofunda seu tema na perspectiva social, uma vez que espiritualidade acaba por ser a manifestação da própria vida e a celebração diária como prática sacramental do cristão no mundo. 

Ao abordar historicamente o tema, o faz de modo amplo, alguns de seus subtemas escolhidos poderiam versar sobre as conseqüências éticas e morais daqueles dias. Contudo, ao chegar no período dos pais do deserto, o autor é muito feliz em resgatar a espiritualidade como fator de grande significância, até porque para os cristãos históricos que herdaram as máximas da reforma protestante a espiritualidade é tão somente restrita ao primeiro século e então reaberta apenas nas fases preliminares do movimento reformista. 

É altamente louvável e recomendável que este livro seja lido e traduzido para outras línguas como, por exemplo, o português, para que outros latinoamericanos tenham o conhecimento e acesso do que seja uma espiritualidade integral e equilibrada. Sente-se a falta de uma visão mais aberta, mais missionária quando o autor dedica uma grande parte do tema a oração e práticas espirituais como a própria vida em si. Talvez por que a tendência cristã evangélica seja ainda dicotomizar a vida. 

Todavia, este livro deve ser reconhecido como de grande utilidade para resgatar a espiritualidade pessoal e disciplinada uma vez que o mundo está vivendo tempos onde a busca do silencio é algo muito raro devido ao sistema consumista e mercantilista que se vive hoje.

Cabe aqui também uma crítica ao próprio oferecimento de recursos literários nos dias de hoje. O autor poderia, como é capaz, de trabalhar mais profundamente os temas relacionados. Na sede de buscar águas mais profundas, o leitor se dará com bons poemas, boas aplicações pessoais, mas com certa ausência de aplicações nas áreas mais horizontalizadas da vida humana. Porém é de alta importância que esta obra seja veiculada em todos os seminários, para que este tema possua um maior acesso a todos que tenham por objetivo agradar a Deus e fazer dele o propósito último, isto é vivendo para sua glória eterna, assim como todos foram criados para esse fim.

ROLDÁN, Alberto Fernando. 2003. La espiritualidad que deseamos. Buenos Aires: Publicaciones Alianza.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

CHAMADOS PARA A MISSÃO





As Escrituras nos fazem ver que existem três palavras que direcionam a missão da igreja e que são os braços que devem estar estendidos no mundo por meio dos seus filhos. Jesus nos chama a ser “sal da terra” e “luz do mundo” por meio destas três ações como igreja, seja como Corpo de Cristo, seja como comunidade local.

1) COMUNHÃO - Koinonia (Jo 13.34-35): Jesus nos ensina que a comunhão é o primeiro passo para a missão. A comunhão é o que dá o tom do serviço. Para que possamos cumprir a missão neste mundo, necessitamos buscar não apenas “viver”, mas a “conviver” com os irmãos. A comunhão não é um “fim em si mesmo”, mas o meio pelo qual outros veem o amor que nós possuímos uns pelos outros e os motiva a tornarem-se parte de nós, junto conosco. A nossa “convivência” marca a vida de outros profundamente.

2) PROCLAMAÇÃO DO SENHORIO - Kerigma - (Rm 10.9): A grande mensagem da igreja primitiva era: “Jesus [é] o Senhor...”. No início da era cristã, os cristãos não pregavam apenas uma salvação celestial, mas o Senhorio de Cristo sobre tudo e sobre todos. Quando pregamos o Senhorio de Cristo, não dizemos apenas que Ele pode salvar a “alma” das pessoas, mas também tudo que envolve a vida. Ao dizermos que Jesus é o Senhor, revelamos que Ele não apenas nos salva para o céu, mas que Ele deseja ser o verdadeiro governador da vida “aqui e agora”. É impossível dizer que “Jesus é o Senhor” e não permitir que Ele tenha a palavra final na Educação, na Ética, na Economia e na Política. Dizer que Cristo é Senhor também é fazê-lo salvador do “corpo” e da “alma” não apenas no sentido pessoal, mas também no coletivo.

3) SERVIÇO DE AMOR - Diaconia - (Mt 25.30,45): A missão da igreja envolve o homem não apenas no espírito, mas também no físico. Ele é o Senhor e deseja ser o regente definitivo sobre a vida humana. Essa foi a proposta da “criação” no Éden. Se crermos na crucificação de Cristo, também cremos na ressurreição do corpo. Se amarmos pelo discurso, devemos amar também por meio de atos, de ações, de obras. Só existe evangelho de Cristo quando as pessoas são restauradas material, física, psicológica e socialmente. O evangelho que salva é também o evangelho que restaura a saúde em todos os níveis da vida humana.

Assim compreendemos que missão não é apenas evangelizar, mas é se fazer presente na sociedade a fim de que, através de palavras e atos o Reino de Deus se concretize nesta terra. Quando abraçamos a Cristo pela fé, começamos a viver a “Nova Criação” a partir de agora, pois o que fazemos aqui promoverá a Volta de Cristo. Ele virá enquanto a Sua igreja está trabalhando, pois só se é igreja enquanto se está em missão e somente há missão enquanto a igreja vive neste mundo de modo justo, piedoso e relevante. Portanto, mas uma vez neste momento, dedique seus dons, talentos e conhecimento como braços e mãos do Espírito Santo para que você também seja participante da Sua missão.



Rev. Luiz Augusto

domingo, 17 de agosto de 2014

ANTES QUE SE ROMPA O FIO DE PRATA

Sim, lembre-se dele, antes que se rompa o cordão de prata... (Eclesiastes 12.6)


A vida é muito curta e passageira. Muitos escritores da Bíblia falam que o ser humano é como a flor de uma erva. Nasce, cresce, torna-se bonita e morre. Temos visto nestes últimos dias isso acontecendo com muitas pessoas que buscam a felicidade a curto prazo. A vida passa ligeira. Muitos tentam evitar a morte com tratamentos contra o envelhecimento e lutam por uma qualidade de vida física sempre melhor. Mas o que fazer quando a morte nos chega repentinamente?

O escritor do livro de Eclesiastes lembra que antes que se rompa o fio de prata, lembrem-se do Criador. Porém é bom saber que a lembrança aqui pedida pelo autor de Eclesiastes não é meramente um ato de memória, mas, sobretudo de tornar o Criador a razão de suas vidas e confiar sua vida a Ele, pois após a morte não há muito mais o que fazer.

Lembrar-se do Criador é dar os melhores anos de sua vida a Cristo. Quando vivemos de modo que tudo o que fazemos ou pensamos está sob a orientação da Palavra de Deus, a vida e nossa limitação se tornam mais leves. Uma das coisas que sempre ouvimos é que a juventude foi feita para aproveitar a vida. Muitos dizem: “Aproveite enquanto é jovem”! Mas aproveitar a vida para aquele que se entrega a Cristo é viver com sabedoria, alegria e consciência.

Por isso enquanto a vida passa com rapidez e antes que a morte chegue, devemos lembrar-nos do Criador como aquele que tem o sopro da vida em suas mãos. Muitos de nós lutamos para que tenhamos o controle dela. Mas é um ledo engano. Sabemos que isso é impossível. Então a melhor coisa que podemos fazer é buscar toda a orientação que provém do Autor da vida para que possamos usá-la da melhor maneira possível conhecendo o Eterno Filho de Deus.

Lembre-se do seu Criador que é o próprio Cristo. Se entregue a Ele. Faça dEle a razão de sua existência porque não sabemos quanto tempo temos aqui de vida, mas também plante agora as sementes da graça e viva de modo que você possa colher os frutos na eternidade aí sim, de fato, valerá a pena. Esta vida comparada a eternidade - que já começa aqui - não pode ser comparada e nem mensurada. Jamais pense que esta vida é a única a ser vivida. Plante para a vida eterna. Esta vida somente fará sentido, se vivida na esperança da eternidade!

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

“DEUS, FAÇA DE MIM UM HOMEM”



Lendo um livro sobre plantação de igrejas de Darrin Patrick, achei interessante sua análise sobre a realidade social do homem a qual está passando por uma crise sem precedentes no século XXI. Vivemos uma crise onde os homens atuais prolongaram a sua adolescência. Não são homens maduros e sim “homeninos”. 

Há muitos homens que ainda vivem a transição da adolescência para a fase adulta. Não amadureceram e não cresceram. Encontramos este tipo de homem também na igreja. Quase metade dos homens adultos é aficionado em internet e especialmente em videogame. Muitos vivem com uma companheira e não estão casados. A maneira que este “homenino” lida com as mulheres é desastrosa. Muitas mulheres hoje desistiram de tentar encontrar o “cara certo” porque os homens que lhes aparecem não são homens, são meninos na mente e coração. Eles não possuem absolutos, vivem um relativismo pessoal e como consequência são instáveis emocionalmente, próprios de adolescentes. Não gostam de responsabilidades, vivem ciceroneados pelos pais e preferem morar na casa destes. Como consequência, este “homenino” adia sua vida adulta tanto quanto ele puder. Evita a todo custo casar-se e ter filhos. Numa roda de “homeninos” o assunto geralmente é UFC, pois se projetam nestes “super-heróis” de intelectos vazios. Desenvolvem relacionamentos virtuais e vivem num mundo só deles. Assim, a sociedade tem se arrumado em torno da mulher como aquela que deve resolver os problemas deste homem que não é homem, mas um adolescente que vive como um autista social.

Hoje, precisamos de homens que se assumam como adultos. O mundo ocidental a passos largos está preferindo os homens mais novos por que podem “produzir” mais e rejeitando os mais velhos que poderiam deter a sabedoria. Nisso perdemos feio para o mundo oriental. Mas enquanto os “homeninos” não se tornarem conscientes que precisam amadurecer ainda sofreremos com movimentos sociais instáveis, instabilidade econômica em todos os sentidos e teremos famílias desajustadas. Homens que assumem sua maturidade promoverão, com certeza, melhores relacionamentos, bem como um país mais sério no que tange as macro-decisões. 

