sábado, 2 de março de 2013

NÃO SOU MAIS EVANGÉLICO




Não posso continuar a usar um nome que está, a meu ver, diluído e contaminado. Faço minhas as palavras de Ed René Kivitz:

“A expressão “outra espiritualidade” sugere a pergunta: ‘outra em relação a que?’. Isto é, que espiritualidade está sendo abandonada para que em seu lugar apareça “outra”? No meu caso é simples: estou abandonando a espiritualidade do senso comum evangélico, e saindo em busca da espiritualidade do senso comum da tradição cristã. Apresso-me em explicar. Considero “senso comum” uma forma simples de me referir ao fato de que apesar da enorme diversidade a respeito das características que identificam o ser evangélico, há um núcleo que resume a maneira como este segmento religioso da sociedade articula sua crença e modus vivendi. Ao escolher o senso comum, admito que a “outra espiritualidade” que busco não é uma novidade, mas um resgate dos aspectos essenciais à fé cristã conforme se estabeleceram nestes mais de dois mil anos de história.

Deixando de lado o rigor acadêmico e científico, que não cabe na proposta deste texto, chamo de “senso comum da fé evangélica” os conteúdos articulados na face mais visível desta tradição religiosa, notadamente através das mídias impressa, radiofônica e televisiva. São os autores e comunicadores de massa que “fazem a cabeça” dos fiéis e aos poucos vão definindo, consciente e inconscientemente, voluntária e involuntariamente, um núcleo de crenças determinantes de uma cosmovisão, e por conseqüência, um jeito de ser no mundo. A partir de um determinado ponto, passa a existir uma cultura autônoma, independente dos conteúdos mais elaborados dos teóricos. Esta cultura autônoma é apropriada pelo povo e a partir de então é deflagrado um processo de desenvolvimento de crenças e costumes que vai se distanciando cada vez da proposta original.

Não tenho dúvidas quanto ao fato de que este fenômeno aconteceu na chamada igreja evangélica, e que o ser evangélico, conforme compreendido hoje pela sociedade brasileira, e até mesmo por muitos evangélicos, está absolutamente distante dos conteúdos originais da fé cristã. Evidentemente, é pretensioso aquele que afirma conhecer “os conteúdos originais da fé cristã”, pois toda teologia é interpretação, isto é, tudo quanto os cristãos propagam são versões do conteúdo original. O que se exige é a avaliação mínima dos conteúdos atuais em comparação com aqueles que foram historicamente, desde períodos mais remotos, divulgados como constitutivos da fé cristã. Tenho a firme convicção de que o cristianismo dos evangélicos contemporâneos é absolutamente distinto do cristianismo dos primeiros cristãos e das tradições teológicas mais consistentes da história da igreja.

Aliás, é muito triste o fato de que grande parte dos novos líderes evangélicos e dos novos convertidos à fé evangélica desconheçam a tradição teológica da história da igreja, seus expoentes mais respeitados, suas fundamentações filosóficas, seus embates com os espíritos de suas épocas, suas argumentações apologéticas, e, principalmente seu sangue vertido em defesa da fé. Os neo-evangélicos estão ocupados demais em construir uma experiência religiosa que lhes satisfaça no imediato, e não se ocupam com as aproximações da verdade, uma vez que vivem o pragmatismo de quem se ocupa antes em fazer “deus” funcionar do que em ser íntimo dEle.

Fui tomando consciência disso aos poucos, e de certa forma, construindo meu pensamento a respeito de “outro Deus e outra espiritualidade” passo a passo, um insight de cada vez, como o pão, que nos chega à alma toda manhã, caindo do céu a cada dia. Pão que reparto com temor e tremor.

Ed René Kivitz (palavra na qual assino ipsis literis)

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