quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

ENTRE O BATUQUE E O SILENCIO



(Texto revisado) 

Meu desejo de contemplação é a ânsia de minha alma. Busco incessantemente Aquele por quem eu respiro, meu coração bate, meus pulmões se enchem de ar, minhas veias canalizam o sangue que junto a vida de meu espírito, leva minha alma para mais perto d'Aquele que me amou desde antes da criação do Cosmos - "Ornamento de Deus".

Estes últimos dias tive o privilégio de transitar por alguns locais inusitados e cheios de vida. Dois deles marcaram profundamente minha alma. Estive por alguns dias visitando algumas praias, lugares exóticos e belos. Ao contemplar a beleza da Natureza fiz-me pronto a afirmar mais uma vez a mim mesmo: "Impossível ser um ateu". A Criação, a natureza, o mar e tudo que eles contêm exalam a presença de um "Design Inteligente". Para nós cristãos, indubitavelmente, Cristo criou todas as coisas e a Sua Criação revela Sua soberania e providência.

Porém a criação geme, angustia-se porque Seu Despenseiro - o ser humano - continua a degradar-se não apenas no corpo, mas, sobretudo na alma. Uma alma sem a conexão com o Espírito de Deus degenera-se, destrói-se, esvazia-se e desumaniza-se. Nós que fomos criados para viver em comunhão com o Criador e com a criação - animais, plantas e astros - progressivamente usamos e abusamos dos seres criados e caminhando para o colapso total.

A praia embora pudesse me levar à contemplação divina, me trouxe ruídos que minha alma rejeita. Músicas sem nexo, barulho e batuque sem conteúdo. O ser humano continuamente busca um "deus-segundo-o-coração-da-criatura”. Para encontrar-se com Deus, muitos precisam defini-lo, construí-lo, embalsamá-lo e sistematizá-lo a fim de reterem uma leve caricatura "D'aquele que é". Para muitos é o "grito que define a divindade". Nada diferente do deus-pagão das culturas primitivas.

Também vivi a experiência de passar um tempo em um Mosteiro Beneditino. Poucas palavras, pouco barulho, muitas orações, cicios, o suficiente para tentar domesticar uma alma agitada e inquieta. Diante de um ambiente desconhecido para muitos que ousam criticar sem conhecer, me pus novamente na busca da contemplação divina.

Diferente de um mundo onde o silêncio é aterrador, encontrei-me mais uma vez comigo mesmo, para admitir que não sou diferente daqueles que batucam muito com um coração vazio. Cantamos muito, mas falamos pouco ao coração de Cristo. Naquele local inaudito pude ver que o silêncio da alma fala mais alto do que um turbilhão de palavras. Mas a ausência da fala também pode ajudar quando o coração vazio está desejoso por encontrar-se num mistério onde somente o Espírito pode se fazer presente. Na oração do coração e no silêncio do espírito, percebi o quanto sou um papagaio que repete palavras vazias, por que conheço muito pouco o silêncio de Deus. O silêncio de Deus possui mais vida do que os discursos dos homens.

O silêncio retira de nós o que a mente humana constrói acerca de Deus usando a lógica. Ao entrar num ambiente assim, me senti num vazio que somente Cristo pôde preencher em comunhão. O silêncio é o caminho para o encontro verdadeiro com Cristo, por meio de Seu Espírito Santo. No mistério do silêncio encontramos a presença grave, intensa e cheia de Deus. Habitamos um mundo onde o silêncio de Deus não tem mais vez. Estamos cheios de nós mesmos. Nossos discursos são repletos de palavras que podem assombrar muito, mas nada afetam nossa relação com a Trindade Santíssima, conosco mesmos e com nosso semelhante. Contemplar a beleza da Criação não tem sentido sem a contemplação daquele que "É" no coração. Sem o silêncio da alma, homem algum poderá reter a revelação divina. Sem um coração silencioso, jamais poderemos viver a Palavra Viva – Jesus Cristo - revelação plena de Deus.                                  

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

MEUS PRINCÍPIOS SOBRE EVANGELISMO



Missão como Evangelização (David Bosch)

Evangelização: definições

Nossa discussão sobre o significado e o escopo da salvação e sobre a missão da igreja em relação à justiça social leva-nos, de uma forma quase automática, a refletir sobre a natureza da evangelização. O conceito "evangelizar" e seus derivados já existem, de fato, há muito mais tempo que a palavra "missão" e, é óbvio, ocorrem com relativa freqüência no Novo Testamento (euangelizein [ou euangelizesthai] e euangelion). Mas esses termos caíram quase em completo desuso durante a Idade Média. Mesmo hoje eles dificilmente são empregados em traduções inglesas da Bíblia; euangelion geralmente se traduz como "gospel" [evangelho] e euangelizesthai/euangelizein como "preach the gospel" [pregar o evangelho]. Desde o início do século 19, o verbo "evangelizar" e seus derivados "evangelismo" e "evangelização" foram, porém, reabilitados em círculos da igreja e da missão. Eles se destacaram, especialmente, em torno da virada do século devido ao slogan "A evangelização do mundo nesta geração".

Após um declínio temporário de seu uso, da década de 20 até a de 60, os termos tiveram de novo uma grande proeminência e têm sido amplamente empregados desde 1970 em círculos protestantes (ecumênicos e evangelicais) assim como católicos. Um "divisor de águas decisivo" foi, nesse sentido, a publicação, em 1975, da Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, do papa Paulo VI; igualmente significativas foram a Assembléia do EMI em Nairóbi, realizada no mesmo mês em que se publicou a EN, e a publicação, em 1982, de Missão e evangelização: uma afirmação ecumênica (ME). De fato, esses encontros e documentos marcam um importante reavivamento do interesse católico e protestante na evangelização.

No que concerne ao substantivo, vale observar que o movimento evangelical protestante e os católicos romanos parecem preferir "evangelização", enquanto que protestantes ecumênicos favorecem "evangelismo". Empregarei "evangelismo" para me referir (a) às atividades implicadas na difusão do evangelho ou (b) à reflexão teológica sobre essas atividades. "Evangelização" será usada para designar (a) o processo de propagação do evangelho ou (b) a extensão em que ele se encontra propagado (por exemplo, na frase "a evangelização do mundo ainda não foi concluída").

Permanece difícil, todavia, determinar com exatidão o que os autores querem dizer com evangelismo ou evangelização. Barrett enumera 79 definições, às quais se poderiam somar muitas outras. Falando em termos genéricos, a controvérsia prevalece em duas áreas: as diferenças (se existem) entre "evangelismo" e "missão", e o escopo ou a abrangência do evangelismo. Além disso, essas questões apresentam uma estreita vinculação. 

