sábado, 31 de maio de 2014

PRECISAMOS DE UM VERDADEIRO AVIVAMENTO DO CORAÇÃO (II)



Precisamos de um avivamento do coração QUANDO NÃO PRATICAMOS A ORAÇÃO INCESSANTE. A crise que vivemos constata que os cristãos não oram mais. Neste caso precisamos voltar a definir o que seja oração para que possamos entender tal afirmação. Na época da Antiga Igreja Cristã a oração foi desenvolvida fortemente pelos conhecidos “Pais apostólicos” e pelos “Pais do deserto”. Foram homens e mulheres que chegavam à conclusão que a vida deles não fazia sentido se não vivesse um relacionamento profundo e intenso com Deus. Tanto é que a palavra “teólogo” significava para aqueles dias “aquele que ora”, significando que aquele que orava possuía um profundo senso e conhecimento da Divindade. Sendo assim na época da Igreja Antiga, orar significava conhecer a Deus profundamente e viver intensamente a vida de Deus. Portanto, orar a Deus possui aspectos que extrapolam o racionalismo do que se define hoje por orar. Muitos pensam que orar é uma conversa com Deus como se fosse um “bate-papo”. Falamos de um lado, ele escuta do outro, reclamamos por alguma coisa e ele quando se quiser reponde ou não. Quando nada acontece, quando Ele não nos “responde”, pensam outros é porque não usamos as palavras corretas. Temos que dizer as “palavras-chaves” senão Ele não nos ouvirá e nem responderá a nossa súplica. Alguns outros aceitam a oração como uma barganha. Se formos fiéis a Deus ou estivermos “quites” com Ele, ele nos ouvirá e nos responderá de acordo com a nossa vontade. Enfim há uma série de condições impostas pela igreja institucional e pela popularidade religiosa sobre a oração. 

Quando afirmo que os crentes não oram mais, quero dizer que a oração tornou-se uma prática com muito palavrório, muita verborragia, muita falação. As reuniões de oração ou cultos de oração tem se caracterizado pelos discursos sobre Deus. Há muita gente que fala “sobre” Deus e não fala “a” Deus. Vivemos um deserto no que se refere a isso. Muitos estão concorrendo a reuniões de oração onde se pede muito e se suplica muito, onde há muita gritaria e histeria, mas pouca oração. Pessoas entram em transe, supondo que estão elas cheias de Deus, mas na verdade estão cheias delas mesmas. Deus nem se faz presente embora seja seu nome seja muito usado, mas aí Deus nem está. Perdemos o senso de um Deus que deseja se relacionar conosco e começamos a achar que Deus é bom por que é um “deus-feito-segundo-nossa-idéia-consumista”. 

Também percebo que os crentes não oram por que os seus pastores nunca oram e nem ensinam suas ovelhas a orar por que não sabem o que é isso. Vivem de eventos e de um ativismo inócuo, sem resultantes para a vida. São meros executivos de uma “empresa eclesiástica” que se autodenomina “igreja”. Este caso isso tem se tornado um círculo vicioso. Os pastores não sabem orar porque também em seus cursos de teologia nunca os ensinaram a prática da oração. Os Seminários se tornaram escolas de informação e não de formação espiritual. Da mesma forma os líderes da igreja e a própria comunidade os leva a executar tarefas que não envolvem a espiritualidade pastoral de fato e devido a manutenção econômica tais pastores acabam se submetendo ao esvaziamento de uma prática e de uma ação pastoral sem Deus.

Como consequência deste sistema consumista e tirano da vida, afirmo que os crentes não oram mais por que nem dão tempo para a oração, como também não sabem o que é oração incessante a qual o apóstolo Paulo e os Pais da Igreja falavam. As igrejas que se enchem de pessoas para os cultos de oração são na maioria apenas locais para praticas ritualisticas de pedir e clamar como último recurso no desespero da vida. Lotam templos de igrejas majoritariamente conhecidas como “neopentecostais” por que estão desesperadas e quase não há mais nada que fazer.

A oração é um elemento esquecido em nosso mundo ocidental. Embora a Reforma Protestante tenha trazido de volta a Escritura para o centro da Igreja, ela somente permanece no centro se houver profunda busca por Deus. No Oriente, as igrejas ensinadas pelos Pais do deserto, desenvolveram uma visão muito diferente sobre oração. No mundo ocidental, os protestantes somente foram ter uma noção um pouco mais profunda sobre isso quando os movimentos de despertamento espiritual que ocorriam às margens da cúpula da igreja começaram a surgir, pois embora possuíssem a Escritura como centro, o racionalismo cristão que atingiu a igreja no século XVIII transformou a oração em pura ação lógico-verbal. Mas o Pietismo como movimento de reavivamento para a igreja protestante alemã naquela época, foi fundamental a fim buscar a vida piedosa e oração como centro da vida. A Escritura somente possui seu incremento quando alimentada pela oração do coração, de uma piedade segundo Deus, de humilhação e quebrantamento interior.

Carecemos de um avivamento do coração a partir da oração porque o ser humano é um ser “místico”. Entenda-se o que quero dizer com a palavra “místico”. Não fomos criados a partir da matéria apenas, há um sopro divino em cada um, há uma alma que dá sentido a nossa humanidade como pessoa. Deus nos criou como parte de seu Espírito. 

Os antigos Pais afirmavam: “pássaros voam, os peixes nadam e o homem ora”. Isso diziam porque cada ser possui sua natureza. Não é possível ser um pássaro e não voar, se isso não acontece tal ser não é um pássaro. Assim a natureza do homem é a oração. Se não oramos não somos humanos, somos algo diferente, mas humanos com certeza não o somos. Por isso o encontro com o Deus-Homem, Jesus Cristo é inevitável para que o ser humano seja de fato humano e não um monstro. Ele por sua graça e pelo seu amor sacrificial na cruz e sua ressurreição restabeleceu a natureza do homem que lhe é própria. 

