quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

ENTRE O BATUQUE E O SILENCIO



(Texto revisado) 

Meu desejo de contemplação é a ânsia de minha alma. Busco incessantemente Aquele por quem eu respiro, meu coração bate, meus pulmões se enchem de ar, minhas veias canalizam o sangue que junto a vida de meu espírito, leva minha alma para mais perto d'Aquele que me amou desde antes da criação do Cosmos - "Ornamento de Deus".

Estes últimos dias tive o privilégio de transitar por alguns locais inusitados e cheios de vida. Dois deles marcaram profundamente minha alma. Estive por alguns dias visitando algumas praias, lugares exóticos e belos. Ao contemplar a beleza da Natureza fiz-me pronto a afirmar mais uma vez a mim mesmo: "Impossível ser um ateu". A Criação, a natureza, o mar e tudo que eles contêm exalam a presença de um "Design Inteligente". Para nós cristãos, indubitavelmente, Cristo criou todas as coisas e a Sua Criação revela Sua soberania e providência.

Porém a criação geme, angustia-se porque Seu Despenseiro - o ser humano - continua a degradar-se não apenas no corpo, mas, sobretudo na alma. Uma alma sem a conexão com o Espírito de Deus degenera-se, destrói-se, esvazia-se e desumaniza-se. Nós que fomos criados para viver em comunhão com o Criador e com a criação - animais, plantas e astros - progressivamente usamos e abusamos dos seres criados e caminhando para o colapso total.

A praia embora pudesse me levar à contemplação divina, me trouxe ruídos que minha alma rejeita. Músicas sem nexo, barulho e batuque sem conteúdo. O ser humano continuamente busca um "deus-segundo-o-coração-da-criatura”. Para encontrar-se com Deus, muitos precisam defini-lo, construí-lo, embalsamá-lo e sistematizá-lo a fim de reterem uma leve caricatura "D'aquele que é". Para muitos é o "grito que define a divindade". Nada diferente do deus-pagão das culturas primitivas.

Também vivi a experiência de passar um tempo em um Mosteiro Beneditino. Poucas palavras, pouco barulho, muitas orações, cicios, o suficiente para tentar domesticar uma alma agitada e inquieta. Diante de um ambiente desconhecido para muitos que ousam criticar sem conhecer, me pus novamente na busca da contemplação divina.

Diferente de um mundo onde o silêncio é aterrador, encontrei-me mais uma vez comigo mesmo, para admitir que não sou diferente daqueles que batucam muito com um coração vazio. Cantamos muito, mas falamos pouco ao coração de Cristo. Naquele local inaudito pude ver que o silêncio da alma fala mais alto do que um turbilhão de palavras. Mas a ausência da fala também pode ajudar quando o coração vazio está desejoso por encontrar-se num mistério onde somente o Espírito pode se fazer presente. Na oração do coração e no silêncio do espírito, percebi o quanto sou um papagaio que repete palavras vazias, por que conheço muito pouco o silêncio de Deus. O silêncio de Deus possui mais vida do que os discursos dos homens.

O silêncio retira de nós o que a mente humana constrói acerca de Deus usando a lógica. Ao entrar num ambiente assim, me senti num vazio que somente Cristo pôde preencher em comunhão. O silêncio é o caminho para o encontro verdadeiro com Cristo, por meio de Seu Espírito Santo. No mistério do silêncio encontramos a presença grave, intensa e cheia de Deus. Habitamos um mundo onde o silêncio de Deus não tem mais vez. Estamos cheios de nós mesmos. Nossos discursos são repletos de palavras que podem assombrar muito, mas nada afetam nossa relação com a Trindade Santíssima, conosco mesmos e com nosso semelhante. Contemplar a beleza da Criação não tem sentido sem a contemplação daquele que "É" no coração. Sem o silêncio da alma, homem algum poderá reter a revelação divina. Sem um coração silencioso, jamais poderemos viver a Palavra Viva – Jesus Cristo - revelação plena de Deus.                                  

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