Precisamos de homens que se assumam como instrumentos de transformação social. Homens que sejam comprometidos. Comprometidos como maridos, pais, líderes e liderados. O que me assusta é que não vemos mais homens comprometidos com ideais, e sim se tornam elementos que vivem para si, pensam somente em si e pensam que o mundo gira em torno deles. O Cristo-Homem deve ser o modelo pelo qual devem estar comprometidos com o Reino de Deus e não com seus próprios nomes e com suas vidas pequenas demais. 

Hoje, precisamos de “homens de Deus” seja no mundo ou na igreja. Quando este título já virou “jargão” e se desgastou, temos que descobrir novamente a seriedade deste termo e compreender que este homem é aquele que busca conhecer a Deus profundamente e tanto quanto conheça, viverá como Deus quer e não como ele prefere. 

Se há um presente que podemos dar aos nossos filhos, a igreja e ao mundo neste dia, é como homens assumirmos nossas lutas, nossos ideais e acima de tudo buscarmos o modelo a ser vivido: Jesus Cristo - homem.

Concluo fazendo a oração de Darrin Patrick: “Deus faça de mim um homem inabalável, mas de coração terno. Faça de mim um homem firme e amoroso. Faça-me firme para que eu possa encarar a vida. Faça-me amoroso para eu possa amar as pessoas. Deus faça de mim um homem”. 

Feliz Dia dos Pais, 2014

sábado, 26 de julho de 2014

Foi-se o tempo... de amar a Deus!

Sou fruto de um tempo onde ser cristão era um ideal e um desafio de viver. Lembro-me muito bem que as pessoas tratavam a Bíblia de maneira muito sagrada. As palavras ouvidas de um sermão eram “ruminadas” durante a semana. Os cultos de oração eram bem frequentados e os hinos e cânticos espirituais eram bem conhecidos por que os cantávamos muitas vezes, de coração.

Foi-se o tempo onde as aflições e pressões que passávamos eram entendidas como vontade de Deus para nos refinar e apurar a nossa fé. Hoje toda e qualquer aflição tem sido vista como vinda do maligno e muitos buscam a Deus para serem curados sem desejar amá-lo sinceramente.
Foi-se o tempo onde os pastores e líderes eram respeitados e aceitos por que buscavam viver o que pregavam. Não havia imposições. Os líderes eram amados e os respeitávamos por que sabíamos que não desejavam outra coisa senão parecerem com Cristo. Hoje as lideranças são impositivas e somente permanecem líderes porque são oportunistas e criam um espírito de “medo” nos membros de suas igrejas. Medo que envolve uma mensagem de “terror e maldição”. Se há possibilidade dos seus fiéis debandarem, imprecam contra tudo e contra todos! Os pastores estão se tornando lobos vorazes.

Foi-se o tempo em que os Jovens eram apaixonados por estarem juntos em todo tempo. Ser jovem naquela época era sinal de luta, perseverança e esforço. Hoje, os jovens se alienaram com tanta fartura da Tecnologia e da Média. Não conseguem ser fiéis aos seus votos que fizeram a Deus. Naquela época os votos a Deus e a igreja era coisa de “gente com palavra”. Cristo nunca mudou, mas os jovens como mudaram! Não vemos mais os jovens serem firmes espiritualmente. Não os vemos mais nas reuniões de oração, nos cultos de doutrina, nas reuniões comuns. Não há mais iniciativa, esforço e dedicação. Quando isso acontece é devido a muito barulho e muita agitação. São movidos a eventos que não enchem, mas incham.

Onde estão os Homens e as Mulheres? Viajando, passeando, curtindo a vida, cuidando da saúde, fazendo suas caminhadas, trabalhando, mas estão longe dos grupos de oração, a não ser que sejam estimulados por um lanchinho, um almoço, um prêmio, um mimo, alguma coisa que traga certa vantagem.

O que aconteceu? Cristo mudou? Talvez a mensagem que ouvimos das pessoas sobre Ele mudou. Tornamos Cristo um elemento dispensável. Tornamos Cristo um deus conveniente. Fizemos de Cristo um participante de nossos cultos onde o sujeito somos nós. Cantamos, oramos, louvamos para nós mesmos. O deus que adoramos somos nós mesmos. Somos um retrato de uma fé consumista e vivemos para um Deus de barganhas. Precisamos urgentemente voltar a amar a Deus, amá-lo de tal maneira que nossas palavras sejam silenciadas pelas nossas atitudes e pelo compromisso com os irmãos, com as pessoas, com uma igreja que se identifique com o verdadeiro Jesus Cristo, Nosso Senhor. Essa igreja existe. Depende de cada um de nós! Que saudade do tempo onde aprendemos a amar a Deus!

sexta-feira, 11 de julho de 2014

CONVERSÃO: DESCONFIANÇA PARA CONFIANÇA

"O pecador salvo pela graça é assombrado pelo Calvário, pela cruz e especialmente pela pergunta: Por que ele morreu? Uma indicação vem do Evangelho de João 3:16: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna". Outra indicação da declaração de Paulo em Gálatas: "[ele] me amou e a si mesmo se entregou por mim". A resposta está no amor.

Mas a resposta parece muito fácil, muito pronta. Sim, Deus salvou-nos porque nos amou. Mas ele é Deus. Ele tem uma imaginação infinita. Ele não poderia ter sonhado uma redenção diferente? Não poderia Deus ter nos salvado com um sorriso, com um espasmo de fome, uma palavra de perdão, uma única gota de sangue? E se ele tinha de morrer, então pelo amor de Deus — pelo amor de Cristo — não poderia ter morrido no leito, morrido com dignidade?

O pecador salvo está prostrado em adoração, perdido em assombro e louvor. Ele sabe que o arrependimento não é o que fazemos para obter o perdão; é o que fazemos porque fomos perdoados. Ele serve como expressão de gratidão em vez de esforço para obtenção do perdão. Portanto, a seqüência: perdão primeiro e arrependimento depois (e não arrependimento primeiro, perdão depois) é crucial para a compreensão do evangelho da graça.

Muitos de nós, no entanto, não conhecem nosso Deus e não compreendem seu evangelho da graça. Para muitos, Deus está ali sentado como um Buda, impassivo, imóvel, inflexível como rocha.

O Calvário, no entanto, fala mais alto do que qualquer livro de teologia: não conhecemos nosso Deus. Não apreendemos a verdade da primeira carta de João: "Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados". A cruz revela a profundidade do amor do Pai por nós: "Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos".

O discípulo que vive pela graça em vez da lei já experimentou uma conversão decisiva: uma mudança de desconfiança para confiança. A característica mais destacada de se viver pela graça é confiança na obra redentora de Jesus Cristo.

Crer profundamente é compreender que sou o filho amado deste Pai e, portanto, livre para confiar. Isso faz uma diferença profunda no modo como me relaciono comigo mesmo e com os outros; faz uma enorme diferença no modo como vivo. Para confiar em Abba, na oração e na vida, é postar-se de pé em abertura infantil diante do mistério do amor e da aceitação da graça.

Numa religião legalista, a tendência é desconfiar de Deus, desconfiar dos outros e, conseqüentemente, desconfiar de nós mesmos. Você realmente acredita que o Pai de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é gracioso e que ele se importa com você? Você realmente crê que ele está presente sempre, infalivelmente, como companheiro e como auxiliador? Você realmente crê que Deus é amor?"

(Brennan Manning – O evangelho maltrapilho)



sexta-feira, 4 de julho de 2014

MISERÁVEL HOMEM QUE SOU!


Examinemos e submetamos à prova os nossos caminhos, e depois voltemos ao Senhor ( Lamentações do Profeta Jeremias 3:40).

Uma das manifestações que provam a natureza limitada do ser humano é a sua insensibilidade quanto a sua condição espiritual. Já percebeu como reagimos se alguém tenta nos provar que estamos errados em alguma palavra ou atitude tomada? Na verdade, é muito difícil a qualquer pessoa convencer-se de seus erros. Mas essa é sem dúvida alguma a primeira característica do pecador. O pecado trouxe a cada um de nós e ao mesmo tempo a toda a humanidade a insensibilidade quanto a nossa maneira de pensar a nosso próprio respeito. Sempre temos, na maioria dos casos uma concepção equivocada a respeito de nós mesmos e somos sempre prontos a rejeitar qualquer crítica ou afirmação contrária ao que pensamos. 

Por isso quando começamos a aprender sobre as Escrituras Sagradas, um dos ensinamentos básicos é que o ser humano é pecador. Dentro desta questão, devido a nossa insensibilidade espiritual, tentamos minimizar os efeitos que o pecado traz a nossa vida e ao contexto em que vivemos. A Bíblia nos coloca em nosso devido lugar quando fala acerca de nossa relação com Deus, conosco mesmos e com nosso semelhante. Não somos pecadores apenas porque pecamos por atos, palavras e pensamentos, mas porque vivemos numa condição de não-comunhão profunda e intensa com o Deus santo, bom e misericordioso! 

Se soubéssemos os males que o pecado nos trouxe procuraríamos de maneira mais intensa e específica nos libertar deste mal que a todos afeta. Por exemplo, em nosso Catecismo, vemos que o pecado trouxe ao ser humano uma séria de consequências não somente neste mundo que vivemos, mas também naquele que haveremos de viver. A estes efeitos, nosso Catecismo chama de miserabilidade. Assim sendo, a vida humana em sua essência é uma vida de miséria em todos os sentidos. O pecado que nos distanciou da Divindade, nos levou a viver miseravelmente. Nossas concepções, nossos pensamentos, nossas relações interpessoais, são claramente resultados de nossa vida miserável, pois o que era fato como a comunhão plena com Deus em todos os sentidos, o ser humano por se “achar” competente, e querendo se fazer como Deus, afrontou-O e condenou-se a si mesmo.

Por isso, urgentemente necessitamos possuir uma correta visão de nós mesmos para que vivamos de modo saudável e em profunda comunhão com Deus, nosso Criador e Redentor e também com nossos semelhantes. A vida cristã somente faz sentido se possuirmos sincera noção de nossa corrupção humana que tem início em nosso próprio coração. 

