quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O QUE ESTAMOS FAZENDO COM A LITURGIA

Pecamos porque não conhecemos a história. A igreja cristã deveria adorar a Deus com o mesmo espírito com o qual Ele é adorado no Céu. O livro do Apocalipse é um exemplo disso. Todo ato litúrgico da Igreja Cristã não deveria, absolutamente, ser uma ostentação triunfalística, pois todas os momentos da liturgia deveriam servir para convidar o fiel a voltar o próprio olhar sobre si e não para fora de si.

A Liturgia não deveria atingir a imaginação nem seu fim deveria doutrinar e submeter os fiéis ao poder de outros homens que decidem por eles. A Igreja e a Liturgia outra coisa não deveriam ser do que um ambiente no qual saímos de nós fisicamente e espiritualmente para conseguir sempre mais e sempre melhor voltar o próprio olhar em si mesmo, lugar no qual Deus se revela. Para tal fim, a Liturgia deveria conduzir-nos a abrir os olhos do coração, isto é, da própria interioridade.
O primeiro exercício que o fiel deveria cumprir é o de afastar-se dos pensamentos e das fantasias da vida mundana, fazer um profundo silêncio sobre si. Somente assim os sacramentos e meios de graça começariam a interpelar e a interagir com a interioridade do homem.

A Liturgia, deveria “prender” o cristão de dentro para fora. O resultado seria aquele sentimento claro e sensível a intervenção de algo novo, de uma força anteriormente desconhecida. Tal força, que se faz sentir claramente em quem começa a abrir os olhos diante deste tipo de experiência, tradicionalmente é chamado pela Igreja com o termo “Graça”. É somente assim que a Igreja, em lugar de ser transformada pelo mundo, transformaria o mundo e, através do culto prestado a Deus, confessaria aquilo que crê e que vive, terminando por irradiar uma realidade que não é humana (“Eu vos dou a paz, minha paz eu vos dou. Não como o mundo a dá, eu a dou para vós...” Jo 14,27).

Naturalmente, sendo uma reunião, a Liturgia deveria exigir empenho. As palavras cantadas deveriam constranger e levar a interiorização, coisa que não acontece com o homem moderno. Porque qualquer liturgia de hoje parace mais um programa de auditório ou um show de fé.

A visão da liturgia deveria estabelecer que a Igreja não é um teatro ou um espetáculo televisivo! Muito menos é uma cátedra universitária. As pessoas deveriam entrar na igreja para serem ontologicamente transformadas e curadas, não para permanecer o que eram antes de entrar com alguma consolação sentimental a mais! É também completamente estranho ao espírito cristão original viver a Liturgia como se fosse um diálogo entre o celebrante e os fiéis, ou como se fosse um momento em que se pudesse ministrar a doutrina. A Liturgia deveria ser o lugar onde fala a força de Deus, não onde se demonstra a razão dos homens, por mais justa que possa parecer.

Hoje temos a necessidade urgente de que os líderes cristãos façam uma auto-crítica sobre o que estão fazendo da liturgia. Não é um momento de oferecer as pessoas o que elas desejam, mas delas oferecerem a Deus o que Ele deseja, por meio de uma experiência da fé e do sacramento que não apenas simboliza a inefável presença de Deus, mas que traz esta presença ao coração humano. A beleza litúrgica é o que se oferece a Deus e não o que é oferecido ao homem.

A participação da oração da Igreja não deveria concentrar-se intelectualmente num ensinamento codificado, mas para impregnar-se da beleza da Liturgia, mergulhar em sua atmosfera, nutrir sua alma, o coração e o espírito. É preciso entrar na Liturgia como uma criança que saboreia com surpresa as maravilhas do mundo, o que comporta uma atitude pacífica, ao mesmo tempo distendida e concentrada. Sem isso é impossível interiorizar-se, silenciar o coração. O silêncio que deveria ser o momento de oração, torna-se insuportável ao coração agitado de qualquer um que participe de um culto hoje em dia. Não se cultua pelo muito falar, mas pelo muito sentir.

Na Liturgia, o homem é chamado a render a Deus tudo aquilo que faz parte de sua vida, tudo o que a torna preciosa, tudo quanto constitui um dom de Deus e o transforma em ação de graças.

O que estamos fazendo com a Liturgia? Tornamo-la um programa de auditório, um ambiente cinematográfico, um elemento muito mais humano e hedonista do que o que deveria ser: Lugar onde se encontra com o Deus Todo-poderoso e onde há simplicidade e humildade diante da oferenda que se presta. Tormanos os cultos sinônimos de uma "antropolatria", onde o homem é o centro do momento, a começar do pastor ou do pregador. Não é mais a Palavra de Deus que impera mas a eloquência, o carismatismo dos pregadores, os testemunhos homéricos de homens cheios de uma fé extra-terrena. Onde a pergunta "quem vai pregar hoje", é o que importa, pois a liturgia deixou de ser um encontro com o divino, para se tornar um encontro do homem com seu próprio ego. É mais fácil encontrar a oração do fariseu do que a oração do publicano. Onde o orar de si para si, tomou o lugar do "Senhor, tem piedade de mim, pecador".

O que estamos fazendo com a liturgia?

Que Deus tenha misericórdia de sua igreja.

Kyrie Eleison