sexta-feira, 23 de setembro de 2011

AS MARCAS DO VERDADEIRO DISCÍPULO

“Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram. Mateus 7.13-14

Muitas pessoas que vivem nas igrejas e fora delas adiando seu compromisso com Deus. Há muitos que procuram a Cristo, porém não desejam se render a Sua autoridade. Ao falar sobre seguí-lo, Jesus lembra que a obediência não é opcional e que a fé do verdadeiro discípulo não é uma fé fácil. Há um custo pelo discipulado, isto é, pela vida eterna. Atualmente, qualquer que se declare cristão, poderá encontrar evangélicos dispostos a aceitar sua profissão de fé sem considerar o seu compromisso.

Muitos crêem sinceramente que estão salvos, todavia vivem completamente estéreis, por que vivem adiando seu compromisso com a vida eterna, ou seja, com o discipulado.
Jesus nos afirma que nenhuma experiência de fé pode ser tomada como evidência de salvação, se estiver separada de uma vida de obediência a Ele. Somos encorajados a examinar e provar a nós mesmos frequentemente. Que cada árvore é conhecida pelo seu fruto (Lc 6.44). A evidência da obra de Deus em uma pessoa é o fruto inevitável de um comportamento em transformação. Vidas onde há ausência completa do fruto da verdadeira justiça há também a evidência que não há compromisso com Cristo e com a vida eterna.

A salvação não é somente um ato. É um processo em andamento que depende de uma decisão. Não é possível receber a Cristo como Salvador e rejeitá-lo como Senhor. (Rm 10.10; At 16.31; Rm 10.9; At 2.36). Com toda certeza “o Senhor não irá salvar aqueles em quem Ele não pode mandar” (A.W. Tozer). Mas todo discipulado começa com uma decisão. É o ponto de partida e não o ponto de chegada.

Há uma idéia errada vigente sobre a fé e discipulado. Jesus nos afirma que a chamada do Calvário tem que ser vista pelo que realmente é: uma chamada ao discipulado sob o Senhorio de Cristo Jesus. Atender a esta chamada é tornar-se um cristão. Qualquer coisa menos do que isso é simplesmente “falta de fé”. Mas esta caminhada nos custará uma demanda enquanto estivermos aqui. (Lc 14.26-33). Paulo nos diz que a verdadeira Graça nos ensina a renegar a impiedade e as paixões mundanas para que vivamos em piedade e em boas obras. A Graça não nos concede permissão para vivermos como queremos (Tt 2.12). A fé não é estática. É inseparável do arrependimento, da rendição e de um desejo de obediência. (Ef 2.8; Tg 2.19). Hoje se fala muito em “aceitar a Cristo” que estabelece um conceito de fé que elimina a submissão, a rendição pessoal e o abandono do pecado, classificando todos os elementos práticos da salvação como obras humanas. Porém o arrependimento está no âmago da fé salvadora. As Escrituras igualam fé e obediência (Jo 3.36; Rm 1.5; 16.26; 2 Ts 1.8). Fé e Obras jamais são incompatíveis (Jo 6.29). A verdadeira salvação, operada por Deus, nunca deixará de produzir frutos na vida de uma pessoa e através dela (Mt 7.17).

