sexta-feira, 4 de abril de 2014

EVANGELIZAÇÃO NA IGREJA PRIMITIVA: UMA ANÁLISE

Autor: Michael Green. 
Título da Obra: Evangelização na Igreja Primitiva
Editora: Vida Nova

DESENVOLVIMENTO

Falar de evangelização, após a leitura de “Evangelização na Igreja Primitiva” é olhar para si mesmo e encontrar-se pequeno e superficial. A verdade é que Michael Green consegue expor diante do leitor o tão profundo cristianismo vivido pelos cristãos dos primeiros dois séculos.

Ao iniciar sua obra, Green leva o leitor a compreender a colcha de retalhos do mundo antigo, bem como a realidade cultural, social e religiosa da época. Estes assuntos são primordiais para o entendimento a respeito da expansão do cristianismo nos seus primeiros anos. Seria relevante notar que o autor acentua a importância do background romano, relatando a respeito da tão falada Pax Romana. Além de enfatizar o processo de dominação do Império Romano, vê-se a importância do papel e supremacia de Otávio Augusto, quando da hegemonia de Roma sobre as nações dominadas. Diz Green com propriedade: “As nações cansadas voltaram em gratidão para seu libertador de um século de guerras, e o aclamaram com a maior sinceridade como ‘salvador do mundo’. Mas Roma manteve esta paz sob controle de forma inteligente e nada mais importante era do que manter forças nas bordas de seu império. Este fato gerava uma unidade corporativa de todo o mundo civilizado. Além disso, esta estabilidade se desenvolvia rapidamente devido ao sistema de estradas que não apenas possibilitava rápidos deslocamentos das tropas para um e outro lado, como também facilitava a comunicação escrita através dos correios. Roma também incentivava o comércio e o contato social entre os mais diversificados povos de toda a região. Por estas e outras vantagens a Pax Romana se estabelecia e foi, de fato o ponto marcante para a preparatio evangelica. 

Mas a língua grega também teve sua importância nesta preparação. Green faz uma relação interessante do grego com a língua inglesa contemporânea e distingue inteligentemente entre ambas, mostrando que a língua grega era muito melhor recebida por todo o império do que a inglesa em nossos dias, devido a mesma não estar associada ao imperialismo, como aconteceu no século dezenove, quando a mesma estava relacionada ao colonialismo estadunidense e europeu. Por isto vemos a grande facilidade dos povos absorverem o grego como sua segunda língua, e porque não dizer a língua oficial do império. Além disso, o pensamento grego era inseparável desta. A filosofia e a mitologia teológica fizeram a preparação para o evangelho. O anelo helenístico pela eternidade e ao mesmo tempo a decepção do povo com seus deuses mitológicos cheios de depravação e imoralidade não chegavam a satisfazer a vida espiritual do povo. Platão lançou as bases para uma maior personalidade acerca de Deus usando a figura do demiurgo. Enquanto que Aristóteles via a impossibilidade de uma aproximação do deus com os seres humanos. Isto, Green faz questão de registrar, demonstrando que não somente os romanos pagãos, mas também os gregos, embora politeístas, esperavam num ser transcendente e criador.

Mas é importante notar também, que o cristianismo floresceu em um mundo influenciado de religiões emotivas e cheias de entusiasmo, que se propunham a ajudar as pessoas em seus problemas. Além disso, vamos encontrar uma atração pelos clubes esotéricos e as religiões de mistério. Estas, juntamente com o judaísmo e o cristianismo eram conhecidas como superstitiones. 

Além do pano de fundo greco-romano, o judaísmo foi o grande berço do cristianismo. A religião judaica acentuou a preparação para a expansão e a solidificação da fé cristã. A começar das dispersões do povo judeu desde a queda do Reino do Norte de Israel, até a sua popularização do meio do Império Romano, por causa de seu monoteísmo e seu zelo proselitista. Todo o império romano ficou impressionado por este. Porém, o cristianismo, nas palavras de Green, eliminou as distinções de classes, a circuncisão e as regras alimentares. O espírito missionário também fora gerado pelo empenho missionário judaico, mas o cristianismo foi mais longe, eliminando também o exclusivismo étnico. 

A fé cristã teve, portanto, seu crescimento em um background histórico providenciado por Deus e pronto a se estabelecer como religião para todos os povos. Não podemos negar que todo seu contexto social, religioso e político teve um papel essencial para isto. 

