TEXTO: 2ª Timóteo 3.8-4.4
Vivemos
tempos de crise sem limites, seja na política, na sociedade e também nas
igrejas. Há uma confusão teológica e na espiritualidade das pessoas. Na igreja
com toda a tecnologia a favor, muitos se tornaram “experts” em fazer as igrejas
crescerem. Nunca fomos tão pragmáticos como agora. O neopentecostalismo assusta
as igrejas históricas e todos chamam para si a “unção divina” como razão para
justificar seus planos missionáriosque se parecem mais com planos de mercado
corporativo.
Não
temos dúvidas que o Cristianismo é uma das três grandes religiões missionárias
do mundo, seguida pelo Islamismo e pelo Budismo. Porém a obra missionária
ocidental vive também uma crise, por que perdeu suas motivações mais relevantes
para fazer missão. Por exemplo, no final do século 20 havia uma enxurrada de
agências missionárias que davam por certo que a volta de Cristo era iminente
por que o século estava se findando. A partir de meados dos anos 80 até o raiar
do ano 2000 não se falava em outra coisa senão em “Batalha Espiritual”, “Demônios
territoriais” e “Avivamento”. Hoje não ouvimos mais estes temas. Alguma coisa
aconteceu.
Estamos
vivendo o século do Consumismo sem limites. Até mesmo na religião. Assim como
nós vamos ao mercado para consumir os produtos que ali estão assim fazemos com
a fé e com nossa vida religiosa. Nunca apareceram tantas obras escritas sobre
fé, auto-ajuda espiritual, vida vitoriosa e prosperidade, como agora. Vivemos
sim meus irmãos um tempo de pluralidade religiosa misturada com o ensino de
prosperidade. “Por que a vida tem que dar certo”.
Para
somar a esta confusão, somos não somos mais do que produtos nas igrejas-evento.
Me lembro muito bem quando cursava o Mestrado em Teologia, que no meio de sua
aula, trabalhando sobre a disciplina de Métodos e Estratégias Missionárias, o
Dr. Antonio José do Nascimento Filho usou de uma frase magistral para definir o
momento que a igreja brasileira estava passando. Ele afirmava: “A igreja nasceu
como um fato na Palestina, foi para a Grécia e tornou-se uma idéia, veio para a
Europa e Estados Unidos e tornou-se um
empreendimento e depois aportou no Brasil e tornou-se em um evento”. Nada na
igreja brasileira se consegue senão por meio de eventos. São eventos para
adorar a Deus, são eventos para evangelizar, são eventos para orar. Perdemos a
noção do comum, da vida comum, da comunidade, do cotidiano e não mais vivemos
como cristãos normais em nossa vida comum e simples. Hoje para o Espírito Santo
agir temos que nos envolver em algum programa-evento.
Precisamos
voltar os olhos para a Palavra de Deus, não apenas para a Escritura. Precisamos
redescobrir a Palavra de Deus a partir da Escritura, pois os movimentos que aí
estão, usam a Bíblia, interpretam a Bíblia, contudo não conseguem extrair dela
e fazer dela a verdadeira palavra de Deus e assim abafam a mensagem do
evangelho, da graça, do perdão, da restauração e da verdadeira vida em Cristo.
O
que nos ajuda no meio de toda esta confusão é olhar para a história. A história
nos ensina e nos ajuda a não repetir os mesmos erros que foram cometidos no passado,
e retirarmos princípios para vivermos nosso presente. Não devemos e nem vamos
repetir a história passada, mas vamos aprender com o Deus que se revela na
história.
Precisamos de novo redescobrir a
Escritura como Palavra de Deus na vida das pessoas e no meio deste caos urbano.
O
século 18 foi o grande século da obra missionária europeia. Não vamos aqui
comentar todas as razões que motivaram as missões naquela época. Mas houve
entre o século 17 e século 18 alguns movimentos religiosos que chamamos de
“propulsores” para o grande século das missões. Quem trabalha muito bem este
assunto é o Dr. Paulo Pierson, ex-diretor de nosso seminário que vive hoje nos
Estados Unidos.
Para
que William Carey aparecesse como o Pai das Missões Modernas, pelo menos 4
movimentos anteriores prepararam o grande século missionário. O Puritanismo na
Inglaterra e Estados Unidos, O Pietismo na Alemanha, o Moravianismo na Boêmia e
o Metodismo também na Inglaterra. Todos eles lançaram as bases para a ação das
Missões Modernas a partir de William Carey.
E
aí está o ponto onde queremos chegar: O que estamos fazendo hoje irá reverberar
nos anos posteriores.