Portanto precisamos urgentemente de um avivamento do coração que revele ao ser humano o desejo de viver para Deus utilizando como canal a oração. 

Em primeiro lugar, por isso defendo a oração como um encontro com o Transcendente. Quando digo encontro, entendo que oração não pode e nem deve ser banalizada, nem superficializada como se fosse uma conversa que praticamos com nossa vizinha ou com qualquer pessoa. A oração é encontro com a Divindade. A oração é experiência e não discurso para um “deus-segundo-nosso-pensamento”. Se o assim fazemos, praticamos uma tipo de idolatria onde deus é o elemento que podemos domesticar ou mesmo fazermos dele uma imagem segundo nosso pensamento. A oração é uma prática que transcende o pensamento, a racionalidade ou as ideias mais bem montadas. A oração embora se utilize da razão não se fundamenta no racionalismo. Por isso há necessidade de se entender o encontro como algo empírico, algo que envolva o sentimento, a emoção, o caráter, a personalidade, enfim tudo que somos está envolvido neste encontro. Além disso, nos encontramos com Deus quando desenvolvemos nossos sentidos nesta prática: a fala, a audição, o olfato, o tato e o paladar são sempre envolvidos nisso pois o ser humano é tomado de forma completa e complexa para Deus. O que podemos entender que a oração não é mera verbalização de palavras, mas um próprio culto em si, de maneira individual. Da mesma maneira nossos cultos deveriam ser a coletividade de nossas orações individuais.

Em segundo lugar afirmo que a oração é uma prática de contemplação. Se Deus no Antigo Testamento e Cristo no Novo se deixaram ser contemplados, o Espírito Santo não é diferente para com isso. Ele está presente na contemplação que ocorre dentro de nossos corações. A contemplatividade da oração que muitos acham que seja de “fora para dentro”, desde que o Espírito Santo esteja presente em nós, essa mesma contemplação ocorre de “dentro para fora”. Por isso sabemos que oramos, quando praticamos a contemplação não com apenas olhos e ouvidos carnais mas sobretudo com olhos e ouvidos espirituais. O recôndito que os Salmos nos apresentam é o lugar desta contemplação (Sl 51.6). No interior de cada um de nós podemos vivenciar a prática e a contemplação de Deus que habita “em nosso peito”.

Em terceiro lugar, afirmo também que a oração deve ser incessante. A oração embora tenha um começo, um meio e um fim do ponto de vista dos exercícios devocionais pessoais, ela não cessa quando encerramos os mesmos, sejam eles individuais ou coletivos. Ela se processa na continuidade da vida. Estar em espírito de oração é estar também ligado ao Espírito da oração. Quando os Antigos Pais nos falam sobre isso, vemos que a oração incessante tem que necessariamente nos trazer a comunhão da mente e do coração ligados ao Espírito de Deus. Orar sem cessar é praticar a oração antiga: “Senhor Jesus Filho de Deus, tem misericórdia de mim, pecador”. Tanto mais repetimos esta afirmação, tanto mais ela se fará um canal não meramente de palavras, mas de uma conexão ou uma comunhão de nosso espírito com o Espírito de Deus. Aqui vale a pena revelar que a repetição é tão saudável quanto qualquer palavra repetida de modo consciente. Nosso Senhor ao afirmar que nossas orações não deveriam se assemelhar a vãs repetições, ele certamente está focando que nossas oração não sejam orações mecânicas, inócuas. O problema então não é a repetição mas a vã, a palavra vazia, sem consciência e sem coração. 

Em último lugar, a oração não se fundamenta na lei da “causa e efeito”. Aqui expomos a crise do ponto de vista coletivo e comunitário. Muitos templos vivem cheios de pessoas que suplicam a Deus porque estão orientadas a praticarem orações a um deus que por natureza, pensam elas, nos direciona a lei da “Causa e Efeito”. Esta lei é a grande motivação dos cultos. É a grande chave para que tenhamos templos numericamente cheios. Uma das espiritualidades que mais usa essa lei é a conhecida “teologia positivista ou da prosperidade”. Tanto quanto praticamos esta Lei, tanto mais matamos o nosso espírito e a nossa espiritualidade, como fundamental para nosso relacionamento com Deus. A vida do homem é uma vida de relação de vida com Ele. Não é meramente um pedir e receber, não há vida sem vivermos em relação a Deus. O que temos visto então? Igrejas e crentes que lotam templos para pedir e receber. Isso não é oração. Embora o pedir e receber estejam fazendo parte da prática da oração essas ações não são fundamentais. Se oração é um encontro empírico com o Espírito, se é uma contemplação e tudo ocorre no coração seja por meio dos exercícios devocionais, seja por meio da oração incessante então esta Lei acima referida não existe no propósito do que seja oração como um relacionamento intenso e profundo com Deus.

Portanto, precisamos de um verdadeiro avivamento do coração que possamos descobrir a fome pela oração e oração que sacia nosso verdadeiro relacionamento com a Divindade. Precisamos urgentemente de vida espiritual e esta vida somente pode acontecer se buscar a oração como essência de nossa natureza e não apenas como ritual religioso. Podemos substituir a oração por eventos, pragmatismo, encontros animados e cheios de louvor, porém se não vivermos estes fundamentos como essenciais a nossa natureza, de modo algum estaremos comungando com o Deus verdadeiro e vivendo uma idolatria sem saber que somos tão pagãos quanto qualquer ser humano que nunca possuiu sequer um lampejo da graça gloriosa de Deus.

Kyrie Eleison.

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