segunda-feira, 3 de junho de 2013

A postura do novo cristão diante do mundo pós-moderno


No seu livro “Sociedade Pós-capitalista” Peter Drucker afirma: “Nos últimos cem anos ocorreu uma transformação aguda no mundo ocidental. Nós cruzamos o que eu chamo de linha divisória. Dentro de poucas décadas, a sociedade foi transformada juntamente com a sua cosmovisão, os seus valores básicos, as estruturas políticas, as artes e as instituições-chave. E as pessoas da nova geração não podem nem imaginar o mundo em que seus avós viveram e no qual seus pais nasceram. Estamos vivendo tão somente uma transformação”. (1993, 1).

Estamos vivendo um novo tempo. David Bosch, missiólogo sul-africano afirma com sabedoria: “Este tempo é um período de transição de paradigmas e se caracteriza por um profundo sentido de incerteza e de fato a incerteza parece ser uma das poucas constantes da era contemporânea e um dos fatores que engendra fortes reações a favor da continuidade do paradigma do iluminismo". 

Assim, é necessário entender esta mudança da modernidade e o novo período chamado de pós-modernidade. Por exemplo, A modernidade sempre enfatizou o individualismo, contudo a pós-modernidade enfatiza o coletivismo. O Racionalismo sempre foi a tônica da modernidade, contudo o pós-modernismo acentua a Experiência como fator preponderante para as certezas da vida. O Positivismo marcou a época moderna, contudo a pós-modernidade desenvolve o espírito científico e materialista. Embora o Modernismo tenha descoberto que a tecnologia seria a solução dos problemas do ser humano, a pós-modernidade enfrenta a mesma com certa desconfiança e alguma desilusão por não ter resolvido todos os problemas da sociedade.

Diante destas mudanças de paradigmas a pergunta que faço é como o verdadeiro cristão encontrará a chave para missionar nesta nova sociedade tão desconfiada de si mesmo?

Outro pensador que tem influenciado inúmeros leitores é Marià Corbí Quiñonero. Para Corbí a espiritualidade hoje precisa passar por novos modelos. Partindo sobre os pressupostos de que o mundo passa por transformações e mudanças culturais, Marià Corbí entende que vivemos um grande trânsito cultural. Não há mais condições para um etnocentrismo ou o fundamentalismo coexistir com esta dinâmica, ainda que haja em países e culturas esta mentalidade, segundo ele, será inevitável a superação dessas formas de ver o mundo pela globalização e a secularização. Entendendo que as religiões foram desenvolvidas em uma época pré-industrial, e, que, portanto, as crenças e a maneira de ver o mundo passa pelo mito, pelos símbolos, pelas narrações sagradas, Corbí acredita que esta maneira de ver o mundo foi superada ocorrendo a primeira secularização. Esta se deu quando o cristianismo travou sangrentas guerras em nome de Deus, de forma inevitável, a secularização abarcou o Estado e a vida pública das pessoas, deixando a opção religiosa sob a escolha de cada um. Este processo teve como impulsionador o Iluminismo. Com isso Corbí entende que a crise religiosa não soube dialogar com seus contextos e influenciados pelo secularismo cada um hoje, escolhe a sua espiritualidade. É possível cada um criar a sua própria religiosidade. Cada um tem seu rebanho, seja ele virtual ou factual.

Do ponto de vista da tecnologia as coisas mudaram rápida e mundialmente. A transição da combustão ao processador de microchip foi a grande revolução. Assim também de maneira tão rápida a nossa eclesiologia se alterou. As pequenas comunidades do ocidente seguem decaindo e novas forças de cooperação missionária surgem juntamente com as “mega-igrejas” ao redor de todo o mundo. Em contrapartida quando pensamos na missão, julgo que haja muita propaganda e uma fraca identificação e inserção nos contextos missionados pelas comunidades cristãs. Elas desaprenderam a evangelizar a partir das comunidades dos primeiros séculos.

A nossa realidade social influencia diretamente nossa prática religiosa. A estrutura social vivida está acentuadamente baseada no Consumismo. Os indivíduos vivem em função de possuir tudo que podem ver, degustar e comprar. Embora Mariá Corbi acentue as mudanças estruturais, nossa civilização ainda está baseada na visão de culturas e sub-culturas adequadas à Ciência e à Tecnologia hodiernas. Atualmente, ainda existem no mundo as mesmas lutas pela igualdade social e racial. Povos continuam a se enfrentar e a filosofia discriminatória é base da educação familiar de muitas raças, ademais toda a performance cibernética. O mundo tem contemplado atônito, etnocídios de povos que vivem em conflito a centenas de anos. Em contrapartida, no mundo ocidental a Globalização tem gerado um desnível social e econômico nunca visto. Os países economicamente ricos dominam, controlam e oprimem os países pobres dependentes. No plano religioso, a igreja enfrenta problemas semelhantes. Com as melhores motivações possíveis, a Igreja Protestante do século dezenove não conseguiu apagar a imagem de uma missão vinculada ao imperialismo ocidental sobre os povos da Asia, Africa e América Latina. A superficialidade da interpretação do Evangelho tem gerado uma contextualização superficial. A marca da nossa superficialidade cristã está nas músicas que fazemos, na ética de praticamos e na mensagem que pregamos.