Gostaria
de correlacionar algumas ênfases do apóstolo Paulo ao seu discípulo e pastor
Timóteo com os princípios destes movimentos para que pudéssemos sorver o que
Deus, em minha concepção, está desejoso que sua igreja hoje possa fazer para
continuar a preparar pessoas para o Reino que há de vir.
Olhando
para os versículos que lemos, precisamos redescobrir 4 áreas da vida que estão
marcadas pelas ênfases de Paulo a Timóteo.
1. Precisamos urgentemente redescobrir
a Vida Piedosa (3.10-12).
“Tu, porém,
tens observado a minha doutrina, procedimento, intenção, fé, longanimidade,
amor, perseverança, as minhas perseguições e aflições, quais as que sofri em
Antioquia, em Icônio, em Listra; quantas perseguições suportei! e de todas o
Senhor me livrou. E na verdade todos os
que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições”.
A piedade sempre foi o ponto marcante dos
cristãos dos primeiros séculos. O evangelho de nosso Senhor vivido por ele e
ensinado pelos apóstolos e pais apostólicos nos mostra que não podemos nem
ensinar e nem viver sem esta essência da vida espiritual.
Piedade envolve a oração e oração
incessante, a prática das boas obras de modo despretensioso e uma vida que
busca ser parecida com Nosso Senhor.
A Vida de oração e a prática desta piedade
era a vida do Pietismo. Esse movimento que enfatizava a oração e a prática das boas
obras surgiu com o pastor Phillip Jabob Spener e o professor August Franck e se desenvolveu de
fato entre estudantes da universidade de Halle.
Mas o que Spener e Franck fizeram? Foram buscar
nos anais da história entre os “pais do deserto” dos primeiros séculos a
essência da espiritualidade, por que depois de quase 200 anos a igreja luterana
estava morta e fria. O centro da Reforma Protestante do século 16 estava
vivendo sua maior aridez.
Paulo
afirmava a Timóteo que ele estava seguindo o seu ensino, a sua conduta, o seu propósito, a sua fé, a
sua paciência, o seu amor, a sua perseverança, e as suas perseguições e
sofrimentos e mais, dizia a Timóteo que todos os que desejassem viver piedosamente
em Cristo Jesus seriam perseguidos.
O exemplo do Pietismo
deve ser levado em conta se pensamos em uma igreja que deve continuar a fazer
sua missão. A exegese da palavra “Piedade” é “viver a vida de Deus em Cristo”.
É viver como Cristo, é agir como Cristo, é orar como Cristo. Cristo é nosso
modelo para tudo. Paulo revela-nos que Piedade tem a ver com estas virtudes. E
consequentemente viver a vida de Deus como Cristo viveu trará por certo as
duras consequências de uma vida assim. Precisamos voltar a viver assim e
ensinar isso em nossas igrejas e comunidades. Não vamos viver do jeito dos
pietistas, por que eles souberam viver naquela época. Precisamos aprender viver
esta piedade dentro de nossa história e de nossa vida hoje.
Aqui também nos lembramos
do Moravianismo, quando os que moravam na Morávia, pela intensidade da oração e
da vida piedosa tornaram-se o modelo para as missões do século 18. Era a oração
e sua intimidade com Deus que determinava os encontros de oração que duraram pelo
menos 100 anos, e enquanto duravam estes 100 anos de oração, os morávios
enviaram seus missionários para todo o mundo. Não dependia de eventos e
programações, mas de uma vida piedosa marcada pelos encontros íntimos com
Cristo, com o Espírito Santo e com a vida comum de todos ali.
2. Precisamos urgentemente
redescobrir a Vida Disciplinada = 3.14-17
“Tu, porém,
permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o
tens aprendido, e que desde a infância sabes as sagradas letras, que podem
fazer-te sábio para a salvação, pela que há em Cristo Jesus. Toda Escritura é
divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para
corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e
perfeitamente preparado para toda boa obra”.
A pergunta que
faço aqui é: “A nossa agenda determina nossa credenda”? De jeito
nenhum. Mas é isso que está acontecendo. Vivemos nossa espiritualidade dependendo
das demandas que temos para fazer.
Parece que quando os seguidores de John
Wesley, os metodistas começaram a viver sua fé dentro da igreja anglicana, eles
pensavam em uma fé disciplinada, pela oração e pela leitura das Escrituras. A
vida de oração determinava a vida cotidiana.
Nosso Senhor em João 4.34 afirmava aos seus
discípulos: “minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a
sua obra”. Seu relacionamento com o Pai determinava o que ele deveria fazer.
