sábado, 8 de junho de 2013

Princípios para uma Comunicação Contextualizada


Uma das grandes dificuldades  que o cristianismo ocidental  do século vinte enfrenta é uma crise de comunicação. Esta crise é devido ao fato da mesma não compreender que a mensagem que ele se utiliza, necessita ser compreendida em todos os contextos onde o mesmo se encontra.

O propósito deste trabalho é compreender e redescobrir princípios estratégicos que promovam uma comunicação contextualizada. O pressuposto se dará em termos de princípios e não de métodos, pois métodos são descartáveis e princípios são imutáveis. Além dos princípios que devem ser desenvolvidos, há necessidade de um embasamento em uma teologia bíblica para que haja compreensão e discernimento onde a mensagem divina se contextualizou em seus mais diversos contextos como propósito missionário por meio da expansão do Reino de Deus.

Contudo, deve-se buscar uma análise da comunicação da igreja cristã em seus vários aspectos. Em seu livro “Uma Igreja apaixonada por missões”[1], Antônio Carlos Nasser propõe uma análise do cristianismo por meio dos tipos de igrejas no processo missionário, o que demonstra o tipo de comunicação que as mesmas se utilizam para proclamar o reino. Estas demonstram suas formas de comunicação que as qualificam quanto à visão e atuação.

Primeiramente o autor as denomina de “comunidades Disneylândia”. Afirma o autor que estas “querem o culto que alegra, a música que balança, a pregação que faz rir, o lugar da fantasia! A fantasia faz rir, sonhar, viver num mundo em que sempre se vence”. Estas são compreendidas como as adeptas da Teologia da Prosperidade, um dos maiores males que tem disseminado uma visão incoerente e improcedente. Onde estão o prazer e a fantasia! E o que falar das tensões, lutas, dificuldades e temores? O que falar das tribulações por que passa a igreja neste final de século. Não se deve esquecer as palavras de Jesus: “Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos...”[2] ou “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma”[3]. Há hoje na maioria das comunidades uma pregação demasiadamente romântica quanto a vida cristã e seu compromisso com o mundo.

A segunda nomenclatura utilizada por Nasser são as comunidades “megalomaníacas”. Enquanto encontramos comunidades que vivem um cristianismo fantasioso, encontramos outras que buscam “as pompas”. Nunca o espírito megalomaníaco atingiu tanto as comunidades como nos dias de hoje. Este espírito corrente tem sido mais importante do que as pequenas e singelas coisas a serem trabalhadas. Projetos monumentais tem sido o sonho de muitos líderes religiosos. Não se fala mais em grandes igrejas, mas sim em “mega-igrejas”. A missão torna-se um fim em si mesmo e na grande maioria, projetos missionários a longo prazo são descartados, devido ao imediatismo e aos mega-projetos personalizados por seus mega-líderes. O atender as necessidades do mundo em termos espirituais e sociais são muito mais importantes do que mega-ministérios. No orçamento destas igrejas o termo “missões” nem entra. Grandes templos, grandes perspectivas, grandes poderios eclesiásticos nunca representarão um compromisso com o Reino de Deus. A preocupação exagerada com o local pode trazer uma amnésia missionária.

As comunidades sociais são o terceiro tipo detectado por Nasser. Ao mesmo momento que se detecta as mega-igrejas, Nasser enfatiza um outro lado extremo das igrejas onde se encontra também as que estão reduzindo a ação da igreja ao trabalho simplesmente socializado. Na sua grande maioria estas igrejas procedem dos movimentos de secularização e humanização que se originaram neste século. Embora estas comunidades transformem o povo num grupo de trabalho em prol da vida, o fazem apenas no aspecto que se refere à vida terrena, sem nenhum resultado para a vida espiritual pessoal. Outro problema gerado por estas igrejas é a sociabilidade desconectada de um profundo senso de comunhão. Sem este aspecto, estas igrejas transformam a vida cristã em uma sociedade filantrópica ou clubes que congregam pessoas sem uma integração no discipulado dinâmico do Senhor Jesus.

As comunidades tecnocratas são a quarta característica. O autor assevera que as referidas igrejas são geradas pelo pragmatismo destas duas últimas décadas. Supervalorizam os métodos em detrimento do conteúdo. Estas igrejas estão preocupadas com o que é funcional. Comunidades que deixaram de comunicar levando em consideração seus contextos perdem a sua natureza missionária para se tornarem igrejas-evento. Neste caso, o ‘programa’ é o ponto alto da vida. Além disso, suas técnicas vão desde as folclóricas “correntes” até as nomeadas como: Como ser feliz em 10 passos ou a Corrente dos sete dias.  A vida cristã se resumiu em ‘pacotes’ ou ‘kits’ que trazem a Salvação e que resolvem tudo.

Ainda existem as comunidades independentes. Estas, como afirma Nasser, não necessitam de alianças ou parcerias na comunicação da verdade. Elas encontraram-se em um caminho independente ou porque não dizer “livre”. Se isolaram e resolveram trabalhar sozinhas, sem denominação, sem laços eclesiásticos, sem qualquer ligação extra-comunidade. O que transparece é um espírito forte de messianismo eclesiástico. Há um pensamento de que se elas não fizerem ninguém o fará ou então que estas comunidades foram escolhidas por Deus para estarem na vanguarda da missão comunicativa. 

Este retrato, que Nasser expõe, é uma das características das mais variadas comunidades encontradas no movimento evangelicalista brasileiro no século XXI. Esta situação é tão deprimente que devido a condição de crise, deve-se fazer uma apologia de uma concepção clara, aberta e bíblica acerca da verdadeira mensagem da igreja cristã. O grande desafio para as comunidades cristãs neste século é a redescoberta de sua mensagem de maneira contextualizada.

