quinta-feira, 26 de julho de 2018

O DESAFIO DE VIVER COMO JESUS

"Voltou Eliseu de seguir a Elias, tomou a junta de bois, e os imolou, e, com os aparelhos dos bois, cozeu as carnes, t e as deu ao povo, e comeram. Então, se dispôs, e seguiu a Elias, e o servia". (I Livro dos Reis 19.21)

A fé cristã é exigente. Não é como geralmente ouvimos falar. Ouvimos a dizer que todos são convidados a seguir a Jesus, e que não há nada mais a fazer do que crer nEle e aí está. De modo nenhum. Desde os primórdios, a fé, sua urgência e seu carácter exclusivo da crença no Deus Javé exigia que homens e mulheres antes de devotarem-se ao Deus de Israel tomassem decisões concretas e éticas.

O caso de Eliseu é um deles. Selecionado pelo profeta Elias, ao deitar sua capa sobre o vaqueiro Eliseu, Elias o chamava para continuar seu trabalho no meio dos israelitas. Elias estava a ver que seu fim estava próximo e por isso o convocava. Mas isso ocorreria não sem que antes Eliseu tomasse decisões claras que envolvessem sua vida pessoal e profissional.

Nosso Senhor Jesus Cristo também, da mesma maneira, chamava seus discípulos de modo radical. No evangelho de São Lucas (5.1-11), o Senhor chama a Pedro e outros discípulos a seguí-lo. Ao seguirem Jesus como Mestre, os discípulos necessariamente foram colocados diante de uma decisão. Esta palavra significa rompimento de algo para seguir o novo. Toda decisão deve gerar naturalmente uma "cisão". 

Não há como seguir a Deus, a Jesus Cristo sem que haja decisões em nossa vida pessoal, familiar e profissional. Muitos hoje em dia pensam em ser um "crente" ou um "cristão", mas não tomam decisões claras e concretas para serem discípulos de Jesus. Ninguém é obrigado a seguir a Cristo, mas se seguir, deve-se ter Jesus como o modelo para a vida toda. Não é possível continuar a ser o mesmo após o convite e a aceitação em seguí-lo. Portanto assim como Eliseu e os discipulos de Jesus, nós também não podemos continuar a mesma vida de sempre. Decisão é uma palavra de partida para o entendimento do que seja "vida cristã".

Muitos falam que antes de seguir a Cristo devemos deixar de fumar, beber, dançar ou jogar. Mas a verdade é que toda nossa concepção popular de ser um "crente" é extremamente negativista. É facto que seguir Jesus não significa abandonar um esteriótipo em detrimento de outro. O de-cidir envolve tudo. Absolutamente isso deve acontecer primeiro com nossos valores adotados como práticas "cristãs" que na verdade, são muito mais valores culturais do que propriamente os valores do Reino de Cristo. Decidir em ser uma pessoa honesta, um bom pai, uma boa mãe, ser um pagador fiel dos tributos do Estado, ainda está no nível do ordinário, porque as práticas civis e familiares são práticas em que todos, podem em sua maioria cumprir. A questão é mais profunda. Não basta ser um profissional honesto apenas, a fé em Cristo exige que se vá além da honestidade. A fé verdadeira declara que os valores de Cristo devem estar envolvidos em tudo que pensamos, fazemos ou deixamos de fazer. Isso não se refere apenas a prática, mas sobretudo a valores éticos e morais segundo a lei de Cristo.

De-cidir por Cristo envolve "abdicação". Ora, nossas habilidades jamais deixarão de ser nossas habilidades, mas agora a questão "como as exerceremos" é que denotarão se somos de Cristo ou não. Abdicar significa não perder a natureza que somos e enfrentarmos situações com uma nova filosofia de vida onde o "amor a Deus e ao semelhante" é a razão plena e fundamental da vida. Abdicar é "abrir-mão" de direitos que possamos ter em prol de Deus e dos outros. Hoje, todos querem ter seu direito, o seu controle dentro de seu metro quadrado (m²). Ao olharmos para a verdadeira proposta da vida cristã percebemos que embora Jesus tivesse o seu direito divino-humano, ele abriu mão deste em favor de muitos.

Mas o convite e a aceitação por nós, envolve também renúncia. Renúncia é uma palavra radical. Envolve, portanto um "abandono", um "deixar" de práticas que possivelmente venham a prejudicar o relacionamento "eu-Cristo" ou mesmo "eu-outros". Isso significa renunciar a ações e reações que temos no dia-a-dia, até mesmo nas relações familiares. Isso envolve a ética. Porque Ética não significa apenas uma filosofia, mas também como concretizamos o que pensamos em nossos relacionamentos inter-pessoais e profissionais.

Os discipulos deixam as sua redes, e Eliseu sua profissão de vaqueiro. Não é possível seguir a Cristo e continuar a fazer o mesmo quando isso prejudica nossa caminhada na fé. Renunciar é auto-negar-se. Negarmo-nos a fazer o que fazíamos antes de Cristo. O que era nosso desejo natural agora reverte-se para o que desejamos em Cristo. Nosso Senhor dizia que sua agenda não era dele próprio mas de Seu Pai. Ele assim afirmava: "O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra". Nossa agenda mudou, portanto precisamos alterar o rumo e a direção para onde nossa vida vai. A fé naturalmente é exclusivista neste sentido. Os projetos que não sejam em prol do Reino de Cristo deve ser abandonados.

