sábado, 28 de julho de 2012

ENTENDENDO MELHOR A GRAÇA




Há uma equivocada percepção sobre Deus e sobre Cristo. Por vezes nossa tendência é padronizar certas experiências pessoais que temos com Deus. Achamos que se alguém deve ter uma experiência com Deus, é necessário, indubitavelmente que tal pessoa deve passar pela mesma experiência que nós passamos. Ledo engano. Quando pensamos assim, ainda não compreendemos o que seja Graça e talvez não tivemos uma experiência verdadeira com Jesus Nosso Senhor.
Como podemos atestar isso? Ora, vejamos como Jesus Nosso Senhor se relacionava com as pessoas nos evangelhos. Jamais vamos ver as pessoas com um mesmo tipo de vida, mesmo estilo de conversa com o Senhor. Ao Fariseu, Jesus usava assuntos polêmicos e um vocabulário dentro de sua realidade religiosa. À mulher samaritana que todos os dias tirava água do poço, falou sobre água viva e sobre matar a sede da alma. Às multidões que foram fartas com os pães, ele usava dizer que era o “pão da vida”. Em tudo Jesus revelava Graça, de graça.
Nossas padronizações mais oprimem as pessoas do que as liberta. A todos, Jesus possibilitava que entendessem da verdade dentro de suas realidades, contextos e histórias de vida. Assim quando exigimos uma resposta de cada um de acordo com as nossas experiências religiosas, estamos anulando a Graça de Cristo e impondo sobre as pessoas leis, regras e normas que para elas podem não fazer sentido algum. Graça é graça desde quando se concebe uma experiência divina por meio da fé, mas não há um único modo de experimentarmos isso. A graça é plural, e sendo plural, há muitos modos da Graça.  
Se o Espírito Santo é como o vento (Jo 3.8) e não sabemos nem de onde vem e nem para onde vai, a Graça é assim também. Por isso, se você espera que seu vizinho tenha a sua mesma experiência de fé, então deverá repensar o que é a Graça de Deus. Talvez, precise experimentar o que seja verdadeiramente esta experiência com Deus.
Como entender melhor a Graça? A resposta está no fato de cada um de nós aceitarmos os outros como eles são e não querermos mudá-los a partir de nós. Quando perdemos o respeito pelas pessoas e nos achamos os únicos detentores da verdade, devido nosso tempo de religiosidade, nossas tradições evangélicas, ou coisa parecida, acabamos por sermos intolerantes e preconceituosos.
Nossas experiências com Deus têm valor sim, mas para nós somente. Quantos cegos e coxos Jesus curou? Porém nunca de uma mesma maneira. Cada um teve sua própria experiência com Ele. Quanto mais profundos forem nossos encontros com Deus maiores chances de vivermos e entendermos a Graça de Jesus Nosso Senhor. De fato, peçamos sempre: “Senhor, tem misericórdia de mim, pecador”, e será o primeiro passo para entendermos o que é Graça.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

SERVOS NA CONTRA MÃO DA HISTÓRIA


Vivemos um tempo onde em nossa cultura muitos estão à procura de emprego, mas poucos querem trabalho. Venho pensando por que o Brasil não vai pra frente e chego à conclusão que o problema é cultural. Cultura é o que se apreende de geração em geração, por meio da formação de um povo, onde está em jogo sua história, sua colonização, as estruturas familiares e sua idéia de luta e de conquista.

É através da vida das pessoas de um povo onde se transmite sua paixão, sua gana e seus desejos de conquista. O que marca uma nação conquistadora é a não-alienação, é o compromisso com pessoas e com a coletividade. Porém, definitivamente não temos isso. Fomos colonizados por raças que apenas fizeram sugar as nossas riquezas e nunca nos ensinaram que vale a pena lutar mesmo na instabilidade. Nossos heróis são controversos e esquisitos, mais devotados a matar do que se oferecerem como mártires.

Hoje vivemos num país que culturalmente não tem muito para oferecer, não apenas para os que aqui vivem como para o mundo que se degenera em lutas. Vemos algumas nações hoje dominarem o mundo com sua forte condição monetária e empreendimentos bélicos e sabemos que sua história foi regada pelo sangue dos que se entregaram pelos ideais patrióticos. Estes, mesmo algumas vezes sendo submetidos e derrotados em guerras passadas, hoje continuam sendo potências mundiais e estão no topo da economia e do desenvolvimento.

