segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

REDESCOBRINDO A MISSÃO EM TEMPOS DE CONFUSÃO

"De fato, todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Contudo, os perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu.
Porque desde criança você conhece as sagradas letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra. 2a. carta de Paulo a Timóteo 3.8-4.4

Vivemos tempos de crise sem limites, seja na política, na sociedade e também nas igrejas. Há uma confusão teológica e na espiritualidade das pessoas. Na igreja com toda a tecnologia a favor, muitos se tornaram “experts” em fazer as igrejas crescerem. Nunca fomos tão pragmáticos como agora. O neopentecostalismo assusta as igrejas históricas e todos chamam para si a “unção divina” como razão para justificar seus planos missionários que se parecem mais com planos de mercado corporativo.

Não temos dúvidas que o Cristianismo é uma das três grandes religiões missionárias do mundo, seguida pelo Islamismo e pelo Budismo. Porém a obra missionária ocidental vive também uma crise, por que perdeu suas motivações mais relevantes para fazer missão. Por exemplo, no final do século 20 havia uma enxurrada de agências missionárias que davam por certo que a volta de Cristo era iminente por que o século estava se findando. A partir de meados dos anos 80 até o raiar do ano 2000 não se falava em outra coisa senão em “Batalha Espiritual”, “Demônios territoriais” e “Avivamento”. Hoje não ouvimos mais estes temas. Alguma coisa aconteceu.

Estamos vivendo o século do Consumismo sem limites. Até mesmo na religião. Assim como nós vamos ao mercado para consumir os produtos que ali estão assim fazemos com a fé e com nossa vida religiosa. Nunca apareceram tantas obras escritas sobre fé, auto-ajuda espiritual, vida vitoriosa e prosperidade, como agora. Vivemos sim meus irmãos um tempo de pluralidade religiosa misturada com o ensino de prosperidade. “Por que a vida tem que dar certo”.

Para somar a esta confusão, somos não somos mais do que produtos nas igrejas-evento. Me lembro muito bem quando cursava o Mestrado em Teologia, que no meio de sua aula, trabalhando sobre a disciplina de Métodos e Estratégias Missionárias, o Dr. Antonio José do Nascimento Filho usou de uma frase magistral para definir o momento que a igreja brasileira estava passando. Ele afirmava: “A igreja nasceu como um fato na Palestina, foi para a Grécia e tornou-se uma idéia, veio para a Europa e Estados Unidos e tornou-se um empreendimento e depois aportou no Brasil e tornou-se em um evento”. Nada na igreja brasileira se consegue senão por meio de eventos. São eventos para adorar a Deus, são eventos para evangelizar, são eventos para orar. Perdemos a noção do comum, da vida comum, da comunidade, do cotidiano e não mais vivemos como cristãos normais em nossa vida comum e simples. Hoje para o Espírito Santo agir temos que nos envolver em algum programa-evento.

Precisamos voltar os olhos para a Palavra de Deus, não apenas para a Escritura. Precisamos redescobrir a Palavra de Deus a partir da Escritura, pois os movimentos que aí estão, usam a Bíblia, interpretam a Bíblia, contudo não conseguem extrair dela e fazer dela a verdadeira palavra de Deus e assim abafam a mensagem do evangelho, da graça, do perdão, da restauração e da verdadeira vida em Cristo.

O que nos ajuda no meio de toda esta confusão é olhar para a história. A história nos ensina e nos ajuda a não repetir os mesmos erros que foram cometidos no passado, e retirarmos princípios para vivermos nosso presente. Não devemos e nem vamos repetir a história passada, mas vamos aprender com o Deus que se revela na história.

Precisamos de novo redescobrir a Escritura como Palavra de Deus na vida das pessoas e no meio deste caos urbano.

O século 18 foi o grande século da obra missionária europeia. Não vamos aqui comentar todas as razões que motivaram as missões naquela época. Mas houve entre o século 17 e século 18 alguns movimentos religiosos que chamamos de “propulsores” para o grande século das missões. Quem trabalha muito bem este assunto é o Dr. Paulo Pierson, ex-diretor de nosso seminário que vive hoje nos Estados Unidos.

Para que William Carey aparecesse como o Pai das Missões Modernas, pelo menos 4 movimentos anteriores prepararam o grande século missionário. O Puritanismo na Inglaterra e Estados Unidos, O Pietismo na Alemanha, o Moravianismo na Boêmia e o Metodismo também na Inglaterra. Todos eles lançaram as bases para a ação das Missões Modernas a partir de William Carey.

