sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Crescimento numérico = vontade de Deus! Nem sempre!

Uma das questões que me traz preocupação é como os líderes religiosos de hoje idealizam uma comunidade segundo a vontade de Deus. Para muitos uma igreja ou congregação que vive segundo a vontade de Deus tem que estar em amplo crescimento numérico. Eu questiono essa afirmação e digo: “nem sempre”. Afirmo isso porque nem sempre as pessoas sabem o que significa crescer e relacionam este crescimento de acordo com um número de pessoas que se congregam para adorar a Deus nos domingos, num templo.
Quanto a isso, devemos ter uma visão mais amadurecida. Somos fruto de uma série de movimentos no decorrer da história que relacionavam crescimento numérico + vontade de Deus = Glória a Deus. Os muitos movimentos evangelicais na história criaram uma noção de que Deus quer que cresçamos em número.
Que o crescimento de uma comunidade aconteça a partir de um evangelho vivido entre os discípulos de Cristo, isso é verdade, porém estudando mais a fundo e experimentando o ministério depois de 21 anos, acabo vendo que em 90% dos casos de crescimento numérico nada mais são do que a aplicação de modelos e princípios empresariais.
Ora, o que vem a ser crescimento? Primeiro é bom lembrar que nenhum dos evangelhos afirma que Jesus usou o termo “plantem igrejas”! O termo plantar é bem recente. Nem mesmo as missiologias até meados do século XX usavam este termo para designar o testemunho. Na verdade o termo “plantar igreja” foi trazido dos Estados Unidos da América, fruto primeiramente do então Movimento de Crescimento de Igreja com Donald McGravan e Peter Wagner, se desenvolveu mais recentemente com o Movimento de desenvolvimento natural com Christan Schwarz e então desembocou no Movimento de Igrejas Dirigidas pelo Marketing com Bill Hybels e a “Igreja com propósito” com Rick Warren.
É importante sabermos que embora possuindo princípios sinceros, estes movimentos tentaram ser uma mola ou um gerador para “tirar a igreja da inércia espiritual” e produzir “necessariamente” uma dinâmica do ponto de vista humano. Como todo movimento estes possuem uma forte tendência pragmática e utilitarista. E é aí que me proponho a refletir.
Não questiono o crescimento “natural”, mas questiono o muito ativismo e consumismo religioso abafando o crescimento produto de uma vida cristã saudável. O ativismo torna as comunidades locais num “que-fazer” sem-sentido e tem gerado cristãos que vivem do ativismo cruel sem dar conta que estão cavando a própria “cova espiritual”.
Digo isso porque há movimentos dentro das comunidades sem sentido algum. Há tantos cristãos que em troca de uma idéia de agradar a Deus e a si mesmos, colocam em jogo suas vidas e suas famílias entregando-as a falência. Já vi vários casais que viviam aparentemente estáveis, após uma vida de encontros e eventos eclesiásticos se separaram. Isso demonstra que nenhum movimento por mais belo e tocante que seja pode produzir mudanças profundas e graves na vida de pessoas se isso não for ocupado pelo trabalho diário e perseverante por meio da vivência mútua do fiéis. Na maioria das vezes vive-se um ativismo “ignorante” tornando os eventos “um fim-em-si-mesmos”.
Por isso o Novo Testamento foi escrito a fim de que possamos compreender nosso papel como discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Viver a vida cristã de modo saudável implica em compreendermos a finalidade para a qual a igreja de Cristo vive neste mundo.
O grande segredo dos cristãos é compreenderem a igreja como uma comunidade e não apenas como uma instituição. Para entendermos melhor esta frase, devemos lançar mão de algumas palavras usadas no Novo Testamento. A primeira é Koinonia, a segunda é Querygma, a terceira é Diaconia e a quarta Martyria.
A Koinonia significa comunhão e é o estilo de vida esperado por aqueles que vivenciam a fé cristã. Comunhão e amor é a sintese da Lei (Mc 12.29-31), a comunhão que regula a relação entre Jesus e o Pai e o Espírito Santo deve ser a mesma que regula as relações de seus filhos (Charles Barret). O amor dos discípulos uns pelos outros não pode ser meramente um teatro, mas de fato objetivo deve revelar o Pai e o Filho nos relacionamentos cristãos. Seus seguidores devem reproduzir o amor mútuo, o amor que o Pai mostrou ao enviar seu Filho, o amor que o Filho mostrou ao entregar a vida. (Charles H. Dodd). Não é meramente sentimentalismo provocado pela emoção, mas sim um tipo de ação que o Pai e o Filho e seus discípulos assumiram para si por amor ao mundo. Essa reação é ordenada aos discípulos. Esta koinonia é encarnacional, vivida entre pessoas diferentes porém obedientes a fé de Cristo (Jo 14.23). Ao falar de missão, Jesus em João 13.35 a relaciona com a vida em amor. Não há missão sem unidade, comunhão e vivência. A vida em comunhão constrangerá os de fora. É uma relação centrípeta, porém não voltada para uma auto-preservação. A instituição sempre fará da koinonia um meio para se auto-preservar, porém o organismo espiritual sempre promoverá a koinonia como o elemento principal para a vida espiritual saudável resultado naturalmente numa missão incoercibível.
