segunda-feira, 20 de maio de 2013

A espiritualidade da vergonha



Na sociedade moderna, a tolerância transformou-se na maior de todas as virtudes. Aceita-se tudo, não se critica nada. O que mais me preocupa não é a capacidade de compaixão e paciência que a tolerância produz em nós, mas a ausência, cada vez maior, de valores e princípios absolutos que nos ajudam a separar o justo do injusto, o certo do errado. 

O sociólogo francês Gilles Lipovetsky, em seu livro “A Sociedade Pós-Moralista”, descreve assim a tolerância na cultura moderna: “A tolerância adquire uma maior fundamentação social não tanto pelo fortalecimento da compreensão dos deveres de cada um perante o próximo, mas em razão de uma nova dimensão cultural que rejeita os grandes projetos coletivos, exaurindo de sentido o moralismo autoritário, diluindo o conteúdo das discussões ideológicas, políticas e religiosas de toda a conotação de valor absoluto, orientando cada vez mais os indivíduos rumo à sua própria meta de realização pessoal”. Ou seja, a ausência de uma consciência coletiva, a rejeição a qualquer verdade que seja absoluta e a busca pela realização pessoal geram uma forma perigosa de tolerância. 

Entretanto, o perigo da rejeição a uma verdade absoluta está no fato de que ser tolerante hoje implica, necessariamente, não julgar, não ter mais critérios que separem o bem do mal, o justo do injusto; e, uma vez que não julgamos mais, poucas coisas nos chocam ou abalam e, quando o fazem, é por pouco tempo. Vivemos um estado de normalidade caótica, de paz frágil, de tranqüilidade tão relativa quanto os nossos valores. 

Na oração de confissão de Daniel há uma declaração que vem se tornando cada dia mais rara entre nós: “A ti, ó Senhor, pertence a justiça, mas a nós, o corar de vergonha” (Dn 9.7). Isto não acontece mais. Somos demasiadamente tolerantes para “corar de vergonha”. Mesmo diante de fatos trágicos e deploráveis que vemos todos os dias, o máximo que conseguimos é uma indignação passageira. Porém, é a possibilidade de corar de vergonha que não me permite rir da corrupção, achar normal a promiscuidade, conviver naturalmente com a maldade e a mentira, ou, ainda, achar graça da injustiça. 

Vivemos numa cultura que se orgulha do pecado, glamourizando-o através dos meios de comunicação, fazendo das tribunas públicas um palco de mentiras, organizando marchas para celebrá-lo, rindo da corrupção, exaltando a esperteza. E ninguém fica corado de vergonha. 

Daniel contrasta, de um lado, a natureza justa de Deus e, de outro, a corrupção e a injustiça do seu povo. Ele só é capaz de fazer isto porque sua ética e moral estão ancoradas em verdades absolutas sobre as quais não pode haver tolerância. A conclusão a que ele chega é que, diante da justiça divina e do quadro trágico de um povo que se orgulha de sua maldade, o que sobra é o “corar de vergonha”. 

Ele nos apresenta aqui a importância de uma vergonha saudável e essencial na preservação da dignidade humana e espiritualidade cristã. A vergonha aqui é a virtude que nos ajuda a reconhecer nossos erros, limitações, faltas e pecados porque ainda somos capazes de perceber que existe algo melhor, mais belo, mais sublime, mais nobre, mais justo, mais santo e mais humano pelo qual vale a pena lutar. A vergonha nos impõe um limite. É por isto que o caminho para o crescimento e amadurecimento passa pela capacidade de ficar corado de vergonha diante de tudo aquilo que compromete a justiça e a santidade. No caminho da santidade lidamos com o amor, verdade, bondade, justiça, beleza, entrega, doação e cuidado. A falta de vergonha nos leva a negar este caminho e optar pela mentira, manipulação, engano, falsidade, hipocrisia e violência. 

“Corar de vergonha” é uma virtude que falta na experiência espiritual moderna, a virtude de olhar para o pecado que habita em nós, a mentira e o engano que residem nos porões da alma, a injustiça que se alimenta do egoísmo, a malícia que desperta os desejos mais mesquinhos, e se entristecer. Precisamos reconhecer que foram os nossos pecados que levaram o Santo Filho de Deus a sofrer a vergonha da cruz. Quando olhamos para a cruz e contemplamos nela a beleza e a pureza do amor, só nos resta “corar de vergonha”. 

* Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de “Janelas para a Vida” e “O Caminho do Coração”. 

domingo, 19 de maio de 2013

ELEIÇÃO E SACERDÓCIO

Desde quando Deus chamou Abraão para que nele todas as nações da terra fossem benditas, temos o chamado para o sacerdócio. Esta palavra se consolida quando na aliança do Sinai, o Senhor por meio de Moisés, chamava a descendência de Abraão, o povo de Israel, para que vivessem como uma nação separada e santa para Ele, sendo intermediários da bênção de Deus para todos os povos pagãos. 

Este sacerdócio real, que melhor é traduzido por reino sacerdotal é a razão de nossa eleição e de nosso chamado como povo de Deus. O fato de sermos eleitos por Deus possui uma causa: viver como sacerdotes entre Deus e os povos, entre Cristo e o mundo. Nossa existência somente tem razão de ser se vivermos em prol dos outros. Foi este o projeto divino para a nação de Israel no Antigo Testamento. Assim como o sacerdote permanecia entre Deus e seu povo intermediando a graça, mediando-a e distribuindo-a, a igreja, por meio de Seu Espírito também deve manter-se entre Deus e o mundo servindo-o e sendo uma bênção para todos, luz do mundo e sal da terra. 

Nossa missão atual é vivermos como sacerdotes. Somos salvos e nos encontramos com Cristo para servirmos como sacerdócio de maneira santa, isto é, nossa relação com Deus deve ser tão profunda que não temos condições de viver senão como ele vive. Portanto, a palavra do Apóstolo Pedro faz sentido: “Vós porém sois sacerdócio real, nação santa, povo eleito de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para sua maravilhosa luz”. (I Pedro 2.9). Não existe uma eleição divina num vazio. Somos eleitos para servir, como sacerdotes, estando no meio, recebendo de Deus e repassando para todos, a sua graça indistintamente. Quando o cristão não vive desta maneira, ele nega sua fé e cai em apostasia. Quando ele se gaba de sua eleição divina e se arvora como alguém melhor do que os outros, sem servi-los por meio da ajuda, do amor, dos atos de misericórdia, da evangelização, da solidariedade, ele está pronto a viver sua vida como um fariseu da época de Jesus. 

Quais são as razões de você estar participando de uma igreja? Você já usa seus dons e talentos para o exercício de seu sacerdócio? Quanto tempo você está reservando para ajudar e servir os outros? Não há eleição senão por causa do serviço. Não há maior alegria senão a alegria de ser como Cristo, um servidor. Confirme tua eleição: sirva! Esta é a única maneira de você ter certeza de sua salvação!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

AMOR DE MÃE E AMOR DE DEUS




Na Teologia Dogmática, uma das disciplinas do arcabouço teológico, estuda os Atributos Comunicáveis e os Incomunicáveis do Ser Divino. Os Comunicáveis são qualidades divinas que segundo a sua soberania, Deus quis transmitir as suas criaturas. Atributos como graça, delicadeza, amor, força entre outros, foram-nos transmitidos, porém os Incomunicáveis como a Onipotência, a Onisciência e a Onipresença Ele guardou para Si somente, não fazendo isso nem para os anjos.

Deus não é nem macho nem fêmea. Ao transmitir às suas criaturas ele também escolheu soberanamente algumas qualidades para transmiti-las à mulher e ao homem.

À mulher ele a considerou capaz de amar de maneira generosa e liberal. Um amor generoso, delicado e até sacrificial. Portanto à mãe foi reservado misteriosamente viver e gerar, criar e amar de tal maneira que qualquer ser humano jamais em sua vida normal pode negar o seu amor. Assim ele é tão valorizado e poetizado por tantos.

O “amor de mãe” é poderoso, intenso, profundo e impressionante. Por isso não conseguimos entender tantas vezes mães que, se pudessem, dariam a própria vida em favor de seus filhos. E muitas outras que na história já o fizeram.

O amor de mãe mexe tanto conosco por que expressa uma realidade incompreensível ao ego humano. Enquanto queremos seguir nosso coração egoísta, nos preservando, o amor de uma mãe, é tão parecido com o de Deus, que rompe com a natureza das coisas e revela algo que só a elas foi particularizado. Amar é dar a vida, é sacrificar-se pelo outro.

O amor de uma mãe é parecido com o de Deus, mas não é maior do que o de Deus. Ele em sua Soberania nos afirma categoricamente em Isaias 49.15: “pode uma mulher esquecer-se de seu filho de peito, de maneira que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse, eu, todavia, não me esquecerei de ti”. O amor de uma mãe embora seja tão intenso, não pode se comparar com o do próprio Deus. Deus amou o “cosmos” (o mundo), e por isso entregou-se como sacrifício em prol da vida de toda a sua criação.