Em primeiro lugar, alguns sugerem que "missão" tem a ver com o ministério dirigido a pessoas (especialmente àquelas do Terceiro Mundo) que ainda não são cristãs, e "evangelismo" com o ministério àquelas (em especial, no Ocidente) que não mais são cristãs. A existência desses "não mais" cristãos reflete uma situação nova. Antes do iluminismo e da Era das Descobertas, qualquer pessoa fora do Ocidente era pagã, enquanto que todos no Ocidente eram considerados cristãos. Agora existem "não-crentes" também no Ocidente. Sustenta-se, porém, que é necessária uma terminologia diferente quando designamos o trabalho eclesiástico entre esses dois grupos. A missão sugere-se, está preocupada com a primeira conversão, com a cristianização, com vocare, com um primeiro início, com o estrangeiro distante; o "evangelismo" lida com a reconversão, com a recristianização, revocare, um novo começo, o próximo afastado. Dentro da cristandade (ocidental), pois, requer-se o evangelismo, não a missão.

As "missões domésticas" (evangelismo) são consideradas teologicamente distintas da missão (no exterior). A diferenciação é, ao mesmo tempo, geográfica. Segundo Margull, "o traço distintivo da missão no exterior é proclamar o evangelho onde ainda não existe igreja, onde o senhorio de Deus jamais foi - historicamente - proclamado, onde pagãos constituem o alvo do trabalho". A missão, portanto, ocorre em um ambiente précristão.

Em contraposição a isso, Margull define o evangelismo, que ele também distingue nitidamente da pregação "regular" da igreja a seus membros, como a proclamação do evangelho entre as pessoas que abandonaram a igreja e estão vivendo em um ambiente pós-cristão, por exemplo, na Europa oriental. Margull reflete um amplo consenso existente em círculos católicos romanos e protestantes. Concomitantemente, ele sustenta que o "evangelismo" jamais deveria ter vida própria, porque é derivado da realidade da missão no exterior e sempre é preciso vê-lo em estreita conexão com esta. A "missão" permanece primordial, o "evangelismo", secundário.

Uma razão para essa "sincronização" entre missão e evangelismo reside no fato de a distinção entre o trabalho entre "não ainda cristãos" ("missão") e "não mais cristãos" ("evangelismo") estar se tomando cada vez mais tênue; existem agora também "ainda não cristãos" (pessoas que não só estão distantes da igreja, mas que jamais tiveram vínculo com ela) no Ocidente, assim como há "não mais cristãos" (pessoas que, uma vez, eram cristãs, mas se afastaram da igreja) nos tradicionais territórios de "missão".

Em segundo lugar, e somando-se à distinção que acabamos de identificar, há frequentemente uma tendência de definir "evangelismo" de maneira menos ampla do que "missão". E como católicos romanos e protestantes ecumênicos se inclinaram a usar a palavra "missão" para designar uma gama cada vez maior de atividades eclesiásticas, os evangelicais começaram a evitar o termo "missão" e a usar apenas "evangelismo", também para designar o empreendimento "no estrangeiro". Esse uso polêmico de "evangelismo" pelos evangelicais sugeria que, na opinião deles, o Concílio Mundial de Igrejas (CMI) havia equivocadamente ampliado o escopo do empreendimento original para o que é hoje. Johnston, por exemplo, afirma: "Historicamente, a missão da igreja se resume no evangelismo" (McGavran - "Teologicamente, a missão era evangelismo mediante qualquer meio possível"). A compreensão mais "inclusiva" do empreendimento, diz Johnston, começou efetivamente com a Conferência de Edimburgo, em 1910.

Em terceiro lugar, tem havido, nas últimas quatro décadas, mais ou menos, uma tendência de entender "missão" e "evangelismo" como sinônimos. A tarefa da igreja, seja no Ocidente ou no Terceiro Mundo, é uma só e é secundário que a denominemos de "missão" ou de "evangelismo". No que concerne aos evangelicais, isso já emerge nas definições de Johnston e McGavran, os quais acabamos de citar. Nos círculos católicos romanos e do CMI, existe uma tendência similar. Isso é atestado pela formação da Comissão para a Missão Mundial e Evangelização, depois da Assembleia do CMI realizada em Nova Délhi (1961); Philip Potter estava, portanto, correto ao dizer que, na literatura ecumênica, "missão", "evangelismo" e "testemunho" são, por via de regra, conceitos intercambiáveis. E um memorando católico romano afirma que "missão, evangelização e testemunho são, atualmente, muitas vezes empregados por católicos como sinônimos" (Memorandum 1982:460).

A confusão aumentou quando, em quarto lugar, o termo "evangelismo" ou "evangelização" começou a substituir "missão" em anos recentes, não apenas em círculos evangelicais conservadores, mas também entre católicos romanos e protestantes ecumênicos. Para estes últimos, "evangelismo" ou "evangelização", entendidos como idênticos a "missão", eram mais aceitáveis do que "missão" por causa das implicações colonialistas ainda associadas com este termo (cf. Geffré 1982:479; Gómez 1986:36). O exemplo mais rematado de "evangelização" suplantando "missão" pode encontrar-se em EN. O documento evita a palavra "missão" e, em sua tradução inglesa, emprega "evangelização" e seus cognatos não menos que 214 vezes. Compreende-se "evangelização" como um conceito que abarca toda a atividade da igreja enviada ao mundo: "Um único termo - evangelização - define a integralidade do ofício e mandato de Cristo" (EN; Snijders; Geffré; Scherer). De maneira idêntica, Geijbels entende evangelização como incluindo proclamação, tradução, diálogo, serviço e presença. E Walsh afirma que "desenvolvimento humano, libertação, justiça e paz são partes integrantes do ministério da evangelização".

No caso dos evangelicais, "evangelismo" (ou, mais comumente, "evangelização") é, muitas vezes, preferido a "missão" devido ao que os evangelicais crêem que os ecumênicos entendem sob "missão" (ou por causa da maneira como "missão" fora "reconceitualizada" em Uppsala [1968] e "implementada" como "nova missão" em Bangcoc [1973] [Hoekstra 1979:63109]). Assim, quando Johnston escreve sobre "a batalha pelo evangelismo mundial", e Hoekstra, sobre "o desaparecimento do evangelismo" no CMI, eles manifestam uma preferência pelo termo "evangelismo" em contraposição ao termo "missão".

Rumo a uma compreensão construtiva de evangelismo

Sinuosidades no significado como as que identificamos acima são sintomáticas de um estado em que prevalece a fluidez constante no pensamento missionário e do período de transição em que vivemos. No que segue, tentarei esboçar uma compreensão de evangelismo que contribuirá, assim espero, para o tipo de missão que seja relevante em nossos dias.

Básica para minhas considerações é a convicção de que missão e evangelismo não constituem sinônimos, mas, a despeito disso, estão indissoluvelmente vinculados e inextricavelmente entretecidos na teologia e na práxis (prática).

1. Entendo a missão como sendo mais ampla que o evangelismo. "A evangelização é missão, mas esta não é meramente aquela". Missão denota a tarefa global que Deus incumbiu à igreja para a salvação do mundo, mas sempre relacionada a um contexto específico de mal, desespero e perda de norte (como Jesus definiu sua "missão", de acordo com Lucas 4.18s. - cf. cap. 3 deste estudo). Ela "abrange todas as atividades que servem para libertar o homem de sua escravidão na presença do Deus que vem, escravidão que se estende da necessidade econômica ao abandono de Deus". Missão é a igreja enviada ao mundo, para amar, servir, pregar, ensinar, curar, libertar. 

