sexta-feira, 25 de abril de 2014

UMA GRAÇA BARATA?

“...fostes chamados a liberdade. Porém não useis da liberdade para dar ocasião a carne” (Paulo aos Gálatas 5.13)

Vivemos o século da banalização da vida. Nada mais fácil do que tratar as coisas e as pessoas de modo superficial. Nossa sociedade se encontra num nível onde o ser humano tem invertido valores e tornado tudo que era antes absoluto em algo relativo. O ser humano não possui mais valor. Mata-se gente como se esmaga uma formiga. A vida se tornou fútil. As pessoas são como uma peça de xadrez. 

Do mesmo modo o processo da fé tornou-se fútil. Todos os elementos religiosos e sagrados no século passado eram até então bem considerados. Hoje a fé tornou-se uma peça de museu e a Graça antes valorizada hoje está barateada. O sacrifício de Deus pelo homem está se tornando tão irrelevante que os conceitos éticos e morais estão perdendo seu valor. A salvação tornou-se meramente um recurso verborrágico. É possível hoje ser um “crente”, porém sem qualquer compromisso com Cristo e com o Senhor da igreja. Portanto devemos cuidar para que não recebamos em vão a graça de Cristo (2 Co 6.2). Eis alguns princípios:

1) A graça não é barata porque a fé sempre exigirá as obras. A fé não existe sem uma relação, isto é possui caráter comunitário. Para que nossa relação com Cristo seja de fato uma realidade a fé deve me levar a viver com pessoas e a me doar por elas. Uma fé virtual é uma fantasia. O “cristão” somente o é se viver a fé em relação a Deus e ao semelhante. Por isso uma fé que não me conduz ao semelhante é meramente uma crendice.

2) A graça não é barata por que a fé sempre exigirá uma resposta ética. O evangelho é um recipiente de valores que me ensina a viver a mensagem de Jesus com resultados éticos, políticos e sociais. Nossa ética está diretamente ligada com o que falo, como vivo, quais as minhas decisões políticas, como uso meu dinheiro, o quanto acumulo e como uso meus bens. Minha fé me leva a enxergar as pessoas antes das coisas e exercer meu posicionamento em relação à corrupção e a injustiça sociais. Ela me leva a me posicionar quanto ao que é eterno e o que é efêmero. Minha fé determina o que consumo e quanto consumo.

3) A graça não é barata por que a fé sempre me levará a me envolver com o Corpo de Cristo. O contrário disso é egoísmo. Portanto, identificar-se com Cristo é envolver-me com gente. Meu egoísmo deve ir diminuindo ao passo que me comprometo com outros, onde eu posso servi-los e ser servido, acolhendo e sendo acolhido como Cristo fez. Então a graça será valorizada e relevante em minha vida. 

Viver a Graça de Cristo é viver com alegria e na busca de um equilíbrio saudável entre a fé que nos leva a Deus e a fé que nos conduz as pessoas. Nossa espiritualidade possui dois vértices, um vertical e outro horizontal. A graça jamais será vã se aprendermos a viver segundo as marcas da Cruz.  

quinta-feira, 17 de abril de 2014

POR QUE CRISTO RESSUSCITOU?




“Pois eis que eu crio novos céus e nova terra” (Isaias 65.17)

Seria muito triste se não houvesse ressurreição dos mortos. Seria muito trágico sabermos apenas da morte de Jesus. Seria uma infelicidade cruel se apenas crêssemos na morte de Nosso Senhor. Afirmo assim, pois o grande evento do Cristianismo é a possibilidade de crermos fielmente na Ressurreição. Há muita confusão sobre a Ressurreição. Alguns afirmam que a ressurreição de Cristo apenas revelou o Seu poder sobre a morte física, outros pensam que a ressurreição de Jesus se refere apenas a ressurreição espiritual, da alma. Porém nós os cristãos, acreditamos que a ressurreição de Cristo traz-nos uma nova visão da eternidade. Se assim não fosse a obra de Cristo seria incompleta e parcial. A ressurreição traz a renovação de todo o Cosmo, de todo o Universo. A ressurreição de Cristo é o maior de todos os milagres, pois abriu-se a certeza de que a estada no céu pelos que morreram, é por tempo limitado. 