Amar segundo o amor de Deus é entregar-se por alguém. A mãe sabe muito bem o que é isso. Entregar seu corpo durante nove meses, comungando com seu filho ainda no ventre todo seu sangue, todas as suas células e seu DNA. Amar, porém não se limita apenas neste tempo de gestação, porém também desemboca na criação, na comunhão, na transmissão do falar, do pensar e do viver a seu filho. É o disciplinar, o chorar, o se alegrar na esperança que ele possa um dia aprender a amar assim como ela o amou.


Portanto, devemos considerar o amor de uma mãe. Devemos privilegiá-la por tão grande dádiva divina. Porém este amor produz uma tão grande demanda, tão grande gravidade, tão enorme responsabilidade. Olhemos para a mãe e com certeza teremos a melhor fotografia da medida do amor que Deus tem por cada um de nós!

segunda-feira, 6 de maio de 2013

OFERECENDO COM O CORAÇÃO


“a quem dá liberalmente ainda se lhe acrescenta mais e mais; ao que retém mais do que é justo ser-lhe-á em pura perda.” (Provérbios 11.24)

Tudo que fazemos na vida deve ser acompanhado pela fé. Há muita confusão quando ligamos a fé aos bens e ao dinheiro. Muitos dizem que não há qualquer ligação entre ambos, mas de fato, nossa espiritualidade não se projeta num vazio, e sim num ambiente concreto, material e físico. Nossa fé só é fé “viva” se envolve “obras”. A fé dinâmica sempre produz alguma coisa. Assim também nossa vida financeira é conseqüência de nossa relação com Deus. Por isso nosso Dízimo e nossas ofertas estão estreitamente ligadas a nossa fé.

É importante que definamos alguns termos para não confundir: “O amor” é o maior dom, porém ele não é apenas sentimento, é oferta de algo, é sacrifício. As “esmolas” são pequenas ofertas que usamos para ajudar a pessoas necessitadas que nos pedem e batem à nossa porta. Os “donativos” são doações esporádicas que realizamos em caso de campanhas beneficentes. A “contribuição” são ofertas que assumimos em caráter provisório ou permanente, destinadas a instituições ou pessoas como ajuda, por acreditarmos naquele trabalho. O “Dízimo” tem por base nossa produção. De tudo que produzimos uma parte destinamos à comunidade, à igreja, locais onde acreditamos que Deus faz ali residir seu nome. É o principal meio de contribuição para a manutenção do Corpo de Cristo, a igreja, na qual somos membros e nos identificamos. As ofertas e os dízimos são deixados no altar do Senhor dentro de uma liturgia, como sinal de nossa fé e de nossa gratidão a Deus. Muitos não vivem esse momento como de fato são chamados a viver diante de Deus, porque entendem o dízimo separado da vida cristã.

Muitos vivem o momento do ofertório oferecendo com indiferença esmolas, deixando passar este momento importante de fé. Ofertar a Deus é entrar em profunda comunhão com Ele, pois ele mesmo é uma oferenda constante na vida de todos nós. Ofereceu-nos em primeiro lugar o dom da vida, depois nos ofereceu a sua própria criação (ervas, plantas, frutos, animais como nosso alimento) para prover todas as nossas necessidades. Ele nos deu rios, mares, as terras e os minérios, nos ofereceu as leis que conduzem a nossa felicidade e, além disso, tornou-se filho de “Adão”, oferecendo-se como sacrifício para remissão de todos os pecados da humanidade. Ofereceu-nos ainda o Seu Espírito Santo que inspira e instrui para a manutenção da vida.

Muito diferente do que se está acostumado a viver nos cultos, o ofertório não é um momento para “esmolas”, mas é um momento de consagração especial, que revela onde está nosso coração. Este momento é a nossa resposta que damos a Deus. Se o fazemos de coração, então as ofertas e os dízimos revelam proporcionalmente como desejamos desenvolver nosso relacionamento com Ele.

Como vivemos o momento do ofertório em nossos cultos? Muito longe dos cultos apelativos de dinheiro que estamos acostumados a ver, o ofertório num culto centrado em Deus é nossa resposta em gratidão que damos a Cristo. Aquilo que é entregue com fé, deve ser administrado com fé. Muito maior é a responsabilidade daqueles que gerem as economias que são acolhidas com fé. Então as causas locais serão supridas, as missões acontecerão e nossa ação social se desenvolverá. Tudo que é feito com fé e compromisso, sempre terá de Deus a sua aprovação e sua bênção.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O MUNDO NÃO ERA DIGNO DE LUCAS!



"Pois tu te esquecerás dos teus sofrimentos; apenas te lembrarás deles como de águas que já passaram". (Jó 11.16)

Hoje é um dia difícil. Há exatamente 20 anos meu primogênito Lucas estava indo embora. Menino treloso. Acho que era hiperativo. Subia em tudo e mexia em tudo. Lucas nascera no dia 31 de maio de 1991. Foi o primeiro de outros dois filhos lindos: Beatriz e Pedro Augusto, que vieram depois. Mas ainda hoje vivo meu luto pela ausência de meu primogênito. Lucas foi vítima de choque elétrico dentro de casa, quando servia como Deão dos Estudantes do Seminário Presbiteriano do Norte e residia num dos apartamentos do Edífício Natanael Cortez, no bairro da Madalena, no Recife. 

Aquele dia se tornou cinza, como que se o céu não iluminasse e a vida perdesse a cor. Muitos estiveram ao nosso lado. Ao lado de seu corpo numa das macas da Clinica "Andrade Lessa" nós estávamos chorando e louvando. O momento foi um misto de dor como se um punhal atravessasse meu coração e uma devolução "sem-vontade" de um grande presente, uma jóia preciosa. Muitos se levantaram em oração e intercessão por nós. O Reverendo Élben César e família nos abrigaram, a Primeira Igreja Presbiteriana do Recife fez o velório, mas jamais esquecerei de um homem que como anjo de Deus nos consolou: Rev. Benedito Matos. Naqueles dias, ele nos visitou e passou quase o dia todo ao nosso lado, mas não proferiu um só palavra. Apenas esteve ao nosso lado. Foi o maior consolo que recebi de Deus. Palavras não podiam jamais preencher uma lacuna de dor quase inconsolável. Jamais esquecerei também as palavras de ânino e consolo que brotaram de muitos. Um deles, meu pastor Reverendo Dirceu Mendonça, me mandara dois livros de São Paulo e em uma de suas cartas, ele afirmava: "Tomou Deus para si o Lucas, porque o mundo não era digno do Lucas". 

Ainda hoje um dos versículos que eu recebera de minha cunhada na época ressoa em meu coração. Jó depois de perder tudo que possuia e seus 7 filhos, recebera a promessa de Deus pela boca de um de seus amigos: "Pois tu te esquecerás dos teus sofrimentos; apenas te lembrarás deles como de águas que já passaram". É verdade, depois de 20 anos embora chore pela ausência de meu querido filho, o choro já está mais saudoso que dolorido. As águas passaram por debaixo de mim e hoje apenas me lembro daquilo que se foi como de um sonho. Na linguagem metafórica "perdemos o Lucas mas Cristo o ganhou". 

Porém a promessa maior ainda se cumprirá. O Rei David quando depois de chorar amargamente a perda de seu filho com Bate-Seba, nos deixa uma palavra de consolo: "Eu irei para ele, porém ele não voltará para mim" (2 Samuel 12.23). Lucas não vai mais voltar, mas eu irei a ele.  Se Cristo não voltar antes de minha morte, eu irei a ele. Voltaremos a ficar juntos, e juntos vamos viver, para nunca mais nos separar. Nos reencontraremos, ressurretos e vivos fisicamente para habitarmos a Nova Terra, ali não haverá mais dor, nem pranto, nem luto e a morte não mais existirá. (Apocalipse 21.4). 

A morte não é o fim!

Lucas... até breve!


sexta-feira, 26 de abril de 2013

A CAVERNA DO CORAÇÃO




“Senhor, ensina-nos a orar!” 

O local mais ermo da vida humana é o coração. As maiores realizações de uma pessoa brotam do coração. Para Deus o coração é centro da vida. Nosso Senhor Jesus afirmava que o lugar mais belo e ao mesmo tempo mais tenebroso é o coração. O profeta Jeremias dizia que o coração é “enganoso e mais corrupto de tudo que existe”. O livro de Provérbios nos diz que é do coração que procedem as fontes da vida. Portanto é o coração do ser humano o lugar onde encontra-se a vida ou encontra-se a morte! 

Assim, os Salmos nos ensinam que toda a relação humana quer visível, quer invisível parte do coração, do recôndito, do lugar secreto ou do oculto de alguém. Ali se travam as maiores lutas de uma pessoa, ali se conquistam grandes prêmios. Por isso a metáfora do “coração” é tão importante nas Escrituras. 

Muitos homens e mulheres de oração e contemplação na história denominavam o coração como um “castelo interior”. Também vemos a figura do coração como uma caverna. Nesta caverna encontramos o melhor lugar para a oração. Se buscamos a Deus com o coração, o Espírito Santo vem até nós e passamos então a nos encontrar com ele neste ambiente e ali O experimentamos de fato. 