2. O evangelismo não deveria, portanto, ser equiparado à missão. Onde isso ocorre, surge a necessidade de complementar "evangelismo" com neologismos como "pré-evangelização" e "reevangelização", numa tentativa de introduzir elementos que, de outra forma, poder-se-iam perder. Por conseguinte, é melhor preservar o caráter distintivo do evangelismo dentro da missão mais abrangente da igreja. Contudo, é impossível dissociá-lo da missão mais ampla da igreja. O evangelismo é parte integrante da missão, "suficientemente distinto, mas não separado dela". Jamais se poderá isolá-lo e tratá-lo como uma atividade completamente separada da igreja. "Se ele não estiver relacionado a tudo que a igreja faz, então a igreja é suspeita". O evangelismo autêntico está inserido na missão global da igreja, "o ato de tomar acessível o mistério do amor de Deus por todas as pessoas dentro daquela missão". 

3. O evangelismo pode ser visto como uma "dimensão" essencial "da atividade global da igreja" , como o coração ou o cerne da missão da igreja. Se aceitarmos isso, temos que descartar a idéia, proposta por Stott (1975) e pelo Pacto de Lausanne, de que o evangelismo é um dos dois segmentos ou componentes da missão (sendo o outro a ação social). Ao evangelismo jamais se poderá conceder uma vida própria, isolada do restante da vida e do ministério da igreja. À luz disso e da aparente ausência de programas conspícuos de evangelização nas igrejas membros do CMI, talvez seja precipitado falar sobre o "desaparecimento" do evangelismo no CMI.

4. O evangelismo implica testemunhar o que Deus fez, está fazendo e fará. É assim que Jesus iniciou seu ministério evangelístico, de acordo com os evangelhos sinóticos: "O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo". Evangelismo é anunciar que Deus, Criador e Senhor do universo, interveio pessoalmente na história humana e o fez derradeiramente através da pessoa e do ministério de Jesus de Nazaré, que é o Senhor da história, o Salvador e o Libertador. Nesse Jesus, encarnado, crucificado e ressuscitado, o reinado de Deus foi inaugurado.

O evangelismo inclui, portanto, os "eventos do evangelho". Não se trata, essencialmente, de um chamamento a fim de pôr algo em execução, como se o reinado de Deus fosse inaugurado por nossa resposta ou obstaculizado pela ausência dela. É uma resposta a algo que Deus já realizou. Considerando isso, não se pode definir o evangelismo em termos de seus resultados ou sua eficácia, como se ele apenas tivesse ocorrido onde há "conversos". Dever-se-ia, antes, entender o evangelismo em termos de sua natureza, como mediador da boa nova do amor de Deus em Cristo que transforma a vida, proclamando, pela palavra e pela ação, que Cristo nos libertou (Gutiérrez).

5. Mesmo assim, o evangelismo objetiva uma resposta. Com base na realidade da plenitude do tempo e da irrupção do reinado de Deus, Jesus conclama seus ouvintes: "Arrependam-se e creiam no evangelho". "O chamamento visa a mudanças específicas, a renunciar a evidências do domínio do pecado em nossas vidas e a aceitar responsabilidades em termos do amor de Deus por nosso próximo"; afinal, metanóia engloba a "transformação total de nossas atitudes e estilos de vida". Dispensar a centralidade do arrependimento e da fé é despojar o evangelho de sua significação. Conversão "implica um afastar-se de e um voltar- se para" - "de uma vida caracterizada por pecado, separação de Deus, submissão ao mal e potencial não realizado da imagem de Deus, para uma vida nova caracterizada por perdão de pecados, obediência (...) comunhão renovada com Deus na Trindade". A conversão é, ademais, um processo contínuo, que se estende pela vida toda.

6. O evangelismo sempre representa um convite. Evangelizar é comunicar alegria (Gutiérrez). Transmite-se uma mensagem positiva; é esperança que estamos oferecendo ao mundo. O evangelismo jamais deveria deteriorar em engambelação, muito menos em ameaça. Evangelizar não é o mesmo que (1) oferecer uma panacéia psicológica para as frustrações e os desapontamentos das pessoas, (2) inculcar sentimentos de culpa para que as pessoas (em desespero, por assim dizer) se voltem a Cristo, ou (3) assustar as pessoas, a fim de que se arrependam e convertam, com estórias sobre os horrores do inferno. As pessoas deveriam voltar-se a Deus porque são atraídas por seu amor, não porque sejam empurradas a Deus pelo temor do inferno. Só mediante nossa experiência da graça de Deus em Cristo "conhecemos o terrível abismo de trevas em que nos precipitaremos se colocarmos nossa confiança em algo que não seja aquela graça" (Newbigin). Como se explicou no capítulo 4, é a "solução" em Cristo que nos revela a "situação difícil" de que fomos salvos.

7. A pessoa que evangeliza é uma testemunha, não um juiz. Isso acarreta conseqüências importantes para a avaliação de nosso próprio ministério evangelístico, pois, muitas vezes e com facilidade, dividimos as pessoas em "salvas" e “perdidas”. Newbigin o formula assim: Jamais posso ter tanta confiança na pureza e na autenticidade de meu testemunho que me permita saber se a pessoa que rejeita meu testemunho rejeitou a Jesus. Sou testemunha daquele que é infinitamente santo e infinitamente gracioso. Sua santidade e sua graça se encontram tão além de minha compreensão quanto estão da de meu ouvinte. 

8. Embora devamos ser modestos quanto ao caráter e à eficácia de nosso testemunho, o evangelismo permanece um ministério indispensável. Ele não representa um acessório opcional, mas um dever sagrado, uma incumbência da igreja. Essa mensagem é, efetivamente, necessária. É única. Ela não pode ser substituída. Não é possível supor que a dimensão evangelística da missão da igreja esteja incluída em tudo que a igreja diz e faz; necessita-se torná-la explícita. "Toda pessoa tem o direito de ouvir a boa nova".

9. O evangelismo só pode acontecer quando a comunidade que evangeliza - a igreja - é uma manifestação radiante da fé cristã e exibe um estilo de vida atraente. "O meio é a mensagem" (Marshall McLuhan). Segundo a Iniciativa Nacional em Evangelismo, "o que somos e fazemos não é menos importante, nesse sentido, do que aquilo que dizemos" (NIE 1980:3). Se a igreja deseja divulgar ao mundo uma mensagem de esperança e amor, de fé, justiça e paz, algo disso deve tomar-se visível, audível e tangível na própria igreja (At 2.42-47; 4.32-35). O testemunho de vida da comunidade dos crentes prepara o caminho para o evangelho. Onde isso falta, a credibilidade de nosso evangelismo está perigosamente comprometida. "Quantos dos milhões de pessoas no mundo que não confessam a Jesus Cristo rejeitaram-no pelo que viram na vida dos cristãos! Portanto, o chamado à conversão deveria começar com o arrependimento daqueles que realizam o chamamento, que fazem o convite". Essas palavras são especialmente pertinentes onde uma comunidade cristã deixa de demonstrar que, em Cristo, Deus desfez todas as barreiras que dividem a família humana. Nesse aspecto, em especial, o próprio ser da igreja possui um significado evangelístico, seja positivo ou negativo.