1) Cristo ressuscitou para ressuscitar todos os que estão com Deus no céu. Entendemos que os que morreram serão ressuscitados por que Cristo ressuscitou. Suas almas serão reunidas a seus corpos para que sejam eles plenamente reconstituídos como foram conhecidos por Deus antes da fundação do mundo. Haverá uma ressurreição corporal e carnal. Jó já profetizava que em “seu corpo, após ressuscitado, veria a Deus” (Jó 19.27).

2) Cristo ressuscitou para inaugurar “um novo céu e nova terra”. Isso significa uma Nova Ordem Mundial, uma nova Era física, eterna e incorruptível na mesma condição do Éden quando fomos criados. O projeto inicial de Deus não foi abandonado, mas agora, em Cristo tudo será renovado.

3) Cristo ressuscitou para redimir todo o universo (Rom 8.18-23). Assim tudo o que o Universo possui, seus reinos animal, vegetal e mineral serão remodelados. Há esperança para a ecologia e para um novo sistema de vida. Viver-se-á para sempre nos mesmos moldes da criação original. Cristo estará entre nós.

Serão essas afirmações uma heresia? De modo nenhum. A páscoa somente tem sentido se eu acreditar piamente que haverá uma nova terra e um novo reino perfeitos, eternos e completos. Paulo, o apóstolo, esperava ver isso ainda vivo, pois dizia: “Nós os vivos os que ficarmos vivos seremos transformados e viveremos para sempre com o Senhor”. Por isso os cristãos dos primeiros séculos se entregavam como mártires, porque acreditavam que seus corpos seriam miraculosamente reconstituídos como parte da Nova Criação. 

A ressurreição somente pode fazer diferença se crermos assim, pois senão, não seremos cristãos de fato. Paulo nos diz: Se não cremos na ressurreição de Cristo seremos os mais infelizes de todos os homens. Portanto, quais as demandas e resultantes desta fé verdadeira. A primeira é de que embora o mundo esteja como está, há esperança. A segunda é que embora nosso corpo desfaleça e deteriore, nossa esperança é viva e nos traz o consolo que a morte e o céu não são o fim e esperamos novos céus e nova terra onde habita a justiça. 

Os cristãos por causa disso, deveriam ser os primeiros a lutarem por justiça social, por conservarem a natureza, por lutarem por um mundo melhor. Se Cristo ressuscitou então vale a pena viver aqui e viver na eternidade, pois enquanto estamos aqui, antecipamos a Nova Era em sua plenitude. Viva! Ele ressuscitou!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

NÃO HÁ CRUZ SEM RESSURREIÇÃO




Estamos chegando ao momento mais importante do calendário cristão que é a celebração da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mais uma vez sou motivado a escrever desafiando cada um de nós a lutarmos pela fé verdadeiramente cristã que nos foi entregue por nossos irmãos apóstolos. Isto porque o mote da igreja primitiva e dos apóstolos, bem como de nossos pais apostólicos sempre uniu a morte de Nosso Senhor com a Ressurreição como o conteúdo da pregação dos discípulos de Jesus. 

Porém nos últimos séculos e especialmente nos últimos anos, a igreja se perdeu em sua proclamação e na prática dicotomizou a morte de Cristo e sua ressurreição e esqueceu-se das consequências desta última. Muito mais do que apenas um evento histórico a morte seria sem razão se não houvesse ressurreição. É por causa da ressurreição que a morte tem seu valor. É devido a ressurreição que a nossa, física e eterna tem sentido e a mensagem da igreja histórica eleva nossa esperança para novos céus e nova terra, uma ressurreição miraculosa em nosso corpo e a restauração de todo universo, uma volta a criação.

Baseados nesta mensagem, nossa vida e nossos atos bem como nossas palavras e nossa vocação profissional estão intimamente conectadas.

A partir desta visão a evangelização não pode ser apenas verbal, ela somente tem sentido se existir atos de justiça, pois a ressurreição do cosmos nos fará plenos da vida. Nossa evangelização sem ação é mero discurso num vazio, uma mensagem sem eco para o mundo de hoje. Tudo que somos deve convergir a uma nova visão do mundo e da sociedade. 