A CAVERNA NOS CHAMA AO ISOLAMENTO. Hoje nos encontramos numa sociedade barulhenta. Nossa ideia de encontro com Deus para muitos deve conter palavras e muito som. Mas é no isolamento, na caverna do coração onde ficamos mais propensos e sensíveis a voz de Deus. Não existe possibilidade de Deus falar no ruído, na turbulência. Deus somente fala quando entramos em nossa caverna e ali ouvimos uma única voz. Fora dela nos deparamos com muito som, barulho e muitas outras vozes. 

A CAVERNA NOS CHAMA A PROFUNDIDADE. Nosso mundo é um mundo de superficialidade e insensibilidade. Estamos vivendo na aridez espiritual porque não temos mais tempo para buscarmos a Deus em profundidade. A caverna é o lugar onde podemos tratar com Deus e sermos tratados por ele. Nossa real visão de nós mesmos deve acontecer de modo profundo e nunca superficialmente. Para termos a intimidade dele devemos nos aprofundar na experiência divina. Necessitamos conhecer Cristo não de “ouvir falar”, mas de contemplá-lo no recôndito do coração. 

A CAVERNA NOS CHAMA A QUIETUDE. Muitos acreditam que a oração é um discurso, um diálogo verbal que travamos com Deus, mas muito mais do que isso, a oração é um encontro, uma experiência, uma relação íntima que somente aquele que vai ao seu próprio coração e o abre para este encontro com Deus, o encontrará e travará uma profunda experiência com o Todo-Poderoso. A contemplação de Deus no coração vale mais do que muitas palavras. Não devemos lutar por um silencio externo, mas um interno, dentro de nós.

Precisamos urgentemente descer à Caverna do coração. Se você quer conhecer a Deus, com certeza, ele não estará fora de você. Ele estará sim, no recôndito. Ali Deus está lhe chamando para conhecê-lo. Não use muitas palavras. Aquiete-se. Deixe o encontro acontecer. Ali na caverna ele se revelará a você, diariamente, ininterruptamente e intensamente. Peça a Nosso Senhor: “Senhor, ensina-me a orar”! 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

O DRAGÃO E AS BESTAS SAÍDAS DO MAR E DA TERRA


Já vivemos o Apocalipse. De fato, já faz muito tempo, desde o Pentecoste. A igreja de Nosso Senhor Jesus enquanto vive, antecipa a concretização do Reino de Deus. Em todas as gerações dependendo de sua relação com Cristo, a igreja sofre esperando a “Parousia” (a volta do Senhor) sendo confortada pelos Anjos de Deus e pelo Espírito Santo. Enquanto isso o Dragão que foi enviado a terra tem perseguido os discípulos do Mestre, procurando seduzir e engodar e até mesmo destruí-los. 

Nestes séculos de existência, nem sempre a igreja conseguiu discernir os elementos que fazem parte deste empreendimento “dragônico”. O Apocalipse descreve os servos do Dragão (Ap 12 e 13). São eles o Anticristo e o Falso Profeta. Ambos representam os Poderes ‘Político-Econômico’ e ‘Religioso’. 

Muito mais que uma pessoa o Anticristo é um sistema poderoso que domina a humanidade e explora-a financeira-política e socialmente. E é o que está acontecendo agora, de maneira muito mais potencializada do que antes. As uniões e conchavos políticos globais, o domínio das grandes potencias ocidentais e orientais em alianças com o poder tecnológico, por meio da globalização e o sistema consumista tem explorado o mundo e os filhos de Deus. Assim como o Império Romano na época de nossos Pais Apostólicos que exerceu o domínio explorando e perseguindo a igreja, assim estes poderes estão a explorar e escravizar a igreja de hoje. 

O Falso Profeta é um sistema religioso que aponta para o Anticristo (sistema político). Domina-se o povo, a partir de um sistema religioso. Isso porque tudo pode ser feito em “nome de deus”, porém sem dar-lhe a glória devida. A “besta saída da terra” (o Falso Profeta) é um sistema religioso que engana e explora a fé de todos levando-os a glorificar a “besta saída do mar” (o Anticristo). Longe de ser apenas uma denominação, o Falso Profeta se caracteriza pela ideologia religiosa de massa. Esta ideologia religiosa está semeada em todas as religiosidades. Onde Cristo não é Senhor de fato e não é glorificado de fato, onde há o antropocentrismo (o homem no centro de tudo), aí está a presença do Falso Profeta, independente da “cor denominacional”, do “estilo de culto” ou da “forma de espiritualidade praticada”. 

Durante a história nem sempre os Filhos de Deus (a igreja) souberam distinguir estes elementos e sistemas e por isso muitos sucumbiram ao poder do Dragão, a antiga serpente, que é o Diabo. Ser cristão é muito mais do que atender a uma Confissão Discursiva de Fé. É compreender-se seguindo ao Cordeiro em todos os seus princípios de vida. A igreja brasileira precisa ser sensível para que não seja engodada pelo Falso Profeta e pelo Anticristo. Eles já estão em grande atividade. Enquanto isso não acontece, ela jamais será perseguida e certamente estará ainda vivendo como as igrejas da Ásia Menor no fim do Século I. 

“Vigiai e Orai” para que não entreis em “tentação”. Esse foi o pedido do Mestre, pois a sedução do poder, do dinheiro e da posição, são apenas indícios de uma vida “caricaturada” de Cristo, mas “dominada” e escravizada pelo Dragão. 

domingo, 14 de abril de 2013

Informação x Revelação

A tarefa da igreja é evitar esse mal entendido: evitar que a revelação, que sempre envolve histórias e reações pessoais, seja tratada como informação, que comumente envolve fatos impessoais e idéias abstratas" (p. 104) Eugene Peterson

sábado, 6 de abril de 2013

POR QUE TEMOS DIFICULDADE DE ENTENDER A MISSÃO?


“Então o lobo morará com o cordeiro” (Isaias 11.6) 

Há uma crença equivocada na Doutrina da Ressurreição. Entre os cristãos atuais transita uma idéia de ressurreição que não há base na Teologia Bíblica da Igreja Antiga. Na verdade a Ressurreição foi a motivação para a proclamação do evangelho durante os primeiros séculos. Paulo e os outros apóstolos pregavam “Cristo e a Ressurreição”. 

A mensagem evangélica era que o “Cristo morrera, mas ressuscitara”. Esta mensagem dava outro “tom” e outra “cor” ao anúncio da igreja. Com o passar dos séculos, Jesus não voltando (pois todos criam que sua volta era iminente), a pregação da igreja deixou de acentuar “Novos Céus e Nova Terra” para falar de uma salvação apenas celestial, paradisíaca somente para as almas crentes. 

A partir da diluição do conteúdo da mensagem, a missão foi sendo enfraquecida também, pois aquilo que antes era a grande notícia de nova vida e nova criação, que seria reconstituída, agora apenas se pregava uma mensagem que dava aos habitantes do mundo uma pobre salvação, isto é, apenas “alma se salvaria”. A idéia era de algo imaterial apenas, muitas vezes abstrata e etérea. 

Porém a salvação que Cristo vem nos trazer tem a ver com o resgate da vida em todo o seu sentido. É a transformação final de um sistema decadente para uma nova perspectiva física, material, gloriosa e eterna. Isso não envolve apenas o ser humano, mas sim tudo que o envolve: as vidas animal, mineral e vegetal. 

Aí então a missão faria sentido. Nosso problema com a evangelização é de que o que se prega, prega-se algo parcial e muitas vezes nebuloso e confuso. A mensagem da Fé Cristã é de que a Ressurreição de Nosso Senhor promove a esperança de que tudo será restaurado fisicamente, miraculosamente e eternamente. Por isso carecemos urgentemente de retornarmos a prática dos primeiros séculos. 

Precisamos de uma missão ecológica: Ora, se o Universo (cosmo) será refeito em Cristo, retornaremos a condição de um novo Universo. Isso tem a ver como nós tratamos o meio ambiente, como entendemos a ecologia, como domesticamos os nossos animais, como nos alimentamos, e como vivemos dentro deste sistema falido. Os cristãos deveriam ser os primeiros a possuírem políticas de vida a partir de uma forte teologia ecológica. 

Precisamos de uma missão política: Ora, se este sistema que aí está, é falido, a proposta dos cristãos é de um novo governo, sob a política teocrática: “Cristo é o Senhor”. Haveria de fato uma proposta de um novo Reino, sob as premissas de um novo Senhor. Isso com certeza produziria uma reação em cadeia do sistema satânico estabelecido. Foi também por isso que muitos cristãos eram martirizados. A igreja jamais será perseguida se não dizer “não” ao sistema político estabelecido. Precisamos de uma teologia política. 

