sexta-feira, 29 de março de 2013

RESSURREIÇÃO COM GOSTO, SUOR E CHEIRO!


Certa confusão e equívoco vivenciam os cristãos (evangélicos e católicos) quando o acontecimento religioso que é a Páscoa Cristã. A maioria não se deu conta do âmago da resposta que o próprio Deus promoveu a humanidade quando ressuscitou a Jesus, Nosso Senhor.

A ressurreição de Cristo não teve como alvo principal revelar que Ele foi mais forte que a morte. Isso Ele não precisava provar para ninguém. Ele é Senhor sobre tudo e sobre todos. Até sobre a morte. Esse é um argumento fraquíssimo! Outro argumento que muitos usam nesta época é que a ressurreição de Cristo nos trouxe a esperança de dias melhores sobre a terra. Essa já é uma falácia!

A ressurreição rompe a visão pobre e fraca de um deus fraco e doméstico. Quando Jesus foi ressuscitado, Deus por sua graça mais uma vez abriu um novo mundo, uma nova criação, uma nova terra e um reino eterno e milenar, um reino físico e palpável. Jesus é considerado por Paulo “as primícias” dos que dormem.

A ressurreição de Cristo inaugura também a nossa ressurreição, corporal, física, com cheiro, com gosto (Jesus comeu com os discípulos após a ressurreição) e prometeu que iria beber do vinho depois da consumação com todos os seus.

O Credo Niceno, o mais antigo Credo do Cristianismo afirma: “creio na ressurreição dos mortos”. O Credo Apostólico diz: “Creio na ressurreição da carne”.

Paulo confirma: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé”. E ainda “os que morreram em Cristo estão condenados”.

Nossa fé não vai apenas até o céu. Vai além. O Lar Celestial não é o limite. O limite é a nova terra, onde todos serão ressuscitados para sua glória e honra, para a paz e alegria do coração e da vida de todos aqueles que durante sua caminhada aqui, viveram para o autor da Vida que é o próprio Cristo, Nosso Senhor.

Portanto, creiamos em algo maior, não em um Deus que apenas pode ter a solução dos problemas corriqueiros, mas, muito mais, em um Deus que pode tornar a viver não somente o ser humano, mas, toda a sua criação novamente. As plantas, as florestas, os animais e tudo que se move criados pelo poder de Deus, serão um dia reconstituídos.

Enquanto isso não desprezemos as Escrituras, nem o poder de Deus. Vivamos de acordo como aqueles que haverão de prestar contas Àquele que não somente trouxe à existência a vida, mas também descortinará o Novo Mundo: Novo Céu e Nova Terra.

Feliz Páscoa de Cristo 2013

sábado, 16 de março de 2013

O SUCATEAMENTO DE DEUS




Nosso século é marcado pela Filosofia de Mercado conjugado com uma grande dose de Racionalismo e Pragmatismo. Vivemos a cultura do Sucesso e a busca frenética pela fama e pela celebridade.

Há muito tempo que não sabemos o que é teologia. Nosso Ocidente desde que começou a viver as consequências culturais, políticas e filosóficas do Iluminismo, perdeu para sempre os pensadores e junto com eles a teologia.

No passado, no Tempo Antigo, quando as pessoas oravam de fato, a Teologia possuía uma estreita relação com a espiritualidade mística. O encontro com Deus era místico e a espiritualidade uma experiência fundamental para todo teólogo, pois “fazer teologia” era sinônimo de “orar”.

A teologia e a formação espiritual era o eixo que dominava a vida humana. O teólogo era respeitado e venerado, tal era a concepção de oração e intimidade com Deus  que se possuía.

Mas o mundo mudou. No que diz respeito a espiritualidade e a teologia, o mundo atrasou. Com a ascendência do Iluminismo tomamo-nos como o centro da vida. A teologia que era encontrada nos templos, nos palácios, nos desertos e nas cavernas por causa dos que viviam a vida mística, hoje está sucateada e tratada como uma ciência.

O ser humano ainda fala de teologia, pensa em teologia, discute teologia como ciência. Foi o que sobrou, foi o que restou. Os místicos da oração e da formação espiritual são tratados como “alienígenas” da sociedade. Desaprendemos e perdemos o “elo” com o passado, pois tornamo-nos  o centro de um estudo sobre o “homem-criador-de-seu-próprio-deus” e demos então o nome a isso de Teologia.