A ressurreição nos abre a certeza de que precisamos tornar factível a mensagem da morte de Cristo, mas nos abrirmos a uma ação no mundo por parte de cada um de nós que seja compassiva, ética, política, social e cultural. A mensagem da ressurreição nos impulsiona a viver neste mundo não como fatalistas, mas como pessoas que se entendem parte de uma transformação integral da vida dos seres humanos, nos seus contextos mais variados.

Por isso precisamos curar nossos “medos”. O medo do convívio com outros que não são crentes, achando que vamos ser contaminados. Precisamos curar o medo dos relacionamentos devido aos nossos preconceitos moralistas e racistas. Precisamos nos curar das chagas de um legalismo inóquo que nos paralisa em nossos atos e nos torna fariseus do século XXI.

Viver a ressurreição é viver uma missão integral, um serviço integral ao mundo e dentro do mundo. Não há como viver a ressurreição:

1) Sem uma proclamação verbal: Ele é Senhor, Cristo é único e não existe nenhum outro deus, ou entidade, ou ideologia que se iguale a Ele.

2) Sem uma vida comunitária: Não podemos aceitar um cristão fora do corpo. A igreja e a vida em comunidade são os instrumentos para que possamos vivenciar uma unidade de fé que provoque nossa sociedade pelo estilo de vida. 

3) Sem uma ação diaconal: Não há como vivermos a fé genuína sem o oferecimento de nós mesmos em prol dos outros. Servir nosso semelhante é o caminho para revelarmos em quem cremos, em um Senhor Cosmológico. Sem a Diaconia, somos papagaios de uma mensagem que desconhecemos. Sem ela não há impacto, somente cinismo por parte da sociedade e no mundo.

Você crê na morte e na ressurreição de Cristo Nosso Senhor? Prepare-se então para viver isso no seu dia-a-dia. Preparemo-nos para esta grande celebração. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

EVANGELIZAÇÃO NA IGREJA PRIMITIVA: UMA ANÁLISE

Autor: Michael Green. 
Título da Obra: Evangelização na Igreja Primitiva
Editora: Vida Nova

DESENVOLVIMENTO

Falar de evangelização, após a leitura de “Evangelização na Igreja Primitiva” é olhar para si mesmo e encontrar-se pequeno e superficial. A verdade é que Michael Green consegue expor diante do leitor o tão profundo cristianismo vivido pelos cristãos dos primeiros dois séculos.

Ao iniciar sua obra, Green leva o leitor a compreender a colcha de retalhos do mundo antigo, bem como a realidade cultural, social e religiosa da época. Estes assuntos são primordiais para o entendimento a respeito da expansão do cristianismo nos seus primeiros anos. Seria relevante notar que o autor acentua a importância do background romano, relatando a respeito da tão falada Pax Romana. Além de enfatizar o processo de dominação do Império Romano, vê-se a importância do papel e supremacia de Otávio Augusto, quando da hegemonia de Roma sobre as nações dominadas. Diz Green com propriedade: “As nações cansadas voltaram em gratidão para seu libertador de um século de guerras, e o aclamaram com a maior sinceridade como ‘salvador do mundo’. Mas Roma manteve esta paz sob controle de forma inteligente e nada mais importante era do que manter forças nas bordas de seu império. Este fato gerava uma unidade corporativa de todo o mundo civilizado. Além disso, esta estabilidade se desenvolvia rapidamente devido ao sistema de estradas que não apenas possibilitava rápidos deslocamentos das tropas para um e outro lado, como também facilitava a comunicação escrita através dos correios. Roma também incentivava o comércio e o contato social entre os mais diversificados povos de toda a região. Por estas e outras vantagens a Pax Romana se estabelecia e foi, de fato o ponto marcante para a preparatio evangelica. 