Mas ao relatar sobre o mesmo background histórico, Green procura ser exaustivo em todos os sentidos: desde o significado do que seria evangelho e suas implicações éticas, como os obstáculos enfrentados pelos cristãos e pelo próprio evangelho no período primitivo. Green admite que “alguém que nunca viveu numa sociedade que foi conquistada do paganismo pelo cristianismo tem dificuldades para imaginar o tamanho dos obstáculos que a religião, vícios, hábitos representam para o cristianismo”. Isto importa dizer que, tanto para os gregos como para os romanos e também os judeus, o cristianismo ofendia suas doutrinas e práticas e por isto encontrou muitos problemas. A começar de seu Cristo. Jesus para os judeus era ridicularizado como Messias, pois estes jamais admitiam que ele poderia ter morrido em uma cruz. Isto jamais traduzia vitória. Mas os cristãos iam além de crer no Messias Judaico. Eles pregavam um novo senhorio sob a confissão: “Jesus é Senhor”. 

Não somente a cristologia era repugnante aos judeus como a eclesiologia dos primeiros cristãos. Diziam que a Lei era pesada demais para qualquer pessoa. Por isso no lugar da devoção a Torá, como diz Green, o novo culto ensinava a adoração a um segundo Deus, no lugar do Sábado, o primeiro dia da semana, havia sido instituído como Dia do Senhor e a igreja de fato havia eliminado o ritual da circuncisão.

Para os gregos e romanos, o cristianismo não passava de uma superstitio, a qual não poderia jamais ser legalizada pelo Estado e nem mesmo apoiada por ela. Para que qualquer religião fosse considerada pelo Império, esta deveria ser medida em todos os seus âmbitos, fossem filosóficos, sociais e éticos. Além do culto de Cibele, o culto de Baco e o dos Druidas, o cristianismo somava como uma seita nova que precisava ser eliminada pois iriam contra a adoração do César como divinus. 

Green esclarece que além disso os cristãos eram acusados de incesto, ateísmo e canibalismo. A vida cristã possuía comportamentos desviados, e por muitas vezes os próprios cristãos tomavam atitudes práticas que levava o cristianismo a ser visto como algo marginalizado. Aí em alguns casos, a igreja deixava de manifestar a sua natureza missionária contextualizando-se no mundo.

Quando Green inicia seu capítulo falando sobre o evangelho, muito mais do que apresentar questões envolvendo a história, na verdade, o que se vê é uma ampla e abrangente exegese dos termos kerussein (pregar), euaggelizesthai contar boas novas) e marturein (dar testemunho). E Green o faz notavelmente envolvendo a exegese e a história canônica de livros tanto do Antigo como do Novo Testamento. Esta análise acurada e profunda é na verdade a base para que o leitor compreenda que a Igreja Primitiva dos dois primeiros séculos tinha um compromisso iniludível com o conteúdo deste e não com técnicas ou estratégias simplesmente. É o ponto central do livro onde o autor demonstra pleno e apaixonado compromisso com o evangelho.

Ao escrever sobre a evangelização dos judeus como parte da vida da igreja primitiva, o autor inicia defendendo a tese que o cristianismo ao nascer, foi por muitos, visto como uma seita judaica, pelo menos no que tange os seus primeiros dois séculos. Mas ao falar sobre a evangelização dos judeus, Green comprova que os cristãos primitivos sempre abordavam os judeus com o Antigo Testamento. Muitos daqueles se faziam como que profetas em sua evangelização, enfatizando que a Escritura cumprira todas as suas profecias com respeito ao Messias e a Jeová. Na verdade, Green assevera que os antigos cristãos verbalizavam a Escritura como meio e fator único para que as boas novas fossem reveladas aos judeus. As sinagogas faziam parte da estratégia cristã. Por várias vezes, Green cita o diálogo entre Justino e Trifo, algumas vezes amigável outras vezes amargo, mas sempre enfatiza que mesmo dentro das disputas teológicas entre judeus e cristãos, havia contudo alegria nos que criam e em todo lugar havia o mesmo desejo de espalhara mensagem. Os cristãos ao evangelizarem demonstravam ser o Messias sacerdotal mais importante que o Messias davídico, em parte porque o rei sempre estava subordinado ao sumo sacerdote. Os primeiros cristãos, diz Green, usavam dois métodos para recomendar Jesus. Eles adotavam e adaptavam listas de textos messiânicos. Eles adotavam o método pesher de interpretar o Antigo Testamento. Além deste a exegese de Midraxe também era adotada pelos cristãos. Concluindo, o autor declara que de fato a Bíblia era a principal porta de entrada do judaísmo para o evangelho. Ao mesmo tempo que os cristãos apresentavam Jesus como o Messias, eles encontravam um interesse imenso e imediato, mas também um questionamento intenso por parte dos judeus. Green faz uma excelente explanação sobre o sacedócio de Jesus, tratando sobre o nascimento, a morte e a ressurreição do Messias como temas centrais na proclamação das boas novas. Mas o que nos chama a atenção é que os nossos primeiros irmãos na fé, não apenas proclamavam, mas também eram prontos e versados a contestar as questões judaicas e apologizar as verdades que se relacionavam com a Fé Cristã de maneira profunda e apaixonada.