No âmbito político nossa história é decepcionante, a tal ponto de vermos na semana passada um senador cassado que já no dia posterior era readmitido sem problema algum em seu gabinete como Procurador Geral da República em Goiás, não perdendo jamais os benefícios que a vida pública brasileira pode oferecer.
Poucos desejam servir, muitos querem receber. Parece que na vida de fé, isso não muda também. Muitos desejam receber bênçãos divinas, porém poucos querem o compromisso de servir sem pretensão às pessoas.
Enquanto o ser humano não for tocado por Deus em sua vida, em sua cultura, em seus ideais, pouco será feito no âmbito horizontal. Devido a isso, percebemos que para as “coisas de Deus”, tudo é muito difícil, é moroso e é complicado. O que mais vemos são pessoas que desejam o poder, mas sem compromisso, sem perseverança e sem abnegação. O problema da igreja é também de formação, de conceito, de conversão. Hoje precisamos pagar para que vejamos o serviço fraternal feito.
Quando nos abrirmos para Jesus, com sinceridade e simplicidade, veremos que ademais de qualquer sistema cultural, a vida de Jesus de Nazaré é apaixonante, é cheia da graça, é cativante, porque mesmo com todas as dificuldades existentes na sua época, ele nunca abandonou seu objetivo de vida. Servir aos homens! Não ofereceu o que restava, o que sobrava, mas ele mesmo entregou a vida, tudo que era e o que possuía.
Ele é modelo e o exemplo. Que você possa se dar conta de que não há outra razão de viver se não viver em prol de Deus e das pessoas. Isso vai além de qualquer desculpa, qualquer racionalização, qualquer cultura manchada e dominada pelo egoísmo e egocentrismo.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

VOCAÇÃO: MISTÉRIO E COMPLEXIDADE


Vocação é um mistério. Não se discerne racionalmente. A vocação tem um lastro histórico que antecede ao Profetismo Israelita. Não se consegue compreender como pessoas tão frágeis e tão limitadas foram chamadas por Deus para proclamar ou realizar tarefas em nome de Deus na terra.

O que marca a vida do vocacionado é o encontro, o chamado, a experiência com o transcendente. Como explicar a vocação? Não sei. É um mistério. Não se explica, se vive, se relaciona, se envolve. Não apenas se proclama com a boca, se vive uma encarnação com o que se proclama ou com o que se faz. Todos os profetas, na Bíblia, menos um, rejeitaram ser profetas. E sucumbiram ao Chamado. É melhor não ser chamado (Tg 3.1). Mas se o foi, não há como fugir.

A mesma condição vocacional continua no Novo Testamento. Não são apenas alguns, mas agora todos são chamados. Todos são convocados a Experiência, ao Mistério. O Espírito Santo continua convocando para o Encontro Misterioso. Não se pode tratar com Deus como se ele fosse qualquer coisa, ou qualquer um.

Antes da Unção há o Encontro. Não menos profundo, não menos verdadeiro do que os profetas do Tempo Antigo. Hoje é necessário rever a Teologia do Chamamento para os cristãos.

Que Chamamento é este? Na simplicidade do ser, conjugado com os talentos, se encontra o propósito divino. Na profundidade da relação com o Transcendente, conjugado com o relacionamento com as pessoas e suas necessidades se encontra o propósito da ação.

O fracasso da Vocação está na imaturidade do relacionamento com Deus. Estar consciente para “o que foi chamado” é tão importante quanto estar consciente de “Quem o chamou”. Muitos confundem esta questão e se envolvem mais com o "para que foi chamado", do que com "Quem o chamou". Isto é sinal de que, embora chamado, não se sabe “para onde vai’ nem “para que vai”, por que não alimenta a sua relação com "Quem o chamou".

O êxito da vocação é aquela que, por causa do relacionamento profundo com o Sujeito da Vocação, pode-se saber o que fazer e como fazer.

Não existe um chamado padrão, por que não existem experiências padronizadas. O que existe é um chamado de acordo com a peculiaridade e natureza de cada um. O que se tem nas mãos, o que se tem na mente, o que se absorveu como aprendizado é o conteúdo do que se vai fazer.

Você já sabe qual a sua vocação? (1ª. Pedro 4.10)


( foto do Ricardo Amaral, tirada em 1984, no muro do Seminário Presbiteriano do Sul, Campinas, onde comecei os meus estudos teológicos: ao meu lado, da esquerda para a direita: Ismael Leandro, Pasquale, Serginho)


terça-feira, 10 de julho de 2012

ENCARNAÇÃO SIM, CONCORRÊNCIA NÃO!


Há muita propaganda e pouca identificação. Há muito turismo missionário e pouca inserção. 

Afinal, como estamos missionando nos dias atuais? Devemos ter coragem para avaliar  estratégias e métodos que usamos para comunicar o Evangelho. Não é suficiente usar do marketing  e da mídia  para o anúncio das Boas Novas.  Além disso há muito de turismo missionário para estabelecer mais do que a fé cristã. Fundar e manter trabalhos denominacionais tem sido a tônica dos últimos dias. 