Mas a língua grega também teve sua importância nesta preparação. Green faz uma relação interessante do grego com a língua inglesa contemporânea e distingue inteligentemente entre ambas, mostrando que a língua grega era muito melhor recebida por todo o império do que a inglesa em nossos dias, devido a mesma não estar associada ao imperialismo, como aconteceu no século dezenove, quando a mesma estava relacionada ao colonialismo estadunidense e europeu. Por isto vemos a grande facilidade dos povos absorverem o grego como sua segunda língua, e porque não dizer a língua oficial do império. Além disso, o pensamento grego era inseparável desta. A filosofia e a mitologia teológica fizeram a preparação para o evangelho. O anelo helenístico pela eternidade e ao mesmo tempo a decepção do povo com seus deuses mitológicos cheios de depravação e imoralidade não chegavam a satisfazer a vida espiritual do povo. Platão lançou as bases para uma maior personalidade acerca de Deus usando a figura do demiurgo. Enquanto que Aristóteles via a impossibilidade de uma aproximação do deus com os seres humanos. Isto, Green faz questão de registrar, demonstrando que não somente os romanos pagãos, mas também os gregos, embora politeístas, esperavam num ser transcendente e criador.

Mas é importante notar também, que o cristianismo floresceu em um mundo influenciado de religiões emotivas e cheias de entusiasmo, que se propunham a ajudar as pessoas em seus problemas. Além disso, vamos encontrar uma atração pelos clubes esotéricos e as religiões de mistério. Estas, juntamente com o judaísmo e o cristianismo eram conhecidas como superstitiones. 

Além do pano de fundo greco-romano, o judaísmo foi o grande berço do cristianismo. A religião judaica acentuou a preparação para a expansão e a solidificação da fé cristã. A começar das dispersões do povo judeu desde a queda do Reino do Norte de Israel, até a sua popularização do meio do Império Romano, por causa de seu monoteísmo e seu zelo proselitista. Todo o império romano ficou impressionado por este. Porém, o cristianismo, nas palavras de Green, eliminou as distinções de classes, a circuncisão e as regras alimentares. O espírito missionário também fora gerado pelo empenho missionário judaico, mas o cristianismo foi mais longe, eliminando também o exclusivismo étnico. 

A fé cristã teve, portanto, seu crescimento em um background histórico providenciado por Deus e pronto a se estabelecer como religião para todos os povos. Não podemos negar que todo seu contexto social, religioso e político teve um papel essencial para isto. 

Mas ao relatar sobre o mesmo background histórico, Green procura ser exaustivo em todos os sentidos: desde o significado do que seria evangelho e suas implicações éticas, como os obstáculos enfrentados pelos cristãos e pelo próprio evangelho no período primitivo. Green admite que “alguém que nunca viveu numa sociedade que foi conquistada do paganismo pelo cristianismo tem dificuldades para imaginar o tamanho dos obstáculos que a religião, vícios, hábitos representam para o cristianismo”. Isto importa dizer que, tanto para os gregos como para os romanos e também os judeus, o cristianismo ofendia suas doutrinas e práticas e por isto encontrou muitos problemas. A começar de seu Cristo. Jesus para os judeus era ridicularizado como Messias, pois estes jamais admitiam que ele poderia ter morrido em uma cruz. Isto jamais traduzia vitória. Mas os cristãos iam além de crer no Messias Judaico. Eles pregavam um novo senhorio sob a confissão: “Jesus é Senhor”. 

Não somente a cristologia era repugnante aos judeus como a eclesiologia dos primeiros cristãos. Diziam que a Lei era pesada demais para qualquer pessoa. Por isso no lugar da devoção a Torá, como diz Green, o novo culto ensinava a adoração a um segundo Deus, no lugar do Sábado, o primeiro dia da semana, havia sido instituído como Dia do Senhor e a igreja de fato havia eliminado o ritual da circuncisão.

Para os gregos e romanos, o cristianismo não passava de uma superstitio, a qual não poderia jamais ser legalizada pelo Estado e nem mesmo apoiada por ela. Para que qualquer religião fosse considerada pelo Império, esta deveria ser medida em todos os seus âmbitos, fossem filosóficos, sociais e éticos. Além do culto de Cibele, o culto de Baco e o dos Druidas, o cristianismo somava como uma seita nova que precisava ser eliminada pois iriam contra a adoração do César como divinus. 

