terça-feira, 16 de setembro de 2014

DEVOÇÃO E ESPIRITUALIDADE NA FORMAÇÃO MINISTERIAL

Há um diagnóstico extremamente sério na formação pastoral e missionária. Nos últimos anos, 71% dos missionários enviados para campos transculturais têm abandonado o campo por razões que poderiam ser evitáveis. No caso do Brasil o índice é de quase 25%.[1] Na área de formação teológica e pastoral, há que se notar um número excessivo de teólogos que congestionam os Concílios Eclesiásticos a fim de buscarem a ordenação e um campo de trabalho pastoral. 

Em conseqüência disso, não somente a tarefa missionária fica prejudicada, mas os missionários envolvidos que não perseveram e abandonam seus campos, caem em crises profundas, desde a frustração pessoal como o abandono da igreja. 

O início do século XXI revela novos moldes do cristianismo evangélico ocidental. A liturgia como de praxe, tem sido o cartão postal das mais variadas igrejas locais, ao mesmo tempo em que estas têm sido invadidas por um formato cultural cada vez mais veterotestamentário. “O Deus da Bíblia se manifesta através de lugares e pessoas ungidas”, dizem os profetas atuais. 

Os fundamentos bíblicos revelam que a adoração ou o que será denominado neste trabalho de devocionalidade é o agente motivador e alimentador da missão. Ela leva consigo mesma os princípios que fazem parte da credenda e também de sua agenda. Pode-se afirmar que a respeito de sua credenda, há uma íntima ligação com a formação de seus líderes, pastores, ministros e missionários. 

Corroborada à formação ministerial, a idéia triunfalista e de “sucesso de mercado” têm sido estimulada e desenvolvida. Essa realidade tem se refletido em muitas escolas teológico-missionárias, e os estudantes às missões e candidatos ao ministério não têm sido uma geração ensinada a perseverar, a despeito de problemas que são encontrados no campo. [2]

Esta situação tem gerado uma profissionalização do púlpito e ao mesmo tempo um retorno precoce de missionários dos seus campos. Nunca o espírito megalomaníaco atingiu tanto as igrejas como nos dias de hoje. Esse espírito tem sido mais importante do que as pequenas e singelas coisas a serem trabalhadas e nutridas no seio das igrejas locais. 

Projetos monumentais e a criação de “castelos feudais eclesiásticos” têm sido a motivação de muitos líderes religiosos. Os termos utilizados pelos que defendem os Movimentos de Crescimento de Igrejas incluem não somente a nomenclatura “Grandes Igrejas”, mas atualmente também “Mega-Igrejas”. A missão tornou-se um fim em si mesma e na grande maioria, projetos missionários a longo prazo são descartados, devido ao imediatismo e aos mega-projetos personalizados em seus “mega-líderes”. Grandes templos, grandes perspectivas, grandes “poderios” e “castelos eclesiásticos” nunca representarão um compromisso com o Reino de Deus. 

A preocupação exagerada com o local pode fazer esquecer a pregação a todas as nações. Ainda em 1947, o Conselho Missionário Internacional reunido em Whitby afirmava que “a missão precisa ser vista não com um sentimento imperialista, mas com o espírito de solidariedade ao mundo”. [3] Isto significa que o problema da missão é resultado de uma equivocada visão do que seja espiritualidade e ou devocionalidade. Onde a missão não seja opressora e sim libertadora, transformadora e redentora.

Aqui, deve ser relatado que a firme busca por uma devoção a Deus poderá, se o foco da devoção, for desviado, uma devoção à denominação. As buscas, os encontros, os cultos, os movimentos e eventos, se tornarão um reflexo de uma devoção à igreja local, ao evento em si, aos programas e aos departamentos nela existentes. 

Ao tratar sobre este tema, David Bosch, faz uma crítica ao distanciamento entre a igreja e a missão, dizendo:

“A fundação da igreja e o início da missão coincidem no livro de Atos em seu capítulo dois. Missão era a missão da igreja e igreja era a igreja missionária. No decorrer dos tempos, contudo, uma congregação atrás da outra foram estabelecidas e desenvolveu-se uma tendência para concentrar-se em seus problemas paroquiais e negligenciaram o relacionamento da igreja com o mundo.[4]

Assim há questões que são importantes, mas outras que são essenciais. A devocionalidade é essencial. Sem ela, a igreja perde a sua “salinidade” como “sal da terra” e sua “luz” torna-se mera “luz de um tição tirado do fogo”. 

