domingo, 2 de junho de 2013

O Caráter Encarnacional da Missão




Há muita propaganda e pouca identificação. Há muito turismo missionário e pouca inserção. A pergunta que deve ser feita é: “Como a Igreja está missionando nos dias atuais?”. Conquanto haja uma avalanche de vozes enfocando a obra missionária, a sua urgência e sua importância é igualmente essencial que sejam avaliados e colocados sob a luz das Escrituras. A Igreja cristã deve ser corajosa para avaliar as suas estratégias, seus métodos e táticas que usa para comunicar o Evangelho do Reino ao mundo. Parece que não é suficiente usar o marketing e a mídia para o anúncio das Boas Novas. Muito mais do que simplesmente a Igreja usar do turismo missionário para conhecer e manter trabalhos denominacionais em locais de difícil acesso nos interiores do país, ela precisa estar disposta a encarnar-se neste mundo, para que seja relevante e cumpra a Grande Comissão de modo integral. 

A Igreja necessita muito mais do que um avivamento para recobrar a sua natureza missionária. Há uma necessidade urgente de uma restauração motivacional acerca da missão da Igreja, partindo da confiança e interpretação correta da Palavra de Deus, rejeitando qualquer postulado fundamentado no pragmatismo e no experiencialismo humano. Para que a Igreja compreenda sua missão segundo o caráter encarnacional é impostergável que ela passe por uma reforma ampla e profunda de suas práticas missionárias.

A Igreja de hoje torna-se o reflexo da vida da sociedade. A estrutura social que se vive, está solidificada em bases do consumismo e do capitalismo selvagem, onde indivíduos vivem em função de possuir as coisas. A idéia de sucesso segundo o mundo passa pela motivação do egoísmo e do individualismo. A concepção de civilização está baseada ainda na visão de culturas e sub-culturas que se adéqüem à Ciência e à Tecnologia. Atualmente, ainda existem no mundo as mesmas lutas pela igualdade social e racial. Povos continuam a se enfrentar e a filosofia discriminatória é base da educação familiar destas raças.

O mundo tem contemplado atônito, etnocídios de povos que vivem em conflito a centenas de anos. Em contrapartida, no mundo ocidental a Globalização tem gerado um desnível social e econômico nunca visto. Os países economicamente ricos dominam, controlam e oprimem os países pobres dependentes.

No plano religioso, a Igreja enfrenta problemas semelhantes. Com as melhores motivações possíveis, a Igreja Protestante do século dezenove não conseguiu apagar a imagem de uma missão vinculada ao imperialismo ocidental sobre os povos do Terceiro Mundo. 

Se há uma Missão da Igreja ao mundo, ela não pode ser feita, sem as bases teológicas e missiológicas que emergem da Palavra de Deus. Para que a Igreja cumpra a sua Missão segundo um caráter encarnacional, há necessidade de se buscar uma teologia com o verdadeiro conteúdo do Evangelho do Reino. A superficialidade da interpretação do Evangelho tem gerado uma contextualização superficial. René Padilla discute a questão tratando da importância de se absorver profundamente, não somente as conseqüências soteriológicas da Cruz como também a sua ética. Diz o referido missiólogo: 

A cruz não é somente a negação da validade de todo o esforço do homem para ganhar o favor de Deus por meio das obras da lei; é também a exigência de um novo estilo de vida caracterizado pelo amor totalmente oposto a uma vida individualista, centralizada em ambições pessoais, indiferente frente às necessidades do próximo. O significado da cruz é ao mesmo tempo soteriológico e ético. E isto é assim porque, ao escolher a cruz, Jesus Cristo não somente deu forma ao indicativo do evangelho, mas simultaneamente também proveu o modelo para a vida humana aqui e agora.[1]

Se há alguma causa da Igreja não missionar de maneira completamente contextual é porque há uma falha na concepção do que seja o Evangelho da Cruz, que começa com a humilhação de Cristo ao se encarnar e encerra-se com a glória à destra do Pai. A Igreja precisa conhecer profundamente as conseqüências de sua eleição baseada no amor incondicional de Deus e transmitida na ação encarnacional do Filho. 