Somente começamos a reconhecer nossa real condição quando sinceramente procuramos nos convencer de nossa miséria espiritual e Deus fará sentido e O teremos como a única fonte vida em nossa existência. A miséria que o pecado nos traz somente pode ser aliviada quando Cristo se faz um conosco. 

Portanto, carecemos em todos os momentos rogar a Deus que Ele e somente Ele venha nos dar a convicção de nossa miséria seja ela espiritual, física, psicológica e social. Qualquer pessoa que se disponha a enxergar quem é de modo sincero e verdadeiro sempre será recipiente da presença perene e eterna do Espírito Santo de Deus.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

ALIMENTANDO O REBANHO OU ENTRETENDO OS CABRITOS?






Um mal terrível esta no acampamento do Senhor, tão grande em infecciosidade que até os mais míopes não conseguem fazer vistas grossas a ele. Durante os anos passados ele tem se desenvolvido numa dimensão anormal. Tem agido como um fermento insistente para que toda a massa seja levedada. O maligno jamais causou tanto mal a Igreja do que fazendo-a pensar que sua missão é prover entretenimento para as pessoas, com a boa intenção de conquista-las. De fato, a Igreja tem diminuído gradualmente a cor do seu testemunho, se moldado e adaptado as frivolidades que constituem o modismo de cada época, Depois passa a tolerá-las em seu território. No próximo passo ira adotá-las sob o argumento de alcançar as massas.

Meu primeiro argumento é que providenciar diversão para as pessoas jamais é mencionado nas Escrituras como sendo função da Igreja. Se esta é uma tarefa cristã, por que Cristo nunca falou sobre ela? "Ide portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo;" (Mt 28:19). Isto é suficientemente claro. Se não, Ele teria acrescentado "e providenciem entretenimento para todos aqueles que não se renderem ao evangelho". Palavras como estas jamais serão encontradas na Bíblia! Parece que o Senhor da Igreja não pensou nisso! De novo, "Ele concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para pastores e mestres... para a edificação do corpo de Cristo" (Ef. 4:11). Onde aparecem os entretenedores? O Espirito Santo se cala a respeito deles! Os profetas foram perseguidos por divertirem o publico ou porque se recusaram a faze-lo? Os concertos de entretenimento não têm rol de mártires!

De novo, oferecer entretenimento está em completo antagonismo com a vida e ensino de Cristo e de todos os seus apóstolos. Qual era a atitude da Igreja para com o mundo? "Vos sois o sal da terra", não a bala de açúcar! Algo que o mundo vai cuspir fora e não engolir facilmente. Curta e afiada foi a exortação: "deixe que os mortos enterrem os seus mortos". Ele falava movido por uma honestidade terrível!

Se Cristo tivesse introduzido alguns elementos mais chamativos e agradáveis em sua missão, Ele teria sido mais popular e procurado de novo por aqueles que O abandonaram irritados. No entanto, Ele nunca disse: "corram atras dessas pessoas, Pedro, e diga-lhes que teremos um outro tipo de culto amanha, algo breve e atrativo com uma pregação bem curta. Nós teremos uma noite agradável e descontraída voltada para a vontade do povo. Diga-lhes que sem duvida o programa será muito bom. Seja rápido, Pedro, precisamos segurar essas pessoas de alguma maneira!"

Jesus tinha piedade dos pecadores, cuidava e chorava por eles, mas nunca procurou diverti-los. Para Jesus não havia outra arma camuflada para conquistar os rebeldes espirituais. Ele tinha confiança na eficácia do evangelho puro e simples! Quando Pedro e João foram separados para pregação do evangelho, a Igreja teve uma reunião de oração, mas eles não pediram "Senhor, conceda aos teus servos uma boa dose de criatividade santa, para que possam trazer um entrenenimento piedoso a fim de que as pessoas vejam quão alegres nos somos!" O fato é que, como eles não cessaram de pregar a Cristo, não tiveram tempo de promover entretenimentos! Espalhados pela perseguição, foram por todas as partes pregando o evangelho, Eles "viraram o mundo de cabeça para baixo". Esta é a única diferença! Senhor, tenha misericórdia e nos conduza aos métodos apostólicos!

Finalmente, a missão do entretenedor falha por não alcançar o fim esperado. Seu ministério operará inversamente na vida do recém convertido que participa de todos os atos do grande show sem ter tempo de ser levado a maturidade. Permite aos zombadores e descuidados na fé, gratos a Deus porque a Igreja os alimenta pela metade, um envolvimento ministerial incompetente e comprometedor. Assim não haverá ninguém a quem dirigir uma resposta porque a missão do entretenedor não produz convertidos! A necessidade da nossa hora para o ministério é a junção de capacidade preparada e espiritualidade honesta, uma surgindo da outra como o fruto brota a partir da raiz. A necessidade é doutrina bíblica, tão compreendida e sentida, que venha a por o ser humano em chamas.




C. H. Spurgeon (1834-1892) - Londres.

sábado, 31 de maio de 2014

PRECISAMOS DE UM VERDADEIRO AVIVAMENTO DO CORAÇÃO (II)



Precisamos de um avivamento do coração QUANDO NÃO PRATICAMOS A ORAÇÃO INCESSANTE. A crise que vivemos constata que os cristãos não oram mais. Neste caso precisamos voltar a definir o que seja oração para que possamos entender tal afirmação. Na época da Antiga Igreja Cristã a oração foi desenvolvida fortemente pelos conhecidos “Pais apostólicos” e pelos “Pais do deserto”. Foram homens e mulheres que chegavam à conclusão que a vida deles não fazia sentido se não vivesse um relacionamento profundo e intenso com Deus. Tanto é que a palavra “teólogo” significava para aqueles dias “aquele que ora”, significando que aquele que orava possuía um profundo senso e conhecimento da Divindade. Sendo assim na época da Igreja Antiga, orar significava conhecer a Deus profundamente e viver intensamente a vida de Deus. Portanto, orar a Deus possui aspectos que extrapolam o racionalismo do que se define hoje por orar. Muitos pensam que orar é uma conversa com Deus como se fosse um “bate-papo”. Falamos de um lado, ele escuta do outro, reclamamos por alguma coisa e ele quando se quiser reponde ou não. Quando nada acontece, quando Ele não nos “responde”, pensam outros é porque não usamos as palavras corretas. Temos que dizer as “palavras-chaves” senão Ele não nos ouvirá e nem responderá a nossa súplica. Alguns outros aceitam a oração como uma barganha. Se formos fiéis a Deus ou estivermos “quites” com Ele, ele nos ouvirá e nos responderá de acordo com a nossa vontade. Enfim há uma série de condições impostas pela igreja institucional e pela popularidade religiosa sobre a oração. 

Quando afirmo que os crentes não oram mais, quero dizer que a oração tornou-se uma prática com muito palavrório, muita verborragia, muita falação. As reuniões de oração ou cultos de oração tem se caracterizado pelos discursos sobre Deus. Há muita gente que fala “sobre” Deus e não fala “a” Deus. Vivemos um deserto no que se refere a isso. Muitos estão concorrendo a reuniões de oração onde se pede muito e se suplica muito, onde há muita gritaria e histeria, mas pouca oração. Pessoas entram em transe, supondo que estão elas cheias de Deus, mas na verdade estão cheias delas mesmas. Deus nem se faz presente embora seja seu nome seja muito usado, mas aí Deus nem está. Perdemos o senso de um Deus que deseja se relacionar conosco e começamos a achar que Deus é bom por que é um “deus-feito-segundo-nossa-idéia-consumista”. 

Também percebo que os crentes não oram por que os seus pastores nunca oram e nem ensinam suas ovelhas a orar por que não sabem o que é isso. Vivem de eventos e de um ativismo inócuo, sem resultantes para a vida. São meros executivos de uma “empresa eclesiástica” que se autodenomina “igreja”. Este caso isso tem se tornado um círculo vicioso. Os pastores não sabem orar porque também em seus cursos de teologia nunca os ensinaram a prática da oração. Os Seminários se tornaram escolas de informação e não de formação espiritual. Da mesma forma os líderes da igreja e a própria comunidade os leva a executar tarefas que não envolvem a espiritualidade pastoral de fato e devido a manutenção econômica tais pastores acabam se submetendo ao esvaziamento de uma prática e de uma ação pastoral sem Deus.

Como consequência deste sistema consumista e tirano da vida, afirmo que os crentes não oram mais por que nem dão tempo para a oração, como também não sabem o que é oração incessante a qual o apóstolo Paulo e os Pais da Igreja falavam. As igrejas que se enchem de pessoas para os cultos de oração são na maioria apenas locais para praticas ritualisticas de pedir e clamar como último recurso no desespero da vida. Lotam templos de igrejas majoritariamente conhecidas como “neopentecostais” por que estão desesperadas e quase não há mais nada que fazer.

A oração é um elemento esquecido em nosso mundo ocidental. Embora a Reforma Protestante tenha trazido de volta a Escritura para o centro da Igreja, ela somente permanece no centro se houver profunda busca por Deus. No Oriente, as igrejas ensinadas pelos Pais do deserto, desenvolveram uma visão muito diferente sobre oração. No mundo ocidental, os protestantes somente foram ter uma noção um pouco mais profunda sobre isso quando os movimentos de despertamento espiritual que ocorriam às margens da cúpula da igreja começaram a surgir, pois embora possuíssem a Escritura como centro, o racionalismo cristão que atingiu a igreja no século XVIII transformou a oração em pura ação lógico-verbal. Mas o Pietismo como movimento de reavivamento para a igreja protestante alemã naquela época, foi fundamental a fim buscar a vida piedosa e oração como centro da vida. A Escritura somente possui seu incremento quando alimentada pela oração do coração, de uma piedade segundo Deus, de humilhação e quebrantamento interior.

Carecemos de um avivamento do coração a partir da oração porque o ser humano é um ser “místico”. Entenda-se o que quero dizer com a palavra “místico”. Não fomos criados a partir da matéria apenas, há um sopro divino em cada um, há uma alma que dá sentido a nossa humanidade como pessoa. Deus nos criou como parte de seu Espírito. 

