segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

DÍZIMO


1. A instrução do dízimo no AT: 

Nossa tendência é usar o texto de Malaquias para instruir ou reforçar a necessidade de se dar o dízimo e com isso insistimos no agravante de se roubar a Deus. Porém há outros textos que ensinam sobre o dízimo. Malaquias é um texto profético de natureza exortativa. Já Deuteronômio e Levítico são textos de instrução. Por mais que queiramos entendê-los como Lei, é importante que se tenha o conceito hebraico de lei (torah), como instrução e nem tanto o conceito grego de um código penal. Talvez a diferença seja muito sutil. Mas é importante distinguir os dois conceitos. Na prática isso significa que na Torah se ensina como o povo deve ser fiel à Deus em todos os seus dias de vida na terra. Isso é diferente de um código onde se institui uma ordem e prescreve as sanções para os infratores. No texto de Malaquias, existe uma matéria de fato, o povo está usando dinheiro que pertence ao Templo para seus próprios interesses. 

2. Finalidade do dízimo: 

Em Dt 14.23 sugere que o dízimo é "para que aprendas a temer ao Senhor teu Deus todos os dias". Além disso, tem também um fim social. Dt 14:29 diz: "Então virá o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva que estão dentro da tua cidade e comerão e se fartarão para que o Senhor teu Deus te abençoe..." Também Dt 26:12: "Quando acabares de separar todos os dízimos da tua messe no ano terceiro, que é o dos dízimos, então os darás ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva para que comam dentro das tuas cidades e se fartem." Em Dt 14 a instrução do dízimo está no contexto de proibição de comer animais impuros. O dízimo também tem seu lugar próprio de ser oferecido e comido. Mas é interessante que o v. 24 prevê que nem todos teriam acesso fácil ao Templo onde o dízimo deveria ser entregue. Neste caso, deveriam vender e eventualmente o dinheiro seria entregue no "lugar onde Deus escolher para fazer habitar seu nome". Isso, contudo, deveria ser feito sem desprezar o levita, estrangeiro, viúva e órfão. Dá a impressão que estes deveriam ser atendidos primeiro na cidade de cada um antes do dízimo ser oferecido no Templo. Isto fica mais claro em 26.13: "Dirás perante o Senhor teu Deus: Tirei o que é consagrado de minha casa, e dei também ao levita, e ao estrangeiro..." Se a consagração do dízimo não cumpre a função didática de criar temor a Deus e a função social de suprir as necessidades da comunidade, na minha opinião, é um desvirtuamento do seu propósito.

3. Relação dos dízimos com outras ofertas: 

Outro aspecto importante para se lembrar é que o dízimo não era a única contribuição feita. Em Dt 26 temos a instrução sobre as primícias. Pouco se ensina hoje sobre isso. As primícias da colheita e do rebanho deveriam também ser consagradas a Deus. Ou seja, nem se trata mais de porcentagem. A porcentagem só se refere ao dízimo que é 10%. Mas há outras contribuições que devem ser dedicadas a Deus. Para efeitos didáticos, práticos e econômicos nós convencionamos 10%, mas se computarmos a porcentagem no ensino da contribuição no AT parece-me que chega perto dos 20 a 25%. 

4. Relação dízimo e culto: 

Finalmente, outro aspecto que julgo importantíssimo na instrução da contribuição é a relação do dízimo com o culto. A contribuição pode ter tido caráter de imposto do templo em diferentes épocas da história de Israel, especialmente, na monarquia quando o rei precisava sustentar sua máquina administrativa e militar. Mas temos ainda em contextos de culto como é o caso de Dt 26.1-11. Ao trazer as ofertas "no lugar onde Deus escolher..." o v. 5 diz "testificarás perante o Senhor...Arameu, prestes a perecer foi meu pai..." É um ato de reconhecimento da ação salvífica histórica de Deus. O v. 10, no final, diz: "Então porás perante o Senhor teu Deus, e te prostrarás perante ele" Uma atitude de humildade e adoração. E o v. 11: "Alegra-te-ás por todo o bem que o Senhor teu Deus te tem dado..." Uma atitude de ação de graças perante o Senhor. 

Creio que é nesse contexto que se deve contribuir à igreja. Não podemos querer resolver a questão só em termos monetários sem levar em conta os aspectos teológicos, sociais e históricos. 

Rev. Billy Lane

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