Outro assunto que Green faz questão de ressaltar é a respeito da importância da Lei nisto tudo. Ele demonstra que os judeus possuiam queixas dos cristãos por estes terem subestimado sua condição de Israel. Os cristãos se auto denominavam o novo Israel. Outra queixa interessante era a respeito de que os cristãos haviam roubado suas Escrituras, de maneira que encontra-se puro ódio por parte dos judeus neste assunto. Além disso, os cristãos permanentemente quebravam a Lei, questionando o seu culto que para os cristãos, nada mais era do que um culto espiritualizado, o templo e o Sábado.

Se Michael Green trabalha esplendidamente a visão e o trabalho incansável da igreja primitiva na evangelização dos judeus, ele também o faz com respeito a evangelização dos gentios. Neste mister, de maneira mais abrangente, o autor usa a figura da cidade e da igreja de Antioquia como portal da missão aos gentios. Isto porque Antioquia se projetou no cenário missionário dos dois primeiros séculos com muito mais envolvimento do que Jerusalém. Mas ao fazer isto Green, vai tocar na tese que alinhará o capítulo todo com a preocupação da comunicação e contextualização do evangelho através de seus missionários e propriamente dos crentes comuns da igreja. Embora o autor não use estes dois últimos termos especificamente, ele o faz usando termos como traduzir o evangelho, abordagem flexível entre outros. Além disso, vemos com muita propriedade o estudo exaustivo da transmissão das boas tanto usando bons como maus exemplos. Green retrata também as dificuldades do processo de tradução das palavras “Cristo”, “Reino de Deus”, “Adoção”. Green também trabalha com a evangelização aos gentios oprimidos socialmente, que foram como muito abertos a evangelização devido a termos usados no Novo Testamento como alforria e redenção. As mulheres foram outro grupo social grandemente aberto ao evangelho, uma vez que eram desconsideradas pelo machismo da época.

Vê-se que Green dá um tratamento especial ao assunto da evangelização através dos apologistas e filósofos através da sabedoria cristã e a contextualização do termo logos. Nisto, encontra-se a majestosa e desafiante figura de Justino. Além das religiões de mistério, a desilusão com a moral, a astrologia era outra pedra de toque ao evangelizar as pessoas. Sobretudo, os cristãos primitivos levavam sempre em seus lábios a confissão pública e a convicção de que Cristo era o Pantocratôr que quebrava os poderes astrais.

Embora Green fale sobre a flexilibilidade da comunicação em termos de palavras que eram usadas pelos cristãos, ele também demonstra que havia muito da abordagem uniforme quanto aos principios do evangelho, tanto em regiões e locais primitivos como em cidades “berço” da filosofia. Em todas as situações, ademais a própria contextualização do evangelho, se estabelecia a singularidade de Cristo como mensagem suprema da verdade. Green não deixa de lado que enquanto se evangelizava os cristãos se lebravam de pregar contra a idolatria e politeísmo, embora que posteriormente este método foi esfriado pela paganização da própria igreja. Além de dissertar a favor da fidelidade da igreja ao evangelho, Green não oculta a realidade dos problemas que acometeram a igreja e o evangelho com a ingerência de seitas como o gnosticismo e o marcionismo, além dos apócrifos que mais atrapalharam do que ajudaram a comunicação do evangelho. Clemente de Roma é citado como aquele que deu grande importância ao revestimento da doutrina bíblica de formas culturais, apresentando a mensagem com termos compreensíveis a seus ouvintes.

Uma das questões importantes para se considerar a evangelização da igreja, é conhecer um pouco do sentido de conversão que era atribuído pela mesma. Green pode apresentar de maneira clara e baseado em informações histórica e arqueológicas que embora a comunidade cristã se distanciava temporalmente dos ensinos de Cristo, a chamada ao arrependimento, a mudança de vida, ao compromisso e a paixão missionária era uma realidade para os discipulos do primeiro e segundo século. Green ressalta com propriedade: “Se cortarmos da mensagem crsitã, a raiz fundam,ental da conversão em Cristo, ela se tornará uma planta quebrada e sem vida, por mais belas que as flores do interesse cristão e do envolvimento social se apresentem. A conversão cristã era uma coisa nova e única no mundo antigo, humilhante, dinâmica e inflexível.” A compreensão que alguém somente poderia se converter através da Palavra e por meio da livre iniciativa do Espírito era uma verdade. Além disso, a Igreja Primitiva, lembra Green, não evangelizava por meio de emocionalismo ou sensacionalismo. As disputas filosoficas, o ensino ministrado, o testemunho falado era muito bem traduzido de forma que as pessoas entendessem racionalmente a verdade do evangelho e por isso o resultado era em uma conversão séria como mudança de valores e de vida. Green pode nos dar uma excelente visão sobre este assunto, e que nos torna mais seguros em pregar um evangelho menos esotérico e mais racional, menos liturgico e mais comprometido com os valores do reino de Deus. Além disso, o autor relata vários exemplos de conversão como de Justino, Clemente de Roma, Inácio entre outros pais da igrejas.

