sábado, 28 de novembro de 2009

Muito mais do que um evangélico!

"Porque a ninguém tenho de igual sentimento que, sinceramente, cuide dos vossos interesses; ... e conheceis o seu caráter provado, pois serviu o evangelho, junto comigo. Por um lado, meu irmão, cooperador e companheiro de lutas; e por outro lado, vosso mensageiro e vosso auxiliar nas nossas necessidades. Honrai sempre a homens como esse... visto que por causa da obra de Cristo, se dispôs a dar a própria vida, para suprir a vossa carência de socorro para comigo". Filipenses 2.20,22,25,29,30
"Tu porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão. Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado e de que fizeste a boa confissão perante muitas testemunhas" I Timóteo 6.11,12.

Levi Accioly Lins foi educado e instruído na disciplina do Senhor. De uma família presbiteriana, seu pai foi um dos fundadores da Igreja Presbiteriana da Madalena. Sua mãe, fiel serva de Deus, encaminhou-o na vida cristã e na igreja.
Sua instrução cristã foi além de sua parentela. Amigo dos filhos de missionários fundadores das instituições presbiterianas de Pernambuco, morou por algum tempo com a família Arehart, fundadora do Instituto Bíblico do Norte, em Garanhuns, PE. Experimentou a bênção de estudar por alguns anos no histórico Colégio XV de novembro, e teve sua educação fundamentada no Colégio Agnes Erskine. Sua experiência com vários missionários americanos, foi parte integrante de sua educação.
Era o caçula dos irmãos e em certo momento de sua juventude, tomou a decisão do filho pródigo como conta-nos a parábola de Lucas 15. Deixou sua família no Recife e foi para o Rio de Janeiro "tentar a vida". Abandonou os ensinos cristãos e dissolutamente gastou sua vida entre a classe artística do Rio de Janeiro nas décadas de 60 e 70. Passou 20 anos, longe da fé, chegando a tornar-se um dos carnavalescos mais conhecidos em sua época, trabalhando diretamente na Escola de Samba Império Serrano.
Desenvolveu ali os talentos e habilidades que possuía, mas não era definitivamente feliz.
Sua felicidade, tornou-se plena e concreta, quando Deus o chamou na cidade do Rio de Janeiro, na Igreja Presbiteriana de Copacabana, passando ao lado da Igreja ouviu o cântico: "Meu coração transborda de amor... por que meu Deus é o Deus de amor"! Seu coração desabrochou e sua alma voltou-se para Cristo. Deus na sua infinita misericórdia e graça, soberanamente o chamara para voltar ao lar. E Levi embora vivendo em uma das coberturas dos edifícios na avenida Copacabana, rejeitou radicalmente sua maneira de viver e retornou para o Recife. Mas sua saúde nestes tempos já era débil, conseqüência do estilo de vida longe do Senhor.
Retornando ao Recife, com um câncer nas costas, Deus o curou, dando a segurança e garantia de sua graça em seu coração. A partir dali, devotou-se ao serviço de Cristo como membro da Igreja Presbiteriana da Madalena, foi acompanhado pelo seu pastor Rev. Edijéce Martins Ferreira e eleito diácono, onde serviu por longos anos. Sua eleição para presidente da Junta Diaconal, foi apenas o referendum de sua dedicação. Fosse na assistência social, fosse na ajuda para qualquer atividade extra igreja, estava lá, Levi, o fiel cristão e dedicado. Tal foi sua fidelidade ao trabalho de Deus, que ao completar 50 anos de fundação a Igreja Presbiteriana da Madalena, conferiu-lhe uma homenagem sincera e cheia de gratidão pelos serviços prestados e pelo fiel testemunho cristão ao longo dos anos. Ali, Levi pôde cursar e formar-se no Instituto Bíblico Samuel Falcão, extensão do Instituto Bíblico do Norte de Garanhuns e se concentrando especialmente no estudo do Antigo Testamento, se especializou, tendo instrução direta do missionário holandês Dr. Francisco Leonardo Schalkwijk. Seus estudos sobre o Tabernáculo, o levaram à várias igrejas e congregações com seu flanelógrafo e seus ensinos sobre a Soberania de Deus e a vida Cristã. Seu envolvimento no apoio e ajuda aos seminaristas do Seminário Presbiteriano do Norte, o tornou conhecido por muitos pastores que hoje estão espalhados pelo Brasil e pelo mundo.
Mas o seu serviço despretensioso, que marcara a vida da I.P. Madalena agora se expandia. Em 1995 chamado pelo então Diretor do IBN, Rev. Maely Ferreira Vilela, aceitou o convite para ser professor da área de Antigo Testamento onde perseverou na multiplicação de missionários e missionárias que hoje estão batalhando nos campos de todo Brasil.
Com a chegada de seu amigo e irmão, Rev. Luiz Augusto Corrêa Bueno para a direção do IBN em 1996, Levi desenvolveu não somente o ministério docente como também de coordenador geral do internato dos alunos. Seu carisma e sua dedicação aos alunos, bem como a experiência com os missionários americanos do passado o havia habilitado para ser líder ali. Mas esta função era apenas oficial, pois o ministério de Levi extrapolava o cumprir estes mandatos. Era o conselheiro, o pai, o irmão, o professor, o cozinheiro, o alfaiate, o administrador, o decorador, o pintor, o pedreiro, o evangelista, o missionário, o pastor, o defensor dos alunos, o fiel amigo de todas as horas.
Foi ao longo deste ministério no IBN, que hoje esta escola missionária se desenvolveu ainda mais. Com a chegada do administrador Diácono Wagner de Siqueira Felipe, Levi se dedicou fortemente ao trabalho de liderar o internato do IBN.
Mas sua saúde era extremamente fraca. No Natal de 2000, precisou fazer uma angioplastia. E no dia 3 de maio de 2002 foi internado em uma clínica em Garanhuns, e após um AVC, não conseguindo resistir a esta situação, Levi foi chamado à glória de Deus. Seu sepultamento se deu no dia 4 de maio, Domingo, no Cemitério Parque das Flores no Recife.
Levi Accioly Lins, marca a vida não somente da Igreja Presbiteriana do Brasil, mas também do Reino de Deus. Exemplo de vida, testemunho e dedicação ao ser humano, Levi foi instrumento de Deus para a formação vocacional de muitos que passaram pelo IBN em Garanhuns, e continuará na memória de todos aqueles que hoje estão pelos campos, a serviço do Senhor. Sua vida é motivo de rendermos toda glória e honra ao Senhor Jesus, que regenera, cuida, vocaciona e usa servos como Levi. A Deus toda glória e louvor.
Rev. Luiz Augusto Corrêa Bueno
ex-Diretor do Seminário Presbiteriano do Norte e ex-diretor do Instituto Bíblico do Norte amigo pessoal de Levi Accioly Lins