A teologia espiritual e suas disciplinas que envolvem este tema foram sucateadas. Se quisermos encontrar este tipo de “coisa” vamos ter que ir a um “ferro-velho” religioso cristão.

De fato não sabemos o que significa “Teologia”. Teologia de fato que brota da experiência e do empirismo. Não sabemos o que é Fé para nos encontrar com o Transcendente. Nosso “elo perdido” teológico se diluiu com tantos livros, tantas ciências, tantas opiniões racionalistas sobre Ele, o “deus-que-o-homem-criou”.

Por isso os teólogos de hoje são meras figuras ilustrativas nas igrejas e nos seminários. Por isso pagamos mal os professores-teólogos, porque cremos de fato que eles estão apenas representando um papel necessário para a Sociedade, mas irrelevante para responder aos anseios de uma coletividade com tantos afazeres, negócios e tarefas que envolvem muito dinheiro.

Por isso temos qualquer pessoa a frente de comunidades religiosas, por isso aceitamos os líderes de sucesso ministerial, os que são bem-sucedidos devido a “estética” e ao “consumismo religioso” que nos dirige. Não queremos nos relacionar misticamente com Deus, queremos um Deus que dê certo para nossos empreendimentos pessoais e profissionais. Nós sucateamos Deus, a teologia, a espiritualidade e o que estiver ligado a eles.

Precisamos de novo dos Elias, dos Eliseus, dos Oséias, dos Natãs, dos Samuéis. Precisamos de novo das Miriãs, das Huldas e das Déboras. Precisamos de arqueólogos espirituais que nos tragam as primeiras fontes da teologia espiritual.

Precisamos urgentemente retornar ao encontro místico com o Deus verdadeiro.

sexta-feira, 8 de março de 2013

AUSENTES DE DEUS





“Queremos dele coisas, mas a ele não queremos de modo algum. Será isso um relacionamento? Conduzimo-nos desse modo com os amigos? Amamos nós o amigo, ou visamos aquilo que a amizade nos pode dar? Ocorre o mesmo no que diz respeito ao Senhor?” Anthony Bloom 



Tornamo-nos “a passos largos” pessoas desconhecidas para nós mesmos e para os outros quando transformamos a nossa vida num sistema meramente funcional. Assim também fazemos com Deus. Nossa relação com Ele tem se tornado uma relação “comprador-vendedor”. Vamos às pessoas e nos relacionamos com elas dependendo do que elas podem nos oferecer. Se elas oferecem benefícios e vantagens, nos relacionamos com elas, pois podemos galgar situações de conforto e maior dignidade. Nos casamos assim, criamos nossos filhos assim, nos relacionamos com nossos pais por causa disso e com qualquer pessoa, amigo, colega ou mesmo um desconhecido. 

Deus tem sido uma imagem para muitos de uma pessoa que possui todos os dons e dádivas, sejam elas visíveis ou invisíveis e nos relacionamos com Ele nesta base. Nossa vida ou nossos momentos de oração tem sido construídos nestas bases. Vamo-nos a Ele, sabendo que Ele é doador, beneficiário de dons e bênçãos para todos. Porém essa relação nos revela passo-a-passo que continuamos vivendo ausentes dEle, da Sua presença, de Sua relação íntima. 

Precisamos resgatar a verdadeira razão e o sentido do que seja a oração. Quando vivemos desta maneira, pensamos em Deus como o beneficiário para todos, por que Deus é gracioso e que jamais nos negará bem algum. Pensando apenas assim, temos a sensação seja perene ou casual de uma ausência de Deus. Acabamos clamando para um céu vazio, do qual não obtemos respostas. Voltamo-nos para todas as direções e não O achamos. O que devemos pensar de tal situação? 

Precisamos alimentar nossa mente e nosso coração com a premissa de que independente do que extraímos de Deus, somente podemos reter a sua presença em nós se nos fizermos abertos a uma relação com o Divino por meio de um relacionamento profundo. 

Então o primeiro passo para esta relação se abrir, é a oração. Contudo na oração e em nossa consciência esta relação não pode ser forçada, nem da nossa parte nem da parte de Deus. O fato de que Deus pode se fazer presente ou deixar-nos com a sensação de uma ausência, também faz parte dessa relação viva e real. 