O cristianismo deve voltar seus olhos para dentro de si e através das Escrituras Sagradas encontrar-se com a sua verdadeira natureza e ser um cristianismo voltado para o mundo comunicando verdades que sejam compreendidas em cada contexto cultural, lingüístico e geográfico.

A eclesiologia do cristianismo e a comunicação da mensagem

Charles van Engen[4] escreveu um dos livros mais desafiadores para o estudo da eclesiologia missionária atualmente: Povo missionário, povo de Deus. Nele, van Engen introduz o primeiro capítulo, relacionando a concepção de missão com a necessidade de seus líderes atuais se convencerem de uma “visão da igreja em seu âmbito local”[5].

Para que o cristianismo redescubra sua natureza missionária é necessário que tenha uma visão correta acerca de seu papel como comunidade local. Van Engen, defende o ponto de vista de que há uma íntima relação da igreja com o reino vindouro. Esta visão só é possível ao reler as máximas do discipulado de Jesus em suas parábolas [6]: “O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo, o qual é na verdade  a menor de todas as hortaliças, e se faz árvore, de modo que as aves  de céu vem aninhar-se nos seus ramos”. Assim é a igreja de Cristo. O grão de mostarda não se transforma em árvore até que seja plantado. Não importa o que ela é agora e sim o que ela virá a ser. Diz o autor: “A maturidade de amanhã começa com a imaturidade de hoje”. 

É importante notar que a transição da imaturidade para a maturidade, passa necessariamente pelo caminho da aprendizagem, do treinamento, do aperfeiçoamento, para o desempenho de um serviço. A afirmar seus postulados sobre discipulado, o apóstolo Paulo afirmava acerca da finalidade dos dons espirituais[7]: “para o aperfeiçoamento dos santos, para o desempenho do seu serviço, para a edificação do Corpo de Cristo”. Isto significa que não há maturidade sem este tripé: aperfeiçoamento, desempenho e edificação. Nestas três palavras está uma mensagem que deve ser compreendida e comunicada em seu próprio contexto.

No pensamento de Van Engen “a igreja só pode achar a sua mais plena expressão para com o mundo se viver a sua natureza como povo missionário”[8] , isto significa que não se separa os termos missão e comunicação. Não há como conviver o ‘ser’ igreja e o ‘ser’ missão de modo dualista. Não há como observar uma queimada separa do fogo. Então não há como se entender uma comunidade local que possua as marcas da igreja de Jesus Cristo sem seu propósito maior que é a obra missionária em seu contexto. Embora sendo una, santa, universal e apostólica, embora reunida de todas as famílias da terra, em torno da Palavra e do sacramento a igreja também manifesta o seu testemunho comunicável ao mundo.

Este testemunho é a própria missão da igreja. Van Engen define missão por meio de uma citação de Stephen Neill como “a transposição intencional de barreiras, partindo-se da Igreja em direção à não-igreja, em gestos e palavras [9], por amor à proclamação do evangelho”.

A partir disso há necessidade de algumas considerações. A grande maioria de cristãos entende “igreja” e “missão” como dois tipos diferentes de sociedade. Uma é tida como a sociedade dedicada à adoração e ao cuidado espiritual e nutricional dos membros. A outra à propagação do evangelho, repassando seus convertidos para a custódia segura da “igreja”.

A visão normal dos fatos é distinguir a igreja como uma comunidade institucionalizada, já instalada em dependências seguras a qual tende a ser dirigida por líderes sustentados por ela. Na sua grande maioria, é uma sociedade que se auto-preserva e possui uma política bem definida. Enquanto isso, a missão é vista como uma comunidade mais individualizada, com poucas condições, liderada por voluntários e enquanto isso, a igreja está refugiada do mundo, a missão está situada no lugar de risco, em meio ao mundo.

Para que o cristianismo se envolva na missão e vice-versa é necessário que o mesmo venha a se convencer de que se há algo que lhe seja inerente ou que esteja latente dentro de si mesma é a sua missão. Johannes Blauw afirma:  “Quem quer te tenha visto a Cristo não pode deixar de ver o mundo, e quem quer que veja o mundo também vê o mapa do mundo”[10].  Isto é, não há como participar da comunhão, da bênção de Cristo, sem um desembocar num serviço ao mundo e ao mesmo tempo, não haverá um serviço ao mundo sem o compartilhar com Cristo.

Não se pode fechar os olhos de que ambas são uma mescla como diz Thomas Torrence, a missão pertence à natureza da igreja. Van Engen cita de maneira grave a afirmação de Lesslie Newbigin: A Igreja que cessou de ser missão perdeu o caráter essencial de igreja, assim devemos afirmar que a missão que não seja ao mesmo tempo igreja realmente não é a verdadeira manifestação do apostolado divino. A missão não-eclesiástica é tão monstruosa quanto a igreja não-missionária[11].

Se a comunidade dos santos não compreender esta aglutinação do caráter missionário e eclesial, na verdade, ela perderá a sua natureza, assim como o sal pode perder a sua salinidade
Alguns fatores concorrem para que a igreja perca de vista a sua natureza missionária: Quando ela se encapsula, isto é, a comunidade abandona seu caráter comunicativo com a sociedade em que a mesma se encontra. Este encapsulamento se dá quanto a uma visão estrábica no que diz respeito ao modo como seus membros se comunicam e comunicam a verdade do evangelho. Há aqui um pano de fundo histórico, dualista, lembrando que a comunicação da verdade vem vinculada a idéia de profano e sagrado, que tantas vezes é fruto do movimento fundamentalista. Também a natureza missionária da igreja se dilui quando comunidades vivem motivadas pelo ativismo pragmático que busca modelos a serem vivenciados de modo padronizados para todas as culturas sem a devida adaptação. Este diagnóstico tem um pano-de-fundo cultural imperialista, onde persistem idéias como culturas e sub-culturas.