Há um déficit teológico na Igreja atual que resulta em uma débil contextualização do Evangelho. O problema de uma fraca contextualização é a falta de reflexão teológica profunda e relevante. Embora a Reforma tenha restaurado a Escritura como Palavra de Deus, a Igreja tem freqüentemente usado superficialmente esta Palavra para entender a obra missionária. Logo, a Igreja precisa demasiadamente retornar a uma teologia de missão fiel à Palavra.

Se a Teologia da Cruz está diluída, as conseqüências serão de uma evangelização nominal sem os resultados integrais do Evangelho do Reino. Valdir Steuernagel descreve esta questão com propriedade. Assim afirma: 

A nossa evangelização deve estar a serviço de um evangelho que afeta a pessoa toda em todas as áreas de sua vida. Isto quer dizer que o evangelho, embora seja pessoal, tem um forte colorido coletivo: é individual, mas tem uma inerente dimensão social; é uma mensagem de conforto, mas pede um compromisso ético; desencadeia uma espiritualidade terapêutica e leva a um inequívoco pacto com a justiça; produz igreja, mas uma igreja que deve estar concretamente enraizada na comunidade global dos seres e na busca desta por uma vida justa e digna. Quanto mais estivermos a serviço deste evangelho integral, que afeta todas as áreas da vida, tanto mais estaremos a serviço do Deus Trino. E esta será adoração verdadeira que, como o sacrifício de Abel, será acolhida nos céus.[2]
Outra questão que deve ser levada em consideração é que a contextualização está estreitamente ligada, não somente a compreensão de uma teologia bíblica que expõe os valores da cruz e do evangelho, mas também é motivada pelo modelo apostólico de Cristo. 

A missão da Igreja deve ser motivada pela missão encarnacional de Cristo. É imprescindível que seja observado aqui, princípios que nortearam a missão de Cristo ao mundo. A base textual é: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). Carlos del Pino comenta:

Um fator de grande importância quando vemos a missão da Igreja na perspectiva do apostolado de Cristo é que o próprio Senhor Jesus Cristo, como o enviado do Pai, torna-se o modelo vivo para que a Igreja realize sua missão. Há um modelo estabelecido aqui. Somos enviados como Igreja, seguindo o padrão que o Pai usou para enviar a Jesus.[3]

Este modelo deve estar vinculado à motivação da missão do Filho. Outra base textual é: 

Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando em semelhança de homens e reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz. (Fp 2.5-11). 

Estes dois textos auxiliam a Igreja a compreender a sua missão, a abrir mão dos seus direitos, abdicando da situação estável, do conforto, da tranqüilidade, para escolher o modelo da encarnação messiânica. A verdade que a Igreja somente cumpre a sua função missionária que reflete a sua natureza, quando está missionando contextualizando-se, em meio à instabilidade, às dificuldades, aos riscos de se viver encarnada no mundo e na sociedade. A eleição assim deixa de ser um privilégio para tornar-se uma responsabilidade de interagir no sofrimento e na deficiência do mundo. A teologia da cruz e a missão integral buscando a redenção do homem em sua integralidade humana deve Ter como motivação maior o exemplo do envio de Cristo. Enquanto a Igreja não “arregaçar as mangas” e “colocar os pés na lama”, a evangelização não será profunda na vida do ser humano. 

David Bosch caminha nesta mesma vereda. O missiólogo assevera: 

“Por causa da presença do Senhor no meio de seu povo, a Igreja pode ser considerada a despeito de sua pecaminosidade, como a continuação de Jesus Cristo, de sua encarnação no mundo”.[4]

Há outro fator que deve também ser considerado. A identificação com Cristo tende a gerar um envolvimento com o mundo. Muito diferente do que as ênfases monásticas pregam a Igreja eleita, santa, e propriedade exclusiva de Cristo é aquela que, partilhando dos mesmos ideais do Mestre está no meio da sociedade para mudá-la sendo luz do mundo e sal da terra. O envolvimento com o mundo tem propósitos que o missiólogo René Padilla expõe: 

O propósito da evangelização é, portanto, conduzir o homem não meramente a uma experiência subjetiva da salvação futura da alma, mas a uma reorientação radical de sua vida, a uma orientação que inclui sua libertação da escravização ao mundo e seus poderes, por um lado, e sua integração ao propósito de Deus de colocar todas as coisas sob o governo de Cristo, por outro. O evangelho não se dirige ao homem em um vazio. Ele tem a ver com o movimento do homem da velha humanidade em Adão, que pertence a esta era, à humanidade em Cristo, que pertence à era vindoura.[5]

É claramente comprovado que Cristo, não somente se encarnou e viveu no mundo, em meio às vicissitudes do mesmo, como também se envolveu com o sofrimento humano, buscando o homem pecador, destituído da glória de Deus, libertando-os das conseqüências da queda e conduzindo-os a uma reintegração não somente subjetiva, mas também objetiva no que diz respeito à verdadeira relação com Deus e com a vida humana.