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Crescimento numérico = vontade de Deus! Nem sempre!

Uma das questões que me traz preocupação é como os líderes religiosos de hoje idealizam uma comunidade segundo a vontade de Deus. Para muitos uma igreja ou congregação que vive segundo a vontade de Deus tem que estar em amplo crescimento numérico. Eu questiono essa afirmação e digo: “nem sempre”. Afirmo isso porque nem sempre as pessoas sabem o que significa crescer e relacionam este crescimento de acordo com um número de pessoas que se congregam para adorar a Deus nos domingos, num templo.
Quanto a isso, devemos ter uma visão mais amadurecida. Somos fruto de uma série de movimentos no decorrer da história que relacionavam crescimento numérico + vontade de Deus = Glória a Deus. Os muitos movimentos evangelicais na história criaram uma noção de que Deus quer que cresçamos em número.
Que o crescimento de uma comunidade aconteça a partir de um evangelho vivido entre os discípulos de Cristo, isso é verdade, porém estudando mais a fundo e experimentando o ministério depois de 21 anos, acabo vendo que em 90% dos casos de crescimento numérico nada mais são do que a aplicação de modelos e princípios empresariais.
Ora, o que vem a ser crescimento? Primeiro é bom lembrar que nenhum dos evangelhos afirma que Jesus usou o termo “plantem igrejas”! O termo plantar é bem recente. Nem mesmo as missiologias até meados do século XX usavam este termo para designar o testemunho. Na verdade o termo “plantar igreja” foi trazido dos Estados Unidos da América, fruto primeiramente do então Movimento de Crescimento de Igreja com Donald McGravan e Peter Wagner, se desenvolveu mais recentemente com o Movimento de desenvolvimento natural com Christan Schwarz e então desembocou no Movimento de Igrejas Dirigidas pelo Marketing com Bill Hybels e a “Igreja com propósito” com Rick Warren.
É importante sabermos que embora possuindo princípios sinceros, estes movimentos tentaram ser uma mola ou um gerador para “tirar a igreja da inércia espiritual” e produzir “necessariamente” uma dinâmica do ponto de vista humano. Como todo movimento estes possuem uma forte tendência pragmática e utilitarista. E é aí que me proponho a refletir.
Não questiono o crescimento “natural”, mas questiono o muito ativismo e consumismo religioso abafando o crescimento produto de uma vida cristã saudável. O ativismo torna as comunidades locais num “que-fazer” sem-sentido e tem gerado cristãos que vivem do ativismo cruel sem dar conta que estão cavando a própria “cova espiritual”.
Digo isso porque há movimentos dentro das comunidades sem sentido algum. Há tantos cristãos que em troca de uma idéia de agradar a Deus e a si mesmos, colocam em jogo suas vidas e suas famílias entregando-as a falência. Já vi vários casais que viviam aparentemente estáveis, após uma vida de encontros e eventos eclesiásticos se separaram. Isso demonstra que nenhum movimento por mais belo e tocante que seja pode produzir mudanças profundas e graves na vida de pessoas se isso não for ocupado pelo trabalho diário e perseverante por meio da vivência mútua do fiéis. Na maioria das vezes vive-se um ativismo “ignorante” tornando os eventos “um fim-em-si-mesmos”.
Por isso o Novo Testamento foi escrito a fim de que possamos compreender nosso papel como discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Viver a vida cristã de modo saudável implica em compreendermos a finalidade para a qual a igreja de Cristo vive neste mundo.
O grande segredo dos cristãos é compreenderem a igreja como uma comunidade e não apenas como uma instituição. Para entendermos melhor esta frase, devemos lançar mão de algumas palavras usadas no Novo Testamento. A primeira é Koinonia, a segunda é Querygma, a terceira é Diaconia e a quarta Martyria.
