domingo, 13 de dezembro de 2009

O QUE SERIA DA IGREJA EVANGÉLICA SEM OS EVENTOS?

Depois de folhear algumas das revistas evangélicas de nosso país, eis que fui tomado de uma pergunta inquietante. “O que seria da igreja evangélica no Brasil, se a partir de agora, não ocorressem mais os eventos e programas que os mesmos evangélicos propagandeiam?”
Jamais esquecerei de uma frase dita por um de meus professores quando afirmou, desenvolvendo o assunto sobre a eclesiologia brasileira: “A igreja nasceu como um fato na Palestina, foi à Grécia e se tornou uma ideologia, então foi levada a Europa e Estados Unidos e se tornou um empreendimento, veio para o Brasil e se tornou um evento”. Guardadas as proporções detalhistas da história humana e da igreja, a igreja do século XXI, pós-moderna, está fadada a viver motivada, animada pelos milhares de eventos que se faz durante o ano. Sem falar daqueles que lucram e lucram muito com estes eventos, não os questiono na realização, pois muitos acabam por conhecerem a Cristo, devido à misericórdia divina. Mas é impressionante, o sistema evangélico vivenciado e imposto pelos líderes religiosos, pastores da mídia, são ipsis litteris, uma cópia fiel das motivações e encontros realizados pela maioria das empresas, sociedades filantrópicas, eventos de marketing, treinamento para o mercado, e tantos outros. Somos uma cópia fiel da sociedade de consumo. Assim como se consome qualquer produto no meio social, a igreja evangélica aprendeu a consumir os mais variados eventos religiosos.
A começar das igrejas locais, pense comigo, por exemplo, quantos eventos são realizados para atrair casais, jovens, e os mais variados tipos de pessoas? Há eventos que se fossem realmente pesados na balança de Deus e do que Deus quer fazer, nem sequer Deus estaria presente neles. Há eventos como Encontros de Fé, Encontrões de Mocidade, Conferencias Evangelisticas, Conferencias missionárias, e inúmeros eventos de avivamento, sem contar as Correntes, os Cultos especiais, os Mega-eventos nas mega-cidades.
De fato, você deve pensar no que vou dizer agora: Os cristãos do século XXI estão se tornando “cristãos-evento”. Pense agora no dinheiro investido nestes eventos e que poderiam ser investidos na área social, na área missionária, e em bolsas de estudos para enviarem homens e mulheres para a preparação em seminários e escolas sérias que estão envolvidas com o reino de Deus.
Se analisarmos o início do cristianismo vemos que a fé estava unida às coisas comuns da vida. A fé não era consumida, era vivida, não era propagandeada, mas absorvida por pessoas comuns que em seus afazeres comuns deixavam por natureza comum produzir homens e mulheres tocados e verdadeiramente convertidos a este reino.
Como disse os eventos não são um mal em si. Mas tornaram-se um fim em si mesmo, para propagar a fé evangélica que estamos deixando de vivê-la sob a graça de Jesus no dia-a-dia. E ao pensar nisso, os eventos realizados pelo movimento evangélico brasileiro deveriam ter forte conotação em administrar os resultados do mesmo. O Discipulado ou acompanhamento posterior de pessoas interessadas é a resposta para isso. O evento embora seja estrondoso, barulhento, emocionante, sensacional, não pode produzir raízes em vidas que desejam conhecer a Jesus.
É hora dos líderes religiosos evangélicos tomarem coragem para fazerem uma autocrítica acerca destes eventos e programas que embora não percebamos transforma a igreja local ou a igreja nacional em puro “ativismo”. A fé nunca é vivenciada no coletivo se não começar na vida simples e comum de cada um, com nossos problemas, nossas tentações, e nossas provações.
O que Jesus ensinava precisa ser relembrado, principalmente na vivência da graça que nos mantém vivos diante das adversidades pessoais e na esperança de uma nova criação. Repasso aqui a declaração firme e esclarecedora do Dr. Valdir Steuernagel:
A nossa evangelização deve estar a serviço de um evangelho que afeta a pessoa toda em todas as áreas de sua vida. Isto quer dizer que o evangelho, embora seja pessoal, tem um forte colorido coletivo: é individual, mas tem uma inerente dimensão social; é uma mensagem de conforto, mas pede um compromisso ético; desencadeia uma espiritualidade terapêutica e leva a um inequívoco pacto com a justiça; produz igreja, mas uma igreja que deve estar concretamente enraizada na comunidade global dos seres e na busca desta por uma vida justa e digna. Quanto mais estivermos a serviço deste evangelho integral, que afeta todas as áreas da vida, tanto mais estaremos a serviço do Deus Trino. E esta será adoração verdadeira que, como o sacrifício de Abel, será acolhida nos céus.

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