segunda-feira, 3 de junho de 2013

A MISSÃO CRISTÃ NA ERA CONSTANTINIANA!



Se nos dois primeiros séculos, a Igreja manifestava sua natureza missionária cumprindo a Grande Comissão e preservando os princípios do Evangelho do Reino a ela outorgados de modo crescente e frutífero, os próximos séculos terão um diagnóstico desfavorável quanto este mister. A natureza missionária da Igreja preservada nos primeiros séculos, agora começa a ser diluída pela secularização da Igreja Cristã vinculada ao Império Romano, tendo como seu mentor, o imperador Constantino.

Neste período, Constantino torna-se a pessoa chave para a direção da Igreja (274-337). Este faz do cristianismo a religião oficial do Império Romano no ano 313 em que a sua população era de cinqüenta milhões. Dez por cento destes eram cristãos. As perseguições implementadas pelos antecessores de Constantino acabavam por dizimar povoados inteiros. Por meio do Edito de Milão, Constantino planta a semente da corrupção da Igreja, promovendo um sincretismo entre a religião cristã e as crenças dos povos subjugados por Roma. Embora fosse o período dos Concílios como o de Nicéia em 325 AD e Calcedônia em 471 AD, isto não impediu que a natureza missionária da Igreja se desvanecesse. A Igreja se confunde com o Estado e a cruz com a espada. Apesar disso, ainda vemos iniciativas de alcance em Odessa, ao norte da Mesopotâmia, onde é estabelecido um dos centros principais da fé na língua siríaca. A Etiópia é alcançada pelos missionários Edésio e Frumentio onde plantam uma igreja entre a classe nobre. A Germânia nesta época, não somente é anexada ao território do Império Romano como também recebe as primeiras sementes do evangelho aos Godos, na região norte do Rio Danúbio. Ulfilas torna-se o primeiro missionário a traduzir o Novo Testamento aquele povo. No ano 341 AD, Ulfilas é considerado bispo dos Godos.

A Irlanda recebe Patrício. Monge celta, com 40 anos atinge aquele país que posteriormente, outros monges seriam preparados para atingir a Escócia. Na Gália, o conhecido herói expansionista do Império, Martinho de Tours, não somente subjuga o povo como também ordena a “conversão” por meio da espada. Clóvis, o rei dos Francos “aceita” a fé cristã e junto com ele, no ano de 496 AD, mais de 3.000 soldados são batizados no dia de natal.

O declínio espiritual das Igrejas e as pequenas iniciativas de expansão missionária, o “casamento” entre o Estado e a Igreja trouxe perdas incalculáveis. A subjugação e “conversão” dos reis produziam conversões superficiais em massa, o cisma em 850 AD, marcou a separação da Igreja Católica em Ocidental e Oriental, produziria um período de escassez espiritual e conseqüentemente aridez missionária sem qualquer comparação. As igrejas fortes e visionárias do período passado desaparecem. A chamada “Era das Trevas” tomava lugar dentro da Igreja Cristã.

De fato, os grandes contratempos para a missão da Igreja como a queda da civilização ocidental em 457 AD e o surgimento do Islamismo em 622 AD, são causas que apressarão a perda da natureza missionária. A omissão da Igreja para com as necessidades do mundo, permitiam o surgimento de movimentos espúrios que dominariam por séculos a vida da humanidade. Portanto, a ausência da santidade prejudicava a obra missionária da Igreja.

Embora a natureza da Igreja se encontrasse diluída devido a secularização infiltrada pela perda da essência do Evangelho do Reino e pela união entre a Igreja e o Estado, encontram-se alguns focos de trabalhos expansionistas se direcionando às regiões mais setentrionais do mundo da época. 

Se a Igreja Cristã não possuía a força suficiente para enfrentar a expansão Islâmica que se estendera por todo o norte da África e já se estabelecia na península Ibérica, se a população antes cristã, sucumbia diante do poderio militar-religioso muçulmano tornando-se “mártires católicos” ou apostatando da fé submetendo-se a nova religião por temor, a Igreja não possuía outra alternativa, senão procurar outros caminhos ao norte, onde terras pagãs ainda não tinham sido alcançadas.

Assim se verifica, o que John Foster denomina por “a Conversão do Norte Europeu”. A figura imponente do Papa Gregório, o Grande (540-604) é o homem importante deste período. Sendo monge e posteriormente bispo de Roma, com verdadeiro interesse por missões, torna-se Papa e oficializa o trabalho missionário na Bretanha. Uma das causas principais para esta nova iniciativa é a instituição do monasticismo. Benedito, contribui para este novo empreendimento conhecido como a primeira das Ordens Católicas. Os ideais monásticos de pobreza, castidade e obediência formavam o estilo de vida destes monges. Benedito funda o primeiro mosteiro em Monte Cassino a sessenta quilômetros de Roma. Na verdade, os monges beneditinos apoiados por Gregório seriam os missionários desse período, diferentemente da Igreja Cristã dos dois primeiros séculos onde todos os cristãos eram testemunhas vivas do Evangelho do Reino. Esta Ordem tornar-se-ia o germe da expansão missionária.

