sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A INSUFICIÊNCIA DAS FORÇAS HUMANAS


Dizem os antigos homens de oração, todos a uma só voz: "A primeira coisa que deves inculcar no espírito é que nunca, de modo algum, te deves apoiar em ti mesmo. O combate que vais enfrentar é extraordinariamente árduo, e as forças humanas, sozinhas, são de todo insuficientes para conduzi-lo. Se confias em ti mesmo, serás derrubado de imediato, e perderás toda a vontade de continuar a luta. Só Deus te pode dar a vitória, segundo o teu desejo”. 

Para muita gente, a decisão de não colocar em si mesmo a confiança é um sério obstáculo, que os impede de começar uma vez por todas. É necessário perseverar, sob pena de abandonar qualquer esperança de ir mais longe. Com efeito, como poderá um homem receber conselhos, formação e ajuda se pensa que conhece tudo, pode tudo, e não tem necessidade alguma de conselhos? Através de semelhante muro de suficiência, nenhum raio de luz consegue passar.

"Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e inteligentes na sua própria opinião!"(Is 5:21); e Paulo nos dá este conselho: "... não vos deis ares de sábios"(Rm 12:16). O reino dos céus foi revelado aos pequeninos, mas continua oculto aos sábios e aos doutores (Mt 11:25). Devemos, portanto, nos despojar dessa confiança imoderada que temos em nós mesmos. 

Muitas vezes, ela está arraigada em nós tão profundamente, que já nem percebemos o domínio que exerce sobre nosso coração. O nosso egoísmo, a preocupação com a nossa pessoa, o amor próprio são precisamente as causas de todas nossas dificuldades, de nossa falta de liberdade interior na provação, de nossas contrariedades, de nossos tormentos da alma e do corpo. Olha um pouco para ti mesmo, e verás a que ponto estás aprisionado pelo desejo de dar prazer ao teu "eu," e somente a ele. Tua liberdade está presa pelos laços estreitos do amor por ti mesmo; assim, és balançado ao acaso. "Agora, estou com vontade de beber", "agora, estou com vontade de sair", "agora estou com vontade de ler o jornal". A cada instante, teus próprios desejos te conduzem como por meio de uma rédea; e, se algum obstáculo se coloca no caminho, imediatamente perdes a calma, sob o efeito da contrariedade, da impaciência ou da cólera. 

Se sondares as profundezas de tua consciência, descobrirás as mesmas coisas. O sentimento de desagrado que experimentas, quando alguém te contradiz, possibilita facilmente essa verificação. Vivemos, assim, como escravos. Mas "... onde se acha o Espírito do Senhor, aí está a liberdade" (2ªCor 3:17). Que proveito poderás encontrar em gravitar assim, constantemente, em torno do teu "eu"? 

Não nos ordenou o Senhor que amássemos ao próximo como a nós mesmos e que amássemos a Deus acima de todas as coisas? Mas, nós o fazemos? Não estamos, ao contrário, sempre ocupados em pensar no nosso bem-estar? Convence-te pois, de que nada de bom pode vir de ti próprio. E se algum pensamento desinteressado despertar em ti podes estar certo de que não vem de ti, mas que deriva da Fonte da Bondade, e que foi depositado em ti; é um dom daquele que dá a vida. Do mesmo modo, o poder de fazer passar ao ato esse bom pensamento, não vem de ti, mas te é concedido pela Santíssima Trindade.
(Extraído: Pais do deserto)

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