Green esclarece que além disso os cristãos eram acusados de incesto, ateísmo e canibalismo. A vida cristã possuía comportamentos desviados, e por muitas vezes os próprios cristãos tomavam atitudes práticas que levava o cristianismo a ser visto como algo marginalizado. Aí em alguns casos, a igreja deixava de manifestar a sua natureza missionária contextualizando-se no mundo.

Quando Green inicia seu capítulo falando sobre o evangelho, muito mais do que apresentar questões envolvendo a história, na verdade, o que se vê é uma ampla e abrangente exegese dos termos kerussein (pregar), euaggelizesthai contar boas novas) e marturein (dar testemunho). E Green o faz notavelmente envolvendo a exegese e a história canônica de livros tanto do Antigo como do Novo Testamento. Esta análise acurada e profunda é na verdade a base para que o leitor compreenda que a Igreja Primitiva dos dois primeiros séculos tinha um compromisso iniludível com o conteúdo deste e não com técnicas ou estratégias simplesmente. É o ponto central do livro onde o autor demonstra pleno e apaixonado compromisso com o evangelho.

Ao escrever sobre a evangelização dos judeus como parte da vida da igreja primitiva, o autor inicia defendendo a tese que o cristianismo ao nascer, foi por muitos, visto como uma seita judaica, pelo menos no que tange os seus primeiros dois séculos. Mas ao falar sobre a evangelização dos judeus, Green comprova que os cristãos primitivos sempre abordavam os judeus com o Antigo Testamento. Muitos daqueles se faziam como que profetas em sua evangelização, enfatizando que a Escritura cumprira todas as suas profecias com respeito ao Messias e a Jeová. Na verdade, Green assevera que os antigos cristãos verbalizavam a Escritura como meio e fator único para que as boas novas fossem reveladas aos judeus. As sinagogas faziam parte da estratégia cristã. Por várias vezes, Green cita o diálogo entre Justino e Trifo, algumas vezes amigável outras vezes amargo, mas sempre enfatiza que mesmo dentro das disputas teológicas entre judeus e cristãos, havia contudo alegria nos que criam e em todo lugar havia o mesmo desejo de espalhara mensagem. Os cristãos ao evangelizarem demonstravam ser o Messias sacerdotal mais importante que o Messias davídico, em parte porque o rei sempre estava subordinado ao sumo sacerdote. Os primeiros cristãos, diz Green, usavam dois métodos para recomendar Jesus. Eles adotavam e adaptavam listas de textos messiânicos. Eles adotavam o método pesher de interpretar o Antigo Testamento. Além deste a exegese de Midraxe também era adotada pelos cristãos. Concluindo, o autor declara que de fato a Bíblia era a principal porta de entrada do judaísmo para o evangelho. Ao mesmo tempo que os cristãos apresentavam Jesus como o Messias, eles encontravam um interesse imenso e imediato, mas também um questionamento intenso por parte dos judeus. Green faz uma excelente explanação sobre o sacedócio de Jesus, tratando sobre o nascimento, a morte e a ressurreição do Messias como temas centrais na proclamação das boas novas. Mas o que nos chama a atenção é que os nossos primeiros irmãos na fé, não apenas proclamavam, mas também eram prontos e versados a contestar as questões judaicas e apologizar as verdades que se relacionavam com a Fé Cristã de maneira profunda e apaixonada.

Outro assunto que Green faz questão de ressaltar é a respeito da importância da Lei nisto tudo. Ele demonstra que os judeus possuiam queixas dos cristãos por estes terem subestimado sua condição de Israel. Os cristãos se auto denominavam o novo Israel. Outra queixa interessante era a respeito de que os cristãos haviam roubado suas Escrituras, de maneira que encontra-se puro ódio por parte dos judeus neste assunto. Além disso, os cristãos permanentemente quebravam a Lei, questionando o seu culto que para os cristãos, nada mais era do que um culto espiritualizado, o templo e o Sábado.