Há também as comunidades que são resultadas do conhecido marketing eclesiástico, onde comunidades inteiras estão submetidas à filosofia consumista da sociedade. Não há mais limites. Onde se consome os produtos industrializados, também se consome o produto que vem da fé. Esta é a fé consumista. Onde há consumismo, a comunicação é puramente consumista e modelada de acordo com a mídia.

As comunidades que abandonam as virtudes essenciais para seu ministério, seus dons e talentos, estão sepultando a visão da comunicação na missão da igreja. Isso porque a comunidade que se relaciona entre si, comunicando seus dons uns com outros através da mutualidade, é a mesma que está se relacionando contextualmente com outros fora do contexto “igreja” e naturalmente pluralizando a graça de Cristo. Aqui a comunicação por gestos e palavras é uma realidade palpável, visto o cumprimento em obediência da afirmação petrina quando diz: Servi uns aos outros conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus.[12]

Assim não basta comunicar a verdade, e sim comunicar a verdade de modo contextual, claro, intelegível, encarnacional e através de dons concedidos por Deus nas comunidades locais que estão em interação com a sociedade.

Bases Bíblicas da Comunicação Eclesial.

Martinho Lutero detestava o vocábulo alemão “Kirche”[13] , porque tinha conotações institucionais e hierárquicas, mas se agradava do termo “Gemeinde”[14]. As comunidades não podem viver apenas como uma organização, mas, sobretudo, como o Credo Apostólico declara uma “comunhão dos santos”.

A primeira necessidade para uma comunicação clara da verdade de Deus como comunidade é que cada pessoa relacione a igreja à missão de acordo com a visão e missão a ela concedida. Van Engen afirma: “Para que as pessoas se vejam como povo missionário, é preciso que visualizem a comunidade cristã como uma organização humana e simultaneamente como um organismo criado por Deus”.

É por meio da visão de organismo que cada comunidade terá condições de comunicar a mensagem bíblica de forma contextual e autóctone. Em Efésios o apóstolo Paulo usa algumas figuras para identificar a igreja, figuras que ajudam a entender melhor a sua natureza:

1)      Eles são santos porque foram separados do mundo, da antiga e vã maneira de viver, mas para continuarem no mundo, sendo pessoas comuns em meio a massa de homens e mulheres para que evidenciem um estilo de vida diferente nos aspectos morais e essenciais, mas vivendo igualmente a qualquer ser humano, a encarnação não excluiu a divindade de Cristo mas deu condições para que em sua humanidade as pessoas vissem-no como Deus verdadeiro. Santidade não se pode pensar em uma vida excluída do mundo.

2)      Eles são corpo de Cristo, porque na vivência comum, demonstram interação de uns para com outros, mas também revelam que vivem para servirem uns aos outros como os membros de um corpo servem entre si. Não há hierarquia, há igualdade de unção, mas diferenças nas funções.

3)      Eles são vistos como soldados com armaduras. Neste aspecto convivem em dois mundos, um visível, palpável, mas possuem a visão de um  mundo espiritual, onde batalhas são travadas, e por isso necessitam se revestir de uma armadura espiritual providenciada na Palavra de Deus.

4)      Eles são considerados como esposa do Senhor. Confiantemente, são seguros do cuidado do Senhor que os amou e escolheu, para apresenta-los de maneira santa e irrepreensível. É a confiança que Ele como marido cuidará dela até o fim. Isso simboliza o acolhimento e segurança plena.

5)      Eles são o povo escolhido de Deus. Assim como Israel fora escolhido para ser uma bênção para todos os povos que viviam ao seu redor, a igreja fora eleita para servir o mundo, contextualizadamente, revelando as viturdes daquele que os chamara das trevas para a luz.

6)      Eles também são filhos e parte da família. Aqui é o símbolo da adoção, do acohimento, do amor inextinguível e infalível, ao mesmo tempo em que reconhecem que este amor é indescritível. A família divina os adotou para serem conforme a imagem do Filho Unigênito de Deus. Não só na sua condição de acolhidos mas na condição de serem obedientes até a morte. De romperem-se em prol de pessoas, do mundo, da sociedade, revelando o Deus verdadeiro de uma maneira que todos absorvam a verdade pela simplicidade cultural de cada um.

7)      Paulo também usa a nomenclatura de imitadores de Deus. Afirma ele que eles são imitadores enquanto se mostram como filhos amados. Essa relação de imitação tem a ver com a relação filial que os cristãos possuem ao conhecer o Pai que ama indistintamente e incondicionalmente. A imitação é um processo social que desemboca no testemunho de cada um e reflete na própria comunicação. O que se comunica é o que se vê e enxerga. A imitação vem de uma relação de intimidade e crescimento. Eles são imitadores porque se vêem como filhos e o imitam em seus valores e princípios e não simplesmente o imitam na forma e na externalidade da vida.

Os atributos comunicativos da igreja. 

Além de se entender que estes atributos são, como atestam a teologia sistemática, atributos comunicáveis de Deus aos seres humanos por meio de sua graça comum, a igreja empresta os mesmos para que através deles a comunicação da verdade do cristianismo seja revelada aos povos que nunca ouviram de Cristo ainda. Assim, devem-se afirmar os qualificativos ou marcas da igreja não de forma apenas apologética, mas sim, como é de modo participativo e ativo na natureza da comunidade como agente do Reino de Deus.

Uma comunicação em Unidade: É o primeiro passo para a missão[15] . O conceito de unidade não significa juntar indivíduos ou denominações como pedaços de um quebra cabeça, para formar um todo maior. A concepção de São Paulo é que o todo define a identidade das partes, sendo mais que a soma delas. Nesse sentido a igreja é como um clã ou uma tribo. A importância é que Deus fez de cada um deles uma parte funcional de todo o corpo. Aqui o conceito é que se há unidade há comunicação e esta é clara por natureza. O contrário também é verdade. Se não houver unidade real e palpável, a igreja ou a comunidade inserida num contexto real, jamais conseguirá comunicar a mensagem do cristianismo. Isso é verdade porque o cristianismo não está solificado em bases verbais e sim em atos e gestos.

