segunda-feira, 25 de junho de 2018

REFLEXÕES APÓS 30 ANOS DE MINHA ORDENAÇÃO PASTORAL

Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus. Actos 20.24

O que tenho aprendido em meu 30º ano de serviço pastoral? Há muito que escrever, mas pelo que percebo, as experiências sempre se diluem quando tendemos a falar ou a escrevê-las. Portanto, sintetizo aqui algumas lições que colhi nestes 30 anos de ordenação.

1. A vocação não pertence a igreja institucional e sim a Deus.
Uma das questões mais absurdas é achar que a igreja institucional detém a vocação e os dons de Deus. Assim como o profeta que possuía uma relação misteriosa com Deus, assim é a relação do pastor com Deus. E por causa disso, assim como nascemos do alto, do alto também advém a vocação e a missão de cada um, acolhido pela graça de Deus. A vocação é obra do Espírito Santo. Ela não se origina na “igreja-sistema”, porém é nela que a vocação deve ser exercida e reconhecida. A vocação, portanto, é um privilégio pessoal mais do que uma obrigação. Quando se obriga a uma tarefa já que não é de natureza própria e jamais será vocação, e sim atividade profissional. Há muitos que querem vincular uma vocação a uma denominação religiosa, mas o Espírito Santo é como o vento e a vocação dEle não possui limites institucionais. Da mesma maneira que somos nascidos em Deus, em Deus também somos chamados. Portanto, o ministério é supra-denominacional.

2. A vocação pastoral é espinhosa.
Os espinhos existem. São dados por Deus. Ele é aquele que delimita nosso campo de acção. Os espinhos e a dor são importantes para que o pastor não seja arrogante e vaidoso. A humilhação é o único caminho para que de facto ouçamos a Deus e com ele relacionemo-nos. Não pode haver pastor vaidoso ou arrogante. Independente da vocação sempre existirão espinhos na vida pastoral. Sejam as perdas, as enfermidades, as tragédias, as pessoas de fora ou de dentro da igreja, líderes ou não, o pastor precisa aceitar os espinhos de sua vida pastoral.

3. A vocação pastoral é gloriosa.
Ademais dos espinhos, a vocação é gloriosa, primeiro porque ela vem de Deus e se vem de Deus, ela é livre como ele é. É glorioso perceber que no sofrimento está a glória, que a cruz é loucura, que viver a misteriosa relação com Deus é a maior satisfação da vida pastoral. Viver a vocação pastoral é tratar com as coisas mais gloriosas do universo.

4. A vocação pastoral é para pecadores.
Não existe a menor possibilidade de pensarmos que somos "especiais". Quanto mais consciente da santidade de Deus maior será a convicção de pecado. Quanto maior for nossa relação com Deus maior será nossa perceção da imundície que somos. O ministério pastoral não dá margem para se pensar que há "ungidos". O que pode haver é um pastor mais consciente e outro menos consciente da sua pecaminosidade.

5. A vocação pastoral terá um julgamento mais agravante.
Ser pastor me dá a perceção que no Dia do Juízo, ele irá olhar para mim com um olhar mais firme, não do ponto de vista da graça, mas do ponto de vista de minhas obras. Exercer o ministério pastoral me dará sim maior possibilidade de ser envergonhado do Dia de Cristo se não for fiel Àquele que me designou.

6. A vocação pastoral exige uma experiência profunda com Cristo.
Não há barganhas ou trocas com Cristo. Somente há uma vida de gratidão. Quando estiver a abusar da graça de Deus, é bem possível que eu mesmo já tenha deixado de viver como Cristo viveu. Quando passamos a tratar de maneira familiar das coisas de Cristo, então já perdemos a noção de que a vocação vem dele. Ao extrapolar da graça de Cristo, revelarei quanto estarei distante da vocação pastoral.

7. A vocação pastoral deve considerar a oração como o pulmão da alma.
Não há qualquer possibilidade de ser pastor e não viver uma vida de oração. Ao arriscarmo-nos nisso podemos até praticar a "não-oração". Essa prática revelará que de facto nunca tivemos nenhum conhecimento de Cristo em nós. Se “os pássaros voam, os peixes nadam, o pastor ora”. Orar é essencial para alma. Mas a oração não é e nunca será uma verborragia intelectual, senão um encontro de contemplação. A oração nunca será uma homilia para Deus e sim uma experiência de intimidade que jamais terei o direito de abrir sair a contar os seus segredos para comigo. Quando não se ora a alma não respira.