Precisamos de uma missão social: Ora, se o ser humano em sua plenitude (corpo, alma, espírito) habitarão o novo estado de coisas, a missão deve ser a reconstrução de sua dignidade, personalidade e sociedade. Os cristãos deveriam ser os primeiros a estabelecerem escolas, hospitais, creches, orfanatos, casas-de-passagem e tudo que fosse necessário para a reconstrução do ser humano. O dinheiro e os bens deles deveriam primar por isso. 

Contudo ainda os cristãos precisam entender a ressurreição de Cristo e suas conseqüências. Enquanto isto não se der, estaremos a passos largos caminhando para a secularização da igreja e conseqüentemente para a “mundanização da mente” dos discípulos que se arvoram em afirmar que são de Cristo. Que Ele seja nossa luz a fim de aceitarmos as demandas de seu discipulado rumo a nova realidade eterna. 

sexta-feira, 29 de março de 2013

RESSURREIÇÃO COM GOSTO, SUOR E CHEIRO!


Certa confusão e equívoco vivenciam os cristãos (evangélicos e católicos) quando o acontecimento religioso que é a Páscoa Cristã. A maioria não se deu conta do âmago da resposta que o próprio Deus promoveu a humanidade quando ressuscitou a Jesus, Nosso Senhor.

A ressurreição de Cristo não teve como alvo principal revelar que Ele foi mais forte que a morte. Isso Ele não precisava provar para ninguém. Ele é Senhor sobre tudo e sobre todos. Até sobre a morte. Esse é um argumento fraquíssimo! Outro argumento que muitos usam nesta época é que a ressurreição de Cristo nos trouxe a esperança de dias melhores sobre a terra. Essa já é uma falácia!

A ressurreição rompe a visão pobre e fraca de um deus fraco e doméstico. Quando Jesus foi ressuscitado, Deus por sua graça mais uma vez abriu um novo mundo, uma nova criação, uma nova terra e um reino eterno e milenar, um reino físico e palpável. Jesus é considerado por Paulo “as primícias” dos que dormem.

A ressurreição de Cristo inaugura também a nossa ressurreição, corporal, física, com cheiro, com gosto (Jesus comeu com os discípulos após a ressurreição) e prometeu que iria beber do vinho depois da consumação com todos os seus.

O Credo Niceno, o mais antigo Credo do Cristianismo afirma: “creio na ressurreição dos mortos”. O Credo Apostólico diz: “Creio na ressurreição da carne”.

Paulo confirma: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé”. E ainda “os que morreram em Cristo estão condenados”.

Nossa fé não vai até o céu. Vai além. O Lar Celestial não é o limite. O limite é a nova terra, onde todos serão ressuscitados para sua glória e honra, para a paz e alegria do coração e da vida de todos aqueles que durante sua caminhada aqui, viveram para o autor da Vida que é o próprio Cristo, Nosso Senhor.

Portanto, creiamos em algo maior, não em um Deus que apenas pode ter a solução dos problemas corriqueiros, mas, muito mais, em um Deus que pode tornar a viver não somente o ser humano, mas, toda a sua criação novamente. As plantas, as florestas, os animais e tudo que se move criados pelo poder de Deus, serão um dia reconstituídos.

Enquanto isso não desprezemos as Escrituras, nem o poder de Deus. Vivamos de acordo como aqueles que haverão de prestar contas Àquele que não somente trouxe à existência a vida, mas também descortinará o Novo Mundo: Novo Céu e Nova Terra.

Feliz Páscoa de Cristo 2013

sábado, 16 de março de 2013

O SUCATEAMENTO DE DEUS




Nosso século é marcado pela Filosofia de Mercado conjugado com uma grande dose de Racionalismo e Pragmatismo. Vivemos a cultura do Sucesso e a busca frenética pela fama e pela celebridade.

Há muito tempo que não sabemos o que é teologia. Nosso Ocidente desde que começou a viver as consequências culturais, políticas e filosóficas do Iluminismo, perdeu para sempre os pensadores e junto com eles a teologia.

No passado, no Tempo Antigo, quando as pessoas oravam de fato, a Teologia possuía uma estreita relação com a espiritualidade mística. O encontro com Deus era místico e a espiritualidade uma experiência fundamental para todo teólogo, pois “fazer teologia” era sinônimo de “orar”.

A teologia e a formação espiritual era o eixo que dominava a vida humana. O teólogo era respeitado e venerado, tal era a concepção de oração e intimidade com Deus  que se possuía.

Mas o mundo mudou. No que diz respeito a espiritualidade e a teologia, o mundo atrasou. Com a ascendência do Iluminismo tomamo-nos como o centro da vida. A teologia que era encontrada nos templos, nos palácios, nos desertos e nas cavernas por causa dos que viviam a vida mística, hoje está sucateada e tratada como uma ciência.

O ser humano ainda fala de teologia, pensa em teologia, discute teologia como ciência. Foi o que sobrou, foi o que restou. Os místicos da oração e da formação espiritual são tratados como “alienígenas” da sociedade. Desaprendemos e perdemos o “elo” com o passado, pois tornamo-nos  o centro de um estudo sobre o “homem-criador-de-seu-próprio-deus” e demos então o nome a isso de Teologia.

A teologia espiritual e suas disciplinas que envolvem este tema foram sucateadas. Se quisermos encontrar este tipo de “coisa” vamos ter que ir a um “ferro-velho” religioso cristão.

De fato não sabemos o que significa “Teologia”. Teologia de fato que brota da experiência e do empirismo. Não sabemos o que é Fé para nos encontrar com o Transcendente. Nosso “elo perdido” teológico se diluiu com tantos livros, tantas ciências, tantas opiniões racionalistas sobre Ele, o “deus-que-o-homem-criou”.

Por isso os teólogos de hoje são meras figuras ilustrativas nas igrejas e nos seminários. Por isso pagamos mal os professores-teólogos, porque cremos de fato que eles estão apenas representando um papel necessário para a Sociedade, mas irrelevante para responder aos anseios de uma coletividade com tantos afazeres, negócios e tarefas que envolvem muito dinheiro.

Por isso temos qualquer pessoa a frente de comunidades religiosas, por isso aceitamos os líderes de sucesso ministerial, os que são bem-sucedidos devido a “estética” e ao “consumismo religioso” que nos dirige. Não queremos nos relacionar misticamente com Deus, queremos um Deus que dê certo para nossos empreendimentos pessoais e profissionais. Nós sucateamos Deus, a teologia, a espiritualidade e o que estiver ligado a eles.

Precisamos de novo dos Elias, dos Eliseus, dos Oséias, dos Natãs, dos Samuéis. Precisamos de novo das Miriãs, das Huldas e das Déboras. Precisamos de arqueólogos espirituais que nos tragam as primeiras fontes da teologia espiritual.

Precisamos urgentemente retornar ao encontro místico com o Deus verdadeiro.

sexta-feira, 8 de março de 2013

AUSENTES DE DEUS





“Queremos dele coisas, mas a ele não queremos de modo algum. Será isso um relacionamento? Conduzimo-nos desse modo com os amigos? Amamos nós o amigo, ou visamos aquilo que a amizade nos pode dar? Ocorre o mesmo no que diz respeito ao Senhor?” Anthony Bloom 



Tornamo-nos “a passos largos” pessoas desconhecidas para nós mesmos e para os outros quando transformamos a nossa vida num sistema meramente funcional. Assim também fazemos com Deus. Nossa relação com Ele tem se tornado uma relação “comprador-vendedor”. Vamos às pessoas e nos relacionamos com elas dependendo do que elas podem nos oferecer. Se elas oferecem benefícios e vantagens, nos relacionamos com elas, pois podemos galgar situações de conforto e maior dignidade. Nos casamos assim, criamos nossos filhos assim, nos relacionamos com nossos pais por causa disso e com qualquer pessoa, amigo, colega ou mesmo um desconhecido. 

Deus tem sido uma imagem para muitos de uma pessoa que possui todos os dons e dádivas, sejam elas visíveis ou invisíveis e nos relacionamos com Ele nesta base. Nossa vida ou nossos momentos de oração tem sido construídos nestas bases. Vamo-nos a Ele, sabendo que Ele é doador, beneficiário de dons e bênçãos para todos. Porém essa relação nos revela passo-a-passo que continuamos vivendo ausentes dEle, da Sua presença, de Sua relação íntima. 

Precisamos resgatar a verdadeira razão e o sentido do que seja a oração. Quando vivemos desta maneira, pensamos em Deus como o beneficiário para todos, por que Deus é gracioso e que jamais nos negará bem algum. Pensando apenas assim, temos a sensação seja perene ou casual de uma ausência de Deus. Acabamos clamando para um céu vazio, do qual não obtemos respostas. Voltamo-nos para todas as direções e não O achamos. O que devemos pensar de tal situação? 

Precisamos alimentar nossa mente e nosso coração com a premissa de que independente do que extraímos de Deus, somente podemos reter a sua presença em nós se nos fizermos abertos a uma relação com o Divino por meio de um relacionamento profundo. 

Então o primeiro passo para esta relação se abrir, é a oração. Contudo na oração e em nossa consciência esta relação não pode ser forçada, nem da nossa parte nem da parte de Deus. O fato de que Deus pode se fazer presente ou deixar-nos com a sensação de uma ausência, também faz parte dessa relação viva e real. 