10. O evangelismo oferece às pessoas a salvação como uma dádiva presente e, junto com ela, a garantia de bem-aventurança eterna. As pessoas estão, mesmo que não o percebam, procurando desesperadamente um sentido para a vida e a história; isso as impele a buscar um sinal de esperança em meio ao generalizado temor de uma catástrofe global e da falta de sentido. Podemos, através de nosso evangelismo, mediar-lhes "uma salvação transcendente e escatológica, que, de fato, tem seu princípio nesta vida, mas alcança a plenitude na eternidade". Mas se a oferta de tudo isso constituir o centro de nosso evangelismo, degrada-se o evangelho a um artigo de consumo. É preciso, pois, que se enfatize que o desfrute pessoal da salvação jamais representa o tema central nas estórias bíblicas de conversão (Barth). Ali onde cristãos se vêem como os que usufruem uma inefável e magnífica ventura privada, Cristo é facilmente reduzido a pouco mais do que um "Fornecedor e Distribuidor" de bênçãos especiais, e o evangelismo, a um empreendimento que alenta a busca de um egocentrismo piedoso. Não que o usufruto da salvação seja equivocado, desprovido de importância ou de base bíblica; mesmo assim, ele é quase incidental e secundário. Não é simplesmente para receber vida que as pessoas são chamadas a se tornarem cristãs, mas, antes, para doar vida. 

11. Evangelismo não é proselitismo. Quando foi fundada a Sacra Congregatio de Propaganda Fidei (1622), afirmou-se explicitamente que o interesse da nova organização estaria focado, não em "não-cristãos", mas em "não-católicos"; de fato, até aproximadamente 1830, seu holofote estava voltado para a Europa protestante. Com demasiada frequência, portanto, utilizou-se o evangelismo como um recurso para reconquistar influência eclesiástica perdida, tanto no catolicismo quanto no protestantismo. Especialmente em contextos onde se vê a igreja (ou "a denominação") como composta de indivíduos que optam livremente por pertencer a ela, existe uma sugestão implícita (e, às vezes, explícita) de que a competição é necessária. Por conseguinte, as pessoas da comunidade adjacente, quer pertençam ou não a outras igrejas, são encaradas como "candidatos" a serem ganhos. Grande parte disso reflete a tendência de construir um império - a igreja "não consegue resistir à tentação de abrir uma outra filial em uma área que parece promissora" (Spong). Quer intencionalmente, quer não, essa mentalidade sugere que as pessoas não são salvas pela graça, mas por se tornarem membros de nossa denominação.

12. Evangelismo não é o mesmo que extensão eclesiástica. Durante o período em que estava em voga a máxima "não há salvação fora da Igreja (Católica)", isso constituía a quintessência do evangelismo. Essa concepção se encontra na base da encíclica Rerum Ecclesiae, do papa Pio XI (1926). Evangelismo significava "acrescentar à Igreja Católica o maior número possível de recém-batizados"; isso se processava em estágios, mediante o catecumenato, o período probatório e a introdução à vida litúrgica da igreja. O evangelismo era sinônimo de expansão da igreja através do incremento numérico de membros. A conversão era uma questão de números. Media-se o sucesso do evangelismo contando os batismos, as confissões e as comunhões (Shorter).

Também no protestantismo, entendia-se o evangelismo, em geral, como extensão da igreja. Nos últimos anos, isso vale especialmente para o Movimento de Crescimento de Igrejas. McGavran pleiteia "um evangelismo que proclame o evangelho, converta pecadores e multiplique a igreja". Além disso, o propósito do crescimento eclesiástico é mais crescimento eclesiástico. Aqueles que se tornam membros da igreja devem granjear outros membros; esse é um aspecto importante, talvez o aspecto principal do Novo Testamento (McGavran. A "teologia da colheita" deve ser priorizada frente à "teologia da semeadura"). O crescimento numérico ou quantitativo deveria constituir a prioridade n° 1 num mundo em que vivem 3 bilhões de pessoas que não são cristãs. É óbvio que as populações "resistentes" representam um problema para essa abordagem. Ainda assim, McGavran não advoga uma retirada geral de áreas de baixa receptividade; ele acrescenta, porém, que esses campos deveriam ser ocupados brandamente e que os evangelistas se deveriam concentrar em populações "conversíveis". 

Mas esse tipo de pensamento distorce o evangelismo, inclusive porque as razões pelas quais as pessoas se tomam membros da igreja podem variar muito e é possível que, freqüentemente, pouco tenham a ver com um compromisso com aquilo que a igreja supostamente defende. Uma congregação em que as pessoas se parecem em tudo talvez reflita a cultura prevalecente e seja um clube de folclore religioso em vez de constituir uma comunidade alternativa em um ambiente hostil ou acomodado.

Isso aflora especialmente em situações onde o número de membros da igreja está diminuindo e esta decide, relutantemente, que, se quiser continuar no negócio, deve resignar-se a uma campanha evangelística. A atenção do evangelismo não deveria, contudo, estar voltada para a igreja, mas para o reinado de Deus que irrompe (Snyder).

13. Distinguir entre evangelismo e recrutamento de membros não significa, porém, sugerir que ambos estejam desconectados. Afinal, "faz parte do cerne da missão cristã fomentar a multiplicação de congregações locais em qualquer situação humana". Não podemos ser indiferentes a números, pois Deus "não quer que nenhum pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento" (2 Pe 3.9). Portanto, inclui-se com justeza a implantação e o crescimento eclesiásticos em sua definição do objetivo da missão. A rejeição monomaníaca da igreja empírica na teologia de Hoekendijk e em outras similares é totalmente inapropriada.

Sem a igreja, é impossível haver evangelismo ou missão. Mas, para medir o grau de eficácia e responsabilidade do evangelismo da igreja, as estatísticas sobre o número de membros são menos úteis. Em verdade, um evangelismo autêntico e precioso pode causar uma diminuição dos membros de uma igreja em vez de seu incremento. Em certo sentido, portanto, o crescimento numérico constitui nada mais que um subproduto que surge quando a igreja é fiel à sua vocação mais profunda. Mais importante é o crescimento orgânico e "encamacional".