Portanto o espírito devocional deve ser a mola propulsora da missão da igreja no mundo por meio dos mais variados ministérios. Para tanto, as Escrituras Sagradas são o fundamento para que a devocionalidade seja redescoberta no meio da formação ministerial. 



1. A relação entre a devoção e a missão na formação ministerial. 

O Antigo Testamento trata do caráter fenomenológico da adoração que permeia toda a Escritura. Mas é nos Salmos que esta visão se torna mais concreta. O povo de Israel falava a Deus por meio dos Salmos. Não somente enaltecia a Deus e as suas obras, como também recebiam forte impressão acerca do domínio universal de Deus e sua Soberania. Além disso, Israel como povo escolhido e também como nação sacerdotal deveria responder a Deus sinceramente tanto quanto conhecesse a amplitude de sua Soberania. Timóteo Carriker comenta assertivamente:

“E nesta resposta de Israel a Deus e ao mundo encontraremos grande significado missiológico, já que missão implica não só no discurso do povo de Deus com o mundo, mas numa tríade entre Deus, o seu povo e o mundo. A missão do povo escolhido encontra sua relação eficaz com o mundo à medida que responda sincera e pessoalmente a Deus.” [5]

A devocionalidade que deve ser vista como o relacionamento pessoal com Deus e porque não dizer com toda a Trindade Santíssima. Mas algo que compromete a hermenêutica é a confusão de vários intérpretes bíblicos com respeito à devoção. Pois a tendência é negar a vida de devoção pela ênfase na obediência pelas obras. A nação de Israel conhecia o Deus transcendente porém aparentava algo mais impessoal. Brennan Manning afirma a este respeito: 

“Israel conheceu um Deus santo, que transcendia a tudo que era visível e tangível. Ele era de certo modo refletido em coisas, mas não deveria ser identificado com coisas. Êxodo retrata Deus como estável e interessado, uma rocha de confiabilidade em meio a tantos dependentes. Os judeus relacionavam-se, dessa forma, com um Deus-aliança que havia tomado a iniciativa do contrato, que havia falado em primeiro lugar, que havia gerado Israel como nação e dado a ela um senso de identidade. Nesse estágio primitivo de relacionamento, o Deus de Israel era calmo, até mesmo frio. Qualidades como interesse, fidelidade e estabilidade eram apreciáveis, mas a ternura e a radiância não haviam aparecido. Iavé era como a Rocha de Gibraltar diante dos ventos de mudança. Ele possuía um rosto, mas era uma fisionomia impassível, com um toque de benignidade... não havia extravagância em Iavé. Ele era firme, justo e digno de confiança. Confiabilidade implacável”.[6]

Porém no Novo Testamento, a forma da devocionalidade se transforma em carne, sangue e ossos. A encarnacionalidade do verbo é o primeiro momento onde vê-se o Filho Unigênito deixando sua glória e abdicando de seu status. Aqui o Deus-Iavé vem ao encontro do homem em cheiro e suor. O relacionamento agora deixa de permanecer na base da obediência para depender exclusivamente da graça, do amor, da livre-iniciativa de Deus. A relação entre Deus-homem com a humanidade no pecado toma nova forma. 

É Deus mesmo que ensina ao homem o que é espiritualidade e desenvolve a visão de uma devocionalidade que extrapola as idéias paradigmáticas de tempo, espaço e liturgia. Jesus envolve-se com todos e deixa-se ser adorado por todos. 

Foi em um contexto de adoração que a Igreja Primitiva recebeu a plenitude do Espírito Santo para proclamar as boas novas (At 4.23-31). Foi em um ambiente de adoração que a Igreja de Antioquia da Síria separou a Paulo e a Barnabé para a obra missionária (At 13.1-3). Quando o apóstolo trata sobre a questão de culto entre os Coríntios, ele também envolve descrentes no contexto e demonstra que a mensagem pregada deve ser inteligível aos ouvidos dos incrédulos (I Coríntios 14). Enquanto Paulo e Barnabé estavam adorando e louvando, Deus permitiu a pregação ao coração do carcereiro de Filipos após o terremoto. (Atos 16). 