Algumas regiões são afetadas. A Inglaterra, recebe Agostinho, o primeiro missionário aos Saxões. Estratégias missionárias pragmáticas começavam a entrar em cena. Os templos pagãos não eram destruídos e sim usados pela Igreja.

A Escócia recebe Columba em 563 AD e seu trabalho incansável na evangelização e na ação social, torna-o o primeiro missionário celta que motiva o seu contemporâneo Columbano a fazer o mesmo na França. Estes exemplos de vida incitarão Gall a fazer o mesmo entre os “Suevi”, ancestrais dos Suiços. 

Holanda e Dinamarca também recebem Willibrord. Irlandês, reconhecido como o apóstolo dos Frígios, como relata Stephen Neill, funda quatro mosteiros nesta região. Valorizava a oração e a vida disciplinada. Os Germânicos recebem Bonifácio (680-755), o qual é enviado a Geismar em 724 e após 20 anos de trabalho, somava milhares de convertidos à fé católica. Fundou o mosteiro de Fulda onde foi sepultado posteriormente. 

Nestas iniciativas promovidas pelos monges da época, fica claro que, ademais de todo o declínio espiritual que atingia a Igreja Cristã, Deus em Sua Soberania, não permitia que a natureza missionária da Igreja fosse perdida totalmente. Ainda povos estavam sendo alcançados, muito mais por iniciativas missionárias personificadas do que por uma visão orgânica e ministerial da Igreja da época como Corpo de Cristo. 
A relação entre a Igreja e os povos dominadores tornava-se mais comprometida e ao mesmo tempo mais cúmplice. O domínio dos francos com Carlos Magno (768-814) impeliu a Igreja a se submeter mais uma vez ao poderio militar, pois enquanto conquistava a Saxônia, cristianizava os povos por meio da imposição do batismo. Esta “estratégia” era mais uma prova de que as trevas já cobriam grande parte da Igreja. A partir de 843 AD, o império de Carlos Magno começa a deteriorar-se. Contudo, nenhum outro imperador surgiria com tanto poder unificador que fosse conclamado rei pelo menos nos próximos 100 anos.

A Era das Trevas alcança o centro da Igreja. O papado sem o Império para protegê-lo, tornava-se presa fácil para homens inescrupulosos, indignos e incompetentes. Entre 850 a 950, vinte e sete papas subiram ao poder da Igreja através de sucessivas conspirações e violência.

Cirilo e Metódio (815-869) missionários de Tessalônica foram os primeiros. Missionários enviados a Morávia (Eslováquia). Pregaram em língua eslava, e contribuíram grandemente para as missões naquela região criando o alfabeto glago-lítico traduzindo a liturgia latina para o eslavo. Através de Metódio, o evangelho entrou na Bulgária, Rússia, Iugoslávia e Romênia.

No século nono, os piratas do Norte Europeu, os Vikings, varriam as costas dos países, saqueando igrejas e mosteiros, destruindo quase que totalmente a civilização Irlandesa, a mesma que em tempos anteriores fora o celeiro missionário beneditino para a cristianização dos países do norte. Os Vikings se estabeleceram na Dinamarca e Norte da França. 

O mosteiro de Cluny fundado em 910 AD, tornava-se o empreendedor de várias reformas religiosas dentro da Igreja como também chamaria ao retorno para uma busca a Deus. Este mosteiro influenciaria a Igreja de maneira mais forte e a partir de 1047, iniciava-se uma sucessão de papas tendo como maior expressão os ideais deste mosteiro.

No mesmo ano da coroação de Otto I em 962, surgia o maior de todos os Vikings, Ollaf Tryggvasson. Enquanto invadia a Inglaterra com seu exército, este rei se converte ao cristianismo e retorna como cristão para a Noruega. Neste meio tempo, Otto I salvava a Europa dos Húngaros, derrotando-os. A partir disto, missionários começavam a entrar na Hungria e alguns líderes aceitavam a fé cristã como religião do país. Em 1000 AD, Estevão tornava-se rei dos húngaros e após a sua morte o “padroeiro” destes.
A expansão da Igreja entre os países nórdicos durante os anos 1000 a 1500 AD, se completa totalmente. Anskar (801-865), missionário originário de um mosteiro no norte da França, conhecido como “o Apóstolo do norte” atinge a Dinamarca e completa a cristianização do país. Contudo, somente com o Rei Cnut em 1016, o evangelho foi plenamente estabelecido ali.

Em 1000AD completa-se a cristianização da Noruega com o Rei Olaf Tryggvasson, juntamente com a Islândia e a Groenlândia. A Noruega recebe bispos e sacerdotes da Inglaterra sob o pedido de Olaf. Um destes, chamado Sigfrid, após a morte do rei norueguês, vai a Suécia onde também batiza o seu chefe de Estado como cristão. Em 1100 AD, toda a Suécia estava cristianizada.

Estas compensações não conseguiram abafar o espírito megalomaníaco dos líderes da Igreja. Desejando reconquistar as terras até então perdidas para o Islamismo, a Igreja inaugura um empreendimento que mais uma vez ocultará os princípios do Evangelho e sedimentará o horror e o caos espiritual interno, abalando até aos dias de hoje, a relação entre o Ocidente e o Oriente.

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