A relação deve iniciar-se e desenvolver-se numa mútua liberdade. Portanto, antes de qualquer coisa, nossa relação com Ele deve desenvolver-se na base de que não serão as palavras o centro deste relacionamento. Não serão meras palavras que farão a presença de Deus em nós, mas sobretudo como desenvolvemos nosso amor, nossa relação com ele, nossos sentimentos e nosso posicionamento diante dEle. Esta relação não acontecerá sem que eliminemos o sentimento de “tirarmos algum proveito” dEle. Se isso não acontecer já não há relação e sim consumo. Desta maneira usaremos e abusaremos de Deus. Isso não é comunhão e sim pragmatismo. A menos que desejemos desenvolver uma relação mística, profunda, permanente e visceral que acontece por meio da fé, jamais O encontraremos. Mesmo que tenhamos muito tempo de vida cristã, mesmo que estudemos muito sobre Deus, mesmo que falemos e discutamos sobre Ele, jamais teremos sua presença e continuaremos ausentes de Deus.

sábado, 2 de março de 2013

NÃO SOU MAIS EVANGÉLICO




Não posso continuar a usar um nome que está, a meu ver, diluído e contaminado. Faço minhas as palavras de Ed René Kivitz:

“A expressão “outra espiritualidade” sugere a pergunta: ‘outra em relação a que?’. Isto é, que espiritualidade está sendo abandonada para que em seu lugar apareça “outra”? No meu caso é simples: estou abandonando a espiritualidade do senso comum evangélico, e saindo em busca da espiritualidade do senso comum da tradição cristã. Apresso-me em explicar. Considero “senso comum” uma forma simples de me referir ao fato de que apesar da enorme diversidade a respeito das características que identificam o ser evangélico, há um núcleo que resume a maneira como este segmento religioso da sociedade articula sua crença e modus vivendi. Ao escolher o senso comum, admito que a “outra espiritualidade” que busco não é uma novidade, mas um resgate dos aspectos essenciais à fé cristã conforme se estabeleceram nestes mais de dois mil anos de história.

Deixando de lado o rigor acadêmico e científico, que não cabe na proposta deste texto, chamo de “senso comum da fé evangélica” os conteúdos articulados na face mais visível desta tradição religiosa, notadamente através das mídias impressa, radiofônica e televisiva. São os autores e comunicadores de massa que “fazem a cabeça” dos fiéis e aos poucos vão definindo, consciente e inconscientemente, voluntária e involuntariamente, um núcleo de crenças determinantes de uma cosmovisão, e por conseqüência, um jeito de ser no mundo. A partir de um determinado ponto, passa a existir uma cultura autônoma, independente dos conteúdos mais elaborados dos teóricos. Esta cultura autônoma é apropriada pelo povo e a partir de então é deflagrado um processo de desenvolvimento de crenças e costumes que vai se distanciando cada vez da proposta original.

Não tenho dúvidas quanto ao fato de que este fenômeno aconteceu na chamada igreja evangélica, e que o ser evangélico, conforme compreendido hoje pela sociedade brasileira, e até mesmo por muitos evangélicos, está absolutamente distante dos conteúdos originais da fé cristã. Evidentemente, é pretensioso aquele que afirma conhecer “os conteúdos originais da fé cristã”, pois toda teologia é interpretação, isto é, tudo quanto os cristãos propagam são versões do conteúdo original. O que se exige é a avaliação mínima dos conteúdos atuais em comparação com aqueles que foram historicamente, desde períodos mais remotos, divulgados como constitutivos da fé cristã. Tenho a firme convicção de que o cristianismo dos evangélicos contemporâneos é absolutamente distinto do cristianismo dos primeiros cristãos e das tradições teológicas mais consistentes da história da igreja.

Aliás, é muito triste o fato de que grande parte dos novos líderes evangélicos e dos novos convertidos à fé evangélica desconheçam a tradição teológica da história da igreja, seus expoentes mais respeitados, suas fundamentações filosóficas, seus embates com os espíritos de suas épocas, suas argumentações apologéticas, e, principalmente seu sangue vertido em defesa da fé. Os neo-evangélicos estão ocupados demais em construir uma experiência religiosa que lhes satisfaça no imediato, e não se ocupam com as aproximações da verdade, uma vez que vivem o pragmatismo de quem se ocupa antes em fazer “deus” funcionar do que em ser íntimo dEle.

Fui tomando consciência disso aos poucos, e de certa forma, construindo meu pensamento a respeito de “outro Deus e outra espiritualidade” passo a passo, um insight de cada vez, como o pão, que nos chega à alma toda manhã, caindo do céu a cada dia. Pão que reparto com temor e tremor.

Ed René Kivitz (palavra na qual assino ipsis literis)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

DÍZIMOS, OFERTAS E PARTILHA



A história nos conta que os dízimos e ofertas somente foram regulamentados após a libertação do povo de Israel das mãos de Faraó sendo conduzidos por Moisés no deserto. Esta regulamentação foi necessária para gerir a condição social e comunitária daquela nação. Esta norma fazia parte da Aliança entre o povo e o Senhor. A aliança seria respondida pelos israelitas em fidelidade, gratidão e reconhecimento.
Sem dúvida, devemos estar conscientes que toda a espiritualidade passa também pela maneira como administramos nossa vida, nossos planos, nossos bens e valores. Como vemos tanta gente dividida, passeando de igreja em igreja, revelando que elas estão interiormente divididas e sem um propósito objetivo em suas vidas. Estão a transitar entre a carne e o espírito, entre denominações e religiosidades, entre igrejas e comunidades. Isso revela a doença de seus corações e de suas almas. 
Quantos não vivem em condições de cativeiro: escravos do dinheiro, do consumo, do modismo. São prisioneiros da infelicidade. Outros não conseguem se submeter aos seus pastores, causando divisões e conflitos nas suas igrejas. Outros que já são pastores não conseguem pastorear suas igrejas porque somente pensam em dinheiro. Vivemos um cenário de vaidade e a espiritualidade é apenas uma realidade distante porque não é vivida por todos de maneira encarnada na vida, nos bens, nos valores que possuímos. Vivemos uma “ilha da fantasia espiritual”!
Devido a carnalidade e ao pecado temos a regulamentação da chamada “mordomia cristã” no Antigo e no Novo Testamentos. Estes princípios devem ser levados em consideração por cada um para que tenhamos balizamentos para a nossa relação com Deus. Foi assim com Israel e foi assim com os primeiros cristãos. Então os dízimos e ofertas bem como a partilha são métodos que Deus nos providencia a fim ajustarmos nossa espiritualidade que passa pelo que temos e pelo que somos. Estes meios materiais não são um fim em si mesmos, mas instrumentos para nos disciplinar quanto nossa vida cristã. O dízimo é ligado ao oferecimento e ao altar. É uma forma de gratidão que deve ser entregue como oferta ao Senhor. As ofertas, da mesma maneira, e a partilha são respostas que damos as necessidades daqueles que vivem em condição de precariedade e são alçadas por necessidades maiores. Por isso a Cesta da Partilha deve existir entre nós, para que saibamos dividir o que temos para a sobrevivência de todos. A fé é, sobretudo comunitária.
Então o dízimo, a oferta e os mantimentos da partilha quando doamos, o fazemos pela fé. Isso é uma questão de fé daquele que entrega, pois Deus não precisa de nosso dinheiro e de nossos bens, ele deseja ver em nós o quanto podemos disciplinar nossa espiritualidade por causa de nossa relação íntima espiritual com Ele.
O que estamos fazendo de nossa espiritualidade? Ela tem a ver com o que recebemos de nosso salário, ou o que você possui Deus não tem nada a ver com isso? Como estamos contribuindo? Como estamos consumindo os produtos? Por necessidade ou por modismo? Como estamos administrando os bens e o dinheiro que Cristo nos confiou? Estamos vivendo de maneira abastada e não sabemos mais distinguir se compramos por necessidade ou superfluamente? Não esqueça jamais que a vida espiritual passa pelo nosso “bolso” e pelo amor ao próximo. Há um ditado grego que diz: “Algumas pessoas são tão pobres que a única coisa que possuem é dinheiro”!                                                

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Transformando Olhos em Ouvidos

"Uma imensa ironia que nosso próprio trabalho resulte no abandono dele. No decorrer de nossas tarefas para executá-lo, acabamos por abandoná-lo. Mas lendo, ensinando e pregando as Escrituras, isto acontece: deixamos de ouvi-la e, conseqüentemente, minamos a intenção de colocá-la em primeiro lugar.

Ler a Bíblia não é o mesmo que ouvir Deus. Um não está necessariamente ligado ao outro, mas, muitas vezes, presume-se que sejam a mesma coisa. Os pastores, que passam mais tempo lendo as Escrituras do que a maioria dos cristãos (não em face da devoção, mas do seu trabalho), adotam essa opinião sem justificativa com freqüência alarmante.