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Um Místico Urbano

Tomás de Aquino (1225-1274) foi um homem interessante e intrigante. Apesar de ter nascido numa rica família, optou, em certo momento de sua vida, por ser um pobre frade. Por ter um corpo grande, desajeitado e lento, ganhou o apelido de "boi burro". Quando seus colegas assim o chamavam, não poderiam imaginar estar diante daquele que seria considerado um dos teólogos mais geniais da história do cristianismo, cuja voz iria atravessar os tempos. Imagine ter um "Mac" em um mundo dominado pelo "PC" (Windows)... Pois assim foi Aquino, um sistemático pensador aristotélico em um ambiente teológico imerso no platonismo. Ele foi um severo crítico do subjetivismo platônico, por entender que os teólogos influenciados por este pensamento caíam num transcendentalismo desconectado da realidade. Por isso, foi a mosca que pousou na sopa de tais teólogos místicos, influenciados por um pensar mais aberto ao sobrenatural. Fez sua teologia a partir do lado esquerdo do cérebro, de onde nascem os atributos da razão, e por ela buscou “explicar” Deus. Sua Suma Teológica tornou-se o primeiro tratado de teologia sistemática do Ocidente, uma tentativa de sintetizar em volumes os múltiplos e infindáveis tópicos teológicos. Mas aqui reside um mistério: propositadamente, ele deixou sua Suma Teológica inacabada. Seu amigo Reginaldo ficou preocupado quando observou que Aquino parou de trabalhar na sua obra-prima. Instado a continuar, Aquino respondeu que não poderia mais escrever. Diante da insistência do amigo, o teólogo abre o coração e diz: “Eu não posso mais escrever, porque tenho visto coisas que fazem todos os meus escritos serem como palhas”. E assim foi. Aquino não mais escreveu depois de ter tido uma experiência mística com Deus durante uma celebração, que o fez baixar a pena em uma atitude de humilde adoração. No leito de morte, este grande filósofo e teólogo, pai da teologia natural e um dia antagonista da teologia mística, pede para ouvir a leitura bíblica do Cântico dos Cânticos. Afinal, qual foi a experiência mística que levou Aquino a considerar tudo quanto tinha escrito e que constitui um dos principais pilares da teologia ocidental “como palha”? Tentar descobrir é profanar com uma curiosidade racional a santidade de uma experiência única; mas reporto-me a esta experiência de Aquino porque ela mexe o meu mundo interior, despertando sonhos antigos. Pois eu tenho um sonho de me tornar um místico! Sim, eu gostaria de organizar a minha vida em torno do mistério de Deus. A mística é considerada na tradição espiritual cristã uma “ciência” mais elevada, pois é uma forma de conhecer Deus como fruto da experiência com ele, e não do acúmulo de informações frias sobre a sua pessoa. Equivocadamente, pensa-se que uma experiência mística é o eclipse da razão, um suicídio intelectual em nome do indescritível. Nada mais errôneo para com a mística cristã. Um místico não é um louco, ou alguém intelectualmente preguiçoso e limitado, mas alguém que crê por ter experimentado encontros com Deus não explicados puramente pela razão e nem totalmente descritos com palavras. É uma forma de conhecer a Deus “no dizer de Teófilo” a sabedoria escondida e secreta de Deus, na qual, sem ruído de palavras e ajuda de algum sentido corporal nem espiritual, como no silêncio e quietude da noite, obscura a todos os sentidos naturais; ensina Deus a alma, no oculto e no secreto, sem que esta saiba como está sendo ensinada. Eu tenho um sonho de influenciar uma geração de estudantes de teologia e de jovens pastores a se tornarem místicos. Queria poder dizer-lhes que o ano de estudo teológico não podem sequestrar sua devocionalidade. Gostaria de alertá-los de que a Igreja contemporânea tem uma necessidade urgente de místicos intelectualmente sólidos, teologicamente saudáveis, e não de oradores que produzem discursos dominicais vazios por não nascerem do encontro com o Deus vivo. Sonho poder inspirá-los a refundarem a mística protestante, deturpada pela onda neopentecostal. Sonho poder falar-lhes de liderança, não a partir de modelos puramente técnicos advindos do mundo corporativo, mas sim de uma liderança com base na mística capaz de fazer de homens e mulheres de Deus verdadeiros sábios espirituais. Sobre isso, reproduzo o que recentemente alguém me contou. Um pastor famoso e cultuado, destes que exportam o seu estilo de vida e modelo ministerial, viajava ao lado de uma pessoa. Tão ocupado estava com o seu computador, fazendo freneticamente mil coisas, que sequer olhou para quem estava na outra poltrona. Foi então que a pessoa perguntou o que ele fazia; ante a resposta, o interlocutor fortuito questionou: “Por que será que quando sento ao lado de um pastor, tenho sempre a impressão de estar com um homem de negócios, mas quando sento com um monge budista, parece que estou junto a um homem de Deus” ? Eu tenho um sonho de libertar a palavra discipulado da prisão reducionista à qual nós a pusemos. O discípulo de Jesus é um místico que sobe o monte da transfiguração com ele e desce de novo para expulsar os demônios do vale. Fazer discípulos não é colocar pessoas na escola dominical, ensinando-as um corpo de doutrinas frias e dando-lhes um código de conduta moral pessoal sem qualquer conexão com o mundo dentro do qual se vive. Sonho em transformar minha igreja em um centro de formação espiritual, dentro da qual são gestados místicos preocupados com a transformação da sociedade. Então, tenho o sonho de ser um místico urbano. Não quero ir para o mosteiro, mas desejo trazer para minha realidade pós-moderna os maravilhosos princípios da espiritualidade monástica. Sonho viver aquilo que Bonhoeffer disse: “Somente um novo monasticismo pode salvar a Igreja atual”. Quero ser este novo monge, que usa celular, assiste televisão e comunica-se por e-mail, mas cultiva o silêncio e a contemplação no meio do barulhento inferno urbano. Eduardo Carlos Pereira