A Koinonia significa comunhão e é o estilo de vida esperado por aqueles que vivenciam a fé cristã. Comunhão e amor é a sintese da Lei (Mc 12.29-31), a comunhão que regula a relação entre Jesus e o Pai e o Espírito Santo deve ser a mesma que regula as relações de seus filhos (Charles Barret). O amor dos discípulos uns pelos outros não pode ser meramente um teatro, mas de fato objetivo deve revelar o Pai e o Filho nos relacionamentos cristãos. Seus seguidores devem reproduzir o amor mútuo, o amor que o Pai mostrou ao enviar seu Filho, o amor que o Filho mostrou ao entregar a vida. (Charles H. Dodd). Não é meramente sentimentalismo provocado pela emoção, mas sim um tipo de ação que o Pai e o Filho e seus discípulos assumiram para si por amor ao mundo. Essa reação é ordenada aos discípulos. Esta koinonia é encarnacional, vivida entre pessoas diferentes porém obedientes a fé de Cristo (Jo 14.23). Ao falar de missão, Jesus em João 13.35 a relaciona com a vida em amor. Não há missão sem unidade, comunhão e vivência. A vida em comunhão constrangerá os de fora. É uma relação centrípeta, porém não voltada para uma auto-preservação. A instituição sempre fará da koinonia um meio para se auto-preservar, porém o organismo espiritual sempre promoverá a koinonia como o elemento principal para a vida espiritual saudável resultado naturalmente numa missão incoercibível.
O Querygma é a segunda palavra. A própria Koinonia envolve uma proclamação (kerigma) do Senhorio de Jesus. O senhorio de Cristo impulsiona a Igreja para fora na proclamação do evangelho ao mundo. Harry Boer diz: “Há um elo entre o ensino neo-testamentário do senhorio de Cristo e o propósito universal de Deus”. ( Rm 11.25-26; 16.25; Ef 1.9-10; 3.3-11; 5.32; Cl 1.26-27 e 1 Tm 3.16). “O senhorio de Cristo não é apenas um senhorio na Igreja e sobre o indivíduo que crê, mas sim um senhorio com proporções cósmicas e universais”. (At 4.25-30). O conteúdo do Querygma é a mensagem “Jesus é o Senhor”. Sendo assim necessariamente implica num movimento. “Jesus é o Senhor” significa “Jesus é o Senhor do mundo”. (Mt 28.19-20; Cl 1.15-20). “Não se pode confessar que Jesus é o Senhor sem, ao mesmo tempo proclamar o seu senhorio sobre todos”. Há aspectos muito fortes aqui de duas marcas da igreja: sua catolicidade e sua apostolicidade. Ao vivenciarmos Jesus como Senhor (kyrios) e não apenas como salvador (soter) estamos revelando que nossos valores foram alterados e não vivemos subjugados pelos valores da sociedade. Isso tem um resultado na vida, no comércio, nas decisões institucionais. Enfim, se Jesus Cristo é o Senhor, o mundo será mudado por ser Ele o Pantocrator (todo-poderoso, onipotente, governador). Ele é o Senhor de todas as pessoas, de toda a criação e da igreja, chamando todos para um encontro radical com Ele. Essa consciência faz naturalmente brotar uma energia que impele a comunidade para a frente por meio de atos e palavras, não num evento realizado, mas tão somente na vida cotidiana.
A Diaconia é a terceira palavra. Numa das afirmações do Donald McGravan encontramos que “a igreja é a comunidade dos crucificados”. Sem dúvida alguma levando em consideração que todos os cristãos vivem para um único propósito que é servir ao seu semelhante, as palavras de Jesus continuam ecoando: “O servo não está acima de seu Senhor” (Mt 10.24; Jo 13.16; 15.20). Portanto as experiências do discípulo serão as experiências de seu mestre. Não podemos fazer diferente. Uma comunidade saudável que vive segundo a vontade de Deus, está em serviço dinâmico entre seus irmãos de fé e também