sexta-feira, 27 de março de 2015

NÓS E O TEMPO DA VISITAÇÃO DE DEUS






A Escritura Sagrada e os Credos e Confissões da Igreja na história sempre nos ensinaram acerca do Deus que criou todas as coisas e assim continua a exercer por meio da Graça Comum em prol de seus escolhidos sua ação de manutenção e ordenança, seja no mundo visível seja no invisível. A isso damos o nome de Providência. Em tudo e em todos Deus por meio da graça perene está agindo e continuará agindo para que o Seu Plano Redentor Eterno seja concluído.

Mas nem sempre os homens sentiram e perceberam o agir de Deus. Não perceberam, porque não foram sensíveis ao mover de Deus na face da terra. Assim nós também, cristãos e fiéis, crentes na Sua Palavra nem sempre percebemos o agir de Deus em nossas vidas e no mundo em geral. Aqui exponho algumas razões por que não percebemos o agir de Deus em tudo e em todos.

Primeiro, porque vivemos a miséria de nossa realidade no pecado. A situação a qual o mundo ficou sujeito após a queda e desobediência dos primeiros pais condicionou-nos a perder nossa sensação de que Deus está perto, agindo, interagindo e integrando-se em todas as coisas. Falta-nos o discernimento de que Deus está presente em tudo o que acontece no mundo e em nossa vida.

Segundo, porque em nossa concepção evangélica moderna, Deus somente age no mundo quando vemos grandes portentos e grandes coisas acontecendo. O homem sem Cristo e as pessoas “crentes” perderam e tem perdido paulatinamente a concepção de que Deus está agindo nas pequenas coisas, nas mínimas e nas coisas desprezadas pelo mundo natural. O agir de Deus vai muito mais além de nossa percepção obtusa e pobre. 

Terceiro, por que em nossa concepção evangélica atual Deus somente age quando alguma coisa acontece positivamente e nunca negativamente. Esta é a influência da assim chamada “teologia positiva ou da prosperidade”. Dizem que Deus nunca pode agir negativamente em nós, mas sempre em nosso favor. Ledo engano e pura heresia hermenêutica. Até no sofrimento e nos paradoxos da vida Deus está agindo (1ª Co 1.26-28). 

Assim como o povo de Israel perdera a noção de que Deus estava visitando seu povo quando Nosso Senhor Jesus Cristo estava em “carne e osso” na terra, assim também nós perdemos esta noção quando deixamos de, insensíveis ao Espírito Santo, percebermos os lampejos, o trabalhar dele em nossa vida, em nossa comunidade, em nosso trabalho, em nossos estudos. 

Deus é como uma brisa, um vento que não sabemos de onde vem nem para onde vai. Mas ele continua agindo, se revelando, se relacionando, salvando, julgando, recriando, trazendo pessoas para ele, disciplinando, mantendo a vida dentro de nós e através de nós. Quanta graça! Quanto amor! Quanta ação! Segundo após segundo...

O que lhe falta para ver Deus nas mínimas coisas? Será que não lhe falta sensibilidade? Naturalidade? Contemplação? Lute contra seu coração duro e insensível, suplique para que o Espírito Santo mostre aquilo que Ele está fazendo. Pois por isso Israel perdeu de ver o que os Profetas queriam ver e não viram, apenas esperavam pela fé. Passou o tempo da nação de Israel! Sabe por quê? Porque eles não perceberam o tempo da visitação de Deus. (Lucas 19.44)

sexta-feira, 20 de março de 2015

CERTEZA DE SALVAÇÃO. VOCÊ TEM?


“Muitos, comparativamente, apenas creem, mas poucos ficam realmente persuadidos”. Esta é uma grande verdade. Um dos escritos do bispo reformado J. C. Ryle sobre “Segurança” traz um estudo sobre isso. Esse assunto retira das Escrituras todo embasamento teológico para defender este assunto tão relevante para a pregação e também é prático porque está interessado em questões cruciais para a nossa vida. Concordo plenamente com ele, quando muitos creem, porém poucos são os que estão persuadidos nesta fé. Principalmente nestes dias, quando nos detemos ao analisar a mensagem da Igreja Evangélica. Além do mais a obra missionária tem sido prejudicada por uma crescente onda de doutrinas variadas, na sua grande maioria infectada por outros princípios. Cremos que a Certeza de Salvação é a base de toda a vida cristã. Ryle continua: “Muitos comparativamente, possuem a fé que salva, mas poucos obtêm aquela confiança gloriosa que transparece claramente na linguagem de Paulo. Penso que todos devem admitir que assim, de fato, acontece.” 

