sexta-feira, 29 de junho de 2012

O QUE JESUS NÃO PREGOU?



Jesus não pregou uma teoria teológica, nem uma nova lei, nem a si mesmo, mas o Reino de Deus - a causa de Deus que irá triunfar e que é idêntica à causa do homem. A pessoa de Jesus desaparece atrás de sua causa. A causa de Jesus é porém a causa de Deus no mundo - a iminente vinda do Reino de Deus. 

A mensagem de Jesus não era nem de longe, tão complicada como nossos catecismos ou como nossos manuais de teologia. Ele anunciava em figuras e comparações o Reino de Deus que estava para vir: que a causa de Deus triunfará, que o futuro pertence a Deus. 

Portanto:

Não apenas o senhorio permanente de Deus concedido desde a criação – como apregoavam os hierarcas de Jerusalém. Mas o Reino vindouro no fim dos tempos.

Não a Teocracia ou Democracia reiligioso-política dos revolucionários zelotes, a ser instaurada violentamente. Mas o imediato e absoluto domínio universal do próprio Deus, a ser eseprado sem violência.

Não o Juízo da vingança em favor de uma elite de perfeitos no entender dos essênios e monges de Qumram. Mas a jovial mensagem da ilimitada bondade e incondicional graça de Deus, exatamente para os perdidos e miseráveis.

Não um reino a ser construído pelos homens através do exato cumprimento da Lei e da moral mais elevada segundo a concepção dos fariseus. Mas o Reino final a ser criado pela livre ação de Deus.

Jesus pregou o Reino de Deus a partir deste tempo presente revelando o futuro absoluto de Deus. O Reino de Deus não é absoluto no tempo presente à custa do futuro. Não se pode esgotar no presente todo o porvir do Reino de Deus. O mundo e a sociedade são demasiadamente imperfeitos e desumanos para que já possam ser o perfeito e o definitivo O Reino de Deus não fica parado no início, mas deve chegar definitivamente à plenitude. O que foi começado com Jesus, deve ser terminado com Jesus. A espera da imediata vinda do Reino não foi satisfeita. Mas nem por isso, a espera será interrompida. 

O futuro absoluto remete o homem para o presente: nada de isolar o futuro em detrimento do presente. O Reino de Deus não deve ser uma consolação para o futuro, uma satisfação da piedosa curiosidade humana pelo futuro, uma projeção dos temores e dos desejos insatisfeitos, Exatamente a partir do futuro deve o ser humano ser inserido no presente. A partir da esperança a sociedade e o mundo atuais devem ser transformados. Jesus não quis dar um ensinamento sobre o fim, mas fazer uma exortação para o presente em vista do fim.

Por causa da vinda deste Reino, Jesus prega uma norma suprema para o comportamento do homem, Não qualquer lei ou dogma, ou artigo ou regra. A norma suprema é a vontade de Deus. A vontade de Deus não é simplesmente idêntica a uma determinada lei ou artigo. De tudo o que Jesus diz e faz, torna-se claro que a vontade de Deus não é outra coisa que o bem geral do homem. As bem-aventuranças e os milagres mostram que importa não apenas o bem da alma, mas do homem todo, no presente e no futuro. 
Hans Küng                                                                                           

domingo, 24 de junho de 2012

João Batista


Hoje lembramos a vida de João,o Precursor de Cristo.Sofreu o martírio, lutou contra os desmandos de uma religião nominal e institucional. Pregou contra a fé sem prática, e preparou o caminho do Cristo para a chegada do Reino. Foi decapitado porque estava comprometido com os valores do Reino de Deus, abria a sua boca para se pronunciar contra a política e a religião judaicas. Por isso Nosso Senhor tem uma palavra sobre ele: 
«Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Mas que fostes ver? Um homem vestido de roupas finas? Mas os que vestem roupas finas vivem nos palácios dos reis. Então, que fostes ver? Um profeta? Eu vos afirmo que sim, e mais do que um profeta. É dele que está escrito: ” eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele preparará o teu caminho diante de ti. Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior do que João, o Batista, e, no entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele …» (Mt 11, 2-11).

sexta-feira, 22 de junho de 2012

QUEM NÃO ERA JESUS?




Jesus não pertencia Classe Sacerdotal Judaica: Havia em Jerusalém uma instituição político-religiosa e muitos posteriormente consideravam Jesus como representante da mesma. Mas Jesus não foi sacerdote. Era “leigo”, manifestamente solteiro e líder de um movimento leigo. Também não era teólogo profissional: Não forjava grandes teorias e sistemas. Pregava a iminente vinda do Reino de Deus sem aparato científico, com palavras muito simples, em forma de comparações, histórias e parábolas.