Assim devemos nos perguntar como missionar num mundo tão plural e diversificado? Como ser cristão neste tempo de tão grandes mudanças? A resposta é de que os cristãos de todo mundo, de todas as cores denominacionais devem se voltar para o caráter encarnacional do “Logos Divino”, como único meio para se viver o conteúdo do Evangelho do Reino.

O missiólogo René Padilla discute a questão tratando da importância de se absorver profundamente, não somente as conseqüências soteriológicas da Cruz como também a sua ética. Diz o referido missiólogo: “A cruz não é somente a negação da validade de todo o esforço do homem para ganhar o favor de Deus por meio das obras da lei; é também a exigência de um novo estilo de vida caracterizado pelo amor totalmente oposto a uma vida individualista, centralizada em ambições pessoais, indiferente frente às necessidades do próximo. O significado da cruz é ao mesmo tempo soteriológico e ético. E isto é assim porque, ao escolher a cruz, Jesus Cristo não somente deu forma ao indicativo do evangelho, mas simultaneamente também proveu o modelo para a vida humana aqui e agora.”[1] Assim, ademais todas as mudanças ocorridas nos séculos anteriores e as de nosso século somente podem ter uma convergência se a cruz e as resultantes dela forem vividas de novo pelos seguidores do Cristo verdadeiro. 

Há mais o que se fazer. Precisamos diminuir o déficit teológico ensinado e vivido nas comunidades cristãs. Este déficit teológico tem resultado em uma débil contextualização do Evangelho. A época moderna caracterizou-se pela influencia iluminista com uma estrutura filosófica escolástica. Todo movimento cristão ocidental desenvolveu-se nestes trilhos, tanto a teologia católica romana como a Teologia Evangélica. A teologia sistemática ensinada há séculos, promoveu um cristianismo de retaguarda apologético. Perdemos a possibilidade de diálogo frente às novas mudanças do mundo. Assim, o problema de uma fraca contextualização é a falta de reflexão teológica profunda e relevante a partir de uma Teologia Bíblica. Ainda o pensamento cristão missionário é escolástico devido ao uso superficial da Palavra para se entender a missão e sua contextualização. Logo, precisamos demasiadamente retornar a uma teologia de missão fiel a uma Teologia Bíblica. 

Se a Teologia da Cruz está diluída, as conseqüências serão de uma evangelização nominal sem os resultados integrais do Evangelho do Reino. Valdir Steuernagel descreve esta questão com propriedade. Assim afirma: “A nossa evangelização deve estar a serviço de um evangelho que afeta a pessoa toda em todas as áreas de sua vida. Isto quer dizer que o evangelho, embora seja pessoal, tem um forte colorido coletivo: é individual, mas tem uma inerente dimensão social; é uma mensagem de conforto mas pede um compromisso ético; desencadeia uma espiritualidade terapêutica e leva a um inequívoco pacto com a justiça; produz igreja, mas uma igreja que deve estar concretamente enraizada na comunidade global dos seres e na busca desta por uma vida justa e digna. Quanto mais estivermos a serviço deste evangelho integral, que afeta todas as áreas da vida, tanto mais estaremos a serviço do Deus Trino. E esta será adoração verdadeira que, como o sacrifício de Abel, será acolhida nos céus”.[2] Portanto, a encarnação de Cristo deve ser o modelo dos cristãos pós-modernos. Ele reafirmou a Grande Comissão: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). 