Os antigos Pais afirmavam: “pássaros voam, os peixes nadam e o homem ora”. Isso diziam porque cada ser possui sua natureza. Não é possível ser um pássaro e não voar, se isso não acontece tal ser não é um pássaro. Assim a natureza do homem é a oração. Se não oramos não somos humanos, somos algo diferente, mas humanos com certeza não o somos. Por isso o encontro com o Deus-Homem, Jesus Cristo é inevitável para que o ser humano seja de fato humano e não um monstro. Ele por sua graça e pelo seu amor sacrificial na cruz e sua ressurreição restabeleceu a natureza do homem que lhe é própria. 

Portanto precisamos urgentemente de um avivamento do coração que revele ao ser humano o desejo de viver para Deus utilizando como canal a oração. 

Em primeiro lugar, por isso defendo a oração como um encontro com o Transcendente. Quando digo encontro, entendo que oração não pode e nem deve ser banalizada, nem superficializada como se fosse uma conversa que praticamos com nossa vizinha ou com qualquer pessoa. A oração é encontro com a Divindade. A oração é experiência e não discurso para um “deus-segundo-nosso-pensamento”. Se o assim fazemos, praticamos uma tipo de idolatria onde deus é o elemento que podemos domesticar ou mesmo fazermos dele uma imagem segundo nosso pensamento. A oração é uma prática que transcende o pensamento, a racionalidade ou as ideias mais bem montadas. A oração embora se utilize da razão não se fundamenta no racionalismo. Por isso há necessidade de se entender o encontro como algo empírico, algo que envolva o sentimento, a emoção, o caráter, a personalidade, enfim tudo que somos está envolvido neste encontro. Além disso, nos encontramos com Deus quando desenvolvemos nossos sentidos nesta prática: a fala, a audição, o olfato, o tato e o paladar são sempre envolvidos nisso pois o ser humano é tomado de forma completa e complexa para Deus. O que podemos entender que a oração não é mera verbalização de palavras, mas um próprio culto em si, de maneira individual. Da mesma maneira nossos cultos deveriam ser a coletividade de nossas orações individuais.

Em segundo lugar afirmo que a oração é uma prática de contemplação. Se Deus no Antigo Testamento e Cristo no Novo se deixaram ser contemplados, o Espírito Santo não é diferente para com isso. Ele está presente na contemplação que ocorre dentro de nossos corações. A contemplatividade da oração que muitos acham que seja de “fora para dentro”, desde que o Espírito Santo esteja presente em nós, essa mesma contemplação ocorre de “dentro para fora”. Por isso sabemos que oramos, quando praticamos a contemplação não com apenas olhos e ouvidos carnais mas sobretudo com olhos e ouvidos espirituais. O recôndito que os Salmos nos apresentam é o lugar desta contemplação (Sl 51.6). No interior de cada um de nós podemos vivenciar a prática e a contemplação de Deus que habita “em nosso peito”.

Em terceiro lugar, afirmo também que a oração deve ser incessante. A oração embora tenha um começo, um meio e um fim do ponto de vista dos exercícios devocionais pessoais, ela não cessa quando encerramos os mesmos, sejam eles individuais ou coletivos. Ela se processa na continuidade da vida. Estar em espírito de oração é estar também ligado ao Espírito da oração. Quando os Antigos Pais nos falam sobre isso, vemos que a oração incessante tem que necessariamente nos trazer a comunhão da mente e do coração ligados ao Espírito de Deus. Orar sem cessar é praticar a oração antiga: “Senhor Jesus Filho de Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. Tanto mais repetimos esta afirmação, tanto mais ela se fará um canal não meramente de palavras, mas de uma conexão ou uma comunhão de nosso espírito com o Espírito de Deus. Aqui vale a pena revelar que a repetição é tão saudável quanto qualquer palavra repetida de modo consciente. Nosso Senhor ao afirmar que nossas orações não deveriam se assemelhar a vãs repetições, ele certamente está focando que nossas oração não sejam orações mecânicas, inócuas. O problema então não é a repetição mas a vã, a palavra vazia, sem consciência e sem coração. 

Em último lugar, a oração não se fundamenta na lei da “causa e efeito”. Aqui expomos a crise do ponto de vista coletivo e comunitário. Muitos templos vivem cheios de pessoas que suplicam a Deus porque estão orientadas a praticarem orações a um deus que por natureza, pensam elas, nos direciona a lei da “Causa e Efeito”. Esta lei é a grande motivação dos cultos. É a grande chave para que tenhamos templos numericamente cheios. Uma das espiritualidades que mais usa essa lei é a conhecida “teologia positivista ou da prosperidade”. Tanto quanto praticamos esta Lei, tanto mais matamos o nosso espírito e a nossa espiritualidade, como fundamental para nosso relacionamento com Deus. A vida do homem é uma vida de relação de vida com Ele. Não é meramente um pedir e receber, não há vida sem vivermos em relação a Deus. O que temos visto então? Igrejas e crentes que lotam templos para pedir e receber. Isso não é oração. Embora o pedir e receber estejam fazendo parte da prática da oração essas ações não são fundamentais. Se oração é um encontro empírico com o Espírito, se é uma contemplação e tudo ocorre no coração seja por meio dos exercícios devocionais, seja por meio da oração incessante então esta Lei acima referida não existe no propósito do que seja oração como um relacionamento intenso e profundo com Deus.

Portanto, precisamos de um verdadeiro avivamento do coração que possamos descobrir a fome pela oração e oração que sacia nosso verdadeiro relacionamento com a Divindade. Precisamos urgentemente de vida espiritual e esta vida somente pode acontecer se buscar a oração como essência de nossa natureza e não apenas como ritual religioso. Podemos substituir a oração por eventos, pragmatismo, encontros animados e cheios de louvor, porém se não vivermos estes fundamentos como essenciais a nossa natureza, de modo algum estaremos comungando com o Deus verdadeiro e vivendo uma idolatria sem saber que somos tão pagãos quanto qualquer ser humano que nunca possuiu sequer um lampejo da graça gloriosa de Deus.

Kyrie Eleison.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

SOMOS TÃO BONZINHOS!


Miserável homem que eu sou! (Romanos 7.24)

Quem começou com esta ideia foi um tal de Pelágio. Um teólogo da igreja nos idos de 410 de nosso tempo que começou a ensinar que não havia pecado original e que o homem podia se salvar apenas redirecionando sua moral. Nestes últimos dias vemos assustados, as consequências do que tem sido a ausência da Força Civil em nosso Estado. As Instituições Escolares fechando as portas, o Comércio sendo saqueado, pessoas assassinadas, tão somente porque a Polícia Militar entrou em greve. Todos nós recriminamos os “vândalos” por saquearem lojas e invadirem os condomínios. 

Mas, na verdade, o que vemos é a manifestação do que entendemos sobre “Pecado Deliberado”. Quem desenvolveu no Ocidente a doutrina do pecado como inerente a natureza humana foi “Santo Agostinho”, o teólogo cristão, norte-africano que combateu os ensinos de Pelágio e afirmava que o pecado de toda pessoa é voluntário, que toda raça humana pecou junto com Adão, e após a queda, a humanidade ficou totalmente depravada e incapaz de desejar o verdadeiro bem, aquilo que é bom aos olhos de Deus.

Nossa realidade decadente nos revela também que não temos ouvido mais a “voz profética” da igreja (entenda-se “profética” como voz que denuncia o pecado). O que temos visto nas igrejas atuais é uma verdadeira panaceia com discursos e frases de efeito que não redundam em mudança de vida. O ensino que afaga o coração dos ouvintes com falsas promessas, mensagens de auto-ajuda, acabam por disseminar o ensino demoníaco da “teologia da prosperidade”. 

Como igreja também somos responsáveis por ensinar o que deve ser ensinado: O ser humano é mau por natureza e somente por meio da graça e da livre operação do Espírito Santo pode este ser redirecionado para Deus. Enquanto a igreja não se pronuncia assim, vemos o Estado e os Meios de Comunicação ensinando o “neo-paganismo”, fazendo as pessoas acreditarem que são boas e que merecem ser abençoadas por Deus, promovendo uma fé abstrata por um “mundo mais feliz” onde todos podem viver do jeito que bem entenderem, camuflando a corrupção social e inconscientemente tornando-se “agentes do Anticristo”. Quando deixamos de tratar a nossa natureza humana como maligna, acabamos nos esquecendo o quanto somos propensos ao mal e nos assemelhamos a ele. 

A igreja cristã precisa elevar sua voz e viver segundo as máximas do evangelho “nas praças” quando o “magistrado civil” não cumpre com sua missão de esforçar-se pelo “bem-comum”. Na teologia estudamos que a Graça Comum atua como “repressora” do pecado por meio das estruturas sociais. Mas quando elas estão sob o poder do Anticristo, o que esperar? Enquanto a igreja não se pronunciar contra os pecados em todas as suas formas será ela também julgada como o Anticristo. Graça Comum não deve ser vista como qualquer graça senão a que também vem de Deus para que os homens vivam em paz e em acordo. Oração somente não basta. Pode ser o começo, mas só isso não é suficiente. Os avivamentos históricos promoveram mudanças sociais e políticas. 

Nesse sentido lembramos que não somos tão bonzinhos assim, pois o que muitos fazem dinamicamente com seu pecado, nós o guardamos em nosso coração bem escondido. Ninguém é bom (Rm 3.1ss). Por isso cuidemos de tratar deles olhando incessantemente para a graça de Cristo, dia após dia, mas também unindo esforços pela fé verdadeiramente evangélica (Jd 4) que promova um mundo melhor e deixemos de ser fatalistas. Cumpramos a missão política e social da igreja a fim de que o Reino de Deus continue no embate contra as trevas e não nos deixemos “corromper pelo mundo” (Tg 1.27), para que venhamos a nos tornar "verdadeiros e irrepreensíveis, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada, na qual brilhamos como estrelas no universo” (Fp 2.15), salvando e promovendo dignidade àqueles que estão perecendo.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

“A BENÇÃO DE UMA FAMÍLIA”



Sinto certa “inveja” daqueles que possuem uma família grande. Grande em número e grande em amor-doação. Quando perdi minha mãe com apenas dez anos, meu tio me disse no dia do funeral dela: “A partir desse dia, você terá muitas mães”. De fato, isso tem sido uma verdade para mim e como tem me confortado e me encorajado a encorajar outros que passam pela mesma situação e que ficam órfãos de pai ou mãe. A família da fé é muito maior do que pensamos.