Os evangelistas também fazem questão de enfatizar a adoração, partindo do pressuposto que, embora Deus fosse trancendente, não deixava de receber a adoração de “todos” os homens e mulheres, que segundo o ponto de vista farisaico, eram gentios e indignos de se achegarem a Deus. Isso, o evangelista Lucas relata ao tratar sobre a mulher que ungiu os pés de Jesus em uma ceia na casa de uma fariseu.[7]

A devocionalidade envolve a pergunta: “Como ser aceito por Deus?” E também durante toda a história a resposta foi sendo formada a idéia de que existem pessoas classificadas como “privilegiadas por um acesso a Deus”. O tempo de Jesus é marcado por esta realidade: Os fariseus eram detentores das condições ideais para adorarem a Deus. Aqui é o grande perigo de uma devocionalidade altamente discriminadora e preconceituosa na formação missionária e teológica. O Pr. Edwinn Orr afirma: Centenas de cristãos, bem intencionados, que assistem convenções e conferências e tentam aprofundar a vida religiosa, regozijar-se com a graça que lhes foi dispensada, rapidamente caem na mesma vida de derrota espiritual porque não há uma completa e permanente compreensão e consagração da devoção pessoal a Deus. [8]

No caso do contexto bíblico supra-citado a “notável pecadora”, estava desprovida de riquezas e do ponto de vista religioso, desprovida de toda e qualquer condição para se fazer presente entre os “espirituais”. A palavra de Jesus esclarece e demonstra que somente ela, na verdade, possuía as condições ideais para a verdadeira devoção.

Esta mulher era digna de adorar porque reconheceu honestamente a Cristo como verdadeiro Deus. O texto afirma: “...estando por detrás, aos seus pés...”. Jesus era mais valioso que sua situação cultural, religiosa e social. (Hb 10.19-22). Embora, sua presença não fosse bem vinda na casa de um alto religioso, dotado do “conhecimento de Deus”, aquela mulher não estava preocupada com o cinismo do mesmo. Pelo contrário ela se coloca na posição de uma adoradora. Além disso, a sua devoção revelava um quebrantamento sincero. Seu quebrantamento foi marcado por rendição, reverência e humildade. Quebrantamento se constituiu da quebra de paradigmas além do estilo habitual de se adorar. Quebrantamento significa sinceridade que brota de um coração cheio de fé. Quebrantamento reflete o quanto se ama a Cristo. 

Sua devoção achou resposta da parte de Cristo. Ela recebe a restauração de sua vida. Jesus corresponde a sua manifestação de amor. Jesus perdoa os seus pecados, referenda a sua salvação, e a cura de todos os traumas e frustrações emocionais, sentimentais e familiares que possivelmente ela deveria ter absorvido por toda sua vida. 

Portanto, não há missão sem verdadeira devoção. Em contraste com nossos merecimentos, está o reconhecimento de que somente Cristo é o verdadeiro Deus. Isto destrona nosso ego e coloca no centro de nossa vida a Cristo como Senhor. Não pode haver verdadeira adoração se não houver verdadeiro quebrantamento, plena submissão, entrega de sentimentos armados, espírito endurecido. (Sl 51.16,17). 4) O alívio do perdão, a certeza de salvação, e a cura de doenças emocionais somente podem acontecer quando Cristo responde a nossa fé manifestada por esses princípios.

Ora é imprescindível que adoração e missão andem juntos. Orlando Costas declara: “Missão é a comunicação e a antecipação da adoração... Liturgia sem missão é como um rio sem uma fonte. Missão sem adoração é como um rio sem o mar... Sem um, o outro perde sua vitalidade e seu significado”.[9] lindas metáforas

E John Piper complementa: “Adoração, portanto, é o combustível e o alvo em missões. Ela é o alvo de missões, porque em missões, nós tentamos trazer as nações para dentro do gozo supremo da glória de Deus. O alvo de missões é a alegria dos povos diante da grandeza de Deus. Mas adoração também é o combustível de missões. Paixão por Deus na adoração precede o que Deus oferece na pregação. Você não pode recomendar o que não é valorizado. Missão começa e termina em adoração”.[10]

É altamente importante que seja aqui tratada a crise por que passa o treinamento e formação teológicos. Não se deve negar que a igreja bem como as escolas teológicas absorvem fortemente a idéia da Teologia da Prosperidade. A relação com Deus é diluída em barganha em nível material e físico. A idéia de Deus é repassada como o deus que tem a obrigação de suprir ao seu filho todas as suas necessidades materiais e físicas. A oração então, passou em ser uma mera ferramenta para um relacionamento frio, tal qual a nação de Israel provava. Esta realidade tem sido a base de formação de novos pastores, ministros e ministras do evangelho na maioria das denominações evangélicas na América Latina. 