14. No evangelismo, "só é possível dirigir-se a pessoas, e só elas podem responder". Sem dúvida o evangelismo autêntico tem, pois, uma dimensão pessoal. O evangelho é "o anúncio de um encontro pessoal, mediado pelo Espírito Santo, com o Cristo vivo, recebendo-se seu perdão e aceitando-se pessoalmente seu chamado ao discipulado". Não é exato sustentar-se que o individualismo seria simplesmente uma "invenção" do Ocidente. Pelo contrário, o evangelho cristão, necessariamente, enfatiza a responsabilidade e a decisão pessoais; por isso, o individualismo na cultura ocidental é, primordialmente, fruto da missão cristã. Rosenkranz afirma que isso constitui a única revolução real na estrutura da natureza humana, uma vez que introduziu a doutrina do valor individual de cada ser humano; por conseguinte, se as pessoas atualmente pensam e agem como indivíduos livres e responsáveis - uma forma de pensamento diametralmente oposta ao pensamento e à prática da Antiguidade - isso se deve à influência do evangelho. 

Visto que somente pessoas - indivíduos - podem responder ao evangelho, falar de "evangelismo profético" como conclamação de "sociedades e nações ao arrependimento e à conversão" ou dizer que o "chamamento à conversão, como um chamado ao arrependimento e à obediência, também deveria ser dirigido a nações, grupos e famílias" significa confundir a questão. Principados e potestades, governos e nações não podem chegar à fé - apenas indivíduos podem fazê-lo. Dessa maneira, embora esse ministério seja necessário e constitua uma parte integrante da missão, ele não é, estritamente falando, evangelismo.

Ainda assim, o evangelho não é individualista. O individualismo moderno representa, em grande parte, uma perversão de como a fé cristã compreende a centralidade e a responsabilidade do indivíduo. Como consequência do iluminismo e de seus ensinamentos, os indivíduos ficaram isolados da comunidade que os gerou. No evangelismo, essa tendência tem predominado, especialmente, desde o ministério de D. L. Moody (1837-1899). Para ele, o pecado era exclusivamente um assunto individual, e o pecador se encontrava sozinho diante de Deus - um pecador que, nos Estados Unidos democrático da época de Moody, possuía perfeitas condições de tomar uma decisão e vencer o pecado (Marsden). Uma vez que se compreendia o indivíduo como a unidade básica na obra da salvação, a ênfase incidia cada vez mais na salvação de almas individuais. E passagens bíblicas como a de Mateus 16.26: "Que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder sua alma?" foram interpretadas como apontando nessa direção.

As pessoas, contudo, jamais serão indivíduos isolados. Elas são seres sociais, que jamais podem ser separados da rede de relacionamentos em que vivem. E a conversão do indivíduo toca todas essas relações. Christian Keysser (1980) reconheceu isso, durante os anos que passou em Papua Nova Guiné, ao enfatizar sempre que o grupo social precisava estar envolvido na conversão de cada indivíduo. 

15. O evangelismo autêntico sempre é contextual. Um evangelismo que separa as pessoas de seu contexto vê o mundo não como um desafio, mas como um empecilho, desvaloriza a história e somente consegue enxergar os "aspectos espirituais ou imateriais da vida", é espúrio. O mesmo pode afirmar-se de um evangelismo que expressa a conversão unicamente em termos microéticos, como o comparecimento regular à igreja, a abstinência de álcool e fumo bem como a leitura bíblica e orações diárias, ou que limita a mensagem evangelística a uma oferta de libertação da solidão, de paz de espírito e de sucesso em tudo que empreendemos.

Deveras, grande parte do assim chamado evangelismo, aparentemente, visa satisfazer as pessoas em lugar de transformá-las. No Ocidente (pelo menos no passado), o cristianismo costumava ser identificado com respeitabilidade social. As igrejas contavam com prestígio público. Nesse aspecto, o evangelismo lhes prestava um auxílio: "A pressão comunitária dominante tornava pertencer à igreja não apenas uma necessidade, mas também indicativo de civilização, boas maneiras e vida decente". Boa parte dessa mentalidade fora exportada à África e a outras partes do Terceiro Mundo. A igreja existia para os que desejavam ascender na pirâmide social; tornar-se cristão significava identificar-se com o etos e o sistema de valores dos que aspiravam à classe média. Tudo isso se encontra muito distante do evangelismo genuíno e acarretou uma conversão à cultura predominante, não ao Cristo dos evangelhos.

Em boa parte da "igreja eletrônica", batiza-se o materialismo. O Jesus do reavivamentismo parece ter mais afinidade com a Câmara de Comércio e o mundo do entretenimento do que com uma simples gruta em Belém ou com uma tosca cruz sobre uma colina árida. Os pregadores se afastam de questões sociais controvertidas e concentram-se naqueles pecados pessoais de que a maioria de seus entusiasmados ouvintes não são culpados. Ora, que critério decide que o racismo e a injustiça estrutural são questões sociais, mas a pornografia e o aborto pertencem ao âmbito individual? Por que a política é evitada e declarada como extrapolando a competência do evangelista, exceto quando ela favorece a posição dos privilegiados na sociedade? Como é possível que pregadores que aparentam interessar-se unicamente pelo destino "metaterrenal" de seus ouvintes sejam tão completamente terrenos em seu etos e seus métodos?

É claro que, para as pessoas que estão experimentando uma tragédia pessoal, o vazio, a solidão, a alienação e a falta de sentido na vida, o evangelho significa, de fato, paz, consolo, plenitude e alegria. Mas o evangelho só oferece isso dentro do contexto que implica ser ele uma palavra sobre o senhorio de Cristo em todas as esferas da vida, uma palavra autorizada de esperança no sentido de que o mundo, como o conhecemos, não será sempre como é agora.

16. Por causa disso, o evangelismo não pode ser divorciado da pregação e prática da justiça. Essa é a deficiência da concepção segundo a qual se confere prioridade absoluta ao evangelismo frente ao engajamento social, ou onde o evangelismo é apartado da justiça, mesmo que se sustente que, junto com a justiça social, ele constitua a "missão". Se entendermos o evangelismo não como um mero recrutamento de membros para a igreja, não como uma simples oferta de salvação eterna a almas individuais e não como uma tentativa de apressar o retorno de Cristo, ele não pode ser divorciado da missão mais abrangente da igreja. E mesmo se incluímos o recrutamento de novos membros e a oferta da salvação eterna no objetivo da missão, permanece a pergunta: para que as pessoas estão se tomando membros da igreja? Para que os indivíduos estão sendo salvos? 

Em nossas reflexões sobre o uso que Mateus faz do termo "discípulo" (capítulo 2), foi sugerido que tomar-se discípulo de Jesus implica toda uma gama de compromissos. Significa, primordialmente, aceitar um compromisso com Jesus e o reinado de Deus. Em seu âmago, o convite de Jesus para que as pessoas o sigam e se tomem seus discípulos é a pergunta a quem elas desejam servir. O evangelismo é, pois, um chamado ao serviço. 