David Bosch caminha nesta mesma vereda. O missiólogo assevera: “Por causa da presença do Senhor no meio de seu povo, a Igreja pode ser considerada a despeito de sua pecaminosidade, como a continuação de Jesus Cristo, de sua encarnação no mundo”.[3] Não podemos abrir mão de encarnamos neste mundo. O discurso e a proclamação não fazem mais diferença na sociedade. O que melhor temos a fazer é o silencio de nossas bocas e o falar de nossos atos. A identificação com Cristo deve gerar um envolvimento com o mundo em todas as áreas da vida. Devemos banir movimentos evangelísticos impositivos, fruto do imperialismo e colonialismo europeu e estadunidense. Necessitamos alterar a mensagem de um evangelho "além túmulo", pois se a vida é eterna, ela começa agora e não no futuro. O ideal do Mestre é estar e viver no meio da sociedade para mudá-la naturalmente como luz do mundo e sal da terra. O envolvimento no mundo é o de uma integração, diálogo e vivência natural como o missiólogo René Padilla expõe: “O propósito da evangelização é, portanto, conduzir o homem não meramente a uma experiência subjetiva da salvação da alma, mas a uma reorientação radical de sua vida, que inclui sua libertação da escravidão ao mundo e seus poderes, por um lado, e sua integração ao propósito de Deus em colocar todas as coisas sob o governo de Cristo, por outro. O evangelho não se dirige ao homem em um vazio. Ele tem a ver com o movimento do homem da velha humanidade em Adão, que pertence a esta era, à humanidade em Cristo, que pertence a era vindoura”.[4]

Contudo, a encarnação missional dos novos cristãos não somente deve ser orientada pela identificação com Cristo e o envolvimento natural na sociedade, mas também precisa avaliar os contextos específicos onde o evangelho está sendo vivido. Padilla acentua esta questão dizendo: “Para que o Evangelho não seja somente aceito intelectualmente, mas também vivido, ele necessariamente deverá tomar forma dentro de nosso próprio contexto cultural”[5]. Há quatro décadas atrás Bavinck já se preocupava com esta orientação: “Um missionário precisa cuidadosamente tomar por conta a situação específica e circunstancial do povo com os quais ele está negociando”[6].

Os cristãos precisam compreender que não é suficiente mais discursar um evangelho que não produza mudança na sociedade. Padilla enfoca seriamente esta questão para que haja transformação histórica precisamos missionar submetendo-nos a contextos específicos culturais e históricos. Diz o referido escritor: “Na medida em que a Palavra de Deus se encarna na igreja, o Evangelho toma a forma na cultura. A intenção de Deus não é que o Evangelho se reduza a uma mensagem verbal, mas que se encarne na igreja e através dela na história. A igreja autóctone é aquela que em virtude da morte e ressurreição em Cristo, encarna o Evangelho dentro de sua própria cultura, adota um estilo de vida, pensamento e ação em que seus próprios padrões culturais sejam transformados e realizados plenamente pelo Evangelho”.[7] E Tito Paredes acrescenta: “Assim como é fundamental ter sumamente claro o que é o evangelho e sua missão, igualmente importante é entender e compreender o contexto em que se proclama e vive a mensagem de Jesus Cristo. Assim como é crucial entender e ler adequadamente a Palavra de Deus, também é importante compreender o contexto socio-cultural, já que o evangelho sempre é anunciado e vivido em contextos culturais específicos.[8]

Portanto, a encarnacionalidade é a chave para se viver como cristão em nosso mundo pós-moderno. É impossível ser um verdadeiro cristão e não estar no mundo se contextualizando. Precisamos de gente que pense e avalie os níveis de contextualização nos contextos mais variados e aqui não estamos falando de liturgia, mas de vida, de interação, de ética, de política, de economia e de comportamento. Pois do contrário, se não houver uma encarnação relevante dos novos cristãos, haverá sim uma contínua forma aparente de cristianismo, contudo será apenas mais uma a que os cristãos tentem viver dentro de uma sociedade e nunca conseguirão viver integralmente o verdadeiro evangelho daquele que se encarnou e viveu de maneira tão humana a sua divindade. 

[1] René Padilla, Missão Integral,(São Paulo: Temática Publicações, 1992), 35. 
[2] Valdir Steuernagel, A Grande Comissão: vamos lê-la de novo, em: A missãoda Igreja,(Belo Horizonte: Missão Editora, 1994), 81,82. 
[3] David Bosch, Witness to the World (Atlanta: John Knox Press, 1980), 89. 
[4] Id., 38 
[5] René Padilla, Missão Integral, (São Paulo: Temática Publicações, 1992), 113. 
[6] Para compreender a preocupação missionária na área de contextualização, da transmissão e aborgadens missionárias, veja Johannes Bavinck, AnIntroductiontothe Science ofMissions, (Phillipsburg: PresbyterianandReformedPublishingCo., 1960), 80-89. 
[7] René Padilla, Missão Integral, (São Paulo: Temática Publicações, 1992), 115. 
[8] Tito Paredes, Evangelho, cultura e missão: rumo a uma missiologia de transformação integral em Cristo, em: A missão da Igreja, Valdir Steuernagel, ed. Belo Horizonte: Missão Editora, 1994, 243.

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