Porém ao analisarmos com honestidade os Evangelhos a nossa estratégia para comunicar a verdade cristã não é outra senão a E-N-C-A-R-N-A-Ç-Ã-O!

Necessitamos muito mais do que um “avivamento coreográfico” para redescobrirmos nossa verdadeira missão. Urge que aconteça uma restauração motivacional da nossa missão partindo da interpretação correta da Palavra de Deus, rejeitando as idéias pragmáticas e mercadológicas. 

Precisamos de uma nova Reforma Teológica para que tornemos nossa missão mais parecida com a de Jesus e deixarmos o proselitismo de lado.

A estrutura social que vivemos, está baseada no "Consumismo". Todos nós temos por princípio a necessidade de posse. A idéia de "sucesso" passa pela motivação egoísta e  individualista. A concepção de "civilização" está baseada na visão de culturas e sub-culturas que se adequam à Ciência e à Tecnologia. Atualmente, ainda existem no mundo as mesmas lutas por igualdade social e racial. 

Povos continuam a se enfrentar e a filosofia discriminatória é base da educação familiar das raças. O mundo tem contemplado etnocídios entre povos que vivem em conflito a centenas de anos. Em contrapartida, no mundo ocidental a Globalização tem gerado um desnível social e econômico nunca visto. Os países economicamente ricos dominam,  controlam e oprimem os países pobres dependentes.

Assim tem sido a missão da igreja cristã. Imperialista! 

Para que cumpramos nossa missão devemos redescobrir a Encarnação de Cristo. A crise da eclesiologia tem levado  muitos a confusão  e a superficialidade da interpretação do Evangelho. Como resultado isso tem gerado uma contextualização superficial.  

René Padilla afirma: “A missão da cruz é a exigência de um novo estilo de vida caracterizado pelo amor totalmente oposto a uma vida individualista, descentralizada das ambições pessoais, preocupado com as necessidades do próximo. O significado da cruz é ao mesmo tempo soteriológico e ético. E isto é assim porque, ao escolher a cruz, Jesus Cristo não somente deu forma ao indicativo do evangelho, mas simultaneamente também proveu o modelo para a vida humana aqui e agora”.

Não estamos realizando uma missão contextual e isso se deve ao fato de que há uma falha na concepção do que seja o Evangelho da Cruz, que começa com a humilhação de Cristo ao se encarnar e encerra-se com a glória à destra do Pai.

Essa ação é reponsavel por que há um déficit teológico que resulta em uma débil contextualização do Evangelho. 

O problema da fraca contextualização é a falta de reflexão teológica profunda e relevante nos Seminários e Escolas Teológicas. 

Se a Teologia da Cruz está diluída, as conseqüências serão de uma evangelização nominal sem os resultados éticos do Evangelho. 

Valdir Steuernagel afirma: “A nossa evangelização deve estar a serviço de um evangelho que afeta a pessoa toda em todas as áreas de sua vida. Isto quer dizer que o evangelho, embora seja pessoal, tem um forte colorido coletivo: é individual mas tem uma inerente dimensão social; é uma mensagem de conforto mas pede um compromisso ético; desencadeia uma espiritualidade terapêutica e leva a um inequívoco pacto com a justiça; produz igreja, mas uma igreja que deve estar concretamente enraizada na comunidade global dos seres e na busca desta por uma vida justa e digna. Quanto mais estivermos a serviço deste evangelho integral, que afeta todas as áreas da vida, tanto mais estaremos a serviço do Deus Trino. E esta será adoração verdadeira que, como o sacrifício de Abel, será acolhida nos céus”.

Outra questão que deve ser levada em consideração é que a contextualização está estreitamente ligada, não somente a compreensão de uma teologia bíblica que expõe os valores da cruz e do evangelho, mas também é motivada pelo modelo apostólico de Cristo.

A missão de todos deve ser motivada pela missão encarnacional de Cristo. Todas as vezes que tormamos a missão da igreja  algo comparado a um sistema empresarial estamos negando a encarnação, vivendo um evangelho raso pregando uma mentira travestida de verdade.

Encarnação é a chave para a missão e a evangelização!


CALVINOLATRIA ?



"Se vivo estivesse João Calvino completaria hoje exatos 503 anos. Mas como ele não era um elfo, e sim um humano, morreu aos 55, em 1564. Em artigos que tive a alegria de ver publicados em alguns periódicos há alguns anos falei sobre duas tendências que ainda precisam ser evitadas – a “calvinofobia” e a “calvinolatria”. 