Portanto, fenomenologicamente, o caráter adorativo está intimamente relacionado com a obra missionária, suas causas e suas conseqüências fazendo parte inerente da formação ministerial. 


2. Discernimento para uma espiritualidade criativa

Ao avaliar a prática da igreja contemporânea, embora exista uma avalanche de louvor e música na Igreja está aquém do compromisso com uma missão integral e global. O quanto e o como se canta para Deus é inversamente proporcional ao quanto e o como de faz pelo mundo sem Deus. Ademais da comercialização da música, a igreja adora pouco e canta muito para Deus. 

A pobreza na vida devocional da igreja, produz a pobreza na devoção ao mundo. Quanto mais corretamente fala-se a Deus, tanto mais a Igreja se comprometerá com o mundo na perspectiva de proclamar às nações para que elas também ofereçam sua oferta, uma vez santificada pelo Espírito Santo (Rm 15.16-18).

A adoração tem deixado de ser cristocêntrica para tornar-se antropocêntrica. A devoção a Deus não deve ser esquecida na adoração. 

John Piper assevera: Quando a chama do culto queima com o calor da verdadeira dignidade Deus, a luz da obra missionária brilhará até os povos mais distantes da terra. [11]

E Carriker acentua: Quando a paixão por Deus está fraca, o zelo por missões certamente será fraco também. As igrejas que não exaltam a majestade e a beleza de Deus dificilmente poderão acender um desejo efervescente para "anunciar entre as nações a sua glória" (Salmo 96.3). Os nossos cultos fervem com a exaltação da glória de Deus? O zelo pela glória de Deus no culto motiva a obra missionária. [12]

Para que a missão da igreja não seja interrompida e nem mal interpretada há necessidade de mover os olhos e o coração a Deus. É interessante notar o que Carriker declara: 

Se fosse pelo amor do ser humano, nossa ênfase deveria estar na salvação de indivíduos que estão próximos, e isto, de fato, é a prática comum. O amor a Deus, entretanto, leva a outra conclusão, que acredito ser a bíblica: a ênfase na prioridade de etnias, e especificamente etnias não alcançadas porque: 

1) há mais beleza e poder de adoração na unidade de culto derivada da diversidade de povos que canta todas as partes dum hino a Deus do que no coro que canta uníssono (Salmo 96.3-4); 

2) a fama, a grandeza, e o valor dum objeto de beleza aumenta na proporção da diversidade daqueles que reconhecem tal beleza; 

3) a força, a sabedoria e o amor dum líder se magnifica na proporção da diversidade de povos que ele inspira para segui-lo; 

e 4) ao focalizar todos os grupos humanos do mundo, Deus está subvertendo o orgulho etnocêntrico que se baseia em alguns atributos distintivos que cada povo gosta de destacar. Ao invés disto, o orgulho etnocêntrico natural de cada povo dá lugar à graça imerecida de Deus.[13]

Portanto, ainda que a adoração esteja em crise, não pelo aspecto litúrgico cultural, mas por causa dos princípios a ela atrelados, deve-se entender a missão e adoração desvinculado de uma vida liturgia. No Novo Testamento, a vida é liturgia e liturgia é a vida. 

Os mais necessitados do ponto de vista da adoração são os que ainda nunca ouviram falar sequer o Evangelho do Reino. Os não alcançados devem ter prioridade na missão. O lema de Paulo é "não onde Cristo já fora anunciado" (Rm 15.20-21). A Igreja deve repudiar o culto antropocêntrico e os princípios que não resultam em compromisso de vidas com a obra integral da Igreja. 

Neste caso a formação ministerial têm uma grande responsabilidade. Deve-se forjar nos alunos uma devoção que está vinculada a adoração, ao culto,e ao mesmo com a vida cotidiana, os afazeres, as atividades chamadas de “seculares”. Pois tudo envolve um culto a Deus. 