A grande maioria das mensagens de hoje, tem levado muitos a obterem uma fé nominal, mas não são persuadidos a desenvolverem sua salvação com tremor e temor (Fp 2.12). Os ventos de doutrina têm soprado e tem distorcido a ética transformando-a em ações convenientes. Quando lemos a história da igreja, claramente vemos homens e mulheres levando até às últimas consequências seu testemunho, tudo porque possuíam uma convicção inigualável que os levava a dizer: “não temos nada a perder”! Estas palavras eram o resultado, creio firmemente, da doutrina da certeza da fé, da segurança da salvação que possuíam.

Segundo J. I. Packer, “algumas vezes, os reformados modernos falavam sobre segurança da salvação como fruto da fé e outras vezes como uma qualidade da fé” e Joel Beeke acrescenta: “Neste sentido, segurança é o ‘nata’ da fé. Calvino reafirmava o que Lutero e Zwinglio defendiam. Assim para ele, fé nunca é meramente uma confirmação, mas sempre envolve conhecimento e confiança. Calvino afirmava que conhecimento e confiança são dimensões da vida de fé, mais do que mera noção material. Fé não é conhecimento histórico como Beza ensinava, mas um conhecimento certo e salvífico conjugado com uma confiança segura”. Quando os Cânones de Dort falam sobre perseverança, há uma forte ênfase de que esta certeza ocorre de acordo com a medida de sua fé, pela qual os cristãos creem que são e permanecerão verdadeiros e vivos membros da igreja invisível e que têm o perdão dos pecados e a vida eterna. Geoffrey Thomas define segurança da fé como aquela que o cristão possui e lhe dá certeza de que é um fiel e que o capacita a dizer “eu sei que meus pecados estão perdoados; eu sei que vou para o céu; eu sei por que... e dá as razões”. Hildersam assevera que a verdadeira segurança da salvação que o Espírito Santo opera no coração é como uma força que o detém de uma vida licenciosa e o une intimamente em amor e obediência a Deus. 

Por causa deste tema tão apaixonante, os reformadores foram exaustivos. Claramente faziam também distinções entre fé e segurança, sempre demonstrando que havia necessidade de distinguir claramente a essência da fé e o desenvolvimento da mesma que “rechearia” esta mesma, robustecendo-a durante a caminhada cristã. E então, você tem certeza da salvação? Pense e ore sobre isso! (continua...)

quinta-feira, 19 de março de 2015

A Importância do Silêncio para Nossa Espiritualidade (Eduardo Carlos Pereira)






" Bom é aguardar a salvação do SENHOR, e isso, em silêncio". (Lamentações 3:26)

Como qualquer outro tempo da história, o nosso é uma realidade complexa com muitas variáveis e características. Duas delas saltam aos olhos por expressarem significativamente a lógica de fundo sob a qual nossa vida tem acontecido.

A primeira pode ser chamada de o culto à eficiência ou à obsessão por resultados instantâneos. Para algo ser capaz de captar nossa atenção, ganhar espaço em nossa agenda é necessário apresentar resultados concretos e rápidos, provando assim sua eficiência. Quaisquer ações, exercícios, atitudes, processos, pessoas incapazes de produzir resultados a curto prazo são descartados. A segunda marca apresenta-se como um círculo vicioso de inquietação. Radicalmente diferente de tempos outros, hoje, nosso cotidiano está repleto de estímulos externos. Estamos numa sociedade "over", onde tudo é encontrado em toneladas: informação, alimentos, cultura, arte, religião... Esta enormidade de opções nos faz viver inconscientemente uma angústia provocada pelo excesso. Alia-se a isto o fato de habitarmos cidades extremamente barulhentas. Sem que percebamos, nossos ouvidos captam inúmeros sons advindos dos mais variados objetos, pessoas e situações que compõem a complexa e incrivelmente barulhenta teia da vida urbana pós-moderna. Viver hoje é receber, num só dia, enormes doses de estímulos e barulho, tendo cada um deles poder de afetar nosso mundo interior, produzindo preocupações, ansiedades, distrações, perturbações, inquietações... Fica estabelecido então, o círculo vicioso da inquietação: um ambiente externo alimenta a inquietude do nosso mundo interior e por sua vez é exatamente esta interioridade perturbada a responsável por um mundo cada vez mais barulhento e perturbadoramente estimulante.