Jesus não era revolucionário político: Existia naquela época um partido revolucionário (zelotes, fanáticos), e muitos hoje o entendem, assim. Mas Ele não era certamente nenhum revolucionário político ou social. Tivesse ele efetuado uma reforma agrária ou como aconteceu na Revolução de Jerusalém, após sua morte e tivesse mandado queimar os títulos de dívida no arquivo de Jerusalém e tivesse organizado uma insurreição contra as forças de ocupação romanas, já teria de há muito caído no esquecimento. Mas ele pregava a não-violência e o amor aos inimigos.

Jesus não era adepto de seita ascética: Existia na Palestina, ao tempo de Jesus uma vida monacal bem organizada (os essênios, em Qumram) e os monges de todas as épocas sempre gostaram de reportar-se a ela para justificar sua forma de vida. Mas Jesus de forma alguma, se retirou do mundo; não se isolou, nem mandou quem queria tornar-se perfeito para o grande mosteiro de Qumram, descoberto perto do Mar Morto. Não fundou nenhuma Ordem com regra, votos, imposições ascéticas, vestes e tradições especiais.
Jesus não era um piedoso moralista: Havia naquela época um movimento de rearmamento moral: os fariseus.

E freqüentes vezes viu-se nEle, mais tarde, um “novo legislador” . Mas Jesus não ensinou nenhuma ‘nova-lei’, nenhuma técnica de piedade e não tinha nenhuma inclinação casuística moral ou jurídica e para todas as questões de interpretação da Lei. Ele anunciou uma nova liberdade em face da Legalidade: o amor sem limites.

Portanto, já compreendemos muito sobre Jesus se não o enquadrarmos nas coordenadas da instituição e revolução, emigração e compromisso: ele rompe todos os esquemas. Ele é provocador, mas tanto para a direita quanto para a esquerda: evidentemente mais perto de Deus do que dos sacerdotes. E ao mesmo tempo mais livre com relação ao mundo do que os ascetas (monges). Mais moral que os moralistas. Mais revolucionário do que os revolucionários. Por que Ele não se deixou enquadrar!

Hans Küng

sábado, 16 de junho de 2012

A GRAÇA EXCLUI O ESFORÇO



“E nós, na qualidade de cooperadores com ele, também vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus”.  2ª Coríntios 6:1

Jesus nos ensinou o caminho da graça. Ele revelou que Deus se dá a conhecer por meio dela e nada que o ser humano faça para conhecer a Deus pode ser por merecimento pessoal. Deus somente pode ser conhecido, sentido e vivido se estivermos convictos de que nada existe em nós mesmos que possa atrair os olhares de Deus. Qualquer ação que mereça esforço, consequentemente destronará a Graça e valorizará o Legalismo.

Esta tese é a máxima do Cristianismo, porém na prática, a maioria dos cristãos não sabe o que é viver assim. A nossa prática de vida cristã passa pela “Lei do Esforço” e também pela “Lei da Causa e Efeito”. Achamos que embora Deus seja conhecido como Deus da Graça, ele exige de nós algumas atitudes para que sejamos aceitáveis e abençoados.

Acabamos nos encontrando “contra a Graça” quando acreditamos que Deus só nos abençoa se fizermos algo que lhe agrada, ou quando conseguimos “dobrá-lo” se formos “filhos bonzinhos” e obedientes. Quando nos sentimos plenamente cheios de obediência a Ele, ou quando achamos que determinada bênção chegou a nós por causa de nosso esforço em oração, por exemplo, acabamos negando a graça de Deus em nós mesmos.

A graça deixa de ser graça se existir a presença do mérito pessoal ou qualquer esforço. Qualquer idéia que possa surgir em nós, que nos leve a pensar que atrairemos o olhar de Deus ou se buscarmos ser bons ou se orarmos corretamente ou se nossa prática estiver dentro do que estipula as regras culturais evangélicas ou se dermos nossos dízimos tentando mostrar a Deus nossa “fidelidade”, com toda certeza estaremos tornando a Graça de Deus em vão.

Quando pensamos ou agimos assim, estamos revelando um “deus pequeno”, “primitivo” e “mesquinho” que age sempre dependendo de nossas atitudes e práticas “religiosamente corretas”. Podemos fazer pior, pois ao revelarmos em nossas palavras e nosso jeito um “deus” que se move pela “Lei da Causa e Efeito”, na verdade estamos tratando-o como se Ele fosse um animalzinho que podemos adestrar. Na verdade nunca soubemos o que seja a Graça de Deus. Nunca nos vimos “impotentes” e “limitados”, ainda precisamos nos encontrar com o “Eu-Sou”, com a Palavra Viva, com o Logos de Deus, com o Caminho, a Verdade e a Vida.

Nossas obras, nossas orações, nossos esforços, nossa disciplina pessoal, tem o seu lugar, porém nunca poderão ser uma ferramenta de barganha para incendiar o amor de Deus por nós. Aceitação e resignação, Nada mais que isso para que experimentemos a Graça.
Deus nos ama, por que ama, sem méritos, sem esforços, sem instrumentos de medição espiritual, sem algemas religiosas, sem pensamentos e ideologias denominacionais.