As escolas teológicas ensinam em sua maioria uma espiritualidade voltada para os fariseus do século XXI, desprovida da vida de alegria, de graça e de energia. Há uma espiritualidade mais esotérica do que propriamente bíblica nos seminários teológicos.

Portanto, ao buscar a preservação da adoração bíblica, os seus professores de “liturgia e hinologia” e de “homilética” deverão ter a responsabilidade de preservar os princípios da verdadeira adoração, ensinando uma liturgia integral para que a igreja respondendo sinceramente a Deus, assim também responderá às necessidades da sociedade por meio daqueles que receberão o evangelho da graça de Deus.

3. Missão e Devoção: um ciclo retroalimentador. 

Para compreender um pouco mais sobre a visão de uma espiritualidade que envolva devoção e missão, há de ser usado o modelo franciscano. As ordens mendicantes foram a busca pela vida que se confunde com a devoção. Aqui a adoração se mescla com a vida de ministério.

O monasticismo e as ordens mendicantes são termos estranhos à cultura evangélica atual, como também para o contexto teológico a que se está tratando. Contudo, é desafiador enquanto se caminha pela história das missões, estudar mesmo que não exaustivamente este momento histórico por que passava a Igreja Cristã. O momento que a Igreja Cristã estava vivendo gerava aqui e acolá, movimentos que tentavam reformar a Igreja, para que esta voltasse ao rumo ideal, sob as máximas do Evangelho do Reino e ao mesmo tempo aos pés do Senhor Jesus. 

O monasticismo conquanto um grande movimento missionário em séculos passados, estava neste momento histórico em crise. A igreja cristã, seguramente envolvida pelo caos espiritual, político e social, embriagada pelas “pompas e circunstâncias”, fechava os seus olhos para as reais necessidades do mundo como a miséria galopante que dizimava populações inteiras. Os movimentos intra e extra eclesiásticos eram “pedras que clamavam” a igreja o retorno a sua natureza missionária.

Valdir Steuernagel dá uma excelente definição sobre este momento e auxilia a compreensão sobre as Ordens Mendicantes. Afirma ele: 

O monasticismo tem a sua história composta pela experiência de milhares de cristãos que desde muito cedo na história da Igreja desenvolveram um modelo de vida solitário e separatista. Vivendo de forma ascética e alimentado pelas fileiras leigas da Igreja, este movimento, que cedo formou os seus próprios monges e constituiu as suas próprias e poderosas comunidades monásticas, desempenhou um papel fundamental na vida da Igreja. [1]

Conquanto fosse também um movimento, conhecido como um tipo de “para-eclesiástico”, o monasticismo pregava uma atitude excludente da sociedade. Se houvesse uma procura pelos monges, eles estariam, com certeza, entre as cavernas e os mosteiros, separados fisicamente do mundo, buscando uma espiritualidade contemplativa, uma devoção que não envolvia o semelhante, mas era algo muito individualista.

O movimento mendicante, enquanto mantinha os mesmos ideais das ordens monásticas, sua visão era muito mais ampla, como explica Steuernagel:

Mas o movimento mendicante vai além do monasticismo e introduz na decadente igreja uma nova maneira de conceber a vida cristã. O ideal cristão não deveria ser apenas a reclusividade monástica. Este tem um intrínseco caráter missionário e é intestinamente comunitário. Enquanto o monge dizia “viva como se estivesse sozinho com Deus neste mundo”, o frade, símbolo do movimento mendicante, dizia “viva como se você existisse apenas em função dos outros”. O frade já não foge ao deserto pelo deserto, ele invade a cidade, abraça o pobre e prega o evangelho.[2]

Portanto naquele momento, o movimento mendicante era uma tentativa de recuperar a missão da igreja pela devoção a Deus e o amor ao próximo, vivendo no meio de uma sociedade em crise, envolvida por grandes transformações sociais.

O surgimento das ordens mendicantes, dos Franciscanos, fundada por Francisco de Assis (1182-1226) e dos Dominicanos, fundada por Dominic de Gusmão (1170-1221), formaram um clamor para a recuperação da natureza missionária já diluída. Além disso, estes movimentos puderam lançar luz sobre a necessidade de uma reforma missionária na igreja. 

Para os mendicantes, espiritualidade era uma questão de estar engajado na missão ao mundo. No caso de Francisco de Assis, a idéia de espiritualidade se confundia com a devoção aos outros, a ternura para com os pobres e o respeito pela natureza como parte da criação que também deveria ser redimida. 