Isso não deve ser contraposto às bênçãos - inclusive bênçãos eternas – que o novo converso receberá; em verdade, não faz sentido jogar uma perspectiva contra a outra. Mas como a perspectiva da bem-aventurança eterna é a que geralmente tem sido enfatizada, é urgente que se sublinhe, com a mesma veemência, a perspectiva do serviço ao reino. “Um convite evangelístico orientado para o discipulado incluirá um chamamento para se aliar ao Senhor vivo na obra de seu reino”. Ele chamará a atenção para as aspirações de homens e mulheres comuns da sociedade, para seus sonhos de justiça, segurança, estômagos saciados, dignidade humana e oportunidades para seus filhos. Ele dará, sem rodeios, nome aos "principados e potestades" que se opõem ao Reino. 

Evangelismo significa, portanto, angariar pessoas para o reinado de Deus, libertando-as de si mesmas, de seus pecados e de seus enredamentos, a fim de que sejam livres para Deus e o próximo. Ele conclama indivíduos para uma vida de abertura, vulnerabilidade, integralidade e amor. Ganhar pessoas para Jesus significa ganhar sua dedicação às prioridades de Deus. Deus deseja não apenas que sejamos resgatados do inferno e redimidos para o céu, mas também que em nós - e, através de nosso ministério, igualmente na sociedade em torno de nós - a "plenitude de Cristo" seja recriada, a imagem de Deus seja restaurada em nossas vidas e relacionamentos. “Ao fazermos o convite do evangelho, não temos a liberdade de ocultar o custo do discipulado. Jesus ainda conclama todos os que querem segui-o a negar-se a si mesmos, a tomar sobre si sua cruz e a identificar-se com a nova comunidade dele”. Evangelismo, portanto, é chamar as pessoas à missão.

17. O evangelismo não é um mecanismo para apressar a volta de Cristo, como sugerem alguns. A introdução do eschaton tem sido um tema missionário importante desde as últimas décadas do século 19. Agências como a "Missão para o Interior da China" (Hudson Taylor) e a "Regions Beyond Missionary Union" (Grattan Guinness) foram formadas porque seus fundadores acreditavam - baseados numa interpretação biblicista de Mateus 24.14 - que o retomo de Cristo dependia da conclusão da proclamação do evangelho a todos os povos do mundo (Beaver). Johnson (1988) descreve o crescente entusiasmo, especialmente entre 1887 e 1893, pela idéia da evangelização do mundo todo antes do ano de 1900, mas também o declínio depois de 1893, quando se tornou claro que a meta era inatingível. A maioria dos líderes do movimento, como A. T. Pierson, A. B. Simpson e H. Grattan Guinness, definiam o evangelismo estritamente em categorias individualistas e verbalistas e rejeitavam qualquer idéia de os missionários se envolverem em outros projetos ou em estruturas da sociedade. Acreditava-se que a mera pregação da palavra traria os milhões do mundo ao aprisco dos redimidos e aceleraria a segunda vinda de Cristo.

Barrett e Reapsome (1988) calculam que houve, de fato, desde o início da era cristã, 788 "planos globais" para evangelizar o mundo e que a maioria deles estava intimamente relacionada com expectativas escatológicas. 

O slogan "a evangelização do mundo nesta geração", popularizado por John R. Mott por volta do início do século 20, não interpretou especificamente o evangelismo como introdução da parúsia, mas apresentava, com certeza, nuanças apocalípticas. Dos quase 800 planos identificados por Barrett e Reapsome, apenas aproximadamente 250 ainda existiam em 1988. Mas, à medida que se aproxima o terceiro milênio, mais e mais planos novos são lançados, e, virtualmente, todos eles vinculam o evangelismo à parúsia. Muitas vezes, expressam-se expectativas em termos pré-milenaristas. A literatura evangelical contemporânea está repleta de contribuições sobre "a evangelização do mundo antes do ano 2000". 

Modernas tecnologias, mormente computadores, são utilizadas não apenas para avaliar as dimensões gigantescas da tarefa, mas também para traçar estratégias eficazes. Um desses planos, chamado DAWN ("Discipling A Whole Nation"), parte da premissa de que necessitamos de uma igreja para cada mil pessoas a fim de evangelizar o mundo de forma efetiva; como haverá aproximadamente 7 bilhões de pessoas até o ano 2000, a estratégia do DAWN é facilitar a implantação de igrejas com o objetivo de chegar a um total de 7 milhões até o final do século. Várias conferências concentraram sua atenção em um objetivo similar. 

Em 1980, realizou-se, em Edimburgo, uma "Consulta Mundial sobre Missões de Fronteira"; ela formulou sua meta como "Uma Igreja para Cada Povo até o Ano 2000". Uma conferência semelhante aconteceu em São Paulo, em 1987, focada, em grande parte, mas não exclusivamente, na América Latina. Em janeiro de 1989, reuniu-se, em Singapura, uma "Consulta Global sobre Evangelização Mundial até 2000 e além". E o programa de Lausanne Il, a conferência do Comitê de Lausanne para a Evangelização Mundial realizada em Manila, em julho de 1989, incluiu uma "Trilha 2000 d.C. Mas, como sustentou Glasser (1989), todo esse projeto e sua fascinação com o ano 2000 são altamente questionáveis. Ele parte da duvidosa premissa de que a economia mundial crescerá ainda mais, de que a renda para-eclesiástica subirá enormemente e de que os principais portadores da missão nas décadas vindouras ainda serão agências missionárias do tipo ocidental. Mais relevantes, todavia, são as deficiências teológicas nessa filosofia, especialmente porque esse tipo de evangelismo parece ignorar deliberadamente a crescente pobreza e injustiça no mundo.

18. O evangelismo não é apenas proclamação verbal. Mesmo assim, o evangelismo possui uma dimensão verbal da qual não é possível escapar. Em umasociedade marcada pelo relativismo e pelo agnosticismo, faz-se necessário dizer o Nome dAquele em quem cremos. Os cristãos são desafiados a prestar contas da esperança que existe neles (cf. 1 Pe 3.15); a vida deles não é transparente de chegar para que outros reconheçam a fonte dessa esperança.

Não existe, contudo, uma única maneira de testemunhar Cristo. A palavra, portanto, jamais pode estar divorciada da ação, do exemplo, da "presença cristã", do testemunho de vida. É a "palavra encarnada" que constitui o evangelho. A ação sem a palavra é muda; a palavra sem a ação é vazia. Palavras interpretam ações, e ações validam palavras, o que não significa que cada ação tenha que se fazer acompanhar de uma palavra ou vice-versa (Newbigin). 

Se tentarmos agora, finalmente, uma definição de evangelismo, é importante que não delineemos o conteúdo de nosso evangelismo de uma forma demasiadamente exata, precisa e autoconfiante. Não é possível prensarmos o evangelho e empacotá-lo em quatro ou cinco "princípios". Não há um plano-mestre universalmente aplicável para o evangelismo, uma lista definitiva de verdades que as pessoas apenas necessitam adotar para serem salvas. Jamais podemos limitar o evangelho à nossa compreensão de Deus e da salvação. Só nos é possível testemunhar, de maneira concomitantemente ousada e humilde, nossa compreensão desse evangelho. Mas, "quando refletimos, humilde porém alegremente, o amor reconciliador de Deus para com toda a humanidade, em amizade e respeito mútuo, o Espírito Santo se utiliza de nosso testemunho e serviço para que se conheça a Deus".