Isso acontece tão comumente e de forma tão insidiosa que temos que estar alertas para analisar as maneiras pelas quais o ouvir a palavra de Deus vai-se tornando ler sobre a palavra de Deus e, então, com energia, recuperar nossos ouvidos, para que voltem a se abrir.

O interesse dos cristãos nas Escrituras tem sido sempre o de ouvir Deus falar, e não o de analisar notas morais. A prática comum é desenvolver uma disposição para ouvir - o ouvido absorto em vez do olho distante - ansiando por tornar-se ouvinte apaixonado da palavra em lugar de leitor frio da página. Mas é exatamente esse ouvir cheio de alegria e paixão que diminui, chegando, mesmo, a desaparecer, no decorrer do exercício do pastorado. Quando isso acontece, um dos ângulos essenciais que definem e dão precisão ao nosso trabalho se foi. 

Isso não ocorre porque os pastores repudiaram ou negligenciaram a Bíblia: o fato aparece no próprio ato de leitura das Escrituras. A leitura, por si só, é responsável pelo trabalho fatal.

Ouvir e ler não são a mesma coisa. Envolvem sentidos diferentes. Ao ouvir, usamos nossos ouvidos; na leitura, os olhos. Ouvimos o som de uma voz, lemos marcas em um papel. Essas diferenças são significativas e têm conseqüências profundas. Ouvir é um ato interpessoal, que envolve duas ou mais pessoas em razoável proximidade. 

A leitura envolve uma pessoa com um livro escrito por alguém que pode estar a muitos quilômetros de distância, ou morto há séculos, ou ambas as coisas. O ouvinte precisa de estar atento ao falante, e estar mais ou menos à mercê dele. Com o leitor, a situação é bem diferente, já que é o livro que está à mercê dele e pode ser levado de um lugar para outro, aberto ou fechado, de acordo com sua vontade, lido ou não. 

No momento em que leio, o livro não sabe se estou prestando atenção ou não. Quando ouço, a outra pessoa sabe muito bem se estou ou não atento a ela. Ao ouvir, outros iniciam o processo; na leitura, eu começo. Ao ler, eu abro o livro e presto atenção às palavras. Posso fazê-lo sozinho, mas não ouvir sozinho. Ouvindo, o falante está no controle; na leitura, quem controla é o leitor. 

Muitas pessoas preferem ler a ouvir, porque exige menos, emocionalmente falando, e pode-se adaptar a leitura de forma a atender às conveniências pessoais. O estereótipo é o marido enterrado no jornal, durante o café da manhã. Ele prefere ler as notícias do último escândalo em um governo europeu, os resultados das competições esportivas da véspera e as opiniões de alguns colunistas, que ele nunca vai conhecer, a ouvir a voz da pessoa que acabou de dormir na mesma cama que ele e preparou seu café da manhã, embora ouvir essa voz viva prometa amor, esperança, profundidade emocional e exploração intelectual, muito além do que ele consegue juntar nas informações de todos os jornais que lê juntos. Na voz dessa pessoa viva, ele tem acesso a uma história colorida, um sistema emocional incrivelmente complexo, e combinações de palavras nunca antes escutadas que podem surpreende-lo, comovê-lo, agradá-lo ou irritá-lo: sendo qualquer dessas opções mais atraente para um ser humano vivo do que reunir algumas informações, das quais nenhuma, ou poucas, terão qualquer impacto sobre a vida daquele dia. 

Dessa forma, a leitura não aumenta nossa capacidade de ouvir. Em alguns casos, diminui". (Eugene Peterson)

sábado, 16 de fevereiro de 2013

PROCURO UM HOMEM




Em sua época Diógenes, um filósofo grego, andava durante o dia em meio às pessoas com uma lanterna acessa pronunciando ironicamente a frase: “Procuro um homem”. 

Hoje estou procurando um homem, mas não acho. Não estou encontrando. Estou na busca de alguém que verdadeiramente esteja vivendo sua natureza e sua essência do modo mais humano..., mas está difícil.

O homem que encontro está escravizado pela agenda, pelos planos, pelos projetos, pelo sistema da vida, pelos compromissos, pelos problemas que ele mesmo criou para si e para os outros. Encontro um ser “religioso”, mas não espiritual, encontro um ser “sociável”, porém não fraterno, encontro um ser “sabido”, porém não sábio, encontro um ser “manipulador”, porém não reverente, encontro um ser “egocentrista”, porém não altruísta, encontro um ser “cheio de deus”, mas vazio do homem.

O homem que aí está, vive rodeado de coisas e pessoas, mas não consegue viver como Homem, porque não possui mais tempo para conhecer aquele que é o “Homem e Deus Verdadeiro”, sua matriz, sua origem, seu modelo e sua imagem. O homem que encontro não tem tempo para pensar nEle, de conviver com outros homens que também possam estar pensando nEle para transformarem a sua essência.

Procuro um homem que em sua natureza esteja comprometido com Jesus Cristo, não pela igreja, pela denominação, pela associação, pelo ministério, pelas hierarquias de poder. Procuro um homem que seu compromisso não seja apenas de agenda, de protocolo, de filantropia, de auto-endeusamento. Estou à procura de alguém que esteja identificado com o conteúdo de um relacionamento profundo. Estou em busca de alguém que ao se envolver com o Deus-Homem, por querer viver a vida deste, viva intensamente sua humanidade por que convive, conversa, sente, e contempla visceralmente aquele que o criou. Que viva Deus tão de perto, que possa viver perto dos homens.

Não há como achar este homem até que eu encontre alguém que viva de coração aberto para o Homem-Deus, contemple Aquele que nasceu como um homem, viveu como um homem, morreu como um homem, mas aprendeu a ser gente da forma mais humana que se confundia como Deus. Hoje sou desafiado a viver assim e continuar a procura de pessoas que saibam ser “gente plenamente” por estarem vivendo tão perto de Deus.  

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

AVIVAMENTO URGENTE


Por que os crentes da igreja embora saibam que os cultos na igreja são periódicos, não aparecem para os estudos bíblicos e nem para as orações?


Quando perdemos a vontade de estar juntos e estudarmos a Palavra de Deus com paciência, necessitamos de um avivamento. 

Não o avivamento que gera o sensacionalismo e emocionalismo, a gritaria e a histeria, mas o lado interior da mudança. 

Não o avivamento irresponsável que somente se caracteriza pelos cultos neo-pentecostais. 

Isso não é avivamento, é "circo". O verdadeiro avivamento não faz do púlpito um picadeiro.

Decididamente, precisamos de um avivamento do Espírito Santo.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

CARTA DO MISSIONÁRIO ZÉ DILSON - PRISIONEIRO DO SENHOR


Queridos e mui preciosos irmãos,

Como sabem hoje dia 06, estão fazendo 90 dias que estamos presos por causa da Palavra da Verdade, por causa do Caminho que seguimos e daquele em quem cremos. Temos certeza, porem que a nossa aflição neste tempo esta muito longe se comparadas as aflições que Jesus passou por nos. Bendizemos e louvamos ao Senhor porque estas singelas aflições tem servido para a salvação de vários prisioneiros, bem como temos testificado a muitos do Seu Senhorio sobre tudo e todos. Temos tido oportunidade de distribuir centenas de Bíblias folhetos e Novos Testamentos. Ha muitas historias e experiencias a contar. Sei que terei muito para compartilhar com cada um.

Ja por 31 anos tenho compartilhado das boas novas do Evangelho, nao so no Brasil, mas ha 22 anos aqui em Africa. Agora este Procurador e Juiz me deram um novo publico. Fui acorrentado (não literalmente mas preso juntamente com) a pessoas que eu jamais teria acesso a compartilhar-lhes em uma outra situacao. E com certeza eu jamais escolheria estar aqui por minha livre e espontanea vontade. Porem, durante estes tres meses aqui, tenho visto muitos experimentarem a nova vida e outros o estar duplamente livres(que alegria!!!). Oremos para que a Palavra pregada encontre guarida nestes coracoes sedentos, e que nem os "passaros", nem os "espinhos", nem as "pedras", facam esta semente ser destruida, mas sim que a seu tempo o Senhor possa dar o crescimento.

Nos dias mais angustiantes, o Senhor nos da forcas(falo por mim, mas tambem pela irma Zeneide) para continuar encorajando, continuamos a orar, alimentar e vestir varios outros que passam por aflicoes ainda maiores que as nossas, com o agravante que nao sabem a quem recorrer. O nosso consolo e que temos um Cristo algemado juntamente conosco (Ele e soberano e livre, no entanto me refiro ao fato dele estar presente conosco todos os dias e em todos os momentos) e me mostra isso de muitas maneiras, mesmo atraves do amor dos irmaos que vem de tao longe para nos visitar as segundas e sextas feiras, mesmo que seja apenas por 5-10 minutinhos.