8. A vocação pastoral e o estudo não são incompatíveis.
Embora o teólogo fosse no início dos primeiros séculos considerado pela igreja como "aquele que fala com Deus e para Deus", pois a prática teológica era envolvida pela experiência de fé, isso não alienava a igreja de desenvolver teses e estudos para combater as heresias que entravam em seu meio e também aquelas que brotavam de dentro dela. Portanto naquela época a oração e a defesa da fé se completavam. O serviço pastoral nos nossos dias também requer a mesma prática. O estudo a fim de instruir os fiéis e fortalecer os que são provados exigem que o pastor seja bem preparado e um fiel expositor bíblico, seja na prática da pregação como no ensino e treinamento através do discipulado para com os que se congregam, embora o mundo evangélico esteja tão fragmentado e vivamos sim num mundo de pluralidade religiosa. Não há como separar a ação pastoral do estudo.

9. O sofrimento é inerente a vida pastoral.
Num mundo de confusão cúltica e doutrinária, principalmente devido ao evangelho da prosperidade, ensino de demônios que procura dissuadir os fiéis, sofrer tornou-se uma palavra esquecida em nosso meio. A vida pastoral sem o sofrimento torna os pastores apenas bons ilustradores de um evangelho hipócrita. Quando não vivemos as experiências de sofrimento, de perdas, de fracassos, de doenças e da depressão no ministério, seremos bons replicadores de uma fé inócua.

10. A perseguição dentro da igreja institucional é real e concreta.
Se o sofrimento faz parte da vida pastoral, sofrer dentro da “igreja-sistema” é o primeiro lugar. Depois de trinta anos estando a frente de várias igrejas e comunidades, experimentamos o abuso e exploração de pessoas e de líderes que jamais perceberam o evangelho de Cristo e promoveram perseguições as mais variadas, desde a perseguição através da calúnia e difamação como também várias investidas contra a nossa vida física. Se queremos viver o evangelho, sofrer dentro da instituição é uma decorrência natural, porém recriminada e combatida pelo Senhor nos evangelhos.

11. Ser pastor é ter filhos normais.
Ser pastor é ter filhos normais. Digo isso porque meus filhos nunca foram adestrados a serem "pastorzinhos". É uma lástima quando implementamos em nossa casa e na igreja valores aos membros da igreja que desnaturalizam e descaracterizam nossos filhos de serem cristãos normais como qualquer outro. Há famílias de missionários que encarnam tanto a vocação do pai que não conseguem fazer outra coisa senão estar a viver dependendo do ministério do pai-pastor. É trágico quando não desenvolvemos nos filhos a liberdade de serem o que foram chamados para ser. Percebo muitos pastores que imprimem tamanha personalização em seus filhos que criam “dinastias feudais eclesiásticas” para que seus filhos sejam os "sacerdotezinhos" a continuar ministérios centrados no genitor. Extirpo uma visão assim. Meus filhos sempre viveram e viverão a buscar suas próprias vocações, chamados específicos e dou graças porque nunca os obriguei a replicar meu ministério pastoral.

12.Não há outra coisa mais importante do que testemunhar da graça de Deus.
Se a graça a este favor que me impele a continuar, é esta mesma graça que continuarei a testemunhar. Mas a graça só tem valor na nossa vida se não houver sentimento meritório de qualquer natureza. O mérito exclui a graça. Onde há sentimento de merecimento não há espaço para o Espírito Santo. Por isso há tantos ministérios áridos e pastores amargurados e rancorosos. Viver e testemunhar a graça é a razão de experimentar a graça e ser submisso a Cristo não por dever e nem por produtividade, mas por simplicidade não esperando nada mais que apresentar-me diante de Cristo nAquele Dia quando ele se encontrar comigo.

13. Mesmo que você queira deixar de ser pastor, nunca o conseguirá.
Durante alguns momentos de minha tentei abandonar a carreira pastoral. Por uma série de razões e situações. E nestas horas sempre vinha a minha mente a figura do profeta Jonas. Abandonar o chamado é buscar "um navio em Jope ancorado esperando o próximo passageiro". Jonas nunca conseguiu abandonar o chamado de Deus, porque Este habitava o seu coração. De facto, você nunca conseguirá abandonar sua vida pastoral, se de verdade você tiver sido chamado por Deus para exercer o cuidado pastoral. Contudo sempre preste atenção, como bem diz meu amigo Ronaldo Lidório: “sempre haverá um barquinho em Jope para lhe levar até o outro extremo da vontade de Deus”.

Algumas destas reflexões são vindas de meu coração e escritas para que eu me lembre que devo continuar. Mas também se você estiver pensando em abandonar o ministério, medite nestas poucas linhas antes de tomar qualquer decisão.

Kyrie Eleisson