Falar da experiência do silêncio em tal contexto é sem dúvida nadar contra a correnteza. Quando tudo, fora e dentro de nós, convida-nos ao barulho e à inquietação, buscar experimentar o silêncio e a quietude é uma árdua tarefa. Além disso, nosso vício na eficiência vai perguntar: para que serve o silêncio? Que resultados práticos pode ele promover? Aparentemente nenhum! Então, quão desestimulante e ineficaz pode parecer para nós ser esta busca pelo silêncio e a quietude! Mas certamente, o silêncio tem sim um lugar importante na nossa vida e mais especificamente em nossa espiritualidade.

O silêncio do qual estamos falando não é uma estratégia, antes é uma disciplina espiritual. Portanto, não se trata apenas de deixar de falar com os lábios, mas, sobretudo de fazer calar as muitas vozes interiores. Não é um jejum de palavras somente, é um esforço para aquietar, ou mesmo domar, as múltiplas perturbações interiores que nos assolam cotidianamente.

É precisamente esta a lição advinda da experiência do profeta bíblico Jeremias. Ele escreve um livro barulhento. Chama-o de Lamentações. Nele registra suas inúmeras queixas para com Deus, com sua missão, com o seu povo, com seu mundo. Grita seus lamentos grávidos de irritação, decepção, frustração, ansiedade, raiva contida... Sente-se perdido. Tudo que desejava: a salvação de Deus. Ele a teve. Depois, reflete sobre esta experiência e relata: "bom é aguardar a salvação do SENHOR, e isso, em silêncio." Neste deserto vivido pelo escritor bíblico, ele encontra no silêncio seu oásis. Partindo de sua própria experiência, ele nos convida a aguardar a salvação que vem de Deus numa postura de profundo silêncio. Ao contrário do que poderia parecer, este aguardar em silêncio uma salvação que ainda não veio, não é ruim e angustiante, mas é descrito por ele como algo bom. Depois de vivida a experiência do silêncio, Jeremias dá testemunho do seu "sabor" e nos deixa saber que é bom. Por isso o silêncio aqui não é como uma regra fria a ser seguida, um "passo metodológico" para se conseguir algo, mas sim uma experiência a ser vivida, um gozo a ser usufruído.

Mas, por que este aguardar em silêncio é bom? Porque há nele um elemento curador da ansiedade até que a salvação se faça presente em nossa vida. Este silencioso aguardar pode nos levar a uma profunda serenidade interior, uma libertação de perturbações inimagináveis, nos moldando para ter uma tranqüila espera até a chegada da ansiada salvação, por isso ele é bom.

Com isso, Jeremias nos ensina de que há sim um lugar para o silêncio na nossa relação com Deus. Mais que isso, poder-se-ia mesmo afirmar ter o silêncio um lugar central na nossa experiência espiritual. O silêncio aparece aqui quase como uma condição para se usufruir esta salvação. Não há salvação fora do silêncio, pois este é o prelúdio para se experimentar aquela.



Entendamos a salvação, da qual fala o profeta, não no seu sentido eterno, mas sim no seu aspecto cotidiano. A salvação aqui descrita refere-se à intervenção salvífica de Deus naquele momento histórico. Não poderia ser de outra maneira, posto que se reduzirmos a salvação de Deus à eternidade, perdemos a sua beleza presente nas tramas e dramas da nossa existência cotidiana. Assim, há uma dimensão da ação de Deus que nos salva da ansiedade, da inquietação, da perturbação, enfim, dos múltiplos encarceramentos vividos por cada um de nós. É de dentro deste contexto que falamos do silêncio como condição fundamental para se experimentar a salvação diária nascida no alto, porém concretizada dentro e ao redor de nós.

sábado, 14 de março de 2015

O COMBATE INTERIOR (II)


Como já disse no boletim anterior, nossa maior batalha não está fora e sim dentro de nós. O maior objetivo de vivermos em Cristo enquanto estamos vivendo aqui é nos parecer com Ele. Para isso temos que viver sob o domínio do Espírito Santo. Neste caso, devemos aprender o tempo todo a expelir o que não presta de nós e nos enchermos das coisas relativas a Deus. Isso começa em nossa mente, mas tem como finalidade chegar ao coração, ao mais íntimo de nosso ser para que experimentemos o que o apóstolo Paulo chama de domínio próprio. 

Há muitos crentes que não tem domínio próprio, nem trabalham isso em suas vidas. O fato de chegar ao grau de autodomínio na vida espiritual tem a ver com um conjunto de virtudes que são adicionadas na vida. São as experiências que amadurecem nosso ser. A maturidade espiritual é o propósito do enchimento do Espírito. Mas sem o enfrentamento de nossos pecados e mazelas, nenhum cristão que se digne ser chamado de crente poderá vencer as suas paixões carnais e seus desejos egoístas. Há muitos crentes egoístas, pessoas já vividas na vida, mas que não conseguem olhar as coisas e as pessoas com os olhos de Jesus Cristo. Isso porque ainda não entraram no combate interior a fim de submeterem suas paixões ao Espírito Santo. 