Minha família “nuclear” sempre foi pequena. Porém, quando vejo pais já idosos ainda vivos com seus filhos e netos, sejam eles adultos ou não, penso no privilégio que eles possuem pois podem transmitir uns aos outros a essência da fé e da doação uns para com outros.

Na verdade, temos um grande “vazio” dentro de nós mesmos. Fomos criados para amar e ser amados num ambiente de doação de uns para com os outros e o “vazio” ocorre porque não sabemos amar e retribuir amor. Nossa doação de vida de uns para com outros está diretamente ligada a nossa aceitação dentro deste ambiente que se retro-alimenta em amor. 

Porém sabemos que nem sempre isto é uma realidade devido ao nosso egoísmo. Manifestamos nosso egoísmo e nos tornamos um fator desagregador por causa de nossa natureza humana. 

Quando olhamos para nós, gente de carne e osso, devemos nos mirar da Família Eterna. A Santíssima Trindade é o maior modelo pelo qual todas as famílias deveriam se moldar. Se há um ambiente mais cheio de amor esse é o ambiente da Trindade. Por muitas vezes, Jesus enquanto aqui, expressava “lampejos” de amor ao Pai. Dizemos “lampejos” porque não temos ideia do que seja Deus coexistindo por meio de seus relacionamentos em três pessoas distintas em nível eterno e transcendente. Tudo o Pai faz para o bem do Filho e o Espírito Santo faz para o bem destes dois.

Entendemos porque Jesus orava por mim e por você para que fôssemos “um”. Para nos preparar para vivermos a unidade que é o ambiente da Trindade, eternamente. Deus deseja que seus filhos comunguem do mesmo ambiente do Deus-Triúno. Esse foi o projeto inicial da criação. Esse é o projeto final da salvação eterna. 

Portanto, que possamos orar: Senhor ajuda-me a fazer de minha família um reflexo da família eterna em doação e em renúncia. Ajuda-me a amar meus pais e a me doar por meus filhos e irmãos. Retira de mim o fator desagregador que é o egoísmo.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

UMA GRAÇA BARATA?


“...fostes chamados a liberdade. Porém não useis da liberdade para dar ocasião a carne” (Paulo aos Gálatas 5.13)

Vivemos o século da banalização da vida. Nada mais fácil do que tratar as coisas e as pessoas de modo superficial. Nossa sociedade se encontra num nível onde o ser humano tem invertido valores e tornado tudo que era antes absoluto em algo relativo. O ser humano não possui mais valor. Mata-se gente como se esmaga uma formiga. A vida se tornou fútil. As pessoas são como uma peça de xadrez. 

Do mesmo modo o processo da fé tornou-se fútil. Todos os elementos religiosos e sagrados no século passado eram até então bem considerados. Hoje a fé tornou-se uma peça de museu e a Graça antes valorizada hoje está barateada. O sacrifício de Deus pelo homem está se tornando tão irrelevante que os conceitos éticos e morais estão perdendo seu valor. A salvação tornou-se meramente um recurso verborrágico. É possível hoje ser um “crente”, porém sem qualquer compromisso com Cristo e com o Senhor da igreja. Portanto devemos cuidar para que não recebamos em vão a graça de Cristo (2 Co 6.2). Eis alguns princípios:

1) A graça não é barata porque a fé sempre exigirá as obras. A fé não existe sem uma relação, isto é possui caráter comunitário. Para que nossa relação com Cristo seja de fato uma realidade a fé deve me levar a viver com pessoas e a me doar por elas. Uma fé virtual é uma fantasia. O “cristão” somente o é se viver a fé em relação a Deus e ao semelhante. Por isso uma fé que não me conduz ao semelhante é meramente uma crendice.

2) A graça não é barata por que a fé sempre exigirá uma resposta ética. O evangelho é um recipiente de valores que me ensina a viver a mensagem de Jesus com resultados éticos, políticos e sociais. Nossa ética está diretamente ligada com o que falo, como vivo, quais as minhas decisões políticas, como uso meu dinheiro, o quanto acumulo e como uso meus bens. Minha fé me leva a enxergar as pessoas antes das coisas e exercer meu posicionamento em relação à corrupção e a injustiça sociais. Ela me leva a me posicionar quanto ao que é eterno e o que é efêmero. Minha fé determina o que consumo e quanto consumo.

3) A graça não é barata por que a fé sempre me levará a me envolver com o Corpo de Cristo. O contrário disso é egoísmo. Portanto, identificar-se com Cristo é envolver-me com gente. Meu egoísmo deve ir diminuindo ao passo que me comprometo com outros, onde eu posso servi-los e ser servido, acolhendo e sendo acolhido como Cristo fez. Então a graça será valorizada e relevante em minha vida. 

Viver a Graça de Cristo é viver com alegria e na busca de um equilíbrio saudável entre a fé que nos leva a Deus e a fé que nos conduz as pessoas. Nossa espiritualidade possui dois vértices, um vertical e outro horizontal. A graça jamais será vã se aprendermos a viver segundo as marcas da Cruz.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

POR QUE CRISTO RESSUSCITOU?




“Pois eis que eu crio novos céus e nova terra” (Isaias 65.17)

Seria muito triste se não houvesse ressurreição dos mortos. Seria muito trágico sabermos apenas da morte de Jesus. Seria uma infelicidade cruel se apenas crêssemos na morte de Nosso Senhor. Afirmo assim, pois o grande evento do Cristianismo é a possibilidade de crermos fielmente na Ressurreição. Há muita confusão sobre a Ressurreição. Alguns afirmam que a ressurreição de Cristo apenas revelou o Seu poder sobre a morte física, outros pensam que a ressurreição de Jesus se refere apenas a ressurreição espiritual, da alma. Porém nós os cristãos, acreditamos que a ressurreição de Cristo traz-nos uma nova visão da eternidade. Se assim não fosse a obra de Cristo seria incompleta e parcial. A ressurreição traz a renovação de todo o Cosmo, de todo o Universo. A ressurreição de Cristo é o maior de todos os milagres, pois abriu-se a certeza de que a estada no céu pelos que morreram, é por tempo limitado. 

1) Cristo ressuscitou para ressuscitar todos os que estão com Deus no céu. Entendemos que os que morreram serão ressuscitados por que Cristo ressuscitou. Suas almas serão reunidas a seus corpos para que sejam eles plenamente reconstituídos como foram conhecidos por Deus antes da fundação do mundo. Haverá uma ressurreição corporal e carnal. Jó já profetizava que em “seu corpo, após ressuscitado, veria a Deus” (Jó 19.27).

2) Cristo ressuscitou para inaugurar “um novo céu e nova terra”. Isso significa uma Nova Ordem Mundial, uma nova Era física, eterna e incorruptível na mesma condição do Éden quando fomos criados. O projeto inicial de Deus não foi abandonado, mas agora, em Cristo tudo será renovado.

3) Cristo ressuscitou para redimir todo o universo (Rom 8.18-23). Assim tudo o que o Universo possui, seus reinos animal, vegetal e mineral serão remodelados. Há esperança para a ecologia e para um novo sistema de vida. Viver-se-á para sempre nos mesmos moldes da criação original. Cristo estará entre nós.

Serão essas afirmações uma heresia? De modo nenhum. A páscoa somente tem sentido se eu acreditar piamente que haverá uma nova terra e um novo reino perfeitos, eternos e completos. Paulo, o apóstolo, esperava ver isso ainda vivo, pois dizia: “Nós os vivos os que ficarmos vivos seremos transformados e viveremos para sempre com o Senhor”. Por isso os cristãos dos primeiros séculos se entregavam como mártires, porque acreditavam que seus corpos seriam miraculosamente reconstituídos como parte da Nova Criação. 

A ressurreição somente pode fazer diferença se crermos assim, pois senão, não seremos cristãos de fato. Paulo nos diz: Se não cremos na ressurreição de Cristo seremos os mais infelizes de todos os homens. Portanto, quais as demandas e resultantes desta fé verdadeira. A primeira é de que embora o mundo esteja como está, há esperança. A segunda é que embora nosso corpo desfaleça e deteriore, nossa esperança é viva e nos traz o consolo que a morte e o céu não são o fim e esperamos novos céus e nova terra onde habita a justiça. 

Os cristãos por causa disso, deveriam ser os primeiros a lutarem por justiça social, por conservarem a natureza, por lutarem por um mundo melhor. Se Cristo ressuscitou então vale a pena viver aqui e viver na eternidade, pois enquanto estamos aqui, antecipamos a Nova Era em sua plenitude. Viva! Ele ressuscitou!

sexta-feira, 11 de abril de 2014

NÃO HÁ CRUZ SEM RESSURREIÇÃO




Estamos chegando ao momento mais importante do calendário cristão que é a celebração da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mais uma vez sou motivado a escrever desafiando cada um de nós a lutarmos pela fé verdadeiramente cristã que nos foi entregue por nossos irmãos apóstolos. Isto porque o mote da igreja primitiva e dos apóstolos, bem como de nossos pais apostólicos sempre uniu a morte de Nosso Senhor com a Ressurreição como o conteúdo da pregação dos discípulos de Jesus. 

Porém nos últimos séculos e especialmente nos últimos anos, a igreja se perdeu em sua proclamação e na prática dicotomizou a morte de Cristo e sua ressurreição e esqueceu-se das consequências desta última. Muito mais do que apenas um evento histórico a morte seria sem razão se não houvesse ressurreição. É por causa da ressurreição que a morte tem seu valor. É devido a ressurreição que a nossa, física e eterna tem sentido e a mensagem da igreja histórica eleva nossa esperança para novos céus e nova terra, uma ressurreição miraculosa em nosso corpo e a restauração de todo universo, uma volta a criação.