E aí está o ponto onde queremos chegar: O que estamos fazendo hoje irá reverberar nos anos posteriores.

Gostaria de correlacionar algumas ênfases do apóstolo Paulo ao seu discípulo e pastor Timóteo com os princípios destes movimentos para que pudéssemos sorver o que Deus, em minha concepção, está desejoso que sua igreja hoje possa fazer para continuar a preparar pessoas para o Reino que há de vir.

Olhando para os versículos que lemos, precisamos redescobrir 4 áreas da vida que estão marcadas pelas ênfases de Paulo a Timóteo.

1. Precisamos urgentemente redescobrir a Vida Piedosa (3.10-12).

“Tu, porém, tens observado a minha doutrina, procedimento, intenção, fé, longanimidade, amor, perseverança, as minhas perseguições e aflições, quais as que sofri em Antioquia, em Icônio, em Listra; quantas perseguições suportei! e de todas o Senhor me livrou. E na verdade todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições”.

A piedade sempre foi o ponto marcante dos cristãos dos primeiros séculos. O evangelho de nosso Senhor vivido por ele e ensinado pelos apóstolos e pais apostólicos nos mostra que não podemos nem ensinar e nem viver sem esta essência da vida espiritual.

Piedade envolve a oração e oração incessante, a prática das boas obras de modo despretensioso e uma vida que busca ser parecida com Nosso Senhor.

A Vida de oração e a prática desta piedade era a vida do Pietismo. Esse movimento que enfatizava a oração e a prática das boas obras surgiu com o pastor Phillip Jabob Spener e o professor August Franck e se desenvolveu de fato entre estudantes da universidade de Halle.

Mas o que Spener e Franck fizeram? Foram buscar nos anais da história entre os “pais do deserto” dos primeiros séculos a essência da espiritualidade, por que depois de quase 200 anos a igreja luterana estava morta e fria. O centro da Reforma Protestante do século 16 estava vivendo sua maior aridez.

Paulo afirmava a Timóteo que ele estava seguindo o seu ensino, a sua conduta, o seu propósito, a sua fé, a sua paciência, o seu amor, a sua perseverança, e as suas perseguições e sofrimentos e mais, dizia a Timóteo que todos os que desejassem viver piedosamente em Cristo Jesus seriam perseguidos.

O exemplo do Pietismo deve ser levado em conta se pensamos em uma igreja que deve continuar a fazer sua missão. A exegese da palavra “Piedade” é “viver a vida de Deus em Cristo”. É viver como Cristo, é agir como Cristo, é orar como Cristo. Cristo é nosso modelo para tudo. Paulo revela-nos que Piedade tem a ver com estas virtudes. E consequentemente viver a vida de Deus como Cristo viveu trará por certo as duras consequências de uma vida assim. Precisamos voltar a viver assim e ensinar isso em nossas igrejas e comunidades. Não vamos viver do jeito dos pietistas, por que eles souberam viver naquela época. Precisamos aprender viver esta piedade dentro de nossa história e de nossa vida hoje.

Aqui também nos lembramos do Moravianismo, quando os que moravam na Morávia, pela intensidade da oração e da vida piedosa tornaram-se o modelo para as missões do século 18. Era a oração e sua intimidade com Deus que determinava os encontros de oração que duraram pelo menos 100 anos, e enquanto duravam estes 100 anos de oração, os morávios enviaram seus missionários para todo o mundo. Não dependia de eventos e programações, mas de uma vida piedosa marcada pelos encontros íntimos com Cristo, com o Espírito Santo e com a vida comum de todos ali.

2. Precisamos urgentemente redescobrir a Vida Disciplinada = 3.14-17

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a infância sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela que há em Cristo Jesus. Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra”.

A pergunta que faço aqui é: “A nossa agenda determina nossa credenda”? De jeito nenhum. Mas é isso que está acontecendo. Vivemos nossa espiritualidade dependendo das demandas que temos para fazer.

Parece que quando os seguidores de John Wesley, os metodistas começaram a viver sua fé dentro da igreja anglicana, eles pensavam em uma fé disciplinada, pela oração e pela leitura das Escrituras. A vida de oração determinava a vida cotidiana.