Van Engen afirma categoricamente que “O conceito de Corpo de Cristo quebra tanto o individualismo ocidental como o conformismo marxista.” Não há como pregar uma unidade etérea, utópica, invisível, descomprometida com o seu contexto. A comunicação é o resultado inequívoco deste atributo.

O impacto do corpo de Cristo num contexto com esta marca é mais forte do que uma mensagem pregada oralmente e desconectada com a vida. Mesmo que esta desempenhe uma Comissão como no início da igreja.[16] Nesta questão, o corpo que cresce [17] e se desenvolve e porque cresce, através de seus dons ao mundo, o faz de maneira que causa impacto no mundo, por meio de uma comunicação específica e contextual.

Uma comunicação em Santidade: Esse é o segundo passo para a missão [18]. A santidade é algo que se recebe pela fé, como Corpo de Cristo. Em Efésios 1.1-14, pode-se ver ordenadas aqui as bênçãos que são recebidas da Trindade Santa. A comunicação está envolvida aqui onde envolve uma comunidade que ainda é pecadora e ainda não aperfeiçoada e suas práticas humanas devem ser buscadas e modificadas como afirmam os textos citados abaixo. A santidade e a comunicação estão estreitamente ligadas, pois conquanto a unidade trabalhe o caráter, a santidade trabalhará sua pratica. É na prática da vida comum e não litúrgica que a comunicação será mais ou menos impactante. O Corpo de Cristo deve exercer a santidade nas situações cotidianas como manifestação da santidade da igreja.[19]

Uma comunicação em Catolicidade: A Universalidade é o terceiro passo para a missão[20] . Não se pode conhecer uma comunidade se o Cabeça for estabelecido claramente. Este Cabeça se encontra com a vida, natureza e missão na pessoa de Jesus Cristo.[21]  

Karl Barth afirma categoricamente: “A igreja é vista como Corpo de Cristo porque de fato se origina em Jesus e porque existe como corpo dele. Fora de Jesus, não há nenhum outro princípio para constituir, organizar e garantir esse corpo”. A comunidade de cristãos necessita abandonar os seus conoréis comunitários e eclesiásticos e líderes religiosos que se auto-denominam líderes no lugar de Cristo e assaltam a sua verdade, sua posição e Sua glória.

A universalidade da igreja deve ser aceita porque se reconhece como a manifestação da intenção universal de Deus em Cristo de uma plena comunicação não apenas não-verbal e sim encarnacional. Ao escolher um povo Deus tinha por finalidade alcançar o mundo todo. Essa finalidade só é permitida se houver encarnação e comunicação inteligível para que embora a comunidade seja vista como igual ao mundo no sentido social, ela será distinta no que se diz respeito a sua essência. Por ser para todas as pessoas, a igreja nunca pode deixar de convocar, de atrair todos a Cristo. O lugar da igreja é nas ruas e nas estradas como portadora de um convite especial.[22] A visão da igreja deve ser mundial e não apenas local, regional, nacional. Deve ser uma igreja para todos os povos e não um produto localizado. Esse atributo envolve a todos, indistintamente de sexo, condição social, lingüística, cultura, política e geografia. Enquanto as comunidades continuarem a formar guetos e templos, elas serão apenas a contradição do que Cristo fez enquanto comunicou a verdade do evangelho no meio da sociedade.

Conceitos que afirmam a finalidade da igreja local

Além de compreendermos a unidade não como uniformidade, a santidade como não segregação, a catolicidade não apenas como localização, a apostolicidade dá o colorido à existência da igreja que se revela nas comunidades mais plurais, que espalhadas pelo mundo, perpetram a expansão e pertencem à natureza da missio Dei. Esta apostolicidade da comunidade cristã se identifica com a sociedade tanto quanto se fizer comunicável ao mundo, em seu próprio contexto.

Uma igreja é apostólica quando compreende que sua comunicação que reflete em sua existência para o mundo. Dietrich Bonhöffer afirmava para sua geração: “A igreja só é igreja quando existe para outros”. A igreja existe para o mundo quando se comunica evidentemente como Corpo de Cristo e ao mundo é enviada como serva. Portanto absorver a identidade de ‘servo’ é a característica da igreja que comunica a verdade e a mensagem real de Cristo. Pois ao identificar-se com o Senhor seu envolvimento não poderá ser menor do que Ele realizou quando esteve aqui. A igreja não pode negar a sua natureza, que é servir ao mundo, pois se não o fizer perderá a sua condição de ser igreja.[23]

Moltmann afirma categoricamente: “As igrejas missionárias que não se desviam para o isolamento social, se tornam uma esperança viva em meio às pessoas”. A característica da igreja de existir para o mundo não é opcional. Não depende de estratégias, métodos ou estilos de ministérios pessoais, faz parte da existência da igreja. Extirpando esta característica a comunidade pode parecer uma igreja de Cristo, mas jamais o será.

A comunidade existe para o mundo quando ela manifesta o fato de ter sido “enviada”. O discipulado comprometido com uma apostolicidade comunicativa deve ser um “discipulado em movimento-para-o-mundo”. Van Engen afirma: “O discípulo que não sacrificar a própria vida pelo mundo e pelo evangelho da reconciliação não é digno de ser seguidor de Jesus Cristo”. Isso significa que  maior  e mais clara maneira de comunicar-se com o mundo sempre será o modelo encarnacional de Jesus. Jesus comunicou, porque foi enviado e porque foi enviado se encarnou nele, não se excluiu dele.