Sinto Jesus me falando que esta comigo atraves de cada frase enviada, cada e-mail, cada palavra de encorajamento no facebook, cada oracao, cada prato de comida ou guloseima enviado, cada contribuicao manifestacao de nos ajudar nas despesas gerais que estamos tendo, e mesmo a ajuda na construcao da nova cela para ajudar outros presos para serem tranferidos e aliviar seu sofrimento de nao poder dormir(tenho 45 pessoas em minha cela e so tenho 30 cm de espaco para dormir imaginem a cela do mesmo tamanho com 200 presos, e quase impossivel imaginar o sofrimento destes homens).
Esse amor tem impactado toda a prisao e ate o tribunal, pois o juiz mencionou o fato de recebermos tantas visitas. Tem estado impressionado.

Tenho pedido ao Senhor que essas algemas sirvam de consolacao para cada um que tem participado e orado por esta causa que isto os ajude tambem a valorizar mais Jesus e sua presenca em vossas vidas e que voces possam usufruir muito mais do seu amor, presenca e sua paz, que nao depende das circunstancias. Facam conhecidos a cada um que se aproximem de voces esse grande amor de Jesus, e sintam-se privilegiados por sofrerem por este Nome.

Posso afirmar que minhas prisoes tem sido conhecidas desde o presidente da Republica ate ao varredor de rua. Os jornais publicaram que eu e Zeneide somos uma dupla diabolica, e por estar estampado nas paginas de dois grandes jornais do pais, e nas radios locais, passamos a ser odiados por toda a nacao. Porem todos que tem tido contato conosco, sempre nos falam: Voces sao pessoas de Deus, outros dizem: Essa prisao nunca mais sera a mesma depois da passagem de voces por aqui.

Um apos outro dentro de minha cela, aos poucos foi me conhecendo, ao compartilhar comida, frutas, medicamentos, todos ficaram impressionados e comecavam a dizer: Mas porque voce faz isso? Voce compartilha comigo? Voce lembrou de mim?

No Natal pedi a Marli que comprasse uns pequenos presentinhos para poder dar a esses homens para dar aos seus filhinhos. Nem esposas, nem filhos podem esperar nada de seus pais presos. Nao posso expressar a alegria que sentiram ao receber aqueles presentinhos. Que bom, que felicidade em poder compartilhar com aqueles que nao tem.

Eu divido meu colchao de 30 cm de largura com um outro senhor. Nos tinhamos dois colchoes, um por cima do outro, pois nao ha espaco. Nosso colega da frente tambem tinha dois, no entanto ele estava sofrendo dores terriveis nas costas e nao conseguia dormir, assim sendo me pediu um dos meus colchoes. No mesmo momento me pus de pe e lhe dei o meu. Agora durmo com meu colega num colchao de 2,5 cm de altura, o outro esta servindo ao meu outro colega, permitindo-lhe que durma melhor. Deus seja louvado!Tenho sentido o Senhor afofando meu colchao.

Houve dias que compartilhei da minha comida com 12 outros presos, e sabe do melhor: nao perdi nenhum quilo. Dois prisioneiros italianos que foram libertos, ficaram tao agradecidos por toda a ajuda que lhes dei, todo encorajamento, as oracoes, que ao partirem me enviaram queijo, salame e outras guloseimas. Daqui a pouco 43 presos vao experimentar um pouco desta bencao.

Estou compartilhando estes detalhes para te encorajar a nao desanimar com coisa alguma. Nao importa o tamanho da luta que voce esteja enfrentando, saiba que Jesus esta com voce, passando pela dificuldade, ate a hora da libertacao. Busque-o, ame-o, gaste tempo com ele, seja intimo dele, e o sofrimento nao sera nada, Ele sera tua ancora segura, a tua salvacao, aquele que atua e trabalha pelos seus. Seu santo nome sera glorificado!

O juiz quando estava me questionando finalmente disse: Voces nao sao associacao de malfeitores. Estamos juntos. Pois disse: voces estao ajudando criancas em situacao de risco. Quando ele ouviu as criancas ficou ainda mais impressionado com a mudanca de vida que estamos proporcionando a cada uma delas. Um advogado falou: Essas criancas vivem melhor do que a maioria de nos e apos me disse: Voce pastor, merecia ser condecorado pelo que faz em nosso meio e por estas criancas, nao estar na prisao! Esperamos que realmente a justica e a verdade prevalecam!

Essa prisão não pode me deter, nem pode deter meu Cristo e o seu Evangelho, ao contrario, desperta em mim mais amor e paixão por esta obra e pelo meu Mestre. Tenho meu coração agradecido a todos vocês que de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente estão aprisionados conosco. Obrigado mais uma vez por todo o carinho, orações e mesmo contribuições. Que o Senhor os bendiga e lembre também de suas aflições e os alivie de todo o sofrimento pelos quais possam estar passando ainda que por minimo que seja, bem sei que Ele tem prazer em ajuda-lo.

Recebam nosso abraco bem apertado. Que o nosso bom e maravilhoso Senhor os console e faca-os sentir Sua presença convosco.
Orem pela sexta-feira(dia 09/02) quando um pai que pediu que seu filho pudesse ser beneficiado pelo projeto sera ouvido. Também na segunda, dia 11 finalmente sera depositado o pedido de habeas corpus.

Pelas marcas de Cristo.
Vosso prisioneiro,
Rev. Jose Dilson ou "Ze"

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

REDESCOBRINDO A MISSÃO EM TEMPOS DE CONFUSÃO


TEXTO: 2ª Timóteo 3.8-4.4

Vivemos tempos de crise sem limites, seja na política, na sociedade e também nas igrejas. Há uma confusão teológica e na espiritualidade das pessoas. Na igreja com toda a tecnologia a favor, muitos se tornaram “experts” em fazer as igrejas crescerem. Nunca fomos tão pragmáticos como agora. O neopentecostalismo assusta as igrejas históricas e todos chamam para si a “unção divina” como razão para justificar seus planos missionáriosque se parecem mais com planos de mercado corporativo.


Não temos dúvidas que o Cristianismo é uma das três grandes religiões missionárias do mundo, seguida pelo Islamismo e pelo Budismo. Porém a obra missionária ocidental vive também uma crise, por que perdeu suas motivações mais relevantes para fazer missão. Por exemplo, no final do século 20 havia uma enxurrada de agências missionárias que davam por certo que a volta de Cristo era iminente por que o século estava se findando. A partir de meados dos anos 80 até o raiar do ano 2000 não se falava em outra coisa senão em “Batalha Espiritual”, “Demônios territoriais” e “Avivamento”. Hoje não ouvimos mais estes temas. Alguma coisa aconteceu.

Estamos vivendo o século do Consumismo sem limites. Até mesmo na religião. Assim como nós vamos ao mercado para consumir os produtos que ali estão assim fazemos com a fé e com nossa vida religiosa. Nunca apareceram tantas obras escritas sobre fé, auto-ajuda espiritual, vida vitoriosa e prosperidade, como agora. Vivemos sim meus irmãos um tempo de pluralidade religiosa misturada com o ensino de prosperidade. “Por que a vida tem que dar certo”.

Para somar a esta confusão, somos não somos mais do que produtos nas igrejas-evento. Me lembro muito bem quando cursava o Mestrado em Teologia, que no meio de sua aula, trabalhando sobre a disciplina de Métodos e Estratégias Missionárias, o Dr. Antonio José do Nascimento Filho usou de uma frase magistral para definir o momento que a igreja brasileira estava passando. Ele afirmava: “A igreja nasceu como um fato na Palestina, foi para a Grécia e tornou-se uma idéia, veio para a Europa e Estados Unidos e tornou-se  um empreendimento e depois aportou no Brasil e tornou-se em um evento”. Nada na igreja brasileira se consegue senão por meio de eventos. São eventos para adorar a Deus, são eventos para evangelizar, são eventos para orar. Perdemos a noção do comum, da vida comum, da comunidade, do cotidiano e não mais vivemos como cristãos normais em nossa vida comum e simples. Hoje para o Espírito Santo agir temos que nos envolver em algum programa-evento.

Precisamos voltar os olhos para a Palavra de Deus, não apenas para a Escritura. Precisamos redescobrir a Palavra de Deus a partir da Escritura, pois os movimentos que aí estão, usam a Bíblia, interpretam a Bíblia, contudo não conseguem extrair dela e fazer dela a verdadeira palavra de Deus e assim abafam a mensagem do evangelho, da graça, do perdão, da restauração e da verdadeira vida em Cristo.

O que nos ajuda no meio de toda esta confusão é olhar para a história. A história nos ensina e nos ajuda a não repetir os mesmos erros que foram cometidos no passado, e retirarmos princípios para vivermos nosso presente. Não devemos e nem vamos repetir a história passada, mas vamos aprender com o Deus que se revela na história.

Precisamos de novo redescobrir a Escritura como Palavra de Deus na vida das pessoas e no meio deste caos urbano.
        
O século 18 foi o grande século da obra missionária europeia. Não vamos aqui comentar todas as razões que motivaram as missões naquela época. Mas houve entre o século 17 e século 18 alguns movimentos religiosos que chamamos de “propulsores” para o grande século das missões. Quem trabalha muito bem este assunto é o Dr. Paulo Pierson, ex-diretor de nosso seminário que vive hoje nos Estados Unidos.