Conscientes da natureza essencialmente preliminar de nosso ministério evangelístico, mas, ao mesmo tempo, sabedores da inevitável necessidade de estarmos envolvidos nesse ministério, podemos, então, resumir o evangelismo como aquela dimensão e atividade da missão da igreja que, através da palavra e da ação e à luz de condições específicas e de um contexto singular, oferece a toda pessoa e comunidade, em qualquer lugar, uma oportunidade válida de ser diretamente desafiada a uma radical reorientação de sua vida, uma reorientação que implica coisas como ser libertado da escravidão do mundo e de seus poderes; aceitar a Cristo como Salvador e Senhor; tomar-se um membro vivo de sua comunidade, a igreja; ser arrolado em um serviço de reconciliação, paz e justiça na terra, e comprometer-se com o propósito de Deus de colocar tudo sob o senhorio de Cristo.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

MUITOS JAVALIS ESTÃO DESTRUINDO A VIDEIRA DO SENHOR!



"Trouxeste uma vinha do Egito; lançaste fora os gentios, e a plantaste. Preparaste-lhe lugar, e fizeste com que ela deitasse raízes, e encheu a terra. Os montes foram cobertos da sua sombra, e os seus ramos se fizeram como os formosos cedros. Ela estendeu a sua ramagem até ao mar, e os seus ramos até ao rio. Por que quebraste então os seus valados, de modo que todos os que passam por ela a vindimam? O javali da selva a devasta, e as feras do campo a devoram. Oh! Deus dos Exércitos, volta-te, nós te rogamos, atende dos céus, e vê, e visita esta vide; E a videira que a tua destra plantou, e o sarmento que fortificaste para ti. Está queimada pelo fogo, está cortada; pereceu pela repreensão da tua face. Seja a tua mão sobre o homem da tua destra, sobre o filho do homem, que fortificaste para ti. Assim nós não te viraremos as costas; guarda-nos em vida, e invocaremos o teu nome. Faze-nos voltar, Senhor Deus dos Exércitos; faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos". (Salmo 80) 

Cristo, nunca absolutamente, prometeu vitórias a você enquanto estiver neste chão. 

Mas é impressionante como os "crentes" de hoje dão atenção a tantos pregadores e pastoras evangélicas que somente se servem de dizer o que Cristo nunca disse. Acreditam e reproduzem uma fé "oca", cheia de "fantasia". Me impressiono com a instabilidade da fé destes que se dizem "crentes", mas vez por outra estão disseminando nas redes sociais mensagens que distorcem as palavras de Cristo. 

Sim, a igreja evangélica brasileira atual, com poucas exceções, está carecendo, não de um avivamento, mas sim de uma conversão, que não seja coreográfica e marketeira, mas do coração (Sl 51.6).

Precisam voltar ao primeiro amor, às primeiras obras, abandonar os ensinos desta teologia de "fundo-de-quintal" copiada dos Estados Unidos da América, conhecida como "teologia da prosperidade", reproduzida por muitos como Benny Hinn, Morris Cerullo entre outros. 

Os cantores gospel e pastoras do movimento como Ludmilla Ferber, os famosos evangélicos como Silas Malafaia, juntamente com os assim chamados apóstolos e patriarcas como René Terra Nova, que vivem do dinheiro dos "crentes-meninos", enganados, usam o evangelho e o nome de Cristo para se projetarem na Sociedade. São os atuais Simeões (Atos 8).

A estes, minha oração para que o Espírito Santo converta-os verdadeiramente. 

Mas também como Paulo já pedia a seu discípulo e pastor Tito também digo: "é preciso fazê-los calar que estão destruindo a lavoura do Senhor". 

Muitos pastores que temem o esvaziamento de suas congregações, e por isso acabam por se calarem e não questionam estes "meliantes-da-fé" porque possuem grandes audiências e estão na Mídia. A estes também, a palavra de Cristo é "convertam-se a mim de todo o coração e com suas obras". 

Enfim, o que Cristo nos fala é de que devemos lutar contra os falsos profetas das últimas horas, pois se puderem, enganarão até os eleitos. Estamos vivendo o Apocalipse há muito tempo. 

A fraqueza e a covardia de muitos pastores se dá porque vivem um déficit teológico, litúrgico e de vida de oração pessoalmente e nas igrejas. São meros executivos da fé, tentando encher suas igrejas, na busca de se manterem nas lideranças de suas congregações e em nome do "amor", aceitam um evangelho "ególatra", antropocêntrico, sem as máximas do verdadeiro discipulado. 

Seguir a Cristo é seguir a graça, mas jamais abandonar a justiça e a prática do arrependimento. Um evangelho que não produz metanóia (mudança de mente), mas somente vive do discurso é um evangelho satânico travestido de religiosidade, coisa que o Apóstolo São Paulo já advertia aos Gálatas (Gl 1.8). 

Necessitamos juntar os verdadeiros, os que lutam pela fé pois há muitos dissimuladores. Aparentemente são iguais, mas sua essência e natureza são diferentes.

A igreja precisa de conversão!


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ENTENDENDO O CRESCIMENTO NATURAL DAS IGREJAS LOCAIS


O propósito de o Espírito Santo conceder dons espirituais é capacitar os discípulos de Jesus ao serviço de uns para com os outros, mas isso não significa que esses dons não possam ser usados juntamente com os talentos e habilidades pessoais em prol da missão de Deus na sociedade (I Co 14.12). É bom lembrar também que os dons espirituais embora descobertos e exercidos podem cair em estado de inatividade, por determinados períodos de tempo, ou deixar de serem usados em prol da causa de Cristo, mas nunca podem desaparecer na vida de alguém (II Tm 1.6).

Todos os cristãos, possuem pelo menos um dom espiritual (I Co 12.7,11,18), mas para exercê-los de modo eficaz o amor "ágape" é o elemento essencial para fazer valer a atuação do Espírito Santo e da graça (I Co 13 e Gl 5.22). 

Numa comunidade há pessoas diferentes umas das outras. Assim como no corpo humano há órgãos desempenhando funções diferentes, também no Corpo de Cristo, os membros, possuem capacidades diferentes, dadas por Deus, para edificarem uns aos outros. Alguns FAZEM, outros OUVEM, outros OBSERVAM e alguns FALAM. Há aqueles que ENCORAJAM, outros PENSAM, analisam objetivamente uma situação e dão respostas. Há alguns que INTERCEDEM frequentemente pois são eles capazes de se lembrar das necessidades dos seus irmãos. Outros DIRIGEM pois lideram as diversas áreas dos serviços. Alguns AMPARAM, estão sempre por perto quando alguém está deprimido. 