Esse envio se torna mais palpável quando se internaliza na vida comum dos cristãos, sem eventos, sem programas, sem planejamentos estratégicos.  Sua existência é tão ampla quanto o grau de abrangência do reino, que compreende os limites do senhorio de Cristo.

Uma igreja é apostólica quando se identifica com o desfavorecido. Van Engen mais uma vez afirma: “... a igreja, como ocorreu em qualquer outra época, tem a mesma dívida para com os pobres e oprimidos e a mesma responsabilidade pelo estado do mundo”.  Assim Isaias comunicava que o jejum que agradava a Deus passava pela responsabilidade social. Responsabilidade social comunica.[24] Deus não se agradava com a vida dos israelitas antes do exílio, quando os muitos sacrifícios no templo eram usados para se evitar a ajuda aos pobres, aos oprimidos e aos necessitados. Na igreja primitiva, o mesmo ocorreu. Por exemplo em Atos capítulo seis, as viúvas estavam esquecidas na assistência social e a comunidade agiu suprindo as necessidades das mesmas. Isso revelou uma comunicação tão profunda que a diaconia como área de atuação definida foi criada. Mas em Tiago ve-se a declaração de uma demonstração sobre o que na época era sinal da  verdadeira religião. Esta passava pela identificação com os menos favorecidos.

Tomando assim essas bases bíblicas, David Barret afirma categoricamente: “Em grande parte, a porção que os cristãos compartilham de dinheiro, saúde, propriedade e bens materiais poderia resolver a maioria dos problemas do mundo, dentre os quais a fome, a pobreza, as doenças, o desemprego, a falta de saneamento e assim por diante. Por esta causa, em certo sentido os cristãos são culpados pela persistência do atual estado de coisas”.

Uma igreja é apostólica quando se comunica por meio de uma missão encarnacional. Da mesma maneira que Cristo foi enviado assim a comunidade deve ser enviada.  Quando Deus desejou se comunicar, se encarnou. Foi na igualdade que Deus fez a diferença. Quando se fala em ação apostólica, fala-se de uma igreja dinâmica que não pode se fechar ou enclausurar em si mesma. Que se desejar revelar o Cristo verdadeiro, deve descer de seu pedestal e andar com o pecador, chorar suas dores, submeter-se aos seus limites, fazer-se um com ele. A igreja torna-se missão comunicativa ao seguir o Senhor como comunidade apostólica em movimento dinâmico constante e contextual, anunciando o evangelho do reino da luz no meio das trevas. Van Engen explica:

“Missionários e pastores não tem dado o devido peso a esta ação apostólica, ou missão. Muitas vezes a missão é relegada a uma daquelas sonhadas categorias a que esperamos chegar algum dia em nosso ministério... enquanto isto, congregações muitas vezes relegam a “missão” à categoria de resto, dando prioridade às necessidades internas da congregação e dos membros. A missão chama-nos a um re-exame radical. Se ela faz parte da essência da natureza da igreja como corpo de Cristo e povo de Deus, então deve ser a primeira da lista”.

A finalidade comunicativa da igreja local

Aqui o texto bíblico na Primeira carta de Pedro em seu capítulo segundo expressa muito bem a finalidade comunicativa da igreja. Os eleitos e sacerdotes do novo reino, são conclamados a “proclamar as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”.[25] É importante ressaltar que o conteúdo da proclamação são virtudes de Deus. Virtudes necessitam ser proclamadas e anunciadas, bem como reveladas. Aqui está a comunicação verbal e não-verbal da comunidade de cristãos. Ela existe para comunicar estas virtudes, pois senão as comunica, ela perderá a sua razão de ser. Ora, a comunicação necessita ser realizada de maneira encarnacional. Quando se fala encarnacional, está se dizendo que não haverá comunicação que não seja intelegível e lógica e que toque as realidades humanas e que falam ao coração do povo recipiente da nova mensagem.

Como então definir sua finalidade observando essa ênfase petrina? Sendo em âmbito  local, regional ou nacional, ou mesmo transcultural ou internacional, a igreja tem que comunicar virtudes que façam sentido ao coração e a mente do povo. É de tamanha ignorância e falta de biblicismo, quando se comunica o que não se entende. O que se comunica e se nomeia como evangelho, seu conteúdo é falsificado pelo lastro cultural do emitente, sua cultura, sua língua, seus regionalismos. Sem falar ao coração dos que recebem a verdade, não haverá acolhimento da verdade e sim sincretismo. Então a questão não é apenas proclamar, mas proclamar virtudes que sejam absorvidas como virtudes palpáveis e não etéreas.

Para que as verdades sejam comunicadas, a comunidade local deve desenvolver o que se chama de koinonia. A comunhão entre os cristãos é o primeiro passo para a proclamação de virtudes. Comunhão envolve o amor ágape, assim sendo a koinonia exercitada por Jesus de Nazaré e ordenada aos seus discípulos está aqui implícita. João 13.34 e 35 afirma: “todos conhecerão que sois meus discípulos se tiverdes amor uns para com os outros”. A koinonia tende a desenvolver relações que estão baseadas na unidade e não na uniformidade.

Aqui a igreja se revela como comunidade quando se comunica entre si com aquelas virtudes que comuns e que formam a unidade da igreja. Sem esta virtude, não há comunicação, acolhimento e o abraço na comunidade, pois se a comunidade apenas vive uma uniformidade de idéias, de comportamentos, de costumes, de cultura, de língua de regionalismo, não haverá missão em unidade e sim uma missão em deformidade, distorcendo a própria comunicação do conteúdo do evangelho que vai sendo absorvida e acolhida fora do contexto igreja.

A igreja como comunidade é aquela que se comunica. Se não comunica, é apenas uma instituição e não igreja de Cristo. Tome-se por exemplo o “colégio apostólico” ou mesmo a igreja em Antioquia da Síria. A pluralidade de dons e cultura deve ser o contexto para que haja comunidade. Para muitos hoje em dia a igreja nada mais é do que uma comunidade em que seus membros, comunicam-se num mesmo linguajar, vestem as mesmas roupas, e se comportam por meio de estereótipos estranhos a comunidade em geral.