Para que William Carey aparecesse como o Pai das Missões Modernas, pelo menos 4 movimentos anteriores prepararam o grande século missionário. O Puritanismo na Inglaterra e Estados Unidos, O Pietismo na Alemanha, o Moravianismo na Boêmia e o Metodismo também na Inglaterra. Todos eles lançaram as bases para a ação das Missões Modernas a partir de William Carey.

E aí está o ponto onde queremos chegar: O que estamos fazendo hoje irá reverberar nos anos posteriores.

Gostaria de correlacionar algumas ênfases do apóstolo Paulo ao seu discípulo e pastor Timóteo com os princípios destes movimentos para que pudéssemos sorver o que Deus, em minha concepção, está desejoso que sua igreja hoje possa fazer para continuar a preparar pessoas para o Reino que há de vir.

Olhando para os versículos que lemos, precisamos redescobrir 4 áreas da vida que estão marcadas pelas ênfases de Paulo a Timóteo.

1.   Precisamos urgentemente redescobrir a Vida Piedosa (3.10-12).

“Tu, porém, tens observado a minha doutrina, procedimento, intenção, fé, longanimidade, amor, perseverança, as minhas perseguições e aflições, quais as que sofri em Antioquia, em Icônio, em Listra; quantas perseguições suportei! e de todas o Senhor me livrou.  E na verdade todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições”.

A piedade sempre foi o ponto marcante dos cristãos dos primeiros séculos. O evangelho de nosso Senhor vivido por ele e ensinado pelos apóstolos e pais apostólicos nos mostra que não podemos nem ensinar e nem viver sem esta essência da vida espiritual.

Piedade envolve a oração e oração incessante, a prática das boas obras de modo despretensioso e uma vida que busca ser parecida com Nosso Senhor.

A Vida de oração e a prática desta piedade era a vida do Pietismo. Esse movimento que enfatizava a oração e a prática das boas obras surgiu com o pastor Phillip Jabob Spener e o  professor August Franck e se desenvolveu de fato entre estudantes da universidade de Halle.

Mas o que Spener e Franck fizeram? Foram buscar nos anais da história entre os “pais do deserto” dos primeiros séculos a essência da espiritualidade, por que depois de quase 200 anos a igreja luterana estava morta e fria. O centro da Reforma Protestante do século 16 estava vivendo sua maior aridez. 

 

Paulo afirmava a Timóteo que ele estava seguindo o seu ensino, a sua conduta, o seu propósito, a sua fé, a sua paciência, o seu amor, a sua perseverança, e as suas perseguições e sofrimentos e mais, dizia a Timóteo que todos os que desejassem viver piedosamente em Cristo Jesus seriam perseguidos.


O exemplo do Pietismo deve ser levado em conta se pensamos em uma igreja que deve continuar a fazer sua missão. A exegese da palavra “Piedade” é “viver a vida de Deus em Cristo”. É viver como Cristo, é agir como Cristo, é orar como Cristo. Cristo é nosso modelo para tudo. Paulo revela-nos que Piedade tem a ver com estas virtudes. E consequentemente viver a vida de Deus como Cristo viveu trará por certo as duras consequências de uma vida assim. Precisamos voltar a viver assim e ensinar isso em nossas igrejas e comunidades. Não vamos viver do jeito dos pietistas, por que eles souberam viver naquela época. Precisamos aprender viver esta piedade dentro de nossa história e de nossa vida hoje.

Aqui também nos lembramos do Moravianismo, quando os que moravam na Morávia, pela intensidade da oração e da vida piedosa tornaram-se o modelo para as missões do século 18. Era a oração e sua intimidade com Deus que determinava os encontros de oração que duraram pelo menos 100 anos, e enquanto duravam estes 100 anos de oração, os morávios enviaram seus missionários para todo o mundo. Não dependia de eventos e programações, mas de uma vida piedosa marcada pelos encontros íntimos com Cristo, com o Espírito Santo e com a vida comum de todos ali.

2.   Precisamos urgentemente redescobrir a Vida Disciplinada = 3.14-17

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a infância sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela que há em Cristo Jesus. Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra”.

A pergunta que faço aqui é: “A nossa agenda determina nossa credenda”? De jeito nenhum. Mas é isso que está acontecendo. Vivemos nossa espiritualidade dependendo das demandas que temos para fazer.

Parece que quando os seguidores de John Wesley, os metodistas começaram a viver sua fé dentro da igreja anglicana, eles pensavam em uma fé disciplinada, pela oração e pela leitura das Escrituras. A vida de oração determinava a vida cotidiana.

Nosso Senhor em João 4.34 afirmava aos seus discípulos: “minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra”. Seu relacionamento com o Pai determinava o que ele deveria fazer. Sua intimidade com o Pai era o que determinava sua vida, sua oração e seu tempo. A oração como elemento da comunhão incessante revelava-lhe a vontade do Pai.

E de fato precisamos urgentemente re-ensinar e re-viver a vida disciplinada. Os exercícios espirituais, a hora de oração, a volta a intimidade.

Os metodistas souberam viver isso num ambiente onde naquela época a igreja institucional era apenas o “Bôbo da Corte” do reino inglês. Onde tudo era aceito e homologado sob as vistas do anglicanismo. Apesar de alguns homens sérios daquela época, o povo começou a ser influenciado pela necessidade de um retorno aos exercícios espirituais que faziam bem a alma e colocavam a alma torta do povo em posição reta diante de Deus.

Precisamos aprender a viver uma vida espiritual mais disciplinada. Não vamos viver o que os metodistas viveram naquela época. O contexto histórico deles nada tem a ver com nosso contexto. Precisamos sim aprender com os seus princípios. Precisamos ensinar nossos crentes a resgatarem a vida mais disciplinada, mais metódica, mais reorientada. Nossa agenda deve correr atrás de nossa credenda.

3.   Precisamos redescobrir urgentemente o Ensino Fiel  = 4.1-4

“Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas”.

A palavra de Deus sempre foi o centro e o manual para os primeiros Cristãos. Sem ela não podemos conhecer os atos de Deus na história, sem ela não podemos nos conduzir, ela é a razão de estarmos aqui hoje.

Porém não basta andarmos com a Bíblia na mão. Os heréticos também andam com a Bíblia na mão. Devemos ter o cuidado de tornar a Bíblia como a Palavra de Deus, interpretando-a e ensinando-a como Paulo conjurava a Timóteo.

O puritanismo observava a Bíblia como o centro da vida e não devemos fazer diferente. Ademais os seus pecados e algumas de suas interpretações equivocadas, nós devemos aprender a retirar os princípios do movimento e fazer que a Bíblia seja de fato a Palavra de Deus, a mensagem de Deus para nós hoje.

Não vamos voltar aos Puritanos, eles tiveram sua relevância e sua história. O que devemos fazer é buscar ensinar a Palavra de Deus a começar de Jesus, que é a ‘Viva Palavra’ de Deus. Nele corporalmente reside toda a mensagem da Palavra divina.

Por isso Paulo dizia que Timóteo deveria proclamar, admoestar, repreender, exortar, consolar e aconselhar. Por que haveria tempo que as pessoas não suportariam o ensino sadio da palavra de Deus e ajuntariam mestres para si mesmos dando ouvidos aos mitos e as fábulas.


A igreja precisa ser purificada pelo ensino correto da Palavra de Deus. Devemos pregar o evangelho da Graça de Jesus Nosso Senhor e não meramente regras e normas de boa conduta.

Concluindo,

O que estamos deixando para as gerações posteriores? O que estamos plantando no meio desta pluralidade de sementes que estão sendo semeadas nas vidas de nossas igrejas e famílias?

O grande desafio da igreja para nossos tempos confusos é voltarmos a fazer o que deve ser feito, dentro de nossos contextos, resgatando a Piedade na vida, a Palavra de Deus de modo fiel e a busca por uma vida mais disciplinada e reorientada.

Não podemos abrir mão destes fundamentos pois se o fizermos negaremos o próprio Cristo. Estes fundamentos foram os responsáveis para as Missões Modernas a partir do século 18. O grande século das Missões Protestantes se valeu de acontecimentos e movimentos na Europa e Estados Unidos para que o mundo recebesse o evangelho por meio das atividades missionárias naquela época.

E nós? Que estamos fazendo para promover a missão para os próximos anos? A partir de quais fundamentos ela será promovida? O que será que o Espírito Santo fará através de sua igreja? Será a partir de nosso racionalismo teológico? Será a partir de nossas condições econômicas? Será a partir do uso das tecnologias que estão ao nosso dispor? Será a partir da vida marcada pelos eventos e programas?

Sem duvida, tudo será e deverá ser usado por nós. Mas somente a vida piedosa, a oração, a vida disciplinada e a interpretação e ensino sadio da palavra de Deus poderão causar impactos na vida de tantos jovens e pessoas que no passado não ousaram entregar suas vidas para que o evangelho e a igreja fossem relevantes e impactantes nos séculos em que viveram nossos ancestrais.