com os de fora. O “lavar os pés uns dos outros” é a primeira conseqüência da presença de Cristo em uma vida, a começar o líder, seja ele quem for. (Jo 13.16). A postura do discípulo será sempre o de servir com humildade (Jo15.20) e servir sem esperar retorno. Se ainda não conseguimos fazer isto, Cristo não está em nosso coração completamente. O Conceito de servo no Novo Testamento é uma junção de vários termos: doulos (servo como escravo), leitourgos (servo como condutor), diakonos (servo pessoal e livre). Assim a comunidade de discípulos de Jesus vive servindo uns aos outros por meio de seus dons, habilidades pessoais e talentos naturais. Não há honra nisto porque essa atitude é tão simples como natural de cada servo. Fazem isso não por obrigação mas por natureza e peculiaridade. Quer saber quem está na caminhada cristã, veja os que servem sem esperar retorno. “Para a igreja o ministério da diaconia são as mãos e os braços”. “A Igreja se torna então uma comunidade diaconal de amor”. Qualquer pessoa desejará viver nesta comunidade, se vir cada um deles servindo em amor. Isso é missão como resultado da diakonia. A diaconia não pode ser isca para qualquer tipo de evangelização. Jesus jamais afirmou tal coisa. Como bem afirma van Engen: Diaconia é a manifestação inevitável e necessária da natureza essencial da igreja como comunidade dos discípulos de Jesus. Diaconia não é simplesmente uma coisa boa, é a natureza fundamental da igreja cristã. Ministrar a todos os necessitados de todos os lugares (At 1.8). Quando a igreja missionária de Deus deixa de lado o ministério diaconal, algo de sua natureza missionária deixa de brotar”.
Martyria é a quarta palavra. A comunidade dos discípulos de Cristo é a comunidade de “testemunhas”. O testemunho é o termo usado por São Lucas tanto em seu Evangelho como em Atos dos Apóstolos. Não tem a idéia apenas de testemunha ocular, mas também de uma testemunha que coloca todas as coisas em jogo, até a sua própria vida para testificar tal verdade podendo chegar ao martírio. Isso tem a ver com o princípio da entrega da vida em prol de uma verdade iniludível. Assim o evangelho deixa de ser apenas uma coisa boa, para ser a razão da existência. O evangelho deixa de ser um produto a ser oferecido a qualquer um para ser um estilo de vida. O evangelho deixa de ser um meio para que possamos receber bênçãos para ser um meio onde se oferece Dons e talentos por meio da doação e renúncia. Martyria extirpa de vez a idéia do consumismo, demônio presente nas verbalizações de muitos pregadores atuais. Assim “as pessoas que não conhecem a Jesus devem conhecê-lo na presença, proclamação e nos atos e palavras da igreja”. É coerente lembrar que a igreja quando se faz presente por meio de suas palavras e atos já é a própria essência da evangelização. A visão de embaixadores se faz presente não pela importância pessoal, mas pela presença autorizada de Cristo, sob a graça (2ª. Co 5.18-21).
Portanto, vale a pena procurar de tempos em tempos, fazermos uma autocrítica a fim de avaliarmos o que estamos fazendo com a missão e evangelização em nossos dias. Se estas são fruto de idéias pré-concebidas dentro de um mercado globalizado levando a igreja a ser subserviente a um sistema satânico que aí está ou se nossas comunidades buscam viver a simplicidade e a sinceridade de Cristo, resultando em uma missão produto natural da vivência uns com os outros e com a própria Divindade. Bom é lembrar o cuidado de São Paulo: “O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sua sincera e pura devoção a Cristo”. ( 2ª. Coríntios 11.3)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Igreja: Fonte incrementadora de Ministérios