Unidade e não uniformidade deve ser buscada urgentemente pelas comunidades cristãs. O amor que se prega deve ser vivenciado e entendido na diversidade e vivido na mutualidade. (Jo 13.34-35; Rm 13.8; 1 Pe 1.22). Havendo comunicação nestes termos, não será difícil se comunicar fora do âmbito eclesial, porque todos vivem a realidade do que é autóctone e não estrangeiro.

A koinonia é o estilo de vida esperado pelo povo de Deus ( Lv 19.18; Pv 20.22; 24.29), é a síntese da Lei (Mc 12.29-31). Mas por que este mandamento e considerado novo sendo na verdade antigo? Charles Barrett afirma que ele “corresponde ao mandamento que regula a relação entre Jesus e o Pai” (Jo 10.18; 12.49-50; 15.10). Fica claro aqui que enquanto duas personalidades distintas, com vontades e ações distintas, estão essencialmente unidas em uma só substância. A comunicação se faz presente na diversidade da Trindade Santa.

Assim Van Engen afirma que “o amor dos discípulos uns pelos outros não é meramente edificante, mas revela o Pai e o Filho”. Essa revelação se dá por meio de uma comunicação clara entre eles. É no amor mútuo,por meio de uma comunicação contextual que os seus seguidores reproduzirão o amor que o Pai mostrou ao enviar seu Filho, o amor que o Filho mostrou ao entregar a vida”, como afirma Charles H. Dodd.

Esta koinonia não é meramente um sentimentalismo provocado pela emoção, mas sim um tipo de ação que o Pai e o Filho assumiram para si por amor ao mundo. Se a igreja não for comunidade comunicativa de amor, a Palavra e  o sacramento são um esforço em vão. E assim pode ela estar na situação de uma igreja de final de século (Ap 2.4).

A própria koinonia envolve o kerygma, que é traduzida por proclamação do Senhorio de Jesus Cristo. Cristo é o Senhor. O senhorio de Cristo impulsiona a igreja para fora na proclamação do evangelho ao mundo. Harry Boer diz: “Há um elo entre o ensino neo-testamentário do senhorio de Cristo e o propósito universal de Deus”. ( Rm 11.25-26; 16.25; Ef 1.9-10; 3.3-11; 5.32; Cl 1.26-27 e 1 Tm 3.16). O senhorio de Cristo não é apenas  um senhorio na igreja e sobre o indivíduo que crê, mas sim  senhorio com proporções cósmicas e universais” (At 4.25-30). Aqui encontra-se a necessidade de se proclamar corretamente o conteúdo do kerygma.  A comunicação kerygmática “Jesus é o Senhor” obrigatoriamente implica em movimento para fora, em direção ao mundo, às nações. “Jesus é o Senhor” significa “Jesus é o Senhor do mundo” (Mt 28.19-20; Cl 1.15-20). “Não se pode confessar que Jesus é o Senhor sem ao mesmo tempo, proclamar o seu senhorio sobre todos”. A comunicação Cristo é o Senhor é a marca distintiva da igreja missionária (Fp 2.9-11). Charles van Engen afirma: “Jesus Senhor de todas as pessoas, de toda a criação e da igreja, envia seu povo para um encontro radical com o mundo”.

Isso faz nascer uma necessidade de uma energia que impelem a igreja para a frente, em seu amor que brota para fora por meio da confissão para chegar à ação ou seja à Diaconia.

A unidade está baseada em seu conteúdo que é o kerygma. As comunidades envolvidas pelas virtudes de Cristo são agora levadas a anunciar aquilo que lhes é comum e não o que lhes é estranho ou não-essencial. A mensagem do Cristo ressurrecto e seu Senhorio deve ser anunciada de acordo com o contexto, embora preservando a sua essencialidade (Rm 10.9; 1 Co 12.3). Embora os termos sejam mantidos hoje em dia, a comunicação do kerygma se dá apenas em termos muito “etéreos” e romantizados. Quando as comunidades locais proclamassem que Cristo é o Senhor, esta pronunciação teria uma conotação muito forte do ponto de vista ético na sociedade contextual que cada comunidade vive. As conseqüências éticas do Senhorio de Cristo têm a ver com a injustiça social, a ética política, a má distribuição de renda, a exploração dos poderosos e tantas outras questões que levarão a igreja em seu sentido lato a sofrer perseguição pelo Estado.

A terceira característica comunicativa na missão da igreja é o que se denomina diaconia (Mt 25.30,45).  Nas palavras do Senhor quando fizestes a um destes meus pequeninos, a mim o fizestes. É a igreja de Cristo servindo ao mundo sem Cristo, são comunidades inteiras compreendendo que vivem não para serem servidas e sim para servir ao mundo. Oferecendo-se, renunciando e doando do que possuem em prol de um mundo em decadência progressiva.

Assim definiu Donald McGravan: “a igreja é a comunidade dos crucificados”.  Assim definia Cristo: “o servo não está acima de seu Senhor” (Mt 10.24; Jo 13.16; 15.20).  As experiências do discípulo serão as experiências de seu mestre (Mt 10.18). Assim Jesus exemplificou por meio do ato mais baixo e vil, quando tomou uma toalha e lavou os pés dos seus discípulos (Jo 13.16). Não pode ser diferente. A postura do discípulo é indubitavelmente servir com humildade (Jo15.20) Sem dúvida o servo padecerá perseguição.  A diakonia promove a característica daquele que serve segundo a sua natureza. Servos que são identificados com o Servo Jesus. (Is 42.1-4; 50.4-6; 52.13)

Quando os pecadores são unidos eficazmente a Cristo Jesus, começa uma caminhada na qual estes são desafiados a se identificarem com Ele e com seu discipulado e comissionados a se envolverem em seu projeto de vida cristã. A grande ênfase na vida e ministério de Jesus foi o serviço. Jesus chama não apenas para um envolvimento com ele e seus princípios, mas também para uma identificação com seu estilo de vida. Assim, a identificação com Cristo não é suficiente a menos que haja envolvimento com ele também. O profeta Isaias ajuda a compreender este aspecto do caráter do servo do Senhor, o Messias. Embora sendo o Messias, Ele manifestaria princípios paradoxais em relação aos princípios do mundo.