Sem dúvida alguma as disciplinas espirituais estão ao nosso dispor para que estas nos ajudem a dominar-nos e junto ao Espírito Santo vencermos esta batalha que se não for travada, nos levará sempre a sermos os “carnais” que Paulo nos diz em Primeira aos Coríntios capítulo três. A meditação, a oração pessoal, o jejum, a solitude são deveres mais que urgentes a fim de expelirmos a agressividade, a amargura, a ironia, o sinismo, o egocentrismo, a vaidade, a melancolia, a intemperança, a mentira, e todas as demais obras que não vem do Espírito Santo de Deus.

Volto a lhe dizer, enquanto não tomarmos a decisão de confrontarmos nosso coração, não haverá uma mudança substancial dentro de nós. A presença de Deus em alguém somente poderá ser sentida no momento que depusermos nossa altivez. A HUMILDADE é a primeira das grandes virtudes que nascem em um coração rendido a Cristo, mas ela é só a primeira. Ninguém, absolutamente poderá ser um seguidor de Cristo se seu coração não for dobrado e submetido a Ele. 

Há muitos crentes que embora afirmem que Cristo é o seu salvador, não o conhecem como Senhor. Seus planos pessoais, seu dia-a-dia não revelam que são salvos nem estão vivendo como o Senhor quer que vivam. Alguns dizem que são crentes por que se converteram ao método de espiritualidade de sua igreja ou denominação. Ainda lhes falta sim, uma conversão profunda e marcante. Ainda precisam entrar no combate interior, submeterem-se ao Espírito Santo. Portanto, veja como anda seu nível de humildade e verá o quanto tem do Espírito de Deus!

terça-feira, 10 de março de 2015

O COMBATE INTERIOR (I)


O combate interior espiritual é mais duro que a batalha dos homens, já dizia Rimbald. O mundo ao redor de nós nos impõe uma relação de stress. Porém somos produto do meio e somos resultado de nosso mundo interior também. Temos um patrimônio genético e possuímos uma natureza que nos trai minuto após minuto. Muitos acabam por aceitar e sucumbir ao mando da natureza interior e se submetem acatando as suas ordens, sendo dominados pelos desejos e pelas tendências do coração. Ficam como “sonâmbulos”. 

Ao encontrarmo-nos com a verdade de Cristo, podemos ser conduzidos ao despertar interior e a partir daí dá-se início ao grande combate interno. Na verdade a ação do Espírito Santo em nós deseja que nos despertemos para algo mais profundo, mais intenso e mais verdadeiro em nossa relação com Ele. Cristo deseja desenterrar do fundo de nossa alma todos os elementos que obstruem uma profunda comunhão. Ele quer que aprendamos a varrer nossa alma, a procura da “dracma perdida” que está escondida na poeira dos “móveis”, onde está gravada a imagem do Cristo. Isso é o começo da santificação. Mas nossa santificação embora dependa do Espírito Santo, também depende de nós. E é neste ponto que muitos não prosperam. Aqui devemos colaborar com Deus. Prosperar na santificação não é apenas uma questão divina, mas humana também. Então travamos nosso combate interior. Por isso precisamos das disciplinas espirituais. A sua finalidade é libertar-nos do peso, da gordura espiritual, que embora tendo recebido o Espírito Santo em nossa regeneração, precisa ser sensível a ação de Deus dentro de nós a fim de minimizar os efeitos do pecado interiormente. 

Muitos acham que a disciplina espiritual é algo legalista, mas não é. Ela é uma ferramenta para que possamos limpar o nosso interior e deixarmo-nos prontos ao Espírito Santo. Uma contemplativa dos primeiros anos dizia: “Grandes esforços e lutas penosas aguardam aqueles que se convertem, porém a eles segue uma alegria inexprimível. Quem quer acender o fogo, no início é incomodado pela fumaça que faz chorar, mas depois consegue o que desejava. Nosso Deus é fogo que consome. Assim devemos deixar que Ele acenda seu fogo em nós a fim de que sejamos mais e mais purificados por Ele”.

“Por isso digo: vivam pelo Espírito e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne. Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o outro, de modo que vocês não fazem o que desejam” (Gálatas 5.16,17).

Você está sendo convocado a entrar no combate interior a fim de que seu coração seja dominado e submetido a Cristo. Que suas paixões, seus pecados, suas manias e suas inclinações sejam pelo combate interior, afetados por esta luta que não se dá fora, mas dentro de você.