terça-feira, 17 de dezembro de 2013

UMA REFORMA QUIETISTA

Com a toalha na mão para lavar os pés uns dos outros nosso Senhor dizia que "se o sal vier a ser insípido, para nada mais presta senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens".

O avanço do Espírito Santo no Corpo de Cristo se dá como uma brisa, e não como uma tempestade. Por isso, o Espírito é como um vento, e assim é todo aquele que é nascido dele (João 3.8). 

Por isso, dentro de uma sociedade tão barulhenta e estressada, automatizada e impaciente quero denominar a ação do Espírito Santo como uma ação "quietista", silenciosa, sorrateira e  hesicasta.

O Reino de Cristo tem dado passos largos, sem discurso, sem barulho, sem vozes, sem cantoria, sem agitação. Foi a missão do Servo que implodiu o grande Império Romano do primeiro século. O Reino de Cristo não necessita de "trio elétrico", de agitação, de verborragia, de palavreado bonito. O Reino de Cristo somente cresce quando há quietude, silencio. A glória de Deus somente pode ser vista quando contemplamos os céus e o firmamento, sem palavras, sem discurso, sem som algum (Salmo 19.1-3).

Portanto nesta última hora, entendo que Cristo por meio do Espírito Santo quer agir assim: sem amarras, sem método, sem forma, sem padrões, sem uniformidade. Cristo é supra-cultural e supra-paradigmático.

Hoje o local mais crítico a ser vivido é dentro de uma igreja. Sim, a igreja é o maior campo missionário porque esta perdeu seu sentido comum, próprio, natural e simples. A necessidade da pompa, das vozes, dos gritos, da histeria, da anarquia tem sido o alimento destes últimos assim chamados "crentes".

Evoco uma revolução quietista. A começar do que se entende por "irmão de fé". A revolução quietista está além do conceito atual de "irmão" dentro das igrejas locais. A vida quietista enaltece o amigo. Não basta sermos bons fraternos, a vida somente tem sentido quando se vive a comunhão na amizade. Não é o coleguismo, o conhecido, mas a fé somente se faz quando há "amigo mais chegado que irmão" (Prov. 17.17). Só a um amigo é que doamos a própria vida.

Quero que me recebam como pastor, sim devido a minha função no Corpo de Cristo. Todos possuem sua participação individualmente, mas também quero que me recebam como amigo. Para tanto a igreja deveria viver como um grupo de amigos, fiéis e dispostos a serem disciplinados pelo Senhor. Precisamos voltar a busca da maturidade e isso significa suportar diferenças, pois somente é maduro espiritualmente aquele que sabe comungar na diversidade. 

Evoco uma revolução quietista porque não há espiritualidade sadia sem o Diálogo. Esta palavra é muito importante. Diálogo que deve produzir respeito e afeição de uns para com outros. O campo missionário chamado igreja evangélica hoje, necessita ser transformada a fim de que ela volte a possuir a alma de Cristo. Não sou mais evangélico. O movimento foi diluído há muito tempo. Preciso viver como um cristão verdadeiro, buscando agir e pensar como Jesus e não conforme uma uma filosofia denominacional que pensa e age para manter seu "status quo". A denominação pode ajudar, sim, como instrumento mas nunca como um fim em si mesma. Ao momento que esta se vê como a expressão exata do reino de Cristo, o evangelho da graça já a deixou e Cristo não mais reina como Centro da vida. 

A revolução quietista evoca uma espiritualidade do coração, interna, contemplativa, introspectiva. A oração do coração: "Senhor Jesus, Filho de Deus, tem misericórdia de mim pecador" é a oração mais querida e repetida, o maior desejo, o maior anelo, o maior alvo. Oração que vai além de palavras, de discurso, de ensino sobre a oração. Oração que move o coração é a oração que deixa o coração sentir e contemplar. Precisamos da quietude, do silêncio, da fé quietista, resignada, acalentada e hesicasta. A meditação é o caminho. Meditação que eleva o coração a Deus mas que traz Deus ao coração e que o encontra dentro do coração. Precisamos de uma revolução quietista.

A revolução quietista precisa ser missão centrípeta e não centrífuga. Precisamos de gente que possa estar junta e aprender do Mestre e uns com os outros. Pedagogicamente precisamos de momentos periódicos onde louvamos e dialogamos como grupo no evangelho. Assim, somente assim, estaremos cumprindo nossa missão, que para a missão quietista é muito mais do que um programa missionário, evangelístico ou que outro nome queira se dar. O Mestre dizia: "nisto todos conhecerão que vocês são meus discípulos se vocês aprenderem a se amar e comungar" (João 13.35). A comunhão de uns com os outros determina a eficácia da ação do Espírito Santo. Aí está nossa evangelização. Não é algo anormal e anti-natural. Não é um programa ou ministério da igreja, é muito mais do que distribuir folhetos no sinal de transito. É na vivencia que atraímos outros para Cristo, pois não falamos apenas dele como também e sobretudo, estamos aprendendo a viver juntos com Ele - o Espírito Santo entre nós. 

Estou cansado deste invólucro que nos enfiaram, como se viver Cristo não fosse viver de modo natural. Precisamos de um Corpo que viva mais o Espírito Santo e fale menos dEle. Nosso moto deve ser: "Quer conhecer a Cristo? venha e veja como a gente vive!". Foi isso que André disse ao seu irmão Pedro quando Cristo os chamou pela primeira vez (João 1.41-43).

Esta revolução quietista, não nos faz mais ricos materialmente, não nos torna famosos, não nos leva aos meios de comunicação de massa, não enche nosso ventre de comida, mas enriquece, engrandece, satisfaz e dá prazer porque vivemos para Deus.

Precisamos de uma nova reforma urgente, uma reforma silenciosa e cheia de graça, precisamos implodir a espiritualidade que paira no ar, que é anti-cristã. Precisamos desconstruir a crença na estrutura eclesiástica que se move baseada há tanto tempo sob regras, determinações, sistemas hierárquicos, para viver a vida que Deus oferece em Cristo, plena, frutuosa e saudável.

Precisamos de uma revolução quietista que se volte ao "toco" urgentemente pois Isaias, o profeta já predizia que "se ainda ficar na terra devastada a décima parte, tornará a ser consumida, como o terebinto, e como o carvalho, dos quais, depois de derrubados, ainda fica o toco. A santa semente é o seu toco".(Isaias 6.13)

Quem se habilita?

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