Baseados nesta mensagem, nossa vida e nossos atos bem como nossas palavras e nossa vocação profissional estão intimamente conectadas.

A partir desta visão a evangelização não pode ser apenas verbal, ela somente tem sentido se existir atos de justiça, pois a ressurreição do cosmos nos fará plenos da vida. Nossa evangelização sem ação é mero discurso num vazio, uma mensagem sem eco para o mundo de hoje. Tudo que somos deve convergir a uma nova visão do mundo e da sociedade. 

A ressurreição nos abre a certeza de que precisamos tornar factível a mensagem da morte de Cristo, mas nos abrirmos a uma ação no mundo por parte de cada um de nós que seja compassiva, ética, política, social e cultural. A mensagem da ressurreição nos impulsiona a viver neste mundo não como fatalistas, mas como pessoas que se entendem parte de uma transformação integral da vida dos seres humanos, nos seus contextos mais variados.

Por isso precisamos curar nossos “medos”. O medo do convívio com outros que não são crentes, achando que vamos ser contaminados. Precisamos curar o medo dos relacionamentos devido aos nossos preconceitos moralistas e racistas. Precisamos nos curar das chagas de um legalismo inóquo que nos paralisa em nossos atos e nos torna fariseus do século XXI.

Viver a ressurreição é viver uma missão integral, um serviço integral ao mundo e dentro do mundo. Não há como viver a ressurreição:

1) Sem uma proclamação verbal: Ele é Senhor, Cristo é único e não existe nenhum outro deus, ou entidade, ou ideologia que se iguale a Ele.

2) Sem uma vida comunitária: Não podemos aceitar um cristão fora do corpo. A igreja e a vida em comunidade são os instrumentos para que possamos vivenciar uma unidade de fé que provoque nossa sociedade pelo estilo de vida. 

3) Sem uma ação diaconal: Não há como vivermos a fé genuína sem o oferecimento de nós mesmos em prol dos outros. Servir nosso semelhante é o caminho para revelarmos em quem cremos, em um Senhor Cosmológico. Sem a Diaconia, somos papagaios de uma mensagem que desconhecemos. Sem ela não há impacto, somente cinismo por parte da sociedade e no mundo.

Você crê na morte e na ressurreição de Cristo Nosso Senhor? Prepare-se então para viver isso no seu dia-a-dia. Preparemo-nos para esta grande celebração. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

EVANGELIZAÇÃO NA IGREJA PRIMITIVA: UMA ANÁLISE

Autor: Michael Green. 
Título da Obra: Evangelização na Igreja Primitiva
Editora: Vida Nova

DESENVOLVIMENTO

Falar de evangelização, após a leitura de “Evangelização na Igreja Primitiva” é olhar para si mesmo e encontrar-se pequeno e superficial. A verdade é que Michael Green consegue expor diante do leitor o tão profundo cristianismo vivido pelos cristãos dos primeiros dois séculos.

Ao iniciar sua obra, Green leva o leitor a compreender a colcha de retalhos do mundo antigo, bem como a realidade cultural, social e religiosa da época. Estes assuntos são primordiais para o entendimento a respeito da expansão do cristianismo nos seus primeiros anos. Seria relevante notar que o autor acentua a importância do background romano, relatando a respeito da tão falada Pax Romana. Além de enfatizar o processo de dominação do Império Romano, vê-se a importância do papel e supremacia de Otávio Augusto, quando da hegemonia de Roma sobre as nações dominadas. Diz Green com propriedade: “As nações cansadas voltaram em gratidão para seu libertador de um século de guerras, e o aclamaram com a maior sinceridade como ‘salvador do mundo’. Mas Roma manteve esta paz sob controle de forma inteligente e nada mais importante era do que manter forças nas bordas de seu império. Este fato gerava uma unidade corporativa de todo o mundo civilizado. Além disso, esta estabilidade se desenvolvia rapidamente devido ao sistema de estradas que não apenas possibilitava rápidos deslocamentos das tropas para um e outro lado, como também facilitava a comunicação escrita através dos correios. Roma também incentivava o comércio e o contato social entre os mais diversificados povos de toda a região. Por estas e outras vantagens a Pax Romana se estabelecia e foi, de fato o ponto marcante para a preparatio evangelica. 

Mas a língua grega também teve sua importância nesta preparação. Green faz uma relação interessante do grego com a língua inglesa contemporânea e distingue inteligentemente entre ambas, mostrando que a língua grega era muito melhor recebida por todo o império do que a inglesa em nossos dias, devido a mesma não estar associada ao imperialismo, como aconteceu no século dezenove, quando a mesma estava relacionada ao colonialismo estadunidense e europeu. Por isto vemos a grande facilidade dos povos absorverem o grego como sua segunda língua, e porque não dizer a língua oficial do império. Além disso, o pensamento grego era inseparável desta. A filosofia e a mitologia teológica fizeram a preparação para o evangelho. O anelo helenístico pela eternidade e ao mesmo tempo a decepção do povo com seus deuses mitológicos cheios de depravação e imoralidade não chegavam a satisfazer a vida espiritual do povo. Platão lançou as bases para uma maior personalidade acerca de Deus usando a figura do demiurgo. Enquanto que Aristóteles via a impossibilidade de uma aproximação do deus com os seres humanos. Isto, Green faz questão de registrar, demonstrando que não somente os romanos pagãos, mas também os gregos, embora politeístas, esperavam num ser transcendente e criador.

Mas é importante notar também, que o cristianismo floresceu em um mundo influenciado de religiões emotivas e cheias de entusiasmo, que se propunham a ajudar as pessoas em seus problemas. Além disso, vamos encontrar uma atração pelos clubes esotéricos e as religiões de mistério. Estas, juntamente com o judaísmo e o cristianismo eram conhecidas como superstitiones. 

Além do pano de fundo greco-romano, o judaísmo foi o grande berço do cristianismo. A religião judaica acentuou a preparação para a expansão e a solidificação da fé cristã. A começar das dispersões do povo judeu desde a queda do Reino do Norte de Israel, até a sua popularização do meio do Império Romano, por causa de seu monoteísmo e seu zelo proselitista. Todo o império romano ficou impressionado por este. Porém, o cristianismo, nas palavras de Green, eliminou as distinções de classes, a circuncisão e as regras alimentares. O espírito missionário também fora gerado pelo empenho missionário judaico, mas o cristianismo foi mais longe, eliminando também o exclusivismo étnico. 

A fé cristã teve, portanto, seu crescimento em um background histórico providenciado por Deus e pronto a se estabelecer como religião para todos os povos. Não podemos negar que todo seu contexto social, religioso e político teve um papel essencial para isto. 

Mas ao relatar sobre o mesmo background histórico, Green procura ser exaustivo em todos os sentidos: desde o significado do que seria evangelho e suas implicações éticas, como os obstáculos enfrentados pelos cristãos e pelo próprio evangelho no período primitivo. Green admite que “alguém que nunca viveu numa sociedade que foi conquistada do paganismo pelo cristianismo tem dificuldades para imaginar o tamanho dos obstáculos que a religião, vícios, hábitos representam para o cristianismo”. Isto importa dizer que, tanto para os gregos como para os romanos e também os judeus, o cristianismo ofendia suas doutrinas e práticas e por isto encontrou muitos problemas. A começar de seu Cristo. Jesus para os judeus era ridicularizado como Messias, pois estes jamais admitiam que ele poderia ter morrido em uma cruz. Isto jamais traduzia vitória. Mas os cristãos iam além de crer no Messias Judaico. Eles pregavam um novo senhorio sob a confissão: “Jesus é Senhor”. 

Não somente a cristologia era repugnante aos judeus como a eclesiologia dos primeiros cristãos. Diziam que a Lei era pesada demais para qualquer pessoa. Por isso no lugar da devoção a Torá, como diz Green, o novo culto ensinava a adoração a um segundo Deus, no lugar do Sábado, o primeiro dia da semana, havia sido instituído como Dia do Senhor e a igreja de fato havia eliminado o ritual da circuncisão.

Para os gregos e romanos, o cristianismo não passava de uma superstitio, a qual não poderia jamais ser legalizada pelo Estado e nem mesmo apoiada por ela. Para que qualquer religião fosse considerada pelo Império, esta deveria ser medida em todos os seus âmbitos, fossem filosóficos, sociais e éticos. Além do culto de Cibele, o culto de Baco e o dos Druidas, o cristianismo somava como uma seita nova que precisava ser eliminada pois iriam contra a adoração do César como divinus. 

Green esclarece que além disso os cristãos eram acusados de incesto, ateísmo e canibalismo. A vida cristã possuía comportamentos desviados, e por muitas vezes os próprios cristãos tomavam atitudes práticas que levava o cristianismo a ser visto como algo marginalizado. Aí em alguns casos, a igreja deixava de manifestar a sua natureza missionária contextualizando-se no mundo.

Quando Green inicia seu capítulo falando sobre o evangelho, muito mais do que apresentar questões envolvendo a história, na verdade, o que se vê é uma ampla e abrangente exegese dos termos kerussein (pregar), euaggelizesthai contar boas novas) e marturein (dar testemunho). E Green o faz notavelmente envolvendo a exegese e a história canônica de livros tanto do Antigo como do Novo Testamento. Esta análise acurada e profunda é na verdade a base para que o leitor compreenda que a Igreja Primitiva dos dois primeiros séculos tinha um compromisso iniludível com o conteúdo deste e não com técnicas ou estratégias simplesmente. É o ponto central do livro onde o autor demonstra pleno e apaixonado compromisso com o evangelho.

