quinta-feira, 19 de março de 2015

A Importância do Silêncio para Nossa Espiritualidade (Eduardo Carlos Pereira)






" Bom é aguardar a salvação do SENHOR, e isso, em silêncio". (Lamentações 3:26)

Como qualquer outro tempo da história, o nosso é uma realidade complexa com muitas variáveis e características. Duas delas saltam aos olhos por expressarem significativamente a lógica de fundo sob a qual nossa vida tem acontecido.

A primeira pode ser chamada de o culto à eficiência ou à obsessão por resultados instantâneos. Para algo ser capaz de captar nossa atenção, ganhar espaço em nossa agenda é necessário apresentar resultados concretos e rápidos, provando assim sua eficiência. Quaisquer ações, exercícios, atitudes, processos, pessoas incapazes de produzir resultados a curto prazo são descartados. A segunda marca apresenta-se como um círculo vicioso de inquietação. Radicalmente diferente de tempos outros, hoje, nosso cotidiano está repleto de estímulos externos. Estamos numa sociedade "over", onde tudo é encontrado em toneladas: informação, alimentos, cultura, arte, religião... Esta enormidade de opções nos faz viver inconscientemente uma angústia provocada pelo excesso. Alia-se a isto o fato de habitarmos cidades extremamente barulhentas. Sem que percebamos, nossos ouvidos captam inúmeros sons advindos dos mais variados objetos, pessoas e situações que compõem a complexa e incrivelmente barulhenta teia da vida urbana pós-moderna. Viver hoje é receber, num só dia, enormes doses de estímulos e barulho, tendo cada um deles poder de afetar nosso mundo interior, produzindo preocupações, ansiedades, distrações, perturbações, inquietações... Fica estabelecido então, o círculo vicioso da inquietação: um ambiente externo alimenta a inquietude do nosso mundo interior e por sua vez é exatamente esta interioridade perturbada a responsável por um mundo cada vez mais barulhento e perturbadoramente estimulante.

Falar da experiência do silêncio em tal contexto é sem dúvida nadar contra a correnteza. Quando tudo, fora e dentro de nós, convida-nos ao barulho e à inquietação, buscar experimentar o silêncio e a quietude é uma árdua tarefa. Além disso, nosso vício na eficiência vai perguntar: para que serve o silêncio? Que resultados práticos pode ele promover? Aparentemente nenhum! Então, quão desestimulante e ineficaz pode parecer para nós ser esta busca pelo silêncio e a quietude! Mas certamente, o silêncio tem sim um lugar importante na nossa vida e mais especificamente em nossa espiritualidade.

O silêncio do qual estamos falando não é uma estratégia, antes é uma disciplina espiritual. Portanto, não se trata apenas de deixar de falar com os lábios, mas, sobretudo de fazer calar as muitas vozes interiores. Não é um jejum de palavras somente, é um esforço para aquietar, ou mesmo domar, as múltiplas perturbações interiores que nos assolam cotidianamente.

É precisamente esta a lição advinda da experiência do profeta bíblico Jeremias. Ele escreve um livro barulhento. Chama-o de Lamentações. Nele registra suas inúmeras queixas para com Deus, com sua missão, com o seu povo, com seu mundo. Grita seus lamentos grávidos de irritação, decepção, frustração, ansiedade, raiva contida... Sente-se perdido. Tudo que desejava: a salvação de Deus. Ele a teve. Depois, reflete sobre esta experiência e relata: "bom é aguardar a salvação do SENHOR, e isso, em silêncio." Neste deserto vivido pelo escritor bíblico, ele encontra no silêncio seu oásis. Partindo de sua própria experiência, ele nos convida a aguardar a salvação que vem de Deus numa postura de profundo silêncio. Ao contrário do que poderia parecer, este aguardar em silêncio uma salvação que ainda não veio, não é ruim e angustiante, mas é descrito por ele como algo bom. Depois de vivida a experiência do silêncio, Jeremias dá testemunho do seu "sabor" e nos deixa saber que é bom. Por isso o silêncio aqui não é como uma regra fria a ser seguida, um "passo metodológico" para se conseguir algo, mas sim uma experiência a ser vivida, um gozo a ser usufruído.

Mas, por que este aguardar em silêncio é bom? Porque há nele um elemento curador da ansiedade até que a salvação se faça presente em nossa vida. Este silencioso aguardar pode nos levar a uma profunda serenidade interior, uma libertação de perturbações inimagináveis, nos moldando para ter uma tranqüila espera até a chegada da ansiada salvação, por isso ele é bom.

Com isso, Jeremias nos ensina de que há sim um lugar para o silêncio na nossa relação com Deus. Mais que isso, poder-se-ia mesmo afirmar ter o silêncio um lugar central na nossa experiência espiritual. O silêncio aparece aqui quase como uma condição para se usufruir esta salvação. Não há salvação fora do silêncio, pois este é o prelúdio para se experimentar aquela.



Entendamos a salvação, da qual fala o profeta, não no seu sentido eterno, mas sim no seu aspecto cotidiano. A salvação aqui descrita refere-se à intervenção salvífica de Deus naquele momento histórico. Não poderia ser de outra maneira, posto que se reduzirmos a salvação de Deus à eternidade, perdemos a sua beleza presente nas tramas e dramas da nossa existência cotidiana. Assim, há uma dimensão da ação de Deus que nos salva da ansiedade, da inquietação, da perturbação, enfim, dos múltiplos encarceramentos vividos por cada um de nós. É de dentro deste contexto que falamos do silêncio como condição fundamental para se experimentar a salvação diária nascida no alto, porém concretizada dentro e ao redor de nós.

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