A Reforma Protestante teve um profundo e importante papel na restauração da Doutrina do Sacerdócio Universal de todos os Santos. Não somente os crentes tem o pleno e irrestrito acesso a Deus por meio de Jesus, e assim a sua redenção e perdão de pecados, mas esta condição dá aos discípulos de Jesus a oportunidade de exercerem uma função sacerdotal do ponto de vista ministerial.
A figura de Israel como povo eleito no Antigo Testamento era também o reino de sacerdotes para que os povos da terra conhecessem a Elohim como o Deus Criador de todos os povos (Ex 19.4-6). Reafirmando isso, a Igreja do Novo Testamento é chamada com o mesmo papel, não somente substituindo Israel, mas em sua plenitude exercendo também uma função sacerdotal, a fim proclamar as virtudes daquele que a chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (I Pe 2.9).
Mas nesta condição de servos que ministram, a Igreja também exerce a missão como Corpo de Cristo. Esta visão de Corpo se dá por meio da unidade, diversidade e da mutualidade, características do batismo e da habitação do Espírito Santo. Esta unidade do Corpo de Cristo como um povo de ministra para si e para o mundo, deve ser permeado com o amor ágape. A koinonia é a base desta visão ministerial.
Ao mesmo tempo que a comunidade dos discípulos de Cristo nutre o amor fraternal, estes vivenciam o novo mandamento. A declaração de Cristo é a chave para a formação do caráter ministerial da Igreja: “Novo mandamento vos dou: que vos amei uns aos outros, assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (João 13.34,35).
Mas é interessante notar que, Jesus relaciona o amor promovido pela comunhão como fator preponderante para que a Igreja cumpra sua finalidade missionária. “Nisto conhecerão todos”, expressa a funcionalidade e a finalidade pelo qual se ama e se relaciona: a missão a todos. É interessante ainda ressaltar que o fato da Igreja expressar a sua comunhão, ao mesmo tempo, reflete o amor relacional da própria Trindade. Charles Barrett afirma com muita propriedade que o verdadeiro amor “corresponde ao mandamento que regula a relação entre Jesus e o Pai”.
Johannes Bavinck comenta assertivamente: “A igreja quando vive uma comunhão espiritual, em organismo pleno, tem poder para fazer crescer o corpo”.
Quando o Corpo de Cristo vive a comunhão verdadeirahá a manifestação dos dons espirituais, e o crescimento e expansão do Reino no mundo.
O caráter ministerial envolve a natureza missionária da Igreja, pois a manifestação de ministérios no Corpo é condição para sua existência. Não pode haver um membro sequer desta Igreja sem viver o processo do descobrimento, exercício e desenvolvimento de seus dons para o ministério. Portanto, é imprescindível que uma filosofia de ministério exista dinamicamente na vida da Igreja.
Assim, a Igreja é a fonte incrementadora de ministérios. Uma Igreja missionária é aquela que gera e desenvolve ministérios de maneira que todos os “chamados”, são considerados e valorizados igualmente. A Igreja que vive sua missão ao mundo consagra os seus missionários, profetas, evangelistas, mestres, tanto quanto ordena seus pastores.
Há um déficit ministerial na Igreja. Os missionários e pastores tem perdido a motivação para perseverar no campo. Muitos tem fracassado ministerialmente porque não têm aprendido a prevalecer. Isso porque tanto organicamente como estruturalmente a Igreja não trata seus missionários e pastores no mesmo nível.