Ao escrever sobre a evangelização dos judeus como parte da vida da igreja primitiva, o autor inicia defendendo a tese que o cristianismo ao nascer, foi por muitos, visto como uma seita judaica, pelo menos no que tange os seus primeiros dois séculos. Mas ao falar sobre a evangelização dos judeus, Green comprova que os cristãos primitivos sempre abordavam os judeus com o Antigo Testamento. Muitos daqueles se faziam como que profetas em sua evangelização, enfatizando que a Escritura cumprira todas as suas profecias com respeito ao Messias e a Jeová. Na verdade, Green assevera que os antigos cristãos verbalizavam a Escritura como meio e fator único para que as boas novas fossem reveladas aos judeus. As sinagogas faziam parte da estratégia cristã. Por várias vezes, Green cita o diálogo entre Justino e Trifo, algumas vezes amigável outras vezes amargo, mas sempre enfatiza que mesmo dentro das disputas teológicas entre judeus e cristãos, havia contudo alegria nos que criam e em todo lugar havia o mesmo desejo de espalhara mensagem. Os cristãos ao evangelizarem demonstravam ser o Messias sacerdotal mais importante que o Messias davídico, em parte porque o rei sempre estava subordinado ao sumo sacerdote. Os primeiros cristãos, diz Green, usavam dois métodos para recomendar Jesus. Eles adotavam e adaptavam listas de textos messiânicos. Eles adotavam o método pesher de interpretar o Antigo Testamento. Além deste a exegese de Midraxe também era adotada pelos cristãos. Concluindo, o autor declara que de fato a Bíblia era a principal porta de entrada do judaísmo para o evangelho. Ao mesmo tempo que os cristãos apresentavam Jesus como o Messias, eles encontravam um interesse imenso e imediato, mas também um questionamento intenso por parte dos judeus. Green faz uma excelente explanação sobre o sacedócio de Jesus, tratando sobre o nascimento, a morte e a ressurreição do Messias como temas centrais na proclamação das boas novas. Mas o que nos chama a atenção é que os nossos primeiros irmãos na fé, não apenas proclamavam, mas também eram prontos e versados a contestar as questões judaicas e apologizar as verdades que se relacionavam com a Fé Cristã de maneira profunda e apaixonada.

Outro assunto que Green faz questão de ressaltar é a respeito da importância da Lei nisto tudo. Ele demonstra que os judeus possuiam queixas dos cristãos por estes terem subestimado sua condição de Israel. Os cristãos se auto denominavam o novo Israel. Outra queixa interessante era a respeito de que os cristãos haviam roubado suas Escrituras, de maneira que encontra-se puro ódio por parte dos judeus neste assunto. Além disso, os cristãos permanentemente quebravam a Lei, questionando o seu culto que para os cristãos, nada mais era do que um culto espiritualizado, o templo e o Sábado.

Se Michael Green trabalha esplendidamente a visão e o trabalho incansável da igreja primitiva na evangelização dos judeus, ele também o faz com respeito a evangelização dos gentios. Neste mister, de maneira mais abrangente, o autor usa a figura da cidade e da igreja de Antioquia como portal da missão aos gentios. Isto porque Antioquia se projetou no cenário missionário dos dois primeiros séculos com muito mais envolvimento do que Jerusalém. Mas ao fazer isto Green, vai tocar na tese que alinhará o capítulo todo com a preocupação da comunicação e contextualização do evangelho através de seus missionários e propriamente dos crentes comuns da igreja. Embora o autor não use estes dois últimos termos especificamente, ele o faz usando termos como traduzir o evangelho, abordagem flexível entre outros. Além disso, vemos com muita propriedade o estudo exaustivo da transmissão das boas tanto usando bons como maus exemplos. Green retrata também as dificuldades do processo de tradução das palavras “Cristo”, “Reino de Deus”, “Adoção”. Green também trabalha com a evangelização aos gentios oprimidos socialmente, que foram como muito abertos a evangelização devido a termos usados no Novo Testamento como alforria e redenção. As mulheres foram outro grupo social grandemente aberto ao evangelho, uma vez que eram desconsideradas pelo machismo da época.

Vê-se que Green dá um tratamento especial ao assunto da evangelização através dos apologistas e filósofos através da sabedoria cristã e a contextualização do termo logos. Nisto, encontra-se a majestosa e desafiante figura de Justino. Além das religiões de mistério, a desilusão com a moral, a astrologia era outra pedra de toque ao evangelizar as pessoas. Sobretudo, os cristãos primitivos levavam sempre em seus lábios a confissão pública e a convicção de que Cristo era o Pantocratôr que quebrava os poderes astrais.

Embora Green fale sobre a flexilibilidade da comunicação em termos de palavras que eram usadas pelos cristãos, ele também demonstra que havia muito da abordagem uniforme quanto aos principios do evangelho, tanto em regiões e locais primitivos como em cidades “berço” da filosofia. Em todas as situações, ademais a própria contextualização do evangelho, se estabelecia a singularidade de Cristo como mensagem suprema da verdade. Green não deixa de lado que enquanto se evangelizava os cristãos se lebravam de pregar contra a idolatria e politeísmo, embora que posteriormente este método foi esfriado pela paganização da própria igreja. Além de dissertar a favor da fidelidade da igreja ao evangelho, Green não oculta a realidade dos problemas que acometeram a igreja e o evangelho com a ingerência de seitas como o gnosticismo e o marcionismo, além dos apócrifos que mais atrapalharam do que ajudaram a comunicação do evangelho. Clemente de Roma é citado como aquele que deu grande importância ao revestimento da doutrina bíblica de formas culturais, apresentando a mensagem com termos compreensíveis a seus ouvintes.

Uma das questões importantes para se considerar a evangelização da igreja, é conhecer um pouco do sentido de conversão que era atribuído pela mesma. Green pode apresentar de maneira clara e baseado em informações histórica e arqueológicas que embora a comunidade cristã se distanciava temporalmente dos ensinos de Cristo, a chamada ao arrependimento, a mudança de vida, ao compromisso e a paixão missionária era uma realidade para os discipulos do primeiro e segundo século. Green ressalta com propriedade: “Se cortarmos da mensagem crsitã, a raiz fundam,ental da conversão em Cristo, ela se tornará uma planta quebrada e sem vida, por mais belas que as flores do interesse cristão e do envolvimento social se apresentem. A conversão cristã era uma coisa nova e única no mundo antigo, humilhante, dinâmica e inflexível.” A compreensão que alguém somente poderia se converter através da Palavra e por meio da livre iniciativa do Espírito era uma verdade. Além disso, a Igreja Primitiva, lembra Green, não evangelizava por meio de emocionalismo ou sensacionalismo. As disputas filosoficas, o ensino ministrado, o testemunho falado era muito bem traduzido de forma que as pessoas entendessem racionalmente a verdade do evangelho e por isso o resultado era em uma conversão séria como mudança de valores e de vida. Green pode nos dar uma excelente visão sobre este assunto, e que nos torna mais seguros em pregar um evangelho menos esotérico e mais racional, menos liturgico e mais comprometido com os valores do reino de Deus. Além disso, o autor relata vários exemplos de conversão como de Justino, Clemente de Roma, Inácio entre outros pais da igrejas.

Ao falar sobre os evangelistas, o autor destaca duas partes interessantes: Quem de fato eram os evangelistas e como estes evangelistas viviam. Além da “profissionalização” deste cargo, vê-se também o relato sobre a evangelização leiga que segundo Green foi o fator principal para que o evangelho alcançasse todo mundo do império da época. Interessante também é notar a perspicácia de Green quando ele relata sobre a pluralidade de ministérios e que a igreja de hoje necessita voltar a abosrver esta mesma visão.

Tanto os missionários informais como os filósofos crentes estavam comprometidos com a profundidade e o estudo acerca da palavra. Além disso Green dá um valor todo especial ao trbalho das mulheres, demonstrando que um dos braços fortes da igreja da época eram as servas de Deus que chegavam até mesmo ao martírio como as citadas Blandina e Perpétua. Tanto a comunhão, o caráter transformado e a verdadeira alegria, formavam o caráter desta gente. Ao falar sobre a intimidade destes cristãos com o poder de Deus, Green deixa revelar sua visão muito equilibrada sobre a questão dos exorcismos e libertação espiritual, e mostra que há um grande distanciamento da igreja contemporânea com este Deus Poderoso, talvez Green queira ressaltar e chamar a atenção principalmente do meio em que vive e da denominação a que pertence. Em suma, a igreja precisa urgentemente voltar a sua origem tamnto no que se entende de ministério como a busca de modelos que estejam comprometidos com os verdadeiros valores do Reino de Deus e não se deixem seduzir pelo sensacionalismo e popularidade a qual tantos já cairam. 

Além disso, o autor consegue através de acurada pesquisa, ressaltar uma arqueologia e geografia da época, ao mesmo tempo que faz o leitor apaixonar-se pela evangelização expondo os métodos, motivações e estratégias dos primeiros séculos.

Nas notas finais de cada capítulo, “Evangelização na Igreja primitiva” tem um grande e profundo asservo de material pesquisado pelo autor e enriquecido pelos comentários pessoais do mesmo. Em sua análise neotestamentária, Green deixa claro que ele não aceita a última parte textual do evangelho de Marcos como de fato de seu autor, o que empobrece um pouco seu capítulo sobre “O Evangelho”. 

O texto embora trazendo informações históricas e uma gama de notas geograficas e aqueológicas, torna-se um pouco cansativo por ser essencialmente didático. 

O que chama a atenção também é que Michael Green ao analisar a história, chega ao ponto de criticar determinados princípios e métodos usados pelos cristãos primitivos quando comenta sobre o fracasso da missão aos judeus. O que se pode notar é uma certa ousadia, principalmente quando sabemos que o autor é inglês e anglicano e que sua denominação hoje, faz muito pouco pelo verdadeiro cristianismo.

Em compensação, Green expõe seu compromisso pessoal ao cristianismo bíblico e a Missiologia dos primeiros séculos. Sua forma de esboçar e apoiar o estilo de vida, demonstra que Green é de fato um cristão genuíno. Todas as suas investigações e conclusões resultam e aplicações práticas para a igreja atual. Ao falar sobre conversão ele tanto exalta as conversões reais como critica as aceitações da fé cristã como apenas nominalismo.