Se Michael Green trabalha esplendidamente a visão e o trabalho incansável da igreja primitiva na evangelização dos judeus, ele também o faz com respeito a evangelização dos gentios. Neste mister, de maneira mais abrangente, o autor usa a figura da cidade e da igreja de Antioquia como portal da missão aos gentios. Isto porque Antioquia se projetou no cenário missionário dos dois primeiros séculos com muito mais envolvimento do que Jerusalém. Mas ao fazer isto Green, vai tocar na tese que alinhará o capítulo todo com a preocupação da comunicação e contextualização do evangelho através de seus missionários e propriamente dos crentes comuns da igreja. Embora o autor não use estes dois últimos termos especificamente, ele o faz usando termos como traduzir o evangelho, abordagem flexível entre outros. Além disso, vemos com muita propriedade o estudo exaustivo da transmissão das boas tanto usando bons como maus exemplos. Green retrata também as dificuldades do processo de tradução das palavras “Cristo”, “Reino de Deus”, “Adoção”. Green também trabalha com a evangelização aos gentios oprimidos socialmente, que foram como muito abertos a evangelização devido a termos usados no Novo Testamento como alforria e redenção. As mulheres foram outro grupo social grandemente aberto ao evangelho, uma vez que eram desconsideradas pelo machismo da época.

Vê-se que Green dá um tratamento especial ao assunto da evangelização através dos apologistas e filósofos através da sabedoria cristã e a contextualização do termo logos. Nisto, encontra-se a majestosa e desafiante figura de Justino. Além das religiões de mistério, a desilusão com a moral, a astrologia era outra pedra de toque ao evangelizar as pessoas. Sobretudo, os cristãos primitivos levavam sempre em seus lábios a confissão pública e a convicção de que Cristo era o Pantocratôr que quebrava os poderes astrais.

Embora Green fale sobre a flexilibilidade da comunicação em termos de palavras que eram usadas pelos cristãos, ele também demonstra que havia muito da abordagem uniforme quanto aos principios do evangelho, tanto em regiões e locais primitivos como em cidades “berço” da filosofia. Em todas as situações, ademais a própria contextualização do evangelho, se estabelecia a singularidade de Cristo como mensagem suprema da verdade. Green não deixa de lado que enquanto se evangelizava os cristãos se lebravam de pregar contra a idolatria e politeísmo, embora que posteriormente este método foi esfriado pela paganização da própria igreja. Além de dissertar a favor da fidelidade da igreja ao evangelho, Green não oculta a realidade dos problemas que acometeram a igreja e o evangelho com a ingerência de seitas como o gnosticismo e o marcionismo, além dos apócrifos que mais atrapalharam do que ajudaram a comunicação do evangelho. Clemente de Roma é citado como aquele que deu grande importância ao revestimento da doutrina bíblica de formas culturais, apresentando a mensagem com termos compreensíveis a seus ouvintes.

Uma das questões importantes para se considerar a evangelização da igreja, é conhecer um pouco do sentido de conversão que era atribuído pela mesma. Green pode apresentar de maneira clara e baseado em informações histórica e arqueológicas que embora a comunidade cristã se distanciava temporalmente dos ensinos de Cristo, a chamada ao arrependimento, a mudança de vida, ao compromisso e a paixão missionária era uma realidade para os discipulos do primeiro e segundo século. Green ressalta com propriedade: “Se cortarmos da mensagem crsitã, a raiz fundam,ental da conversão em Cristo, ela se tornará uma planta quebrada e sem vida, por mais belas que as flores do interesse cristão e do envolvimento social se apresentem. A conversão cristã era uma coisa nova e única no mundo antigo, humilhante, dinâmica e inflexível.” A compreensão que alguém somente poderia se converter através da Palavra e por meio da livre iniciativa do Espírito era uma verdade. Além disso, a Igreja Primitiva, lembra Green, não evangelizava por meio de emocionalismo ou sensacionalismo. As disputas filosoficas, o ensino ministrado, o testemunho falado era muito bem traduzido de forma que as pessoas entendessem racionalmente a verdade do evangelho e por isso o resultado era em uma conversão séria como mudança de valores e de vida. Green pode nos dar uma excelente visão sobre este assunto, e que nos torna mais seguros em pregar um evangelho menos esotérico e mais racional, menos liturgico e mais comprometido com os valores do reino de Deus. Além disso, o autor relata vários exemplos de conversão como de Justino, Clemente de Roma, Inácio entre outros pais da igrejas.

