sexta-feira, 8 de março de 2013

AUSENTES DE DEUS





“Queremos dele coisas, mas a ele não queremos de modo algum. Será isso um relacionamento? Conduzimo-nos desse modo com os amigos? Amamos nós o amigo, ou visamos aquilo que a amizade nos pode dar? Ocorre o mesmo no que diz respeito ao Senhor?” Anthony Bloom 



Tornamo-nos “a passos largos” pessoas desconhecidas para nós mesmos e para os outros quando transformamos a nossa vida num sistema meramente funcional. Assim também fazemos com Deus. Nossa relação com Ele tem se tornado uma relação “comprador-vendedor”. Vamos às pessoas e nos relacionamos com elas dependendo do que elas podem nos oferecer. Se elas oferecem benefícios e vantagens, nos relacionamos com elas, pois podemos galgar situações de conforto e maior dignidade. Nos casamos assim, criamos nossos filhos assim, nos relacionamos com nossos pais por causa disso e com qualquer pessoa, amigo, colega ou mesmo um desconhecido. 

Deus tem sido uma imagem para muitos de uma pessoa que possui todos os dons e dádivas, sejam elas visíveis ou invisíveis e nos relacionamos com Ele nesta base. Nossa vida ou nossos momentos de oração tem sido construídos nestas bases. Vamo-nos a Ele, sabendo que Ele é doador, beneficiário de dons e bênçãos para todos. Porém essa relação nos revela passo-a-passo que continuamos vivendo ausentes dEle, da Sua presença, de Sua relação íntima. 

Precisamos resgatar a verdadeira razão e o sentido do que seja a oração. Quando vivemos desta maneira, pensamos em Deus como o beneficiário para todos, por que Deus é gracioso e que jamais nos negará bem algum. Pensando apenas assim, temos a sensação seja perene ou casual de uma ausência de Deus. Acabamos clamando para um céu vazio, do qual não obtemos respostas. Voltamo-nos para todas as direções e não O achamos. O que devemos pensar de tal situação? 

Precisamos alimentar nossa mente e nosso coração com a premissa de que independente do que extraímos de Deus, somente podemos reter a sua presença em nós se nos fizermos abertos a uma relação com o Divino por meio de um relacionamento profundo. 

Então o primeiro passo para esta relação se abrir, é a oração. Contudo na oração e em nossa consciência esta relação não pode ser forçada, nem da nossa parte nem da parte de Deus. O fato de que Deus pode se fazer presente ou deixar-nos com a sensação de uma ausência, também faz parte dessa relação viva e real. 

A relação deve iniciar-se e desenvolver-se numa mútua liberdade. Portanto, antes de qualquer coisa, nossa relação com Ele deve desenvolver-se na base de que não serão as palavras o centro deste relacionamento. Não serão meras palavras que farão a presença de Deus em nós, mas sobretudo como desenvolvemos nosso amor, nossa relação com ele, nossos sentimentos e nosso posicionamento diante dEle. Esta relação não acontecerá sem que eliminemos o sentimento de “tirarmos algum proveito” dEle. Se isso não acontecer já não há relação e sim consumo. Desta maneira usaremos e abusaremos de Deus. Isso não é comunhão e sim pragmatismo. A menos que desejemos desenvolver uma relação mística, profunda, permanente e visceral que acontece por meio da fé, jamais O encontraremos. Mesmo que tenhamos muito tempo de vida cristã, mesmo que estudemos muito sobre Deus, mesmo que falemos e discutamos sobre Ele, jamais teremos sua presença e continuaremos ausentes de Deus.

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