terça-feira, 3 de abril de 2012

SEMANA SANTA: O CANTO DO SERVO SOFREDOR

A igreja cristã primitiva aprendeu a vasculhar o Antigo Testamento Grego (a Septuginta, como era conhecida) a fim de alimentar a alma de seus fiéis e exaltar o Messias, e encontrou quatro momentos no livro do profeta Isaias que a própria igreja denominou de "Cantos do Servo Sofredor".

Durante o período da Quaresma (quarenta dias antes da Páscoa de Cristo) a igreja se revestia de uma espiritualidade punjante, lembrando, orando, refletindo sobre o que foi a encarnação de Deus, sua vida sofredora entre nós, sua descida humilhante, abdicando de Sua glória e vivendo como nós, esvaziando-se de si mesmo, tornando um "escravo", como bem o apóstolo Paulo declara em Filipenses 2.5-11, e toda sua angústia, no jardim do Getsêmani, e então posterior traição, julgamento, sentença, tortura e morte.

O primeiro texto de Isaias que a Igreja cantava está no capítulo 42.1-9:

"Eis o meu servo, a quem sustento, o meu escolhido, em quem tenho prazer. Porei nele o meu Espírito, e ele trará justiça às nações. Não gritará nem clamará, nem erguerá a voz nas ruas. Não quebrará o caniço rachado, e não apagará o pavio fumegante. Com fidelidade fará justiça; não mostrará fraqueza nem se deixará ferir, até que estabeleça a justiça sobre a terra. Em sua lei as ilhas porão sua esperança. "É o que diz Deus, o Senhor, aquele que criou o céu e o estendeu, que espalhou a terra e tudo o que dela procede, que dá fôlego aos seus moradores e vida aos que andam nela: "Eu, o Senhor, o chamei em retidão; segurarei firme a sua mão. Eu o guardarei e farei de você um mediador para o povo e uma luz para os gentios, para abrir os olhos aos cegos, para libertar da prisão os cativos e para livrar do calabouço os que habitam na escuridão. "Eu sou o Senhor; esse é o meu nome! Não darei a outro a minha glória nem a imagens o meu louvor. Vejam! As profecias antigas aconteceram, e novas eu anuncio; antes de surgirem, eu as declaro a vocês".

A igreja cristã olhava para o Servo (o Messias) com os olhos do Deus da Graça. Sua escolha como "aquele que possui o Espírito de Deus e que estabelecerá a Justiça no meio das nações". E como Jesus Cristo de fato assim fêz, não fazia de sua vida e de seus milagres o seu "marketing pessoal". Sabia que o ser humano era como um caniço rachado, mas nem por isso pisava nele a fim de quebrá-lo de vez. Via as gentes como um pavio que estava quase se apagando, mas nem por isso o apagava, por que ainda via que havia fogo suficiente para incendiar uma floresta.

Nosso Senhor, o servo sofredor não vacilou nem se desacorçoou. Ele mesmo dizia a respeito de sua intenção em estar entre nós. "Ninguém me tira a vida, eu a espontaneamente a dou". Diante de sua sentença já decretada em seu nascimento, Jesus foi silente e determinado. Não correu, nem conseguiu um substituto para não sofrer por gente fétida e imunda.

Ele abriu os olhos dos cegos, não meramente curando-os de cegueira física, mas livrando-os da cegueira da "não-fé". Abriu os olhos de todos aqueles que queriam enxergar além da visão física, além do legalismo, além da vida biológica.

Nosso Senhor libertou muitos cativos. Cativos, não por que eram escravos de um sistema social espúrio, mas porque eram escravos de si mesmos, enjaulados em suas dores, em seus traumas e suas próprias esquizofrenias por não se autoconhecerem como plenamente humanos. Por isso dizia a alguns: Ninguém podia ver o reino de Deus, se não nascesse do "Alto", onde na verdade isso nada mais era que encontrar-se com o "Alto" dentro de si mesmo, por meio de uma experiência muito maior que a simploriedade racional.

A igreja cristã dos primeiros séculos soube encontrar o alimento da alma, por que não apenas lia as Escrituras mas contemplava aquele que está além das Escrituras. A igreja pós-moderna perdeu a contemplatividade, desencaminhou-se pela racionalidade, deixou de alimentar a sua alma com o "pão do céu". Esqueceu a simplicidade e abandonou o exemplo de "serva" do "servo". Não fala mais em doação, não caminha mais ao lado do "servo sofredor".

Ó igreja, converta-se, busque ao Senhor, olhe além da dureza de seu coração consumista!

Um comentário:

Milca disse...

Como nos falta a piedade e devoção dos adoradores da igreja Primitiva...!