Nosso Senhor em João 4.34 afirmava aos seus discípulos: “minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra”. Seu relacionamento com o Pai determinava o que ele deveria fazer. Sua intimidade com o Pai era o que determinava sua vida, sua oração e seu tempo. A oração como elemento da comunhão incessante revelava-lhe a vontade do Pai.

E de fato precisamos urgentemente re-ensinar e re-viver a vida disciplinada. Os exercícios espirituais, a hora de oração, a volta a intimidade.

Os metodistas souberam viver isso num ambiente onde naquela época a igreja institucional era apenas o “Bôbo da Corte” do reino inglês. Onde tudo era aceito e homologado sob as vistas do anglicanismo. Apesar de alguns homens sérios daquela época, o povo começou a ser influenciado pela necessidade de um retorno aos exercícios espirituais que faziam bem a alma e colocavam a alma torta do povo em posição reta diante de Deus.

Precisamos aprender a viver uma vida espiritual mais disciplinada. Não vamos viver o que os metodistas viveram naquela época. O contexto histórico deles nada tem a ver com nosso contexto. Precisamos sim aprender com os seus princípios. Precisamos ensinar nossos crentes a resgatarem a vida mais disciplinada, mais metódica, mais reorientada. Nossa agenda deve correr atrás de nossa credenda.

3. Precisamos redescobrir urgentemente o Ensino Fiel = 4.1-4

“Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas”.

A palavra de Deus sempre foi o centro e o manual para os primeiros Cristãos. Sem ela não podemos conhecer os atos de Deus na história, sem ela não podemos nos conduzir, ela é a razão de estarmos aqui hoje.

Porém não basta andarmos com a Bíblia na mão. Os heréticos também andam com a Bíblia na mão. Devemos ter o cuidado de tornar a Bíblia como a Palavra de Deus, interpretando-a e ensinando-a como Paulo conjurava a Timóteo.

O puritanismo observava a Bíblia como o centro da vida e não devemos fazer diferente. Ademais os seus pecados e algumas de suas interpretações equivocadas, nós devemos aprender a retirar os princípios do movimento e fazer que a Bíblia seja de fato a Palavra de Deus, a mensagem de Deus para nós hoje.

Não vamos voltar aos Puritanos, eles tiveram sua relevância e sua história. O que devemos fazer é buscar ensinar a Palavra de Deus a começar de Jesus, que é a ‘Viva Palavra’ de Deus. Nele corporalmente reside toda a mensagem da Palavra divina.

Por isso Paulo dizia que Timóteo deveria proclamar, admoestar, repreender, exortar, consolar e aconselhar. Por que haveria tempo que as pessoas não suportariam o ensino sadio da palavra de Deus e ajuntariam mestres para si mesmos dando ouvidos aos mitos e as fábulas.

A igreja precisa ser purificada pelo ensino correto da Palavra de Deus. Devemos pregar o evangelho da Graça de Jesus Nosso Senhor e não meramente regras e normas de boa conduta.

Concluindo,

O que estamos deixando para as gerações posteriores? O que estamos plantando no meio desta pluralidade de sementes que estão sendo semeadas nas vidas de nossas igrejas e famílias?

O grande desafio da igreja para nossos tempos confusos é voltarmos a fazer o que deve ser feito, dentro de nossos contextos, resgatando a Piedade na vida, a Palavra de Deus de modo fiel e a busca por uma vida mais disciplinada e reorientada.

Não podemos abrir mão destes fundamentos pois se o fizermos negaremos o próprio Cristo. Estes fundamentos foram os responsáveis para as Missões Modernas a partir do século 18. O grande século das Missões Protestantes se valeu de acontecimentos e movimentos na Europa e Estados Unidos para que o mundo recebesse o evangelho por meio das atividades missionárias naquela época.

E nós? Que estamos fazendo para promover a missão para os próximos anos? A partir de quais fundamentos ela será promovida? O que será que o Espírito Santo fará através de sua igreja? Será a partir de nosso racionalismo teológico? Será a partir de nossas condições econômicas? Será a partir do uso das tecnologias que estão ao nosso dispor? Será a partir da vida marcada pelos eventos e programas?

Sem duvida, tudo será e deverá ser usado por nós. Mas somente a vida piedosa, a oração, a vida disciplinada e a interpretação e ensino sadio da palavra de Deus poderão causar impactos na vida de tantos jovens e pessoas que no passado não ousaram entregar suas vidas para que o evangelho e a igreja fossem relevantes e impactantes nos séculos em que viveram nossos ancestrais.

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