Para o cristão há três palavras de ordem neste caso: DESCOBRIR, EXERCER E DESENVOLVER os dons. Mas há quem pense erroneamente. Por exemplo há alguns depreciam o próprio dom com um sentimento de inferioridade ou diminuem o dom de outros com o sentimento de superioridade. Outros simplesmente agem passivamente sem o ânimo de descobri-los. Alguns exercem ofícios na igreja, em desarmonia com o seu dom espiritual. O dom recebido deve indicar o ofício ou o cargo a ser preenchido. Alguns outros acabam por valorizar em demasia um dom. E há também aqueles que se concentram nos dons e não no Doador.

Uma igreja verdadeiramente cristã, só é vista pelo Senhor como Corpo de Cristo, quando a mesma age como um organismo vivo, que glorifica a Deus quando descobre e exerce de maneira integral através de seus membros, os ministérios com os dons outorgados pelo Espírito Santo. A igreja para crescer como Corpo depende de cada um, quando temos certeza de nossos dons, naturalmente nos esforçamos por praticar e desenvolve-los como simples servos de Cristo. 

Ajuntamento de de pessoas não é o indicador para medir se uma igreja está crescendo. É na prática dos dons e talentos em favor dos outros é que vemos quando uma comunidade está amadurecendo e sendo relevante onde ela está plantada, de maneira natural.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

CRESCIMENTO NATURAL DA IGREJA I

É essencial que entendamos que cada cristão, em cada igreja local, recebeu de Deus algumas capacidades espirituais especiais para cumprir seu ministério. Chamamos esta capacidade de dom espiritual (I Cor 12.7,11,18). Além disso, a Palavra de Deus afirma que o propósito de cada pastor e presbítero é cuidar do seu povo, como um pai faz com seus filhos (I Pe 5.2-4). Quando falamos dos líderes da igreja local uma das suas características é sobre sua capacidade de liderar não apenas a igreja como sua família. Mesmo sendo constituídos por homens, e sujeitos a queda, a autoridade final em autoridade não é o Conselho, mas Cristo como cabeça. (Ef 5.23). O Espírito Santo deve ser reverenciado por meio da liderança espiritual daqueles que estão exercendo as funções como um bispo ou presbítero. Mas há necessidade de que estes sejam pessoas maduras segundo a Palavra de Deus (I Tm 3.4-5).

Outra verdade que devemos ressaltar, é de que pequenos grupos que se reúnam para compartilhar, são tão importantes como o culto de domingo no templo. Encontramos na Confissão de Fé a seguinte afirmação: “Agora, sob o Evangelho, nem a oração, nem qualquer outro ato do culto religioso é restrito a certo lugar, nem se torna mais aceito por causa do lugar em que se ofereça ou para o qual se dirija, mas, Deus deve ser adorado em todo o lugar, em espírito e verdade, tanto em famílias diariamente e em secreto, estando cada um sozinho, como também mais solenemente em assembleias públicas, que não devem ser descuidosas, nem voluntariamente desprezadas nem abandonadas, sempre que Deus, pela sua providência, proporciona ocasião” (CFW XXI, 6). 

Em matéria de fé, devemos olhar como Deus olha, pois o seu agir por meio do Espírito Santo não está reservado a dias e horas, mas segundo a sua livre iniciativa na vida das pessoas, seja em um espaço como o templo, bem como nas casas, e lugares até mesmo pouco ambientais para o serviço religioso (At 2.46; 5.42; Jo 3.8).

Com relação a pregação na igreja a Bíblia nunca ensinou que o tipo correto de pregação na Igreja, deve ser evangelística, até porque não existe um tipo específico de pregação. (I Tm 4.13-16). O ensino fiel das Sagradas Escrituras é a fiel exposição das Escrituras. Por isso, devemos ter uma visão correta para o que deve ser o serviço de culto. Através da livre iniciativa do Espírito Santo, Ele regenera por meio das Escrituras, mesmo quando não intencionamos “converter” as pessoas. 

A maior prova de que alguém é um verdadeiro discípulo de Cristo é a de que esse vive em comunhão com outros e se importa com pessoas. No que se refere a devolver o dízimo na igreja e a fazer ofertas, isso torna-se uma questão de fé, e deve ser observável, tanto quanto essa pessoa se torna fiel em manter a comunhão uns com os outros. (João 13.34-35 e I João 1.7)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Despeço-me do culto espetáculo


O mundo sofre... 
Crianças gemem e morrem. Diante dos horrores da história, abandonei a pretensão de ser abençoado. 

Qualquer prece, com um mínimo de senso ético, deve considerar os mais sofredores. Quem se atreveria a furar a fila da bênção onde esperam africanos exilados e haitianos sem-teto? Um Deus que dispensa bênçãos, prioritariamente, sobre quem tem olhos azuis não merece a atenção de ninguém. Repetir que ele é uma divindade irada, sempre pronta a castigar, não mete medo, apenas aversão. Se existe um Deus que na hora de distribuir maldições começa pelos mais miseráveis, ele deve ser tratado como um demônio. Não desejo continuar com uma fé que espera milagre de um Deus tribal. A divindade que fazia chover apenas no quintal dos seus queridos, não faz sentido para mim. A noção primitiva de um Deus que afugenta gafanhotos quando vê obediência e que destrói plantação e causa fome diante do erro, não me seduz. Benção e maldição retributivas não condizem com o amor gratuito de Deus em Jesus. Deus jamais se valeria do papel do bedel indignado que abandona bilhões à míngua.

Sem instrumentalizar a espiritualidade, desejo transubstanciar fé em ações; desde o silêncio contemplativo, cumprir a missão de incluir o marginalizado, valorizar o desprezado e cuidar do esquecido. O seguimento - do verbo seguir – de Jesus nasce de corações calmos. Um cristianismo existencial se tornou a melhor expressão para a minha piedade. Noto que liturgias centradas em emocionalismo desmerecem a tradição profética dos dois Testamentos. 

Desde Isaías, cultuar só tem sentido se a justiça é protegida. Deus não tolera ajuntamentos e cerimônias autocentradas. Fazer culto para buscar o seu favor agride os céus. A verdadeira adoração disponibiliza pessoas para cuidar de órfãos e de viúvas. A verdadeira religião, segundo Tiago, consiste em cuidar dos mais esquecidos. Qualquer verticalização de louvor só tem sentido quando promove a horizontalização do serviço. Espiritualidade cristã autêntica reconhece Deus no rosto do pobre, do nu, do faminto, do desterrado. Tudo o mais não passa de individualismo travestido de religião piegas.

Despeço-me do culto espetáculo. 

Não quero estar em ambientes frenéticos. Anseio por reuniões que celebrem a graça sem paranóia, sem alguém tentando infundir culpa. Quero participar de comunidades leves, sem a afetação do glamour do mundo; uma igreja onde os sorrisos sejam gratos e os abraços, sinceros. O caminhar de Jesus não combina com espaços espetaculosos. Os valores do Reino prescindem dos holofotes.

Juliano Fabricio