Sua intimidade com o Pai era o que determinava sua vida, sua oração e seu
tempo. A oração como elemento da comunhão incessante revelava-lhe a vontade do
Pai.
E de fato precisamos urgentemente
re-ensinar e re-viver a vida disciplinada. Os exercícios espirituais, a hora de
oração, a volta a intimidade.
Os metodistas souberam viver isso num
ambiente onde naquela época a igreja institucional era apenas o “Bôbo da Corte” do reino inglês. Onde
tudo era aceito e homologado sob as vistas do anglicanismo. Apesar de alguns
homens sérios daquela época, o povo começou a ser influenciado pela necessidade
de um retorno aos exercícios espirituais que faziam bem a alma e colocavam a
alma torta do povo em posição reta diante de Deus.
Precisamos aprender a viver uma vida
espiritual mais disciplinada. Não vamos viver o que os metodistas viveram
naquela época. O contexto histórico deles nada tem a ver com nosso contexto.
Precisamos sim aprender com os seus princípios. Precisamos ensinar nossos
crentes a resgatarem a vida mais disciplinada, mais metódica, mais reorientada.
Nossa agenda deve correr atrás de nossa credenda.
3. Precisamos redescobrir
urgentemente o Ensino Fiel = 4.1-4
“Conjuro-te
diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela
sua vinda e pelo seu reino; prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo,
admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo
em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas
agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não
só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas”.
A
palavra de Deus sempre foi o centro e o manual para os primeiros Cristãos. Sem
ela não podemos conhecer os atos de Deus na história, sem ela não podemos nos
conduzir, ela é a razão de estarmos aqui hoje.
Porém
não basta andarmos com a Bíblia na mão. Os heréticos também andam com a Bíblia
na mão. Devemos ter o cuidado de tornar a Bíblia como a Palavra de Deus,
interpretando-a e ensinando-a como Paulo conjurava a Timóteo.
O
puritanismo observava a Bíblia como o centro da vida e não devemos fazer diferente.
Ademais os seus pecados e algumas de suas interpretações equivocadas, nós
devemos aprender a retirar os princípios do movimento e fazer que a Bíblia seja
de fato a Palavra de Deus, a mensagem de Deus para nós hoje.
Não
vamos voltar aos Puritanos, eles tiveram sua relevância e sua história. O que
devemos fazer é buscar ensinar a Palavra de Deus a começar de Jesus, que é a ‘Viva
Palavra’ de Deus. Nele corporalmente reside toda a mensagem da Palavra divina.
Por
isso Paulo dizia que Timóteo deveria proclamar, admoestar, repreender, exortar,
consolar e aconselhar. Por que haveria tempo que as pessoas não suportariam o
ensino sadio da palavra de Deus e ajuntariam mestres para si mesmos dando
ouvidos aos mitos e as fábulas.
A
igreja precisa ser purificada pelo ensino correto da Palavra de Deus. Devemos
pregar o evangelho da Graça de Jesus Nosso Senhor e não meramente regras e
normas de boa conduta.
Concluindo,
O
que estamos deixando para as gerações posteriores? O que estamos plantando no
meio desta pluralidade de sementes que estão sendo semeadas nas vidas de nossas
igrejas e famílias?
O
grande desafio da igreja para nossos tempos confusos é voltarmos a fazer o que deve
ser feito, dentro de nossos contextos, resgatando a Piedade na vida, a Palavra
de Deus de modo fiel e a busca por uma vida mais disciplinada e reorientada.
Não
podemos abrir mão destes fundamentos pois se o fizermos negaremos o próprio
Cristo. Estes fundamentos foram os responsáveis para as Missões Modernas a partir
do século 18. O grande século das Missões Protestantes se valeu de acontecimentos
e movimentos na Europa e Estados Unidos para que o mundo recebesse o evangelho
por meio das atividades missionárias naquela época.
E
nós? Que estamos fazendo para promover a missão para os próximos anos? A partir
de quais fundamentos ela será promovida? O que será que o Espírito Santo fará
através de sua igreja? Será a partir de nosso racionalismo teológico? Será a
partir de nossas condições econômicas? Será a partir do uso das tecnologias que
estão ao nosso dispor? Será a partir da vida marcada pelos eventos e programas?
Sem
duvida, tudo será e deverá ser usado por nós. Mas somente a vida piedosa, a
oração, a vida disciplinada e a interpretação e ensino sadio da palavra de Deus
poderão causar impactos na vida de tantos jovens e pessoas que no passado não
ousaram entregar suas vidas para que o evangelho e a igreja fossem relevantes e
impactantes nos séculos em que viveram nossos ancestrais.