Os servos não necessitam de autopromoção: (42.2). “Não fará ouvir sua voz na praça”. Jesus não ensina a autopromoção diante das pessoas. Conquanto se viva em uma sociedade que enfatiza a necessidade de fazer o que for possível para as grandes conquistas, não deve ser essa a ênfase que deve marcar a vida. Essa característica é inerente daqueles que não são conhecedores do Deus soberano. É melhor ser reconhecido por Deus do que exaltado pelos homens. Hoje, há muita gente se envolvendo com o ministério com motivações estranhas às de Cristo. Principalmente no ministério são tentados a autopromoção esquecendo a virtude especial: a descrição pessoal.

Os servos possuem um profundo respeito pela personalidade humana. 42.3. “Não esmagará a cana quebrada..., em verdade promulgará o direito”. Servos parecidos com Jesus, são  encorajadores de fracos. Eles não esmagam ou condenam, mas encorajam e levantam os que estão desalentados. A sociedade tem impregnado a filosofia do lucro a qualquer preço, abandonando e deixando para trás os que não tiveram o direito de se aperfeiçoarem. Os que competem ou concorrem sempre ficarão à margem dos princípios do discipulado de Jesus. No vocabulário do servo do Senhor devem ser encontradas palavras como cooperação, respeito, mutualidade, reciprocidade, encorajamento, auxílio, ajuda, apoio e dedicação aos outros. O ministério precisa conter estas palavras, senão haverá apenas bons profissionais sempre na busca de um bom emprego eclesiástico.

Os servos possuem um espírito de perseverança (Is 42.4). “Não desanimará, ...até que ponha na terra o direito”. Embora não haja glória ou sucesso a curto prazo, eles continuam servindo sem esperar recompensa. Uma das características do Servo do Senhor foi a determinação com que Jesus levou avante seu projeto em salvar a humanidade. Há uma urgente necessidade de se lutar contra o mal do imediatismo. À curto prazo compromete-se ministérios em troca de mudanças superficiais. Pensando em resultados imediatos, usa-se de artifícios pragmáticos que podem “encher os olhos” com números, prejudicando até mesmo o conteúdo da fé e da conversão a Deus. Ministérios relâmpagos são uma tragédia para a igreja e para o Reino de Deus.

Os servos possuem um coração ensinável (Is 50.4,5). “O Senhor Deus me abriu os ouvidos e eu não fui rebelde”. Diariamente os servos ouvem e atendem a Palavra de Deus. Eles recebem o alimento como benefício não apenas para si, mas para o enriquecimento de outros para que os cansados e oprimidos sejam sustentados. Mas sobretudo, são ensináveis e tratáveis. Os servos manifestam humildade por aprender, pois entendem que o aprendizado vem para o crescimento. A arrogância e a soberba são características da imaturidade e da indolência espiritual. Os que mais sabem, devem ser os que mais buscam servir os outros e respeitar os que os ensinam.

Os servos compreendem a sua vulnerabilidade, (50.6). “Não escondi o rosto aos que me afrontavam”. Servos fiéis não estão isentos das feridas ou da humilhação que sofrerão dos inimigos da cruz de Cristo. Embora lutemos contra o sofrimento pessoal, o discipulado de Jesus nos prepara para encontrarmos provações e tribulações, lutas e perseguições. O apóstolo Paulo já dizia: “os que desejam viver piedosamente em Cristo, serão perseguidos”. Não podemos nos encastelar nem construir poderios eclesiásticos. Pelo contrário, somos chamados a estar no meio do povo pregando fielmente a palavra, mesmo que para isso nos tornemos vulneráveis. Mesmo assim, os servos de Deus devem estar seguros e crerem: “Não serei envergonhado”(50.7-9).

Os servos serão exaltados por Deus, (52.13) “será exaltado e elevado”. O método do Senhor é baseado no paradoxo. “Aquele que se humilhar, será exaltado”. Os servos fiéis conquanto humilhados pelos homens, serão exaltados por Deus. A esperança viva não morre. Durante nossa peregrinação devemos lutar por viver segundo os princípios do Mestre, sabendo que lateja dentro de nós aquele dia quando o Senhor nos tomar e nos levar em glória para habitar com o Senhor para todo o sempre. A fidelidade a Deus é imprescindível para sermos agradáveis a Deus.

Envolver-se com Jesus, significa estar pronto para se identificar com Ele, desde sua maneira de pensar até sua conduta. Não haverá ministros que preguem sua Palavra com fidelidade, sem antes não buscarem viver com fidelidade as máximas de Seu discipulado. Os melhores líderes são aqueles que servem.