Ao falar sobre os evangelistas, o autor destaca duas partes interessantes: Quem de fato eram os evangelistas e como estes evangelistas viviam. Além da “profissionalização” deste cargo, vê-se também o relato sobre a evangelização leiga que segundo Green foi o fator principal para que o evangelho alcançasse todo mundo do império da época. Interessante também é notar a perspicácia de Green quando ele relata sobre a pluralidade de ministérios e que a igreja de hoje necessita voltar a abosrver esta mesma visão.

Tanto os missionários informais como os filósofos crentes estavam comprometidos com a profundidade e o estudo acerca da palavra. Além disso Green dá um valor todo especial ao trbalho das mulheres, demonstrando que um dos braços fortes da igreja da época eram as servas de Deus que chegavam até mesmo ao martírio como as citadas Blandina e Perpétua. Tanto a comunhão, o caráter transformado e a verdadeira alegria, formavam o caráter desta gente. Ao falar sobre a intimidade destes cristãos com o poder de Deus, Green deixa revelar sua visão muito equilibrada sobre a questão dos exorcismos e libertação espiritual, e mostra que há um grande distanciamento da igreja contemporânea com este Deus Poderoso, talvez Green queira ressaltar e chamar a atenção principalmente do meio em que vive e da denominação a que pertence. Em suma, a igreja precisa urgentemente voltar a sua origem tamnto no que se entende de ministério como a busca de modelos que estejam comprometidos com os verdadeiros valores do Reino de Deus e não se deixem seduzir pelo sensacionalismo e popularidade a qual tantos já cairam. 

Além disso, o autor consegue através de acurada pesquisa, ressaltar uma arqueologia e geografia da época, ao mesmo tempo que faz o leitor apaixonar-se pela evangelização expondo os métodos, motivações e estratégias dos primeiros séculos.

Nas notas finais de cada capítulo, “Evangelização na Igreja primitiva” tem um grande e profundo asservo de material pesquisado pelo autor e enriquecido pelos comentários pessoais do mesmo. Em sua análise neotestamentária, Green deixa claro que ele não aceita a última parte textual do evangelho de Marcos como de fato de seu autor, o que empobrece um pouco seu capítulo sobre “O Evangelho”. 

O texto embora trazendo informações históricas e uma gama de notas geograficas e aqueológicas, torna-se um pouco cansativo por ser essencialmente didático. 

O que chama a atenção também é que Michael Green ao analisar a história, chega ao ponto de criticar determinados princípios e métodos usados pelos cristãos primitivos quando comenta sobre o fracasso da missão aos judeus. O que se pode notar é uma certa ousadia, principalmente quando sabemos que o autor é inglês e anglicano e que sua denominação hoje, faz muito pouco pelo verdadeiro cristianismo.

Em compensação, Green expõe seu compromisso pessoal ao cristianismo bíblico e a Missiologia dos primeiros séculos. Sua forma de esboçar e apoiar o estilo de vida, demonstra que Green é de fato um cristão genuíno. Todas as suas investigações e conclusões resultam e aplicações práticas para a igreja atual. Ao falar sobre conversão ele tanto exalta as conversões reais como critica as aceitações da fé cristã como apenas nominalismo.

Realça-se também acima de tudo a abrangente e despreconceituosa visão missionária do autor. Não somente pelas asseverações sobre o estilo de vida do cristianismo primitivo, como também pelas estratégias e táticas implementadas pela igreja. 

Ao caminhar por “Evangelização na Igreja Primitiva”, se é levado a concluir que a igreja contemporânea está bem longe do que seja um cristianismo genuíno, e em consequência disto este evangelicalismo pós-moderno tem arremetido a igreja cristã a um pragmatismo nunca vivido antes, sem levar em conta os conceitos bíblicos e históricos bem como as motivações que geram estratégias orientadas por Deus. Ao ler Green, chega-se a conclusão que o desafio de se viver um verdadeiro cristianismo nos tempos contemporâneos é o grande segredo da igreja. Oxalá esta encontre-se com o verdadeiro sentido e com o real Senhor da vida para que ao mirar os grandes vultos de fé do passado, possam haver homens e mulheres corajosos para implementar, ou por que não dizer, retornar a uma evangelização eficaz e verdadeira, como aconteceu nos dois primeiros séculos da era cristã.