O crescente profissionalismo do púlpito atinge a liderança e a visão ministerial deixa de ser o meio para expansão do Reino Deus, para se tornar um fim em si mesmo, expandindo ministérios personificados em mega-projetos. Esta condição que vive a Igreja contemporânea é resultado da diluição de sua natureza missionária deixando-se ser seduzida pelo estilo de vida do mundo.
Há uma concorrência denominacional e ministerial não somente entre igrejas, mas também entre pastores. O estilo de marketing tem sido absorvido, mesmo que inconscientemente pelos ministros, levando a uma superficialidade do que seja vida de discipulado em Cristo e cooperação na obra de Deus. Frank Dietz fala corretamente sobre o assunto:
“Os missiólogos nos ensinam que a primeira onda missionária foi iniciada com Guilherme Carey e liderada principalmente pelos europeus. A segunda onda surgiu com Hudson Taylor e foi liderada principalmente pelos norte-americanos. Uma das coisas que foi definitivamente exportada pelo ocidente para o terceiro mundo foi o espírito de competição. Se é verdade que esta terceira onda de missões será liderada pelos dois terços do mundo, então é muito importante que exorcizemos esse demônio de competição”.
Outra questão que deve ser avaliada dentro do caráter ministerial que forma a natureza missionária da Igreja é a motivação e a filosofia da formação ministerial e missionária. Há um sintoma extremamente sério a esse respeito. Nos últimos anos, 71% dos missionários enviados para campos transculturais tem abandonado o campo por razões que poderiam ser evitáveis. No caso do Brasil o índice é de quase 25%. Em conseqüência disso, não somente a tarefa missionária fica prejudicada, mas os missionários envolvidos que não perseveram e abandonam seus campos, caem em crises profundas, desde a frustração pessoal como o abandono da Igreja.
Mas a Igreja deve ter um papel importante aqui. Tudo se baseia na filosofia de vida para a formação dos seus pastores e missionários. Assim explica a missionária Margaretha Adiwardana:
“Tendências culturais modernas que podem ter influência negativa na capacidade de missionários perseverarem no campo de missão incluem o espírito de independência e auto-suficiência, a expectativa de resultados instantâneos, a obsessão de eficácia no uso do tempo, o desejo de realização pessoal e a orientação para o sucesso. Isso é verdadeiro para muitas culturas, tanto para a ocidental quanto para a asiática e a latino-americana. Se missionários emergem desse contexto e cresceram com essas atitudes, para eles é difícil enfrentra uma situação em que a sua liberdade pessoal é restrita, em que precisam fazer sacrifícios e estar mais preocupados com outros que consigo mesmos, e que têm de continuar atuando mesmo quando parece haver poucos resultados.”
Cabe à Igreja, restaurar o seu caráter ministerial, reavaliando os enfoques de sua formação tanto pastoral como missionária. Tanto pastores como missionários em campos nacionais ou transculturais devem ser não apenas bem preparados teológicamente, mas sobretudo, devem receber formação baseada em uma teologia prática de contextualização, para que seus ministérios não sejam trocados pela vida fácil, sendo ministérios de curto prazo e tornem-se envolvidos pelo consumismo e mercantilismo da fé que paira sobre as igrejas de hoje. Que nestas conferências misssionárias cada um de nós, fiquemos abertos para o Espírito Santo a fim de respondermos pessoalmente o chamado para servir na pluralidade de ministérios. Uma igreja missionária é conhecida quando seus membros reconhecem os seus ministérios nas mais variadas formas. Busquemos ser uma igreja saudável espiritualmente e veremos os resultados da colheita de Cristo.