Realça-se também acima de tudo a abrangente e despreconceituosa visão missionária do autor. Não somente pelas asseverações sobre o estilo de vida do cristianismo primitivo, como também pelas estratégias e táticas implementadas pela igreja. 

Ao caminhar por “Evangelização na Igreja Primitiva”, se é levado a concluir que a igreja contemporânea está bem longe do que seja um cristianismo genuíno, e em consequência disto este evangelicalismo pós-moderno tem arremetido a igreja cristã a um pragmatismo nunca vivido antes, sem levar em conta os conceitos bíblicos e históricos bem como as motivações que geram estratégias orientadas por Deus. Ao ler Green, chega-se a conclusão que o desafio de se viver um verdadeiro cristianismo nos tempos contemporâneos é o grande segredo da igreja. Oxalá esta encontre-se com o verdadeiro sentido e com o real Senhor da vida para que ao mirar os grandes vultos de fé do passado, possam haver homens e mulheres corajosos para implementar, ou por que não dizer, retornar a uma evangelização eficaz e verdadeira, como aconteceu nos dois primeiros séculos da era cristã. 





sábado, 22 de março de 2014

ORAÇÃO DE UM CONTEMPLATIVO



Ah Senhor, como quero te conhecer, entrar no incognoscível, entrar na nuvem onde esteve Moisés, viver o mistério de lhe ver entre a fumaça que enchia o templo quando Isaías lhe viu. Senhor quero te ver entre os querubins, contemplar tua presença, isso é o bastante. Não quero ouro, nem prata, não quero me enganar com fantasias que o mundo visível me oferecem. 

Quero te contemplar comunicando-me contigo, sentindo-te muito mais, vivendo junto de ti a eternidade, quero viver a plenitude de alegria na tua presença, quero sair do "Chronos" e viver o "Kairós". 

Minha alma o anela como terra seca, árida, inóspita, sem água. Quero sentir teu cheiro, o cheiro da eternidade, quero te absorver em meu corpo totalmente, quero viver a plenitude do prazer, falar-te com o coração e não com a boca. 

Senhor, estufa meu peito, abre minha alma, invada-me plenamente. Quero te ver na nuvem da transfiguração, quero te ver conversar com anjos com os santos profetas, gente que viveu tua presença intensamente. 

Senhor, isso me basta, me satisfaz. Leva-me ao encontro contigo Divindade Santíssima, faz-me entrar na nuvem do teu mistério e da verdade, onde não há dogmas, onde não discurso, onde não há logicidade. Quero te contemplar para que eu e Tu, óh Todo Poderoso, vivamos juntos, para sempre, por toda a eternidade, vendo-te e contemplando-te como tu és. (I João 3.2)

sexta-feira, 21 de março de 2014

PAGUE SEUS VOTOS A DEUS


“Aquele que me confessar diante dos homens eu o confessarei diante de meu Pai que está no céu” (Mt 10.32,33)

Meu avô me dizia que havia uma época que “palavra” era coisa séria. Tão séria que ninguém precisava assinar um documento ou pedaço de papel quando negociava ou adquiria algum bem. Esse negócio significava empenhar o seu nome. Na época de Jesus, Nosso Senhor, isso era como a Confissão. Confessar significava empenhar um compromisso de vida. Era “colocar a mão no fogo” por alguém. 

Em nossos dias não sabemos mais o que significa confessar. Vivemos uma vida tão rasa e superficial que mesmo assinando documentos não somos capazes de empenhar nossa palavra. Fazemos parte de uma sociedade que caminha a passos largos para a banalização da vida e da moral. Para que possamos continuar a fazer verdadeiras as palavras de Nosso Senhor, devemos compreender que confessar Cristo como Senhor é coisa séria.

1) Confessar é emitir uma palavra o que vai do coração. Quando o apóstolo Paulo afirma que “aquele que crê com o coração deve confessá-lo como Senhor”. Se a boca fala do que está cheio o coração então há necessidade de confissão.

2) Confessar é renunciar o antigo modo de vida que levamos. Este aspecto é muito pouco falado e vivido em nosso meio. As práticas e manias, comportamento e ideias avessas ao evangelho, práticas que envolviam nossa velha natureza, precisam ser sim renunciadas não somente com o coração, mas também com a boca. Nosso Senhor não vai jamais dividir a sua glória com nenhum outro senhor na vida de alguém. 

3) Confessar tem a ver com uma nova maneira de viver, não somente alimentando as coisas de Deus por meio da oração e de sua Palavra como também cumprindo votos que fizemos no momento da Confissão. A boa confissão tem a ver com compromissos assumidos diante da Trindade Santa e diante das pessoas, da igreja e daqueles que não são nem mesmo comprometidos com Deus, para o testemunho da vida.

Hoje, quando a Pública Confissão de Fé se tornou meramente um “Rito de Passagem”, precisamos evocar estes princípios. Muitos de nossos votos caem no esquecimento. Ser batizado, publicar a fé, ser membro comprometido com uma comunidade, serví-la em amor e ser um fiel mordomo dos bens que Ele nos concede, mantendo a comunidade com nossas ofertas e dízimos são votos que para muitos não tem valor nenhum, mas Cristo leva em conta. Por falarmos tanto sobre a Graça, pouco entendemos dela e acabamos por “barateá-la” em nossa vida. 

Que voltemos a nos conscientizar da importância da Confissão, para que se a fizermos, iremos ter de Cristo a mesma atitude diante do Pai naquele Dia. Mas lembremo-nos: Ele jamais levará adiante Sua palavra se não formos verdadeiros. Que saibamos cumprir nossos votos como resultado de nossa Boa Confissão!

sexta-feira, 14 de março de 2014

PRINCÍPIOS INEGOCIÁVEIS DO EVANGELISMO


                                             
O conceito de evangelizar nos nossos dias tem se diluído. As imposições doutrinárias e o espírito de intolerância transformam os atuais “crentes” em gente que só se preocupa em encher cada vez mais seus templos. Não vemos as pessoas pregando a “Cristo, o Senhor” e sim grupos que se esforçam por fazer propaganda de sua própria denominação ou igreja. Por vivermos neste mundo tão confuso e doente, exponho aqui algumas dos princípios que reconheço serem fiéis a prática e ao conceito da evangelização:

1) O evangelismo implica testemunhar o que Deus fez, está fazendo e fará. Portanto inclui os "eventos do evangelho" (morte e a ressurreição de Nosso Senhor). 

2) O evangelismo sempre representa um convite. Evangelizar é comunicar alegria, é transmitir uma mensagem positiva, é esperança que oferecemos ao mundo. O evangelismo jamais deveria ser uma ameaça. 

3) Evangelizar não é oferecer uma “panaceia psicológica” para as frustrações e os desapontamentos das pessoas.

4) Evangelizar não é encher as pessoas de sentimentos de culpa para que elas em desespero, se voltem a Cristo.

5) Evangelizar não é assustar as pessoas, a fim de que se arrependam e se convertam com estórias sobre os horrores do inferno. 

6) A pessoa que evangeliza é uma testemunha, não um juiz. Jamais posso ter tanta confiança na autenticidade de meu testemunho que me permita saber se a pessoa que rejeita meu testemunho rejeitou a Jesus. 

7) O evangelismo só pode acontecer quando a comunidade que evangeliza (a igreja) é uma manifestação radiante da fé cristã e exibe um estilo de vida atraente. 

8) Evangelismo não é “proselitismo”. Muitas vezes existe uma sugestão explícita de que a competição é necessária e as pessoas de outra comunidade são encaradas como "candidatos" a serem ganhos, com o objetivo de se construir “impérios e dinastias eclesiásticas” e as igrejas não conseguem resistir à tentação de abrir outra filial em uma área que parece “promissora".

9) Evangelismo não é o mesmo que extensão eclesiástica. Evangelismo não pode se confundir como extensão da igreja do ministério do pastor Fulano de Tal. 

10) No evangelismo, só é possível dirigir-se a pessoas, e só elas podem responder. Muitos “evangelistas” acabam por responder pelos “não-crentes” constrangendo-os a manifestarem-se contra ou a favor dos pregadores. O evangelho é o anúncio de um encontro pessoal, mediado pelo Espírito Santo, com o Cristo vivo, recebendo seu perdão e aceitando pessoalmente seu chamado ao discipulado.

11) O evangelismo autêntico sempre é contextual. Um evangelismo que separa as pessoas de seu contexto vê o mundo não como um desafio, mas como um empecilho, desvaloriza a história e somente consegue enxergar os "aspectos imateriais da vida", é espúrio. 

12) O evangelismo não pode ser divorciado da prática da justiça. O que temos visto é que há muito discurso e pouco engajamento social. Se entendermos o evangelismo como uma simples oferta de salvação eterna a almas individuais e como uma tentativa de apressar o retorno de Cristo, ele estará divorciado da missão segundo o coração de Deus.

13) O evangelismo é apenas o primeiro passo que tomamos em direção aos outros, o restante o Espírito Santo vai fazer e ponto final (João 3.8). 

Por esses e por outros princípios é que somos desafiados a continuar lutando para que o evangelismo faça parte da “vida natural” dos cristãos. Ninguém, absolutamente, pode ser constrangido por outrem a se tornar cristão a não ser que seja apenas e tão somente constrangido pelo Espírito de Deus, onde nós somos apenas facilitadores da boa nova. 

domingo, 2 de março de 2014

EM CRISTO TEMOS TUDO!



Se queres curar tua ferida, ele é o médico.
Se ardes em febre, ele é a Fonte.
Se precisas de socorro, ele é a Força.
Se temes a morte, ele é a Vida.
Se foges das trevas, ele é a Luz.
Se tens fome, ele é o Alimento: Provai e vede como o Senhor é bom.
Feliz o homem que espera nele (Sl 34,9)".
Ambrósio de Milão (Pai da Igreja)

Ressurreição e Missão

“Então o lobo morará com o cordeiro” (Isaias 11.6)  Há uma crença equivocada na Doutrina da Ressurreição. Entre os cristãos atuais tra...