O conceito de servo vai se ampliando conforme a revelação vai progredindo dentro do cânon bíblico. Ele está diretamente envolvido com o testemunho (martyria) e com o ato de servir aos outros, não importa a quem. Isso equivale a dizer que este participará e enfrentará diretamente o sofrimento. Palavras referentes ao servo são registradas nas Escrituras e de acordo com o contexto elas são modificadas. Não deixam de desqualificar o servo mas de especificá-lo, tais como: doulos que é o serviço como escravo. Therapeuos que é disposição para um serviço em favor de outros fisicamente, envolve um tratamento de saúde. Leiturgountos é o serviço  de culto, de ministração como liturgo. O servo do mestre envolve o verbo hypereteouo. E o diakonos é o serviço muito pessoal a outra pessoa

A última parte de Mt 25.31-36, envolve o julgamento final e o serviço diaconal. Aqui é exposta por Jesus a imagem de prestação de contas dos mordomos. Esta visão comunicativa do cristianismo é tão forte que ela se torna palpável na vida da igreja primitiva (Atos 2.42-47 e 4.32-5,1), como também na necessidade de sua institutição com pessoas com os dons peculiares (Atos 6.1-7 e At 9.36-42).

Não há como negar a comunicação do cristianismo passa pela diaconia porque é o ministério eclesial das mãos e dos braços. Assim pode-se afirmar que não há cristianismo verdadeiro sem a comunição diaconal por meio da koinonia. A igreja deveria ser então uma comunidade diaconal de amor. (II Co 8.4; Tg 1.27). Charles van Engen afirma: “O ministério diaconal é a manifestação inevitável e necessária da natureza essencial da igreja como comunidade dos discípulos de Jesus.” A diakonia não é simplesmente uma coisa boa, é a natureza fundamental da igreja cristã. Ministrar a todos os necessitados de todos os lugares. Quando a igreja missionária de Deus deixa de lado o ministério diaconal, algo de sua natureza missionária deixa de existir.

Por fim a finalidade comunicativa do cristianismo é a martyria. É a comunicação que revele o compromisso martírico de cada cristão. Isso é, levar até o fim seus conceitos e valores e sobretudo a graça pregada e comunicada por meio do kerygma ( Is 43.10,12; 44.8; At 1.8; 2Co 5.20). Ao enfatizar “... sereis minhas testemunhas” Jesus chama os seus para que comuniquem a verdade mesmo diante da morte. Esta reconciliação que envolveu sua vida na comunicação da morte, envia homens e mulheres para comunicarem vida ao proclamarem: “.... que vos reconcilieis com Deus”.

Deste modo, a igreja é uma comunidade de testemunhas, martyres, porque comunica-se como testemunha judicial de fatos, porque revela ser testemunha de fatos na profissão de fé, mas é também testemunha ocular da natureza do Cristo encarnado. Por isso o mundo poderá tornar martírica a comunicação da igreja. “As pessoas que não conhecem a Jesus devem conhecê-lo na presença, proclamação e nos atos e palavras persuasivas da Igreja”. Os discípulos são reconhecidos como embaixadores de Cristo (2 Co 5.18-21).

Conclusão

A missão comunicativa do cristianismo sempre se deu em contextos específicos. A começar de Jesus e percorrendo a história da igreja, a tendência foi à opressão aos povos ao invés de libertação deles todas as vezes que foi uma incógnita e não se  comunicou a estes de maneira contextual. Ainda hoje o cristianismo ocidental vem oprimindo e não libertando, seja na maneira como comunica a verdade de Deus, quando muda a graça em Lei ou quando torna a sua liturgia um culto “oculto” diante dos olhos de muitos. Cabe aqui a expressão de resgate e redescobrimento da verdade da graça por meio dos seus pregadores e mestres. Quando as formas se tornam um fim em si mesmo, quando a liturgia não comunica e faz de Deus um ser longínquo e intocável, quando as variadas versões bíblicas são incompreensíveis ao povo. Neste caso é necessário mais do que simplesmente uma busca por avivamento, e sim uma busca por redescoberta da comunicação missionária.

Aqui deve-se entender claramente que seguindo a tradição da teologia reformada o Espírito Santo não usará a Escritura a menos que ela seja compreensível às mentes por que Deus não está preocupado com a forma literal da comunicação mas com o sentido essencial das mesmas. É necessário uma auto-crítica séria de como o cristianismo se faz igreja hoje e para isso necessita-se de coragem para mudar e transformar a igreja mais parecida com a humanidade de Jesus e menos com seu auto-endeusamento, senão jamais se entenderá o Cristo encarnado que se fez gente, para salvar o perdido, curar o doente e levá-lo a experiência de uma nova criação.

Soli Deo Gloria


[1] Nasser, Antônio Carlos – Uma Igreja apaixonada por Missões – Editora SEPAL, 1996.
[2] Mateus 10.16
[3] Mateus 10.28
[4] Charles van Engen, mexicano, reformado, é professor no Fuller Theological Seminary e diretor do PRODOLA – Programa Doctoral Latinoamericano, UNELA – Universidad Evangélica de lãs Américas.
[5] Charles van Engen. Povo missionário, povo de Deus. Editora Vida Nova, SP, 1991.
[6] Mateus 13.31-33
[7] Efésios 4.12
[8] Charles van Engen. Povo missionário, povo de Deus. Editora Vida Nova, SP, 1991.
[9] Deve ser compreendido que “gestos e palavras” são sinônimos de uma ação integral, que revela a comunicação integral do cristianismo em seus mais diversos contextos.
[10] Johannes Blauw. A natureza missionária da Igreja, p. 120.
[11] Charles van Engen. Povo Missionário, Povo de Deus, p.35.
[12] Segunda Epístola de São Pedro 4.10.
[13] Igreja
[14] Comunidade
[15] Efésios 4.1-16
[16] Mateus 28.18-20
[17] Efésios 4.13,15,16
[18] Efésios 1.1-14; 4.17 – 5.5; 5.6-6.20; 3.14-21.
[19] Efésios 5.6-6.20.
[20] Ef 1.15-23; 2.1-23; 3.1-13
[21] Charles van Engen. Povo Missionário, Povo de Deus. Editora Vida Nova, São Paulo.
[22] II Co 5.19-21
[23] Jo 20.21; Jo 15.13; Mt 10.39
[24] Isaias 58.1-ss
[25] I Pedro 2.9

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