Ao falar sobre os evangelistas, o autor destaca duas partes interessantes: Quem de fato eram os evangelistas e como estes evangelistas viviam. Além da “profissionalização” deste cargo, vê-se também o relato sobre a evangelização leiga que segundo Green foi o fator principal para que o evangelho alcançasse todo mundo do império da época. Interessante também é notar a perspicácia de Green quando ele relata sobre a pluralidade de ministérios e que a igreja de hoje necessita voltar a abosrver esta mesma visão.

Tanto os missionários informais como os filósofos crentes estavam comprometidos com a profundidade e o estudo acerca da palavra. Além disso Green dá um valor todo especial ao trbalho das mulheres, demonstrando que um dos braços fortes da igreja da época eram as servas de Deus que chegavam até mesmo ao martírio como as citadas Blandina e Perpétua. Tanto a comunhão, o caráter transformado e a verdadeira alegria, formavam o caráter desta gente. Ao falar sobre a intimidade destes cristãos com o poder de Deus, Green deixa revelar sua visão muito equilibrada sobre a questão dos exorcismos e libertação espiritual, e mostra que há um grande distanciamento da igreja contemporânea com este Deus Poderoso, talvez Green queira ressaltar e chamar a atenção principalmente do meio em que vive e da denominação a que pertence. Em suma, a igreja precisa urgentemente voltar a sua origem tamnto no que se entende de ministério como a busca de modelos que estejam comprometidos com os verdadeiros valores do Reino de Deus e não se deixem seduzir pelo sensacionalismo e popularidade a qual tantos já cairam. 

Além disso, o autor consegue através de acurada pesquisa, ressaltar uma arqueologia e geografia da época, ao mesmo tempo que faz o leitor apaixonar-se pela evangelização expondo os métodos, motivações e estratégias dos primeiros séculos.

Nas notas finais de cada capítulo, “Evangelização na Igreja primitiva” tem um grande e profundo asservo de material pesquisado pelo autor e enriquecido pelos comentários pessoais do mesmo. Em sua análise neotestamentária, Green deixa claro que ele não aceita a última parte textual do evangelho de Marcos como de fato de seu autor, o que empobrece um pouco seu capítulo sobre “O Evangelho”. 

O texto embora trazendo informações históricas e uma gama de notas geograficas e aqueológicas, torna-se um pouco cansativo por ser essencialmente didático. 

O que chama a atenção também é que Michael Green ao analisar a história, chega ao ponto de criticar determinados princípios e métodos usados pelos cristãos primitivos quando comenta sobre o fracasso da missão aos judeus. O que se pode notar é uma certa ousadia, principalmente quando sabemos que o autor é inglês e anglicano e que sua denominação hoje, faz muito pouco pelo verdadeiro cristianismo.

Em compensação, Green expõe seu compromisso pessoal ao cristianismo bíblico e a Missiologia dos primeiros séculos. Sua forma de esboçar e apoiar o estilo de vida, demonstra que Green é de fato um cristão genuíno. Todas as suas investigações e conclusões resultam e aplicações práticas para a igreja atual. Ao falar sobre conversão ele tanto exalta as conversões reais como critica as aceitações da fé cristã como apenas nominalismo.

Realça-se também acima de tudo a abrangente e despreconceituosa visão missionária do autor. Não somente pelas asseverações sobre o estilo de vida do cristianismo primitivo, como também pelas estratégias e táticas implementadas pela igreja. 

Ao caminhar por “Evangelização na Igreja Primitiva”, se é levado a concluir que a igreja contemporânea está bem longe do que seja um cristianismo genuíno, e em consequência disto este evangelicalismo pós-moderno tem arremetido a igreja cristã a um pragmatismo nunca vivido antes, sem levar em conta os conceitos bíblicos e históricos bem como as motivações que geram estratégias orientadas por Deus. Ao ler Green, chega-se a conclusão que o desafio de se viver um verdadeiro cristianismo nos tempos contemporâneos é o grande segredo da igreja. Oxalá esta encontre-se com o verdadeiro sentido e com o real Senhor da vida para que ao mirar os grandes vultos de fé do passado, possam haver homens e mulheres corajosos para implementar, ou por que não dizer, retornar a uma evangelização eficaz e verdadeira, como aconteceu nos dois primeiros séculos da era cristã. 





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