sábado, 14 de novembro de 2009

Conforto na Peregrinação

"Oh! caminhos tortuosos! Ai do homem temerário que afastando-se de ti, pensa encontrar algo melhor! Quer se volte ou revire para trás, para os lados ou para frente, todas as posições lhe são incômodas, pois só em ti acha tranquilidade. Mas eis que estás aqui, e nos libertas de nossos êrros deploráveis, nos confortas e nos conduzes por teus caminhos, dizendo-nos: Correi, eu vos sustentarei e vos conduzirei até o fim, e aí vos hei de manter". (Isaias 46.4) Santo Agostinho

domingo, 8 de novembro de 2009

Não Quero Mais Ser Evangélico! (adaptado de: Ariovaldo Ramos)

(texto de Ariovaldo Ramos)
"Irmãos, uni-vos - Pastores evangélicos criam sindicato e cobram direitos trabalhistas das Igrejas". Esse, o título da matéria, chocante, publicada pela revista Veja, de 9 de junho de 1999, anunciando formação do Sindicato dos Pastores Evangélicos no Brasil. Foi a gota d'água! Ao ler a matéria acima finalmente me dei conta de que o termo "evangélico" perdeu, por completo, seu conteúdo original. Ser evangélico, pelo menos no Brasil, não significa mais, ser praticante e pregador do Evangelho (boas novas) de Jesus Cristo, mas, a condição de membro de um seguimento do Cristianismo, com cada vez menor relacionamento histórico com a Reforma Protestante - o seguimento mais complicado, controverso, dividido e contraditório do Cristianismo. O significado de ser pastor evangélico, então, é melhor nem falar, para não incorrer no risco de ser grosseiro. Não quero mais ser evangélico! Quero voltar para Jesus Cristo, para a boa notícia que Ele é, e ensinou. Voltemos a ser adoradores do Pai, porque, segundo Jesus, são estes os que o Pai procura e, não, por mão de obra especializada ou por profissionais da fé. Voltemos à consciência de que o caminho, a verdade e a vida é uma pessoa e não um corpo de doutrinas e/ou tradições, nascidas da tentativa de dissecarmos Deus; de que, estar no caminho, conhecer a verdade e desfrutar a vida é relacionar-se intensamente com essa pessoa: Jesus de Nazaré, o Cristo, o Filho do Deus vivo. Quero os dogmas que nascem desse encontro; uma leitura bíblica que nos faça ver Jesus Cristo e não uma leitura bibliólatra Não quero a espiritualidade que se sustenta em prodígios, no mínimo discutíveis, e sim, a que se manifesta no caráter. Chega dessa "diabose"! Voltemos à graça, à centralidade da cruz, onde tudo foi consumado.
Voltemos à consciência de que fomos achados por Ele, que começou em cada filho Seu algo que vai completar; voltemos às orações e jejuns, não como fruto de obrigação ou moeda de troca, mas, como namoro apaixonado com o Ser amado da alma resgatada. Voltemos ao amor, à convicção de que, ser cristão, é amar a Deus acima de todas as coisas e, ao próximo, como a nós mesmos; voltemos aos irmãos, não como membros de um sindicato, de um clube, ou de uma sociedade anônima, mas, como membros do corpo de Cristo. Quero relacionar-me com eles como as crianças relacionam-se com os que as alimentam, em profundo amor e senso de dependência, quero voltar a ser guardião de meu irmão e não seu juiz. Voltemos ao amor que agasalha no frio, assiste na dor, dessedenta na sede, alimenta na fome, que reparte, que não usa o pronome "meu", mas, o pronome "nosso". Para que os títulos: pastor, reverendo, bispo, apóstolo, o que estes significam se todos são sacerdotes? Quero voltar a ser leigo. Para que o clericalismo? Voltemos ao sermos servos uns dos outros; aos dons do corpo que correm soltos e dão o tom litúrgico da reunião dos santos; ao, "onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu lá estarei" de Mateus 18.20. Que o culto seja do povo e não dos dirigentes - chega de show! Voltemos aos presbíteros e diáconos, não como títulos, mas, como função: os que, sob unção da igreja local, cuidam da ministração da Palavra, da vida de oração da comunidade e para que ninguém tenha necessidade, seja material, espiritual ou social. Chega de ministérios megalômanos onde o povo de Deus é mão de obra ou massa de manobra! Para que os templos, o institucionalismo, o denominacionalismo? Voltemos às catacumbas, à igreja local. Por que o pulpitocentrismo? Voltemos ao "ïnstruí-vos uns aos outros" (Cl 3. 16). Por que a pressão pelo crescimento? Jesus Cristo não nos ordenou ser uma Igreja que cresce, mas, uma Igreja que aparece: "Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus."(Mt 5.16). Vamos anunciar com nossa vida, serviço e palavras "todo o Evangelho ao homem... a todos os homens". Deixemos o crescimento para o Espírito Santo que "acrescenta dia a dia os que haverão de ser salvos", sem adulterar a mensagem. Chega dos herodianos que vivem a
namorar o poder, a vender a si e as ovelhas ao sistema corrupto e corruptor; voltemos à escola dos profetas que denunciam a injustiça e apresentam modelos de vida comunitária. Chega do corporativismo, onde todo mundo sabe o que acontece, mas, ninguém faz nada; voltemos ao confronto, como o de Paulo a Pedro (Gl 2.11), que dá oportunidade ao
arrependimento e aperfeiçoa, como "o ferro afia o ferro." (Pv 27.17) Saiamos do "metodologismo". Voltemos a "ser como o vento, que sopra como quer, se ouve a sua voz mas não se sabe de onde vem e nem para onde vai" (Jo 3.8). Não quero mais ser evangélico, como o é entendido, hoje, neste país. Quero ser só cristão. Um cristão integral, segundo a Reforma e os pais da Igreja. Adorando ao Pai, em espírito e verdade, comungando, em busca da prática da unidade do "novo homem", criado por Cristo à Sua imagem (Ef 2.15), e praticando a missão integral.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Não sejas como quem diz uma coisa e faz outra