A primeira é encontrada em livros de história por exemplo que apresentam Calvino como o ditador de Genebra e um homem insensível e frio como uma geleira do Ártico. A segunda é encontrada em círculos evangélicos que se pretendem herdeiros do legado do reformador mas que consciente ou inconscientemente o idolatram, apresentam-no não como um humano, mas como um anjo (ou um elfo), como se ele não tivesse defeitos – nestes círculos “a casa cai” se por exemplo alguém repetir o que Timothy George afirmou em seu bom livro “Teologia dos Reformadores” que Calvino era um homem arrogante. Fato é que como diz meu amigo Ricardo Gouvea, é preciso empreender “a busca do Calvino histórico”.


A teologia de Calvino propriamente precisa ser mais conhecida, lida e estudada. Há uma confusão muito grande em nosso meio que mistura o que Calvino disse com o que os seus seguidores, como Teodoro de Beza, disseram. Ainda há quem pense que a teologia de Calvino tem centro na doutrina da eleição. Alguns chegam a dizer que Calvino criou a doutrina da predestinação – absurdo maior não poderia haver. Qualquer um que se der ao trabalho de estudar Calvino com seriedade verá que a eleição não é o centro de sua teologia. Alister McGrath na biografia intelectual de Calvino que escreveu afirma que, se há um centro na teologia de Calvino, este centro é Cristo. 

Particularmente a ética social de Calvino precisa ser (re )descoberta em nosso país. A tradição evangélica no Brasil aprenderá muito quando valorizar a macro-ética de Calvino, que, conforme consigo entender, é, in nuce, uma teologia pública avant la lettre". 

Dr. Carlos  Caldas (registro autorizado)

sábado, 7 de julho de 2012

QUAL A CAUSA DE CRISTO?



A maior causa que Jesus Cristo defendeu foi o “bem do ser humano”. Sendo assim Ele mesmo questionou tudo que não envolvia este bem. Vê que as instituições e tradições são boas até que sejam usadas como instrumentos deste bem ao homem. Quando isso não acontecia, Ele relativizava-os. 

Jesus Cristo levou uma vida de fidelidade à Lei, porém não hesitava tomar atitudes contrárias à Lei. Quando Ele participava do ritual, pregava que somente a sinceridade do coração poderia dar pureza perante Deus. Permitia que o chamassem de beberrão e comilão e questionava o jejum sem sentido. Quando falava sobre a guarda do dia de sábado, mostrava que o homem é a medida do Sábado e da Lei e não o contrário.

Por isso Jesus Cristo escandalizava, pois relativizava as estruturas sem sentido, sem um fim. Ele questionava a Lei e todo sistema religioso-social, pois os mandamentos existiam para o bem das pessoas. Para ele a Lei não deveria ser suspensa ou abolida, mas a pessoa era mais importante que o cumprimento da Lei. O ser humano era mais importante que a Ordem Legal. A humanidade vem em primeiro lugar antes do Legalismo e do Dogmatismo. Todas as normas e Instituições deveriam depender de uma só pergunta: “Elas existem para o bem das pessoas”? 

Por isso Jesus Cristo questionava o templo e o culto. Dizia que a reconciliação de pessoas e o serviço uns aos outros tinha preferência sobre qualquer evento litúrgico. Mas a Liturgia não deveria ser suspensa ou abolida. O ser humano toma para Jesus o lugar de uma liturgia sem sentido. Pois a liturgia pode se tornar um fim em si mesmo se não houver o objetivo para o bem do ser humano. Humanidade em vez de um formalismo e ritualismo sem sentido. Todos os ritos e costumes, práticas e cerimônias dependiam de um critério: “Existem para o bem do homem ou não”?

Por isso Ele defendeu o amor que permitia ser ao mesmo tempo piedoso e razoável. Que comprovava exatamente o fato de não excluir ninguém, nem mesmo o inimigo, antes estava disposto a servir sem preferências, renunciar sem compensação, perdoar sem fim.

Portanto, Jesus Nosso Senhor pregava que o sistema social deveria servir ao homem e não o homem ao sistema social. Isso produziu a frustração dos religiosos. Ele se envolveu com os pobres, os miseráveis, os que pensavam diferentes, os imorais (prostitutas e adúlteros) os socialmente desprezados (leprosos, doentes), os mais fracos (mulheres e crianças), o povo simples em geral (que não sabiam exatamente as coisas).

Assim Cristo ousadamente anunciava: “Perdão Total”, em vez de castigo legal, inteiramente gratuito. Ele mesmo anunciava o perdão, abrindo a porta da reconciliação e da restauração entre todas as pessoas. Ele anunciava e anuncia ainda hoje a Graça que é de graça.

Adaptado do Livro: “Ser Cristão”