Contudo, a encarnação missionária da Igreja não somente deve ser orientada pela identificação com Cristo e o envolvimento prático com o mundo, esta também precisa avaliar os contextos específicos onde o evangelho está sendo comunicado. Padilla acentua esta questão dizendo: “Para que o Evangelho não seja somente aceito intelectualmente, mas também vivido, ele necessariamente deverá tomar forma dentro de nosso próprio contexto cultural”. [6] e há quatro décadas atrás, Bavinck já se preocupava com esta orientação: “Um missionário precisa cuidadosamente tomar por conta a situação específica e circunstancial do povo com os quais ele está negociando”.[7].

É extremamente sério e importante que a Igreja compreenda que não é suficiente para ela, pregar um evangelho que não produza mudança de vida no indivíduo. Padilla enfoca seriamente esta questão, i.e. Para que haja transformação histórica a Igreja precisa missionar submetendo-se a contextos específicos culturais e históricos, em sua evangelização. Diz o referido escritor: 

Na medida em que a Palavra de Deus se encarna na Igreja, o Evangelho toma a forma na cultura. A intenção de Deus não é que o Evangelho se reduza a uma mensagem verbal, mas que se encarne na Igreja e através dela na história. A Igreja autóctone é aquela que em virtude da morte e ressurreição em Cristo, encarna o Evangelho dentro de sua própria cultura. Adota um estilo de vida, pensamento e ação em que seus próprios padrões culturais sejam transformados e realizados plenamente pelo Evangelho.[8]

E Tito Paredes acrescenta:

Assim como é fundamental ter sumamente claro o que é o evangelho e a missão da Igreja, igualmente importante é entender e compreender o contexto em que se proclama e vive a mensagem de Jesus Cristo. Assim como é crucial entender e ler adequadamente a Palavra de Deus, também é importante compreender o contexto sociocultural, já que o evangelho sempre é anunciado e vivido em contextos culturais específicos.[9]

Portanto, a Igreja quando se compromete com sua missão encarnacional no mundo, manifesta em plenitude a sua natureza missionária. É impossível ser Igreja e não estar no mundo, não se contextualizar. A chamada a uma auto avaliação de seus níveis de contextualização deve ser um de seus alvos, para que a Igreja mantenha sua natureza, pois do contrário, se ela não se encarnar poderá tomar uma forma aparente de Igreja, contudo será apenas uma organização religiosa, sem as máximas de Cristo Jesus, sem causar impacto na sociedade, e sem a manifestação da glória de Deus e da sua presença no contexto em que vive. 

Luiz Augusto C. Bueno, Recife, 2001.


[1] René Padilla, Missão Integral,(São Paulo: Temática Publicações, 1992), 35. 
[2] Valdir Steuernagel, A Grande Comissão: vamos lê-la de novo, em: A missão da Igreja,(Belo Horizonte: Missão Editora, 1994), 81,82. 
[3] Carlos del Pino, O apostolado de Cristo e a missão da Igreja, em Fides Reformata, Vol 5 n. 1, (São Paulo: CPPGAJ, 2000), 64. 
[4] David Bosch, Witness to the World (Atlanta: John Knox Press, 1980), 89. 
[5] Id., 38 
[6] René Padilla, Missão Integral, (São Paulo: Temática Publicações, 1992), 113. 
[7] Para compreender a preocupação missionária na área de contextualização, da transmissão e aborgadens missionárias, veja Johannes Bavinck, An Introduction to the Science of Missions, (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1960), 80-89. 
[8] René Padilla, Missão Integral, (São Paulo: Temática Publicações, 1992), 115. 
[9] Tito Paredes, Evangelho, cultura e missão: rumo a uma missiologia de transformação integral em Cristo, em: A missão da Igreja, Valdir Steuernagel, ed. (Belho Horizonte: Missão Editora, 1994, 243.

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