Mas a "de-cisão" envolve também dedicação. Muitos falam de colocar Jesus Cristo em primeiro lugar. Mas o evangelho vai além, Cristo nunca disse isso. Ele fala em termos de exclusividade. Da mesma maneira que a decisão de Eliseu envolveu abdicação e renúncia, também a dedicação tinha de ser exclusiva ao seu mestre Elias e a Javé.

Portanto a exclusividade a Cristo é a temática da vida cristã. Não é possível servir a dois senhores. Se agradarmos a um o outro será desprezado. Por isso somente podemos viver a fé se de facto houver dedicação exclusiva a Jesus. Isso só é possível quando falamos de que nosso tempo, nossa profissão, nossa família, nosso dinheiro, nossos negócios, nossos estudos e tudo mais que envolve-se com o que Cristo faria.

Ao dizer que devemos buscar primeiro o Reino dos Céus e a Sua Justiça, nosso Senhor está a dar uma instrução de exclusividade. Se ao atendermos o convite de Cristo, passamos da morte para a vida, não podemos de modo nenhum retornar as práticas de uma vida direcionada por nós mesmos nem sequer dedicarmo-nos o mínimo que seja aos modelos e principios sociedade e da ética de nossa época.

Ao dizer Paulo, "não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim", o apóstolo estava consciente que sua vida, desejos, motivos, ética, valores e tudo mais, agora estavam centrados exclusivamente em Cristo. Só nele. Isso significa dizer então "solo Christus" mas longe de ser uma premissa confessional, deve ser uma verdade concreta em tudo que somos.

Enfim, o que é ser cristão? Só podemos viver assim de modo sobre-humano. Por isso que a fé em Cristo sempre foi mal-percebida ou mal-ensinada, porque tratamos sua pessoa apenas em termos dogmáticos e nunca experiencialmente. Queres aceitar ser um cristão? Queres ter vida cristã? Eis o desafio! Eis a verdade!

sábado, 21 de julho de 2018

Pérolas dos Pais do Deserto - "A humildade"

"O meu servo não quebrará a cana já fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega [...]; e as nações colocarão a esperança no seu nome"

Quero abrir a boca, irmãos, para vos falar do altíssimo assunto da humildade. E estou cheio de temor, como quem sabe que vai falar de Deus com a língua dos seus próprios pensamentos. Porque a humildade é a roupagem da divindade. Fazendo-Se homem, o Verbo revestiu-Se de humildade. Por ela, viveu connosco dentro de um corpo. E todo o que vive na humildade torna-se verdadeiramente semelhante Àquele que desceu das alturas e cobriu a sua grandeza e a sua glória com as vestes da humildade, para que, ao vê-l'O, a criação não fosse consumida. Porque a criação não teria podido contemplá-l'O se Ele não tivesse tomado sobre Si a humildade e não tivesse vivido com ela: não teria sido possível olhá-l'O face a face; a criação não teria ouvido as palavras da sua boca. [...]

Por isso, quando a criação vê um homem revestido da semelhança do seu Mestre, venera-o e honra-o, tal como o fez ao Mestre, que viu viver revestido de humildade. Com efeito, que criatura não se deixa enternecer diante do humilde? Contudo, enquanto a glória da humildade não se tinha revelado a todos em Cristo, desdenhava-se desta visão tão cheia de santidade. Mas agora a sua grandeza elevou-se aos olhos do mundo. Foi concedido à criação receber, pela mediação do homem humilde, a visão do seu Criador. Por isso, o humilde não é desprezado por ninguém, nem sequer pelos inimigos da verdade. Aquele que aprendeu a humildade é venerado por causa dela, como se tivesse sobre si uma coroa e vestes de púrpura.
Isaac o Sírio (século VII)
próximo de Mossul, Iraque
Discursos ascéticos, 1.ª série, n.º 20

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas

Tratar todos com respeito, com prudência e com simplicidade evangélica. [...] É mais conforme com o exemplo de Jesus a simplicidade mais atraente, não separada da prudência dos sábios e dos santos, que conta com a ajuda de Deus. A simplicidade pode suscitar, não digo desprezo, mas menor consideração entre os sabichões. Mas pouco importa que os sabichões, de quem não devemos fazer caso, possam provocar-nos alguma humilhação de juízo e de tratamento; tudo redunda em seu prejuizo e confusão. O simples, reto e temente a Deus é sempre o mais digno e o mais forte. Naturalmente, apoiado sempre por uma prudência sábia e graciosa. Possui esta simplicidade quem não se envergonha de confessar o Evangelho, mesmo diante de homens que o consideram uma fraqueza e coisa de crianças, nem de confessá-lo em todas as suas partes e em todas as ocasiões e na presença de todos; não se deixa enganar ou influir pelo próximo nem perde a serenidade de ânimo por qualquer atitude que os outros adotem com ele. Prudente é quem sabe calar uma parte da verdade cuja manifestação seria inoportuna; e que, calada, não prejudica a verdade que diz, falsificando-a; quem sabe conseguir os bons fins que se propõe escolhendo os meios mais eficazes [...]; aquele que, em todos os assuntos, distingue a substância e não se deixa importunar pelos acidentes [...]; que, como base de tudo isto, espera o êxito unicamente de Deus. [...] A simplicidade não tem nada que contradiga a prudência, nem vice-versa. A simplicidade é amor; a prudência, pensamento. O amor ora, a inteligência vigia. Velai e orai, conciliação perfeita. O amor é como a pomba que geme; a inteligência ativa é como a serpente que nunca cai na terra, nem tropeça, porque vai apalpando com a sua cabeça todos os estorvos do caminho.
Angelo Giuseppe Roncalli
Diário da Alma, 13 de agosto de 1961, Paulus Editora, 2000