A relação deve iniciar-se e desenvolver-se numa mútua liberdade. Portanto, antes de qualquer coisa, nossa relação com Ele deve desenvolver-se na base de que não serão as palavras o centro deste relacionamento. Não serão meras palavras que farão a presença de Deus em nós, mas sobretudo como desenvolvemos nosso amor, nossa relação com ele, nossos sentimentos e nosso posicionamento diante dEle. Esta relação não acontecerá sem que eliminemos o sentimento de “tirarmos algum proveito” dEle. Se isso não acontecer já não há relação e sim consumo. Desta maneira usaremos e abusaremos de Deus. Isso não é comunhão e sim pragmatismo. A menos que desejemos desenvolver uma relação mística, profunda, permanente e visceral que acontece por meio da fé, jamais O encontraremos. Mesmo que tenhamos muito tempo de vida cristã, mesmo que estudemos muito sobre Deus, mesmo que falemos e discutamos sobre Ele, jamais teremos sua presença e continuaremos ausentes de Deus.

sábado, 2 de março de 2013

NÃO SOU MAIS EVANGÉLICO




Não posso continuar a usar um nome que está, a meu ver, diluído e contaminado. Faço minhas as palavras de Ed René Kivitz:

“A expressão “outra espiritualidade” sugere a pergunta: ‘outra em relação a que?’. Isto é, que espiritualidade está sendo abandonada para que em seu lugar apareça “outra”? No meu caso é simples: estou abandonando a espiritualidade do senso comum evangélico, e saindo em busca da espiritualidade do senso comum da tradição cristã. Apresso-me em explicar. Considero “senso comum” uma forma simples de me referir ao fato de que apesar da enorme diversidade a respeito das características que identificam o ser evangélico, há um núcleo que resume a maneira como este segmento religioso da sociedade articula sua crença e modus vivendi. Ao escolher o senso comum, admito que a “outra espiritualidade” que busco não é uma novidade, mas um resgate dos aspectos essenciais à fé cristã conforme se estabeleceram nestes mais de dois mil anos de história.

Deixando de lado o rigor acadêmico e científico, que não cabe na proposta deste texto, chamo de “senso comum da fé evangélica” os conteúdos articulados na face mais visível desta tradição religiosa, notadamente através das mídias impressa, radiofônica e televisiva. São os autores e comunicadores de massa que “fazem a cabeça” dos fiéis e aos poucos vão definindo, consciente e inconscientemente, voluntária e involuntariamente, um núcleo de crenças determinantes de uma cosmovisão, e por conseqüência, um jeito de ser no mundo. A partir de um determinado ponto, passa a existir uma cultura autônoma, independente dos conteúdos mais elaborados dos teóricos. Esta cultura autônoma é apropriada pelo povo e a partir de então é deflagrado um processo de desenvolvimento de crenças e costumes que vai se distanciando cada vez da proposta original.

Não tenho dúvidas quanto ao fato de que este fenômeno aconteceu na chamada igreja evangélica, e que o ser evangélico, conforme compreendido hoje pela sociedade brasileira, e até mesmo por muitos evangélicos, está absolutamente distante dos conteúdos originais da fé cristã. Evidentemente, é pretensioso aquele que afirma conhecer “os conteúdos originais da fé cristã”, pois toda teologia é interpretação, isto é, tudo quanto os cristãos propagam são versões do conteúdo original. O que se exige é a avaliação mínima dos conteúdos atuais em comparação com aqueles que foram historicamente, desde períodos mais remotos, divulgados como constitutivos da fé cristã. Tenho a firme convicção de que o cristianismo dos evangélicos contemporâneos é absolutamente distinto do cristianismo dos primeiros cristãos e das tradições teológicas mais consistentes da história da igreja.

Aliás, é muito triste o fato de que grande parte dos novos líderes evangélicos e dos novos convertidos à fé evangélica desconheçam a tradição teológica da história da igreja, seus expoentes mais respeitados, suas fundamentações filosóficas, seus embates com os espíritos de suas épocas, suas argumentações apologéticas, e, principalmente seu sangue vertido em defesa da fé. Os neo-evangélicos estão ocupados demais em construir uma experiência religiosa que lhes satisfaça no imediato, e não se ocupam com as aproximações da verdade, uma vez que vivem o pragmatismo de quem se ocupa antes em fazer “deus” funcionar do que em ser íntimo dEle.

Fui tomando consciência disso aos poucos, e de certa forma, construindo meu pensamento a respeito de “outro Deus e outra espiritualidade” passo a passo, um insight de cada vez, como o pão, que nos chega à alma toda manhã, caindo do céu a cada dia. Pão que reparto com temor e tremor.

Ed René Kivitz (palavra na qual assino ipsis literis)