O Querygma é a segunda palavra. A própria Koinonia envolve uma proclamação (kerigma) do Senhorio de Jesus. O senhorio de Cristo impulsiona a Igreja para fora na proclamação do evangelho ao mundo. Harry Boer diz: “Há um elo entre o ensino neo-testamentário do senhorio de Cristo e o propósito universal de Deus”. ( Rm 11.25-26; 16.25; Ef 1.9-10; 3.3-11; 5.32; Cl 1.26-27 e 1 Tm 3.16). “O senhorio de Cristo não é apenas um senhorio na Igreja e sobre o indivíduo que crê, mas sim um senhorio com proporções cósmicas e universais”. (At 4.25-30). O conteúdo do Querygma é a mensagem “Jesus é o Senhor”. Sendo assim necessariamente implica num movimento. “Jesus é o Senhor” significa “Jesus é o Senhor do mundo”. (Mt 28.19-20; Cl 1.15-20). “Não se pode confessar que Jesus é o Senhor sem, ao mesmo tempo proclamar o seu senhorio sobre todos”. Há aspectos muito fortes aqui de duas marcas da igreja: sua catolicidade e sua apostolicidade. Ao vivenciarmos Jesus como Senhor (kyrios) e não apenas como salvador (soter) estamos revelando que nossos valores foram alterados e não vivemos subjugados pelos valores da sociedade. Isso tem um resultado na vida, no comércio, nas decisões institucionais. Enfim, se Jesus Cristo é o Senhor, o mundo será mudado por ser Ele o Pantocrator (todo-poderoso, onipotente, governador). Ele é o Senhor de todas as pessoas, de toda a criação e da igreja, chamando todos para um encontro radical com Ele. Essa consciência faz naturalmente brotar uma energia que impele a comunidade para a frente por meio de atos e palavras, não num evento realizado, mas tão somente na vida cotidiana.
A Diaconia é a terceira palavra. Numa das afirmações do Donald McGravan encontramos que “a igreja é a comunidade dos crucificados”. Sem dúvida alguma levando em consideração que todos os cristãos vivem para um único propósito que é servir ao seu semelhante, as palavras de Jesus continuam ecoando: “O servo não está acima de seu Senhor” (Mt 10.24; Jo 13.16; 15.20). Portanto as experiências do discípulo serão as experiências de seu mestre. Não podemos fazer diferente. Uma comunidade saudável que vive segundo a vontade de Deus, está em serviço dinâmico entre seus irmãos de fé e também com os de fora. O “lavar os pés uns dos outros” é a primeira conseqüência da presença de Cristo em uma vida, a começar o líder, seja ele quem for. (Jo 13.16). A postura do discípulo será sempre o de servir com humildade (Jo15.20) e servir sem esperar retorno. Se ainda não conseguimos fazer isto, Cristo não está em nosso coração completamente. O Conceito de servo no Novo Testamento é uma junção de vários termos: doulos (servo como escravo), leitourgos (servo como condutor), diakonos (servo pessoal e livre). Assim a comunidade de discípulos de Jesus vive servindo uns aos outros por meio de seus dons, habilidades pessoais e talentos naturais. Não há honra nisto porque essa atitude é tão simples como natural de cada servo. Fazem isso não por obrigação mas por natureza e peculiaridade. Quer saber quem está na caminhada cristã, veja os que servem sem esperar retorno. “Para a igreja o ministério da diaconia são as mãos e os braços”. “A Igreja se torna então uma comunidade diaconal de amor”. Qualquer pessoa desejará viver nesta comunidade, se vir cada um deles servindo em amor. Isso é missão como resultado da diakonia. A diaconia não pode ser isca para qualquer tipo de evangelização. Jesus jamais afirmou tal coisa. Como bem afirma van Engen: Diaconia é a manifestação inevitável e necessária da natureza essencial da igreja como comunidade dos discípulos de Jesus. Diaconia não é simplesmente uma coisa boa, é a natureza fundamental da igreja cristã. Ministrar a todos os necessitados de todos os lugares (At 1.8). Quando a igreja missionária de Deus deixa de lado o ministério diaconal, algo de sua natureza missionária deixa de brotar”.
Martyria é a quarta palavra. A comunidade dos discípulos de Cristo é a comunidade de “testemunhas”. O testemunho é o termo usado por São Lucas tanto em seu Evangelho como em Atos dos Apóstolos. Não tem a idéia apenas de testemunha ocular, mas também de uma testemunha que coloca todas as coisas em jogo, até a sua própria vida para testificar tal verdade podendo chegar ao martírio. Isso tem a ver com o princípio da entrega da vida em prol de uma verdade iniludível. Assim o evangelho deixa de ser apenas uma coisa boa, para ser a razão da existência. O evangelho deixa de ser um produto a ser oferecido a qualquer um para ser um estilo de vida. O evangelho deixa de ser um meio para que possamos receber bênçãos para ser um meio onde se oferece Dons e talentos por meio da doação e renúncia. Martyria extirpa de vez a idéia do consumismo, demônio presente nas verbalizações de muitos pregadores atuais. Assim “as pessoas que não conhecem a Jesus devem conhecê-lo na presença, proclamação e nos atos e palavras da igreja”. É coerente lembrar que a igreja quando se faz presente por meio de suas palavras e atos já é a própria essência da evangelização. A visão de embaixadores se faz presente não pela importância pessoal, mas pela presença autorizada de Cristo, sob a graça (2ª. Co 5.18-21).
Portanto, vale a pena procurar de tempos em tempos, fazermos uma autocrítica a fim de avaliarmos o que estamos fazendo com a missão e evangelização em nossos dias. Se estas são fruto de idéias pré-concebidas dentro de um mercado globalizado levando a igreja a ser subserviente a um sistema satânico que aí está ou se nossas comunidades buscam viver a simplicidade e a sinceridade de Cristo, resultando em uma missão produto natural da vivência uns com os outros e com a própria Divindade. Bom é lembrar o cuidado de São Paulo: “O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sua sincera e pura devoção a Cristo”. ( 2ª. Coríntios 11.3)

Um comentário:

Padre Mateus disse...

Rev. Luíz,

Parabéns pelo blog e os artigos publicados.

Um forte abraço,

Pe. Mateus (Antonio Eça)