A igreja cristã necessitava ser restaurada em sua missão, por meio de uma reforma das suas motivações e de seus objetivos. As ordens mendicantes também radicalizam com seus objetivos. Os Dominicanos levavam a sério o ideal missionário que chegavam a estar prontos ao martírio foi para com seu maior expoente, Raimundo Lullo, missionário na Tunísia e Argélia, morrendo apedrejado nesse país. 


CONCLUSÃO

Assim, a igreja que é a fonte incrementadora de ministérios será a igreja missionária e aquela que gera e desenvolve ministérios de maneira que a espiritualidade é reconhecida como reflexo de um ministério sadio e verdadeiro. Todos os cristãos serão os “chamados”, serão considerados “ungidos” e valorizados igualmente. A igreja que vive sua missão ao mundo consagra os seus missionários, profetas, evangelistas, mestres, tanto quanto ordena seus pastores.

O déficit ministerial na Igreja será minimizado. Os missionários e pastores terão motivação para perseverar no campo. O caso é que muitos têm fracassado ministerialmente porque não têm aprendido a prevalecer. Isso porque tanto orgânica como espiritualmente a igreja não trata seus missionários e pastores no mesmo nível. 

A vida ministerial e a espiritualidade atingirão o púlpito, que atingirá a liderança e a visão ministerial deixará de ser privilégio apenas para alguns. A visão demoníaca de expandir ministérios personificados em mega-projetos acabará. 

Esta condição que vive a Igreja contemporânea é resultado da diluição de sua natureza missionária deixando-se ser seduzida pelo estilo de vida do mundo. Há uma concorrência denominacional e ministerial não somente entre igrejas, mas também entre pastores. O estilo de marketing tem sido absorvido, mesmo que inconscientemente pelos ministros, levando a uma superficialidade do que seja vida de discipulado em Cristo e cooperação na obra de Deus. Frank Dietz fala corretamente sobre o assunto: 

Os missiólogos nos ensinam que a primeira onda missionária foi iniciada com Guilherme Carey e liderada principalmente pelos europeus. A segunda onda surgiu com Hudson Taylor e foi liderada principalmente pelos norte-americanos. Uma das coisas que foi definitivamente exportada pelo ocidente para o terceiro mundo foi o espírito de competição. Se é verdade que esta terceira onda de missões será liderada pelos dois terços do mundo, então é muito importante que exorcizemos esse demônio de competição.[14]

Assim, é altamente importante que a igreja evangélica resgate esta devocionalidade e não somente o conhecimento teológico. Pastores e missionários que vejam a missão como adoração e a adoração como missão. Eis a realidade, eis o desafio.

Soli Deo Gloria

BIBLIOGRAFIA
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Notas:
[1] Margaretha N. Adiwardana, Treinar missionários para perseverar: um preparo holístico para situações de adversidade, em: Capacitando para missões transculturais, (São Paulo: APMB, 2000), 5. 
[2] Margaretha Adiwardana, Missionários: preparando-os para perseverar (São Paulo: Editora Descoberta, 1999), 26. 
[3] David J. Bosch, Witness to the World. (Atlanta: John Knox Press, 1980), 176. 
[4] Id, 95. 
[5] Timóteo Carriker, Missão Integral,(São Paulo: Editora Sepal, 1992), 102. 
[6] Brennan Manning, O evangelho maltrapilho, (São Paulo: Editora Textus - Mundo Cristão, 2000), 101. 
[7] Evangelho de São Lucas 7.36-50 
[8] Extraido das notas de sermões do Rev. Samuel Falcão, ex-professor e ex-diretor do Seminario Presbiteriano do Norte, em Recife, PE, Brasil. 
[9] Orlando Costas, The integrity of Mission (New York: Harper & Row, 1979), 91. Texto citado por Ricardo Agreste, em A natureza e propósito missionário do povo de Deus. 
[10] John Piper, Let the Nations be glad, (Grand Rapids: Baker Books, 1993), 11. 
[11] Id.,12. 
[12] Timóteo Carriker, A missão Integral da Igreja, (Campinas: 1999), 1. 
[13] Id., 04. 
[14] Frank Dietz, Ministros de Cristo no Século XXI, (São Paulo: ABBA Press, 1995), 96. 



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