Do Sermão proferido no último sínodo por São Carlos, bispo

(ActaEclesiae Mediolanensis, Mediolani 1599,1177-1178)
(Séc.XVI)


Somos todos fracos, confesso, mas o Senhor Deus nos entregou meios com que, se quisermos, poderemos ser fortalecidos com facilidade. Tal sacerdote desejaria possuir uma vida íntegra, que dele é exigida, ser continente e ter um comportamento angélico, como convém, mas não se resolve a empregar estes meios: jejuar, orar, fugir das más conversas e de nocivas e perigosas familiaridades.

Queixa-se de que, ao entrar no coro para a salmodia, ao dirigir-se para celebrar a missa, logo mil pensamentos lhe assaltam a mente e o distraem de Deus. Mas, antes de ir ao coro ou à missa, que fez na sacristia, como se preparou, que meios escolheu e empregou para fixar a atenção?

Queres que te ensine a caminhar de virtude em virtude e como seres mais atento ao ofício, ficando assim teu louvor mais aceito de Deus? Escuta o que digo. Se ao menos uma fagulha do amor divino já se acendeu em ti, não a mostres logo, não a exponhas ao vento! Mantém encoberta a lâmpada, para não se esfriar e perder o calor; isto é, foge, tanto quanto possível, das distrações; fica recolhido junto de Deus, evita as conversas vãs.

Tua missão é pregar e ensinar? Estuda e entrega-te ao necessário para bem exerceres este encargo. Faze, primeiro, por pregar com a vida e o comportamento. Não aconteça que, vendo-te dizer uma coisa e fazer outra, zombem de tuas palavras, abanando a cabeça.

Exerces cura de almas? Não negligencies por isso o cuidado de ti mesmo, nem dês com tanta liberalidade aos outros que nada sobre para ti. Com efeito, é preciso te lembrares das almas que diriges, sem que isto te faça esquecer da tua.

Entendei, irmãos, nada mais necessário aos eclesiásticos do que a oração mental que precede, acompanha e segue todos os nossos atos: Salmodiarei, diz o Profeta, e entenderei (cf. Sl 100,1 Vulg.). Se administras os sacramentos, ó irmão, medita no que fazes; se celebras o culto, medita no que ofereces; se salmodias no coro, medita a quem e no que falas; se diriges as almas, medita no sangue que as lavou e, assim, tudo o que é vosso se faça na caridade (1Cor 16,14). Deste modo, as dificuldades que encontramos todos os dias, inúmeras e necessárias (para isto estamos aqui), serão vencidas com facilidade. Teremos, assim, a força de gerar Cristo em nós e nos outros.

E peço continuamente: kyrie eleison